Nietzsche e Wagner em BAYREUTH / Vida de Friedrich Nietzsche – Daniel Halevy / 4
VIDA DE FREDERICO NIETZSCHE
Autor: Daniel Halévy
Tradutor: Jerônimo Monteiro
Extraído da edição da Editora Assunção ltda.
Coleção Perfis Literários
O livro foi dividido em 7 páginas
| Cap. 1 – OS ANOS DE INFÂNCIA | Cap. 2 – OS ANOS DA JUVENTUDE |
| Cap. 3 – FREDERICO NIETZSCHE E RICHARD WAGNER — TRIEBSCHEN | Cap. 4 – FREDERICO NIETZSCHE E RICHARD WAGNER — BAYREUTH |
| Cap. 5 – CRISE E CONVALESCENÇA | Cap. 6 – O TRABALHO DO "ZARATUSTRA" |
| Cap. 7 – A ÚLTIMA SOLIDÃO |
IV
FREDERICO NIETZSCHE E RICHARD WAGNER
BAYREUTH
Estranho é o destino de Bayreuth. Esta pequena cidade alemã, por largo tempo ignorada, começa a brilhar no século XVIII, até fazer-se célebre em toda a Europa; uma inteligente margravina, irmã de Frederico, o Grande, amiga de Voltaire e da elegância francesa, ai mora e embeleza a cidade, alegrando seus desertos arredores com vivendas em cujas fachadas aplica as singulares curvas do "rococó". A margravina morre, e Bayreuth recai no olvido. Assim passa um século, até que, de repente, a glória volta à pequena cidade convertendo-a na Jerusalém de uma arte e de um culto novos. Destino curioso, mas fictício, cujas antíteses foram ordenadas por um poeta. A história de Bayreuth deve se contar entre as obras de Wagner.
Este queria instalar o seu teatro num lugar silencioso e retirado. Convinha-lhe não ir ao encontro dos seus ouvintes, mas obrigá-los, ao contrário, a ir até ele. Entre muitos outros, escolheu este lugar; assim, se defrontariam as duas Alemanhas: a do passado, afrancesada e mesquinha; e a outra, a sua, a do futuro, emancipada e inovadora. Os trabalhos se iniciaram sem demora, e o compositor determinou que a primeira pedra do seu teatro fosse solenemente colocada em 22 de maio de 1872 — aniversário do seu nascimento.
"Voltaremos a vernos! — escreve Nietzsche ao seu amigo Rohde. — Não é verdade que os nossos encontros são cada vez mais grandiosos e mais históricos?"
Tendo vindo um de Basiléia e outro de Hamburgo, assistiram juntos à cerimônia. Duas mil pessoas se haviam reunido na pequena cidade. O tempo estava péssimo, mas a constante chuva e o céu ameaçador deram à cerimônia ainda maior grandiosidade. A arte de Wagner é grave e não precisa do sorriso do céu. Os seus admiradores, ao ar livre, sob a borrasca, colocaram a primeira pedra. No bloco perfurado, Wagner colocou uma composição em verso, escrita por ele mesmo, e imediatamente aplicou a primeira pá de cimento. À tarde, Ofereceu aos seus_ amigos a execução da Sinfonia, com coros e cuja orquestração ele reforçara em algumas passagens. Ele mesmo dirigiu a orquestra. A jovem Alemanha, reunida no teatro da Margravina, ouviu devotadamente esta obra à qual o século XIX deu o seu "Credo", e, quando o coro final cantou: "Milhões de homens, abraçai-vos!" — parecia realmente, disse um dos espectadores, que o milagre se realizava.
Ah, meu amigo! — escreveu Nietzsche. — Que dias vivemos! Ninguém nos poderá tirar estas santas e graves recordações, Devemos avançar na vida inspiradas por elas e por elas lutando. Antes de mais nada devemos esforçar-nos em regalar todos os nossos atos com a possível força e seriedade, a fim de provar que somos dignos dos excepcionais acontecimentos em que nos achamos envolvidos.
Nietzsche queria lutar por Wagner, porque amava Wagner e gostava de lutar. "Ao canhão! ao canhão! — escreve a Rohde. — Tenho necessidade de guerra, ich brauche den Krieg." Mas ele já verificara em numerosas ocasiões, e tristemente começava a compreendê-lo, que seu temperamento não se acomodava bem às reticências e prudências necessárias em um combate em que está em jogo a opinião pública. Em cada momento, as palavras ou os gestos se chocavam com o seu idealismo radical.
Sentiu novamente aquele dissabor instintivo que já experimentara em Triebschen; Wagner inquietava-o. Apenas conseguia reconhecer o herói grave e puro que tanto amara; via outro homem: um poderoso trabalhador, brutal, vingativo e ciumento. Nietzsche havia pensado em dar um passeio pela Itália com um parente de Mendelssohn, mas teve que renunciar a este projeto para satisfazer o mestre, que odiava a raça e até o nome dos Mendelssohn.
"Por que será Wagner desconfiado? — escrevia Nietzsche em suas notas. — Isto excita a desconfiança." E Wagner era tão autoritário como desconfiado. Eram raros, agora, os dias em que conversava a gosto com nobreza e liberdade, como em Triebschen. Falava com brevidade, ordenava. Nietzsche oferecia-se constantemente para partir para a Alemanha do norte, para falar, escrever, fundar os "Vereine" que pudesse e "fazer os sábios alemães meter o nariz nas coisas que seus olhos tímidos não conseguiam ver". Wagner não aceitava estas ofertas, empenhando-se, em troca, para que Nietzsche publicasse as suas conferências "Sobre o futuro de nossas instituições culturais". Nietzsche, porém, resistia em satisfazer um desejo no qual ele adivinhava certo egoísmo.
"Este senhor Nietzsche não faz senão o que lhe dá na cabeça!" — exclamava Wagner, irritado, enquanto fazia seu amigo sofrer esta cólera e a dupla humilhação que significava para ele e seu mestre. "Não tenho direito de ser respeitado — pensava — estando, como estou atormentado pela doença e pelo trabalho? Estarei, acaso, sob as ordens de alguém? Por que é Wagner tão tirânico?" E em suas notas escreve: "Wagner é incapaz de fazer grandes e livres os homens que o rodeiam; não está seguro de si próprio; ao contrário, é altaneiro e receoso."
Por aquele tempo apareceu um folheto: A Filologia do Futuro, replica a F. Nietzsche. O autor era Wilamowitz, que fora condiscípulo de Nietzsche na escola de Pforta. "Querido amigo — escreve este a Gersdorff, que lhe anunciara o folheto — não se preocupe comigo: estou alerta. Jamais entabularei uma polêmica. É pena que seja Wilamowitz. Sabe que no outono passado ele me fez uma visita de amigo?… Por que havia de ser precisamente Wilamowitz?"
Ferido pelo próprio título da obra, A Filologia do Futuro, que parodiava sua famosa fórmula A Música do futuro, Wagner escreveu uma réplica e aproveitou a oportunidade para reiterar a Nietzsche sua constante solicitude. "Que se deve pensar de nossas instituições culturais? — concluía. — É ao senhor que compete nos dizer o que deve ser a cultura alemã para conduzir a nação regenerada aos seus mais nobres destinos." Ainda nesta circunstância, Nietzsche permaneceu firme em sua resolução. Estava pouco satisfeito com as suas conferências, descontente com sua forma e incerto sobre sua própria idéia. "Não quero publicar nada — escreve — acerca do qual não tenha a consciência pura como a de um anjo" e tratou de exprimir de outra maneira sua fé wagneriana.
Muito me agradaria — escreve ele a Rohde — escrever alguma coisa em favor de nossa causa, mas não sei o quê. Tudo o que penso é tão ferino e irritante que, longe de servir, prejudicaria. Qual será o motivo de ter sido o meu livro, tão ingênuo e entusiasta, tão mal recebido? Que estranhos são os homens! E agora? Que faremos? Exclamação e interrogação.
E começou a escrever as "palavras de quem espera", Reden eines Hoffenden, que não tardou em deixar de lado.
Frederico Nietzsche voltou a seus livros gregos, sempre belos e consoladores. Ante um escasso número de alunos pois o mau renome da "Geburt" afastava dele os jovens filólogos, explicou as Coeforas de Esquilo e alguns textos de filosofia anteriores a Platão. Através de vinte e cinco séculos uma luz admirável desceu sobre ele, dissipando as dúvidas e as sombras. Ouvia freqüentemente com mau estar as palavras grandiloqüentes que seus amigos wagnerianos empregavam com tão boa vontade. "Milhões de homens, abraçai-vos!", cantavam em Bayreuth os coros ensinados por Wagner. Cantavam bem, é certo, mas os homens não queriam se abraçar, e Nietzsche suspeitava que havia em tudo isso certa pompa e engano. Em troca, os antigos gregos, ambiciosos e maus, se abraçam muito poucas vezes e seus hinos jamais falam destes abraços. A inveja e o desejo de dominar devoram-nos; seus hinos exaltam essas paixões; Nietzsche admira sua energia ingênua e suas palavras exatas. Volta a beber nesta fonte refrescante e escreve um curto ensaio, Homer´s Wettkampf (A Disputa Homérica). Desde as primeiras linhas vemos que estamos muito longe, do misticismo wagneriano:
Quando se fala de humanidade, pensa-se numa ordem de sentimentos pelos quais o homem se distingue da natureza e separa-se dela. Esta separação, porém, não existe. As qualidades chamadas "faturais" e as chamadas "humanas", crescem juntas e misturadas. O homem, até nas suas mais nobres aspirações, continua marcado pela sinistra natureza.
Estas temíveis tendências que até nos parecem inumanas, são, talvez, o solo fecundo que sustem a toda a humanidade com suas inquietações, seus atos e suas obras.
E assim é que os gregos, os homens mais humanos que existiram jamais, permanecem cruéis e felizes na destruição.
Este breve ensaio foi a ocupação de Nietzsche durante vários dias, até que iniciou um grande trabalho. Estudou os textos de Tales, Pitágoras, Heráclito e Empédocles; procurou aproximar-se desses filósofos, realmente dignos deste nome por eles inventado, mestres da vida, desdenhosos de disputas e de livros, cidadãos e pensadores ao mesmo tempo e não desadaptados como os que os seguiram — Sócrates e sua irônica descendência e Platão e sua descendência sonhadora; — filósofos que se atrevem a usar cada um a sua filosofia, quer dizer, um ponto de vista na consideração das coisas e na deliberação dos atos. Em poucos dias encheu de notas um grande caderno.
Isto não o impediu, entretanto, de prestar a devida atenção aos êxitos do seu glorioso amigo. Em julho representava-se Tristão, em Munich; foi ali que se encontrou com outros fiéis, entre eles Gersdorff e a senhorita Meysenbug, a quem conhecera nas festas de maio em Bayreuth. Apesar de seus cinqüenta anos, a senhorita Meysenbug conservava aquele encanto de ternura que não a abandonou nunca, e a graça física de um corpo delgado e nervoso. Nietzsche passou com ela e seu amigo alguns agradáveis dias. Os três se sentiram penalizados quando chegou o momento da separação, e, em vez de dizerem adeus, quiseram dar-se uma esperança mútua de próximo encontro. Gersdorff desejava regressar em agosto, para ouvir novamente Tristão. Nietzsche prometeu que também iria, mas, no último instante, Gersdorff não pôde ir e Nietzsche não teve ânimo para voltar só a Munich. "É insuportável — escreveu ele à senhorita de Meysenbug — encontrar-se só e frente a frente com uma arte tão séria e profunda. Fico em Basiléia." O estudo e meditação de Parmênides consolou-o de perder a audição de Tristão.
A senhorita de Meysenbug manteve-o ao corrente dos sucessos da campanha Wagneriana. O mestre acabava de terminar o Crepúsculo, dos Deuses, último dos quatro dramas da Tetralogia, concluindo assim, afinal, a sua grande obra. A senhorita de Meysenbug soubera-o por uma carta de Cosima Wagner. "Ouço cantar em meu coração: Louvado seja Deus!" —escrevera a esposa. "Louvado seja Deus", repete a senhorita de Meysenbug, e acrescenta (e estas palavras dão o tom da hora e do ambiente): "Os fiéis do novo espírito têm necessidade de novos mistérios para solenizar, reunidos, seu conhecimento instintivo: Wagner cria-os em suas obras trágicas, e o mundo não recobrará sua beleza enquanto nós não tivermos construído um Templo digno do novo mito dionisíaco…"
Sua amiga conta-lhe também tudo o que está fazendo para trazer à causa wagneriana Margarida de Saboya, rainha da Itália e para fazer com que ela aceite a presidência de um restrito círculo de nobres protetoras: algumas damas da mais alta aristocracia, amigas de Lizst, e por ele iniciadas no culto wagneriano, compunham aquele sublime "Verein". De tudo isto escapa um incômodo tom de esnobismo e de religião. A senhorita de Meysenbug, porém, era uma mulher esquisita, de inatacáveis intenções, pura, dessa pureza que purifica tudo quanto toca. Nietzsche não exercia sua crítica sobre as cartas desta amiga.
Não demorou, Nietzsche começou a sentir o cansaço de uni trabalho prolongado demais. Perdeu o sono, e viu-se obrigado a descansar. Como as viagens o haviam aliviado com freqüência, pelo fim do verão partiu em direção à Itália. Chegou até Bergamo, mas não passou daí. Aquele país, ao qual tanto amou mais tarde, desagradou-lhe. "Aqui reina o apolíneo — dizia-lhe a senhorita de Meysenbug, instalada em Florença — é bom banhar-se nele…" Nietzsche era fracamente apolíneo. Só percebeu voluptuosidade,. excessiva doçura e harmonia de linhas. Seus gostos de alemão ficaram desconcertados e regressou para a montanha, onde se sentia, segundo escreveu: "maior e mais audaz". Ali, na hospedaria de uma paupérrima vila, Splügen, passou alguns dias de felicidade.
Aqui, no extremo limite da Suíça e Itália — escreve em agosto de 1872 a Gersdorff — estabeleci meu retiro, e a verdade é que estou muitíssimo satisfeito com minha escolha. Uma rica, maravilhosa solidão, e os mais admiráveis caminhos do mundo, pelos quais passeio meditando horas e horas, mergulhado nos meus pensamentos e sem cair, não obstante, em nenhum precipício. E de cada vez que olho em torno de mim, encontro algo novo e grande para ver. Os homens não passam por aqui senão nas horas da diligência. Faço as refeições com eles, e esse é o nosso único contado. Passam diante do meu tugúrio como as sombras platônicas.
Até então, Nietzsche não gostava das altas montanhas. Preferia os vales médios e arborizados do Jura, que lhe recordavam a paisagem do seu país natal e as colinas da Saale e da Boêmia. Em Splügen teve a revelação de uma alegria nova: a alegria da solidão e da meditação solitária na diáfana atmosfera das alturas. Isto não durou senão um relâmpago. Desceu à planície e esqueceu. Seis anos mais tarde, porém, só já para sempre, e sabendo disso, refugiado em pobres hospedarias semelhantes àquela de Splügen, Nietzsche voltou a experimentar os mesmos sentimentos líricos que descobrira em outubro de 1872.
Depressa abandonou seu asilo e voltou sem tédio a Basiléia, onde o chamavam os deveres profissionais. Ali criara amizades e costumes. Gostava da cidade e suportava as pessoas; realmente, Basiléia se havia tornado o seu lar definitivo.
Meus amigos de mesa, de casa e de idéias, Overbeck e Romundt — escrevia ele a Rohde — são a melhor companhia do mundo. Pelo que se refere a isto, me abstenho de lamentações e rangidos de dentes. Overbeck é o mais sério e mais livre dos sábios, e o mais simplesmente amável dos homens. Possui aquele espírito radical sem o qual não posso me pôr de acordo com ninguém.
Sua primeira impressão, ao regressar a Basiléia, foi penosa. Seus alunos abandonaram-no, e Nietzsche não teve dificuldade em compreender a razão desse abandono: os filólogos alemães haviam-no declarado "um homem cientificamente morto". Haviam condenado sua pessoa e interditado seu curso.
A Santa Vehmgericht (*) cumpriu bem o seu dever — escreve ele a Rohde. — Façamos como se nada houvesse sucedido. Mas que a pequena Universidade se prejudique por minha causa é coisa que me dá pena. Perdemos vinte alunos inscritos nó último semestre. Mal e mal posso fazer um curso sobre a retórica grega e romana: tenho dois alunos, um, germanista e o outro, jurista.
Afinal, teve um consolo: Rohde havia escrito em defesa do seu livro um artigo que revista alguma queria publicar. Cansado das constantes negativas, refundiu seu estudo e editou-o sob a forma de carta dirigida a Richard Wagner. Nietzsche agradeceu-lhe isto, e escreveu:
Ninguém se atrevia a publicar o meu nome, como se eu tivesse cometido um crime… e agora, o seu livro, tão valoroso e fervoroso testemunho do nosso fraternal combatei Meus amigos sentem-se transportados de júbilo; não se cansam de louvá-lo pelos detalhes e pelo
jeito de sua polêmica, que classificam "lessingiana". .. O que mais me agrada é esse rumor profundo e ameaçador* como de uma poderosa cascata… Sejamos fortes, querido, queridíssimo amigo! Eu sempre tenho fé no progresso, em nosso progresso, creio que cresceremos sempre em leais ambições e em força; creio no êxito de nossa marcha para um destino cada vez mais nobre e distante. Sim. Alcançá-lo-emos, e, logo, vencedores, descobrindo metas mais distantes, nos lançaremos à sua conquista, sempre fortes! Que nos importa que sejam pouco numerosos, tão pouco numerosos os espectadores cujos olhos podem seguir a nossa carreira? Que importa, se temos por espectadores aqueles cujas qualidades os fazem ser os únicos capazes de julgar o combate? Todas as glórias que minha época possa dar, sacrificá-las, no que me respeita, por um único espectador: Wagner.
A ambição de satisfazê-lo me anima mais e mais nobremente do que qualquer outro poder, pois Wagner é difícil e diz tudo o que lhe agrada e o que não lhe agrada, e é para mim como uma boa consciência, que premia e castiga.
(*) Tribunal secreto que funcionava na Idade Média.
Nos primeiros dias de dezembro Nietzsche teve a sorte de. encontrar seu mestre e, durante algumas horas, viver com ele intimamente, o que lhe fez recordar os dias de Triebschen. Wagner avisou-o que passaria por Estrasburgo, e Nietzsche correu a encontrá-lo. O encontro não foi perturbado por desacordo algum e essa harmonia era, decerto, bastante rara, pois que Cosima Wagner, depois de fazê-lo notar em uma de suas cartas, exprime sua esperança de que horas tão perfeitas como aquelas sejam bastante para dissipar e prevenir todas as dissenções.
Nietzsche trabalhou muito naqueles últimos meses de 1872. Seus estudos sobre os filósofos da Grécia clássica estavam muito adiantados, mas ele interrompeu-os. Esses sábios haviam tornado a dar-lhe serenidade e aproveitou a força que encontrara neles para considerar novamente os problemas do seu século, ou melhor, o problema — já que ele só conhece um. Interroga a si mesmo: como fundar uma cultura, quer dizer, um conjunto de tradições, regras e crenças, capaz de enobrecer o homem que a ela se submetesse? As sociedades modernas têm como fim produzir uma certa comodidade; como fazer para substituí-las por sociedades que não satisfaçam o homem, mas elevem-no?
Reconheçamos nossa miséria: achamo-nos desprovidos de cultura. Nossos pensamentos e atos não se regem por autoridade de nenhuma espécie; a própria idéia de semelhante autoridade parece perdida para nós. Aperfeiçoamos de maneira, extraordinária as disciplinas do saber, e parecemos ter esquecido que existem outras. Acertamos ao descrever os fenômenos da vida e ao traduzir para uma linguagem abstrata o universo, e apenas nos apercebemos de que, escrevendo e traduzindo assim, perdemos a realidade do universo e da vida. A ciência exerce sobre nós uma "ação barbarizante" — escreve Nietzsche — e analisa essa ação:
O essencial de toda a ciência tornou-se acessório, ou falta completamente.
O estudo dos idiomas — sem a doutrina do estilo e da retórica.
Os estudos indígenas — sem a filosofia.
A antigüidade clássica — sem que se suspeite .como tudo, nela, está ligado aos esforços práticos.
As ciências naturais — sem aquela ação benfazeja e tranqüilizadora que Goethe encontrava nelas.
A história — sem entusiasmo, .
Enfim, todas as ciências sem sua aplicação prática, quer dizer, estudadas como o fariam homens verdadeiramente cultos. A ciência como meio de vida, ou ganha-pão.
É necessário, pois, reavivar o sentido da beleza, da virtude, e das paixões fortes e ordenadas. Como poderá um filósofo se empregar em semelhante tarefa? Ah! a experiência da antigüidade nos instrui e desanima. O filósofo é um ser híbrido, metade lógico e metade artista; um poeta e um apóstolo, que constrói logicamente seus sonhos e seus mandamentos. Os homens escutam voluntariamente os poetas e os apóstolos, mas não ouvem os filósofos nem se detêm comovidos por suas análises e deduções. Pensemos naquele grupo de gênios, os filósofos da Grécia trágica: que conseguiram eles realizar? Suas vidas foram inúteis para a raça. Somente Empédocles comoveu as multidões, mas porque era mago e filósofo; inventou mitos e poemas, foi eloqüente e formoso, e quem agiu foi a sua lenda e não o seu pensamento. Pitágoras fundou uma seita: um filósofo não pode esperar mais que isso. Sua obra reúne uns tantos amigos, uns tantos fiéis que passam sobre a massa humana como uma onda sobre o oceano. "Nenhum dos grandes filósofos arrastou o povo consigo — escreve Nietzsche. — Onde fracassaram? Quem triunfará? É impossível fundar uma cultura popular sobre a filosofia."
Qual é, pois, o destino dessas almas singulares? Sua força, com freqüência imensa, perde-se. Será o filósofo sempre um ser paradoxal e inútil para os homens? Frederico Nietzsche, inquieta-se; realmente, ele está examinando a utilidade de sua própria vida. Sabe, por fim, que jamais será um compositor tampouco poderá ser poeta; carece da faculdade de conceber os entrechos, de animar um drama, de criar uniu alma. Uma noite ele faz essa confissão a Overbeck, com tristeza que comove seu amigo. É, pois, por outra parte, um filósofo, muito ignorante; um amador da filosofia; um lírico que não chega a ser artista. E pergunta a si mesmo: Que posso fazer, se não tenho, por arma de combate senão meus pensamentos de filósofo? E responde: Posso ajudar. Sócrates não criava as verdades que o erro mantinha prisioneiras nas almas dos seus interlocutores; o único título que pretendia era o de "parteiro". Tal é a tarefa do filósofo, criador ineficaz, mas crítico eficacíssimo, que deve analisar as forças que se exercem em torno de si, na ciência, na religião, na arte, e deve dar a orientação e fixar os valores e os limites. Tal será a minha tarefa. Estudarei as almas dos meus contemporâneos e terei toda a autoridade para lhes dizer: nem a ciência, nem a religião podem salvá-los. Recorram à arte, poder dos novos tempos, e ao artista, que é Richard Wagner.
"O filósofo do futuro? — escreve. — É preciso que ele seja juiz supremo de uma cultura estética, e censor de todo o extravio."
Nietzsche foi passar o Natal em Naumburg. Recebeu ali umas linhas de Wagner, que lhe pedia que no regresso a Basiléia se detivesse em Bayreuth. Nietzsche estava, porém, sobrecarregado de trabalho, um pouco enfermo, talvez, e sem dúvida um seguro instinto o advertia de que a solidão convinha mais à meditação dos problemas que só ele podia resolver. Escusou-se, pois. Por outro lado, naquelas últimas semanas havia tido numerosas ocasiões de provar sua adesão ao mestre. Escrevera um artigo (o único de toda a sua obra) em resposta a um alienista que se propusera demonstrar que Wagner era louco. Oferecera, também, uma soma em dinheiro para ajudar a propaganda. Esta forma anônima e afastada de trabalhar era a única que lhe convinha então. Nu própria Basiléia tratava de fundar um "Verein" wagneriano, Assim, ficou muito surpreendido ao saber que o mestre eslava pouco satisfeito com a sua ausência. Já no ano anterior, uni convite igualmente declinado lhe valera uma ligeira reprimenda:
"É Burckhardt quem o retém em Basiléia" – escrevera-lhe Cosima Wagner.
Nietzsche escreveu explicando as coisas, mas aquela impressão persistiu.
Tudo se acalmou — respondeu ao amigo que o prevenira;
— não posso, porém, esquecei- completamente. Wagner sabe que estou doente, absorvido pelo trabalho, e que preciso de um pouco de liberdade... Daqui para diante, queira ou não queira, estarei ainda mais inquieto que no passado… Deus sabe quantas vezes já o feri! Não obstante, de cada vez fiquei mais surpreendido, sem conseguir nunca compreender perfeitamente qual é o ponto do desacordo.
Este penoso incidente não afetou o seu pensamento. Podemos segui-lo até nos detalhes, graças às notas publicadas no décimo tomo de suas obras completas. Está perfeitamente ativo e fecundo. "Eu sou o aventureiro do espírito — escreve mais tarde — vago pelo meu pensamento e vou até à idéia que me chama." Jamais andou tão audazmente como durante essas primeiras semanas de 1873. Termina um belo e sóbrio ensaio, Ueber Wahrheit und Lüge im aussermoralischen Sinne {Sobre a verdade e a mentira no sentido extra-moral. É pena que seja preciso traduzir estas expressões intraduzíveis, que damos palavra por palavra). Nietzsche sempre teve preferência pelas palavras sonoras, e aqui não recua ante a palavra "mentira", exercitando-se em uma primeira "transmutação de valores". Ao verdadeiro, opõe o falso — é prefere-o. Exalta os mundos imaginários que os poetas misturam ao mundo real: "Atreve-te a equivocar-te e a sonhar", dizia Schiller; Frederico Nietzsche repete este conselho. Tal foi a feliz audácia dos gregos, que se embriagaram com suas divinas histórias e seus heróicos mitos, deixando que esta embriaguez arrastasse suas almas até às grandes ações. O ateniense leal, persuadido de que Palas habitava a sua cidade, vivia em um sonho. Teria sido ele mais forte, mais apaixonado e mais valoroso se houvesse sido mais clarividente? A verdade é boa em proporção aos serviços que possibilita, e a ilusão é preferível, se presta serviço maior. Por que divinizar a verdade? É esta a tendência dos modernos: Pereat vita, fiat ventas! (pereça a vida e salve-se a verdade!). Porquê este fanatismo? A verdadeira lei dos homens é oposta: Pereat veritas, fiat vita!
Depois de transcritas estas fórmulas absolutas, Nietzsche não se detém nelas. Escreve constantemente e assim trabalha e faz avançar a sua investigação. Não nos esqueçamos de que estas idéias de contornos tão firmes não são senão o prelúdio de novas e talvez contrárias idéias. Frederico Nietzsche traz em si dois instintos opostos: o dó sábio que se cinge à verdade, e o do artista que deseja criar. Quando procura sacrificar um dos dois, vacila indeciso, pois o instinto do verdadeiro protesta em seu interior. Não abandona suas fórmulas, volta a elas, ensaia definições novas, indica as dificuldades e as falhas. Seu pensamento sem véu nos permite seguir as investigações. Traduzamos esta expressiva desordem :
O filósofo do conhecimento trágico liga o instinto desordenado do saber, não por uma metafísica nova. Não estabelece novas crenças. Vê, com trágica emoção, que o terreno da metafísica se afunda sob seus pés e sabe que o torvelinho desencontrado da ciência não o poderá satisfazer jamais. Se constrói uma vida nova, restitui à arte os seus direitos.
O filósofo do conhecimento desesperado se abandona à ciência cega: saber a todo o custo.
Que a metafísica não seja mais que uma aparência antropomórfica, completa, para o filósofo trágico, a imagem do ser. Aquele não é cético. Existe aqui uma idéia por criar, pois o ceticismo não é o fim. O instinto do conhecimento levado até seus últimos limites, volta-se contra si próprio para se transformar em uma critica da faculdade de conhecer. O conhecimento a serviço da melhor forma de vida. Deve-se,até desejar a ilusão, desejo que constitui o trágico.
Qual será, então, o filósofo do conhecimento desesperado cuja atitude Nietzsche define em duas linhas? O fato de lhe haver dado um nome tão formoso não é já uma prova de amor? Há aqui uma idéia por criar, escreveu Nietzsche. Qual é, então, esta idéia? Parece que em muitas passagens, Nietzsche se compraz em contemplar, despojada de seus véus, aquela realidade terrível cujo aspecto, por si só, segundo a lenda hindu, produz a morte.
Como — escreve ele — se atrevem a falar de um destino da terra? No tempo e no espaço infinitos não há fins: o que é, será eternamente, quaisquer que sejam as formas. O que possa resultar para um mundo metafísico, é coisa que não se sabe.
Sem apoio desta ordem, a humanidade deve resistir firmemente; terrível trabalho para um artista!
Terríveis conseqüências do darwinismo, que, por outra parte, tenho por verdadeiras. Respeitamos certas qualidades que consideramos eternas, morais, artísticas, religiosas, etc.
Considerar como sobrenatural o espírito, que é uma produção do cérebro! Divinizar! Que loucura!
Pára mim é falso falar de um fim inconsciente da humanidade. Esta não é um todo, como o formigueiro. Talvez se possa falar dos fins inconscientes dum formigueiro, mas… de todos os formigueiros da terra…!
O dever não consiste em procurar refúgio numa metafísica, mas em sacrificar-se ativamente à cultura nascente. E, daqui, minha severidade contra o nebuloso idealismo.
Neste momento, e à custa de um intenso trabalho que o faz sofrer, Nietzsche quase alcançou suas idéias finais. Suas enxaquecas, seus males da vista, e do estômago, tornam a assaltá-lo, a luz mais suave fere-o, e tem que deixar de ler. Não obstante, seu pensamento não se detém nem por um instante. Ocupa-se novamente dos filósofos da Grécia trágica; ouve essas vozes que chegam até nós abafadas pelos séculos, mas sempre firmes. Ouve o concerto das, respostas eternas.
Frederico Nietzsche sente-se emocionado por estas vozes discordes, por estes ritmos de pensamentos cujos choques eternos acusam a natureza. ( "As vicissitudes das idéias e os sistemas dos homens me afetam mais tragicamente que as vicissitudes da vida real", dizia Hölderlin. A impressão de Nietzsche é semelhante. Inveja e admira aqueles seres primitivos que descobriram a natureza e encontraram as primeiras respostas. Deixa de lado o prestígio da arte, e se coloca diante da vida como Édipo diante da esfinge, escrevendo, precisamente sob este título, Édipo, um fragmento cuja misteriosa linguagem talvez possamos entender:
Édipo — Chamou-me o último filósofo, porque sou o último homem. Falo sozinho e ouço minha voz que ressoa como a de um moribundo. Contigo, voz querida, cujo sopro me traz as últimas recordações de toda a felicidade humana, deixa-me falar contigo ainda um minuto: tu enganarás a minha solidão, tu me darás a ilusão da companhia e do amor, pois o meu coração não quer acreditar que o amor tenha morrido, nem pode suportar o terror da mais solitária das solidões, e obriga-me a falar como se eu fosse dois. És tu a quem ouço, minha voz? Murmuras e maldizes? E, no entanto, a tua maldição devia fazer arrebatar os entranhas do mundo! Ah! apesar de tudo, o mundo subsiste, mais resplandecente e mais frio do que nunca! contempla-me como suas implacáveis estrelas; existe, cego e surdo como antes; e só o homem morre. E não obstante, me falas ainda, voz amada! Não morro sozinho neste universo — eu, o último homem: a última queixa, a tua queixa, morre comigo Oh! dor! tem dó de mim! O último homem de dor, Édipo!
É como se, tendo chegado aos últimos limites do seu pensamento Nietzsche tivesse sentido subitamente necessidade de repouso, desejo de conversar com amigos, de se sentir rodeado e distraído. As férias da Páscoa de 1873 deram-lhe quinze dias de liberdade. Partiu, pois para Bayreuth, onde não o esperavam.
Parto esta noite — escreveu à senhorita de Meysenbug. — Adivinha onde vou? Adivinhou. E, para cúmulo da felicidade, encontrarei ali o melhor dos amigou, Rohde. Amanhã, pelas quatro e meia sentar-me-ei em Dammalee (*) e serei absolutamente feliz. Falaremos muito de você e de Gersdorff. Você disse que ele copiou as minhas conferências? Eis aí uma coisa que me emociona e que jamais esquecerei. Que excelentes amigos tenho! Ê, realmente, vergonhoso! Espero encontrar em Bayreuth, ânimo e alegria, e sentir de novo tudo o que é bom. Sonhei a noite passada que mandara encadernar novamente e com todo o cuidado, o meu Gradus ad Parnassum. Embora bastante insípida, não deixa de ter certa significação esta mistura de simbolismo e encadernação. Mas é uma verdade! De vez em quando convém que nos mandemos encadernar de novo, freqüentando homens mais valiosos e mais fortes do que nós mesmos; de outra maneira perderíamos algumas de nossas páginas, depois outras, e outras, até à completa caducidade. E que a nossa vida deve ser um Gradus ad Parnassum, lambem é uma verdade que convém ser repetida com freqüência. O único futuro que desejo e alcançarei se tiver um pouco de sorte, trabalhar muito para isso, estiver, também, muito tempo, é o de chegar a ser um escritor sóbrio, e, antes de tudo, cada vez em maior grau, exercer mais sobriamente o meu ofício de homem de letras. De vez em quando sou atacado por uma repugnância infantil pelo papel impresso; parece-me não ver nele senão papel manchado, e afiguro-me uma época cm que se prefira ler menos e escrever menos ainda, mas em troca, pensar mais e trabalhar ainda mais. Pois tudo vive, hoje, na expectativa desse homem operante, que, condenando em si mesmo e em nós nossas milenárias rotinas, viverá melhor e nos oferecerá sua vida como exemplo
.
(*) Era o nome da casa que Wagner habitava antes de ser construída sua morada definitiva, a Wahnfried. (nota do A.)
Frederico Nietzsche partiu para Bayreuth, e ali recebeu uma noticia inesperada. Faltava dinheiro. De um milhão e duzentos mil francos que necessitavam, haviam conseguido somente, com grande dificuldade, oitocentos mil. O empreendimento estava comprometido, e talvez inutilizado. Todos haviam perdido o ânimo. Só o mestre continuava tranqüilo e confiante. Desde que chegara à idade viril, desejava possuir um teatro; sabia que uma vontade constante acaba por prevalecer sobre todos os percalços, e, alguns meses de crise não o assustavam, depois de quarenta anos de espera. Capitalistas de Berlim, Munich, Viena, Londres, e Chicago fizeram-lhe propostas, mas ele respondeu-lhes pela negativa, desejoso de ter o teatro para ele somente e perto dele. "Não se trata do êxito de um negócio — dizia — mas de despertar as forças latentes da alma alemã." Tanta serenidade, porém, não chegava para fortalecer o valor dos demais. O pânico se apoderou de Bayreuth, e ninguém se atrevia a esperar coisa alguma.
Frederico Nietzsche olhou, ouviu, observou, e em seguida fugiu para Naumburg. "Meu desespero era tão profundo — escreve — que tudo me parecia infeccionado de crime." Voltava ao mundo após dez meses de solidão, e achava-o mais covarde, mais miserável, ainda] do que jamais o julgara. Sofrimento pior ainda: estava descontente consigo mesmo. Recordava suas últimas meditações: "Chamo-me o último filósofo, porque sou o último homem…" e interrogava-se: seria ele, realmente, "o último filósofo?" o "último homem?" Não sé havia favorecido demasiado ao se atribuir esse papel tão grave e tão formoso? Não teria sido ele, também, ingrato, covarde e vil como os demais homens ao abandonar a luta no momento decisivo, para se encerrar novamente em sua cela, e nos seus sonhos egoístas? Não esquecera o seu mestre? Acusava-se e o remorso aumentou o seu desespero. "Não devia pensar em mim — recriminava-se. — Só Wagner é herói, e tão grande em sua desgraça, como o fora em Triebschen… É a ele que devo servir. Desde este momento, devo consagrar-me a ajudá-lo." Tendo a intenção de publicar alguns capítulos de seu livro Os Filósofos da Grécia Trágica, privou-se desta alegria e guardou, não sem angústia, o manuscrito quase terminado. Queria atuar, gritar, "cuspir fogo", injuriar e maltratar a Alemanha, já que, como um animal estúpido, só cedia à brutalidade. "Regresso de Bayreuth em tão persistente estado de melancolia — escreve a Rohde — que não há mais salvação para mim. senão na santa cólera."
Frederico Nietzsche não esperava satisfação alguma da tarefa que ia empreender. Atacar é reconhecer, condescender, rebaixar-se, Preferiria não ter contato algum com a baixa humanidade. Era. porém, possível tolerar que molestassem e pusessem obstáculos no caminho de Richard Wagner? Seria possível que os alemães o entristecessem, como haviam feito com Goethe, que o destruíssem, como haviam feito com Schiller? Amanhã nascerão outros gênios — não será necessário, então, combater desde hoje para assegurar a liberdade e o sossego de suas vidas? Não é possível ignorar as massas que nos assediam.É um destino amargo, mas que não se pode refugar. É o destino dos homens melhor nascidos, e sobretudo, dos melhores alemães, heróis engendrados e negados por uma raça sensível ao belo. Frederico Nietzsche retivera a frase de Goethe sobre Lessing: "Tende piedade deste homem extraordinário; tende piedade, por ter vivido em uma época tão lamentável que se viu obrigado a agir sempre por meio de polêmicas." Aplicava-a a si próprio, mas a polêmica lhe aparecia como um dever para si, como o fora para Lessing. Procurou, então, um adversário e encontrou na figura do ilustre David Frederico Strauss que representava, naquele momento a filosofia oficial e pontificava pesadamente. Renunciando às investigações críticas, Strauss afetava, em seus últimos dias, atitudes de pensador e desenvolvia seu Credo com falsas graças imitadas de Voltaire ou de About.
Proponho-me, simplesmente — dizia ele em A Antiga e a Nova Fé — dizer como vivemos e como nos comportamos na vida desde muitos anos. Ao lado da nossa profissão — pois pertencemos às mais diversas profissões, já que nem todos somos artistas ou sábios, mas também funcionários ou soldados, operários ou proprietários — e, disse e repito, nosso número não é pequeno, somo muitos milhares e não dos piores — ao lado de nossa profissão, repito, procuramos, até onde é possível, manter nossos espíritos alerta aos mais altos interesses da : humanidade; nossos corações se sentem exaltados por esses destinos novos, inesperados, e magníficos designados pela sorte à nossa pátria, antes tão menosprezada. Para melhor compreender essas coisas, estudamos a história, que com uma porção de obras atraentes e populares, se torna fácil a todo o mundo. E procuramos ampliar logo o nosso conhecimento da natureza, ajudados por manuais que estão ao alcance de todos. Por último, encontramos nas obras dos nossos grandes poetas, e na audição das obras dos nossos grandes músicos, estimulantes para nosso espírito e nosso sentimento, nossa imaginação e nosso coração; estimulantes que, em verdade, nada deixam a desejar. Assim vivemos e caminhamos na felicidade.
Assim, pois, os filisteus são felizes. E com razão, pensa Nietzsche, pois achamo-nos na época do seu poderio. E seguramente a espécie não é nova. A própria Ática teve seus fatores de "banausia", antes, porém, o filisteu vivia humilhado. Era tolerado, mas não se falava dele, e ele não falava. Vieram, depois, tempos mais indulgentes; ouviram-no, afagaram-se suas ridicularias, e acharam-no divertido. Isto bastou para que se enchesse de fatuidade e se sentisse orgulhoso de sua hipocrisia. Hoje, já não é possível contê-lo — e triunfa. Torna-se fanático e funda uma religião, a nova fé, cujo profeta é Strauss. Decerto, Frederico Nietzsche teria aprovado a classificação das idades que naquele mesmo ano, Flaubert propunha: Paganismo, cristianismo e "abelhudismo" (ou "sem-vergonhismo"). O filisteu dita seu gosto e impõe suas maneiras; se rebenta uma guerra, lê o seu jornal, interessa-se pelas notícias e estas contribuem para o seu contentamento. Grandes homens sofreram e nos deixaram suas obras: os filisteus conhecem estas obras, apreciam-nas, e seu bem-estar se faz maior. Por outra parte, aprecia com discernimento. A. Sinfonia Pastoral entusiasma-o, mas condena o estrondejar exagerado da Sinfonia com coros. David Strauss o diz claramente: não é possível "enganar este espírito penetrante» Frederico Nietzsche não vai mais longe em suas buscas. Encontrou o homem que deseja destruir. Nos primeiros dias de maio está com todas as notas preparadas, e sua obra pronta. Subitamente, faltam-lhe as forças; sua dolorida cabeça e seus olhos feridos pela luz, atraiçoam o desejo de trabalhar; em poucos dias se encontra quase inválido, quase cego. Overbeck e Romundt ajudam-no o mais que podem, mas tanto um como outro trabalham e têm o tempo contado pelos deveres profissionais. Vem um terceiro amigo assistir ao enfermo. O barão de Gersdorff, independente é abnegado, viajava, então, pela Itália. Ele fora condiscípulo de Nietzsche no colégio de Pforta, e desde aqueles dias longínquos, poucas vezes o vira, continuando sua amizade, no entanto, a mesma — e apressa-se a ir a Basiléia. Era filho menor de uma nobre família; tendo morrido seus irmãos maiores, um em 1866, na campanha da Áustria e o outro em 1871, na da França, ele se vira obrigado a sacrificar seus gostos, a renunciar à filosofia e a aprender agronomia para administrar um domínio da família na Alemanha do Norte. Era o único dos amigos de Nietzsche que não se entregara ao papel e aos livros. "É um magnífico tipo de gentil-homem reservado e digno, embora de maneiras muito simples — escreve em francês Overbeck; — no fundo, o melhor rapaz que se possa imaginar, e dá, desde o primeiro instante, a impressão de um homem em quem se pode confiar absolutamente." Um amigo de Romundt, Paulo Rée, foi também distrair o enfermo, o qual, confortado por tanta solicitude, conseguiu resistir aos seus males. Estendido numa sombra constante, ele ditava e o fiel Gersdorff escrevia. Pelos fins de junho, o manuscrito foi enviado ao editor.
Frederico Nietzsche começou a melhorar logo que terminara seu trabalho. Sentia grande necessidade de ar puro e de solidão. Sua irmã, chegada de Naumburg, levou-o para as montanhas de Grisons. Suas dores de cabeça se atenuaram e sua vista restabeleceu-se um pouco. Descansou durante algumas semanas, corrigindo as provas, gozando das forças recuperadas, mas perseguido sempre por seus furores e suas aspirações.
Um dia, passeando com sua irmã pelos arredores de Flimms, chegou às portas de um castelo de reduzidas proporções, situado num recanto solitário e agradável. "Que retiro delicioso e que admirável lugar para instalar nosso convento laico!" disse ele. O castelo estava à venda. A moça propôs que o visitassem, e entraram. Tudo os encantou: o jardim; o terraço de onde se descortinava um amplo horizonte; o grande salão com sua chaminé de pedra lavrada; as peças, não muito numerosas, mas suficientes: Esta seria para Richard Wagner; aquela, para Cosima; a outra, para os visitantes, Jacob Burckhardt, ou a senhorita de Meysenbug. Gersdorff, Deussen, Rohde,- Overbeck e Romundt, esses residiriam constantemente. Aqui — declarava Nietzsche — faremos um passeio coberto, uma espécie de claustro, de modo que com qualquer tempo possamos conversar caminhando, pois falaremos muito, leremos pouco e apenas escreveremos… Apresentava-se-lhe novamente o seu sonho familiar, a sua fraternal associação de discípulos e mestres. A senhorita Nietzsche mostrava-se muito animada: Vocês vão ter necessidade de uma mulher para cuidar de tudo isto, e essa mulher serei eu… E informou-se sobre o preço da propriedade, escrevendo, até, ao proprietário. No entanto, o negócio não se realizou. "Talvez eu lhe tivesse parecido muito jovem — diz a senhorita Nietzsche que é quem conta o caso — e o jardineiro não nos levou á sério." Que se há de pensar deste acontecimento? Nada sabemos. Teria sido uma lembrança da moça, à qual Nietzsche se prestou por um momento? Ou, pelo contrário, um pensamento sério? É provável. Seu espírito, pronto para abrigar todas as quimeras, não discernia muito bem os convencionalismos da vida.
Nietzsche regressou a Basiléia; seu opúsculo fizera certa impressão. "Leio e releio o que você escreveu — escrevia Wagner —e juro pelos meus deuses que o considero a única pessoa que sabe o que eu quero." "Seu panfleto é uma brilhante ação! — escrevia Hans von Bulow. — Um Voltaire moderno deve escrever: écrasez 1′infame! A estética internacional é para nós um adversário muito mais odioso que 08 bandidos vermelhos ou negros." Outros bons juizes; alguns, homens idosos, aprovavam o jovem polemista: Erwald de Goltingne), Bruno Bauer, Karl Hildebrandt, dieses letzten humaiicu Deutschen (este último dos alemães humanos), segundo Nietzsche, declararam-se a seu favor. "Este livrinho — escrevia Hildebrandt — pode assinalar o retorno do espírito alemão para a seriedade do pensamento e a paixão intelectual."
Estas vozes amigas não eram, porém numerosas. "O Império alemão — havia escrito Nietzsche — extirpa ao espírito alemão…" Com isto, ferira o espírito de um povo vence dor, e não tardou em receber em justa compensação, boa cópia de insultos e acusações de vileza e traição. "Seguindo o conselho de Stendhal — disse ele alegremente — entro na sociedade com um duelo." Por stendhaliano que fosse ( e pelo menos, prezava-se disso) Nietzsche não deixava de ser acessível à piedade. Tendo Strauss morrido poucas semanas depois da publicação do seu opúsculo, imaginou que sua obra talvez tivesse matado o ancião, e sentiu verdadeiro desgosto. Em vão o tentaram tranqüilizar a sua irmã e seus amigos; Nietzsche não conseguiu renunciar a seu remorso, por outro lado glorioso.
Animado por este primeiro combate, planejou uma campanha mais vasta, e, com prodigiosa rapidez de concepção, preparou uma série de folhetos que esperava publicar sob o título geral de Unzeitgemãsse Betrachtungen (Considerações Extemporâneas). David Strauss havia sido o primeiro desses folhetos, e o segundo devia se intitular A Enfermidade Histórica. Seguir-se-iam logo outros vinte, para cujo trabalho os seus amigos, sempre associados aos seus sonhos, decerto concorreriam.
Franz Overbeck acabava de publicar um opúsculo intitulado: O Cristianismo de nossa moderna teologia, no qual atacava os doutores alemães pensadores, demasiado modernistas, que debilitam o cristianismo e deixam cair no esquecimento a irrevogável e grave doutrina dos primeiros cristãos. Nietzsche mandou encadernar juntos, o Christlichkeit de Overbeck e seu David Strauss. Na primeira página escreveu esta sextilha:
"Dois gêmeos do mesmo berço — entram alegremente no mundo — para devorar os dragões do mundo. — Dois pais e uma obra! Oh milagre! — A mãe destes dois gêmeos chama-se amizade." Frederico Nietzsche esperava uma série de volumes semelhantes, inspirados por um só espírito, escritos por várias mãos. "Com uma centena de homens atirados contra as idéias modernas e exercitadas no heroísmo — escrevia ele então — toda a nossa ruidosa e tardia cultura seria reduzida ao silêncio eterno… Cem homens carregaram assim, em suas costas, a civilização da Renascença…"
Dupla e vã esperança! Seus amigos falharam, e ele não escreveu também, os vinte folhetos. Conhecemos apenas os seus títulos o umas poucas páginas de notas. Que nos teria dito ele sobre O Estado, A Cidade, A Crise Social, A Cultura Militar, A Religião…? Moderemos nosso pesar por não haverem muitos escritos. Pouca coisa, talvez; isto é, poucas coisas precisas, diferentes de seus desejos e de suas lamentações.
Também se ocupava, por aqueles dias, num trabalho que anunciava a Gersdorff em termos misteriosos: "Que baste para você saber que um perigo terrível e imprevisto ameaça Bayreuth, e que me encarregaram de preparar o contra-ataque …" Efetivamente, Richard "Wagner lhe rogara que escrevesse um apelo supremo aos alemães, e Nietzsche se aplicava em redigi-lo com toda a gravidade, profundidade e solenidade de que era capaz. Pedira a Erwin Rohde ajuda e conselho: "Posso contar com você para me escrever, depressa, uma página redigida em estilo napoleônico?" Erwin Rohde, homem precavido, recusou. "É preciso ser amável — disse ele — quando a única coisa que convém à canalha é o insulto." Frederico Nietzsche, porém, não reparava em cortesias. Pelo fim de outubro, os presidentes dos "Wagner-Verein", reunidos em Bayreuth, convocaram Frederico Nietzsche, que leu o seu manifesto:
APELO AOS ALEMÃES
Desejamos ser ouvidos; pois que falamos para fazer ama advertência, e aquele que adverte, seja quem for, diga o que disser, tem sempre o direito de ser ouvido… Levantamos a voz porque estais em perigo, e porque, vendo-vos tão mudos, tão indiferentes, tão insensíveis, tememos por vós. Falamo-vos com toda a sinceridade de coração, e não procuramos nem queremos nosso interesse senão porque é também o vosso: a salvação e a honra do espírito alemão e do nome alemão...
O manifesto vai se desenvolvendo nesse mesmo tom ameaçador e um pouco enfático, e a leitura é acolhida num penoso silêncio. Nenhum murmúrio de aprovação, nenhum olhar de alento se dirigia a Nietzsche. Quando terminou, algumas vozes comentaram. "É demasiado grave… não é suficientemente diplomático… Seria preciso mudar alguma coisa… muita coisa." Outros opinaram: "É uma predica de monge." Nietzsche não quis discutir e retirou o seu projeto de apelo. Somente Richard Wagner o apoiara com energia. Esperemos — disse ele — dentro de pouco tempo, muito pouco, eles serão obrigados a voltar ao seu Apelo, e todos .estarão de acordo com você.
Nietzsche permaneceu poucos dias em Bayreuth. A situação, já grave na Páscoa, chegara ao desespero. O público, que durante alguns meses caçoara da grande empresa, ignorava-a agora. Uma temível indiferença paralisava os propagandistas e a cada dia que se passava mais difícil parecia reunir o dinheiro necessário. Todos os projetos de empréstimos comerciais ou de sorteios, já haviam sido postos de lado. Um apelo escrito apressadamente para substituir o de Nietzsche, fora distribuído por toda a Alemanha. Dos dez mil exemplares que se haviam editado, apenas um número ínfimo foi vendido. Mandou-se uma carta a cem diretores de teatros alemães, na qual se solicitava a cada um deles uma noite de benefício a ser invertida na subscrição de Bayreuth. Três responderam negativamente, e os demais não responderam.
Frederico Nietzsche regressa a Basiléia e termina, ajudado por Gersdorff, a redação da sua segunda "Extemporânea": A Enfermidade Histórica. Entrementes, escreve algumas cartas, algumas notas e não faz nenhum projeto novo, de maneira que escapa, quase completamente, às nossas pesquisas. A dupla esperança de sua juventude: assistir ao triunfo de Richard Wagner, e colaborar com ele — desmoronou-se, e o seu auxílio foi recusado. Haviam-lhe dito: "seu apelo é demasiado grave, demasiado solene…" E ele pergunta a si mesmo: Que é, então, a obra de Wagner? não é de uma gravidade e solenidade supremas? Sente-se triste, humilhado, ferido em seu amor próprio e em seus sonhos. Durante as últimas semanas de 1873 vive encerrado no seu quarto em Basiléia. Vai a Naumburg passar as festas de Ano Novo. Ali, a sós com os seus, recobra algumas forças. Sempre gostara desse repouso dos aniversários, tão favorável ao recolhimento, e, quando mocinho, nunca deixava passar a festa de São Silvestre sem escrever uma meditação sobre sua vida, suas recordações e suas perspectivas de futuro. Em 31 de dezembro escreve a Erwin Rohde, e o tom de sua carta recorda o das antigas meditações:
As Cartas de um esteta herético, de Karl Hildebrandt, produziram-me grande prazer, e foram para mim uni grande consolo. Leia-o e admire-o; é um dos nossos, é da sociedade dos que esperam. Oxalá possa, neste novo ano, prosperar essa sociedade; oxalá possamos continuar sendo bons camaradas! Ah, querido amigo, não temos a liberdade de escolher. É preciso ser dor r:.:c esperam, ou dos que desesperam! E uma vez por todas, decidi-me pela esperança.
Continuemos sendo fiéis e ajudando-nos uns aos outros neste ano de 1874, e até ao fim dos nossos dias!
Seu
Frederico N*
Naumburg, São Silvestre, 1873-74.
Nietzsche volta ao trabalho nos primeiros dias de janeiro. Depois do penoso incidente de Bayreuth (sem dúvida, a irritação de um autor cujo auxílio é desprezado explica estes imprudentes movimentos, se via atormentado pelas inquietudes e as dúvidas, e queria esclarecê-las. Em duas linhas, que são como que a introdução de suas idéias de então, faz entrar a arte wagneriana na história. "Tudo o que é grande é perigoso — escreve ele — especialmente no início. Tem-se a impressão de um fenômeno isolado, que se justifica por si mesmo." E, assentada esta máxima, aborda os problemas definitivos: "Que classe de homem é Wagner? Que significação tem sua arte?"
E veio então a catástrofe, como um desmoronamento fantasmagórico. O Esquilo, o Píndaro moderno, desaparecem; os lindos enfeites metafísicos e religiosos vêem abaixo, e a arte de Wagner aparece tal como é em realidade: flor tardia, magnífica e freqüentemente enfermiça, de uma humanidade velha de quinze séculos.
Perguntemos-nos seriamente — escrevia Nietzsche em notas que seus amigos não conheceram — perguntemos-nos seriamente qual é o valor deste tempo que reconhece, na arte de Wagner, sua própria arte. É um tempo radicalmente anárquico precipitado j ímpio, ávido, informe, inseguro em suas raízes, pronto para o desespero, sem ingenuidade nem nobreza, consciente até á medula, violento e covarde. A arte amálgama indistintamente em um bloco tudo o que ainda a atrai em nossas almas de alemães modernos: caracteres e conhecimentos, tudo confusamente misturado. Uma monstruosa tentativa para se afirmar e dominar em uma época anti-artística. Um veneno contra um veneno!
Em vez do semi-deus — o histrião! Desesperado, Nietzsche reconhece que havia cometido um erro e que se deixara enganar pelas artimanhas de um gigante. Amara com a ingenuidade e o ardor da juventude, e haviam-lhe dado o engano em troca. Em sua cólera havia ciúmes e um pouco desse ódio que nunca se acha muito longe do amor. Havia deposto nas mãos de um homem o coração e a inteligência de que tanto se orgulhava — e esse homem havia brincado com aqueles sagrados presentes.
Passemos, porém, por cima destas dores pessoais; havia outras, mais profundas ainda, que humilhava Nietzsche. Sentia-se humilhado por haver traído a verdade. Tinha querido viver para ela, e agora percebia que durante quatro anos vivera para Richard Wagner. Atrevera-se a repetir com Voltaire: "É preciso dizer a verdade e imolar-se", e compreendia agora que a deixara de parte, que fugira dela, talvez, para se consolar com as belezas de uma arte. "Se desejas o repouso, crê; se desejas a verdade, investiga…" havia escrito a sua irmã alguns anos antes, e eis que o dever que indicara então àquela menina — ele não o havia observado. Deixara-se seduzir por imagens, por harmonias, por um prestígio verbal — havia-se nutrido de mentiras.
E o pior de tudo era que consentira em tal rebaixamento. O universo é mau — escrevera na Origem da Tragédia — cruel como um acorde que dissona, e a alma do homem, dissonante como o universo, sofrendo por si mesma, se desinteressaria da vida sé não inventasse alguma ilusão, algum mito que a engane mas acalme e lhe dê um refúgio de beleza.
Em verdade, se se retrocede assim, se a gente cria os seus próprios consolos, onde se deixará conduzir? Não há covardia que não se autorize, se se ouve a voz da própria debilidade. Aceitar a ilusão é colocar-se nas mãos do ilusionista. Ilusão nobre? Ilusão vil? Que sabemos, se somos enganados, se pedimos que nos enganem? Um acesso de remorsos turva as recordações de Frederico Nietzsche e enche de desalento seus projetos futuros.
A Enfermidade Histórica apareceu em fevereiro. É um ataque contra a História, ciência cuja invenção é o orgulho dos modernos; é uma crítica dessa faculdade, recentemente adquirida pelos homens, de reanimar em si mesmo os sentimentos dos séculos passados, com o risco de diminuir a integridade de seus instintos e de torcer o seu rumo. Uma breve indicação mostra o espírito do livro:
O homem do futuro: original, vigoroso, ardente, infatigável, artista, inimigo dos livros.
Eu quisera expulsar do meu estado ideal, os homens que se chamam "cultos", como Platão queria fazer com os poetas: seria esse o meu terrorismo.
Desta maneira, Nietzsche afrontava os dez mil "senhores professores" que haviam feito da história seu meio de vida e dirigiam o público. Estes castigaram-no com o ódio e o silêncio. Ninguém falou do seu livro. Seus amigos trataram de lhe conseguir leitores; Overbeck escreveu ao seu companheiro de estudos, Treischke, escritor político e historiógrafo prussiano; "estou seguro de que você descobrirá nestas considerações de Nietzsche a mais profunda, a mais séria e a mais instintiva devoção pela grandeza da Alemanha…" Treischke recusa seu assentimento e Overbeck escreve de novo: "É de Nietzsche, do meu amigo sempre doente que quero e devo falar-lhe sobretudo…" Treischke responde de mau humor, 6 a disputa se faz amarga: "Sua Basiléia — escreve ele — é um budoir de onde. se ofende a cultura alemã!" "Se você nos visse, aos três, Nietzsche, Romundt e eu — diz Overbeck — veria três excelentes companheiros. A diferença entre você c eu me parece um penoso símbolo… É um acidente tão freqüente, um traço tão infeliz da nossa história alemã, o desacordo entro os políticos e homens cultos…" "Que desgraça para você — replica Treischke — haver encontrado esse Nietzsche pelo caminho, esse anormal que tanto nos fala de suas idéias obsoletas e que, no entanto, se acha corroído até mesmo ao mais atual de todos os vícios: a mania de grandeza!"
Overbeck, Gersdorff e Rohde assistem, desolados, ao fracasso do livro que tanto admiram. "É um novo raio — escreve Rohde — que não fará maior efeito que um fogo de artifício, numa adega. Um dia, porém, se reconhecerá e admirará essa valentia e precisão com que ele pôs o dedo sobre a pior das nossas chagas. Que forte é o nosso amigo I" E Overbeck: "A sensação de isolamento que nosso amigo experimenta, vai crescendo de maneira penosa. Olhar continuamente para os ramos da árvore sobre a qual nos sustemos ó algo que não se pode fazer sem graves conseqüências." E Gersdorff: "O melhor que nosso amigo poderia fazer seria imitar os pitagóricos, passando cinco anos sem ler nem escrever. Quando eu recobrar minha liberdade, dentro de dois ou três anos, regressarei às minhas terras, e ali ele encontrará sempre um asilo."
Estes homens, cuja solicitude é tão comovente, inquietam-se pela sorte do seu amigo sem suspeitar a verdadeira causa nem a intensidade de sua amargura. Lamentam-se da sua solidão, sem saber quão profunda ela é, e sem saber que, mesmo ao lado deles, Nietzsche está só. Que lhe importa o fracasso de um livro do qual já o separa a evolução do seu pensamento? "Apenas — escreve a Rohde — mal acredito que eu o tenha escrito.. ." Descobriu o seu urro e a sua falta, e esta é a angústia que não se atreve a confessar.
"Neste momento — anuncia a Gersdorff — fermentam em mim muitas coisas fortes e atrevidas. Não sei até que ponto me será permitido comunicá-las aos meus melhores amigos. De qualquer modo, porém, não as posso escrever." No entanto, uma noite a paixão o arrastou. Achava-se a sós com Overbeck; a conversação recaiu sobre o Lohengrin, e Nietzsche despedaçou com repentino furor, esta obra falsa e romântica. Estupefato, Overbeck ouvia-o. Afinal, Nietzsche calou-se, e, desde então, tratou de vigiar melhor aquela dissimulação que o enchia de vergonha e asco de si próprio.
Querido e fiel amigo — escreve a Gersdorff em abril de 1874 – oxalá você me estimasse muito menos do que estimai Estou, quase seguro de que você perderá as ilusões que tem sabre mim, e eu quisera ser o primeiro a abrir-lhe os olhos, explicando-lhe, sinceramente, que não mereço nenhum dos seus elogios. Se você pudesse saber quão. radicalmente desanimado me acho, e que melancolia experimento em relação a mim mesmo} Não sei se serei, jamais, capaz de produzir algo. De agora em diante desejo apenas procurar um pouco de liberdade, um pouco da atmosfera real da vida, e me arma e rebelo contra todas as escuridões, numerosas, infinitamente numerosas, que me aprisionavam… Consegui-lo-ei alguma vez? Dúvida sobre dúvida. O fim está demasiado longe, e, se conseguir alcançá-lo um dia, terei consumido, então, o melhor de mim mesmo, em grandes esforços e grandes combates. Serei livre, mas definharei como um efêmero ao crepúsculo. É este é o meu vivo temor. É uma desgraça ser tão clarividente, tão consciente de suas próprias lutas!…
Esta carta é de l.o de abril. No dia 4 do mesmo mês escreve à senhorita de Meysenbug uma carta cheia de melancolia, e, no entanto, menos desesperada:
Querida senhorita: que prazer você me proporciona, e como me comove! É a primeira vez que me enviam flores, e agora sei que estas cores vivas e inumeráveis, por mais mudas que aquelas sejam, falam-nos perfeitamente. Estas anunciadoras da primavera floriram o meu quarto e pude gozar delas durante mais de uma semana. Em nossas vidas, tão obscuras e dolorosas, há grande necessidade de que as flores venham divulgar um segredo da natureza: elas nos impedem de esquecer que é sempre possível encontrar em alguma parte do mundo vida, esperança, luz e cores. Com que freqüência se perde essa fé! E é uma admirável felicidade que se experimenta quando os combatentes se ajudam mutuamente em seu valor e, pela remessa de símbolos, flores ou livros, se recordam sua fé comum.
Minha saúde (permita que por um momento fale nisto) é satisfatória desde o Ano Novo, excetuando a vista, sempre necessitada de cuidado.- Mas você sabe que existem estados de sofrimento físico que são às vezes quase um bem, já que fazem esquecer o que se sofre em outras partes . Mais ainda: a gente chega a dizer , que assim como há remédios para ò corpo, deve havê-los para a alma. É aqui está a minha filosofia da enfermidade, que dá certa esperança à alma. E esperar não é, afinal, uma obra de arte?
Deseje-me a força suficiente para escrever as onze "Extemporâneas" cuja tarefa ainda falta. Terei, afinal, dito tudo quanto nos oprime, e talvez depois desta confissão geral nos sintamos um pouco mais livres.
Acompanham-na os meus cordiais votos de felicidade, querida senhorita e amiga.
Frederico Nietzsche volta, por fim, ao trabalho. Seu instinto conduto para o filósofo que o sustentara nos seus primeiros anos. Quer dedicar a Schopenhauer sua terceira "Extemporânea". Dez anos antes arrastava em Leipzig uma existência miserável e Schopenhauer o salvara; sua estranha alegria, seu lirismo, aquela ironia com que exprime seus mais ásperos pensamentos havia lhe devolvido o força de viver. Se Schopenhauer “te perturba” e enlouquece, escrevia então a um camarada — se não tem força para te elevar e fazer-te chegar, através das mais vivas dores da vida exterior, até esse estado de espírito doloroso, mas feliz, que nos acolhe quando ouvimos uma música nobre, até esse estado de espírito no qual parece que as envolturas terrestres caem em volta de nós — nesse caso, é que não entendo nada desta filosofia."
Voltou novamente a experimentar as impressões da juventude; recordou que as mais fecundas crises de sua vida haviam sido as mais dolorosas, e, voltando à escola do seu velho mestre, reconquistou, o valor. "Faltam-me cantar onze belas cantatas" — escreve a Rohde anunciando os trabalhos que seguiriam a este. E seu Schopenhauer é uma cantata, um hino à solidão e ao valor de um pensador. Sua alma estava, então, toda impregnada de música. Descansava de seu trabalho compondo um hino à amizade: "Canto-o para todos vocês" — escrevia a Erwin Rohde.
Em companhia de sua irmã, que o fora buscar, partiu de Basiléia indo instalar-se na campina, perto das cascatas do Reno. Como em seus dias de infância, Frederico Nietzsche voltara à alegria, um pouco, sem dúvida, para distrair a moça que tão ternamente viera procurá-lo — aliis laetus, sibi sapiens, segundo a máxima que se acha escrita em suas notas daquela época — mas também porque realmente era feliz apesar de sua dor; feliz de se pertencer a si próprio, de sentir-se livre e puro ante a vida. "Minha irmã está comigo — escreve a Gersdorff — e todos os dias fazemos os mais belos projetos para a nossa vida futura, idílica, laboriosa e simples. Tudo vai bem; sepultei toda a debilidade e toda!a melancolia no mais profundo do meu ser."
Passeava com sua irmã, conversava, ria, sonhava e lia. Que lia? Decerto, Schopenhauer; depois, Montaigne, naquela elegante edição, transformada, agora, em triste recordação, que, fazia tempo, Cosima Wagner lhe oferecera em gratidão pelas marionetes que levara às crianças. "O prazer de viver sobre a terra é mais vivo pelo simples fato de que este homem tenha escrito — dizia Nietzsche referindo-se a Montaigne. — Desde que mantenho relações com seu espírito livre e forte entre todos, tenho prazer em dizer o que ele dizia de Plutarco: "De cada vez que me cai nas mãos, tiro dele um bom pedaço." (*). — Se me colocasse em posição de escolher, seria em sua companhia que desejaria viver como comigo mesmo." Schopenhauer e Montaigne: ao lado desses dois ironistas, um confessando seu desespero, e o outro diminuindo-o, que Nietzsche preparar-se para viver. Ao mesmo tempo, porém, lia com vivo prazer a obra de um outro pensador mais terno e menos desfavorável às suas aspirações: a obra do confia do Emerson, profeta jovem de uma terra jovem, que menor
(*) "Je ne le puis si peu raccointer que je n’en tire cuisse ou aile".
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de suas frases exprime com felicidade a pura emoção que ilumina a adolescência dos homens. Frederico Nietzsche já o lera em Pforta, e, ao encontrá-lo de novo na primavera de 1874, recomenda-o aos seus amigos.
"O mundo é jovem — escreve Emerson no final do seu "Representative Men". — Os grandes homens do passado nos chamam afetuosamente. Nós também devemos escrever Bíblias, para unir novamente os céus ao mundo terreno. O segredo do gênio consiste em não tolerar em torno de si a existência de ficção alguma; em realizar tudo o que sabemos; em exigir sempre — nos refinamentos da vida moderna, na arte, na ciência, nos livros e nos homens — a boa fé, a realidade, e um fim; e principalmente, por fim, sobretudo e antes de tudo — em honrar cada verdade, vivendo-a."
Nietzsche precisava do consolo destas palavras, e ouviu-as apaixonadamente.
No início de junho terminou o manuscrito do seu Schopenhauer como educador. Intelectualmente achava-se quase curado, mas experimentava outros sofrimentos. A senhora Förster-Nietzsche conta que, havendo um dia seu irmão manifestado repugnância pelos romances e seu monótono amor, alguém lhe perguntou que outro sentimento poderia apaixonar tanto como o amor. "A amizade — respondeu com vivacidade — a amizade, que determina absolutamente as mesmas crises que o amor, porém numa atmosfera mais pura. Primeiro, é uma atração recíproca, determinada por convicções comuns; a admiração e a glorificação mútuas: depois, de uma parte a desconfiança, e de outra as dúvidas sobre a excelência do amigo e de suas idéias; a certeza de que uma ruptura é inevitável e que, no entanto, será dolorosa… Na amizade existem todos estes sofrimentos, e ainda outros, impossíveis de exprimir." Nietzsche os conheceu a todos, a partir de junho de 1874. Queria profundamente a Wagner, e jamais havia deixado de o estimar. Seus erros intelectuais poderiam ser corrigidos. Richard Wagner não era um filósofo, nem um educador da Europa, mas isso não impedia que fosse um maravilhoso artista, fonte de toda a beleza e de toda a felicidade, e Nietzsche continuava a querê-lo como se quer a uma mulher que nos proporciona alegria. Qualquer idéia de rompimento lhe era insuportável, e não confiava a ninguém seus pensametos.
A situação era incômoda e falsa. Em janeiro, no mais agudo da crise, teve que escrever a Wagner felicitando-o por uma notícia tão extraordinária como imprevista. O rei da Baviera salvara a empresa de Bayreuth oferecendo inesperadamente a .soma necessária. Simultaneamente, Nietzsche enviou-lhe o folheto sobre a Enfermidade Histórica, no qual o mestre não aparecia citado uma vez sequer. Isto surpreendeu um pouco em Bayreuth, e a senhora Cosima Wagner se encarregou do fazer uma discreta chamada à ordem:
Graças à parte que lhe foi dado tomar nos sofrimentos do gênio — escreveu ela — você se tornou capaz de pronunciar um juízo de conjunto sobre a nossa cultura, e a esta circunstância devem também seus trabalhos esse maravilhoso fervor que, estou certa, continuará agindo por muito tempo depois de se haverem extinguido nossas estrelas de gás e querosene. Provavelmente, você não teria penetrado com um olhar tão seguro a desordem da Aparência, se não se tivesse misturado tão profundamente a nossas vidas. Da mesma fonte brotou em você a ironia e o humorismo, e este duplo fundo de sofrimentos compartilhados lhes dá uma força muito diferente daquela que um simples jogo de inteligência lhes poderia dar.
"Veja! — dizia Nietzsche a sua irmã — como me estimam em Bayreuth!"
Em 22 de maio, aniversário do nascimento de Wagner, Nietzsche dirigiu-lhe algumas palavras de congratulação. Wagner respondeu-lhe em seguida, convidando-o a passar alguns dias "em seu quarto". Nietzsche, dando uma desculpa qualquer, declinou do convite. Alguns dias mais tarde escreveu a Wagner (suas cartas se perderam, ou foram destruídas), recebendo a seguinte resposta:
Querido amigo:
Wahnfried, junho de 1874.
Provavelmente, Wagner quis Nietzsche até onde era capaz de querer. Rodeado de adoradores e de discípulos demasiado dóceis, distinguia entre todos, aquele moço ardente, ávido de entregar-se e ávido de liberdade. O mestre se impacientava freqüentemente, mas perdoava em seguida. Sem compreender exatamente o que se passava no espírito do amigo, adivinhava que sua turbulenta vida fora sacudida por alguma trágica crise, e então escrevia-lhe bondosamente. Isto, porém, não fazia senão aumentar os sofrimentos de Nietzsche, que mais vivamente sentia o valor do que ia perder. Faltou-lhe a coragem, e pela segunda vez recusou o convite do mestre, o que suscitou em Bayreuth uma indignação cujos ecos chegaram até ele.
Fiquei sabendo — escreve a um amigo — que se ocupam de mim novamente e que me julgam insociável e com um humor igual ao de um cão sarnento. Realmente, não posso ser de outro modo, quando se trata de certas pessoas que prefiro ver de longe do que de perto.
O leal Gersdorff, leal em tudo, tanto ao mestre como ao discípulo, escreveu a este, suplicando-lhe que fosse a Bayreuth. Nietzsche afastou o insistente pedido com um gesto de protesto.
Como lhe pode ter ocorrido, querido amigo, a estranha idéia de me obrigar, sob ameaça, a passar em Bayreuth uns dias deste verão?… Nós dois sabemos que Wagner é naturalmente inclinado à desconfiança, e não me parece oportuno avivá-la mais ainda. Pense, enfim, que tenho deveres para comigo mesmo, deveres difíceis de cumprir quando se tem uma saúde tão precária como a minha. Em verdade, ninguém tem o direito de me obrigar a coisa alguma…
Estas rebeliões furavam apenas um momento; Nietzsche não tinha a força de romper. Desejava, de todo o coração, conservar a amizade de Wagner. Se deixara de ir a Bayreuth, não o fizera sem se escusar, invocando demoras inevitáveis e pretextando urgentes ocupações, procurando, assim, preparar os acontecimentos que pudessem sobrevir de futuro. Pelos fins de julho, tendo recebido um novo convite, e cansado já de se defender, foi. Uma singular idéia lhe ocorreu então. Desejava simplesmente afirmar a sua independência, ou queria corrigir Wagner? É provável que, naquele momento, concebesse o sonho inaudito de influenciar seu mestre, purificá-lo e elevá-lo até à altura das abnegações que ele mesmo havia inspirado. Tomou uma partitura de Brahms, a quem admirava e a quem os ciúmes, às vezes cômicos, de Wagner perseguiam; colocou-a na maleta, e, desde a primeira noite que passou em Bayreuth colocou-a ostensivamente sobre o piano. A partitura estava encadernada em vermelho vivo; Wagner viu-a e, sem dúvida, compreendeu, mas teve a prudência de não dizer nada. No dia seguinte, Nietzsche recomeçou a manobra. Isto era já demais. O grande homem estourou; gritou, rugiu em um frenesi de ira, e saiu batendo com a porta. Nisto, encontrou-se com a irmã de Nietzsche, que fora com ele, e, repentinamente caçoando consigo mesmo, contou alegremente a anedota:
— "Seu irmão havia posto de novo a partitura vermelha sobre o piano e foi ela a primeira coisa que vi, ao entrar no salão. Entrou imediatamente em furor, como um touro diante de um pano encarnado. Compreendi claramente que Nietzsche queria fazer-me compreender que aquele homem, Brahms, também compusera boa música, e estourei, o que se chama estourar!"
E Wagner ria ruidosamente enquanto a senhorita Nietzsche corria desolada em busca de seu irmão.
— Que é que você fez, Frederico? Que aconteceu?
— Ah, Lisbeth! Wagner não soube ser grande!… Tendo rido, Wagner acalmara-se e naquela mesma noite
se reconciliou com enfant terrible. Nietzsche, porém, não tinha ilusões ao apertar a mão do mestre: o abismo que os afastava era cada vez mais profundo, e mais ameaçadora a separação definitiva.
Partiu de Bayreuth. Sua saúde, que fora regular durante o mês de agosto, tornou a ressentir-se em setembro, e, mal ou bem, trabalhou e corrigiu as provas de seu Schopenhauer\ que publicou em outubro.
Por meu livro, você perceberá perfeitamente — escreveu à senhorita de Meysenbug — as provações que tive de suportar neste ano, provações mais cruéis e mais graves do que você poderá adivinhar ao ler-me. Em suma, minha vida está privada de sol, não obstante, porém, avanço, e já é uma grande felicidade avançar pelo caminho do próprio dever… Agora estou tratando de me ilustrar sobre o sistema de forças antagônicas em que repousa o nosso "mundo moderno". Felizmente, careço de toda a ambição política ou social; nenhum perigo me ameaça, nada me inclina ou obriga a transigências nem delicadezas. Tenho, enfim, o campo livre na minha frente e algum dia saberei até que ponto os nossos contemporâneos, tão orgulhosos de sua liberdade de pensamento, toleram os pensamentos livres... Qual não será o meu ardor quando, enfim, me tenha despojado de tudo o que há em mim de negativo e de indômito! E, no entanto, me atrevo a esperar que dentro de uns cinco anos estarei muito próximo desta meta!
Era esta uma esperança muito carregada de sombras. Frederico Nietzsche, ávido de possessão, impaciente por agir, tinha que fazer frente a cinco anos de espera, de árido trabalho e de critica, "Trinta anos — escreve num livro de notas. — A vida começa a converter-se num negócio difícil. Não encontro motivo algum de alegria, e, não obstante, deve haver sempre um motivo de alegria."
Regressou a Basiléia, e reiniciou suas aulas. Esta tarefa," que sempre lhe havia sido pesada, se fez ainda mais acabrunhadora, ao encarregarem-no de dar aulas de grego a uma turma de alunos mais jovens. Tinha consciência do alto valor do seu tempo, e sabia que cada hora sacrificada à Universidade aumentava o prazo, já tão dilatado, de cinco anos. Cada uma destas horas o fazia sofrer como um remorso, como uma falta ao seu dever de escritor.
Tenho diante de mim material para cinqüenta anos de bom trabalho — escrevia a sua mãe no outono — e eis que tenho de me submeter ao jugo, podendo apenas lançar uma olhadela para a direita ou para a esquerda, Ah! (Suspiro). O inverno chegou depressa, muito depressa e muito rude. Provavelmente fará frio no Natal. Desgostá-la-ia se a fosse ver? Sinto-me feliz só em pensar em voltar para a companhia de vocês, livre por dez dias deste maldito trabalho da Universidade. , Prepare-me, então, para o Natal, um cantinho no campo, onde possa terminar a minha vida em paz, escrevendo formosos livros. Ah! (Suspiro).
Nestes momentos de prostração voltavam a dominá-lo a lembrança de Wagner e da existência quase serena que desfrutara em sua intimidade. A glória do mestre, diminuída por um momento, ressurgia com novo vigor; o público inclinava-se ante o êxito, e Nietzsche, que havia lutado nas horas difíceis, tinha que se, deixar de lado na hora do triunfo. A idéia de que a arte wagneriana estava ao seu alcance, oferecendo sempre o milagre dos seus quinze mundos encantados; o pensamento de que o próprio Wagner ali estava, oferecendo-se também, sempre genial, exuberante, cheio de regozijo, terno, sublime, acariciador, e criando em torno de si a vida, como um deus; o pensamento de que ele, Nietzsche, havia possuído tanta beleza e que, com um pouco de covardia poderia possuí-la ainda, mas que jamais a possuiria — eram, para Nietzsche, um perpétuo sofrimento. Afinal, cedendo a uma necessidade de efusão cordial, escreveu ao único consolador, a Wagner. Como todas as suas outras cartas, esta se perdeu, ou foi destruída, mas o tom daquela que acabamos de transcrever e o da resposta de Wagner ajudam a imaginar qual foi a sua eloqüência. Wagner respondeu:
Querido amigo:
Sua carta inquietou-nos novamente a seu respeito. Em seguida, minha mulher lhe escreverá mais extensamente do que eu o faço. Tenho, porém, um quarto de hora de descanso e quero — quem sabe se para o aborrecer mais — consagrá-lo a deixá-lo mais ao corrente do que aqui falamos a seu respeito. Entre outras coisas me parece que,jamais tive na minha vida a sociedade intelectual que você encontra em Basiléia para o regozijo dos seus serões; não obstante, se todos os que a formam são hipocondríacos, confesso que a coisa não me parece demasiado apetecível. Segundo parece o que falta a vocês, jovens de hoje, são as mulheres. Bem sei que há dificuldade em consenti-las, pois, como dizia meu amigo Sulzer: "onde encontrar mulheres sem roubá-las?" Por outro lado, em caso de necessidade, se poderiam roubar. Quero dizer que você deveria casar-se, ou compor uma ópera. Pára você uma coisa seria tão boa, ou tão má como a outra. No entanto, considero melhor o matrimônio.
Entrementes, poderia recomendar-lhe um paliativo, pois sei que você põe acima de tudo o seu regime de vida, de tal modo que nada se lhe pode dizer. Por exemplo: organizamos nossa casa aqui de tal forma que temos para você um lugar como jamais se me ofereceu nos momentos mais difíceis da minha vida. Você devia vir passar nele suas férias de verão. Mas, com muita prudência você já nos anunciou, desde o começo do inverno, que resolvera ir passar as férias do estio no cimo de uma muito alta e muito solitária montanha da Suíça. Não tem isto o ar de uma sagaz defesa contra um possível convite? Nós lhe poderemos ser úteis em alguma coisa. Porque despreza o que se lhe oferece de tão boa vontade? Gersdorff e toda a turma de Basiléia se sentiriam muito à vontade aqui. Há mil coisas interessantes para ver; eu passo em revista todos os meus cantores dos Nibelungos; o decorador decora, o maquinista manipula, e, por fim, aqui estamos nós em carne e osso.
Mas, as extravagâncias do amigo Nietzsche já são conhecidas!
E, assim, não falarei mais de você, sabendo, como sei, que isso de nada lhe serve.
Por Deus! Case-se com uma mulher rica! Por que fatalidade pertencerá Gersdorff justamente ao sexo masculino?! Case-se e viaje logo e enriqueça-se com todas essas magníficas impressões que tanto deseja, e em seguida… você comporá uma obra que, seguramente, será terrivelmente difícil de executar. Que Satanás foi que fez de você um pedagogo?
E agora, para terminar: no próximo ano, no verão, ensaios completos (provavelmente com orquestra), em Bayreuth. Em 1876, as representações. É impossível andar mais depressa.
Eu tomo banho diariamente; já não podia suportar à minha barriga. Banhe-se você também) Coma carne também!
Seu de todo o coração.
Seu devoto,
R. W.
Wagner previra que sua carta seria inútil, mas não que seria prejudicial. Nietzsche se arrependeu de haver provocado oferecimento tão ternos e que ele não poderia aceitar. Ao escrever ao mestre, cometera uma fraqueza de que se envergonhava. Finalmente, o anúncio da proximidade dos ensaios de Bayreuth, acabaram de o transtornar. Iria? Não iria? E se não ia, como se escusar. Devia, então, confessar tudo?
Havia começado uma quarta "Extemporânea", Nós, os filólogos; não tardou, porém, em abandoná-la, alegando, para explicar esse abandono, a fadiga e o encargo de suas tarefas universitárias. Quando fala assim, Nietzsche ou se engana, ou nos engana. Havendo chegado o Natal, vai passar os dez dias junto de sua mãe, em Naumburg. Está livre, e poderia trabalhar, mas, ao invés de escrever, compõe e transcreve pára quatro mãos o seu Hino à Amizade? Passa a festa de São Silvestre relendo suas composições da juventude; este exame lhe interessa. "Sempre admirei — escreve à senhorita de Meysenbug, — a maneira como se manifesta na música a invariabilidade do caráter. Aquilo que uma criança exprime musicalmente é, a tal ponto, a linguagem de sua natureza essencial, que o homem, mais tarde, hão deseja corrigir nada."
Esta libertinagem musical é sinal de má disposição, de debilidade e temor diante de seus pensamentos. Duas cartas, uma de Gersdorff e outra de Cosima Wagner, chegam para turbar sua solitária comemoração. O amigo e a amiga lhe falam de Bayreuth. Este apelo desespera-o.
Ontem — escreve à senhorita de Meysenbug — primeiro dia do ano, vi o futuro com um estremecimento real. É terrível e perigoso viver … de bom grado invejaria a todo aquele que tivesse acabado de morrer de um modo honrado. Além disso, estou resolvido a viver muito tempo, tenho muito que fazer. Não é, porém, a satisfação de viver que me ajudará a chegar à velhice. Você, sem dúvida, compreenderá esta resolução.
Durante janeiro e fevereiro de 1875, Nietzsche não trabalha. Entrega-se, à depressão: "Em raros momentos — escreve — dez minutos em cada duas semanas, componho um hino à solidão. Hei de mostrá-la em toda a sua espantosa beleza."
Em maio, Gersdorff vai passar uma temporada em Basiléia. Animado com a sua chegada, Nietzsche ditou-lhe algumas notas. Parecia um pouco aliviado de sua tristeza, mas vim novo pesar voltou a submergi-lo nela.
Havia contraído o costume muito doce e de acordo com seu gosto, de fazer vida em comum com seus dois colegas Overbeck e Bomundt, que formavam aquela sociedade intelectual de que Wagner falava com tanta estima. Em fevereiro do 1875, porém, Bomundt anunciou a Nietzsche e a Overbeck que ia separar-se deles para receber ordens religiosas. Nietzsche teve um momento de estupor e de Indignação; desde muitos meses vivia com esse homem, chamava-o seu amigo, e, no entanto, não havia suspeitado desta vocação secreta, repentinamente declarada. Romundt se escondera dele; subjugado pela fé religiosa, havia faltado à boa fé mais elementar e àqueles deveres de amizade que Nietzsche elevara à categoria de uni ideal exaltado.
A traição de Romundt recordou-lhe outra traição e lhe fez compreender melhor a notícia que se murmurava entre os "wagnerianos: o mestre ia compor um mistério cristão, um Parsifal. Nada podia contrariar tanto Nietzsche, como um retorno ao cristianismo; nada lhe parecia tão fraco e covarde como essa renúncia diante de todos os problemas da vida.
Alguns anos atrás conhecera e amara os projetos diferentes com que Wagner entretinha seus íntimos; falava, então, de Lutero, do grande Frederico; desejava glorificar um herói alemão e repetir o afortunado ensaio de Os Mestres Cantores, Por que havia abandonado seus projetos? Por que preferia Parsifal a Lutero? E a religiosidade do Santo Graal à vida rude e jocunda da Renascença germânica? Frederico Nietzsche compreendeu então e mediu os perigos do pessimismo que acostuma às queixas, que debilita as almas e as predispõe às consolações místicas. Censurou-se, então, por haver ensinado a Romundt uma doutrina demasiado cruel para a sua coragem, provocando, assim, seu desfalecimento.
Ah! nossa atmosfera protestante, boa e pural — escreve a Rohde. — Jamais havia sentido tão intensamente o quanto estou cheio do espírito de Lutero. E o desgraçado volve as costas a tantos gênios libertadores! Pergunto se ele estará em seu perfeito juízo, se não seria necessário tratá-lo com água fria e duchas — de tal maneira é incompreensível para mim que semelhante espectro se levante ao meu lado e se apodere de um homem que há 8 anos é meu camarada. E, para cúmulo, é sobre mim que pesa a responsabilidade desta conversão aviltadora. Deus sabe que nenhum pensamento egoísta me leva a falar assim; porém, eu creio representar também uma coisa sagrada, e sentiria profunda vergonha se merecesse a acusação de ter o menor contado com esse catolicismo que odeio profundamente.
Tentou demover o convencer o seu amigo, mas nenhuma discussão era possível, pois Romundt Mp respondia e mantinha sua resolução. Na data fixada, partiu. Nietzsche escreveu a Gersdorff e contou essa partida:
Aquilo foi terrivelmente triste: Romundt sabia e repetia-o constantemente que, desde então, toda a felicidade e o melhor de sua vida, ele já o havia vivido.
Chorava muito e pedia-nos perdão. Não podia ocultar sua tristeza. No último instante me senti possuído de verdadeiro terror: os empregados fechavam .as portinholas dos vagões, e Romundt, para nos falar ainda, quis abaixar o vidro, mas este resistia aos seus esforços; nosso amigo redobrou-os e, enquanto se atormentava inutilmente para se fazer ouvir, o trem partiu lentamente e nós ficamos reduzidos a fazer sinais. O espantoso simbolismo de toda esta cena me comoveu profundamente, como também a Overbeck (mais tarde ele confessou isso); era apenas suportável; no dia seguinte fiquei deitado, com uma dor de cabeça que durou trinta horas, e numerosos vômitos de bílis.
Aquele dia de doença foi o primeiro de uma longa crise. Nietzsche se viu obrigado a partir de Basiléia para procurar repouso na solidão das montanhas e dos bosques. "Ando sempre só — escreve — esclarecendo muitas das minhas idéias…" Quais eram essas idéias? Podemos pressenti-lo:
"Mande-me uma palavra de consolo — escreve a Rohde; — que sua amizade me ajude a suportar melhor esta horrível história. Feriram-me no sentimento da amizade. Odeio mais que nunca essa insincera e hipócrita maneira de ser de muitas amizades, e terei que ser mais circunspeto para o futuro."
A senhorita Nietzsche, que havia passado o mês de março em Bayreuth com os Wagner, foi buscar seu irmão, cujo estado de ânimo a assustou. Parecia obcecado pela lembrança de Romundt. "Entre amigos, vivendo sob o mesmo teto! — dizia constantemente — suceder uma tal desgraça! É espantoso!" Em realidade, Nietzsche pensava no outro amigo, em Richard Wagner, o mestre que ia perder.
"Que perigo corri — dizia; — eu admirava, era ditoso, me entregava, seguia uma ilusão; mas todas as ilusões estão ligadas entre si e são cúmplices; o wagnerismo confina com o cristianismo…" Sem cansar-se nunca, ouvia sua irmã que falava das maravilhas de Bayreuth, da atividade, do entusiasmo e da alegria de todos. Um dia, passeando com ele pelo jardim público contava-lhe, pela décima vez todas essas coisas, quando percebeu que seu irmão a ouvia com uma emoção estranha. Interrogou-o, aborreceu-o com perguntas — e . o segredo que Nietzsche guardava havia um ano, escapou numa grande e eloqüente queixa. De repente, calou-se. Observara que um transeunte o seguia e espiava. Arrastou precipitadamente sua irmã, aterrado diante da idéia de que suas palavras iam ser repetidas em Bayreuth. Alguns dias mais tarde, havendo reconhecido o transeunte curioso, soube seu nome: era Ivan Turgueneff.
O mês de julho de 1875, época fixada para os ensaios da Tetralogia, se aproximava, e esses ensaios eram a única preocupação dos amigos de Nietzsche, o único tema de suas cartas e de suas conversas. Ele continuava dissimulando e não se atrevia a cortar pela raiz um mal que precisava resolver urgentemente. Iria ou não àqueles ensaios? Seu nervosismo crescia todos os dias, com os sintomas de costume: dor de cabeça) insônia, vômitos, fortes dores de estômago. Finalmente, ii saúde lhe serviu de desculpa. "Já que você vai a Bayreuth escreveu a Gersdorff — diga a eles que eu não irei. Wagner ficará muito aborrecido e eu não o estou menos…" Desde os primeiros dias de julho, enquanto seus amigos se aprontavam era direção a Bayreuth, e tendo a Universidade fechado as portas, Nietzsche se retirou para uma pequena estância climatérica que o médico lhe recomendara, Steinabad, um lugar perdido num vale da Floresta Negra.
Frederico Nietzsche possuía a faculdade de se superpor por alguns instantes, às suas dores e alegrias; sabia gozar o espetáculo de suas crises como se fossem as vozes entrelaçadas de uma sinfonia. Cessava, então, de sofrer e contemplava, com uma espécie de arroubo místico, o desenvolvimento trágico de sua existência. Tal foi sua vida durante as poucas semanas de cura em Steinabad. Não obstante, sua saúde não lhe proporcionava nenhum motivo de alegria; seu mal resistia a todos os remédios, e os médicos deixavam adivinhar uma causa idêntica, inapreciável e misteriosa» como origem de todas as crises, file não ignorava qual" a enfermidade que destruíra seu pai aos trinta e seis anos. Compreendia as meias palavras e sentia a ameaça, mas fazia entrar essa mesma ameaça no espetáculo do sua vida e enfrentava-a valentemente.
Steinabad é próximo de Bayreuth; e novamente a tentação voltou a se apoderar de Nietzsche. Iria? Não iria? Esta indecisão foi suficiente para que, pelos fins de julho, uma terrível crise, que o reteve dois dias na cama, pusesse fim a suas dúvidas. Em primeiro de agosto, escrevia a Rohde: "Hoje, querido amigo, se não me. engano, vocês se encontrarão todos em Bayeruth, sem mim, e notando minha falta. Em vão acreditei poder surgir de repente entre vocês e gozar da surpresa. Em vim: hoje, cm meio do meu tratamento, posso dizê-lo com certeza . ."
A crise se atenuou. Pôde levantar-se e passear pelos bosques. Havia levado consigo o Dom Quixote, leu esse livro, "amargo entre todos", burla de Iodos os esforços nobres. Não obstante, conservou o seu valor. Sem sentir uma dor demasiado viva, recordou seu passado creio de alegrias; afrontou sem medo o futuro ameaçador; pensou naquela grande obra sobre o helenismo, velho sonho que não abandonava; pensou na série interrompida das Considerações Extemporâneas e, sobretudo, deliciou-se em conceber o "belo livro" que havia de escrever quando se sentisse seguro de si mesmo. Devo sacrificar tudo a essa obra — pensava. Desde alguns anos tenho escrito muito, demasiado; e enganei-me com freqüência. Agora devo me calar e consagrar muitos anos ao trabalho: sete, oito anos. Viverei tanto tempo? Dentro de oito anos, terei quarenta. Meu pai morreu quatro anos antes. Não importa, devo aceitar o risco e o perigo. O tempo do silêncio chegou para mim. Difamei muito os homens modernos, e, no entanto, sou um deles, sofro com eles e como eles, por causa do excesso, da desordem e de meus desejos. Já que devo ser seu mestre preciso, antes de tudo, dominar-me a mim mesmo e reprimir minha desordem. Para dominar meus instintos devo conhecê-los e julgá-los; devo sujeitar-me à análise. Critiquei a ciência e exaltei a inspiração, mas não analisei as fontes da inspiração, e a que abismos não a segui! Minha juventude era a minha desculpa; agora, a juventude terminou. Rohde, Gersdorff e Overbeck estão em Bayreuth; invejo-os, mas tenho pena deles. Já passaram da idade dos sonhos, e não deveriam estar lá. Que tarefa devo empreender agora? Estudarei as ciências naturais, as matemáticas, a física, a química, a história e a economia política. Acumularei um material imenso para conhecer o homem; lerei velhos livros de história, novelas, correspondências… O trabalho será rude, mas terei constantemente perto de mim Platão, Aristóteles. Goethe e Schopenhauer, e graças aos meus gênios bem amados, minha pena será menos dura e minha solidão (menos solitária. ..
Quase todos os dias os pensamentos de Frederico Nietzsche eram distraídos por uma carta de Bayreuth que recebia e lia sem amargura. Em algumas notas, escritas somente para ele, fixou a recordação das alegrias que devia a Wagner; depois, respondendo a seus amigos, diz:
Durante as três quartas partes de meus dias estou com vocês em espírito pois dou voltas, como uma sombra, em redor de Bayreuth. Não receiem excitar a minha inveja contando-me todas as notícias, meus queridos amigos. Durante os meus passeios, dirijo a mim mesmo páginas inteiras de música que sei de memória e logo resmungo e blasfemo. Saúdem Wagner em meu nome, saúdem-no de todo o coração! Adeus, amigos queridissimos. Quero-os a todos com toda minha alma.
Nietzsche regressou a Basiléia um tanto fortificado pelo repouso. Sua irmã ali se reuniu a ele e quis permanecer ao seu lado. Entre os seus papéis, seus livros e seu piano, continuou levando a vida puramente de meditação e quase ditosa de Steinabad.
"Sonho — escreve grifando estas palavras — com uma associação de homens absolutos, que não conheçam dificuldade alguma e queiram ser chamados "os destruidores"; a tudo eles aplicarão a medida de sua crítica e se sacrificarão á verdade! Tudo o que é suspeitoso e falso, deve ser trazido à luz!
Não queremos construir prematuramente. Não sabemos se poderemos construir, ou se mais vale não construir. Há pessimistas covardes, resignados. Nós não queremos ser destes."
Começou os grandes estudos que se impusera. Começou por estudar o livro de Dühring O valor da vida. Dühring é um positivista que dirige a batalha contra os discípulos de Schopenhauer e de Wagner:
"Todo o idealismo decepciona — diz ele; — toda a vida que se quer evadir da vida, entrega-se às quimeras". Frederico Nietzsche nada objeta a (estas premissas. "A vida sã traz em si própria o seu valor — diz Dühring —. O ascetismo é enfermiço e conseqüência de um erro…" Não! — responde Nietzsche — o ascetismo é um instinto que os mais nobres e mais fortes dos homens sentiram! É um fato que se deve ter em conta se se quiser apreciar o valor da vida, e mesmo se um erro prodigioso se escondesse no seu.fundo, a possibilidade de semelhante erro deveria ser contada entre os obscuros traços do ser… O trágico da vida não é irredutível, diz Dühring; a soberania do egoísmo não é senão aparente; os instintos altruístas trabalham a alma humana…
O egoísmo, uma aparência!… exclama Nietzsche. Aqui, Dühring cai no infantilismo.
Ich wollte, er machte mir hier nichts vor . Prouvera a Deus que isso fosse verdade! Infelizmente, carece de sentido. "Se Dühring acredita seriamente no que diz, acha-se maduro para todos os socialismos." Nietzsche termina por argumentar contra Dühring com a filosofia trágica que Heráclito e Schopenhauer lhe ensinaram. Não há evasão possível, toda a evasão ,é engano e covardia, disse Dühring, e disse verdade. Atenua, porém, a tarefa apresentando uma imagem amenizada desta vida a (me estamos sujeitos. A vida é dura, e tudo o mais é tolice ou mentira
Frederico Nietzsche era ditoso ou parecia sê-lo. Como o cuidado com os seus olhos não lhe permitia trabalhar de noite, sua irmã lhe lia romances de Walter Scott. Agradava–lhe neles a narração simples, "a arte serena, o andante", segundo escreve. Agradavam-he também as aventuras heróicas, ingênuas e complicadas: "Que bons moços! E que estômagos!" — exclamava ele? depois de ouvir a leitura relatando os intermináveis festins. E a senhorita Nietzsche, que ú via em tão boa disposição, assombrava-se um instante mais tarde, ao ouvi-lo tocar e desenvolver o seu Hino à Solidão.
E não se surpreendia a toa: a alegria de seu irmão era falsa e a tristeza verdadeira. Nietzsche dissimulava diante dela, e, sem dúvida, diante de si próprio. Ele havia começado a estudar o livro de B. Stewart sobre a conservação da energia, mas interrompera-se nas primeiras páginas. Era-lhe intolerável trabalhar assim, sem o "consolo de uma arte nem a alegria real de uma esperança. Acreditou que se interessaria mais pela sabedoria hindu, e pegou a tradução inglesa do Sutta Nipata; não compreendeu demasiado bem senão o seu niilismo radical: "Quando estou doente, na cama — escreveu a Gersdorff em dezembro — deixo-me dominar pela crença de que a vida não vale nada e de que nossos fins são ilusórios…" Estas crises eram freqüentes; a cada quinze dias era atacado e moído por sua enfermidade: enxaquecas, fortes dores no estômago, pontadas nos olhos.
"Ando de cá para lá, só, como um rinoceronte!" — Nietzsche retivera e aplicava a si próprio, com triste humorismo, esta frase que finaliza um dos capítulos do Sutta Nipata.
Seus melhores amigos casavam-se por aquela época. Nietzsche maldizia de bom grado o casamento e as mulheres. Raramente a gente é sincera quando fala assim, 6 sabemos que ele não o era. "Tenho amigos mais numerosos e melhores do que mereço — escrevia em outubro de 1874 à senhorita de Meysenbug — o que agora desejo para mim mesmo, com urgência, digo-o a você confidencialmente, é uma boa esposa. Então, a vida ter-me-á dado quanto poderia desejar dela; o demais é assunto meu." Frederico Nietzsche felicitou os noivos, Gersdorff, Ronde, Overbeck, e regozijou-se com eles, sem deixar de sentir a diferença do seu destino. "Seja feliz — escreveu a Gersdorff — você, que não andará mais errante, de um lado pára outro, como um rinoceronte."
Ia começar o ano de 1876, e as representações da Tetralogia estavam anunciadas para o verão. Frederico Nietzsche sabia que sua irresolução deveria, então, estar terminada: "Achava-me dominado — escreveu mais tarde — pela tristeza de um inexorável pressentimento, do pressentimento de que, depois daquela desilusão, ver-me-ia condenado a desconfiar mais profundamente, a desprezar mais profundamente e a viver mais profundamente só do que antes."
A impressão das festas de Natal e São Silvestre, sempre forte nele, agravou sua melancolia. Caiu doente em dezembro para não se levantar senão em março, e ainda muito fraco.
Serei breve, pois escrevo com esforço — escreve á Gersdorff em 18 de fevereiro de .1876. — Jamais atravessei um Natal tão triste, tão doloroso e de tão temível presságio! Não posso mais duvidar: a enfermidade de que estou atacado é cerebral: o estômago e os olhos não me fazem sofrer senão por causa de outro mal, cujo centro se acha em outra parte. Meu pai morreu aos trinta e seis anos, de uma inflamação no cérebro. É possível que comigo as coisas andem ainda mais rapidamente. Tenho paciência, mas estou cheio de dúvidas sobre o que me aguarda. Alimento-me quase unicamente de leite. Este regime me deu bom resultado: durmo bem. 6 leite e o sono são, agora, os meus bens mais preciosos.
Ao aproximar-se a primavera, desejou afastar-se de Basiléia. Gersdorff se ofereceu para o acompanhar e os amigos se instalaram juntos, na margem do lago de Genebra, em Chillon.
Ali passaram quinze dias lamentáveis. Nietzsche, cujos nervos se irritavam com a menor variação atmosférica, mais ou menos úmida, ou mais ou menos carregada de eletricidade, sofreu com o "Föhn", vento ligeiro que derrete as neves em março. Deixou-se deprimir por sua branda temperatura, e não soube conter a dilaceradora expressão de suas dúvidas e angústias. Gersdorff, obrigado a regressar à Alemanha, partiu, inquieto com o estado em que deixava o seu amigo.
Nietzsche, porém, sentiu-se melhor logo que ficou só. Talvez o tenha ajudado um tempo mais propício; talvez sentisse menos aflição não tendo perto de si aquele compassivo Gersdorff, sempre disposto a ouvi-lo. Seu estado de ânimo se tornou menos amargo e o acaso lhe proporcionou um socorro decisivo, uma hora libertadora.
A senhorita de Meysenbug acabava de publicar suas Memórias de uma Idealista. Nietzsche metera na mala os dois volumes da obra. Ele queria muito, e cada ano mais, àquela mulher de cinqüenta anos, sempre enferma e valorosa, delicada e boa. Não a admirava como a Cosima Wagner. A superioridade do seu espírito não era tão brilhante. Era, porém, grande de coração e Nietzsche estimava verdadeiramente esta mulher fidelíssima ao verdadeiro gênio das mulheres. Começou a leitura do seu livro, sem dúvida como uma moderada curiosidade; mas logo se sentiu dominado pela obra, um dos mais belos testemunhos do século XIX. A senhorita Meysenbug vivera-o em todos os sentidos: conhecera todos os seus mundos, todos os seus heróis, todas as suas esperanças. Nascera na velha Alemanha das pequenas cortes, numa das quais seu pai era ministro; em menina, escutara os amigos de Humboldt e de Goethe; em moça, comovera-a a predicação humanitarista; afastada do cristianismo, deixara de observar suas práticas. Os sonhos de 1848, os socialistas e suas tentativas de uma vida mais nobre e fraternal, despertaram-lhe admiração e quis trabalhar com eles. Criticada pelos seus, afasta-se deles e parte, sozinha, sem pedir ajuda nem conselhos. Idealista de ação, e não de fantasia, une-se aos comunistas de Hamburgo, institui com eles uma espécie de cortiço, uma escola racionalista em que os professores vivem juntos, e esta escola, dirigida por ela, prospera. Ameaçada pela polícia, vê-se obrigada a fugir para Londres, obscuro refúgio dos proscritos de todas as raças, e túmulo dos vencidos. Passa a ganhar a vida lecionando; conhece Mazzini, Louís Blanc, Herzen; é a amiga e consoladora destes homens desgraçados. Logo depois, vem o Segundo Império, Napoleão III, Bismarck e o silêncio dos povos, Paris e sua brilhante cultura. A senhorita de Meysebug encontra-se com Richard Wagner; desde muito tempo admirava a sua música, e agora admira o homem, ouve-o, sofre a sua ascendência, e, renunciando ao culto da humanidade, consagra o seu fervor ao culto da arte. No entanto exerce e prodigaliza sempre sua bondade ativa. Herzen morre deixando dois filhos. A senhorita de Meysenbug adota-os, não hesitando em arcar com as responsabilidades de uma dupla maternidade. Frederico Nietzsche conhecera as duas crianças e com freqüência admirara a ternura de sua amiga, sua abnegação livre e jamais desmentida— não conhecia, porém, os detalhes daquela vida totalmente consagrada à abnegação.
A leitura deste livro reanimou-o. A senhorita de Meysenbug reconcilia-o com a vida; e ele novamente recobra a saúde e a confiança. "Minha saúde — escreve a Gersdorff — está ligada a minhas esperanças: sinto-me bem quando espero." Abandona a pensão e vai passar alguns dias em Genebra. Encontra ali um amigo, o músico Senger; trava conhecimentos, também, com alguns franceses, partidários da comuna, proscritos, com os quais lhe agrada conversar. Estima aqueles fanáticos de cérebro quadrado, mas prontos ao sacrifício. Ao que parece, entabula uma escaramuça amorosa com duas russas "excêntricas"; depois, regressa a Basiléia, e a primeira carta que escreve é para a senhorita de Meysenbug:
Basiléia, Sexta-feira Santa, 14 de abril de 1876.
Querida Senhorita:
Faz quatro dias mais ou menos, encontrando~me só, na margem do lago de Genebra, passei todo um domingo junto de você, desde a primeira hora da manhã, até á noite banhada de luar. Li seu livro de ponta a ponta, com atenção maior em cada página e sem cessar de repetir a mim mesmo, que jamais havia passado um domingo mais santo. Você fez chegar até mim uma impressão de pureza e de amor que não me deixou mais. A natureza, no dia em que li sua obra, parecia um reflexo desta impressão. Você estava diante de mim, como uma forma superior do meu ser, uma forma muito superior, e, que, não obstante, sem me humilhar, me animava; assim atravessava meus pensamentos, e, comparando minha vida com a sua, compreendia melhor o que me faltava: tantas, tantas coisas! Agradeço-lhe, muito mais do que o poderá fazer por um livro.
Eu estava doente, duvidoso de minhas energias e dos meus fins; acreditava que me seria necessário renunciar a tudo, e meu maior temor era a duração de uma vida da qual só me sobrava um peso horrível depois de renunciar aos seus fins mais elevados. Agora sinto-me mais são e mais livre, e considero, sem me torturar, os deveres que tenho pela frente. Quantas vezes desejei vê-la perto de mim para lhe fazer uma pergunta à qual só um ser moralmente mais elevado, do que eu poderia responder. Seu livro traz resposta para algumas das questões que me dizem respeito. Não creio que jamais possa me sentir satisfeito de minha conduta se não conseguir, antes, a sua aprovação. É possível, porém, que seu livro aja para mim um juiz mais severo do que o seria voa3 mesma. Que deve fazer um homem se comparando a sua vida com a de você, não quer ser acusado de falta de virilidade? Faço esta pergunta com freqüência: Deve fazer lado o que você fez, e nada mais? Mas não o conseguirá, decerto; falta-lhe esse guia seguro, o instá-lo no amor constantemente disposto a dar-se. Um dos temas morais mais elevados (eines der höchsten Motive), Que descobri graças a você, é o amor maternal sem vínculo físico entre a mãe e o filho. É uma das mais esplêndidas manifestações da caritas. Conceda-me, querida senhora, e amiga, um pouco deste amor e veja em mim num daqueles que maior necessidade têm de ser filhos de semelhante mãe.
Muitas coisas teremos que dizer em Bayreuth. Agora, torno a alimentar a esperança de poder voltar lá, ao passo que nestes últimos meses afastava de mim até a idéia dessa possibilidade. Como eu gostaria de ser agora, o mais são dos dois e sentir-me capaz de lhe prestar algum serviço! Porque não posso viver ao seu lado!
Adeus. Sou e continuo sendo seu sinceríssimo
Frederico Nietzsche.
A senhorita de Meysenbug respondeu imediatamente:
Se o meu livro só me houvesse produzido o prazer de suá carta, sentir-me-ia feliz em tê-lo escrito. Se passo servi-lo em alguma coisa, quero fazê-lo. No] próximo inverno, deixe Basiléia. Procure um clima mais doce e mais luminoso; sinto como você o pesar de nossa separação. No último inverno acolhi seu jovem discípulo de Basiléia, Alfredo Brenner, sempre doente. Traga-o de novo. Eu saberei encontrar para vocês dois um asilo saudável. Venha, prometa-mo.
Nietzsche escreveu sem demora: "Hoje não lhe responderei senão uma palavra: obrigado. Irei."
Tendo já um seguro refúgio, Frederico Nietzsche recobrou a segurança e a coragem.
Tornei a recuperar minha boa consciência — escreve a Gersdorff poucos dias depois do regresso. — Sei que fiz até agora tudo o que pude para me. libertar e que, trabalhando assim, não trabalhei só para mim. Quero caminhar novamente por esse mesmo caminho e nada me deterá mais; nem recordações, nem pressentimentos desesperados…
Aqui está o que descobri: a única coisa que os homens respeitam e ante a qual todos se inclinam, é uma ação nobre. Nunca, nunca transigir! O êxito profundo não se pode alcançar senão permanecendo-se fiel a si mesmo. Já sei por experiência, a influência que exerço e que, se me tornasse mais fraco ou mais cético, diminuiria a mim próprio e, ao mesmo tempo, a muitos homens que comigo se desenvolvem.
Nietzsche tinha necessidade desse orgulho para afrontar a crise iminente. Os discípulos do Mestre ofereceram a este um banquete, ao qual Nietzsche não quis assistir, tendo que se desculpar. Escreveu, pois, uma apaixonada carta, da qual talvez Wagner tivesse entendido as ocultas significações.
Faz sete anos que lhe fiz a minha primeira visita em Triebschen… E cada ano, neste mês de maio, neste mesmo dia em que festejamos o aniversário do seu nascimento, eu festejo o aniversário do meu nascimento espiritual, pois que, desde então, você vive e trabalha em mim sem cessar, como se uma nova gota de sangue tivesse penetrado minhas veias. Este elemento que de você me vem, me impele, me anima, me humilha, me aguiIhoa, e não me permite um instante de repouso, a tal ponto que talvez o censurasse por esta inquietude eterna se não soubesse que ela me impele, sem cessar para um estado melhor e mais livre.
Wagner respondeu-lhe imediatamente com algumas linhas exuberantes. Nelas narrava os brindes feitos por sua glória e as divertidas respostas que dera, com tantos jogos de palavras, despropósitos e impenetráveis alusões, que é necessário renunciar a traduzi-las.
Esta carta comoveu a Nietzsche. No momento em que a recebeu sentia-se absolutamente dono de si próprio e absolutamente seguro de seu futuro. A história dos seus últimos anos lhe pareceu, de repente, uma formosa aventura, para sempre encerrada. Considerou-a com um olhar indulgente, e, examinando as alegrias que devia a Wagner, desejou expressar-lhe seu reconhecimento. No verão anterior, em Steinahad, achando-se em idêntica disposição de ânimo, cobrira de notas algumas páginas. Apesar de uma fadiga nervosa da vista, que o impedia de trabalhar sem auxílio, retomou as notas e se entregou ao esforço de tirar delas a substância de um livro. Tentativa singular: desiludido, escreveu um livro entusiasta, ò mais formoso da literatura wagneriana. Mas um leitor prevenido reconhece, página por página qual a idéia que Nietzsche procurou disfarçar. Escreve o elogio do poeta, mas não o elogio do filósofo { para quem o sabe entender, nega o alcance educacional da obra de Wagner.
Para nós, Bayreuth significa a consagração no momento do combate — escreve ele. — O misterioso olhar que a tragédia nos dirige não é um sortilégio enervante e paralisador, mas sua influência impõe o repouso. Pois que a beleza não nos é dada para o momento do combate, mus para aqueles momentos de calma que o precedem g interrompem; para aqueles instantes fugitivos nos quais, reanimando o passado e pressentindo o futuro, penetramos todos os símbolos. Para aqueles instantes em que, com. a impressão de uma ligeira fadiga, nos subergimos num sonho apaziguante. O dia e a luta vão começar, as sombras sagradas se desvanecem, e a arte se acha novamente longe de nós, mas o seu consolo ficou esparzido sobre o homem, como o orvalho matinal…
Há uma contradição radical entre estas idéias e as que inspiraram a Origem da Tragédia. A arte não é já uma razão de viver, mas uma preparação para a vida, um repouso necessário. Três ameaçadoras linhas terminam o opúsculo de Nietzsche: "Wagner não é, como nos poderíamos sentir tentados a acreditar, o profeta de um futuro, mas sim o intérprete e glorificador de um passado." Nietzsche não pudera, reter certas confissões. Escassas e veladas, ele esperava que não fossem compreendidas, e, em verdade, essa esperança foi certa. Apenas apareceu o folheto, Wagner lhe escreveu:
Amigo,
Seu livro é prodigioso! Onde aprendeu a conhecer-me assim? Venha depressa, e fique aqui desde os ensaios até às representações.
Seu,
R. W. 12 de julho. -
Em meados de julho começaram os ensaios e Nietzsche, que não queria perder nenhum deles, partiu, apesar do precário estado de sua saúde, com uma impaciência que deve ter surpreendido sua irmã. Dois dias depois, ela recebia uma carta: "Quase me arrependo de ter vindo. Até agora, tudo tem sido mesquinho… Assisti Segunda-feira ao ensaio. Aquilo me desagradou. Tive. que sair."
Que teria acontecido? A senhorita Nietzsche aguardava com viva inquietação. Uma segunda carta veio tranqüilizá-la um pouco: "Minha querida irmãzinha, as coisas já vão indo um pouco melhor…" A última frase, porém, era estranha: "Não tenho outro remédio senão viver afastado de tudo, declinando todos os convites, inclusive os de Wagner. Ele acha que eu me deixo ver muito pouco." E quase imediatamente, chegou a última carta: "Só desejo partir. É uma insensatez permanecer aqui. Espero com espanto cada um destes intermináveis serões musicais, e, no entanto, vou ficando. Não posso mais. Não estarei aqui nem para a primeira representação. Ainda não sei para onde irei, mas tenho que ir. Tudo aqui me é insuportável."
Que teria acontecido? Será possível que o simples contato com as pessoas o tivesse afetado deste modo? Nietzsche vivia, desde dois anos, uma difícil existência "de amigo dos enigmas e dos problemas"; esquecera os homens e sofria ao encontrá-los novamente. Wagner, um titã, mantinha-os cativos, livres de todos os "enigmas", de todos os "problemas" demasiado inquietantes, e nesta sombra eles pareciam satisfeitos, sem refletir sobre nada, mas repetindo apaixonadamente as formas que lhes haviam sido ensinadas. Aos hegelianos que compareceram, Wagner se ofereceu como uma reencarnação do seu mestre. Aos schopenhauerinos haviam dito que Wagner traduzira para a música o sistema de Schopenhauer. A outros moços, que se chamavam "idealistas alemães puros", havia declarado: "A minha arte assinala a vitória do idealismo germânico sobre o sensualismo gaulês." E todos, hegelianos, schopenhauerianos e alemães puros, se punham de acordo no orgulho do triunfo: haviam triunfado! Triunfar! E Nietzsche ouvia em silêncio esta palavra extraordinária. Que homem — pensava — que raça triunfará jamais? Nem mesmo a Grécia, detida no seu ímpeto mais generoso. Qual o esforço que não fora vão? E, então, afastando o olhar da comédia, Nietzsche examinava Wagner. Aquele distribuidor de felicidade continuaria, ao menos, sendo bastante grande para se inquietar no momento da vitória? Não. Wagner era feliz porque havia triunfado; e a satisfação de um homem semelhante era sempre mais estranha e mais triste do que a da multidão.
Mas a felicidade, por baixa que seja, não deixa de ser felicidade. Uma esquisita embriaguez se havia apoderado de Bayreuth, e Nietzsche experimentara e compartilhara deslta embriaguez, e dela conservava o remorso e o desejo. Assistiu a um ensaio: a entrada no teatro sagrado, a emoção do público, a presença de Wagner, a obscuridade, as harmonias maravilhosas comoveram-no. Como continuava sendo sensível. ao contágio wagneriano! Levantando-se apressadamente, saiu. E isto explica a sua carta: "A noite passada, assisti a um ensaio; aquilo me desagradou, e tive que sair."
Um novo elemento veio aumentar a sua perturbação: Informaram-no de maneira precisa sobre o a obra Parsifal. Wagner ia converter-se ao cristianismo. Assim, em dezoito meses, Nietzsche assistia a duas conversões; mas, se Romundt era um débil e talvez a vítima de um acaso, Nietzsche sabia que Wagner não o era; nele tudo era sério e correspondia às necessidades do século. O neo-cristianismo não existia ainda. Nietzsche pressentiu-o através de Parsifal. Viu, então, o perigo que corria o homem moderno, tão inseguro de si mesmo e tentado.por essa fé cristã, tão firme, que chama, promete e pode dar a paz. Se o homem não redobrar seus esforços para descobrir em si próprio uma nova "possibilidade de vida", é fatal que recaia num cristianismo tão covarde como sua inspiração.
E então, Nietzsche viu aquele homem cuja felicidade instintivamente desprezara, ameaçados de um fracasso definitivo e levados pela mão docemente para ele, pelo mestre, pelo impostor que os subjugara. Nenhum deles sabia onde se dispunha a levá-los aquela mão poderosa; quase nenhum deles era cristão, mas todos estavam em vésperas de o ser. Ah! como ia longe aquele dia de maio de 1872 em que Richard Wagner dirigia, neste mesmo Bayreuth, a ode de Schiller e Beethoven à liberdade e à alegria!
Frederico Nietzsche foi clarividente por todos: o espetáculo daquelas vidas inconscientes desesperou-o como o espetáculo do mundo desesperava os místicos da Idade Média que tinham sempre presente ante os olhos a imagem acusadora e ensangüentada de Cristo. Tinha vontade de arrancar aquelas pessoas do torpor, adverti-las com uma palavra, preveni-las com um grito. "Devo fazer isso — pensava — pois que sou o único que percebe o que vai acontecer…"
Mas, quem lhe daria ouvidos? Calou-se, pois; dissimulou suas terríveis impressões e quis observar sem fraqueza, sem desertar, a trágica solenidade. No entanto, não pôde. Fraquejou e teve que fugir. É uma insensatez permanecer aqui. Espero, com espanto, cada um destes intermináveis serões musicais; e, não obstante, vou ficando. Não posso mais… Ainda não sei onde irei, mas tenho que ir; tudo aqui é um suplício para mim…
As alturas que separam a Boêmia da Francônia elevam-se a. algumas léguas de Bayreuth; em meio aos bosques que as cobrem acha-se situado Klingenbrunn, povoado para onde Nietzsche se retirou. A crise foi breve e menos grave do que êle temera. Havia compreendido mais claramente os perigos da arte wagneriana, e visto mais claramente o remédio. "Quando a religiosidade não é sustentada por um pensamento claro, provoca repugnância" — escreveu. Renovou suas meditações de Steinabad e robusteceu as resoluções que tomara então: desprezar o passado, resistir às seduções metafísicas, privar-se da arte, manter-se reservado sobretudo e começar duvidando, como Descartes. Depois, se fosse possível recuperar alguma certeza, edificar a nova grandeza sobre alicerces imutáveis.
Percorreu longamente os bosques silenciosos, e sua severa paz lhe serviu de ensino:
"Se não dermos às nossas almas horizontes firmes e serenos como os das montanhas e dos bosques — escreveu — nossa vida interior perderá toda, a serenidade. Será dispersiva e insaciável, como a do homem das cidades, que não conhece a felicidade nem a pode dar." Depois, lançando de repente o grito de sua alma doente, diz: "Eu restituirei aos homens a serenidade que é a condição de toda cultura. E também a simplicidade. Serenidade, Simplicidade grandeza!"!
Senhor de si mesmo novamente, Nietzsche regressou em seguida a Bayreuth, corri coragem para terminar sua experiência. Encontrou uma multidão ainda mais agitada do que no dia de sua partida. O velho imperador Guilherme havia chegado, de passagem para as grandes manobras, e fazia a Wagner a honra de duas noites. De toda a Baviera e da Erancônia, acudia o povo para saudar seu imperador, e quase se chegava a sentir fome na vila assim invadida.
As representações começaram e Nietzsche assistiu a todas. Ouvia em silêncio as conversas dos fiéis, e media o abismo que durante tanto tempo bordejara. Continuava freqüentando seus amigos: a senhorita de Meysenbug, Miss Zimmern, Gabriel Monod, Édouard Schuré, Alfred Brenner, que não deixava de observar nele uma reserva e uns- silêncios às vezes estranhos. Durante os entreatos, nas funções da tarde, isolava-se com freqüência, com uma espectadora amável e encantadora, Madame O … meio-parisiense, meio-russa. Gostava da conversação fina e imprevista das mulheres e perdoava a esta o ser wagneriana.
Schuré, que conhecera Nietzsche naquelas festas, traça-nos dele um retrato que merece ser transcrito:
"Ao falar com ele, fiquei surpreendido com á superioridade do seu espírito e a estranheza de sua fisionomia. Fronte ampla, cabelos curtos e atirados para trás, em forma de escova, maçãs do rosto salientes, de eslavo. O farto bigode caído e o talho audaz do rosto ter-lhe-iam dado o ar de um oficial de cavalaria, sem um não sei quê de tímido e altivo ao mesmo tempo, que se descobria ao entabular relações com ele. A voz musical e a fala lenta denunciavam sua organização de artista; suas maneiras prudentes e refletidas eram as de um filósofo. Nada mais enganador do, que a aparente calma de sua expressão. O olhar fixo denunciava o doloroso trabalho do pensamento. Era, ao mesmo tempo, o, olhar de um fanático, de um agudo observador e de um visionário. Este duplo caráter dava-lhe algo de inquieto e de inquietante, tanto mais que seu olhar parecia sempre cravado em um único ponto. Nos momentos de efusão, aquele olhar se bumedecia com uma doçura de sonho, mas depressa se tornava a fazer hostil… Durante os ensaios gerais e as três primeiras representações da Tetralogia, Nietzsche parecia triste e como que angustiado…"
Cada sarau terminava num triunfo, e em cada um deles, Nietzsche sentia aumentar a sua angústia. O Ouro do Reno, A Walkyria: essas obras antigas lhe recordaram a adolescência, seu entusiasmo por Wagner, a quem ainda não conhecia nem se atrevia a esperar conhecer. Siegfried: recordações de Triebschen; Wagner terminava esta partitura quando Nietzsche entrou em sua intimidade. Era o preferido de Nietzsche, entre todos os heróis wagnerianos: Via-se a si mesmo naquele jovem aventureiro que jamais conhecera o medo. "Nós somos os cavaleiros do espírito — escrevera então em suas notas — compreendemos o canto dos pássaros e seguimo-los…" Sem dúvida, sentiu-se quase feliz ouvindo Siegfried, o único drama wagneriano que podia ouvir sem remorsos. Finalmente, O Crepúsculo dos Deuses: Siegfried misturou-se a turba dos homens que o enganam; uma noite, conta-lhes ingenuamente sua vida; um traidor fere-o pelas costas e mata-o. Os gigantes ficam destruídos e os anãos vencedores, os heróis impotentes; os deuses abdicam, o ouro é devolvido às profundezas do Reno, cujas águas agitadas cobrem o mundo, e os homens, esperando a morte, contemplam o desastre universal.
Este era o final. O pano caiu lentamente, a sinfonia se apagou na noite e os espectadores se puseram em pé e gritaram para o palco as suas aclamações. Então, o pano subiu de novo e Richard Wagner apareceu, só, vestindo uma sobrecasaca e calças de linho, fazendo ressaltar sua pequena figura. Reclamou silêncio com um sinal, e todos os murmúrios cessaram.
— Mostramos-lhes o que queremos — exclamou — e o que podemos quando todas as vontades tendem para um mesmo fim. Se vocês, por sua parte, me apoiarem — terão uma arte.
Retirou-se, para reaparecer uma porção de vezes, reclamado pelos aplausos. Nietzsche contemplava seu mestre, em pé, sob a luz do palco, e era o único que não aplaudia.
__ "Eis aí — pensava,— eis ai. o meu aliado..: o Homero secundado por Platão…" O pano caiu pela última vez, e Nietzsche, silencioso e perdido entre a multidãa, seguiu a vaga, como um despojo à deriva.
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