Consciência - Filosofia e Ciências Humanas
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NUDEZ E VERGONHA



ALBERTO SIUFI JUNIOR

NUDEZ E VERGONHA

SÃO PAULO 2009

ALBERTO SIUFI JUNIOR

 

NUDEZ E VERGONHA

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Centro Universitário Claretiano para obtenção do título de graduado em Licenciatura em Filosofia. Orientador: Professor Adriano Volpini

SÃO PAULO 2009

ALBERTO SIUFI JUNIOR

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Centro Universitário Claretiano para obtenção do título de graduado em Licenciatura em Filosofia. Orientador: Prof. Adriano Volpini.

 

NUDEZ E VERGONHA

Orientador: Prof. Adriano Volpini

 

São Paulo,14 de novembro de 2009

Dedico este trabalho à minha esposa Claudia Siufi por enxergar, acreditar e impulsionar sempre. Estes estímulos que impulsionaram meus passos no mundo apaixonante da filosofia, onde me encontrei, e hoje, descanso minha alma. Agradeço por me conceder a oportunidade desta realização.

Agradeço ao meu orientador Prof. Dr. Adriano Volpini por me auxiliar no caminho deste desafio. Agradeço também aos Professores Jairo Mota e Ricardo Benedicto, e a todos os professores que de uma maneira ou de outra me mostraram que a filosofia, acima de tudo, é um exercício da alma.

E a mulher viu que o fruto da árvore era bom para comer, bonito na aparência e excelente para alcançar a sabedoria, e pegou o fruto e o comeu, e deu também a seu marido, que também o comeu. E ambos abriram os olhos e perceberam que estavam nus e tomando folhas de figueira fizeram cintas para si. [...] Deus chamou o homem e disse: “Onde estás?” O homem respondeu: “Ouvi que andavas pelo jardim e tive medo, porque estou nu, por isso me escondi”. Deus perguntou: “Quem te fez ver que estás nu? Comeste da árvore que proibi de comeres?” [...] E ao homem disse: “Por ter escutado a voz de tua mulher e comido da árvore que eu o havia proibido de comer, maldito seja o solo por tua causa, com fadiga conseguirás dele o alimento por todos os dias de tua vida. Com o suor de teu rosto comerás o pão, até que voltes ao solo, pois dele fostes tomado. Porque és pó e ao pó voltarás. (GENESIS, 3)

 

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO
1. UTI NA PRÁTICA
2. DEFINIÇÕES E A NUDEZ NO TEMPO
2.1 NUDEZ
2.2 VERGONHA
2.1 PUDOR
3. O PERÍODO DAS TREVAS -A IDADE MÉDIA E A RELIGIÃO 22
4. A ARTE COMO FORMA DE ACEITAÇÃO DA NUDEZ
CONCLUSÃO
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANEXO 1

 

INTRODUÇÃO

 

[...] Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus [...] coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais (Genesis 3:7)

Que vergonha, estou nu! Nudez não é coisa simples, ela aparece logo nas primeiras páginas da Biblia e de outros textos fundadores da civilização, afirma Marcelo Bortoloti em sua reportagem para a revista Veja em dezembro de 20081. A verdade é que se Ulisses, personagem de Homero, naufragasse hoje e aparecesse nu diante de sua princesa Nausícaa assim como foi relatado na Odisséia, ainda sentiria uma vergonha e um desconforto enorme. O fato de ter passado mais de 2500 anos não mudaria a sensação de desconforto do herói e, pelo contrário, sentiria uma culpa religiosa que não existia naqueles tempos. O resultado de morder o fruto proibido é o sentimento da vergonha, fraqueza e derrota diante de si mesmos e de Deus. Percebemos como é imoral estar nu. Todos nós já sentimos vergonha por alguma coisa. E isso parece ser normal. Quantas vezes não nos sentimos “nus” diante dos olhos dos outros? Este sentimento de vergonha e pudor, é o que Dietrich Bonhoeffer identifica como a indestrutível lembrança do ser humano da sua separação da origem, é a dor decorrente desta separação e o desejo impotente de desfazê-la2. Perdemos nossa essência original.

1 BORTOLONI, Marcelo. Puritanismo envergonhado. Revista Veja. São Paulo, Ano 41, Ed. 2090, Dez. 2008.
2 Disponível em < http://roberas.blogspot.com/2008/02/que-vergonhaestou-nu.html> Acesso em 29 de setembro de 2009

Não há mais porque temer qualquer nudez, pois segundo Leipzig, o sangue e justiça do Cristo são adorno e a roupa de gala3. Na história da arte, da mesma forma é difícil demarcar. Obras-Primas foram alvo de censura em diferentes épocas. Michelangelo antes de concluir suas pinturas na Capela Sistina foi advertido pelas cenas inadequadas. Boa parte das folhas de parreira e de véus, naquele momento, foram acrescentadas a obra. Nem a Venus de Milo escapou, ela que incorpora o ideal de perfeição e beleza feminina Grega foi condenada por um tribunal alemão em meados do século XIX por ser imoral.

 

A Criação do Homem, 1508-1512. Michelangelo.Capela
Sistina

A Criação do Homem, 1508-1512. Michelangelo.Capela Sistina.

O que difere, por exemplo, o nu natural, considerado vulgar, do nu artístico? O crítico inglês Kenneth Clark4, desmonta o argumento que o nu artístico não desperta sensações carnais quando defende que, se a arte não despertar sensações é apenas arte ruim ou falsa moral. Como definiríamos Carlos Drummond de Andrade5 com sua “bunda que engraçada rebunda”, Manoel Bandeira que prefere Pasárgada e as possibilidades de ser amigo do rei, Fernando Pessoa, Bocage entre muitos outros? Imorais? O pudor é a mais afrodisíaca das virtudes, provocaria Nelson Rodrigues.

3 Disponível em < http://roberas.blogspot.com/2008/02/que-vergonhaestou-nu.html> Acesso em 29 de setembro de 2009 4 CLARK, Kenneth apud BORTOLONI, Marcelo. Puritanismo envergonhado. Revista Veja. São Paulo, Ano 41, Ed. 2090, Dez. 2008. 5 Anexo 1

Neste trabalho, não pretendo defender nenhuma causa ou fazer qualquer tipo de apologia. Pretendo apenas questionar porque a nudez ainda nos incomoda tanto? Seria fruto de imposição religiosa? E enfim: Estaria na arte o caminho para a compreensão e desmistificação da nudez?

A Tentação, Masolino da Panicale. Capela Brancacci,
Florença

A Tentação, Masolino da Panicale. Capela Brancacci, Florença

.

Existe um provérbio egípcio que diz: Those Who had some shame are dead. (Aqueles que tem alguma vergonha estão mortos).6

6 É um antigo provérbio da Era Otomana, quando Cairo tinha muitos banhos turcos. Uma vez ouve um grande incêndio no horário feminino num destes locais e só se salvaram as mulheres que saíram correndo nuas. As que ficaram envergonhadas morreram.

CAPÍTULO 1
UTI NA PRÁTICA

Quando se define um tema controverso e desafiador como este, se faz necessário uma referência real, concreta. De pouco valeria falar da nudez e da vergonha se não respondesse a primeira pergunta que vem à cabeça: Por que falar de nudez e vergonha? Baseado no trabalho feito pelos pesquisadores Jussara Simone Lenzi Pupulim7 e Namie Okino Sawada8, relato aqui, resumidamente as principais idéias defendidas. Somado a estas idéias, reflexões filosóficas que permeiam todos os seres humanos. É reconhecível que a conservação da privacidade do paciente é um desafio para a equipe, pela especificidade da assistência e característica física das UTIs. É de se imaginar que o paciente que está na UTI, geralmente, vive momentos de sofrimento e dúvidas que cercam qualquer pessoa com certa capacidade intelectual. Pensamentos sobre sua vida passada e seu futuro, muitas vezes incerto, levam a reflexões filosóficas acerca do mundo, da vida, do tempo e da morte. Certo? Errado. Estão preocupados por estarem nus. Segundo os autores da pesquisa, é preciso visualizar o paciente considerando a estrutura que o compõe, abrangendo valores culturais, históricos e sociais, somados aos aspectos emocionais que permeiam o indivíduo. Ações direcionadas à preservação da privacidade e atitudes de respeito e solidariedade, ante a necessidade de expor o corpo do cliente, contribuirão para 7 Enfermeira, Mestre em Enfermagem, Professor Assistente da Universidade Estadual de Maringá.

8 Professor Doutor da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo, Centro Colaborador da OMS para o desenvolvimento da pesquisa em enfermagem.

descaracterizar a imagem de desumanização atribuída às UTIs. Isso na visão de profissionais da saúde. É certo que está pesquisa não apresenta saídas para as dificuldades relacionadas à questão da nudez, uma vez que é difícil esgotar toda sua grandeza, porém, de acordo com os autores, levantou aspectos que merecem consideração e reflexão por parte das pessoas que atuam na área da saúde. Os autores esperam atrair a atenção dos profissionais, especialmente da enfermagem, sobre os fatores e condutas que permeiam a exposição corporal e a invasão da privacidade do cliente no contexto da assistência à saúde. Acabou atraindo a atenção de um futuro filósofo. Assim como na filosofia, na medida em que o estudo foi se desenvolvendo, constatou-se serem poucos os trabalhos, na área da saúde, que abordam esse assunto. Sugere-se, assim, a realização de outras investigações, tanto na área filosófica como na área de saúde focalizando o tema em questão, buscando sempre a busca de alternativas que possam contribuir para a práxis da enfermagem, visto que “Não há como admitir distância entre o corpo que cuida e o que recebe cuidados”. Que a nudez, no mínimo, seja vista com um pouco mais de naturalidade por ambos os lados.

CAPÍTULO 2
DEFINIÇÕES E A NUDEZ NO TEMPO

É importante, para darmos continuidade, definirmos o que é nudez, vergonha, pudor e outros termos que estarão neste texto. É preciso também que entendamos que na história da civilização a vergonha relacionada a nudez é uma coisa recente. Andar nu em 4000 a.C. era uma coisa comum, mais recentemente, para os gregos, em 500 a.C. as competições esportivas e as batalhas eram feitas sem roupa. Tudo natural, normal.

Sátiro dormindo. 220 a.C. Glyptothek. Munique.

A palavra ginásio significa local de nudez. Na Grécia Antiga, em algumas regiões a nudez era aceita. Ninguém “torceria o nariz” ao ver atletas nus competindo nos jogos olímpicos, onde até os juízes não usariam nada, aliás, era inclusive uma forma de certificar que não havia mulheres

competindo. Nenhum exército perderia a concentração ao combater com soldados espartanos nus. No Império Romano, nos banhos públicos a nudez era normal e habitual, embora fora deste ambiente poderia ser considerado uma forma de humilhação. Até o século VIII, o batismo cristão também era uma cerimônia onde o batizado, nu, era mergulhado em água, purificando assim sua alma. A Dra. Carmita H. N. Abdo9 acredita que a extinção desta prática, por parte da igreja católica, acentuou a conotação sexual a nudez. Na época vitoriana, em meados do século XIX, a nudez já era considerada obscena. Desde então, até os dias de hoje, a nudez geralmente não é aceita nas sociedades, com exceção a nudez artística, que veremos na continuação mais detalhadamente.

2.1 NUDEZ

O nu ou a nudez é, de acordo com o dicionário Silveira Bueno e a Wikipédia10, a condição ou estado pessoal em que, parcial ou totalmente, encontra-se uma pessoa sem cobertura de roupas. E continua: é usado para designar o uso de menos roupa do que o esperado por uma convenção cultural, particularmente no que se refere à exposição das partes intimas, torso ou membros. Existem culturas que consideram a canela erótica e mulheres sem véu como nuas. O conceito se relaciona diretamente com a vergonha, mesmo este sendo livre como sentimento. Na cultura judaico-cristã, afirma a Dra. Carmita H.N. Abdo, a nudez é associada a priori a um erotismo sujeito ao controle para preservar a moral sexual, impedir a

9 Psiquiatra. Coordenadora do Projeto Sexualidade (Prosex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Coordenadora Geral do Portal da Sexualidade. (http://www.portaldasexualidade.com.br) 10 Disponível em <http://pt.wikipedia.org/wiki/Nudez> Acesso em 29 de setembro de 2009

disseminação de doenças sexualmente transmissíveis, prevenir o adultério e garantir a estabilidade da estrutura familiar11 .

Fragmento romano de pintura em cerâmica .
Museu de Nápoles. Séc. II a.C

Fragmento romano de pintura em cerâmica . Museu de Nápoles. Séc. II a.C

Assim, desde Adão, cobrimos nossas vergonhas com folhas de figueira. Talvez, como punição da herança das culturas pagãs helênica-romana, onde todos os excessos eróticos foram cometidos. Sucumbimos, neste período, devido a esses excessos, à fraqueza moral e ao culto hedonista, como a homossexualidade na Grécia Antiga, a prostituição, o culto do deus fálico Príapo e as orgias gastronômicas e sexuais em Roma. Estes são alguns exemplos citados pelo filósofo Jean Claude Bologne em seu livro “A história do pudor”12 .

11 Disponível em <http://www.museudosexo.com.br/salaconceitos_nudez.asp> Acesso em 29 de setembro de 2009 12 BOLOGNE, Jean Claude apud ABDO, Carmita. Disponível em <http://www.museudosexo.com.br/salaconceitos_nudez.asp> Acesso em 29 de setembro de 2009

Príapo
-Lamparina em terracota, encontrada em Pompéia, pertence ao século I d.C. Museu
Nacional de Nápoles.

Príapo -Lamparina em terracota, encontrada em Pompéia, pertence ao século I d.C. Museu Nacional de Nápoles.

Bologne13 aponta ainda a igreja católica como ditadora das regras de nossos pudores atuais com forte tradição semita de ocultação do corpo. Este é o fundamento ideológico da idéia de “nudez erótica” na sociedade ocidental. Embora o conceito de nudez seja a ausência de vestimentas, verificamos que, pode também ter outros significados e leituras dependendo do local em que estamos. Na cultura ocidental, estar nu, esta diretamente ligado aos órgãos sexuais (expostos ou não). Para ortodoxos são braços, colo e pernas. consideram a cabeça descoberta a verdadeira nudez. Em algumas tribos africanas pessoas se sentem nuas na falta de adornos no pescoço e orelhas. Isso mostra que a nudez transcende

o ato de tirar ou não a roupa e esta condicionada a um contexto social e a percepção que cada cultura tem do corpo humano. Vale lembrar que como humanos somos os únicos animais a ter esta percepção. Em nossa cultura ocidental contemporânea, conforme Dra. Carmita H.N. Abdo, mantivemos como alicerce moral a herança do sistema de pudor da Idade Média. São três níveis de consciência em relação a nudez, correspondentes, por sua vez, a

13 BOLOGNE, Jean Claude apud ABDO, Carmita. Disponível em <http://www.museudosexo.com.br/salaconceitos_nudez.asp> Acesso em 29 de setembro de 2009

três valores do corpo humano. O ser humano nu nada mais era do que carne, sendo assim, um símbolo de vulnerabilidade. Em oposição ao espírito, continua a autora, é a parte baixa, vergonhosa do homem, lugar da tentação, do sofrimento e da morte. A nudez mostrada é, portanto, um castigo baseado na humilhação. A carne é impura por ser vulnerável e vulnerável por ser impura14 . A nudez revelada testemunha, portanto, a luxúria e a sujidade da alma. Voluntária e conscientemente, é falta de pudor e não humilhação. Podemos representar nossa moral em três situações principais: Primeiro a nudez como manifestação do erotismo, do desejo, da sexualidade ou da pornografia. Era a nudez da tentação; Segundo, como humilhação do indivíduo, como expor os corpos nus de prisioneiros ou de mortos em genocídios, a prática da tortura em vítimas nuas, arrancar as roupas em praças públicas de mulheres adúlteras, ou esconder as roupas de uma pessoa em um vestiário. Era a nudez da humilhação; E terceiro, a nudez de um "comportamento natural" (não sexualizada), como tomar banho, dormir sem trajes, a nudez infantil, ser examinado por um médico e a prática do naturismo. Era a nudez da inocência. Mas na prática, estes três níveis são exercidos em separado e revestem nosso corpo humano de outras significações. Sempre um corpo nu vai, de alguma maneira, ter um valor simbólico na nossa percepção. Dependendo dos códigos culturais ou religiosos, uma nudez “da inocência”, por exemplo, pode ser tentadora ou humilhante, ou uma nudez humilhante poder ser tentadora ou natural para quem olha, diz a Dra. Carmita H.N. Abdo.

Tantas são as sociedades que discutem, satanizam, combatem, proíbem, punem, mas consomem amplamente a nudez.” (Carmita H. N. Abdo)

14 Incapaz de resistir a tentação, como Adão e Eva; o pecado original trouxe morte ao mundo.

Muitas vezes a nudez erótica depende mais do que se sugere, do que, esta inerente. A autora lembra que todo processo de significação implica a relação do símbolo com

o seu contrário, relação que pode ser implícita ou explícita, a nudez só existe em relação ao seu contrário: o estar vestido. Quando a nudez não é comparada ao estar vestido, ela torna-se comum e não é percebida. Um indivíduo em traje de banho nos oferece uma aparência de seu "corpo humano" notavelmente distinta do que se estivesse nu. Centímetros de tecido demarcam a diferença entre o correto e o incorreto, o pudico e o impudico, o moral e o imoral, desde que cubram determinadas áreas do corpo. O que se oculta é o que desejamos ver, conclui a autora.

2.2 VERGONHA

Desonra, humilhação e vexame. Palavras fortes que definem a mais poderosa das emoções humanas. A vergonha mesmo sendo uma das mais comuns manifestações humanas, só agora passou a ser estudada e a ciência começou a entender porque algumas pessoas morrem de vergonha. A vergonha fere a personalidade ali onde ela é mais vulnerável, aos olhos da multidão, define o psiquiatra Antonio Carlos Cesarino15. O olhar de condenação do próximo, sempre humilhante, é o castigo por agir mal. Daí viria o gesto de cobrir o rosto, numa tentativa de se proteger. Relembrando, sempre de acordo com as normas de comportamento da sociedade em que vivemos.

15 Disponível em <http://super.abril.com.br/superarquivo/1988/conteudo_111387.shtml> Acesso em 29 de setembro de 2009

A vergonha é uma condição psicológica. Ainda como forma de controle religioso, político e social. O terapeuta John Bradshaw16 conceitua a vergonha como “a emoção que nos deixa saber que somos finitos”. A psiquiatria define vários tipos de vergonha, porém, aqui cabe relacionarmos a vergonha com a nudez e ao erotismo. Do padre, por exemplo, que se pune por sentir desejos proibidos, ou ainda, como citamos no inicio deste trabalho, a do paciente que está se recuperando na UTI e se vê incomodado por estar nu. Embora sejam exemplos diferentes um do outro, mostram como é importante discutir este assunto.

Adão e Eva
Expulsos do Jardim do Éden, 1427. Masaccio. Capela Brancacci, Florença

Adão e Eva Expulsos do Jardim do Éden, 1427. Masaccio. Capela Brancacci, Florença

.

Para a religião a vergonha esta ligada ao erotismo e a sexualidade, de acordo com a Dra. Carmita H.N. Abdo. A fé religiosa pode criar a base para a vergonha porque

16 Disponível em <http://pt.wikipedia.org/wiki/Vergonha> Acesso em 29 de setembro de 2009

esta reflete idéias internalizadas quanto ao que é certo e apropriado e sobre o que é errado e impróprio. Num artigo feito por Hilan Bersusan17 intitulado “O controle pela vegonha e pela política da auto-estima” o autor brilhantemente faz uma ligação entre vergonha, poder e o que diz ser a solução para a vergonha: a auto-estima. Ele afirma que a vergonha é o correlato mental de nossos costumes de intimidação, que controla nossos sentimentos, nossas ações e condiciona nossa dignidade a essas ações. Como acontece o controle pela vergonha? Bernard Williams escreve que a vergonha não é simplesmente um medo de ser visto por um outro, mas o medo do modo que este outro o vê. A visão do observador nem precisa ser crítica, basta a audiência errada e de modo errado. O autor ainda conecta a vergonha à nudez genital em nossa cultura. Aidoia deriva de aidós, afirma18. Talvez seja a idéia de que quando estamos nus estamos de um modo que não queremos que seja mostrado, pois, queremos ser vistos vestidos. Nus, mostramos o que somos, inclusive nosso caráter genuíno. A estima que temos em nós mesmos é o antídoto para a vergonha.

2.3 PUDOR

Trata-se de um sentimento muito complexo e de difícil definição. Acontece em diferentes objetos, mas o mais comum é o da vergonha da nudez. De origem remota se modifica dependendo de sua época. O pudor é um conceito subjetivo.

17 BERSUSAN, Hilan. Acesso em 29 de setembro de 2009 18 Williams diz que a vergonha tem dois radicais em grego, muitas vezes substituídos um pelo outro em um contexto. Aidoia se associa a respeitar o poder de alguém.

Jean Claude Bologne, ainda em seu livro “A história do Pudor”, resume as duas definições mais comuns do conceito: “sentimento de vergonha, de incômodo que se tem ao fazer, enfrentar ou ser testemunha das coisas de natureza sexual; disposição permanente para esse sentimento” e “incômodo que se sente perante aquilo que a dignidade de uma pessoa parece proibir”. A psicóloga e terapeuta Marta Borges Pires19 ressalta que “De qualquer forma, do pudor, há quem diga que é como o medo: na medida certa, é estruturante. Resguarda-nos. Em demasia, pelo contrário, pode ser prejudicial. Aliás, tal como a timidez”. Não existe um tipo de pudor, e sim vários, de acordo com sua época. “Quando, no século XVII, as viagens intercontinentais revelaram aos Europeus povos que obedeciam a um pudor diferente do seu, surgiu uma nova reflexão (sobre este sentimento)”, declara Jean-Claude Bologne. No seu livro, Bologne afirma ainda que “na praia ou na avenida, o fato de banho não tem o mesmo significado”, e lembra que o “pudor individual” – o que cada indivíduo tem em mostrar-se, ver-se nu ou com roupa mais ousada – reforça-se com um “pudor social que define, em função da época e do lugar, os limites tolerados à exibição”. E acrescenta: “A moral vestida de grego ou de latim, conhece também a distinção entre ethos (regras de conduta individuais) e habitus (regras de vida social) …” Aliás, para este especialista, o pudor não se apresenta só “como perpétuo combate” entre “indivíduo e sociedade”, mas também “entre instinto e razão, entre consciência e inconsciência”.

19 PIRES, Marta Borges. Disponível em <http://www.kaminhos.com/artigo.asp? id_artigo=4548&id_seccao=7> Acesso em 29 de setembro de 2009

 

 

CAPÍTULO 3
O PERÍODO DAS TREVAS
A IDADE MÉDIA E A RELIGIÃO

“Adão e Eva podiam desfrutar das maravilhas do Jardim do Éden, menos de uma coisa: estavam terminantemente proibidos de experimentar a maçã da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. Comeram. Para impedir que eles comessem também o fruto da Árvore da Vida, que os tornaria imortais, Deus decidiu expulsá-los do Éden. Eva culpou a serpente. Segundo a Bíblia, Deus condenou todas as mulheres a darem à luz com dor e a serem dominadas pelos homens.”

Tentação e Queda, 1508. Michelangelo. Capela Sistina.

Adão e Eva Expulsos do Jardim do Éden, 1427. Masaccio. Capela Brancacci, Florença

Adão teria violado sua inocência por ter mantido relações sexuais com Eva, o que passou então a ser conhecido como “pecado original”. Segundo Santo Agostinho, em função deste pecado original, o sexo se transformou numa vergonhosa luxúria, carregado de culpa. O sexo deve limitar-se a propagação da espécie e não ser feito por prazer. Essa história vem sendo contada por todas as gerações, até os dias de hoje.

Para a sexóloga e psicóloga Kelly Cristine Barbosa Cherulli20, no catolicismo: além de todos os conflitos já vivenciados pelos fiéis e pelo próprio clero ao longo da sua história, o ano de 1994, foi marcado por um “afunilamento idelógico sexual”, que pregava “uma castração da liberdade sexual em massa: a reafirmação do sexo­reprodução como exclusividade, a himenolatria como valorização da virgindade; a culpa pelo sexo antes do casamento; a condenação do uso de preservativos ou de qualquer método anticoncepcional. Além disso, há ainda a condenação do aborto e do homossexualismo, e embora seja permitido umas variações sexuais, o sexo anal é condenado. Esta visão continua até hoje na igreja. Para compreender melhor a posição que a igreja católica toma, precisamos recuar até a idade média, que tantos insistem em chamar de “Idade das Trevas”.

"Na minha memória vivem ainda as imagens de obscenidades que o hábito inveterado lá fixou. Quando, acordado, me vêm à mente, não têm forças; porém, durante o sono, não só me arrastam ao deleite, mas até à aparência do consentimento e da ação. A ilusão da imagem possui tanto poder na minha alma e na minha carne, que, enquanto durmo, falsos fantasmas me persuadem a ações a que, acordado, nem sequer as realidades me podem persuadir ". (Santo Agostinho)

Em 400 d.C. Santo Agostinho21 publica suas “Confissões”, e a igreja neste período pós bárbaros, é a única instituição organizada que havia. Neste período a igreja amplia seu poder em todos os sentidos. Confissões é um relato autobiográfico de um homem atormentado. As respostas viriam somente em sua próxima obra “Cidade de Deus” onde ressuscita Platão, embora, com outra roupagem.

20 CHERULLI, Kelly Cristine Barbosa. Disponível em <http://www.historiadasexualidade.com/sexo_religiao.html> Acesso em 29 de setembro de 2009 21 SANTO AGOSTINHO. Disponível em <http://www.museudosexo.com.br/salahistoria_sexualidade_SerPuro.asp> Acesso em 29 de setembro de 2009

A filósofa Dra. Carmita H.N. Abdo expõe que o tema sexualidade está presente em vários capítulos de Confissões, assim como na vasta obra de Santo Agostinho. É uma abordagem sistematizada a partir de três tradições que influenciaram o início do Cristianismo: a dos estóicos, que defendiam a virgindade e a castidade, a dos hebreus, que associavam a mulher e o sexo com a impureza, e a dos maniqueus que consideravam o corpo como fonte de corrupção.

Alessandro
Allori – Allegoria della vita humana -Museu do Vaticano

Alessandro Allori – Allegoria della vita humana -Museu do Vaticano

Santo Agostinho lamenta o que diz ter sido suas torpezas passadas e depravações carnais da sua alma na sua juventude. Ele diz ter experimentado toda a vida mundana “ardendo em prazeres infernais” que o fez definhar. Definhou, em sua opinião, por querer agradar aos olhos do Homem e não aos olhos de Deus. Culpa, em parte, sua necessidade de ser amado e de amar e o que dizia ser a “lodosa concupiscência da carne e do borbulhar da juventude”. Entregava-se então a “ação da carne”. O perfeito para ele são as relações da alma. Era, em sua própria analise, um devasso.

"Eu é que, certamente, deveria com mais diligência prestar ouvidos ao som vindo de Vossas nuvens [...] ‘Sofrerão as tribulações da carne. Eu, porém, perdoo-vos’ (1Corintios 7:28).

“’É bom para o homem não tocar mulher alguma” (1Corintios 7:1)

Oxalá tivesse ouvido mais atentamente estas palavras ! Se tivesse vivido eunuco por amor do reino dos céus, esperaria agora, mais feliz, os Vossos abraços (Mateus 19:12)".

A humanidade se perdeu, para Santo Agostinho, ao procurar deleitar seus próprios prazeres ao invés de servir a Deus e cita como exemplo a masturbação como degradação humana. Ele qualificava sua experiência sexual como a pior das doenças que “ulcerava sua alma”. Hoje ainda percebemos muitos traços desta culpa em nossos costumes. A vergonha só apareceu depois do pecado original e de acordo com alguns religiosos como Estevão Prestes22 foi Deus que inventou a roupa. Antes da queda moral de Adão e Eva eles ficavam nus e se sentiam a vontade, sem vergonha e nem culpa23. Este argumento se baseia na própria Bíblia Sagrada (Gênesis 3:21) onde se lê: “E fez O Senhor Deus (Eloin) a Adão e a sua mulher túnicas de peles e os vestiu". Mesmo se ignorarmos a simbologia dos primeiros capítulos do Genesis e interpretarmos literalmente perceberemos que a humanidade vivia em estado de inocência e não existia vergonha, segundo o religioso. A Biblia Sagrada traz inúmeras citações a respeito da vergonha e da nudez, tanto no antigo como no novo testamento, todas elas relacionando a nudez ao pecado.

“Aconselho-te que compres de mim ouro provado ao fogo, para ficares rico; roupas alvas para te vestires, a fim de que não apareça a vergonha de tua nudez; e um colírio para ungir os olhos, de modo que possas ver claro.” (Apocalipse 3,18)

22 Evangélico e Naturista 23 PRESTES, Estevão.

BR&ct=clnk&cd=27&gl=br&client=firefox-a> Acesso em 29 de setembro de 2009

CAPÍTULO 4

 

A ARTE COMO FORMA DE ACEITAÇÃO DA NUDEZ

É a grande Katharsis pela arte, de acordo com o filósofo brasileiro Huberto

Rohden24. Se o universo (todo) é puro e belo, como pode o homem (uno) ser impuro

ou feio?

“Este aliás, é também o conceito ético de bom ou mau. Bom é aquilo que harmoniza com o Todo; mau é aquilo que desarmoniza. Em inglês, ‘holy’ (santo) é aquilo que esta afinado pelo ‘whole’ (todo, inteiro); em alemão, ‘heilig’ (santo) é aquilo que é ‘heil’ (todo, inteiro).” (Huberto Rohden, 2007, p. 38)

Se Deus é a perfeição, segundo Santo Agostinho, como podemos mesmo sendo sua imagem e semelhança sermos feios, assim como, naturalmente somos? Afinal, não somos o que vestimos. A arte então passa a justificar o que é errado? Pergunta o critico inglês Kenneth Clark25 . A nudez é vista como imoral pela Biblia Sagrada e mesmo assim dentro de suas igrejas existem obras de arte, sejam em telas ou esculturas que mostram o nu em detalhes. Como é possível? Os olhos que vêem a nudez na arte e a nudez fora dela não são os mesmos? Os moralistas dizem que as sensações são diferentes, contrariando Sigmund Freud, que definia a arte também como uma sublimação da libido sexual do ser humano.

24 ROHDEN, Huberto. Filosofia da Arte – A metafísica da verdade revelada na estética da beleza, São Paulo: Martin Claret, 2007, p. 37 25 CLARK, Kenneth apud BORTOLONI, Marcelo. Puritanismo envergonhado. Revista Veja. São Paulo, Ano 41, Ed. 2090, Dez. 2008.

Freud diz ainda que a libido a mola real da vida humana e que essa força, quando recalcada, se manifesta como neurose doentia. Quando não canalizada, a libido se transforma em outras formas de atividade, seja a filosofia, a arte, a ciência, a filantropia e até a religião. É o conhecido “pan­sexualismo” do mestre vienense Freud26 . O substantivo latino “libido” continua Rohden, é derivado do verbo libere, que significa “gozar”, “ter prazer”. Libido é uma sensação de prazer.

“O gozoso está a serviço do necessário. O gozoso ou agradável é a última e suprema garantia do necessário.” (Huberto Rohden, 2007, p. 76)

Voltamos então ao que citei na primeira parte do trabalho, quando a Dra. Carmita

H.N. Abdo afirma que a nudez é satanizada, combatida e proibida a mesma medida que é consumida.

Miguelangelo – Juizo Final – Museu do Vaticano

Miguelangelo – Juizo Final – Museu do Vaticano

26 Freud apud ROHDEN, Huberto. Filosofia da Arte – A metafísica da verdade revelada na estética da beleza, São Paulo: Martin Claret, 2007, p. 75

Se fossemos animais acabaríamos a discussão aqui e colocaríamos um ponto final. Entretanto, somos animais e um ser mental, somos racionais. Por isso, lembra Rohden, a libido humana é também Eros. E continua: A libido é do anér e da gyné27 , enquanto Eros é do ánthropos, como os gregos apelidaram o ser humano como tal. Sem conotação sexual. O filósofo lamenta que o que nossa linguagem comum chama de “erótico” devia se chamar “libidinoso”.

“Sendo o ser humano, completo, uma entidade vital-mental­racional, é certo que Eros inclui a libido; mas está não inclui aquele. No mais está o menos, mas no menos não está o mais, pelo menos não totalmente.” (Rohden, 2007, p.77)

Platão28, séculos antes da era cristã, desenvolveu magistralmente este tema do Eros no ánthropos. Rohden mostra que a filosofia da Grécia aparece nas páginas do Genesis de Moisés, assim como no Evangelho do Cristo. No Genesis a serpente tirou o homem primitivo do Éden, ou seja, do subconsciente da natureza e lançou-o no meio de um mundo cheio de espinhos, ou seja, na zona do ego consciente, onde começaram todos os problemas e sofrimentos.

“Até o presente dia se acha o homem nessa zona da serpente rastejante”. (Rohden, 2007, p.78)

E Rohden vai além quando fala que Moisés insinua uma futura verticalização do ego horizontal, quando afirma que um poder maior nascerá dentro do homem e “esmagara a cabeça da serpente”29, ou seja, o homem-Eu superará o homem-ego. Lembrando muito outros filósofos como Schopenhauer30 quando afirma que a mola

27 Palavras gregas para macho e fêmea. 28 Platão apud ROHDEN, Huberto. Filosofia da Arte – A metafísica da verdade revelada na estética da beleza, São Paulo: Martin Claret, 2007, p. 75 29 Moisés apud ROHDEN, Huberto. Filosofia da Arte – A metafísica da verdade revelada na estética da beleza, São Paulo: Martin Claret, 2007, p. 79 30 Schopenhauer apud ROHDEN, Huberto. Filosofia da Arte – A metafísica da verdade revelada na estética da beleza, São Paulo: Martin Claret, 2007, p. 79

mestra do homem é viver em seu “A vontade de viver” e a psicologia de Alfred Adler31, discípulo de Freud, quando afirma que o homem não está contente com um simples viver horizontal (Se inspirando claramente em Nietzsche). É preciso que nos libertemos de padrões estabelecidos e nisso a arte é a grande responsável pela aceitação do que era antes chamado de imoral. É a Katharsis purificadora de nossos tempos. É ainda, segundo Rohden o homem esmagando a cabeça da serpente.

31 ADLER, Alfred apud ROHDEN, Huberto. Filosofia da Arte – A metafísica da verdade revelada na estética da beleza, São Paulo: Martin Claret, 2007, p. 79

 

CONCLUSÃO

Sempre que falarmos em nudez, temos que ter a consciência que estamos pisando num campo perigoso, onde ninguém fica sem dar opinião. É um assunto que mexe com todos. É um tema que até para um trabalho de conclusão em um curso de filosofia acaba gerando certa polêmica. Há quem diga, inclusive, que o assunto não é filosófico. A revista VEJA abordou este tema na edição de 10 de dezembro de 2008 e mostrou que mesmo hoje e no meio artístico, que é tido como liberal, ainda existe muita discussão em torno deste tema. A revista o intitulou como: “Puritanismo envergonhado”32 . O ator Pedro Cardoso chama de “pornografia disfarçada” a nudez, que em sua análise é forçada, vendida como um produto (indispensável) da mídia. O autor da reportagem, Marcelo Bortolini, faz algumas indagações: Quando a nudez é aceitável? Quando é ofensiva? E quem decide isto? São perguntas difíceis de serem respondidas. Aristóteles simplifica dizendo que “é nos olhos que vive o pudor”. Percebemos que a noção de certo e errado está dentro de nós, arraigada. Temos já definidas o que Nietzsche afirma ser sua principal preocupação (Zaratustra), nossas virtudes. Quem nos libertará de nossas virtudes? Pergunta o filósofo33 . Se formos analisar a televisão, perceberemos que é uma mídia “viva”, rápida, onde a principal função é entreter. Quem faz esta mídia já aprendeu o que procuramos

32 BORTOLONI, Marcelo. Puritanismo envergonhado. Revista Veja. São Paulo, Ano 41, Ed. 2090, Dez. 2008. 33 “Detesto os vossos vícios e mais ainda vossas virtudes, pois dos vícios você se liberará um dia” falou Zaratustra.

como entretenimento. E a nudez, sem dúvida, é uma de nossas necessidades. Exatamente aquilo que escondemos e repudiamos. A nudez está sendo usada como forma de protesto ou de propaganda. Temos calendários de vovozinhas nuas com a renda para a pesquisa de leucemia, tiram a roupa em campanha pelo vegetarianismo ou contra o aquecimento global.

Esta cada vez mais comum ver o nu.

E a grande responsável por esta mudança de paradigma é a arte que aos poucos, com seus gênios renascentistas, pularam os muros das igrejas e se propagaram pelo mundo. Precisamos esquecer o caráter erótico da nudez, relembrar que somos esta carne que está à mostra. A outra opção é a censura. Alguém que decidiria o que devemos ver. Um poder como o da igreja, que por muito tempo, nos dita, em nome de Deus o que é certo e errado. Nosso corpo, ao contrário do que nos foi ensinado, não é o instrumento do pecado. Temos que enxergar a nudez desvinculada do sexo. Desta maneira, quando precisarmos estar em uma UTI, não nos preocuparmos por estarmos “naturalmente” nus. O escritor Marcelo Bortolini, termina citando, brilhantemente, Carlos Drummont de Andrade. Tomo a liberdade de copiá-lo: “Oh! Sejamos pornográficos, docemente pornográficos, porque assim, seremos mais castos que nosso avô português?34

34 Em seu poema: Em face dos últimos acontecimentos.

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ANEXO 1

A BUNDA QUE ENGRAÇADA Carlos Drummond de Andrade – 1902-1987

A BUNDA, QUE ENGRAÇADA

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora – murmura a bunda – esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente .

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda,
redunda.

 

Amor, pois que é palavra essencial

Amor – pois que é palavra essencial
comece esta canção e toda a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
reúna alma e desejo, membro e vulva.

Quem ousará dizer que ele é só alma?
Quem não sente no corpo a alma expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?

O corpo noutro corpo entrelaçado,
fundido, dissolvido, volta à origem
dos seres, que Platão viu completados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.

Integração na cama ou já no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?

Ao delicioso toque do clitóris,
já tudo se transforma, num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentraram.

Vai a penetração rompendo nuvens
e devassando sóis tão fulgurantes
que nunca a vista humana os suportara,
mas, varado de luz, o coito segue.

E prossegue e se espraia de tal sorte
que, além de nós, além da prórpia vida,
como ativa abstração que se faz carne,
a idéia de gozar está gozando.

E num sofrer de gozo entre palavras,
menos que isto, sons, arquejos, ais,
um só espasmo em nós atinge o climax:
é quando o amor morre de amor, divino.

Quantas vezes morremos um no outro,
no úmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos, satisfeita.

Então a paz se instaura. A paz dos deuses,
estendidos na cama, qual estátuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus acrescenta o amor terrestre.

Sugar e ser sugado pelo amor

Sugar e ser sugado pelo amor
no mesmo instante boca milvalente
o corpo dois em um o gozo pleno
Que não pertence a mim nem te pertence
um gozo de fusão difusa transfusão
o lamber o chupar o ser chupado
no mesmo espasmo
é tudo boca boca boca boca
sessenta e nove vezes boquilíngua.


O Chão É Cama


O chão é cama para o amor urgente,
amor que não espera ir para a cama.
Sobre tapete ou duro piso, a gente
compõe de corpo e corpo a úmida trama.

E para repousar do amor, vamos à cama.


Quarto em Desordem


Na curva perigosa dos cinqüenta
derrapei neste amor. Que dor! que pétala
sensível e secreta me atormenta
e me provoca à síntese da flor

que não sabe como é feita: amor
na quinta-essência da palavra, e mudo
de natural silêncio já não cabe
em tanto gesto de colher e amar

a nuvem que de ambígua se dilui
nesse objeto mais vago do que nuvem
e mais indefeso, corpo! Corpo, corpo, corpo

verdade tão final, sede tão vária
a esse cavalo solto pela cama
a passear o peito de quem ama.

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