Compre o livro Quem tem Ouvidos de João Batista Mezzomo, lançado recentemente, mas divulgado antes pelo autor com alguns capítulos aqui no Consciência.org. Veja o resumo e os comentários.
Expandir/Fechar

Vida de Péricles, por Plutarco – Vidas Paralelas

Imprimir Indicar

Parte 1 Parte 2 Parte 3 Parte 4 Parte 5


SUMÁRIO DA VIDA DE PÉRICLES

I. O gosto e os talentos dos homens devem ser úteis e honestos. II. Virtude de Péricles e de Fábio. III. Glória da casa de Péricles. IV. Seus estudos de música; de filosofia. VI. Seu caráter formado por Anaxágoras. XI. Ele se imiscui nos negócios públicos, e toma o partido do povo. XIII. Seu espírito reservado e sua eloquência. Atribuem-lhe o cognome de Olímpico. XV. Dignidade de suas ações e palavras. XVI. Os costumes do povo se alteram pela abundância e pelos prazeres que Péricles lhe proporciona. XVII. Ele se serve de seu prestígio para reduzir o do Areópago. XVIII. Faz banir e chamar de volta a Cimon. XXI. A nobreza opõe Tucídides a Péricles. XXII. Jogos, festas, banquetes que ele oferece ao povo. XXIII. Decoração da cidade ,de Atenas. XXV. Emulação e recompensa para as artes. XXVII. Elas são levadas ao mais alto grau de perfeição. XXVIII. Ofídias preside a todos os grandes trabalhos. O templo de Minerva; o Odeon, a longa muralha; os pórticos. XXXI. O partido de Tucídides se queixa das excessivas despesas. Tucídides é banido. XXXV. Péricles fica só à frente dos negócios do Estado. XXXIII. No clímax de seu poder, ele não aumenta em nada as riquezas de sua casa. XXXV. Sua maneira de administrar os próprios bens. XXXVI. Indigência de Anaxágoras. XXXVII. Péricles propõe uma assembleia geral para pacificação e união de toda a Grécia. XXXVIII. Sua prudência em nada arriscar nas batalhas. XXXIX. Seus êxitos no Quersoneso, no Peloponeso, no Ponto. XLII. Ideias de conquistar o Egito, Cartago e Sicília, reprimidas por Péricles. XLIII. Guerra da Eubéia. XLV. Guerra de Samos, empreendida por Aspásia. XLVI. Pátria desta mulher célebre, e seu espírito. XLVIII. Acontecimentos da guerra de Samos. LII. Artemão inventa as máquinas de guerra para os assédios. LIII. Samos subjugada. LVI. Guerra do Peloponeso. LX. Brigas contra Péricles. LXIII. Sua constância, sabedoria. LXVI. Peste que devasta Atenas. LXVII. O povo se irrita contra Péricles e o condena a uma pesada multa. LXVIII. A peste lhe arrebata parentes e amigos. LXIX. Sua firmeza e sua grande alma. LXX. Ele retoma a direcão dos negócios. Lei da burguesia de Atenas revogada. Número dos cidadãos. LXXI. Filhos de Péricles e de Aspásia. LXXII. Péricles atacado pela peste. LXXIII. Suas últimas palavras. Situação e pesar dos atenienses depois de sua morte.

Desde a 72.ª olimpíada. até o quarto ano da 87ª; 429 anos A. C.

 

PÉRICLES
por Plutarco
Capítulo de Vidas Paralelas

Tradução brasileira de Aristides da Silva Lobo conforme a edição francesa de 1818. Notas de Brotier, Vauvilliere e Clavier.
Fonte: Ed. Das Américas.

 

I César, vendo um dia em Roma (1) alguns estrangeiros, homens ricos e opulentos, que tinham sempre entre os braços cãezinhos e macaquinhos, acarinhando-os cuidadosamente, perguntou-lhes se as mulheres em seu país não tinham filhos, criticando assim, muito sensatamente aqueles que empregam em relação aos bichos, a inclinação para o amor e a afeição caritativos, que a natureza pôs em nós para usá-la com os homens e não com os animais. Em caso semelhante, tendo a natureza impresso em nossa alma um desejo natural de aprender e saber, é bem razoável censurar aqueles que abusam desse desejo e aprendem coisas que não frutificam, enquanto tratam com negligência as úteis e honestas. Porque, quanto aos sentidos que recebem a impressão do seu objeto com alguma paixão, cabe-lhes considerar de forma forçosamente indiferente tudo o que se apresenta a ele seja útil ou inútil. Não acontece porém o mesmo com o entendimento, porque cada um pode usá-lo à sua vontade e desviá-lo facilmente a todo o momento, aplicando-o no que bem lhe parece. É preciso, por isso, orientá-lo sempre para o melhor a fim de que não somente se satisfaça, mas também que se alimente e se nutra na sua contemplação. Porque assim como a cor mais adequada ao olho é aquela que por sua vivacidade e alegria rejubila e conforta a vista, assim também cada um deve aplicar o seu entendimento em intuições que, ao deleitá-lo, o elevam ao mesmo tempo para o seu verdadeiro bem. Tais são os efeitos da virtude, que, sendo ouvidos ou quando se lê algo sobre eles, imprimem nos corações uma tendência e preocupação para segui-los, o que não acontece com todas as outras coisas pelas quais temos alguma estima, não nos sentindo sempre incitados a desejar fazer o que consideramos bem feito, mas, ao contrário, retirando muitas vezes prazer da obra. desprezamos o obreiro, como nas composições de perfumes e tinturas de púrpura, porque, deleitando-nos com um e outro, consideramos todavia os perfumistas e tintureiros como pessoas vis e plebeias. Antístenes, portanto, respondeu muito bem a certo indivíduo que lhe dizia ser Ismenias excelente tocador de flauta, «também eu acho (2), disse ele, mas quanto ao resto é homem que não vale nada porque de outra forma, não seria tão esplêndido tocador de flauta. A esse propósito Filipe, rei da Macedónia, disse, certa vez, a seu filho Alexandre o Grande que tinha cantado em um festim de maneira muito agradável, e isso como homem bom entendedor da arte musical: «não tens vergonha de cantar tão bem?» Porque é bastante ao rei. empregar de vez em quando o seu descanso em ouvir cantar os cantores, fazendo muita honra às musas ao querer ouvir algumas vezes os obreiros dessa arte, quando porfiam uns com os outros para ver quem canta melhor. Quem porém, exerce alguma arte baixa e vil, oferece, em testemunho contra si mesmo, o trabalho que empregou em coisas "inúteis, como prova de sua preguiça em aprender as honestas e úteis. E não houve jamais jovem de coração bem formado e gentil natureza, que, contemplando a imagem de Júpiter existente na cidade de Pisa, desejasse ser Ofídias; ou Policleto, diante da Juno de Argos, ou Anacreonte, Filemon e Arquíloco ao sentir, porventura, prazer lendo suas obras, porque não se deduz necessariamente da obra que deleita, ser sempre louvável o seu obreiro. Não aproveitam assim, tais coisas a quem as contempla, porque elas não engendram nos corações dos seus observadores o zelo de imitá-la, nem excitam uma propensão para assemelhar-se e conformar-se a elas. A virtude porém, tem isso de próprio em sua atuação, torna o homem que a conhece, de tal forma atraído que considera os seus atos como belos em conjunto, desejando assemelhar-se a quem os pratica, porque dos bens da fortuna nós amamos a fruição, e os da virtude levam-nos à ação. Ficamos por isso, satisfeitos em receber aqueles bens dos outros, mas a estes nós queremos que o outros os recebem de nós. Porque a virtude tem a força de incitar a vontade do homem que a considera a querer exercê-la incontinenti, e engendra em seu coração um desejo de a pôr em atividade, formando assim, os costumes de quem a contempla, não por imitação apenas, mas pela compreensão e conhecimento do ato virtuoso, o qual gera-lhe repentinamente o instinto e propósito deliberado de fazer o mesmo.

(1) Plutarco tinha dividido suas -Vidas dos Homens Ilustres" em muitos volumes. A de Demétrio começava o terceiro volume, como .se vè no manuscrito da Biblioteca do Rei, n." 1.671. A vida de Péricles iniciava o décimo. É por isso que o prefácio é mais extenso.
(2) (Em francês "Cest-mon"): É meu parecer.

II. É a razão pela qual considerei que devo continuar a escrever as vidas dos homens ilustres, e compus este décimo livro contendo as de Péricles
e Fábio Máximo que sustentou a guerra contra Aníbal, porque são duas personagens semelhantes em muitas outras virtudes, e especialmente na bondade
e justiça, e ambas, por ter sabido suportar pacientemente os desvarios dos seus povos e dos seus companheiros nos cargos de governo, foram muito úteis
aos seus países. Se porém, andamos bem em juntá-los, comparando um ao outro, poder-se-á julgar melhor pelo que segue escrito.

III. Péricles pertencia à estirpe Acamânida, do distrito de Gholargo, uma das melhores casas e mais antigas raças da cidade de Atenas, tanto do
lado de sua mãe como do lado de seu pai. Porque Xantipo, seu pai, que derrotou em batalha os comandantes do rei da Pérsia na jornada de Micale (3) casou-se com Agaristo descendente do Clístenes que expulsou de Atenas os filhos de Pisístrato e destruindo corajosamente sua tirania, estabeleceu depois leis_ e organizou uma forma de governo muito bem equilibrada para manter seus concidadãos em paz e concórdia uns com os outros. Agaristo sonhou uma noite que tinha dado à luz um leão e poucos dias depois teve Péricles, tão bem proporcionado em todas as partes do corpo que nada se podia criticar, exceto sua cabeça um pouco longa e desproporcionada no tamanho em relação ao resto, sendo essa a causa de quase todas as suas estátuas terem o capacete sobre a cabeça, não querendo os escultores, como é crível, salientar-lhe essa deformidade. Os poetas áticos, contudo o chamam Esquinocéfalos, que quer dizer cabeça de cebola, porque os áticos chamam aquilo que se apelida em língua comum Scilla, isto é, cebola da barbaria (4), Esquinos; e Cratino, poeta cómico, diz na comédia que ele intitulou Quírones:

O velho Saturno e a Sedição
Engendraram conjuntamente
Este grande titã que na corte imortal
Dos deuses do céu, é chamado Cabeça Grande.

 

(3)              O segundo ano da septuagésima quinta Olimpíada, 479 anos A. C.
(4)              Nós a chamamos cebola marinha.

E de novo diz, referindo-se a ele, na comédia intitulada Nemesis:
Vem Júpiter hospitaleiro, cabeça longa.
E Teléclides, zombando também dele, diz em certa passagem:
Algumas vezes não sabendo em verdade
A quantas anda em seu governo,
Mantem-se quieto e não se apresenta,
Sentindo dolorida sua cabeça pesada:
Mas outras vezes também, ele despede
Do seu grande crânio um maravilhoso trovão.

E Eupolis na comédia intitulada (5) Demi, interrogando e inquirindo particularmente cada um dos oradores que ele figura como saindo dos infernos, diz, quando lhe indicam por último a Péricles:

Certamente nos trouxestes A cabeça de todos aqueles que lã estavam em baixo,

IV. Ora, quanto à música, a maior parte dos autores escreve que quem lha ensinou, foi Damon, cujo nome, como se diz, deve ser pronunciado com a primeira sílaba breve. Aristóteles todavia, diz que ele aprendeu a música com Pitóclides. Como quer que seja é certo que este Damon, homem muito entendido e astuto em matéria de governo, cobrindo-se, para dissimular e esconder ao povo sua habilidade, com o nome de músico, estava sempre ao lado de Péricles como mestre de luta e de esgrima, e lhe ensinava como devia conduzir-se em negócios de Estado. Afinal, entretanto, ele não pôde dissimular tão bem que não viesse ao conhecimento do povo, servir-se ele dá lira e da música como coberta, e por ser homem turbulento empreendedor, e propiciador da tirania, foi banido por cinco anos (6). Isso deu o que falar aos poetas cómicos, entre os quais Platão, que em uma de suas comédias introduz alguém que lhe pergunta:

Diz-me primeiro, Quíron,
Por que corre a fama
De que tu modelaste e instruíste Péricles.

(5) Demois. os povos: ele zombava, ao que parece, nesta comédia, dos vários povos da Ática.
(6) É um erro. É preciso corrigir para dez anos. Tal era o decreto de ostracismo. Veja-se o próprio Amyot, cap. XVIII.

 

V. Ele foi também ouvinte e discípulo ao filósofo Zenon, nativo da cidade de Eléia, que ensinava a filosofia natural como Parmenides, mas fazia profissão de contradizer todo o mundo, e alegar tantas oposições quando discutia, que levava seu antagonista a não saber como responder nem ao que resolver-se, como o testemunha Timon Fliasiano nestes versos:


Grande eloquência e força de arte
Para disputar de um lado ou de outro
Tinha Zenon, criticando todo o mundo
Quando pretendia desenvolver sua facúndia.

VI. Mas quem conviveu mais com ele e lhe deu essa gravidade e dignidade que mantinha em todos os seus atos e ditos, mais adequada a senhores
do que à condição e ao estado de quem deve arengar diante de um povo livre, quem, em resumo, elevou seus costumes até uma certa majestade, demonstrada
em todas as suas maneiras de agir, foi Anaxágoras o Clazomeniano, denominado comumente pelos homens desse século «Nus», isto é, entendimento, fosse por
sentirem uma singular admiração pela vivacidade e sutileza do seu espírito em procurar as causas dos fenómenos naturais, ou por ter sido o primeiro em
atribuir a disposição e o comportamento desse mundo, não ao acaso nem à necessidade fatal, mas a uma pura e simples inteligência ou entendimento, o qual
separa, como primeira causa agente, as substâncias de partes semelhantes das demais substâncias que estão em todos os outros corpos, misturadas e
confundidas.

VII. Péricles, por conseguinte, tendo especial admiração por essa personagem a quem devia ter-se instruído no conhecimento das coisas naturais, especialmente das que acontecem no ar e no céu, tomou dela, não somente uma coragem grande e elevada e uma dignidade de linguagem onde não havia nada de afetado, de baixo, nem vulgar, mas também uma sisudez de rosto que não se movia facilmente ao riso; uma gravidade no andar, um tom de voz que jamais se perdia; uma atitude serena e um toque honesto na sua indumentária, não se perturbando jamais, com qualquer coisa que acontecesse enquanto falava, e outros dotes semelhantes, que levavam a um espanto deslumbrado a todos quantos o contemplavam e consideravam.

VIII. Conta-se, a esse propósito, ter havido certa vez, um individuo desavergonhado que se manteve durante -um dia inteiro a ultrajá-lo com palavras difamatórias em plena praça, dizendo toda a sorte de injúrias que lhe vieram à cabeça, suportando-o Péricles pacientemente, sem jamais lhe responder uma única palavra, enquanto despachava qualquer negócio importante, até retirar-se serenamente, à noite, para sua casa, sem se mostrar alterado de maneira alguma, muito embora esse importuno o seguisse sempre, repetindo-lhe todos os ultrajes possíveis. Quando estava prestes a entrar em casa, já noite fechada, determinou a um dos seus servos que tomasse uma tocha e reconduzisse esse homem à sua morada. O poeta Íon entretanto, escreve que o trato de Péricles era soberbo e arrogante e que na sua gravidade e magnanimidade havia muito orgulho e desprezo pelos outros. Louva, este, ao contrário, grandemente, a civilidade, humanidade e cortesia de Cimon, o qual sabia acomodar-se com facilidade a todos os convívios. Não convém porém nos determos na afirmação de Íon (7), o qual pretendia houvesse na virtude, como em algumas tragédias, uma parte onde se introduzissem sátiras próprias ao riso. Zênon, em compensação, aconselhava àqueles que diziam constituir a gravidade de Péricles presunção e arrogância, que se tornassem presunçosos como ele, porque essa maneira de contrafazer as coisas honestas e virtuosas, traz secretamente, com o tempo, uma tendência para amá-las e o desejo de acostumar-se ou de se adaptar a elas conscientemente. Péricles hão recebeu exclusivamente1 dons da sua conversação com Anaxágoras, mas aprendeu também com ele a expulsar de si e dominar todo supersticioso temor dos sinais celestes e das impressões que. se formam no ar, as quais geram grande terror a quem ignora suas causas, bem como aos que temem os deuses com um desvairado terror, por não terem deles nenhum conhecimento certo, como o atribuído pela filosofia natural que, em lugar de uma superstição sempre trémula e assustada, engendra verdadeira devoção, acompanhada de segura esperança do bem.

(7) No grego: -o qual queria que da mesma forma que numa representação trágica, a virtude tivesse também uma parte satírica.,; Veja-se as Observações, Cap. VIII. O

 

IX. Conta-se a esse propósito que trouxeram certo dia, a Péricles, de uma de suas terras, a cabeça de um carneiro que não tinha senão um chifre, razão pela qual o adivinho Lampão, considerando essa cabeça com o chifre muito duro no meio da testa, interpretou-a como significando que, sendo duas as linhas e dois os partidos na cidade de Atenas no tocante a seu governo, a de Péricles e a de Tucídides. o poder das duas seria fundido em um, e especialmente no daquela em cuja casa o sinal se revelara. Anaxágoras porém, achando-se presente, fez partir a cabeça (8) em dois, e mostrou aos assistentes como o cérebro do carneiro não enchia toda a capacidade do seu lugar natural, mas era comprimido de todos os lados e ia terminar em ponta como um ovo, no local onde o chifre tinha o começo de sua raiz! Anaxágoras foi assim admirado no momento, mas Lampão o foi logo depois, quando Tucídides veio a ser expulso e todos os negócios da coisa pública caíram universalmente nas mãos de Péricles.

X. Não há incoerência, no meu modo de ver, em que a filosofia natural e o adivinho tenham com boa verdade, interpretado o fato em seu conjunto, percebendo a primeira, a causa e o outro, o fim deste acontecimento, porque a profissão de uma, é procurar como acontece o fato, e a do outro porque acontece, predizendo o que significa. Quando alguém diz que descobrir a causa corresponde, a destruir a significação do sinal, não considera que, procurando abolir por esta razão as predições dos sinais e prodígios celestes, abole também os obtidos por artifício, como o som das bacias, os clarões dos fogos ao longo da costa marinha, as sombras dos ponteiros dos relógios de sol, coisas essas que se fazem por alguma razão, para serem sinal de outra coisa. Essa disputa sem fim porém, pertence mais a outro tratado.

(8) No texto de Amyot lé-se "le test" — Em nota “a cabeça".

XI. Quanto a Péricles, sendo ele ainda muito jovem, temia bastante o povo porque tinha o rosto um pouco parecido com o de Pisístrato, e os mais velhos da cidade, temiam também muito sua voz doce, sua língua elegante, sua palavra fácil, porque se assemelhavam da mesma forma, às de Pisístrato. Ele possuía, além disso, muitos bens, pertencendo a uma das mais nobres casas da cidade e seus amigos eram assim os mais acreditados e detinham a maior autoridade no manejo dos negócios. Em virtude disso, receando ser banido pelo decreto de ostracismo, Péricles não se imiscuía no governo de maneira alguma, mostrando-se na guerra homem valente que não poupava sua pessoa. Depois, porém, que Aristides morreu, que Temístocles foi expulso e que Cimon, encarregado dos exércitos, se mantinha a maior parte do tempo fora da Grécia, ocupado com guerras distantes, Péricles então (9) se ligou com a arraia miúda, preferindo a multidão da plebe pobre, ao pequeno número dos nobres e ricos, o que era contra sua natureza porque de si mesmo ele não era popular. Agiu assim, entretanto, como é verosímil, para evitar a suspeita de que pretendesse usurpar a tirania, e também porque vendo que Cimon se inclinava inteiramente para o lado da nobreza e era singularmente amado e apoiado pela gente de bem, cabia a ele, ao contrário, lançar-se entre os braços da comuna, provendo-se por esse meio, de segurança para si mesmo e de autoridade contra Cimon.

(9) Se entregou aos negócios públicos ligando-se, etc.

XII. Começou assim incontinenti a adotar uma maneira de viver totalmente nova, desde o momento em que interveio nos negócios (10) públicos, porque ninguém mais o viu depois, andar pela cidade, a não ser para ir à praça ou ao Senado. Desistiu de ir aos banquetes para os quais era convidado e abandonou qualquer outro entretenimento com amigos e qualquer outra forma de conversa, de tal modo que durante todo o tempo no qual se envolveu com o governo da coisa pública, tempo esse muito longo, não foi jamais cear em casa de nenhum de seus amigos a não ser no festim de núpcias de Euriptolemo, seu sobrinho, e aí mesmo permaneceu apenas até a ação de graças, momento em que se oferece vinho aos deuses, levantando-se depois imediatamente porque essas amáveis intimidades reduzem muito qualquer dignidade aparentemente assumida e é bem difícil manter uma severa gravidade para conservar sua reputação, e ao mesmo tempo, deixar-se frequentar familiarmente por todo o mundo. É verdade que em uma total e autêntica virtude é sempre mais belo o que é mais aparente, e nas gentes de bem e de honra não há nada que possam os estranhos achar tão admirável, quanto o que os domésticos, sempre juntos a elas, acham em sua vida quotidiana.

(10) Péricles intrometeu-se no governo na época da septuagésima terceira olimpíada, 488 anos A. C.

 

XIII.Péricles, entretanto, para impedir que se aborrecessem dele, vendo-o continuamente, não se aproximava do povo e não se apresentava a ele senão por intervalos. Não falava de todos os assuntos em público e nem saía, reservando-se da mesma forma que, em Atenas, era reservada a galera de Salamina, como diz Critolau, para as situações de grande importância. Manejava outros negócios de menor significação por intermédio de alguns oradores seus familiares, entre os quais Efialta, segundo se diz, o mesmo que tirou a autoridade e o poder à corte do Areópago, atribuindo excessiva e desenfreada licença ao povo, como declara Platão. É o motivo pelo qual dizem os poetas cómicos, ter-se ele tornado tão insolente, que ninguém o podia deter e como um cavalo novo sem rédeas, tornara-se tão audacioso que já sem querer obedecer, mordera a ilha de Eubéia, saltando por cima das demais. Desejando Péricles formar um estilo de falar e uma maneira de linguagem que fosse instrumento adequado e conforme ao modo de viver e à gravidade por ele adotados, empregava a todo o propósito o que aprendera de Anaxágoras, colorindo seus argumentos de filosofia natural com a habilidade retórica, e, tendo adquirido pelo estudo dessa filosofia altas concepções e eficácia para concluir bem tudo o que desejava provar, sendo também dotado por natureza de bom entendimento, como escreve o divino Platão, tirando disso tudo o que convinha a seus desígnios revestidos sempre com artifícios de eloquência, tornou-se distanciadamente o melhor orador do seu tempo. Por esse motivo, como se disse, impuseram-lhe o cognome de Olímpico, que equivale dizer celeste ou divino, embora queriam alguns ter sido por causa das belas obras e edifícios públicos com os quais embelezou a cidade de Atenas, e outros em razão da sua grande autoridade e poder no governo tanto em guerra quanto em paz. Não é impossível porém que esta glória lhe tenha sido conferida por motivo das muitas excelentes qualidades que havia juntas nele. As comédias, todavia, levadas à cena pelos poetas do tempo, aonde há muitas alusões a ele, umas sérias, outras em tom de farsa e burla, testemunham que foi principalmente por sua eloquência que se lhe atribuiu esse apelido, porque, dizem eles, Péricles arengando, trovejava e faiscava e trazia em sua língua um raio terrível.

Este texto está dividido em partes: 1 2 3 4 5

Última Modificação: 13 jul, 2009.

fechar Buscas Relacionadas:

  • péricles grecia ea filosofia -
  • governo de péricles democracia plena-
  • durante o governo de pericles qual o significado de democracia?-
  • filosofia quem foi per icles-
  • pericles vida e obra-
  • ensaio de Plutarco saber ouvir-
  • periodo de governo de pericles-
  • péricles e sólon os pensamentos deles-
  • aspásia péricles-
  • MURALHA LONGA GRECIA PERICLES-
  • resumo sobre á vida de periclis-
  • na epoca do governo de pericles qual o significado de democracia plena-
  • O GOVERNO DE PERICLES-
  • todos os filosofos dA GRECIA PLUTARCO VIDA OBRA E PENSAMENTO-
  • pinturas de periclis rocha-
  • <>vida e obra de pericles-
  • filosofo pericles
    -
  • pericles rocha biografia-
  • guerra de samos-
  • qual foi apelidado de pericles?-
  • resumo quem foi pericles filosofo-
  • pericles filosofo-
  • o que significava democracia plena durante o governo de pericles-
  • Grécia-Aspásia se casou com Péricles?-
  • vida de pericles-
  • filho do pericles
    -
  • PLUTARCO- PÉRICLES TRADUÇÃO-
  • qual o significado de democracia plena no governo de péricles ?-
  • pericles os frutos da democracia-
  • pericles e o mundo-

Deixe um comentário

9 Comentários para “Vida de Péricles, por Plutarco – Vidas Paralelas”

  1. 9
    Aspacia Says:

    Gostaria de saber mais sobre a história de Aspasia antes de se casar com Péricles, onde nsceu oque fazia, oque era considerada e etc…

  2. 8
    Blog do Miguel » Says:

    [...] São Paulo foi no Aréopago, espaço célebre da Atenas clássica, presente na biografia de Sólon, Péricles e Demosténes . Apesar de terem escarnecido parcialmente do cristianismo, nova seita judaica e [...]

  3. 7
    José Carlos FRANCISCO Says:

    Sobre a politica exercida por pericles

  4. 6
    José Carlos FRANCISCO Says:

    Gostaria de obter muitas materias sobre Péricles e seus contemporáneos .
    Muito obrigado

  5. 5
    victor Says:

    Em relação aos artigos referentes a biografia de Péricles por Plutarco, consegui com que minhas informações fossem abrangidas.

    Grato.

  6. 4
    Jéssica Says:

    Opa, excelente texto, não achava em livro a biografia de Péricles feita por Plutarco, você não sabe o quanto esse texto me ajudou na minha monografia e vocês do site aí também! ;)

    Continuem com esse belíssimo trabalhos!

    Abraços.

  7. 3
    Vera Rocha Says:

    Grata.

  8. 2
    césar Says:

    Muito interessante os artigos e comentarios a respeito de Pericles e Aspasia. Gostaria de receber se possivel, informações sobre os comentarios de Platão a respeito de Aspasia.
    Grato.

  9. 1
    eliane reis Says:

    vcs poderia dar alguns cursos de filosofia on line, cobrando um preço bem barato. para que todos possam fazer varios cursos, e no final dar um certificado de conclusão do curso

Consciência.org


twitterSiga as atualizações dos posts lá no Twitter do Consciência!

Inscreva-se na lista de atualizações

email:

Inscreva-se  


Parceiros

  1. Aline – Das haus die Frau
  2. Biologia Molecular
  3. Blog do Miguel
  4. Conexões Epistemológicas
  5. Coolmeia
  6. Ducs em Amsterdam
  7. Entre Panelas
  8. Estudando Letras
  9. Férias Floripa
  10. Filosofia em Quadrinhos
  11. Filosofonet
  12. Ricardo Rose – Da Natureza & Da Cultura
  13. Veritas