Continued from:

(35)             
Quatro mil seiscentas e
sessenta e oito libras francesas de 1818.
(36)             
Em grego dez mil peças de
ouro que devem equivaler-se a mais ou menos a 225.000 libras francesas de 1818.

 

XLIX.
Péricles dirigiu-se outra vez contra eles, não os encontrando de forma alguma
ociosos ou aterrados, mas muito bem decididos a recebê-lo e a combater pela
hegemonia marítima. Houve assim entre
eles uma grande batalha perto da ilha denominada Trácia (37), vencendo-a
Péricles com muita glória, derrotando, com quarenta e quatro velas apenas; os
seus inimigos que contavam setenta, das quais vinte navios de guerra.
Prosseguindo ao mesmo tempo em sua vitória ele conquistou também o porto de
Samos, e manteve os sâmios sitiados dentro da sua cidade, onde ainda
demonstravam ousadia bastante para sair algumas vezes e combater diante de suas
muralhas. Contudo, tendo chegado depois a Péricles um reforço maior de navios,
foram os sâmios totalmente encerrados dentro da cidade.

L. Péricles, tomando em seguida, sessenta galeras, lançou-se em pleno
mar, querendo, como dizem alguns, ir ao encontro de navios Fenícios que vinham
em socorro de Samos, o mais longe possível da cidade; ou, como diz
Estesimbroto, para ir à ilha de Chipre, o que não me parece verosímil. Qualquer
que tenha sido a sua intenção porém, cometeu ele uma grave falta, porque
Melisso, filho de Itágenes, grande filósofo e. ao tempo, capitão dos Sâmios,
vendo que tinham ficado poucos navios para o assédio da cidade e ainda que os
comandantes encarregados não eram gente de guerra experimentada, persuadiu seus
concidadãos a fazer uma sortida contra eles. resultando em batalha que os
Sâmios ganharam, e aprisionando muitos atenienses puseram a pique vários dos
seus navios, razão pela qual, tornando-se senhores da marinha, trouxeram para dentro da cidade
muitas coisas necessárias à guerra e de que antes careciam. Escreve
Aristóteles, entretanto, que o próprio Péricles já tinha sido antes vencido
numa batalha naval por Melisso.

(37) Uma das ilhas Esporadas junto a Samos.

 

LI. Quanto ao resto, os sâmios, para impor aos prisioneiros de Atenas injúrias
semelhantes às que deles haviam recebido, gravaram-lhes uma coruja (38) na
fronte, porque a coruja é a marca da moeda de Atenas, da mesma maneira que os
atenienses tinham impresso na testa dos seus prisioneiros uma «samena», isto é,
uma espécie de embarcação de Samos, baixa de proa mas bojuda e larga de ventre,
prestando-se bem para singrar o mar alto, veloz como veleira e assim denominada
por ter sido na ilha de Samos que se construiu a primeira com essa forma ao
tempo do tirano Policrates, que determinou sua fabricação. Conta-se que. pela
impressão desses caracteres, diz o poeta Aristófanes, em sátira velada, numa
passagem de suas comédias: «Os Sâmides são homens muito letrados».

Advertido,
Péricles, da derrota de seu exército, veio incontinenti em seu socorro. Melisso
saiu-lhe ao encontro dando-lhe batalha que perdeu, sendo repelido até dentro da
cidade, onde Péricles o encerrou com um tapume de muralha circundando-a toda, preferindo obter a vitória e tomar a praça
pela demora do tempo e com despesa, do que expor seus concidadãos ao perigo de
serem mortos ou feridos. Quando viu, entretanto, que estes se aborreciam com a
longa espera e queriam a toda a força vir as mãos, tornando-se assim muito
difícil retê-los, Péricles dividiu todo o seu exército em oito corpos, entre os
quais fazia tirar a sorte e aquele a quem tocava uma fava branca mantinha-se em
repouso, alimentando-se bem, enquanto os outros sete combatiam. Conta-se ser
essa a origem de chamar-se ainda hoje um dia branco, aquele no qual se passa
bem, em pleno prazer, em recordação dessa fava.

LII.
Escreve o historiador Éforo, ter sido ali, que começou pela primeira vez (39) a
usar engenhos para derrubar grandes muralhas, tendo Péricles considerado
admirável a novidade, porque foi Artemão, um engenheiro que as inventou,
fazendo-se levar por toda a parte sobre uma cadeira para orientar e apressar as
obras, em virtude de ser aleijado de uma perna, razão pela qual foi chamado
Periforetos. Heraclides o Pontico, entretanto, contraria nisso a Éforo, tendo
em vista os versos de Anacreonte, nos quais Artemão é chamado Periforetos,
muitas gerações antes desta guerra de Samos, e diz que este Periforetos era um
homem excessivamente delicado que
por temer tão desvairadamente todas as coisas, não se movia de casa a maior
parte do tempo, mantendo-se aí sempre sentado, tendo a seu lado dois servidores
segurando-lhe sobre a cabeça um escudo de cobre, de medo que desabasse qualquer
coisa sobre ele e se era por acaso constrangido a sair para fora fazia com que
o levassem num pequeno leito suspenso bem junto ao chão, tendo sido, por esse
motivo, apelidado Periforetos.

(38) No texto
de Amyot — "chevesche". Em nota: a coruja. Ela é representada
na maior parte das medalhas atenienses»
(39) O quarto ano da octogésima-quarta olimpíada, 141 anos A. C.

LIII.
Ao cabo de nove meses finalmente, os sâmios foram constrangidos a render-se e
Péricles fez abater e arrasar suas muralhas, tirou-lhes todos os navios e os
condenou a pagar uma grande quantia em dinheiro, da qual exibiram prontamente
urna parte, e o resto dentro de um prazo prefixado, oferecendo reféns como
garantia desse pagamento. Duride o Sâmio, porém, nessa passagem, amplia, muito
lamentavelmente as coisas, para imputar aos atenienses e a Péricles mesmo, uma
crueldade inumana, à qual Tucídides, nem Éforo nem o próprio Aristóteles fazem
menção. O que ele escreve, e não me parece verdadeiro, é ter feito,
Péricles, levar os capitães das galeras e os próprios soldados de Samos, para a
praça da cidade de Mileto, onde os fez prender em postes de madeira durante dez
dias, ao fim dos quais, a pobre gente sem aguentar mais, foi morta a golpes de
bastão com que se esmagaram suas i a becas, lançando-se fora os corpos sem a
permissão de serem sepultados.
Duride, sendo useiro e vezeiro em extravagar para fora da verdade, mesmo em
outros assuntos onde não há nada que o toque particularmente, parece, nessa
narração, ter aumentado com palavras as calamidades do seu país ultrapassando
seu dever para caluniar os atenienses e torná-los odiosos.

LIV. Subjugada a cidade de Samos, voltou Péricles para Atenas, onde fez
inumar com honrarias os ossos dos que tinham morrido nessa guerra e ele próprio
proferiu a oração fúnebre (40) em seu louvor segundo o costume, causando tão
profunda admiração que. ao descer da cátedra de onde havia arengado, as
senhoras da cidade vinham-lhe beijar as mãos pondo-lhe na cabeça, coroas e
chapéus de flores, como se faz aos campeões vitoriosos quando voltam dos jogos
onde conquistaram o prémio. Disse-lhe porém, Elpinice, aproximando-se dele:
«São em verdade belos feitos os teus, Péricles, e é bem digno de chapéus
triunfais, o teres perdido para nós muitos concidadãos bons e valentes, não em
guerra com os medos, fenícios e bárbaros como fez meu irmão Cimon, mas
destruindo uma cidade de nossa própria nação e nossa aliada». A essas palavras
Péricles sorrindo docemente, respondeu com os versos de Arquíloco:

Sendo assim tão velha não te perfumes mais.

 (40) Em Amyot "le blason
fúnebre". Em nota: è o nome que se deu muito
tempo às orações fúnebres.

LV.
Escreveu-se entretanto que. ele se orgulhou profundamente, concebendo de si
mesmo uma opinião extraordinária após ter subjugado os sâmios, dizendo que
Agamenon demorara dez anos para conquistar uma cidade bárbara, enquanto ele, em
nove meses, conquistara a mais poderosa cidade de toda nação jónica. Não era,
em verdade, sem motivo que ele atribuía a si mesmo tanta glória, porque houve
certamente grande dúvida e não menor perigo nessa conquista se é verdade o que
escreve Tucídides quando diz ter faltado pouco para os de Samos arrebatarem a
superioridade e o domínio do mar aos atenienses.

 LVI. Quando depois a guerra do Peloponeso já estava pendente (41), como
"os coríntios guerreassem os de Corfu. Péricles persuadiu o povo de Atenas
a enviar socorro aos corfiotas e a reunir à sua liga essa ilha poderosa no mar
dizendo que, logo mais, eles teriam os peloponesianos como inimigos declarados.
Decidiu assim o povo, suscitado por file, a socorrer os de Corfu, enviando-se a
sua ilha o Lacedemônio, filho de Cimon, com dez galeras apenas, como se fosse
uma zombaria, porque toda a casa de Cimon tinha afeição e grande amizade aos
lacede-mônios, razão pela qual fez Péricles entregar tão pequeno número de
navios a esse Lacedemônio, enviando-o a Corfu contra sua vontade a fim de que,
se não realizasse nesse cargo nenhuma ação digna de memória, caísse ainda mais
sobre ele a suspeita de favorecer aos da Lacedemônia. Enquanto Péricles viveu,
impediu sempre, o mais que pôde, o êxito dos filhos de Cimon por não serem
nascidos em Atenas como seus nomes indicavam, sendo assim estrangeiros,
chamando-se um Lacedemônio, outro Tessaliano e um terceiro Eliano, todos
gerados por mãe nativa do país da Arcádia. Censurado porém, por ter enviado
essas dez galeras apenas, socorro bem pequeno para os solicitantes e matéria
bastante para os que diziam mal dele, Péricles enviou outras mais tarde, em
maior número, as quais chegaram após a batalha. Os coríntios extremamente
irritados com o fato foram queixar-se ao conselho dos lacedemônios, onde
propuseram muitas acusações e queixas contra os atenienses, fazendo outro tanto
os megarianos, sob alegação de lhes terem negado os de Atenas seus portos e
mercados, (42) bem como todo o comércio e tráfico em lugares de seu domínio, o
que feria diretamente as leis comuns, e os artigos de paz acordados e jurados
por todos os gregos. Os eginetas além disso, sentindo-se pisados e tratados com
excessiva violência, enviaram secretamente suas queixas e lamúrias aos lacedemônios não ousando
abertamente lamentar-se contra os de Atenas.

 

LVII. Nesse entrementes a cidade de Potidéia, dominada então por Atenas, embora
fundada na antiguidade pelos coríntios, rebelou-se e foi sitiada pelos
atenienses, fato que apressou a guerra. Diante dessas queixas entretanto, foram
primeiramente enviados embaixadores à Atenas e Arquidamo, rei dos lacedemônios,
fez tudo o que pôde para levar a acordo a maior parte dessas diferenças,
apaziguando e serenando seus aliados, de forma que os atenienses não teriam
tido a guerra pelas demais acusações feitas contra eles, se houvessem
condescendido em revogar o decreto imposto aos megarianos, razão pela qual
Péricles que resistiu mais que nenhum outro a esta revogação e preparou e
incitou o povo a perseverar teimosamente no que havia sido decidido contra os
ditos megarianos, foi considerado causa e autor único da guerra peloponesíaca.
Conta-se assim que os lacedemônios enviaram embaixadores a Atenas para discutir
essa questão, e como Péricles citasse uma lei que proibia a retirada do quadro
sobre o qual se escrevesse um édito público, houve um dos embaixadores da
Lacedemônia chamado Poliarces, que lhe disse: «pois bem, não o tires, vira-o
somente, porque não há lei nenhuma que o proíba».

 

LVIII. Considerou-se
espirituoso o dito, mas nem por isso Péricles cedeu. Parece portanto que ele
tinha algum motivo secreto de especial e particular malquerença contra os megarianos, e querendo
encobri-lo com uma causa pública e manifesta (43), retirou-lhes e excluiu-os
das terras sagradas que eles lavraram e para isso fez decretar que lhes fosse
enviado um arauto para intimá-los a deixar o lugar, devendo o mesmo arauto ir
até os lacedemônios para acusar diante deles aos megarianos (44). É certo que
esse decreto foi posto em execução por Péricles, não havendo nele nada que não
fosse justo e razoável, tendo acontecido todavia, que o arauto enviado morreu,
supondo-se que os megarianos o tivessem feito morrer. Charino, por esse motivo,
propôs incontinenti um decreto contra eles, declarando-os inimigos mortais dos
atenienses para sempre, sem nenhuma esperança de reconciliação e dispondo que
se um megariano pusesse o pé dentro do território da Ática fosse punido de
morte, e que os capitães anuais quando fizessem o seu juramento ordinário,
jurassem, entre os outros artigos, que todos os anos entrariam em armas, por
duas vezes, pelo interior do país e em prejuízo dos megarianos, e que o arauto
Antemócrito fosse enterrado no local chamado então Portas Triasianas e agora denominado Dipilo (45). Os megarianos,
negando decididamente terem sido causa da morte desse Antemócrito, lançavam a
culpa sobre Aspásia e Péricles, alegando como testemunho os versos do poeta
Aristófanes em sua comédia intitulada Acharnes tão conhecidos que o povo mesmo
os tem na boca:

Nossos jovens embriagados foram
Um dia até Mégara, onde raptaram
Uma prostituta chamada Simeta.
Os de Mégara, irritados, em lugar dela,
Vieram apanhar furtivamente
Duas raparigas de Aspásia.

 

(41) Ela começou dez anos depois da guerra de Samos.no
primeiro ano da octogésima olimpíada.
(42) Em Amyot: "leurs estappes". Em
nota: seus mercados. C.
(43) Em grego: -Ele os acusou de lavrar um terreno
consagrado e em consequência fez expedir um decreto". Este terreno
consagrado era aquele que pertencia ao templo de Eleusina.
(44) Em grego: "Este decreto expedido por Péricles não
continha senão queixas muito moderadas e expressas de maneira muito humana; mas
aconteceu que o arauto Antemócrito, aí enviado, morreu". C.

LIX.
É assim bem difícil saber a verdade da primeira origem e causa primitiva desta
guerra; todos historiadores porém, estão de acordo em que Péricles foi o principal empecilho à revogação do decreto lavrado contra os megarianos.
Mantêm alguns que foi por autêntica magnanimidade, e com bom julgamento, que ele
persistiu no que lhe parecia mais certo, porque considerava que o pedido dos
lacedemônios, não era senão um ensaio para sondar se os atenienses pretendiam
ceder-lhes, e que obedecer nisso seria, evidentemente, confessar que se sentiam
mais fracos. Outros, pelo contrário, dizem que foi por arrogância e teimosia,
para mostrar sua autoridade e poder, que ele não deu importância aos
lacedemônios. Mas a pior versão, a qual, entretanto, tem maior número de
testemunhos para confirmá-la, é dada mais ou menos nestes termos: Ofídias, o
fazedor de imagens (46) como já o dissemos antes, empreendera fazer a estátua
de Palas e sendo amigo de Péricles, tinha grande prestígio junto a ele. Isso
suscitou-lhe a inveja de alguns malevolentes, os quais desejando sondar o juízo
que o povo faria de Péricles, atraíram Menão, um dos operários que trabalhava
sob a direção de Ofídias e o fizeram vir à praça e requerer ao povo garantia
pública para poder revelar e acusar Ofídias de certo crime por ele cometido. O
povo recebeu sua denúncia, e sua acusação foi ouvida em plena assembleia
popular, onde não se fez nenhuma menção de roubo, porque Ofídias, a conselho e
orientação de Péricles, tinha colocado e aplicado o ouro na composição da
imagem de tal forma que se podia tirá-lo e pesá-lo (47). Péricles alegou publicamente o fato aos acusadores,
dizendo-lhes que o pesassem. Mas era a glória de suas obras que excitara essa
inveja, tanto mais e especialmente porque, tendo gravado no escudo da deusa a
batalha das amazonas, entalhara seu retrato ao natural, na personagem de um velho calvo, que levanta nas
mãos uma grande pedra.. Retratara! também aí a Péricles muito belo, combatendo
contra uma amazona num gesto tal, que sua mão, levantando um dardo diante do
rosto, parecia querer esconder e cobrir essa semelhança num singular artifício,
embora ela se descubra e revele de um lado e de outro. Ofídias foi assim
lançado à prisão, onde morreu de doença ou talvez envenenado por seus inimigos,
como dizem alguns, para estimular ainda mais a suposição e a calúnia contra
Péricles. Como quer que seja, o povo deu imunidade e franquia de todos os
subsídios ao acusador Menão, de acordo com um decreto proposto por Glicão que
instou junto aos capitães para que o tomassem sob sua proteção, e cuidassem da
segurança de sua pessoa.

 

(45) Esta porta é ainda hoje um dos monumentos de
Atenas.
(46) Um dos mais célebres escultores da antiguidade.
(47) Nessa estátua que era de ouro e marfim, as diferentes
partes se mantinham unidas por meio de parafusos e porcas. Essas partes
podiam ser destacadas e pesadas.

 

LX. Por esse mesmo tempo foi também Aspasia acusada de não crer nos
deuses, sendo acusador Hermipo, o escritor de comédias, que a denunciou, além
disso, como alcoviteira de Péricles, recebendo em sua casa as burguesas da
cidade que se entregavam a ele. Diopites, propôs concomitantemente um decreto,
determinando que fosse feito um inquérito sobre os descrentes sem fé nas coisas
divinas, que usinavam certos propósitos novos, relativos ao ar e ao céu,
dirigindo a suspeita contra Péricles por causa de Anaxágoras. O povo aceitou e
aprovou esse Inquérito, sendo proposto além disso por Dracontides, que Péricles
prestasse contas do dinheiro por ele despendido junto aos pritanos, que eram como
superintendentes das finanças, e que os juízes julgadores, dessem as suas sentenças
no interior da cidade sobre o altar. Agnão, porém, retirou essa disposição do
decreto, fazendo prescrever em seu lugar, que o processo fosse julgado por
1.500 juízes, denominando-se a ação de roubo, ou concussão ou injustiça, como
se quisesse. Ora, quanto à Aspásia, Péricles a salvou pela piedade e compaixão
inspirada aios juízes, suplicando com grande afeição por ela e chorando
intensamente enquanto a causa se disputava, como o escreve Esquines. Quanto a
Anaxágoras, todavia, temendo não conseguir o mesmo, enviou-o para fora da
cidade acompanhando-o pessoalmente.

LXI.
Quanto ao resto, vendo que tinha incorrido na desgraça popular por causa de Ofídias,
e temendo por isso, o resultado do julgamento, inflamou a guerra sempre adiada
e que apenas fumegava, esperando fazer esvair-se por esse meio as acusações
lançadas contra ele, eliminando assim a inveja que lhe tinham, porque o povo,
encontrando-se em grandes questões cheias de perigo, lançar-se-ia em seus
braços, entregando-se totalmente a ele, tal era sua autoridade e reputação. São
essas as causas pelas quais Péricles não quis permitir, como se conta, que os
atenienses cedessem em nada aos lacedemônios, embora não se saiba exatamente o
que se deva afirmar quanto a isso. Os da Lacedemônia, porém, conscientes de que
se eles o pudessem afastar e arruinar
poderiam mais facilmente, manejar a seu bel prazer os atenienses, enviaram-lhes
emissários dizendo-lhes que deviam purgar sua vida do crime ciloniano (48), e
isso por saberem que a raça de Péricles, pelo lado materno, estava maculada por
esse crime, como o escreve Tucídides. Essa prova, entretanto, saiu contrária, à
esperança dos enviados, porque em vez de desconfiar de Péricles e caluniá-lo,
seus concidadãos o honraram ainda mais, confiando nele como nunca ao verem que
os inimigos o temiam dessa forma.

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.