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XXXIII. Tornou evidente, com isso, serem a retórica, e
a eloquência, como diz Platão, artes que conduzem e orientam os espíritos dos
homens a seu bel-prazer, constituindo o seu principal artifício, a habilidade
em mover a propósito as paixões e os afetos que, como os tons e sons da alma,
querem ser tocados e tangidos por mão de bom mestre. Ele conseguia isso aliás,
não apenas pela força de sua eloquência, como testemunha Tucídides, mas pela
reputação de sua vida, pela opinião e a confiança que inspirava sua probidade,
porque, de forma alguma, era subornável por presentes, nem o dominava a
avareza, visto que, transformando sua cidade de grande, em muito grande e
opulenta, e superando em autoridade e poder a muitos reis e tiranos, mesmo
entre os que puderam, por testamento, deixar seus estados aos filhos, ele,
entretanto não aumentou jamais, os bens deixados por seu pai, em uma dracma de
prata sequer.

XXXIV. E não obstante o historiador Tucídides
descreve assaz claramente a grandeza do seu poder, e os poetas cómicos desse
tempo a reconhecem malignamente por meias palavras, chamando novos
Pisistratidas a seus familiares e amigos, e dizendo que cabia obrigá-lo a protestar
e jurar que não usurparia a tirania, querendo significar com isso que lua
autoridade era excessiva para uma república popular. E Teleclides, entre
outros, diz que os atenienses tinham colocado entre suas mãos a renda das
cidades submissas, bem como as próprias cidades para ligar e desligar, para
abater ou reconstruir à vontade suas muralhas, e ainda o poder de tratar paz e
aliança dispondo de sua força, seu poder, suas finanças
e todos os seus bens. E isso tudo não foi concedido apenas por um capricho nem
por uma voga de favor passageiro, mas durou quarenta anos, sendo ele sempre o
primeiro da cidade entre os Efialtas, Leócrates, Mirônides, Cimons, Tolmides e
Tucídi-des, porque, após ter arruinado e feito banir a este, Péricles
manteve-se ainda dominando a todos os outros, pelo espaço de quinze anos, e
(26) adquirindo uma superioridade e autoridade, de comando que durou sempre,
continuamente, por todo esse tempo, enquanto a dos outros capitães não durava
senão um ano. Péricles apesar disso tudo, permaneceu sempre invencível e
incorruptível por dinheiro, embora aliás, não fosse mal administrador nem
preguiçoso em conservar o seu.

XXXV. No que se refere aos bens que lhe pertenciam
a justo título, deixados por seus ascendentes, para que não perecessem por
negligência, e ao mesmo tempo não lhe dessem muitas preocupações, nem lhe
tomassem muito tempo ao querer divertir-se em valorizá-los, Péricles os
administrava da maneira que lhe parecia mais fácil e mais certa, isto é, vendia
por atacado todos os frutos colhidos da sua produção anual, e fazia depois
comprar diariamente no mercado o que era necessário para o entretenimento e despesa cotidiana de sua casa. Não era isso
muito agradável a seus filhos quando se tornaram um pouco maiores, nem
satisfazia às suas mulheres que queriam gastar mais largamente e se queixavam
de uma despesa ordinária excessivamente estreita e cerrada visto que em uma
casa tão rica e tão grande não havia jamais coisa alguma que sobrasse, sendo aí
toda a receita controlada na medida justa. Todo esse manejo era conduzido e
orientado por um seu servidor chamado Evângelo, homem muito hábil e entendido
na direção financeira de uma grande casa, ou por ter sido preparado e instruído
por Péricles nesses assuntos, ou por dote natural:

(26) É preciso ler no texto: "me oytan" assim como se
encontra em alguns manuscritos, e traduzir: -tendo adquirido um poder e uma
autoridade que não tinham os arcontes anuais". C

 

XXXVI.
Essas coisas diferiam muito da sabedoria de Anaxágoras, que abandonou sua casa
e deixou suas terras sem cultura e reduzidas a pastagem, por desprezo das
coisas terrestres e arrebatamento pelas celestes. Há porém, segundo me parece,
grande diferença entre a vida de um filósofo contemplativo, e a de uma
personagem ativa, envolvida) com o governo de uma república, visto que um
emprega seu entendimento na especulação de, coisas belas e honestas, sem que
para isso tenha necessidade de nenhum instrumento nem de matéria exterior
qualquer, enquanto o outro, acomodando sua virtude à utilidade comum dos
homens, tem necessidade de riquezas, como de um instrumento, não somente
indispensável mas também honesto, como aconteceu a Péricles que socorreu muitos
pobres, e especialmente
Anaxágoras entre outros. Conta-se deste, que estando Péricles preocupado com
outras coisas e sem tempo para pensar nele, viu-se abandonado de todo o mundo
em sua velhice, pelo que, cobrindo a cabeça, deitou-se resolvido a deixar-se
morrer de fome. Péricles, ao ter conhecimento disso, correu imediatamente muito
aflito para junto dele, rogando-lhe o mais afetuosamente possível, que
procurasse restaurar sua vontade de viver, lamentando não a ele mas a si
próprio por perder um tão fiel e sábio conselheiro em questões relativas aos
negócios públicos. Anaxágoras descobriu então o rosto, dizendo-lhe: «quem se
preocupa com a luz de uma lâmpada, Péricles, abastece-a com óleo.»

XXXVII. Ora, começavam já por esse tempo, os
lacedemônios, a enciumar-se com o crescimento de Atenas, porque Péricles,
querendo levantar ainda mais o coração do povo ateniense para fazê-lo pensar em
todas as coisas altas e grandes, emitiu um decreto, determinando que se
enviassem embaixadores a todos os gregos, para solicitar-lhes onde quer que
habitassem na Europa ou Ásia, fosse em cidades pequenas ou grandes, que
enviassem os seus deputados a Atenas para uma assembleia geral que aí se
reuniria, a fim de deliberar sobre os templos dos deuses queimados pelos
bárbaros, e sobre os sacrifícios votados pela salvação da Grécia, por ocasião
da batalha dada aos mesmos bárbaros, e também quanto à marinha, a fim de que
cada um pudesse navegar com segurança onde bem lhe parecesse, vivendo todos
amigavelmente em boa paz uns com os outros. Foram assim enviados para esta
comissão, vinte personagens de mais de cinquenta anos, dos quais cinco se
dirigiram aos Dórios (27) da Ásia e aos habitantes das ilhas, ate as de Lesbos
e Rodes; cinco outros percorreram todo o país do Helesponto e da Trácia, até a
cidade de Bizâncio; outros cinco foram encarregados de ir à Beócia, Fócida e a
todo Peloponeso, passando dali ao país dos lócrios e a toda a terra firme
adjacente, até a região da Acarnania e Ambracia; os demais foram, primeiro, à
ilha de Eubéia e de lá aos Etaianos e a todo (28) o golfo de Maléia, aos
ftiotas, aos acasios e aos tessalianos, instando junto a todos os povos para
persuadi-los a raviarem representantes a Atenas, para assistirem ao conselho
que aí se manteria para pacificação e união de toda a Grécia. Nada porém, se
fez afinal, nem se reuniram as ditas cidades gregas, em virtude dè manobras dos
lacedemônios que o impediram, como se diz, porque do Peloponeso partiu a
primeira recusa a esse convite. Eu quis, de propósito, escrever sobre isso.
para dar a conhecer a magnanimidade de Péricles e a elevação de sua alma e entendimento.

XXXVIII. Quanto ao resto, no cargo de capitão,
ele foi muito estimado por levar sua gente à terra com a máxima segurança,
porque jamais, por sua vontade,
arriscou batalha onde sentisse grande dúvida ou perigo aparente, e não
considerava bons capitães, nem queria seguir aos que tinham obtido grandes
vitórias por se terem aventurado, muito embora fossem grandemente louvados e
estimados. A esse respeito, costumava dizer: «que outro que não ele, os levasse
à matança, porquanto, no que dependesse dele, todos seriam imortais.» E vendo
que Tolmides filho de Tolmeu, confiante em êxitos passados pelos quais era
muito querido e louvado em virtude de seus belos feitos de armas, preparava-se
para entrar, sem propósito nem motivo qualquer, no país da Beócia, e já tinha
induzido mil dos mais ousados e valentes jovens da cidade a oferecer-se
voluntariamente para acompanhá-lo nessa expedição, adicionando-se ao resto do
exército já levantado por ele, Péricles esforçou-se em dissuadi-lo, retendo-o
em casa com advertências que lhe fez publicamente diante do povo, ocasião na
qual pronunciou palavras, bem lembradas mais tarde: «se ele não quisesse
acreditar no seu conselho, disse, esperasse ao menos o curso do tempo, o mais
sábio conselheiro que se poderia ter». Essas palavras de Péricles foram
mediocremente aplaudidas, no momento, mas poucos dias depois, quando veio a
notícia de que o próprio Tolmides tinha sido morto em uma batalha perdida,
perto da cidade de Coronéia, onde muita outra gente de bem c muitos homens valentes
de Atenas tinham perecido, veio seu dito aumentar-lhe grandemente a reputação e a benquerença da plebe, porque
passou a ser considerado como homem prudente, que amava seus concidadãos.

(27) No grego: os jonianos e
os Dórios. C.
(23) "Gouffre" no texto francês. Em
nota: golfo.

 

XXXIX. Mas de todas as expedições dirigidas por ele
como chefe do exército de Atenas, a de Quersoneso foi a mais apreciada e
encarecida, por ter sido muito salutar a todos os gregos habitantes do país,
porque além de conduzir mil burgueses de Atenas para aí habitarem, fortificando
assim as cidades com esses homens válidos, ele guarneceu também o istmo (29)
que impede a região de ser uma ilha, com uma fortificação distendida de um mar
a outro, garantindo assim a região contra as incursões, surpresas e pilhagens
dos trácios habitantes da zona, lívrando-a por esse meio de uma guerra
perniciosa que a revolvia continuamente, em virtude da proximidade dos bárbaros
seus vizinhos ou habitantes do país, os quais não viviam senão de rapinagem.

XL.
Péricles tornou-se também querido e famoso entre os estrangeiros por ter
cercado todo o Peloponeso, a partir do porto de Peges na costa megárica, com
uma frota de cem galeras, sendo que não pilhou apenas as cidades marítimas,
como antes dele tinha feito Tolmides, mas entrando bem para dentro da terra,
longe do mar, com os homens de guerra levados nas galeras, obrigou alguns a se
retirarem para dentro de suas muralhas, tal o terror por ele gerado, e derrotou em batalha no país de
Nemeia aos Sicionios que o esperaram em campo e, levantando um troféu para
assinalar essa vitória, embarcou nos navios algum reforço de gente de guerra
recolhida na Acaia, aliada então, dos atenienses e passou à terra firme
fronteira, onde navegando para além da embocadura do rio Aquelou, foi correr
toda a província da Acarnania, encerrando os enéadas dentro de suas muralhas.
Depois de ter danificado e destruído todo o país aberto, voltou para casa
fazendo-se conhecer dos inimigos, nessa viagem, como capitão temível e
conduzindo com segurança seus concidadãos, porque não aconteceu em toda
expedição um único desastre aos que estiveram sob seu comando, seja por caso
fortuito ou por outro motivo qualquer.

 

XLI. Tendo ido depois com uma grande frota de navios muito bem equipados (30) ao
reino do Ponto, tratou aí complacentemente as cidades gregas, fazendo tudo o
que lhe pediram e dando a conhecer aos bárbaros, habitantes da região e aos
seus príncipes e reis, a grandeza do poder dos atenienses que navegavam sem
nada temer por toda a parte, onde bem lhes parecia, mantendo todo o mar em obediência. Péricles deixou além disso aos sinopenses treze galeras com certa quantidade de
gente de guerra, comandadas pelo capitão Lamaco, para defendê-los contra o
tirano Timesileonte, e depois de expulso este com os de sua liga, Péricles fêz
publicar e passar um edito em Atenas, autorizando seiscentos burgueses da
cidade que, sem constrangimento o desejassem, a ir residir em Sínope, onde lhes
seriam repartidos os bens e heranças outrora pertencentes ao tirano e seus
adeptos.

 

(29) É a
entrada do Quersòneso, ou da Criméia. A fortaleza de Perekop a defende hoje.
(30) Leia-se: no Ponto-Euxino. C.

 

XLII.
Quanto ao mais ele não aquiesceu com os desvairados apetites dos seus
concidadãos, nem se deixou arrastar pela sua cobiça excessiva que ao ver as
próprias forças tão grandes, e tão favorável a fortuna, pretendeu tentar
novamente a conquista do Egito e agitar as províncias marítimas do império do
rei da Pérsia, E a esse tempo já havia muitos fascinados, pela infeliz e
calamitosa aspiração da Sicília, que Alcibíades depois excitou ainda mais.
Havia também quem já pensasse em conquistar a Toscana e o império de Cartago, o
que não era de todo inviável nem deixava de motivar alguma esperança, tendo em
vista a grande extensão dos seus domínios e o curso favorável dos seus
empreendimentos de que se saíam de acordo com os seus desejos. Mas Péricles
contrariou o impulso e cortou toda essa curiosa ambição, empregando a maior
parte do seu poder em conservar e assegurar aquilo que tinham conquistado,
considerando que se faria muito, impedindo-se o crescimento dos lacedemônios, a
quem sempre se opunha, como declarou em muitas outras passagens e especialmente
pelo que fez na guerra santa. Porque lendo os lacedemônios retirado aos fócios
a superintendência do templo de
Apolo na cidade de Delfos, usurpada por eles e tendo-a reposto entre as mãos dos
délficos, Péricles, mal se tinham os lacedemônios retirado, avançou também com
um exército e restabeleceu os rocios. E como os lacedemônios tivessem feito
gravar na fronte de um lobo de cobre a prerrogativa que os de Delfos lhes
haviam outorgado de propor seus pedidos ao oráculo em primeiro lugar, Péricles,
obtendo (31) o mesmo direito dos fócios, fê-lo gravar sobre o flanco direito da
mesma estátua. XLIII. Os resultados, em verdade, testemunham sua prudente
sabedoria em ter contido as forças dos atenienses dentro da Grécia, porque em
primeiro lugar, se rebelaram os de Eubéia, e Péricles conduziu incontinenti
contra eles, o exército de Atenas; vieram-lhe em seguida notícias de outro
lado, de que os megarianos tinham também repentinamente, tomado armas contra os
atenienses, estando já os inimigos, com grande poder, dentro da Ática, sob o
comando de Plistonax rei da Lacedemônia. Voltou-se Péricles, imediatamente para
enfrentar essa guerra acesa no interior da própria Ática. Não ousou porém
apresentar-se em formação de batalha contra tão grande número de bons
combatentes, mas sabendo que o rei Plistonax, ainda muito jovem, era governado
principalmente pelo conselho de Cleandrides, que os Éforos tinham agregado ao
rei para assessorá-lo,
aconselhá-lo e guiá-lo, Péricles experimentou secretamente corromper a esse
Cleandrides e conseguindo logo suborná-lo por dinheiro, persuadiu-o que
reconduzisse os peloponesianos para fora do país da Ática, o que foi feito.
Quando, porém, os lacedemônios viram o exército desfeito e os povos retirando-se
cada um para sua cidade, irritaram-se. de tal modo que condenaram seu rei a uma
pesada multa, pelo que, não podendo pagá-la, foi constrangido a ausentar-se da
Lacedemônia, enquanto Cleandrides, fugindo desde logo, foi condenado a morte por
contumácia. Este Cleandrides era pai de Gilipo, que mais tarde bateu os
atenienses na Sicília e a quem a natureza parece ter instilado a avareza como
uma doença hereditária passando de pai a filho, porque, tendo sido também
ignominiosamente acusado e provada a sua culpa por atos de vilania por ele cometidos, foi banido de Esparta como narramos mais
pormenorizadamente na vida de Lisandro. Na prestação de. contas desse cargo,
como tivesse Péricles lançado uma verba de despesa de 10 talentos, declarando
que a empregara onde fora necessária, o povo a ratificou sem querer inquirir
como, nem em que, e sem verificar se era verdadeira ou não. Há alguns, entre os
quais o filósofo Teofrasto, que escrevem que Péricles enviava cada ano à
Esparta 10 talentos (32), com os quais entretinha os que aí exerciam a autoridade, para não lhe fazerem a
guerra, não com a intenção de comprar a paz, mas sim o tempo durante o qual,
preparando-se com toda a calma, pudesse ter maior comodidade para sustentar a
luta.

(31) Amyot
omitiu uma palavra essencial que consta do Grego: "tendo obtido para os
atenienses"
(32) 6.000 escudos. Amyot. 46.687 libras
francesas de 1818.

 

XLIV.
Logo que o exército dos peloponesianos saiu da Ática, Péricles se voltou contra
os rebeldes e passou à ilha de Eubéia com cinquenta velas e cinco mil
combatentes de infantaria bem armados, e ali subjugou todas as cidades
sublevadas, expulsando os hipobates
(33) que eram os mais renomeados
entre os calcidenses tanto por seus haveres como por sua valentia e proezas. Expulsou
da mesma forma os estieianos, a quem fez evacuar todo o país, alojando em sua
cidade burgueses de Atenas somente. Péricles os tratava assim tão rigorosamente
sem querer perdoá-los por terem eles apreendido uma galera de Atenas, fazendo
morrer todas as pessoas que ali se encontravam.

XLV.
Efetivando-se depois uma trégua de trinta anos entre atenienses e lacedemônios,
Péricles dirigiu a guerra contra os da ilha de Samos, acusando-os de não terem
querido obedecer à intimação dos atenienses para pacificarem as querelas
existentes entre eles e os milesianos, Como porém, muitos opinem que ele
empreendeu essa expedição a pedido de Aspásia, não será fora de propósito
procurar esclarecer, nesta
passagem, quem era essa mulher, e que artifício ou poder tão grande tinha, para
prender dessa forma em suas redes os principais homens que então se envolviam
no governo da coisa pública, e para que os próprios filósofos falassem tanto e
tão amplamente dela.

(33) Leia-se
bipobotes, isto é, aqueles cuja fortuna punha em condições de nutrir cavalos.
C. ASPÁSIA

 

XLVI. É coisa absolutamente certa, em primeiro lugar, ter sido nativa
da cidade de Mileto. Era filha de um certo Axioco, e. seguindo o exemplo de uma
antiga cortesã da Jônia chamada Targélia, entrou em contacto com as principais
e maiores personagens do, seu tempo, porque essa Targélia, sendo bela de rosto
e muito graciosa, com um espírito vivo e doce linguagem, fizera o mesmo na
Grécia, atraindo para o serviço do rei da Pérsia todos os que se aproximaram
dela, com tanto êxito que semeou pelas cidades gregas amplos fundamentos da
facção Meda, por serem os maiores e mais poderosos homens de cada cidade todos
aqueles com quem ela estabeleceu relações. Quanto à Aspásia, todavia, dizem uns
que Péricles a procurou como mulher cheia de sabedoria, muito entendida em
matéria de governo estatal, sendo que o próprio Sócrates a ia ver de vez em quando
com seus amigos, e que os que a frequentavam levavam também algumas vezes as
suas mulheres para ouvi-la conversar, embora Aspásia levasse uma vida nada bela
nem honesta porque mantinha em sua casa jovens raparigas que comerciavam com o
corpo. Esquines escreve que Lísicles, um revendedor de gado, homem antes de
baixa e vil natureza, tornou-se o primeiro de Atenas, após a morte de Péricles,
por frequentar esta Aspásia. E do livro de Platão, intitulado Menexeno, embora
escrito, a princípio, sob forma de sátira e zombaria, consta como história
verdadeira, que esta mulher tinha fama de ser procurada por muitos atenienses
que iam aprender dela a arte da retórica.

XLVII.
Parece entretanto, mais verossímil que a afeição de Péricles por ela vinha mais
do amor que de outra causa, porque ele esposara uma mulher sua parente, a qual
fora antes casada com Hiponico, de quem tivera Calias, apelidado o rico, e
depois Xantipo e Páralo de Péricles. Não lhe sendo porém agradável sua
companhia, ele a entregou de bom grado e com seu consentimento a um outro, e
tomou Aspásia a quem amou singularmente, porque todas as vezes que saía de casa
para ir à praça, ou a ela retornava, Péricles saudava Aspásia beijando-a. |Nas
antigas comédias, Aspásia é, por essa razão, chamada em muitas passagens a nova
Onfalc e algumas vezes Dejanira, outras Juno; mas Cratino a chama abertamente
prostituta nestes versos:

Ela gerou a sua Juno,
Aspásia, a prostituta desavergonhada.

Parece que Péricles teve dela um bastardo, porque Eupolis o introduz em
uma comédia sua, chamada (34)
Demosii, interrogando Pirônides nestes termos:

– Meu filho bastardo ainda vive?

Pirônides respondeu-lhe em seguida:

– Ele seria homem feito
certamente se não temesse essa má rameira.

Esta Aspásia, em resumo, foi tão celebrada e teve tanta fama, que Ciro,
o que combateu contra o rei Artaxerxes, seu irmão, pelo império da Pérsia, deu
o nome de Aspásia a uma das suas concubinas que ele mais amava, chamada antes
Milto, natural da Fócida e filha de Hermótimo. Morto Ciro, em batalha, esta
Aspásia foi aprisionada e conduzida ao rei seu irmão, junto a quem teve depois
muito prestígio. Isto me veio à memória ao escrever esta vida, e me pareceu
seria agir. muito duramente rejeitando-o ou omitindo-o.

(34) Deve-se ler "Demis", isto é. "os
povos". Veja-se p. 164.
C.

XLVIII. Voltando porém ao nosso tema, acusa-se Péricles de ter feito a
guerra contra os de Samos e a favor dos de Mileto a pedido de Aspásia. Entre
essas duas cidades que lutavam pela de Priena, eram mais fortes os sâmios. Os
atenienses porém, intimaram-nos a que abandonassem o caminho das armas e viessem pleitear sua diferença diante
deles onde se faria justiça. Os sâmios, todavia, não quiseram atender, razão
pela qual Péricles foi até Samos, aboliu o governo da nobreza pouco numerosa,
tomando como reféns cinquenta das principais personagens da cidade e mais
outras tantas crianças que fêz recolher à ilha de Lemnos. Há quem diga, sobre
isso, que cada um dos ditos reféns lhe quis dar um talento (35), além dos quais
foi ele ainda presenteado com muitos outros por aqueles que não queriam ver a
autoridade soberana do governo colocada entre as mãos da plebe.
Pissutnes o Persa, lugar-tenente do rei, enviou-lhe além disso, por amizade
dedicada aos de Samos, 10.000 escudos (36) para que os perdoasse. Péricles, porém,
nada recebeu de tudo isso, e tendo feito em Samos tudo quanto se tinha proposto
fazer e estabelecendo ali um governo popular, voltou para Atenas. Os sâmios,
entretanto, se rebelaram logo depois, recuperando seus reféns por intermédio
desse Pissutnes que os raptou e forneceu aos demais o necessário para sustentar
a guerra.

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