Vida de Díon -Plutarco – Vidas Paralelas

Vida de Díon -Plutarco – Vidas Paralelas

Díon

por Plutarco
Capítulo do livro Vidas Paralelas (Bioi Paralleloi)

Tradução direta do grego de Gilson César Cardoso

Extraído da
edição da editora Paumape, 1992

Prefácio

1. Como disse Simônides, ó Sósio
Senecião, os troianos não quiseram mal aos coríntios por
terem estes participado da expedição dos aqueus contra eles porque
Glauco, originário de Coríntio, combatia ardorosamente por sua
cidade. Assim também, não será, natural que nem os
romanos, nem gregos, se queixem da Academia, que tanto deu a uns e outros como
se pode ver por esta obra, que contém as biografias de Bruto e
Díon? Este ouviu as lições do próprio Platão
e aquele se alimentou de sua doutrina, saíram ambos, por assim dizer, da
mesma palestra antes de travar os maiores combates. Não espanta que,
realizando inúmeras ações parecidas e como que fraternas,
tenham prestado esta homenagem a seu guia na senda da virtude: que a sabedoria
e a justiça devem se ligar ao poder e à fortuna a fim de que a
conduta política apresente ao mesmo tempo beleza e grandeza. Com efeito,
da mesma forma que o professor de ginástica Hipômaco pretendia
reconhecer de longe seus ex-alunos apenas pela maneira com que compravam carne
no mercado, assim é normal que a razão, entre aqueles que
receberam educação semelhante, acompanhe igualmente seus atos e
lhes comunique, junto com a conveniência, uma espécie de harmonia
e de ritmo.

 

2. As peripécias que lhes sobrevieram – as mesmas,
em virtude mais das circunstâncias que de seus desígnios –
introduzem um paralelismo nas vidas de ambos. De fato, um e outro pereceram
antes de atingir o objetivo que sua atividade se havia proposto, travando
fatigantes lutas sem alcançá-lo. O mais surpreendente de tudo,
porém, foi que a divindade fê-los entrever a morte por
intermédio da aparição semelhante de um fantasma
ameaçador. Verdade é que alguns negam esse tipo de fenômeno
alegando que jamais um homem sensato teve a visão de um demônio ou
de um espectro, e que apenas as crianças as mulheres e os doentes de
espírito arrastam consigo, nos desarranjos da alma ou no desequilíbrio
do corpo, essas fantasias vãs e estranhas – porque tem em si mesmo a
superstição (deisidamonía) que atua como
gênio mau. Mas se Díon e Bruto, homens ponderados,
filósofos, pouco inclinados a deixar-se surpreender ou ludibriar por uma
impressão qualquer, sentiram-se tão vivamente afetados por uma
aparição que a comunicaram aos outros, talvez seja melhor admitir
a tradição – por mais bizarra que pareça – recebida da
mais alta antiguidade.  Segundo esta
tradição, os demônios maus e invejosos, enciumados dos
homens de bem e empenhados em contrariar-lhe as ações, suscitam
em seu espírito perturbações e medos que agitam e abalam a
sua virtude, para impedi-los de continuar impérvios e puros de conduta;
assim, depois da morte, não poderão alcançar um destino
melhor do que os desses demônios.

Fiquem estas considerações, no entanto, para outra obra.
Nesta, que constitui o décimo segundo tomo de nossas Vidas Paralelas,
comecemos pela história dos mais antigos dos nossos heróis.

 

Os casamentos de Dionísio, o Antigo. Primeira Viagem de Platão
à Sicília. 3
. Dionísio, o Antigo, mas chegou ao
poder desposou a filha do Siracusano Hermócrates. Como sua tirania ainda
não estivesse consolidada, os siracusanos se rebelaram e praticaram
contra sua mulher violências tão indignas e terríveis que a
pobre se suicidou. Dionísio casou-se, após restabelecer e firmar
sua autoridade, com duas mulheres ao mesmo tempo, uma da Lócrida,
chamada Dóris, e a outra da própria Siracusa, chamada
Aristômaca. Esta era filha de Hiparino, homem dos mais destacados entre
os siracusanos e que comandara com Dionísio da primeira vez que este
fora escolhido general supremo para a condução da guerra. Diz-se
que desposou as duas no mesmo dia, mas ninguém soube jamais de qual das
duas se aproximou primeiro. Partilhou a vida, igualmente, entre ambas: uma e
outra comiam com ele e se alternavam em seu leito. O povo de Siracusa teria
apreciado que a natural do país prevalecesse sobra a estrangeira, mas o
privilégio que coube a esta de ser a dar a Dionísio um filho (o
mais velho de sua descendência) sustentou-a contra o preconceito motivado
por sua origem. Aristômaca ficou muito tempo com Dionísio sem
conceber, se bem que ele desejasse vivamente ter filhos dela: chegou a condenar
a morte a mãe da lócria, a quem acusava de utilizar filtros para
tornar Aristômaca estéril.

4. Díon era irmão de Aristômaca. De
início fora prestigiado por causa da irmã, mas depois, dando
provas de suas aptidões, o tirano passou a apreciá-lo pelo que
ele era. Dionísio, entre outras marcas de favor, autorizou os
tesoureiros a darem a Díon o que ele pedisse, desde que no mesmo dia lhe
prestasse contas. Díon mostrava já um caráter altivo,
magnânimo e corajoso. Reforçou essas qualidades quando por um
divino acaso, alheio aos cálculos humanos, Platão desembarcou na Sicília.
Terá sido certamente um deus quem, preparando com grande
antecipação os fundamentos da liberdade dos siracusanos e a queda
da tirania, levou Platão da Itália para Siracusa e colocou
Díon em contato com ele. Foi este, embora ainda muito jovem, de todos os
discípulos de Platão, o mais bem aquinhoado para aprender e o
mais pronto para escutar as lições de virtude, como o
próprio Platão escreve e ele demonstrou por atos.

Criado na corte de um tirano, em presença de costumes degradantes e
vivendo uma vida assinalada pelas desigualdades e os temores; mergulhado num
luxo de novo rico, nas delícias grosseiras e num tipo de
existência que idealizava os prazeres e os lucros, Díon, mal teve
acesso a uma doutrina filosófica que exaltava a virtude, sentiu a alma
inflamar-se. Em seu entusiasmo pelo bem, imaginou mesmo, com ingenuidade toda
juvenil, que aqueles discursos fariam sobre Dionísio uma
impressão semelhante e falou-lhe com tanta insistência que
convenceu o tirano a arranjar tempo para encontrar e ouvir Platão.

5. Na entrevista, a conversação recaiu
principalmente sobre a virtude e insistiu principalmente no tema da coragem:
Platão demonstrou que não existem homens menos corajosos que os
tiranos. Em seguida, tratando da justiça, fez ver que apenas a vida do
homem justo é feliz e a do injusto desgraçada. O tirano,
sentindo-se alvejado, não pode suportar aquelas palavras e aborreceu-se
com os assistentes que, tocados de admiração, aprovaram o
filósofo e pareciam encantados com seu discurso. Por fim, muito
irritado, muito exasperado, perguntou a Platão por que viera a Sicília.
"Para procurar um homem de bem", foi a resposta. "Pelos
Deuses!", exclamou Dionísio, "está claro que ainda
não encontraste nada semelhante." Díon desconfiava
não pararia por aí e apressou-se a embarcar Platão num
trirreme que levaria para a Grécia o espartano Pólis.
Dionísio, porém, pediu secretamente a Pólis que desse
sumiço em Platão, se possível, durante a travessia, ou
pelo menos que o vendesse: "Isso em nada o prejudicará",
ironizou, "e sua felicidade em nada será diminuída, pois
continuará justo ainda que se torne escravo". Afirma-se que
Pólis conduziu Platão para a Egina e pô-lo à venda,
porquanto os eginetas estavam então em guerra com os atenienses e haviam
decretado que todo ateniense que caísse em suas mãos seria
vendido como escravo.

Nem por isso diminuiu o crédito de Díon junto a
Dionísio. Viu-se mesmo encarregado de importantes embaixadas, e, em
Cartago, alcançou grande estima. Era praticamente a única pessoa
cuja franqueza Dionísio suportava, pois dizia sem receio o que lhe vinha
à cabeça. Foi o caso, por exemplo, de sua
observação a propósito de Gélon. Segundo
Dionísio Gélon fora, ele próprio motivo de riso por toda a
Sicília (gélota) e os cortesãos fingiram admirar
seu trocadilho. Díon, porém, mostrou-se indignado: "No
entanto", disse ele, "reinas porque tens crédito graças
a Gélon, ao passo que graças a ti ninguém jamais confiaria
em ninguém". De fato, Gélon provara que o espetáculo
de uma cidade governada por um monarca era o mais belo do mundo –
Dionísio, que era o mais feio.

Morte de Dionísio. Ascensão de
Dionísio, o Jovem.
6. Dionísio tinha
três filhos da lócria e quatro de Aristômaca, entre os quais
duas filhas, Sofronise e Arete. Casara Sofronise com seu filho Dionísio
e Arete com seu irmão Teárides. Mas, morta Teárides,
Díon desposou Arete, que era sua sobrinha..

Quando Dionísio, doente, parecia a ponto de morrer, Díon
tentou dispô-lo a favor dos filhos de Aristômaca, mas os
médicos, para agradas aquele que iria herdar o poder, não lhe
deram tempo: segundo conta Timeu, quando Dionísio pediu um
sonífero, deram-lhe uma droga estupefaciente que o levou do sono ao
trespasse.

Entretanto, da primeira vez que Dionísio, o Jovem, reuniu os amigos
em conselho, Díon expôs tão bem as necessidade do momento
que fez parecer a todos os demais, em termos de inteligência, meras
crianças, e em termos de franqueza simples escravos da tirania. É
que, por medo e covardia, não buscavam opinar senão para bajular
o jovem. Eis, porém, o que mais os espantou: impendendo sobre o
império a ameaça cartaginesa, Díon comprometeu-se, caso
Dionísio quisesse a paz, a embarcar imediatamente para a Líbia e
terminar o conflito nas melhores condições possíveis; caso
preferisse a guerra, a fornecer ele próprio cinqüenta trirremes prontas
para se fazer ao mar.

7. Dionísio ficou admirado com a magnanimidade de Díon
e apreciou seu zelo. Outros, porém, consideraram aquela munificência
uma afronta e sentiram-se rebaixados pelo crédito de que ele gozava. Não
perderam tempo e tudo fizeram para indispor o jovem contra Díon: este
desejava, diziam, abrir ao mar um caminho secreto rumo à tirania e
arrancar com seus navios o poder soberano a fim de transferi-lo aos filos de
Aristômaca, que eram seus sobrinhos. No entanto, as causas mais aparentes
e fortes de tamanha inveja e ódio eram o contraste de suas vidas com a
vida de Díon, além do empenho que ele mostrava em fugir à
sociedade. Desde o início, com efeito, por meio de prazeres e
bajulações, haviam se tornado camaradas e íntimos do
tirano, jovem e mal-educado, a quem não cessavam de proporcionar amores,
passatempos, bebedeiras, mulheres e outros divertimentos vergonhosos. Assim
amolecendo a tirania como o ferro quando perde a sua dureza, fizeram-na parecer
humana aos olhos súditos de Dionísio, tirando-lhe o que ela tinha
de desumano e embotando-a – mas menos por certa moderação do que
por descaso do soberano. De sorte que o relaxamento do jovem, progredindo aos
poucos, fundiu aquelas cadeias de aço nas quais Dionísio, o Antigo,
pretendia ter aprisionado para sempre sua monarquia. Conta-se que
Dionísio, o Jovem, quando se punha a beber, fazia-o durante noventa dias
consecutivos, e nesse tempo o palácio, fechado às pessoas e aos
assuntos sérios, abrigava unicamente a embriaguez, a derrisão, a
música, a dança e bufonaria.

8. Díon, naturalmente, fazia-se detestar porque
não se entregava a nenhum prazer, a nenhuma confusão.
Caluniavam-no, dando às suas qualidades nomes plausíveis de
defeitos: a gravidade passava por desdém, a franqueza por
arrogância, as censuras por acusações e a recusa em
participar dos excessos alheios por desprezo. Verdade é que ostentava
uma altivez natural e uma rudeza que lhe tornava o trato difícil. Não
era apenas com o rapazola de ouvidos tapados pelas bajulações que
se mostrava desagradável e duro; mesmo aqueles de seu círculo que
apreciavam a simplicidade e nobreza de seu caráter censuravam-lhe as
maneiras e achavam-no severo demais quando tratava com as pessoas que a ele
recorriam por razões políticas. A esse respeito Platão,
como que numa inspiração profética, escreveu-lhe mais
tarde como que sugerindo que se guardasse "da arrogância,
companheira habitual da solidão". No entanto, parecia gozar do mais
elevado prestígio em virtude dos negócios que se encarregava; era
o único, ou pelo menos, o mais capaz, de salvar a tirania caso ela
fraquejasse, mas dava-se conta que não era por afeição, e
sim por necessidade e a contragosto, que o tirano o mantinha como seu principal
conselheiro.

9. Supondo que Dionísio era o que era devido a
carências de educação, Díon concebeu o projeto de
voltá-lo para ocupações nobres e propiciar-lhe o gosto das
letras e dos conhecimentos, para que deixasse de temer a virtude e tivesse
prazer no bem. Por natureza, Dionísio não contava entre os piores
tiranos. Seu pai, no entanto, receava que o espírito do filho se
elevasse e ele com pessoas inteligentes, conspiraria para arrebatar-lhe o
poder. Por isso, mantivera-o em casa, privado de companhia e ignaro dos
negócios públicos, ocupando-se, ao que parece, da fabricação
de carrinhos, lâmpadas, cadeiras e mesas de madeira.

Dionísio, o Antigo, era mesmo tão desconfiado, tão
suspeitoso de todos que não permitia que seus cabelos fossem cortados a
tesoura, mas chamava um barbeiro e mandava que esse os queimasse em volta da
cabeça com um tição. Nem seu irmão, nem seu filho
podiam entrar no quarto com as roupas que trajavam; era preciso que, antes de franquear
a soleira, se despisse e vestissem outras, após mostrar-se nu aos
guardas. Um dia seu irmão Leptines, querendo mostrar-lhe a
configuração de um lugar, pegou a lança de um dos guardas
para fazer-lhe o desenho; Dionísio ficou furioso e mandou executar o
homem que lhe emprestara a arma. Afirma que se protegia dos amigos porque os
considerava pessoas sensatas, que preferiam exercer a tirania a submeter-se a
ela. Condenou à morte um certo Mársias, que promovera a um
comando, porque este sonhara que seu senhor estava sendo degolado;
Dionísio pretendia que a visão lhe sobreviera em sonho em conseqüência
de uma idéia surgida durante o dia. Ainda assim encolerizara-se com
Platão, que não o havia declarado o mais corajoso dos homens –
ele, de alma tão medrosa, tão repleta de vícios provocados
pela covardia!

10. Quanto ao filho Díon, vendo-o como dissemos
corrompido pela falta de educação e depravado nos costumes,
exortava-o a voltar-se para os estudos e a pedir insistentemente ao
príncipe dos filósofos (tou próton tõn
philosóphon
) que viesse à Sicília. Quando chegasse,
Dionísio por-se-ia em sua mão para moldar o caráter
segundo os princípios da virtude e torná-lo parecido ao mais belo
e divino dos modelos dos seres, aquele que dirige o universo dócil e
tira-o do caos para imprimir-lhe a ordem. Alcançaria assim imensa
felicidade para si mesmo e para os cidadãos, pois tudo o que estes concediam
então, em seu desencorajamento, às exigências do poder,
Dionísio o obteria de boa vontade graças à sabedoria e
à justiça de uma autoridade paternal: de tirano,
transformar-se-ia em rei. As
cadeias de aço não são, como pretendia seu pai, o terror, a
violência, o número de navios ou os dez mil bárbaros de
guarda – mas o afeto, o zelo, o reconhecimento suscitados pela virtude e pela
equidade. Tais laços, sendo mais flexíveis que aqueles, têm
mais força para manter um império.

Afora estas qualidades, um soberano não é honrado ou invejado
porque reveste o corpo com roupas magníficas e povoa a casa com
móveis luxuosos, ao passo que, para conversar e arrazoar, mostra-se
igual a qualquer um e não procura ornamentar o palácio de sua
alma de maneira digna e conveniente a um rei.

11. Como Díon renovasse incansavelmente suas
exortações, ilustrando-as com pensamentos de Platão,
Dionísio sentiu-se presa de um desejo ardente e apaixonado de ver e
ouvir o filósofo. Assim, logo chegavam a Atenas diversas cartas de Dionísio,
repetidas solicitações de Díon e de outros, enviadas da
Itália pelos pitagóricos, que o instavam a vir e se apossar da
alma de um jovem, obnulada pela magnitude de sua autoridade e poder, para
dominá-la com raciocínios mais fortes. Platão declara que
aquiesceu principalmente por uma questão de honra pessoal, a fim de
não parecer ser apenas homem de palavras, que nunca passa aos atos;
esperava também que a cura de único homem, órgão
diretor de um país, devolvesse a saúde a toda a Sicília
enferma.

Mas os inimigos de Díon, que receavam a conversão de
Dionísio, convenceram-no a chamar do exílio Filisto, homem
letrado e profundo conhecedor dos hábitos dos tiranos, para terem nele
um contrapeso a opor a Platão e sua filosofia. Filisto, com efeito,
mostrara-se entusiasta da tirania desde seu estabelecimento e por muito tivera
a cargo a guarda da cidadela, cuja guarnição comandava. Insinuava-se
que mantinha relações amorosas com a mãe de
Dionísio, o antigo que, aliás, o sabia. Mas quando Leptines, que
tivera duas filhas de uma mulher por ele roubadas do marido, deu uma a Filisto
sem sequer informar Dionísio, este se irritou, prendeu e encarcerou a
companheira de Leptines e expulsou da Sicília Filisto. O exilado buscou
amparo junto a anfitriões residentes às margens do
Adriático e julga-se que foi lá que empregou seus ócios
para compor a maior parte de sua História. Não voltou
enquanto viveu Dionísio, o Antigo. Só depois da morte dele, como
dissemos, a inveja dos cortesãos a Díon trouxe-o como a um
instrumento próprio a seus desígnios de consolidar a tirania.

12. Desde seu regresso, pois, Filisto trabalhou pela
tirania. Enquanto isso os outros caluniavam Díon aos ouvidos do tirano
acusando-o de ter-se entendido com Teódoto e Heráclides para
derrubar o regime. Díon, parece, esperava que a presença de
Platão contribuísse para eliminar da tirania tudo o que ela tinha
de desperdício e exageradamente absolutista, fazendo de Dionísio
um soberano moderado e legítimo. Se resistisse e não se deixasse
dobrar, Díon resolvera aos siracusanos sua constituição.
Não é que aprovasse a democracia, mas julgava que na falta de uma
aristocracia sã ela era melhor que o regime tirânico.

13. Tal a situação quando Platão
pôs pé na Sicília. Desde o primeiro momento viu-se alvo de
considerações e honras extraordinárias. Colocaram-lhe
à disposição, quando desceu da trirreme, um dos carros
reais magnificamente decorado, e o tirano ofereceu um sacrifício como se
a seu império acabasse de sobrevir uma grande felicidade.

A reserva observada nos repastos, o bom comportamento da corte e a
doçura mostrada pelo próprio tirano em suas audiências
levaram os cidadãos a conceber alvissareiras esperanças de
mudança. Geral entusiasmo impelia as pessoas para os estudos e a filosofia,
e, diz-se, o palácio do tirano foi invadido pela poeira, tanta gente
havia lá se entregado pela geometria. Dias depois, acontecendo no
palácio um sacrifício tradicional, o arauto pediu aos deuses,
segundo o costume, que por muito tempo mantivessem a tirania ao abrigo de
vicissitudes; Dionísio, que se achava de lado, teria resmungado:
Não pararás de nos lançar imprecações? "Essas
palavras afligiram profundamente Filisto e seus amigos, para quem o tempo e o
convívio tornavam de certa maneira invencível a influência
de Platão – uma vez que aquela curta freqüentação
já bastara para modificar e abalar tão significativamente o
estado de espírito do rapaz.

14. Não foi, pois, um por um e em segredo, mas todos
juntos e abertamente que eles atacaram Díon. "Já não
cabem dúvidas", exclamaram, "de que se serve dos discursos de
Platão para enfeitiçar Dionísio e levá-lo a abdicar
voluntariamente do governo, que será depois transferido aos filhos de
Aristômaca, sobrinhos de Díon." Outros acrescentavam,
simulando indignação "Outrora os atenienses vieram à
Sicília com fortes esquadras e exércitos para perecer e ser
exterminados antes de tomar Siracusa. Agora é graças a um
único sofista que vão destruir a tirania de Dionísio,
persuadindo-o a largar seus dez mil guardas pessoais, suas quatrocentas
trirremes, seus dez mil cavaleiros e seus hoplitas muitas vezes mais numerosos
para buscar na Academia esse Bem que não se sabe o que é e
colocar sua felicidade na geometria. Abandonará, pois a Díon e
aos sobrinhos de Díon a ventura que reside no poder, na riqueza e no
prazer!".

Tais palavras, de início, suscitaram suspeitas em Dionísio,
depois uma cólera e uma animosidade mais manifestas. Enviaram-lhe
então, secretamente, uma carta que Díon escrevera às
autoridades de Cartago sugerindo-lhes que não negociassem a paz com
Dionísio sem que ele próprio estivesse presente às
conferências, pois que iria ajudá-los a tudo regular sem risco de
fracasso. Dionísio leu a carta à Filisto e, após deliberar
com ele, ludibriou Díon por meio de uma pretensa
reconciliação, no dizer de Timeu: fez-lhe apenas censuras
moderadas e declarou-se disposto a um entendimento; em seguida foram os dois
para junto da cidadela, à beira-mar, e ali Dionísio mostrou-lhe a
carta e acusou-o de aliar-se com os cartagineses contra ele. Díon tentou
justificar-se, mas Dionísio não queria ouvir nada: fê-lo
subir imediatamente, tal qual estava, para bordo de um pequeno navio e ordenou
aos marinheiros que o levassem para a Itália.

15. Essa conduta foi e pareceu cruel a todos. As mulheres
encheram com suas lamentações a residência do tirano,
enquanto a cidade de Siracusa se exaltava na expectativa de uma pronta
revolução em conseqüência dos dissabores de
Díon e da desconfiança em relação ao tirano.
Dionísio assustou-se. Tentou consolar os amigos de Díon e as
mulheres afirmando que não o mandara para o exílio, mas em
viagem, receando que Díon, se permanecesse ali, o irrita-se com sua
arrogância e o forçasse a tomar medidas mais drásticas. Por
outro lado, entregou dois navios aos parentes de Díon recomendando-lhes
que embarcassem neles parte das riquezas e criadagem do exilado, e a levassem
para o Peloponeso. Díon possuía muitos bens e um aparato
doméstico quase real, com toda espécie de móveis e objetos
que os amigos reuniram e lhe entregaram. Além disso, recebeu
inúmeros presentes das mulheres e companheiros, a ponto de o dinheiro e
o luxo fazê-lo brilhar entre os gregos e a opulência do banido
trazer à luz toda a potência da tirania.

16. Dionísio transferiu imediatamente a residência
de Platão para a acrópole, a pretexto de honrá-lo com uma
hospitalidade amistosa – mas, de fato, para trazê-lo de olho e impedir
que, indo ao encontro de Díon, patenteasse a injustiça de que
este fora vítima.

No entanto, com o tempo e o convívio, tal qual um animal que se
habitua ao contato do homem, Dionísio foi se acostumando a aceitar a
companhia e as palavras do filósofo, e entrou a amá-lo com um
amor tirânico. Pretendia que Platão, em troca, só a ele amasse
e o apreciasse mais do que a ninguém. Estava até disposto a lhe
entregar os deveres da soberania se desistisse da amizade de Díon pela
sua. Grande desgraça foi para Platão aquela paixão de
maníaco, parecida ao ciúme dos amores vis, paixão que
suscitava em curto espaço de tempo repetidos acessos de cólera

seguidos de reconciliações e súplicas. Dionísio
ansiava por beber-lhes as palavras e associar-se às suas
investigações filosóficas, enquanto temia aqueles que o
queriam afastar dois estudos como de algo próprio a corrompê-lo.

Estalando então uma guerra, deixou Platão prometendo-lhe
chamar Díon de volta na primavera. Faltou à palavra, mas enviou
à Díon as rendas de sua propriedade e suplicou a Platão
que o desculpasse pela demora, provocada pela guerra; uma vez restabelecida a
paz, faria vir a Díon o mais depressa possível, motivo pelo qual lhe
pedia que ficasse tranqüilo, sem provocar revoltas e sem
desacreditá-lo aos olhos dos gregos.

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