Consciência - Filosofia e Ciências Humanas

Vida de Díon -Plutarco – Vidas Paralelas



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17. Platão esforçou-se nesse sentido e familiarizou Díon com a filosofia retendo-o na Academia. Em Atenas, Díon residia na casa de um tal Calipo, homem de suas relações, e adquiriu para seus lazeres um domínio rural de que mais tarde, ao voltar à Sicília, fez presente a Espeusipo, seu melhor amigo em Atenas e com quem mais convivia. Platão queria temperar a abrandar o caráter de Díon por intermédio de conversações pontilhadas, aqui e ali, de delicados jogos de espírito. Ora, ninguém melhor para isso do que Espeusipo, a quem Timão chamou "mestre em chalaça" em suas Paródias (Sílloi). Devendo Platão organizar na qualidade corego um grupo de crianças, foi Díon que ensaiou os coreutas e assumiu todas as despesas; o filósofo cedeu-lhe essa oportunidade de fazer uma liberalidade aos atenienses, que proporcionaria mais prestígio a Díon que honra a si mesmo.

Díon percorreu também outras cidades da Grécia, empregando seus lazeres em freqüentar, por ocasião de festas, os homens mais sábios e hábeis em política. Mostrava sempre, não uma conduta imprópria, tirânica ou orgulhosa, mas temperança, virtude, coragem e aplicação rígida aos estudos filosóficos. Alcançou assim o afeto e a admiração de todos, como também honras públicas que as cidades lhe conferiram por decreto. Os lacedemônios fizeram-no até cidadão de Esparta sem se preocupar com a cólera de Dionísio, que com muito zelo os ajudava então em seu conflito com os tebanos. Conta-se que certa feita Díon, querendo avistar-se com Pteodoro de Mégara, dirigiu-se à sua casa. Esse personagem era, ao que tudo indica, um homem rico e poderoso, e Díon encontrou à porta uma multidão de solicitadores que, devido ao grande número de negócios que ocupavam Pteodoro, não conseguiam chegar até ele. Percebendo seus amigos impacientes e já começando a resmungar, Díon teria dito: "Por que censurá-lo: Nós fazemos o mesmo em ".

18. Com o passar do tempo Dionísio, invejoso de Díon e receando a popularidade de que ele gozava entre os gregos, deixou de mandar-lhe as rendas e pôs sua fortuna nas mãos de administradores particulares. Querendo, por outro lado, anular a péssima reputação que tinha junto aos filósofos por causa de sua atitude para com Platão, cercou-se de diversas pessoas que passavam por eruditas. Tomando como ponto de honra ultrapassar a todos na discussão, empregava bisonhamente as lições de Platão, compreendidas às avessas. Nessas ocasiões lamentava as sua ausência e acusava-se a si mesmo por não ter sabido aproveitar o convívio do filósofo e ouvir o que ele dizia de acertado. Tirano que era, sempre obnulado por suas paixões e facilmente levado pelos seus desejos, já não pensava senão em Platão: valendo-se de todos os recursos, convenceu o pitagórico Árquitas a chamar Platão e fazer-se de fiador de suas condições (fora, com efeito, por intermédio de Árquitas que Platão e Dionísio haviam travado laços de amizade e hospitalidade). Árquitas enviou Arquedemo a Platão. Dionísio, de seu lado, despachou uma trirreme com amigos para convidar o filósofo e escreveu em termos bastante claros e formais que não concederia a Díon nenhum tratamento favorável se Platão se recusasse a voltar à Sicília; mas daria tudo se ele deixasse se convencer. Díon recebeu diversas cartas da irmã e da esposa, que o instavam a obter de Platão assentimento ao convite de Dionísio sem mais subterfúgios. Assim foi que Platão, segundo ele mesmo diz, "veio pela terceira vez ao estreito de Cila

Para enfrentar de novo a funesta Caríbdis".

19. Sua chegada encheu Dionísio de alegria e a Sicília de novas esperanças: a ilha inteira desejava ardentemente que Platão levasse a melhor sobre Filisto e a filosofia prevalecesse sobre a tirania. As mulheres se açodaram em torno dele e Dionísio testemunhou-lhe extraordinária confiança, como não costumava fazer a ninguém mais: permitia que se aproximasse sem ser revistado. Freqüentemente oferecia-lhe altas somas de dinheiro, que Platão recusava; Aristipo de Cirene então dizia "Dionísio não se arrisca nada se mostrando munificente, pois se a pessoas como eu dá pouco, quando queríamos mais, a Platão oferece muito e ele não aceita".

Depois das primeiras congratulações, Platão começou a falar de Díon. Primeiro vieram as dilações, depois as censuras, depois as querelas. nada disso transpirava porque Dionísio dissimulava e, prodigalizando atenções e honras a Platão, ia tentando afastá-lo de Díon; Platão, por seu turno, pelo menos no início, escondia a desconfiança que lhe inspirava a falsidade de Dionísio e aguardava com calma. Estavam nessas decepções recíprocas, que acreditavam ignoradas de todos, quando Helícon de Cízico, familiar de Platão, predisse um eclipse do sol que de fato se produziu. O tirano, bastante admirado, presenteou-o com um talento. Aristipo, chalanceando com os outros filósofos, declarou que também ele tinha um fenômeno extraordinário a predizer; instado a explicar-se "Pois bem", ironizou, "anunciou que dentro de muito pouco tempo Platão e Dionísio se tornarão inimigos".

Por fim Dionísio pôs à venda os bens de Díon e deitou mão ao produto. Em seguida, transferiu Platão, que se alojava no jardim vizinho ao palácio, para o meio dos mercenários, que o odiavam e queriam matá-lo porque aconselhava Dionísio a abdicar da tirania e viver sem guardas.

20. Tal perigo a que Platão se achava exposto quando Árquitas, informado, apressou-se a enviar uma triacôntera com embaixadores encarregados de reclamar de Dionísio a pessoa do filósofo lembrando-lhe que Platão viera a Siracusa depois que ele, Árquitas, lhe garantiu a segurança. Dionísio, para desmentir sua hostilidade, ofereceu banquetes a Platão e prodigalizou-lhe mostras de amizade no momento da partida, permitindo-lhe dizer apenas: "Decerto, Platão, vais falar muito mal de mim aos filósofos de teu círculo". Ao que Platão retrucou sorrindo: "Tomara que nunca nos faltem assuntos na Academia para que não precisemos sequer mencionar-te!". Foi assim, diz-se, que Platão partiu. Todavia, o que ele mesmo conta não concorda inteiramente com esse relato.

21. Díon não gostou nada da conduta de Dionísio e, pouco depois, ao saber do destino imposto à sua mulher, rebelou-se abertamente contra ele. A propósito do incidente, uma carta de Platão a Dionísio contém uma alusão velada. Eis do que se tratava. Após a expulsão de Platão, Dionísio, ao despedir-se de Platão, pedira-lhe que perguntasse reservadamente a Díon se ele não se oporia a que sua esposa fosse dada em casamento a outro homem, pois corria um boato – verdadeiro ou inventado pelos inimigos de Díon – de que aquela união não lhe aprazia e ele não se dava bem com a mulher. Quando Platão voltou a Atenas e conversou com Díon sobre esses assuntos, escreveu a Díon uma carta clara em todos os sentidos, menos nesse ponto, que só o destinatário poderia compreender: dizia que falava a Díon do caso e que ele certamente se aborreceria se Dionísio pusesse o projeto em execução. Na época havia ainda grandes esperanças de reconciliação, de sorte que Dionísio nada fez contra sua irmã e permitiu-lhe ficar com o filho que tivera de Díon. Mas depois que qualquer acordo se tornou inviável e Platão, visitando novamente a ilha, partiu em condições odiosas, deu Arete, malgrado ela mesma, a seu amigo Timócrates. Nisso não imitou a moderação que seu pai mostra pelo menos uma vez em situação análoga. Conta-se, com efeito, que Polixeno, marido de Teste, irmã de Dionísio, o Antigo, fizera-se inimigo do tirano e, receoso, fugira da Sicília. Dionísio mandou chamar a irmã e queixou-se por ela não o ter advertido da fuga do marido. Teste, sem se perturbar, nem, por Zeus, mostrar-se assustada, replicou: "Acreditas mesmo, Dionísio, que eu seja uma mulher tão frágil e covarde a ponto de, prevenida da partida do meu marido, não embarcar com ele e ir partilhar de sua sorte? Infelizmente, eu nada soube com antecedência. Para mim seria mais belo ser chamada a esposa do banido do que a irmã do tirano".Parece que Dionísio admirou muito a franqueza de Teste e os siracusanos sua virtude, pois, ruída a tirania, ela conservou as honras e o modo de vida de uma princesa real. Ao morrer, os cidadãos acompanharam-na oficialmente ao túmulo. Essa foi uma digressão que não me pareceu inteiramente destituída de interesse.

22. Díon, a partir de então, optou pela guerra. Platão preferiu ficar à margem do conflito, em virtude dos laços de hospitalidade que o uniam a Dionísio e também de idade. Mas Espeusipo e os outros amigos de Díon apoiaram-no e o exortaram-no a libertar a Sicília, que lhe estendia acolhedoramente os braços. É de crer que Espeusipo , enquanto Platão esteve em Siracusa, tenha se misturado aos habitantes para melhor conhecer suas disposições. De início, a ousadia de sua linguagem provocara-lhes suspeitas, como se tratasse de uma prova mediante a qual o tirano procurasse sondá-los, mas com o tempo ganharam confiança. Ora todos diziam a mesma coisa: pediam, suplicavam a Díon que regressasse sem navios, sem hoplitas e sem cavalheiros, pois bastaria que aparecesse sozinho a bordo de cargueiro e emprestasse sua pessoa e seu nome aos sicilianos contra Dionísio. Encorajado por esse relatório de Espeusipo, Díon ordenou o recrutamento secreto de mercenários, utilizando-se de intermediários para camuflar seus desígnios. Secundaram-no diversos políticos e filósofos, entre os quais Eudemo de Chipre (cuja morte inspirou a Aristóteles seu diálogo Da Alma) e Timônides de Lêucade. Atraíram também o tessálio Miltas, um adivinho que tomara parte dos colóquios da Academia. Dentre os banidos pelo tirano, que não eram menos de mil, apenas vinte e cinco participaram da expedição: os outros, por covardia, traíram a causa.

A base da partida foi a ilha de Zacinto, onde todos os combatentes se reuniram. Não chegavam a oitocentos, mas todos se haviam celebrizado numa série de importantes campanhas, tinham o corpo maravilhosamente exercitado, experiência e audácia incomparáveis. Podiam, assim, inflamar e excitar à luta as multidões que Díon esperava ver unir-se-lhe na Sicília.

23. Os combatentes, de início, ao saber que a frota aparelhava contra Dionísio e a Sicília, foram tomados de pânico e supuseram que Díon, cego de cólera e atacado de loucura furiosa, ou então por falta de perspectivas favoráveis, atirava-se para uma empresa desesperada. Revoltaram-se contra os oficiais e recrutadores, que não os haviam informado logo de que guerra se tratava. Mas Díon, em discurso, enumerou-lhes as fraquezas secretas da tirania e afirmou que os conduzia menos como soldados que como chefes, a fim de que comandassem os siracusanos e demais sicilianos de há muito prontos para a rebelião. Depois de Díon, Alcímenes, companheiro de armas deles e o primeiro dos aqueus pelo nascimento e reputação, falou-lhes também. Deixaram-se persuadir.

Estava-se no pico do verão, os ventos etésios reinavam no mar e na lua cheia. Díon, tendo preparado um magnífico sacrifício a Apolo, dirigiu-se em procissão ao santuário do deus, à testa dos soldados inteiramente armados. Após o sacrifício, mandou-lhes um festim no estádio de Zacinto. Admiraram as copas de ouro e prata e as mesas, cujo esplendor ultrapassava a riqueza de um simples; e comentaram que um homem já maduro, dono de semelhante fortuna, não se meteria em empresa tão duvidosa se não acalentasse sólidas esperanças e seus amigos da ilha lhe não fornecessem meios suficientes de ação.

24. Após as libações e preces de costume, sobreveio um eclipse da lua. O fenômeno não inquietou Díon, familiarizado com os períodos eclípticos e sabedor de que a sombra projetada sobre a lua é efeito da oposição da terra ao sol (tês gês tèn antíphraxin pròs tòn hélion). Mas a perturbação dos soldados tinha de ser acalmada. O adivinho Miltas avançou para o meio deles e instou-os a recobrar a coragem e esperar por uma vitória, pois a divindade anunciava o eclipse de uma das potências que presentemente brilhavam; ora, nada havia de mais brilhante que a tirania de Dionísio, cujo fulgor eles extinguiram mal puseram pé na Sicília. Isso Miltas declarou publicamente a todos. Quanto às abelhas que apareceram nos navios e cobriram a popa do de Díon, o adivinho revelou a este, em particular e a seus amigos mais próximos, seu temos de que as nações do chefe, inicialmente coroadas de êxito, não passassem pouco depois de flores murchas.

Diz-se que também Dionísio recebeu da divindade numerosas advertências sob forma de prodígios. Uma águia arrebentou a lança de um dos seus guardas, levou-a pelos ares e deixou-a cair num abismo. A água do mar que banha o sopé da Acrópole tornou-se doce e potável durante um dia inteiro, conforme puseram constatar todos que a provaram. Nasceram nos domínios de Dionísio porcos bem-conformados, mas sem orelhas. Os adivinhos explicaram que este último era um presságio de revolta e desobediência, e que os cidadãos não mais dariam ouvidos aos tiranos. Quanto à doçura da água do mar, prenunciava aos siracusanos a mudança de uma situação penosa e má para outra melhor. Finalmente, sendo a águia o servidor de Zeus e a lança o símbolo do comando e do poder, o soberano dos deuses indicava assim a destruição completa da tirania. Isso é o que conta Teopompo.

25. Os soldados de Díon foram embarcados em dois navios de transporte, que eram acompanhados por um terceiro. menor, e por duas triacônteras. Como armas, afora as que equipavam suas tropas, levava dois mil escudos, grande quantidade de dardos e lanças, e abundante provisões. Não queria que nada faltasse durante a travessia, pois estaria constantemente a mercê dos ventos e do mar alto: temia a terra, sabendo que Filisto, ancorado na costa da Iapígia, espiava sua passagem. Após doze dias de navegação com vento franco e ameno, ao décimo terceiro avistaram o Páquino, cabo da Sicília. O piloto Proto aconselhou-os a desembarcar ali imediatamente, explicando que, se se afastassem da terra e do promontório, perderiam muitos duas e noites em alto-mar, à espera do vento sul em pleno verão. No entanto Díon, que temia operar um desembarque nas proximidades do inimigo e preferia, por isso, descer mais longe, ordenou que se dobrasse o cabo Páquino. Mas então um vento norte, soprando com ímpeto e sacudindo as vagas, arrebatou os navios para longe da Sicília. Relâmpagos e trovões, riscando os céus ao levantar-se do Arcturo, desencadearam grossa tempestade, que caía em bátegas violentas. Os marinheiros, extremamente inquietos, vogavam ao acaso quando, de súbito, perceberam que as ondas empurravam o navio para Cercina, perto da Líbia, do lado em que essa ilha é mais escarpada e de mais perigosa aproximação. Por pouco não eram esmagados contra os rochedos, que só conseguiram evitar com imensa dificuldade e utilizando ganchos. Acalmada finalmente a tempestade, toparam com uma embarcação e souberam que se encontravam não longe das chamadas Cabeças da grande Sirte. Estavam desanimados devido à calmaria e navegaram sem rumo. Súbito, uma brisa se levantou do sul e pôs-se a soprar de terra, fenômeno tão inesperado que mal puderam crer nele. Aos poucos, porém, a brisa foi aumentando e ganhou a força; desfraldaram então todas as velas e, implorando aos deuses, alcançaram ao largo para rumar da Líbia para a Sicília. Depois de uma rápida travessia de quatro dias, fundearam em Minoa, cidadezinha da Sicília então sob dependência de Cartago. O governador cartaginês Sinalo, hóspede e amigo de Díon, estava lá. Ignorando que se tratava de Díon e sua expedição, tentou opor-se ao desembarque dos soldados. Estes, porém, armados e a passo de carga, lançaram-se para fora dos navios. Não mataram ninguém, pois Díon os proibira disso devido à sua amizade com o cartaginês, mas, perseguindo os fugitivos, tomaram a praça. Depois que os chefes se encontraram e se saudaram, Díon devolveu a cidade a Sinalo, intacta; Sinalo, por seu turno, concendeu hospitalidade às tropas de Díon e forneceu-lhes o de que precisavam.

26. O que mais lhe dava segurança era a ausência fortuita de Dionísio, que acabara de embarcar para Itália com oitenta navios. Assim, malgrado as recomendações de Díon, que os aconselhava a descansar depois de tantas fadigas a bordo, recusaram-se a ficar e, ávidos para aproveitar a oportunidade, pediram que o chefe os levasse à Siracusa. No caminho, os primeiros a se juntar-se-lhe foram duzentos cavaleiros de Ácraga estacionados perto de Ecnomo; surgiram depois homens de Gela.

A notícia da expedição, espalhando-se, logo alcançava Siracusa. Timócrates, que desposara a mulher de Díon, irmã de Dionísio, estava à testa dos fiéis que o tirano deixara na cidade. A toda pressa, enviou a Dionísio um mensageiro com uma carta onde lhe anunciava a chegada de Díon. Ele próprio ocupou-se, enquanto isso, em sufocar os levantes e os tumultos da cidade, cujos habitantes, superexitados, ainda estavam, no entanto tranqüilos, por desconfiança e medo. Sucedeu ao correio mandado por Timócrates uma aventura extraordinária. Depois de passar à Itália e atravessar o território do Régio, apressava-se na direção da Caulônia, onde se achava Dionísio, quando topou com um amigo que carregava uma vítima recém-imolada. Recebeu um pedaço de carne e prosseguiu caminho. Entretanto, como caminhara boa parte da noite, a fadiga obrigou-o a dormir um pouco; estendeu-se, tal como estava, num bosque ao lado da estrada. Atraído pelo cheiro, apareceu um lobo, o qual, abocanhando a carne que estava dentro do alforje e a carta, que o homem colocara dentro dele/ Percebendo o que acontecera ao despertar, procurou em vão pelos arredores, mas nada encontrou. Resolveu então não prosseguir viagem para não aparecer diante do tirano sem a carta, mas fugir e desaparecer.

27. Dionísio deveria então saber, tardiamente e por intermédio de outros, que a guerra grassava na Sicília. Prosseguindo Díon, cidadãos de Camarina e um afluxo considerável de siracusanos espalhados pelos campos subleveram-se para juntar-se a ele. Leontinianos e campanianos guardavam as Epípoles com Timócrates; mas, como Díon fizesse chegar até eles a falsa informação de que atacaria primeiro suas cidades, deixaram Timócrates e partiram para defender seus concidadãos. Quando a notícia chegou aos ouvidos de Díon, que estava acampado perto de Acras, os soldados receberam ordem de levantar-se em plena noite e avançar até às margens do Anapo, a apenas dez estádios da cidade. Ali, Díon fez alto e ofereceu um sacrifício ao rio, invocando também o sol levante. Os adivinhos predisseram-lhe, da parte dos deuses, a vitória, e os presentes, vendo-o coroado por causa do sacrifício, coroaram-se a todos num assomo comum.

Não eram menos de cinco mil os que haviam engrossado o exército de Díon durante sua marcha. Pobremente armados com o que lhes caíra nas mãos, supriam com ardor a insuficiência do armamento, a ponto de, quando Díon ordenou a partida, porem-se a correr gritando e convidando-se uns aos outros à liberdade.

28. Entre os siracusanos que haviam permanecido na cidade, os notáveis, vestidos de branco, dirigiram-se aos portões para receber Díon. Enquanto isso, o povinho caía sobre os amigos do tirano e capturava os chamados delatores, sujeitos impiedosos e inimigos dos deuses que, circulando pela cidade e metendo-se com os siracusanos, esmiuçavam todos os seus negócios para transmitir aos tiranos os pensamentos e palavras de cada um. Foram os primeiros a ser castigados, e quem quer que encontravam abatiam a bastonadas. Timócrates, não conseguindo juntar-se aos guardiões da Acrópole, saltou para um cavalo, fugiu da cidade e pelo caminho foi enchendo o país de terror e confusão: exagerava as forças de Díon para não parecer ter abandonado a Siracusa com medo de um perigo nada grave.

Apareceu então Díon à frente de todos, coberto de armas brilhantes, ladeado por seu irmão Mégacles e pelo seu ateniense Calipo, os três ostentando coroas na cabeça. Seguiam-no os cem mercenários que constituíam a guarda de Díon. Os demais, muito bem equipados eram conduzidos por seus oficiais. Os siracusanos viam-no como uma procissão religiosa e sagrada, que trazia para a cidade, depois de quarenta e oito anos, a liberdade e a democracia.

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