Caçadores de Diamantes – Bandeirantes paulistas no Mato Grosso

Caçadores de Diamantes – Bandeirantes paulistas no Mato Grosso

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CAÇADORES DE DIAMANTES

E quando a invasão emboaba saturou as minas de elemento indesejável e insuportável para a arrogância aristocrática do paulista, atirou-se este ao desbravamento dos mistérios do subsolo goiano e matogrossense.

Fêz êle surgir longínquos confins, novos eldorados que desviaram para si a corrente emigratória que partia de São Paulo em busca da opulência. (Alfredo Éllis Júnior — Ban-deirismo Paulista e o Recuo do Meridiano).

Encerrado o ciclo aventureiro dos bandeirantes, nossas fronteiras ultrapassavam de muito os limites estabelecidos pelos famosos Tratado de Tordesilhas, esplêndida herança recebida por Espanha e Portugal de Adão e Eva, como comentava maliciosamente o irreverente Francisco I.

Terminado o surto bandeirista, permaneciam no recôndito do "hinterland", no distante Oeste, tão perto do Pacífico quanto do Atlântico, o que vale dizer no coração geográfico do continente sul-americano, no futuro Estado de Mato Grosso, núcleos de população tais como Cuiabá, Co-xipó, Forquilha, Chapada de Santana, em cujas cercanias o revolvimento do solo atestava o ouro extraído.

Homens afoitos e decididos, a empresas arriscadas, os Pais Lemes, os Bartolomeus Buenos, os Pires de Campos, os Moreiras Cabrais e tantos outros que figuram no cadastro do povoamento de nosso solo, partiam de São Paulo e, navegando rios, varando ínvios sertões, alcançavam as águas barrentas do Cuiabá sem darem importância às bulas papais; passavam pelas terras de Castela à cata do ouro abundante ou em montaria aos índios de que faziam escravos.

Os limites dessas empresas eram traçados pela ousadia tão somente e assim estabeleceram a vida de Cuiabá, mais tarde capital do grande Estado central.

Fora feita a expansão territorial, porém, a posse integral do solo seria tarefa para nossos dias. A causa determinante seria a mesma mineração, que transformaria a vasta zona leste de Mato Grosso em pedaço produtivo do País.

Assim os atuais garimpos de diamantes completam é codificam pela energia e desassombro dos garimpeiros contemporâneos, a epopéia gloriosa das bandeiras dos séculos XVII e XVIII.

Estamos em plena fase de conquista do nosso território para a produção, fase essa de grande alcance econômico e histórico, só comparada ao povoamento de Minas Gerais nas descobertas do ouro e caça das esmeraldas, ou ao desbravamento da Amazônia nos tempos áureos da borracha.

Em verdade, Mato Grosso ainda serve de palco ao drama bandeirante que se perpetuou até a presente geração.

O historiador de amanhã ficará assombrado ao conhecer a intrepidez dos modestos semeadores de cidades em recônditos inóspitos, até bem pouco somente percorridos pelos Xavantes e Bororós.

Eis que, à procura da pedra coruscante, vasta região é colonizada!

Como tem sido regra no aproveitamento do solo brasileiro, o garimpeiro precedeu de um século o agricultor e o criador. Este favor o Brasil deve ao diamante na parle referente ao Leste matogrossense.

O mais interessante, o que mais chama a atenção, é que foi esse um movimento anônimo, como trabalho das formigas. Não teve a reclame dos jornais, nem despertou, de leve, o interesse de nossos estadistas.

Processou-se num ritmo curioso e crescente. Foi um transladàmento interno de populações sertanejas, um verdadeiro êxodo nacional.

Ali no caboclo transmigrou-se sem o alarde de uma Califórnia, sem misturar-se com aventureiros vindos de outros continentes em busca de fortuna.

Alguns estrangeiros por lá são em proporções pequenas, em quotas mínimas, e, embora muitas nacionalidades representadas, diremos que estão inteiramente adaptadas aos costumes da maioria nativa.

Casualmente constatamos num pequeno grupo em palestra verdadeiro amálgama de nacionalidades, pois havia um tcheco, um polonês, dois russos, um português, um italiano, dois austríacos e dois sírios.

Nessa assembléia internacional nada se notava de exótico e, a não serem os vários tipos fisionômicos, parecia uma roda bem nacional.

A unidade pátria, milagre de colonização portuguesa, terá nos garimpos do Oeste um baluarte digno da nacionalidade. Ali se fortificam os mesmos costumes, a mesma religião, a mesma língua que tornaram nosso pais um bloco inquebrantável.

A coluna vertebral da zona de garimpagem é a mesma dos engenhos de Pernambuco, dos cafezais de São Paulo e das estâncias dos pampas gaúchos.

Não faz muitos anos, pouco importava para Mato Grosso sua vasta zona leste. Por vaidade geográfica litigavam Goiás e aquele Estado, pleiteando ambos o sertão bruto, a agreste floresta, a região indevassável, a que se julgam com direitos históricos. Jamais acordaram numa solução. O acordo que terminaria a disputa, realizado na Capital Federal, em agosto de 1937, e pelo qual se demarcavam novos limites não foi ratificado pelos respectivos congressos estaduais e, assim sendo, ficou a questão aberta.

Pelo citado acordo a divisa da região correria pelo rio Araguaia até a barra do rio das Garças, continuando daí por diante, para o Norte e para o Oeste, pelo rio dos Peixes, até alcançar o rio das Mortes.

Se assim fosse, o Estado de Goiás abriria mão da chamada zona leste de Mato Grosso a que se julga com direito, recebendo em compensação a região situada ao Norte, nos limites do Pará.

A mata seringueira que se estende ao setentriao de Cuiabá possibilitou, em outros tempos, o aparecimento e ressurgimento de cidades como Rosário, Oeste, e Diamantino, principais centros de borracha, as quais haviam sido auríferos em outras eras.

Nessa época o desenvolvimento da indústria extrativa do látex e os trabalhos de mineração do ouro, impuseram o recuo de numerosas tribos para o Norte longínquo, a par de outras que se sedentarizaram ao contato do trabalho aventureiro.

Com a queda da borracha, logo estagnaram-se os municípios florescentes dos distritos seringueiros.

Hoje, de próximo em próximo, os garimpeiros repontam e, feitos do mesmo material humano, são os seringueiros que abandonam as machadinhas e seguram as picaretas, com as quais escavam a terra, em procura das gemas cobiçadas pela vaidade das metrópoles.

Quem se defronta pela primeira vez com o cenário em que se desdobram tais atividades, sente o estímulo do arrojo que faz o homem enfrentar a natureza vigorosa da zona tropical.

O terreno se ondula em dorsos verdejantes, ou morros escalvados semelhando ruínas de gigantescos castelos medievais, em cujas fraldas a erosão secular esculpiu ameias, deixando desnudado o lençol vermelho-pardacento duma rocha de arenito. A vegetação rasteira dos cerrados se alterna com as manchas e florestas exuberantes, resultando admirável beleza de contrastes, em que a vida das savanas e das selvas, das chapadas e dos vales se harmoniza para incentivar o sentimento aventureiro das caravanas que por ali passam, a alma extasiada, o cérebro em turbilhão de miragens, galvanizados todos pela idéia de uma riqueza nem sempre encontrada.

Luís Sabóia Ribeiro: Caçadores de Diamantes. Editora Epassa, Biblioteca Brasileira de Cultura, Vol. VI, Rio de Janeiro, 1945, pp. 9-14.

Fonte: Estórias e Lendas de Goiás e Mato Grosso. Seleção de Regina Lacerda. Desenhos de J. Lanzelotti. Ed. Literat. 1962

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