Conto infantil “O CAVALO VELHO”



cavalo velho, histórias infantis

O CAVALO VELHO

GALHARDO era um cavalo de tiro já velho. Pertencia a um chacareiro, e havia trabalhado muitos anos a seu serviço.

O chacareiro, porém, estava disposto a vender sua propriedade e o comprador não precisava de Galhardo.

— Um cavalo velho como esse não serve para nada. Procure o senhor desfazer-se dele do modo que puder.

— Não sei o que hei de fazer com êle — observou o chacareiro. — Não posso levá-lo comigo porque a casa onde vou morar tem um jardim muito pequeno onde há lugar apenas para um cão. Também não posso vender Galhardo; já não está em condições de trabalhar e ninguém o compraria. Quer o senhor ficar com êle algum tempo na chácara, até que eu encontre alguém que se encarregue de levá-lo?

— Certamente — respondeu o novo cha-careiro, o qual chamava-se Jaime. — Mas o senhor não o deixe ficar aqui muito tempo.

No dia em que o chacareiro foi despedir-se de Galhardo, sentiu uma grande tristeza.

Queria muito bem ao velho cavalo e este lhe correspondia da mesma maneira. O nobre pôs a cabeça por cima da porteira e deixou que seu amo lhe acariciasse o focinho.

Assim que o chacareiro foi-se embora, Galhardo estendeu-se num cantinho cheio de sombra e pensou em sua longa vida.

Recordou-se das inúmeras vezes em que havia puxado o arado ou a carreta carregada de fêno.

Lembrou-se também de todas as colheitas e dos muitos verões passados, em que a filhinha

do chacareiro o havia levado ao trigal, montada em sua garupa. E o cavalo ficou muito triste.

— Agora já estou inutilizado e ninguém mais me quer — pensou. — Desapareceram todos os meus amigos e na chácara habitam pessoas desconhecidas. Logo não permitirão nem mesmo que eu permaneça neste campo, que eu tanto amo.

Já agora, ninguém mais ia dar os bons dias a Galhardo e ninguém lhe oferecia uma maçã.

O pobre animal observava os demais cavalos que trabalhavam e desejava ser capaz de poder imitá-los.

Uma noite aconteceu uma coisa muito singular na chácara.

Ern uma de suas extremidades afastadas, havia um palheiro e enquanto Galhardo se achava estendido pacificamente num canto, pensando em muitas coisas, viu que as chamas começavam a lamber um dos lados do palheiro e poude sentir o cheiro de queimado.

Galhardo já havia presenciado outras vezes o incêndio de um palheiro e sabia que o chaca-reiro sentia sempre um grande desgosto pelo prejuízos que aquele acidente lhe ocasionava.

Imediatamente levantou-se e, a galope, aproximou-se do palheiro para ver se, efetivamente, estava ou não queimando.

Sem dúvida alguma, se havia incendiado. Um de seus lados, estava coberto de chamas amarelas.

Galhardo poude observar que o novo cha-careiro havia colocado o palheiro muito perto do celeiro, e compreendeu que, se começasse a soprar o vento, as chamas destruiriam também o grão armazenado.

— É bom que êle perca a palha e também o grão — pensou o cavalo velho. Êle nunca me dirigiu uma palavra carinhosa e, apesar de que, nunca o prejudiquei em nada, não quer que eu permaneça em seu campo.

Embora este raciocínio, Galhardo não podia presenciar impávido a maneira pela qual se ia queimando a palha, e logo, envergonhou-se de haver desejado o mal para o novo chacareiro. De que modo poderia êle avisá-lo?

Avisou o fazendeiro

Dirigiu-se a uma das portas, mas estava muito bem fechada. Sua altura, de outro lado, lhe impedia galgá-la de um salto.

Então, o cavalo, dirigiu-se à outra porta e observou que a mesma se achava fechada com uma pequena tranca, passada através de um buraco do batente.

Quando era novo, Galhardo aprendera a tirar aquela pequena barra de ferro, e o fazia com tanta facilidade, que o chacareiro acabou por amarrá-la com uma corda, persuadido de que era esse o único modo de impedir que êle fugisse.

Nesse momento, recordou sua antiga habilidade; entretanto, antes de experimentar fazê–lo, examinou a porta afim de verificar se também o novo chacareiro a havia amarrado.

Como porém o senhor Jaime não suspeitava siquer, que um cavalo pudesse abrir a porta empurrando-a com o focinho, limitou-se em fechá-la com a tranca.

O cavalo empurrou-a para levantá-la e logo conseguiu tirá-la de seu lugar.

Tomou-a com os dentes e atirou-a para trás e ao fazer isto, abriu a porta.

Muito excitado, pôs-se a correr em direção à casa, a fim de despertar os que nela moravam.

Chegou ao pátio e encaminhou-se para a porta principal. E então, erguendo a cabeça relinchou com força.

Ninguém chegou à janela, porque todos estavam profundamente adormecidos.

O cavalo deu coices sobre os pedregulhos e tornou a rinchar. Depois golpeou a porta com a cabeça.

Despertou o senhor Jaime, perguntando a si próprio o que poderia significar aquilo.

Foi até à janela e, à luz da lua, viu o velho Galhardo que escouceava e empurrava a porta com a cabeça. Ao mesmo tempo avistou o incêndio do palheiro.

— Acorda, mulher! Acorda! — exclamou. — Incendiou-se o depósito da palha e o cavalo veio avisar-nos. Depressa! Telefona aos bombeiros enquanto eu vou despertar os nossos empregados!

Vestiu-se depressa e, correndo, desceu para avisar os trabalhadores.

Sua esposa dirigiu-se ao telefone e chamou os bombeiros para que viessem quanto antes.

Quatro minutos depois, o Corpo de Bombeiros dirigiu-se a galope para a chácara.

Os trabalhadores haviam começado a atirar água sobre o palheiro.

O Senhor Jaime estava persuadido de que o fogo iria comunicar-se ao celeiro, e só essa idéia o aterrorizava.

Naquele momento, quando o perigo parecia iminente, apareceu o carro de bombeiros.

Estes aparelharam imediatamente a mangueira e começaram a lançar água contra o fogo. Dez minutos depois o incêndio achava-se extinto.

O palheiro havia ficado quasi destruido, mas, em compensação, o celeiro nada sofrera.

— E como percebeu o senhor o incêndio? — perguntou um dos trabalhadores ao chaca-reiro.

— Pois foi esse velho cavalo que eu consenti que ficasse no campo por alguns dias, que abriu a porta e veio avisar-me. Ouviste alguma vez contar alguma coisa semelhante? E pensar que eu andava aborrecido porque o meu antecessor não havia querido levá-lo!

O velho cavalo é muito estimado

O velho cavalo é muito estimado

 

O pobrezinho evitou que eu sofresse a perda de uma grande quantia.

Por conseguinte, eu o deixarei viver em meu campo até o fim de sua vida. Não o mandarei embora nunca.

Galhardo achava-se contentíssimo. Voltou ao lugar em que costumava dormir e deu um suspiro de alívio.

Aquela noite foi emocionante, mas ainda mais o havia de ser o dia seguinte.

Todo o mundo havia sido informado do ato do valoroso cavalo e numerosas pessoas haviam ido visitá-lo.

Deram-lhe torrões de açúcar, cenouras, maçãs e tanto milho, que nem poude comer tudo. Recebeu muitas carícias e naquele dia sentiu-se muito feliz.

Até hoje continua êle no mesmo campo. O senhor Jaime vai visitá-lo duas vezes por dia e todas as tardes seu filho monta sobre seu lombo e dá-lhe um torrão de açúcar.

— Não mereço tanta felicidade — pensa às vezes Galhardo.

Somos porém de opinião de que se engana, não é assim, meus meninos?

Tradução e Adaptação de Leoncio de Sá Ferreira, 1949

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