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DUARTE NUNES DE LEÃO



DUARTE NUNES DE LEÃO, nasceu em, Évora e faleceu em 1608. Foi desembargador da Casa da Suplicação e compôs um repertório das ordenações e leis extravagantes, que coligira poP ordem do rei D. Sebastião.

Escreveu curiosos tratados: Origem da Língua Portuguesa, Ortografia do mesmo idioma e Descrição do Reino de Portugal. Refundiu as crônicas dos reis da primeira dinastia na Primeira Parte das dos Reis de Portugal, e a dos três primeiros reis da segunda dinastia na Segunda Parte das mesmas crônicas.

Na opinião de Teles da Silva, Marqués de Alegrete, foi Duarte Nunes de Leão quem abriu caminho à crítica da História em Portugal, escrevendo com juízo e madureza. Mas, quanto ao estilo, cumpre declarar que não prima pelo colorido nem pela animação.

O Infante D. Fernando

O infante D. Fernando foi filho de el-rei D. João I ele Portugal, e da rainha D. Filipa, filha do duque João de Lan-cáster, e irmã d’el-rei Henrique V de Inglaterra; e como seu pai foi um príncipe assinalado em virtudes e sua mãe de grandes perfeições e santidade, assim foi a criação deste infante, junto à sua boa natureza, que desde a sua tenra idade foi inclinado a todo gênero de virtude, e que logo deu mostra de se criar nele um grande santo. Porque desde a idade de catorze anos todo seu cuidado empregou em servir a Deus, rezar as horas canónicas como um religioso; jejuar muitos dias do ano, a que a Igreja não obriga, de que muitos (542) eram a pão e água. Sua casa, nos costumes e boa criança (543) dos seus criados, era um convento de religião e uma escola em que se aprendiam virtudes e se exercitavam. (544). O tempo e dinheiro, que os príncipes mancebos costumam gastar em delícias de caças, chocarreiros e outros usos pouco honestos, gastava êle em ter sua capela bem ornada e concertada em tudo, de vestimentas e- vasos de prata, tapeçarias e cantores, como se fora uma só catedral. Tinha dos Sumos Pontífices muitas graças, para na mesma sua capela se batizar, confessar e dar a comunhão e a santa unção, e que todo que o servisse sete anos, morrendo em sua casa, fosse absolto honra pelas armas, como já seus irmãos tinham ganho; (547) ou ordenasse com que fosse cercar Tânger. E assim foi reque-rido a el-rei por sua parte, com tão grande veemência que el-rei vejo a conceder; e fêz uma armada, em que mandou os infantes D. Henrique e D. Fernando, seus irmãos, a África, com quatro mil homens de cavalo e dez mil de pé; (548) e puseram cerco à cidade de Tânger; na qual havendo muitos mil homens de cavalo para a poderem defender, os vieram socorrer os reis do Fêz e Tafilete, com noventa mil homens de cavalo e número sem conta de gente de pé. E o que neste cerco passou, é notório por muitas histórias.

E como os cristãos se viram em tanto aperto, para se salva-rem da morte (de que não podiam escapar) vieram a partido (549) que os mouros deixassem ir aos cristãos, contanto que el-rei de Portugal lhes largasse a cidade de Ceuta, que lhes rinha tomado, e lhes desse por isso arreféns. (550) Entre o in-fante D. Henrique e os capitães portugueses foi assentado que o infante D. Fernando se entregasse aos mouros em penhor, até à entrega de Ceuta.

E, sabendo êle o perigo em que se metia, fiando-se de mouros tão inimigos e tão assanhados, como quem também consentira dar ainda a vida por livramento de seus companheiros, que o vieram servir, êle se ofereceu a se dar em arreféns, e foi entregue a Çala-Ben-Çala, que fora senhor de Ceuta, com certos servidores que êle escolheu para o servirem e o acompanharem, que só foram nove, convém a saber: um confessor, um capelão, um secretário, um camareiro, um aposentador, um físico, um guarda-reposte, um cozinheiro, com um homem de forno. Çala–Ben-Çala o levou a Fêz com um tal (551) aparato que o infante entendeu bem o tratamento que ao diante havia de receber. A besta em que o fêz cavalgar, (552) foi um sendeiro magro e desferrado, com uma sela velha e rota, de arções despregados e freio atado com tamiças; e por escárneo lhe meteram uma vara na mão para o tanger; sem aquela vil gente ter respeito (553) (545) de culpa e pena, ao artigo de morte.

Estando nesta quietação, o infante D. Henrique, seu irmão, que era homem cobiçoso de honra, e desejava passar a África, (546) persuadiu a seu irmão, o infante Dom Fernando, que o ajudasse nesta pretensão, e requeresse com grande instância a el-rei o deixasse ir a Inglaterra, à casa de el-rei seu tio, a ganhar que era filho de um rei e de uma rainha e que eles o não cati varam, mas que êle espontaneamente se meteu em suas mãos por sua pura bondade, para remédio dos seus naturais que o serviram.

Assim foi o infante caminho de Fêz, no qual a cada povoação que chegavam (554) faziam-no saber primeiro e saíram a recebê-lo com grandes vitupérios, cuspindo-lhes nos rostos e ape-drejando-os; e assim passaram até chegar à casa onde haviam de pousar; onde a cama que lhe davam, era o chão; porque não queriam os mouros que o infante se assentasse em suas esteiras, nem que comesse em seus vasos, que de tudo os lançavam, como homens imundos e excomungados, e quebravam as escudelas e vasos em que metiam as mãos; o que tudo aquele príncipe sofria com muita paciência, como se a êle se não fizesse. (555) Quando chegaram a Fêz, os mouros detiveram ao infante até sair toda a gente da cidade, que com pregões fora chamada, para maior afronta daquele príncipe; e assim, como em triunfo, o levaram naquele mal ornado cavalo, e os seus a pé; os quais, por verem tão inumerável povo junto, de tão estranhos e diferentes trajos da gente da Europa, e cores de rostos, e língua, iam como atônitos; (556) e muito mais por alaridos e gritarias, que faziam; que lhes impedia passarem, (557) se não fora o rigor das guardas, que afastavam a gente. Chegando ao paço, foram entregues a Lazaraque, o mais cruel mouro que o mundo astúcia e tiranias se veio a apoderar do reino e o ter oprimido, tinha; o qual, sendo homem baixo e de vis costumes, por sua e ao rei moço como cativo, com quem casou uma filha que tinha.

(Descrição de Portugal, cap. 83.°) trecho da obra de DUARTE NUNES DE LEÃO,

 

  • (542) muitos — concordância com jejuns, subentendido por inferência do v. jejuar.
  • (543) — criança — educação, criação.
  • (544) se aprendiam virtudes e se exercitavam — virtudes é o sujeito passivo dos dois verbos.
  • (545) absolto — p. pass. irreg. e desusado do v. absolver.
  • (546) desejava passar a África — sem crase do a porque os antigos geralmente diziam sem o artigo os topónimos indicativos de países e continentes: "Uma gente fortíssima de Espanha"… (Lus., I, 31); "Com Ásia se avizinha"… {lbid., Ill, 7); "Vistas, enfim, de França as cousas grandes"… (VI, 56); "Porque eu serei convosco em Inglaterra" (VI, 54).
  • (547) tinham ganho — por tinham ganhado.
  • (548) cavalarianos e infantes.
  • (549) vieram a partidos convieramí concordaram, combinaram.
  • (550) arreféns — hoje se diz refém, reféns, sem a primeira sílaba, vestígio do artigo árabe.
  • (551) um tal aparato — V. n. 408.
  • (552) o, pron. oblíquo, é suj. do infinitivo cavalgar. V. nn. 95 e 710.
  • (553) ter respeito = observar, considerar, atender.
  • (554) que chegavam — que por a que. Houve transposição da partícula. A frase seria: em cada povoação a que chegavam…
  • (555) como se a êle se não fizesse — se, apassivador; a êle, obj. indir.; tudo, suj. (como se tudo não fosse feito a êle).
  • (556) atónito (do lat. attonitus, p. pass. de attonare, causar ou sofrer espanto com o trovão, tonum) — assustado, perturbado, temeroso da trovoada; — ampliou o sentido. Tonto é forma divergente de atônito, com aférese do a e síncope da pòstônica — i.
  • (557) = [o] que lhes impediria passarem ou o que os impediria de passar.

Seleção e Notas de Fausto Barreto e Carlos de Laet. Fonte: Antologia nacional de escritores, Livraria Francisco Alves.

 

 

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