Dos Poderosos – La Bruyère
DOS PODEROSOS – LA BRUYÈRE
Tradução de J. Brito Broca e Wilson Lousada. Fonte: Clássicos Jackson.
Vida quase sem história é a de Jean de La Bruyère, Tendo nascido em Paris, em 164*, estudou Direito, exerceu a advocacia, comprando depois um cargo de tesoureiro geral no "bureau das finanças" de Caen, continuando apesar disso a residir em Paris, onde levava uma vida de recolhimento, toda votada ao estudo. Segundo o seu contemporâneo Vigneul-Marville, morava num quarto muito alto "proche du ciel", dividido em dois por um tapete. Em 1684, escolhido para preceptor do neto do Grande Conde, transfere-se para o castelo de Chantilly, onde pôde apreciar de perto a sociedade, cuja crítica iria fazer nos Caracteres. A primeira edição dessa obra apareceu em 1688. Outras se sucederam até 1690, sempre com acréscimos, a guisa de publicação periódica. O verdadeiro título do livro na versão primitiva era Les Caracteres de Theophraste, traduits du grec, avec les caracteres et les moeurs de ce siòcle. Em 1693, La Bruyère entrava para a Academia Francesa, pronunciando um discurso em que fazia louvores a Racine, irritando os admiradores fanáticos de Corneille. La Bruyère respondeu, depois, a estes. Estava escrevendo um Dialogues sur le quietisme e se aplicava em preparar uma nova edição dos Caracteres, quando morreu de um ataque de apoplexia, em 1696.
DOS PODEROSOS
* A prevenção do povo em favor dos poderosos é tão cega, e a obstinação em lhes admirar os gestos, os retratos, o som de voz e as maneiras tão geral, que, se eles pensassem em ser bons, essa admiração chegaria à idolatria.
* A vantagem dos grandes sobre os outros homens é imensa, em certo ponto; dou-lhes de barato as boas comidas, as ricas mobílias, os cães, os cavalos, os macacos, os anões, os jograis e os lisonjeadores; mas invejo-lhes a felicidade de terem a seu serviço pessoas que os igualam pelo coração e pelo espírito e que, às vezes, até os excedem.
* Os poderosos vangloriam-se porque abriram uma alameda numa floresta, fizeram construir longas muralhas de ânimo de terras, pintar a ouro os tectos do palácio, mandaram vir de longe água potável ou prepararam uma estufa para laranjeiras; mas nunca porque tenham dado algum contentamento a um coração humano, enchido uma alma de alegria, procurado prevenir ou remediar as extremas necessidades dos pobres, porque até aí não vai a sua curiosidade de espírito.
* Pergunta-se muitas vezes se, comparando em conjunto as diferentes condições dos homens, suas dificuldades e suas regalias, não se chegaria a uma mistura ou a uma. espécie de compensação de bem e de mal que estabeleceria entre eles a igualdade, ou faria que, pelo menos, a condição de uns não fosse mais desejável que a de outros: aquele que é poderoso e rico, e a quem não falta nada, pode formular esta questão, mas só um homem pobre lhe pode dar a resposta.
Não deixa de haver certo encanto ligado a qualquer condição humana, e que permanece nela, enquanto não venha a miséria, que tudo destrói. Assim, os grandes comprazem-se nos excessos e os pequenos amam a moderação; aqueles sentem gosto era dominar e comandar, e estes chegam a ter prazer, e mesmo alguma vaidade, em servir e obedecer; os grandes têm sua roda de servidores e são saudados e respeitados,- os pequenos, por sua vez, fazem-lhes roda, saúdam-nos, prosternam-se diante deles, e estão assim contentes.
* Custa tão pouco aos grandes dar apenas as palavras que dão, e sua condição dispensa-os tão facilmente "de manterem as belas promessas que fazem, que é maravilha de sua modéstia que não façam ainda mais promessas para não as cumprirem.
"Este é velho e usado, rebentou-se como um cavalo, a meu serviço; que posso fazer dele, agora?" — diz um grande senhor. E é outro, mais jovem, que rouba as esperanças do pobre velho e obtém o posto que não é recusado a esse desgraçado senão por ter muito merecido.
* Não sei por que, direis vós, com um ar frio e desdenhoso, Philante tem merecimento, tem espírito, boas maneiras, exatidão no seu serviço, fidelidade e afeição a seu amo, e é mediocremente recompensado; não agrada, não é apreciado. Mas explicai-vos, neste ponto: para quem vai, afinal, a vossa condenação: para Philante, ou para o grande a quem ele serve?
É muitas vezes melhor abandonar os grandes do que teimar em queixar-se deles.
Quem poderá dizer por que alguns tiram a sorte grande, ou por que outros conseguem o favor dos grandes!
* É tal a felicidade dos grandes que eles nem sequer experimentam em toda a vida contrariedade ou pesar pela perda de seus melhores servidores ou de homens ilustres em seu gênero, dos quais tiraram em vida o máximo de satisfação e de utilidade. A primeira coisa que faz a lisonja, logo depois da morte dessas pessoas, únicas e insubstituíveis, é atribuir-lhes certas fraquezas de que, segundo ela, estão completamente isentos os que lhes sucedem, assegurando que o sucessor, com toda a capacidade e todas as luzes do outro, de quem toma o lugar, não tem os defeitos que aquele tinha, e uma tal maneira de falar serve aos príncipes para que logo se consolem do que era grande e excelente pelo que é simplesmente medíocre l.
Os grandes desdenham as pessoas de espírito, que apenas têm espírito; e as pessoas de espírito desprezam os poderosos que apenas valem o que vale o seu poder; as pessoas em geral lastimam uns e outros que tiveram espírito ou poder sem nenhuma virtude. Quando vejo junto dos grandes, à sua mesa, e algumas vezes na sua intimidade, esses homens espertos, solícitos, intrigantes, aventureiros, espíritos perigosos e nocivos, e considero, por outra parte, quanto custa às pessoas de mérito aproximar-se desses grandes, não estou sempre disposto a crer que os mais sejam suportados por interesse ou que as pessoas de bem sejam assim tratadas como inúteis; acho mais certo e como confirmado este meu pensamento de que importância social e discernimento são duas coisas diferentes.
* Lucile prefere gastar sua vida em se fazer suportar por alguns dentre os poderosos a ver-se reduzido à condição de viver familiarmente com os seus iguais.
A regra de tratar com os que estão acima de nós deve ter suas restrições; é às vezes preciso um especial talento para realizá-la na prática.
* Qual será a incurável doença de Teófilo 2, dura há mais de trinta anos e não tem cura? Ele quis, quer e quererá sempre governar os grandes; só a morte lhe levará, com a vida, esta sede de domínio e de ascendente sobre os espíritos. E será isto zelo pelo próximo? hábito? ou excesso de quem tem uma boa opinião de si mesmo? Não há palácio onde ele não se introduza, e não espera que o atendam no meio da sala, vai logo até ao vão de uma janela ou aos aposentos privados; e são os outros que esperam que ele acabe de falar, por muito tempo e com modos intimativos, para assim mostrar que tem audiência e ser admirado por isso. Entra nos segredos das famílias, toma sua parte em tudo que lhes sucede de triste ou de agradável; é cheio de atenções e de advertências, oferece seus serviços, faz-se convidar, é forçoso admiti-lo. E não é bastante para ocupar seu tempo ou sua ambição o cuidado de dez mil almas pelas quais ele responde, como pela sua própria, perante Deus; outras há, de mais alta posição e maior distinção, das quais não deve nenhumas contas a Deus, e das quais, entretanto, se ocupa voluntariamente: tudo ouve, vela sobre tudo que possa servir de alimento ao seu espírito de intriga, de mediação ou de manobra. Mal um poderoso acaba de chegar, logo Teófilo toma conta dele, para não mais o largar; antes que se tenha pensado que ele se deve estar preparando para governar o recém-chegado, já o próprio Teófilo anda espalhando aos quatro ventos que, de fato, o governa.
* Um gesto de frieza ou de pouca consideração da parte dos que estão colocados acima de nós, é o que basta para despertar a nossa antipatia; mas também basta que eles nos sorriam ou nos dirijam um cumprimento para logo nos reconciliarmos com eles.
* Há homens de muita soberba que logo se humilham e se deixam amansar quando vêem seus rivais elevados a uma posição superior; por esta espécie de desgraça do caráter, são os primeiros a fazer os cumprimentos, mas o tempo, que tudo abranda, os faz voltar mais tarde ao seu natural.
* O desprezo que sentem os grandes, pelo povo, torna-os indiferentes às lisonjas ou aos louvores que dele recebem, e isto serve de algum modo a temperar-lhes a vaidade; do mesmo modo, os príncipes muito louvados, sem medida e sem descanso, pelos grandes e pelos cortesãos, ainda seriam mais vãos se não fosse a pouca estima em que têm aqueles que os louvam.
* Os grandes pensam que são os únicos perfeitos, e dificilmente admitem que nos outros homens possa haver retidão de espírito, habilidade, delicadeza; e assim têm as riquezas do espírito como suas, e devidas ao seu nascimento. Entretanto, é um erro grosseiro de sua parte alimentarem-se de tão falsas prevenções; o que jamais houve de melhor, fosse pensado, dito ou escrito, e talvez de mais delicada educação, não nos veio do fundo comum de que eles tanto se gabam. Alguma coisa têm eles, — . grandes domínios e uma. longa lista de antepassados; isto, ao menos, não lhes pode ser contestado.
* Se há poucos oradores excelentes, haverá na verdade muita gente que os possa compreender1? E se são sempre poucos os bons escritores, onde estão aqueles de quen se poderá dizer que sabem ler? Do mesmo modo, sempre foi costume lamentar que haja tão poucos que possam servir de conselheiros a um rei, e ajudá-lo na administração de seus negócios; mas se mais houvesse, desses homens hábeis e inteligentes, e que entendessem seguir suas próprias opiniões e suas idéias, seriam eles estimados de acordo com o seu merecimento? Haverá muita gente que os louve pelo que pensam e pelo que fazem pela pátria’? Eles vivem, c é o bastante. São censurados, se por acaso falham; e, quando acertam, são invejados. Censuremos nós o povo neste ponto em que seria ridículo pretender desculpá-lo. O desgosto e a inveja do povo, considerados pelos grandes como coisas inevitáveis, foram conduzindo os que governam a não ter o povo na menor conta e a desprezar seus sufrágios em todas as empresas por eles tentadas, e mesmo mais do que isto: a fazer desta atitude uma regra de política.
* Os pequenos odeiam-se entre si sempre que se sentem prejudicados uns pelos outros. Os grandes são odiosos, aos pequenos, pelo mal que lhes fazem, e mesmo por todo o bem que deixam de lhes fazer: e assim são responsáveis perante o povo por seu obscurantismo, por sua pobreza, por seu infortúnio, ou, pelo menos, aparecem como tais aos olhos do povo.
* É já muito ter de comum com o povo uma mesma religião e um mesmo Deus; como poderíamos ainda ter o mesmo nome, Pedro, João ou Tiago, que é o nome do lavrador ou do negociante? Evitemos ter qualquer coisa em comum com as massas; afectemos, ao contrário, uma grande distinção, separando-nos delas. Que elas façam seus os doze apóstolos, os seus discípulos, os primeiros mártires (tal é a gente, tais são seus patronos). Que esses vejam voltar com alegria, todos os anos, o dia da festa do seu santo. Para nós outros, os grandes, devemos preferir nomes profanos e que nos distingam perfeitamente : façamo-nos baptizar com os nomes de Aníbal, César, Pompeu, que eram grandes homens; com o de Lucrécia, que era o de uma ilustre romana; com os de Renaud, Roger, Olivier, Tancredo, que eram paladinos, e não há no romance heróis mais maravilhosos do que estes; com os de Heitor, Aquiles, Hércules, que eram semideuses; com os de Febus e Diana. E quem pode impedir-nos de nos chamarmos Júpiter ou Mercúrio, Vénus ou Adónis?
* Enquanto os grandes se dispensam de conhecer seja o que for, e não digo só no que se refere aos interesses dos príncipes e aos negócios públicos, mas também no que se refere aos seus próprios negócios, enquanto ignoram tudo da ciência e da economia de um pai de família, e se vangloriam desta ignorância; enquanto se deixam empobrecer e governar por seus administradores, e se contentam em ser conhecidos como apreciadores de ricos vinhos, de diferentes coteaux, e por isso já chamados por este nome 3, ou se contentam em ir aos lugares melhor freqüentados como Tliàis ou Pliryné, e em falar de matiIhas de cães e de caçadas, podendo dizer quantos postos de caça há de Paris a Besançon ou a Philisbourg; enquanto isso, cidadãos se vão instruindo, do que há dentro e fora do reino, estudam o governo, aguçam o seu espírito político, conhecem o forte e o fraco de um Estado, pensam em alcançar um lugar melhor, e conseguem-no, elevam-se, tornam-se poderosos e aliviam o príncipe de grande parte de suas preocupações políticas. Então, os grandes, que antes os desprezavam, estarão prontos a reverenciá-los e serão felizes se puderem tornar-se seus genros.
* Quando comparo as duas condições de homens mais opostas, isto é, a dos grandes e a do povo, este parece-me que se contenta com o necessário, enquanto os outros continuam inquietos, e julgando-se pobres, mesmo com o supérfluo. Um homem do povo não poderia pensar em fazer qualquer mal; um grande, pelo contrário, não pensa em fazer bem nenhum e é capaz de fazer grandes males; um forma-se e exercita-se, somente, em coisas úteis; o outro junta a estas também coisas perniciosas. Num caso, mostram-se ingenuamente a grosseria e a franqueza; no outro, oculta-se uma seiva maligna e corrompida, sob uma camada exterior de polidez; o povo não terá um fino espírito, mas os grandes não têm alma: aquele tem bom fundo e não tem boa aparência; os grandes não têm senão aparência e esta é somente superficial. Sendo preciso optar, não hesitarei, por minha parte: quero ser povo.
* Por mais profundos que sejam os grandes da corte, e por maior que seja a arte que possuem para parecer o que não são, o para não se mostrar como são, eles não conseguem esconder sua perversidade nem a extrema facilidade com que se riem à custa de qualquer pessoa e com que lançam o ridículo sobre quem o não merece: estes talentos reconhecem-se neles à primeira vista, e são admiráveis, decerto, para enganar quem se deixa enganar, e para fazer de um tolo o que ele é; porém mais próprios ainda para os privar a eles do prazer que poderiam ter com as pessoas de espírito que não hesitariam em desfazer-se com eles em mil atenções e delicadezas, se o perigoso caráter do cortesão as não aconselhasse antes a uma certa reserva: por isso, o homem de espírito lhes opõe um caráter de seriedade, do qual se não afasta em sua presença, e tão bem faz que os trocistas, com suas más intenções, não têm ocasião de se divertir à sua custa.
* As facilidades da vida e da abundância, a calma que vem de uma grande prosperidade, são coisas que explicam tenham os príncipes alegria para rir de um anão, de um macaco, de um imbecil, ou de uma má história: as pessoas menos felizes só riem a propósito.
* Um desses grandes adora a Champagne e detesta a Brie, e, pois, embriaga-se com melhores vinhos que o homem do povo: esta é a única diferença que a vida de vício deixa subsistir entre duas condições tão opostas, a do senhor e a do lacaio.
* Parece a princípio que faz parte dos prazeres dos príncipes o de incomodar os outros; mas não é assim, os príncipes são semelhantes aos homens: só pensam em si, em seus gostos, em suas paixões, em sua comodidade, e isto é natural.
* Parece que a primeira regra, entre pessoas bem colocadas e entre os poderosos, é a de colocarem diante de todos os que deles dependem, nas necessidades da vida corrente, todos os obstáculos que essa gente mais pode temer.
* Há homens que por nascimento já são inacessíveis, e justamente para aqueles que deles dependem e deles precisam: nunca, ficam parados para atenderem às necessidades de ninguém; móveis como o mercúrio, fazem piruetas, gesticulam, gritam, agitam-se; semelhantes a essas figuras de cartão que servem nas festas públicas, lançam fogo e chama, trovejam e fulminam, ninguém se aproxima deles, até que, finalmente, se extinguem e caem, e por sua queda tornam-se tratáveis, mas, já então, inúteis.
* O porteiro, o criado de quarto, o lacaio, não tendo mais espírito do que lhes permite sua condição, não se julgam por sua primitiva baixeza, mas pela. elevação e fortuna das pessoas a quem servem, colocando assim todos os que passam pela porta, e sobem as escadas, indiferentemente, abaixo de si mesmos e de seus amos: e deste modo é verdade que todos estão destinados a sofrer dos poderosos e de tudo que lhes pertence.
* Um homem de posição deve amar o seu príncipe, a esposa, e os filhos, e, depois deles, as pessoas de espírito: deve adoptá-las em quantidade bastante e ter cuidado em que nunca lhe faltem; nunca seriam demais, já não digo as pensões e os benefícios, mas a familiaridade e o carinho para pagar os socorros e os serviços que eles lhe prestam, às vezes mesmo sem o saberem. Quantos boatos não são dissipados por eles? quantas histórias não se reduzem assim a fábulas e a ficções? E não são eles que se empenham em desculpar os insucessos pelas boas intenções, em provar a bondade de um desígnio e as justas razões das medidas destinadas a promover um feliz acontecimento? E não são eles que se levantam contra a maledicência e a inveja, atribuindo a bons propósitos melhores motivos e dando explicações favoráveis das aparências às vezes comprometedoras, diminuindo a importância dos pequenos defeitos, para só realçarem as virtudes, à luz da discussão; espalhando em mil ocasiões outros tantos fatos e pormenores, sempre favoráveis, e voltando o riso e o ridículo contra aqueles mesmo que deles se serviam por suas dúvidas ou afirmações contrárias? Bem sei que os grandes tem por norma deixar falar e continuar a fazer o mesmo; mas sei também que lhes sucede, em certas oportunidades, que deixar falar os obriga a não fazerem o que queriam.
* Apreciar o mérito, e, quando ele é devidamente apreciado, tratá-lo bem como deve ser tratado, são duas regras de conduta que não podem sofrer delongas e d-: que, entretanto, os grandes em geral se mostram incapazes.
* És grande, és poderoso, mas não é bastante; precede de modo que eu te possa estimar e que fique triste se alguma vez vier a perder as tuas boas graças ou na-: conseguir alcançá-las.
* Se alguém me diz de um grande ou de um homem de posição que ele é obsequioso, solícito, e que gosta de fazer favores; e, para prova, acrescenta a longa história do que ele fez numa questão em que soube do interesse da pessoa que conta a história, sei muito bem o que hei -de entender: que essa pessoa nem precisou de solicitar o favor, que tem grande crédito, que 6 conhecido do ministro, e está bem com os poderosos: e seria outra coisa que ela quereria que eu entendesse’?
Alguém vos diz: "Tenho razões de queixa, de Fulano; ele é orgulhoso de sua posição, desdenha os outros e nem mais me conhece"; e vós lhe respondeis: "Por minha parte, não tenho dele nenhuma razão de queixa; pelo contrário, só me tem dado motivos de satisfação e parece-me muito atencioso e afável". — Bem vos entendo: quereis que se saiba que um homem de posição vos dispensa suas atenções e vos distingue na antecâmara, entre mil outras pessoas de distinção, das quais desvia o olhar só para não ter de corresponder ao seu cumprimento ou aos seus sorrisos.
Dizer-se satisfeito com alguém, e, particularmente, dizer-se satisfeito com um homem de posição, é frase delicada, em suas origens, e que significa, seguramente, que se está satisfeito consigo mesmo que ando se diz de um poderoso o imenso bem que ele nos fez ou que nem pensou sequer em fazer-nos.
Louvam-se os grandes para bem assinalar que nos Aproximamos deles, raras vezes deixando entender que foi por estima ou gratidão; geralmente conhecemos mal Aqueles a quem louvamos; a vaidade e a inconseqüência passam por cima do ressentimento que deles temos: não temos nenhuma razão de contentamento com eles, mas assim mesmo os louvamos.
* Se é perigoso meter a mão num negócio suspeito, mais o é ainda fazer-se cúmplice de um poderoso, em negócio dessa espécie; ele escapa-se, no bom momento, e deixa-vos ficar responsável, duplamente, por vós e por ele.
* Não chega toda a fortuna do príncipe para pagar uma baixa complacência, a julgar por tudo de seu que a pessoa recompensada põe nesse serviço; mas também não basta todo o poder do príncipe para punir a pessoa servil por todo o mal que lhe fez com esse serviço.
* A nobreza expõe a vida pela salvação do Estado e pela glória do monarca; o magistrado alivia o príncipe de uma parte dos cuidados com a justiça do seu povo. São estas, e tanto umas como outras, funções sublimes e de maravilhosa utilidade: os homens não são capazes de coisas mais altas do que estas, de forma que não sei onde a beca e a espada vão buscar motivos para se desprezarem reciprocamente.
* Se é certo que os grandes arriscam mais o que ó seu levando uma vida de risos, de prazeres e de abundância, do que um particular que apenas arrisca sons dias miseráveis, também é certo que eles têm outra:: compensações, pois que esperam a glória e a alta reputação: um soldado não tem o sentimento de ser conhecido, e morre obscuro entre milhares de companheiros; é certo que também vivia desconhecido, mas ao menos vivia. Está nisto uma das condições da falta de coragem em quem nasce na servidão. Pelo contrário, os que desde o nascimento se distinguem do povo, expondo-se às vistas dos homens, às suas censuras e aos seus elogios, só por isto são levados a fazer alguma coisa, de maior, quando mesmo o seu temperamento os não destine à grandeza; é esta. disposição do coração e do espírito que passa dos avós aos pais e a seus descendentes e constitui essa bravura que é apanágio das pessoas nobres, e talvez a própria nobreza.
Ponham-me entre as tropas como simples soldado, e serei o Thér sites da Ilíada; mas ponham-me à frente de um exército, por cujos feitos tenha que responder perante a Europa, e serei Aquiles.
* Os príncipes, sem outra ciência ou regra, têm o gosto da comparação; nascidos e educados no centro de todas as coisas, e das melhores coisas, referem ao seu próprio modelo tudo que lêem, que vêem e que ouvem. Tudo que se afaste de Lulli, de Racine e de Le Brun, não tem nenhum valor para eles.
* Somente falar aos príncipes dos direitos de sua alta posição é um excesso de precaução, quando toda a corte não faz outra coisa senão render-lhes o preito de sua obediência e de sua polidez, e eles próprios nunca esquecem o que lhes é devido, por seu nascimento, sendo mais fácil que esqueçam o quê devem aos outros e confundam as pessoas e as tratem sem distinção de posição e de títulos: eles tem sempre uma altivez natural, que nunca lhes Falta nas ocasiões necessárias; não é preciso dar-lhes lições senão para temperar esta altivez e para lhes inspirar a bondade, a honestidade e o espírito de discernimento.
* É pura hipocrisia da parte de um homem de certa elevação não tomar o lugar que lhe é devido e que os outros lhe cedem sem nenhuma dificuldade; nada lhe custa ser modesto e misturar-se com a turba, sabendo que esta lhe vai dar passagem, ou tomar o último lugar em uma assembléia quando sabe que vai ser visto e que todos se apressarão em ceder-lhe o melhor lugar. A modéstia é uma prática mais amarga para os homens vulgares que sabem que, quando se metem no meio da multidão, são esmagados por ela; e que quando escolhem um mau lugar é para lá ficarem.
* Aristarco transportou-se à grande praça, com um arauto e sua trombeta: este começa a tocar: grande multidão acorre e enche a praça: "Ouçam, grita o arauto, Monção! silencio! silêncio! Aristarco, que aqui está, deve fazer amanhã uma boa acção". Por minha parte, eu direi: e alguém quer fazer uma boa acção, que a faça, mas de modo que eu não o saiba, ou, pelo menos, possa dizer que não foi ele que mo disse.
* As melhores ações alteram-se e enfraquecem-se pela maneira como são feitas, e deixam mesmo dúvidas sobre as intenções de quem as pratica: aquele que louva a virtude pela virtude e que corrige ou censura o vício pelo vício procede com simplicidade e cora naturalidade, sem nenhum estratagema, sem singularidade alguma, sem ostentação, sem afetação; não dá respostas graves e sentenciosas, e ainda menos recorre a ditos mordazes e satíricos; não é nunca o ator de uma cena representada para o público, e apenas se desincumbe de um dever e dá um bom exemplo; não fornece assunto a reuniões de mulheres, nem às conversas de gabinete *, nem aos repórteres; nem fornece a quem o escuta matéria para um belo conto: o bem que faz é, assim, quase ignorado, mas o bem é feito; e que mais podia ele desejar?
* Os grandes não devem gostar nada de seus primeiros tempos, eles não lhes são favoráveis; é triste para eles ver que todos temos as mesmas origens. Os homens, em conjunto, compõem uma grande família; é tudo uma questão de grau, para mais ou para menos, nas relações de parentesco.
* Théognis é requintado em seu trajar e sai todo arrebicado como uma mulher; logo à saída de casa, compõe o olhar e a expressão, para estar pronto a qualquer encontro, preparado aos olhos de quem passa, de forma a parecer gracioso e sorridente a todos, sem deixar escapar ninguém. Quando avança num salão, volta-se à direita, onde se acumula toda a gente, e à esquerda, onde não há ninguém; e saúda tanto para um lado como para outro: abraça um homem que encontra no caminho e aperta-lhe a cabeça contra o peito; depois, pergunta quem é aquele que ele abraçou. Se alguém tem necessidade de seus serviços, em qualquer negócio fácil, e o vai procurar para lhe fazer seu pedido, Théognis ouve-o com todo o favor: está encantado em lhe ser útil em alguma coisa, incita-o mesmo a renovar as ocasiões em que lhe possa prestar serviço; mas, se o outro insiste no pedido que veio fazer, diz-lhe que desse não se pode ocupar e pede-Ihe que se ponha no seu lugar e seja juiz no caso: o cliente sai, levado para fora da porta, acariciado, confuso, quase contente por não ter sido atendido.
* É ter uma bem má opinião dos homens, e conhecê-los bom, afinal, acreditar que do alto de uma grande posição é fácil a qualquer impor-se ao respeito e à admiração dos outros com blandícias estudadas e com grandes e estéreis abraços.
* Pamphilo não dirige a palavra às pessoas com quem se encontra nos salões e nos palácios: a julgar pela gravidade e superioridade de sua voz, apenas recebe essas pessoas, dá-lhes audiência e logo as despacha; usa termos de grande civilidade, e ao mesmo tempo altaneiros, para dar a impressão de uma honestidade arrogante, empregada sem discernimento; cultiva, assim uma falsa grandeza, que o rebaixa a ele próprio c muito embaraça os amigos que não desejam ter de o desprezar.
Um Pamphilo é pessoa cheia de si, que nunca tira as vistas de si mesmo e nunca perde a idéia da sua grandeza, das suas alianças, do sou cargo, da sua dignidade: apanha, por assim dizer, todos os pedaços de que é feito, e junta-os a todos, para se fazer valer; diz, por exemplo, a minha Ordem, para se referir à ordem honorífica a que pertence, e diz o meu cordão azul, para se referir ao seu cozinheiro. Tudo expõe ou oculta por ostentação: um Pamphilo, numa palavra, quer ser grande, crê que o é, e não é, sendo apenas uma imitação. Se alguma vez sorri a uma pessoa humilde, a um homem de espírito, escolhe a ocasião de maneira que ninguém veja: coraria de vergonha se, por infelicidade, fosse surpreendido na menor familiaridade com alguém que não fosse nem opulento, nem poderoso, nem amigo de um ministro, ou, ao menos, seu associado ou seu doméstico. É severo e inexorável com quem ainda não fez fortuna, ou carreira: vendo-vos um dia, numa galeria, procurará evitar-vos mas, no dia seguinte, se vos encontrar em lugar menos freqüentado, ou, sendo o lugar freqüentado, em companhia de alguém de importância, enche-se de coragem e, dirigindo-se a vós, vos dirá: "Então ontem fez de conta que me não viu?" Umas vezes, estando convosco,vos deixará bruscamente para se dirigir a um grande senhor ou a um alto funcionário; outras vezes, estando os grades convosco, numa roda, chega, corta a conversa e sai com eles, deixando-vos só; se o abordais na rua, continua a andar, faz-se seguir, falando em altas vozes, de modo a chamar a atenção de quem passa: — os Pamphilos estão sempre em cena no palco de um teatro: pessoas que se alimentam do que é falso, e que nada odeiam mais do que o que é simplesmente natural, são verdadeiros personagens de comédia, como os Floridors e os Mondorys.
Nunca se acaba de falar sobre os Pamphilos: elos abaixam-se e são tímidos, diante dos príncipes e dos ministros, cheios de altura e de confiança, com os que nada têm além da virtude; mudos e embaraçados, com os sábios, e vivos, ousados e decisivos, com os ignorantes; falam de guerra a um homem de toga e de política a um financeiro; para as mulheres, são historiadores, para os médicos, poetas, e para os poetas, matemáticos: nunca se sobrecarregam com máximas, e muito menos com princípios; vivem à ventura, empurrados e levados pelo vento dos favores e pela atração das riquezas; não têm, é claro, opiniões próprias, e, quando precisam, pedem-nas aos outros, contanto que seja a alguém que valha a pena : nunca a um homem sábio, capaz ou virtuoso, mas a um homem que esteja na moda.
* Nós, em geral, temos dos grandes e das pessoas do posição um ciúme estéril, ou um ódio impotente, que não nos vingam nem de sua grandeza nem de seu esplendor, e que apenas vêm juntar à nossa miséria o peso insuportável da felicidade dos outros: que fazer contra uma doença da alma tão inveterada e tão contagiosa? Contentemo-nos com pouco, e com menos ainda, se nos for possível: sabendo perder, quando é a ocasião; esta receita é infalível, e eu próprio a uso, em meu proveito: evito assim a tentação de pôr do meu lado um porteiro de grande casa ou de subornar um fiscal; evito do mesmo modo o perigo de ser empurrado para fora da porta por uma multidão de pretendentes ou de cortesãos que se acotovelam nas antecâmaras de um ministro, a todas lis horas do dia, evitando assim esperar horas sem fim, e o espetáculo da minha humilhação para lhe pedir, tremendo e balbuciando, uma coisa justa, e o afrontoso espetáculo da sua gravidade e importância, de seu riso amargo e de seu laconismo; deste modo, nem mais tenho motivos para o odiar ou para ter inveja dele, e assim somos ambos iguais, talvez só com esta diferença: que ele não está tranqüilo, e eu estou.
* Se aos grandes não faltam ocasiões de nos fazerem algum bem, falta-lhes, porém, a vontade de o fazerem; e se é o caso que eles desejem fazer-nos mal, nem sempre encontrarão ocasião para isso: assim sendo, pode ser que nos enganemos na espécie de culto que lhes votamos, se o fundamos exclusivamente na esperança ou no temor, porque muitas vezes uma longa vida se termina sem que nada tenha havido, nem o menor interesse, que deles dependesse, e sem que a boa ou má fortuna dessa vida nada lhes devesse: devemos honrá-los, porque eles são grandes, e nós somos pequenos, e porque há outros ainda mais pequenos que nós, que também nos honram como sabem o podem.
* Na corte, na cidade, mesmas paixões, mesmas fraquezas, mesmas mesquinharias, mesmas falsidades do espírito, mesmas questões nas famílias e entre amigos, mesmas invejas e mesmas antipatias; por toda parte, noras e sogras, maridos e mulheres, divórcios, rupturas o reconciliações imperfeitas; por toda parte, maus humores, cóleras, parcialidades, intrigas, e más palavras; e, com um pouco de perspicácia, é fácil ver os defeitos cias pequenas terras e das ruas de bairro transportados para V.6 ou para F.7. Aqui, as pessoas julgam que se odeiam com mais orgulho e mais altura, e talvez com mais dignidade; prejudicam-se umas às outras com mais habilidade e mais finura; as cóleras são mais eloqüentes, e as injúrias que trocam entre si são mais polidas e em melhores termos: não é a pureza da língua que é ferida, mas as pessoas ou a sua reputação; todos os vícios conservam aí as aparências especiosas da virtude; mas o fundo, ainda uma vez, é sempre o mesmo que nas camadas mais baixas: tudo que é baixo, fraco e indigno se encontra aí, do mesmo modo; essas pessoas, grandes por seu nascimento, ou por seus privilégios, ou por suas dignidades, essas cabeças fortes e capazes, essas mulheres tão polidas e tão espirituais, todos, indistintamente, desprezam o povo, e são povo, afinal.
Quem diz povo, diz muitas coisas: é esta uma expressão muito vasta, e fará espanto ver o muito que ela abrange e até onde se estende o seu significado: há o povo que é o oposto dos grandes, e que é a populaça e a multidão; e há também o povo que é o oposto dos sábios, dos capazes c dos virtuosos, e, neste caso, tanto são povo os grandes como os pequenos.
* Os grandes governam-se pelo seu sentimento: almas ociosas, sobre as quais tudo faz, de princípio, uma grande impressão, se alguma coisa sucede, não falam senão disso, e falam demais, mas bem depressa começam a falar menos, e logo não falam mais, e mesmo nunca mais falam: a ação, conduta, trabalho, acontecimento, tudo é esquecido; não lhes peçam nunca nem correção, nem espírito de previsão, nem reflexão, nem reconhecimento, nem recompensa.
* Os juízos sobre certas pessoas vão aos dois extremos opostos; a sátira, depois de sua morte, é voz corrente entre o povo, ao mesmo tempo que nas abóbadas dos templos reboam os elogios fúnebres; muitas vezes, elas não merecem nem o libelo nem o discurso fúnebre: algumas vezes, porém, são igualmente dignas dos dois.
É melhor guardar silêncio sobre os poderosos; há quase sempre alguma lisonja em dizer bem deles; e há perigo em dizer mal, enquanto vivem, e covardia, depois que morrem.
1 Luís XIV teve conhecimento da morte de Louvois sem manifestar o menor sentimento, ainda que muito devesse ao zelo infatigável desse ministro.
2 É referência ao abade de Roquette, bispo de Autim, que tudo fez para se tornar o conselheiro de Jacques II, convertido ao catolicismo, destronado por Guilherme de Nassau e exilado em França.
3 Este nome, diz Boileau, em nota, na sátira do banquete ridículo, foi dado a três senhores que sempre discutiam sobre os vinhos dos "coteaux". ou colinas, que há à volta de Reims.
4 Alusão ao primeiro presidente de Harlay que, tendo recebido um Inflado de vinte e cinco mil libras, transportou-se para Fontainebleau, onde fez presente do dinheiro aos pobres em presença da corte.
5 Alusão ao "cabinet", lugar de Paris onde se encontravam as pessoas de bem para conversar. (Nota de La Bruyère).
6 Versnilles.
7 Fontainebleau.
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