Enfeites e adornos artísticos – História da Arte

Enfeites e adornos artísticos – História da Arte

HISTÓRIA DA ARTE DE ERNEST GROSSE (1893)

O ADORNO

CAPÍTULO V

Certa vez, Darwin presenteou um fueguino nu com um pedaço de pano vermelho. E, com admiração, viu que este, ao invés de usá-lo para cobrir o corpo, o desfez em pequenos pedaços, distribuihdo-os em seguida aos seus companheiros, que assim se puseram a adornar os membros gelados. Essa maneira de agir não é exclusiva dos fueguinos. Darwin também poderia ter verificado esse fato no deserto de Kala-hari ou na selva australiana. Com exceção dos esquimós, que não poderiam viver sem vestuários completos, todos os povos caçadores mais se enfeitam que se vestem. Com propriedade poder-se-ia aplicar aos australianos, mincópios, bosquímanos e botocudos o que Cook dizia outrora dos fueguinos: "They are contet to be naked but ambitious to be fine" contentam-se com andar nus, mas ambicionam embelezar-se.

Os historiadores da civilização que, pela vulgarização científica, se põem a mostrar às pessoas instruídas de todas as classes os esplêndidos progressos que realizamos, acentuam a desproporção entre as vestes e os ornamentos, considerando-a como uma prova risível da ingenuidade dos selvagens, que ainda não sabem distinguir entre o supérfluo e o necessário. Essa prova encerra, na verdade, um defeito apenas: prova um pouco de mais. Se os selvagens fossem realmente grandes crianças ingênuas, como se pretende, como compreender-se que ainda vivam? Há muito deveriam ter perecido "para dar um exemplo a todos os demais povos melhor dotados". Criaturas que ignoram as próprias necessidades podem viver alguns dias apenas. Entretanto, os primitivos existem há milhares de anos, apesar da sua falta de roupas e de sua abundância de adornos. E, contudo, os povos superiores longe estão de facilitar-lhe a existência. Ou os povos primitivos não têm o direito de viver, ou os historiadores civilizados não sabem distinguir entre o necessário e o supérfluo. É possível que o adorno não seja para o selvagem coisa tão supérflua quanto o julga o senso prático do século XIX. Talvez lhe seja tão indispensável, quanto para nós as vestes.

Antes, porém, de apreciar o valor do adorno primitivo, devemos aprender a conhecê-lo. Distinguiremos entre o adorno lixo e o adorno móvel. Designaremos com o primeiro todas as transformações duradouras do corpo, como as cicatrizes, a tatuagem, a perfuração do septo, dos lábios e das orelhas. O adorno móvel fixa-se no corpo por determinado tempo apenas e consiste em fitas, cintos, anéis, argolas, fivelas, que constituem a propriedade preciosa dos primitivos. Antes de tudo, estudaremos a forma mais simples do adorno móvel, isto é, a pintura. A nosso ver, esta não é somente a forma mais primitiva do adorno, porque mantém relações de causa e efeito com o adorno fixo.

Os povos mais primitivos pintam-se quase todo o corpo. Só os esquimós não o fazem, porque sempre trazem o corpo inteiramente coberto, pelo menos logo que saem de suas cabanas.

O australiano leva sempre no seu saco uma provisão de argila branca e de ocre vermelho ou amarelo. Para a vida quotidiana, contenta-se com algumas manchas no rosto, nos ombros e no peito. Nas solenidades, besunta todo o corpo1. Não há, na vida dos australianos, acontecimento importante que não seja assinalado por certa pintura do corpo. Só depois de sua iniciação, o adolescente australiano pode pintar-se, pela primeira vez, de branco ou de vermelho. Daí em diante passa a fazer parte da comunidade dos homens2. Os adultos que assistem a essa cerimônia cobrem igualmente o corpo de desenhos vermelhos e brancos. Quando partem para a guerra, pintam-se de diversas cores. É provável que não se escolham as cores "ad libitum", mas regras fixas determinam o emprego de uma ou de outra. Entretanto, a distribuição das cores no corpo e os desenhos são de livre escolha de cada guerreiro3. Em uma batalha em Macleay Ri-ver, a que Hodgkinson assistia, um dos combatentes havia feito riscos vermelhos no corpo4. Efetivamente, o vermelho é a cor de guerra da maioria das tribos. Somente no norte e no oeste os guerreiros empregam a cor branca5. Mas, é para as grandes danças que o australiano se adorna mais e melhor. "Para a festa, diz Lumholtz, os indígenas de Queensland, decoram todo o corpo ou, pelo menos, uma parte dele, de vermelho e amarelo. Às vezes, empregam uma mistura de carvão pulverizado e gordura, como se já não fossem bastante negros6". "As órbitas dos que dançam, diz Thomas em sua descrição de um grande corro-bori realizado em Vitória, são rodeadas de círculos brancos. Ao longo do nariz, linhas brancas, e, na testa, linhas paralelas. As linhas no corpo são fantásticas, observando-se aí, entretanto, uma certa ordem7. Por ocasião do corrobori ordinário, os dançarinos australianos pintam-se quase sempre de branco. Para outras danças, outras cores. "Quando se dança a Palti, usa-se o vermelho e branco. Quando os indígenas de Moorude dançam a Pideku, fazem apenas riscos de ocre preto. Para a dança da canoa, untam o corpo com argila branca ou ocre vermelho8. A pintura vermelha, característica da entrada para a vida, é também utilizada para a morte. Os Narrinyeri pintam de ocre graxo vermelho os corpos de seus mortos,J. Esse uso acha–se provavelmente muito difundido, porque H. E. Meyer o observou também entre as tribos de Encounter Bay. Na Austrália do norte, pintam-se os ossos do cadáver putrefato, e os levam consigo durante muito tempo, como sinal de recordação10. No continente inteiro, enfim, os habitantes se pintam em sinal de luto. As cores do luto da Austrália diferem das da Europa tanto quanto a cor da pele dos indígenas de ambos os continentes. O europeu, que é branco, veste-se de preto. O australiano, que é negro, enfeita-se com argila branca. Em algumas tribos, as mulheres cobrem também a cabeça com uma carapuça de argila branca, untam todo o corpo, ao passo que os homens pintam somente o rosto ou o dorso11. Como dissemos, a cor do luto é o branco, mas empregam-se também outras. Os indígenas do estreito de King George, por exemplo, fazem manchas negras e brancas na testa, na fronte e nas maçãs do rosto. Os Diyeri revestem o corpo de manchas vermelhas e brancas. Entretanto, essas diversas cores não se usam indistintamente, conforme se verificou. Pelo menos em alguns casos. Segundo as pesquisas de Schuermann, pinta-se de branco, se o morto for parente próximo, e de preto, se se trata de um parente por aliança.

Os tasmânios não se distinguem essencialmente dos australianos, no que se refere ao emprego da .pintura. O que nada tem de surpreendente, porque se trata de povos vizinhos, parentes pela civilização e pela raça. Mas, o espirito do observador confunde-se, quando encontra os mesmos usos nas ilhas Andamã. Essa analogia entre os mincópios e os australianos não passa, porém, da primeira de uma série muito longa. Certo, faz-se mister acautelar-se do engano habitual dos etnógrafos que pretendem ver nessas analogias provas de antigas relações entre ambos os povos. Mas, são tão numerosas e coincidem em tantos pontos que nos é quase impossível acreditar se tenham desenvolvido esses povos um à parte do outro. "Os mincópios empregam três cores na pintura do corpo. Pela maneira por que se pintam pode verificar–se imediatamente se o indivíduo está doente ou triste ou se vai a uma festa"12. Entretanto, não existe aqui diferença entre os homens e as mulheres, como observamos entre os australianos. Somente os celibatários de ambos os sexos não podem pintar o pescoço. A primeira das três cores dos habitantes de Andamã é uma argila de cor oliva pálida que, dissolvida em água, se emprega em todo o corpo, como luto. Usa-se também a carapuça de argila que já mencionamos, em referência aos australianos. Essa carapuça tem ainda fins práticos, como, por exemplo, depois da caça ou da dança, quando se sente calor. A segunda cor, argila branca, emprega-se unicamente como adorno. Com ela, as mulheres e os homens se preparam para as festas, desenhando com a unha do dedo indicador linhas retas no rosto, no tronco e nos membros. A terceira cor, mescla de ocre amarelo queimado a graxa, serve principalmente para adornar. Amiúde, utiliza-se como remédio, "nunca, não obstante o que se tem dito, para proteger a pele contra picadas de insetos". Quando se emprega o ocre amarelo como adorno, fazem-se com ele desenhos que não passam de riscos e linhas em zigue-zague. À semelhança do que ocorre na Austrália, os mortos das ilhas Andamã são revestidos da cor que eles apreciavam em vida. Pintam-se os cadáveres de ocre amarelo13.

A pintura corporal dos bos-químanos, ao contrário, é muito uniforme. Pintam-se o rosto e os cabelos de ocre vermelho.

Entre os fueguinos encon-tra-se uma variedade relativamente grande de cores e desenhos. O vermelho é a cor favorita. Citam-se ainda o preto e — mais raramente — o branco. Cook diz: "Traziam pintada de branco a região ocular. O resto do rosto era ornado com riscos verticais pretos e vermelhos"14. Em outra passagem, menciona dois homens "que haviam adornado o corpo com riscos negros, entrecruzados em todos os sentidos". Giacome Bove esclarece-nos mais exatamente acerca dos desenhos geralmente empregados: "Levavam amiúde riscas paralelas, de cores diferentes que atravessavam o rosto, linhas curvas nas faces e no nariz, e os mais estranhos de-senhos no peito e nos braços"15.

Os botocudos possuem uma cor a menos que os fueguinos. Falta-lhes o branco, mas as duas outras cores produzem muito efeito: um vermelho amarelado vivíssimo, de ori-gem vegetal, e um preto azulado, muito escuro. "Empregam o vermelho, que facilmente se destaca da pele, diz o príncipe de Wied, sobretudo para pintar a parte superior do rosto, a partir da boca, o que lhes dá um aspecto muito selvagem. Habitualmente, untam todo o corpo de preto, com exceção do rosto, do ante-braço e dos pés, a partir da barriga das pernas, separando a parte decorada da outra, por meio de um risco vermelho. Outras vezes, dividem o corpo em duas partes, pintando uma de preto e deixando a outra em estado natural. Outras vezes ainda, pintam somente o rosto de vermelho. Apenas essas três espécies de pintura encontrei entre eles. Se se cobrem de preto, fazem ainda habitualmente um risco preto que vai de uma orelha à outra e atravessa como um bigode o vermelho do rosto"16. Infelizmente, o príncipe nada diz acerca da significação dos diversos desenhos.

Ressalta claramente de nossa descrição que essas pinturas aplicadas ao corpo visam, antes de tudo, um fim estético. Não são absolutamente, como se pretendeu algumas vezes, uma espécie de vestuário primitivo17. Estamos, pois, plenamente autorizados a estudar, antes de tudo, a pintura do corpo do ponto de vista estético. 

O número das cores de que dispõe o adorno primitivo não é grande. Citam-se no máximo quatro cores, das quais uma só, o vermelho, se encontra em toda parte.

O vermelho, sobretudo o vermelho amarelado, é a cor predileta dos primitivos, como de quase todos os povos. Basta observar as crianças para nos convencermos de que pouco mudou o gosto, nesse aspecto. De fato, é o vermelho que se gasta mais depressa em suas caixas de cores e, quando falam de uma cor, pensam quase sempre no vermelho. Os próprios adultos raramente resistem ao encanto do vermelho, apesar do enfraquecimento de nossa sensação das cores. Goethe expressa certamente um sentimento geral, ao falar, em sua "Farbenlehre", da força excitante do vermelho amarelado18. É por essa razão que o vermelho tem sempre desempenhado um importante papel na "toilette", principalmente na dos homens. O hábito que tinham os generais romanos vitoriosos de se pintar de vermelho desapareceu com a república romana. Mas, até o século XVIII o escarlate foi a cor preferida na "toilette" de gala dos homens19 e, em nossos dias, o vermelho ocupa lugar de honra nos exércitos europeus, apesar do emprego de armas de longo alcance. Seria interessante saber se o efeito dessa cor é imediato ou conseqüência de certas associações. O vermelho atrai muitos animais, da mesma forma que aos homens. Qualquer criança sabe que um pedaço de pano vermelho excita grandemente os touros e perus, e todos os zoólogos observaram a freqüência da cor vermelha nos órgãos sexuais secundários, tais como as calosidades vermelhas do pavão, a crista escarlate do galo, bem como a crista vermelha amarelada no dorso de certas salamandras. Esses fatos parecem demonstrar peremptoriamente que o efeito do vermelho é imediato. De outra parte, é indubitável que o efeito direto dessa cor aumenta no homem em virtude de determinadas associações com ressonância emotiva. Mas, um fato sobretudo nos parece importante: o vermelho é a cor do sangue que, em regra geral, o homem vê durante as maiores excitações, como no combate e na caça. Em segundo lugar, é preciso ter em conta as representações ligadas ao uso da cor, isto é, recordações de danças e de combates. Apesar de tudo, o emprego do vermelho ter-se-ia provavelmente difundido menos entre os primitivos, se não fosse encontrado com tanta facilidade em todo lugar. É provável que o primeiro vermelho com que o homem se tenha pintado seja o sangue da caça ou do inimigo2". Atualmente, pinta-se em quase toda a parte de ocre vermelho, que se encontra com muita freqüência, e as tribos que não o têm em suas regiões, obtêm-no pela broca. Os dyeries da Austrália empreendem expedições de vários meses para renovar suas provisões de vermelha, com o que provam o grande apreço que têm por essa cor. — Todas is considerações fazem-nos compreender porque o vermelho ocupa o primeiro lugar entre as cores utilizadas na pintura do corpo. É de tal modo considerável e de fácil compreensão o valor estético do vermelho que não há necessidade de atribuir-lhe uma hipotética significação religiosa para explicar seu emprego universal21.

O amarelo, de igual importância, emprega-se também do mesmo modo. Nas ilhas Anda-mã, ocupa o lugar do vermelho: o emprego do amarelo entre os mincópios tem o mesmo fim que o vermelho entre os australianos22. No adorno, estes usam quase indiferentemente essas duas cores e, se o amarelo é relativamente pouco empregado no sul do continente australiano, é somente porque o ocre amarelo aí é raro, verificando-se mesmo completa falta em alguns lugares. Entre os bosquimanos, fueguinos e botocudos, a ausência da cor amarela na pintura do corpo prende-se provavelmente a outra causa. Sabemos, pelo menos de certo modo, que conhecem o ocre amarelo e que o empregam nas pinturas em rochas. Se dele não se servem para o embelezamento do corpo, é porque essa cor não ressaltaria suficientemente em sua pele amarela. Provavelmente, dá-se o mesmo com os botocudos e fueguinos que antes mereceriam o nome de pe-le-amarela que o de pele-ver-melha.

A influência da pigmentação da pele na escolha das cores ornamentais torna-se mais frizante, ao estudarmos o uso da cor branca, que se observa tanto quanto o do vermelho, mas somente entre os australianos e os mincópios, que são negros. Sua ausência é total ou quase total entre os povos de pele mais clara, como os fueguinos. O vermelho e o amarelo são quase exclusivamente cores ornamentais. Mas o branco tem dois objetivos. De início, estudá-lo-emos como cor ornamental para as solenidades. Os australianos e os min-cópies traçam na pele riscos de argila branca, por duas excelentes razões: nenhuma outra cor ressaltaria tanto os desenhos e a cor escura da pele, de que as raças negras são tão ciosas quanto as brancas, das suas. Esses riscos brancos dos australianos e mincópios são como as "moscas" "sinal que se faz no rosto), que as senhoras do passado punham nas faces pintadas de branco. É verdade que os europeus não acham muito bonitas tais pinturas. Bulmer acredita que os dançarinos do corrobori "pretendiam aparentar um aspecto terrível". Acentuavam cada costela com uma linha de argila branca e desenhavam nos braços, nas pernas e no rosto riscos brancos, de sorte que adquiriam o aspecto de esqueletos vivos, quando observados à luz vacilante do fogo do acampamento23. Resta saber se os dançarinos tinham a intenção de assumir esse aspecto terrível e se os riscos do esqueleto produziam na realidade em seus companheiros a impressão macabra que causavam ao europeu, em quem o fenômeno se verificava mais em virtude de certas associações do que devido ao aspecto direto do esqueleto. É verdade que a maioria dos autores admite que tais associações se dão tanto no australiano quanto no europeu civilizado. Nada, porém, nos autoriza a concluir que realmente assim seja24. Até a prova em contrário, preferimos uma explicação menos fantasista. O corrobori australiano dança-se principalmente à noite. O local da festa é iluminado pela fogueira e, amiúde, também pelo luar. Mas, a luminosidade é tão fraca que apenas se vêem os movimentos dos dançarinos sem suas listas brancas que absolutamente não imitam os ossos do esqueleto, mas põem em relevo as linhas principais do corpo. $ estranhável que entre os australianos e os mincópios a cor branca não seja somente a da alegria e das festas, mas também a do luto. É verdade que em geral se distinguem facilmente as pinturas demonstrativas de alegria das que representam luto. Esta é simbolizada por uma camada uniforme de cor branca que cobre o corpo inteiro, enquanto a alegria se exprime por desenhos. Na Austrália, onde sempre o indígena se reveste de desenhos para entregar-se à dança, unta-se o corpo inteiro em caso de luto (pelo menos em algumas tribos). Em outros casos, os sobreviventes fazem no corpo certas figuras que em geral indicam o grau de parentesco entre o morto e a pessoa de luto25.

Mas por que os australianos e mincópios escolhem justamente a cor branca em sinal de luto? Se se estuda a pintura fúnebre, tem-se a impressão bem nítida de que deve, antes de tudo, tornar irreconhecível28. "Esse costume, diz Joest, talvez se explique simplesmente pelo medo que os vivos têm das almas errantes dos mortos. Para fugir às perseguições dos espíritos maus, os homens procuram desfigurar-se, pintando–se de uma cor que não lhes é muito familiar". A explicação de Joest é puramente hipotética, mas possui certo grau de verossimilhança. Podemos adotá-la até o momento em que será substituída por outra melhor.

Referindo-se aos habitantes do Queensland, diz Lumholtz que se pintam às vezes todo o corpo com uma mistura de carvão em pó e gordura, "como se já não fossem bastante negros". Com efeito, os negros não se julgam suficientemente pretos, como ocorre entre nós, cujas mulheres com freqüência pensam não ser bastante brancas. Assim como estas aumentam a interessante palidez de sua pele, por meio de pó e outras substâncias brancas, os australianos procuram acentuar o encanto de sua pigmentação negra, revestindo-a de carvão em pó. Alguns europeus acham mesmo que essa pintura negra não produz efeito desagradável. Mais de um viajante já exaltou a bela e profunda nuança, de reflexos metálicos, que dá à pele dos indígenas. É evidente que para os americanos bronzeados, a cor negra possui significação diversa da que tem para os australianos. Para aqueles, o negro azulado representa provavelmente o mesmo valor que o branco para os negros: é a pintura que melhor ressalta a cor da sua pele.

Se estamos relativamente bem informados acerca das cores da cosmética primitiva, não podemos dizer o mesmo em relação aos desenhos. A descrição pormenorizada dos desenhos dos botocudos, que devemos ao príncipe de Wied, constitui uma exceção em nossa literatura etnográfica. A maioria dos viajantes pensa ter dito tudo, ao registrar que os desenhos são "fantásticos", "estranhos" ou "notáveis". Também é difícil vê-los de modo claro e completo nas ilustrações dos livros, principalmente nas fotografias. Nessas condições, não nos é possível externar uma idéia positiva sobre sua significação. Tais desenhos foram inventados em todas as suas partes ou são imitações de certos objetos que serviram de modelo? É impossível provar uma ou outra hipótese. Entretanto, há razões que nos levam a acreditar ter a imitação desempenhado grande papel na evolução da pintura cosmética. Antes de tudo, adiantemos que a invenção é muito rara em todo domínio da arte primitiva. Em toda parte, ao contrário, vê-se que o artista imitou, em seus ornamentos e nas demais criações artísticas, modelos que lhe oferecia a vida de todos os dias. Quando estudarmos os ornatos dos utensílios, veremos que os desenhos com que os australianos enfeitam suas capas, seus escudos e bastões e que amiúde se assemelham aos desenhos da pintura corporal, não passam, em última análise, de imitações estilizadas de figuras animais. A idéia de disfarçar-se em animais, pelo emprego de uma pintura apropriada, não deve ser muito estranha aos povos caçadores que veneram, em geral, em certos animais, os deuses protetores de seus clãs e que gostam de imitar a mímica de certos bichos. De resto, conseguimos encontrar pelo menos um caso em que o desenho aplicado no corpo representa, sem dúvida, um animai. Howitt menciona, na sua descrição da iniciação dos jovens de Gippsland, que os Bullera-wreng (padrinhos) pintam as figuras dos Zerryale (candidatos), com a argila de fazer cachimbo e isso de modo a torná-los parecidos com um pato: fazem-lhes um círculo branco em volta dos olhos e um risco branco que atravessa as maçãs do rosto ou as sobrancelhas"27.

Naturalmente, não pensamos ser preciso interpretar todos os desenhos, sem exceção, como imitações de animais. A pintura de luto, por exemplo, não possui, provavelmente, outro fim, senão o de desfigurar, sem visar, porém, uma parecença com qualquer animal. Um guerreiro botocudo por exemplo, que reveste metade do corpo de azul-escuro, não imita certamente nenhum objeto natural, mas apenas adquire um aspecto estranho para assustar seus inimigos.

O adorno do corpo por meio da pintura encerra evidentemente um grave defeito, que é o de ser pouco sólido. Procuraram-se, então, meios de aplicar esses desenhos de modo mais durável na pele. Os povos mais primitivos conseguiram encontrar dois principais: a escarificação e a tatuagem. A distribuição étnica desses dois métodos depende, por sua vez, da cor dos povos em questão.

Os bosquimanos amarelos e os esquimós cor de cobre se tatuam. Os australianos e os mlncópios, que são negros, limitam-se a praticar cicatrizes.

Será inútil dar uma definição do que entendemos por escarificação, pois o termo é assaz claro. Fazem-se incisões na pele, em diversos lugares, com uma lasca de sílex, concha ou outro objeto cortante primitivo. Cicatrizadas as feridas, surgem saliências claras sobre o fundo escuro da pele. Algumas tribos australianas ampliam as cicatrizes, aplicando, durante algum tempo, argila nas feridas recentes28. Outras tribos do norte e noroeste, as esfregam com suco de plantas frescas29. As diferentes tribos do continente australiano provocam cicatrizes em diversas partes do corpo. Umas, no dorso, outras, nos braços, no peito, no baixo-ventre, nas coxas. Em ambos os sexos observa-se essa prática, em geral, porém, mais nos homens que nas mulheres. Pontos, linhas retas ou curvas que se estendem às vezes sobre todo o peito, constituem esses desenhos30. Nas vizinhanças do estreito de Towes, os homens apresentam em cada ombro uma larga cicatriz em forma de ferradura, que recorda um pouco as dragonas dos oficiais europeus. A operação de escarificação faz parte das cerimônias realizadas na época da puberdade. Entretanto, é muito dolorosa e fatigante para poder ser executada de uma só vez. Mais tarde, é retomada, com diversos • intervalos. Somente nos indivíduos de certa idade se encontram desenhos completos. "As linhas, diz Lumholtz, referindo-se aos habitantes do Queensland, indicam sempre certa categoria, que depende da idade do indivíduo. Não se praticam cicatrizes nos rapazes, enquanto não atingirem determinada idade. Mais tarde, traçam-se–lhes algumas linhas ao longo do peito e do estômago. Pouco a pouco, aumenta-se o número dessas linhas e, já próximos da puberdade, se lhes faz uma incisão em forma de meia-lua ao redor de cada mamilo"31. No sudeste, designam-se as diferentes idades segundo o número de cicatrizes. Para os adultos, existiam cinco graus de escarificação32.

Os próprios tasmânios parece que se submeteram todos a essa operação. Cook refere-se às linhas pontilhadas que levavam no peito e nos braços.

Bonwick diz que as cicatrizes têm a forma de uma estrela. Também as mulheres apresentavam cicatrizes em semi-cír-culo no ventre33.

Nas ilhas Andamã todas as tribos e todos os clãs conhecem esse costume. Com a diferença, entretanto, de que se começa e termina a operação em idade mais nova que na Austrália. "Raras são as crianças que não apresentam cicatrizes depois dos 8 anos. Mas a operação não se conclui senão aos 16 ou 18 anos". Não há festa particular, nessa ocasião, como na Austrália. São as mulheres — salvo em algumas tribos do norte — que se incumbem da operação, servindo-se, para isso, de uma lasca de quartzo. Provocam-se cicatrizes de preferência nas costas e nos ombros, na parte superior do externo, no peito, nas ilhargas, no ventre, no dorso das mãos e dos pés. É sempre um homem um amigo que faz a incisão das linhas nas costas. Esses desenhos são muito simples, consistindo, em todas as tribos, em linhas curtas horizontais ou verticais, dispostas em séries. Só a ordem e o número de séries diferem entre algumas tribos34.

 

Um europeu, a quem se depara pela primeira vez um australiano ou um mincópio com o corpo retalhado de cicatrizes, de início sente alguma pena ao pensar que elas devem servir de adorno, porque antes repugnam que agradam. Esse desagrado explica-nos porque se tem pretendido que as cicatrizes devam desempenhar, não um papel estético, mas religioso, secreto. É principalmente Gerland que defende essa opinião, vendo na cicatriz, como também na tatuagem, uma marca de propriedade que se faz no corpo para indicar o deus a que se devota33. Não nos é possível estudar aqui de modo geral as cicatrizes e a tatuagem. Interessa-nos somente saber se entre os australianos e os mincópios, isto é. nos povos menos civilizados, essas cicatrizes encerram uma significação estética ou religiosa. Gerland encontra uma prova para sua alegação uma legenda, segundo a qual "Um fantasma teria ensinado aos homens a arte de fazer cicatrizes em si próprios, depois do que se teria transformado em um grande canguru"38. Entretanto essa legenda, cuja idade e procedência geográfica desconhecemos, não fala de um deus, mas sim de um fantasma. Tampouco exprime a significação das cicatrizes. Se fôssemos

obrigados a concluir daí que a introdução, num povo primitivo, de uma arte técnica se atribui a um fantasma, a uma significação religiosa primitiva dessa arte, estaríamos igualmente autorizados a reconhecer uma significação religiosa na arte de produzir fogo, porque também esta foi ensinada aos homens por seres sobrenaturais, como o atestam numerosas tradições australianas. Nas ilhas Andamã, também há um mito sobre a origem da arte de fazer cicatrizes. "Maia Du-ku, que parece ser idêntico ao antepassado mítico dos mincópios, é considerado o primeiro que assinalou o corpo com cicatrizes. Um dia, quando pescava, lançou uma flecha que, errando o alvo, foi dar em um objeto duro: o primeiro pedaço de ferro que se descobriu. Du-ku construiu com ele uma ponta de flecha, tatuou-se com ela e cantou em seguida: "Quem será capaz agora de me bater? Estou tatuado, estou tatuado"37. Verifica-se que a legenda andamã fala ainda menos que a australiana em favor da teoria de Gerland. Aqui o inventor não é nem um deus, nem um fantasma, mas simplesmente o primeiro mincópio. Nada nos faz supor, além disso, que se tenha cortado com sua flecha para assinalar uma marca de propriedade divina. Se, em seu canto, atribui um poder protetor às cicatrizes, podemos interpretá-lo muito naturalmente no sentido de que um homem, que revela sua coragem, praticando no próprio corpo feridas dolorosas, não teme nenhum inimigo. Efetivamente, os mincópios consideram a tatuagem como um meio "de pôr à prova a coragem e a resistência de um homem"38. Gerland baseia-se também nas cerimônias39 que acompanham a operação da tatuagem. Nada existe de semelhante, todavia, nas ilhas Andamã. E na Austrália essas cerimônias têm menos caráter religioso que social. Como as conhecemos, as solenidades de iniciação assinalam menos a união do adolescente a uma divindade que sua admissão entre os adultos. O que é suficiente para explicar-nos porque se submetem, em tais ocasiões, as pessoas jovens à operação de que falamos. Esta tem dois fins: pôr à prova a coragem do noviço e marcar, por assim dizer, sua nacionalidade, mediante um sinal indelével. É verdade que Gerland não nega serem as cicatrizes em geral "marcas de família ou de tribo", sustentando, porém, "que isso prova precisamente que outrora eram marcas religiosas"40. Confessamos não entender inteiramente essa conclusão. Sem dúvida, é possível que uma tribo escolhesse para marca distintiva um símbolo religioso qualquer mas ninguém, e muito menos Gerland, demonstrou até agora que o mesmo ocorria em todas as tribos. Ademais, não nos convence outro fato, citado por Gerland e segundo o qual "Perron teria descoberto num túmulo tasmânio desenhos idênticos aos que eram empregados pelos indígenas para cobrir o antebraço, o que prova que aqui também a tatuagem só tem por objetivo colocar no corpo do homem a imagem de seu deus"41.

É uma prova estranha. Não compreendemos porque não seria possível colocar no túmulo de um homem um sinal de tribo ou nome destituído de caráter religioso. Nada demonstra, tampouco, que os pontos e linhas com que os tasmânios tatuam o antebraço sejam a imagem de seu deus protetor. Portanto, são fracas as provas de Gerland, no que se referem aos povos mais inferiores. Além disso, há fatos que contradizem sua teoria. Gerland admite que essas cicatrizes são amiúde "sinais de família ou de tribo". Poderia apelar para o testemunho dos melhores conhecedores e observadores da vida australiana, os quais estão de acordo em atribuir o caráter de marca de tribo pelo menos a uma parte dãs cicatrizes42. Em alguns casos isolados, as marcas de tribo podem encerrar igualmente uma significação religiosa. Mas não é possível comprová–lo. Ainda que Gerland o tivesse conseguido, estaríamos, contudo, autorizados a considerar primeiramente todas as cicatrizes dos australianos e mincópios como ornamentos. Um sinal de tribo ou um símbolo religioso pode ser ao mesmo tempo um ornamento. Os mais diversos observadores sustentam que, se algumas cicatrizes ou grupos delas servem de marcas de tribos, a maioria possui, porém, uma significação puramente estética. Que a importância estética esteja acima da social no-lo prova também o fato de vários observadores negaram inteiramente que as cicatrizes pudessem ter a menor significação social43. Contudo, a maioria dos observadores compreendeu perfeitamente as relações entre as diversas marcas de significação social e estética. Wilhelmi, por exemplo, na descrição de uma cerimônia de iniciação nas tribos de Porto Lincoln, distingue as marcas dos ombros e do pescoço, que assinalam a entrada do jovem na tribo, das incisões no peito e nos braços, "que servem unicamente de ornamentos"44. Entre os habitantes do Queensland, essa diferença expressa-se igualmente de maneira clara. Depois de descrever-lhes as marcas sociais, acrescenta Lumholtz: "Ao lado dessas cicatrizes, indicativas de sua dignidade, o homem faz outras nos braços, as quais servem apenas de adorno. Consistem em linhas curtas paralelas, dispostas em grupos, nos braços, e que se não distinguem muito porque as feridas se fecham ao curar–se. Às vezes, fazem também incisões nas costas e omoplatas, mas nunca foram vistas no rosto. Só os homens apresentam essas cicatrizes, que são proibidas às mulheres. De um modo geral, julga-se inconveniente que as mulheres se adornem. Devem antes contentar-se com algumas incisões no peito, nas costas e nos braços, e atribuem muito valor a esses ornamentos. Apesar de sua grande sensibilidade, suportam qualquer dor, desde que se trate de embelezar-se45. Uma observação de Eyre, que assistiu a uma jovem submeter-se à operação sem qualquer cerimônia, demonstra que não são apenas as mulheres do Queensland que vertem seu sangue em honra da moda. "Apesar das torturas atrozes, diz ele, as jovens, sem exceção, desejam que se lhes façam tais desenhos, porque as costas cobertas de cicatrizes oferecem grande encanto". Enfim, Brough Smyth resume as numerosas informações que recolheu para escrever seu livro, dizendo: "Embora as cicatrizes sirvam indiscutivelmente de marcas de tribos, suporta-se a dor que provocam mais por vaidade que por qualquer outra razão"46. No que se refere aos mincópios, Man, que viveu longos anos entre eles, diz que "as cicatrizes são, antes de tudo, um ornamento"47. É evidente que Gerland, o homem que melhor conhece a literatura etnológica, não ignora essas opiniões que para a maioria exprimem o próprio pensamento dos povos em questão. Entretanto, pensa refutá-las, afirmando que a significação original poderia ter sido esquecida pelos indígenas48. É possível, mas não se trata de averiguar aqui se esse esquecimento pode ter-se verificado, mas se realmente se verificou. Enquanto não se comprovar esse fato, não temos o direito de duvidar das explicações formais dos indígenas, sob o pretexto de que contrariam as hipóteses forjadas em nossos gabinetes de estudos.

Já dissemos que um europeu dificilmente compreenderia O’ prazer que experimentam os australianos e mincópios em face das próprias cicatrizes. Entretanto, não há esquecer que também entre nós o gosto sofreu transformações consideráveis e muito rápidas. Esperamos que as gerações futuras contemplem, com o mesmo horror que nos causam as cicatrizes dos caçadores primitivos, os talhos de vespa e os pés estropiados de nossas mulheres. Tentou-se eliminar o contraste entre o gosto dos povos primitivos e o dos civilizados, através da hipótese de que os australianos não admiravam as próprias cicatrizes pela sua beleza, mas porque eram sinal de coragem e de constância da parte de quem as possuísse. Entretanto, basta lembrar que também se admiram essas cicatrizes nas mulheres, das quais não se exige a coragem que distingue os homens. Portanto, praticam-se essas cicatrizes, em sacrifício à beleza. Além disso, um europeu é capaz de sentir a atração estética das cicatrizes, se observar os bonitos desenhos que cobrem a pele dos indígenas da bacia do Congo, particularmente dos Bakuba e dos Baluba. É verdade que na Austrália e nas ilhas Andamã tais desenhos são muito simples e grosseiros para que um europeu possa vencer sua aversão a tais práticas, mas entre eles já se nota um esforço artístico. Na distribuição dos pontos e linhas da tatuagem sobre o corpo não há mesmo ausência de uma certa ordem. Ao contrário, esforça–se para dar-lhes uma certa simetria e ritmo. Acerca do sentido dos diversos desenhos, infelizmente nada sabemos que possa falar em favor ou contra a hipótese de Gerland, segundo a qual teriam sido primitivamente representações dos deuses protetores.

As cicatrizes só se encontram nos povos de cor, porque é o fundo escuro que lhes dá realce. Pela mesma razão, a tatuagem só é praticada pelos povos de pele clara. Se quisermos limitar nossas palavras aos povos mais primitivos, devemos dizer que apenas os bos-quimanos e os esquimós a empregam. A operação da tatuagem consiste na introdução subcutânea de uma cor — na maioria dos casos carvão pulverizado. Depois da cicatrização das feridas, o desenho transforma-se em azul-escuro indelével. A tatuagem permite muito maior variedade de desenhos que a escarificação, atingindo assim alto grau de perfeição nos diversos povos civilizados, como, por exemplo, entre os japoneses. Quanto aos caçadores primitivos, contentam-se com desenhos que não superam muito o valor estético das cicatrizes de que tratamos.

Os desenhos de tatuagem dos bosquimanos assemelham–se em tudo às cicatrizes dos mincópios. Os exemplos que Tarini observou consistiam em linhas curtas e retas nas faces, nos braços e nos ombros. Vir-chow encontrou os mesmos traços formando séries paralelas em alguns indivíduos que havia estudado em Berlim49. Até o momento, ignoramos completamente sua significação.

Nas mulheres dos esquimós, encontram-se desenhos um pouco mais artísticos. Dizemos nas mulheres, porque — fato estranho — sendo a tatuagem em regra geral um privilégio dos homens, é, entre os esquimós, um privilégio das mulheres. As meninas tatuam-se aos 8 anos. Faz-se a operação com um instrumento de ponta, como na Polinésia, ou com um fio que se passa através da pele. Emprega-se como tintura a fuligem ou a pólvora, sobretudo há algum, tempo. Geralmente tatuam-se a cara, os braços, as mãos, as ancas e os seios. Em sua obra, Boas reproduz alguns desenhos dessas tatuagens que são, na sua opinião, assaz uniformes em seus traços essenciais50. Na testa, duas linhas oblíquas imitam as sobrancelhas. Duas outras, partes das narinas, atravessando as faces e outras se traçam em baixo da boca, em forma de leque no queixo. O que dá a impressão de ter sido feito para imitar a barba dos homens. Nas mãos e nas pantorrilhas fazem-se linhas e séries de pontos paralelos, separados às vezes por uma linha em ziguezague ou por uma série de pequenos quadrados. Ignoramos a significação desses desenhos. A julgá-los pelo aspecto, poder–se-ia tê-los como imitação de um bordado51. Ao contrário, porém, sabemos com toda a certeza que a tatuagem, entre os esquimós, é ornamento. Cranz já mencionou em sua "Historie von Grönland" que as mães tatuam as filhas em boa hora, "com receio de que não encontrem marido". Não há qualquer contradição entre as palavras de Cranz e as de Arms-trong, que diz que "os desenhos de tatuagem servem também para distinguir as diversas tribos e castas". "Em algumas tribos, as mulheres das classes baixas (isto é, provavelmente das classes pobres), não podem enfeitar o queixo, senão com uma linha vertical no meio e duas laterais, ao passo que as mulheres das classes superiores traçam duas linhas a partir de cada canto da boca"52. Também na Europa certas jóias representavam outrora emblemas de classe, sem passar, contudo, de jóias. Em nenhuma parte encontramos um fato que nos permita atribuir uma significação religiosa às tatuagens dos esquimós, nem em seus numerosos mitos, nem na execução da própria operação que se faz sem a menor solenidade.

 

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