Máximas de Epitecto – 1

Máximas de Epitecto – 1

MÁXIMAS DE EPICTETO

Tradução de Alberto Denis
Compilação da 1ª Edição da
GRÁFICA E EDITORA EDIGRAF LTDA.
São Paulo, Brasil Col. Biblioteca de Autores Célebres

Material enviado por Tiago Tomasi

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EPICTETO

 

Difícil é para o biógrafo
dizer qual a data em que nasceu Epicteto. Nada existe que esclareça esse ponto
escuro da vida do filósofo. Nem sequer é possível registrar a data em que
faleceu e o lugar em que se verificou o falecimento.

 

Indiscutivelmente são os
alemães os que mais estudos apresentam sobre Epicteto, mas tampouco eles
conseguiram descobrir as datas do seu nascimento e da sua morte.

 

Nasceu em Hierápolis, na
Frígia, talvez nos meados do primeiro século da era cristã. Em Roma, foi
escravo, sob o jugo de Nero, do cruel e devasso Epafrodita, suposto confidente
do tirano e incendiário de Roma.

 

Epafrodita torturava-o
impiedosamente, mandando que lhe torcessem as pernas e os braços. Num desses
tremendos castigos, teve Epicteto quebrada uma das pernas, ficando assim
aleijado para o resto da vida. Há biógrafos, contudo, que não dão crédito a tal
fato, considerando mais certo haver Epicteto nascido defeituoso.

 

Pertenceu à escola dos
estóicos. Pouco nos é dado conhecer da sua obra literária, apesar de existirem,
da autoria de Arriano, oito livros intitulados "Dissertações", dos
quais apenas quatro chegaram aos nossos dias. Arriano publicou-os em grego, uma
vez que de Epicteto nada havia diretamente publicado, e neles manteve o estilo
e a marcante personalidade do grande filósofo.

 

Durante o tempo de Musônio
Rufo, iniciou-se Epicteto na filosofia estóica, sendo contemporâneo de
Eufrates, também estóico.

 

Liberto em 90, na época de
Domiciano, quando este expulsou os filósofos, fixou-se em Nilópolis, no Epiro,
onde abriu uma escola de filosofia, levando uma vida modesta e granjeando
grande fama, rodeado de muitíssimos adeptos e admiradores.

 

Provavelmente morreu em
Nilópolis, em idade avançada. Foi, mais tarde, considerado mestre de Marco
Aurélio. Alcançou reputação universal durante os séculos II e III, graças às
obras publicadas por Arriano, que as compôs enquanto Epicteto ministrava as
aulas aos incontáveis discípulos.

 

 

1

    

A escravidão do corpo é obra
da sorte. A da alma é obra do vício. Quem desfruta da liberdade do corpo é
escravo, se tem agrilhoada a alma; quem tem a alma livre desfruta de inteira
liberdade, embora carregado de pesados grilhões. A natureza, com a morte, põe
cobro à escravidão do corpo, mas a da alma só cessa com a virtude.

 

2

 

Guarda-te de exaltar os teus
feitos no comércio comum com os homens, pois se sentes grande prazer em
narrá-los, nenhum sentem eles em ouvi-los.

 

3

 

           Envergonhar-te-ia,
sem dúvida, a vil entrega do teu corpo ao primeiro transeunte e, no entanto,
sem corar, abandonas a alma ao primeiro que se te depara.

 

4

 

           Não ornes a tua
casa com belas pinturas; pelo contrário, faze que resplandeçam nela, por toda
parte, a sabedoria e a temperança. Os quadros não passam de uma impostura para
enganar os olhos; a sabedoria é um ornamento real e verdadeiro.

 

5

 

           Sacode enfim o
jugo e, livre da servidão, levanta ao céu o rosto para dizer ao teu Deus:
"Serve-te de mim como te agradar; nenhum feito me será odioso, se
justificar a tua misericórdia para com os homens".

 

6

 

           Traze
constantemente gravados no pensamento a morte, o desterro e as demais coisas
que se te afiguram terríveis, e podes ter a certeza de que jamais te assaltarão
idéias indignas, nem tampouco desejarás com demasiado ardor coisa nenhuma.

 

7

 

           O verdadeiro bem
do homem está sempre na parte em que difere dos animais; seja essa parte bem
fortalecida e alvo de assíduos cuidados, defendam-na as virtudes e,
seguramente, nada terá que temer.

 

8

 

           Vais a Roma,
empreendes tão grande jornada para obter um cargo mais brilhante que o de que
estás revestido. Que jornada empreendeste para melhorar os teus juízos e
opiniões? Que consultaste para corrigir o que em ti há de defeituoso? Em que
tempo, em que idade cuidaste de examinar os teus juízos? Percorre com a
imaginação todos os anos da tua vida e verás que sempre fizestes o que hoje
fazes.

 

9

 

           O que é
senso-comum? Assim como, em todos os homens, existe um ouvido geral e comum que
lhes permite discernir igualmente as vozes e ouvir todas as palavras que se
proferem, e, mais, outro ouvido, que pode ser chamado artístico, que discerne e
separa os sons uns dos outros, assim também há em todos os homens certo sentido
natural que, quando não possuem nenhum defeito assinalado no entendimento, lhes
permite compreender igualmente tudo o que se lhes propõe. E essa disposição,
igual em todos, é o que se chama senso-comum.

 

10

 

           Um homem é eleito
tribuno da plebe. Volta para casa e a vê iluminada. Todos se congratulam com
ele. Corre ao Capitólio, faz sacrifícios e dá graças aos deuses. Deu-lhes, por
acaso, graças por ter são entendimento e vontade conforme à natureza?

 

11

 

           Nunca te
vanglories do que de ti não depende. Se um cavalo pudesse falar e dissesse: Sou
formoso,
seria suportável. Mas que digas tu com vanglória: tenho um
formoso cavalo,
não. De pouco te envaideces, já que tomas parte apenas no
mau uso que fazes da tua imaginação. Quando a usares, sem contrariar a
natureza, poderás gloriar-te, porque te gloriarás de um bem que é teu.

 

12

 

           Quando pretendemos
embarcar, desejamos um bom vento para seguirmos o nosso caminho; esperando o
dia da partida, vamos com freqüência verificar que vento sopra, e, se nos é
contrário, exclamamos: sempre vento norte! Quando soprará o vento do poente? Meu amigo, soprará quando lhe aprouver, ou melhor, quando aprouver a Quem
manda em todas as coisas. Serás, por acaso, dispensador dos ventos, como Éolo?
Façamos sempre o que de nós depende, e valhamo-nos do resto, tal qual se nos apresenta
e sucede.

 

13

 

           Se pretendes que
teus filhos, tua mulher e teus amigos vivam sempre, és louco, pois é querer que
as coisas que de ti não dependem dependam, e seja teu o que é de outro. Também,
se queres que o teu criado não cometa nunca falta nenhuma, estás louco, pois é
querer que o vício não seja tal vício. Não queres ver contrariados os teus
desejos? Não desejes senão aquilo que de ti depende.

 

14

 

           De que te queixas?
A Divindade deu-te o que há de maior, de mais nobre, de mais divino, deu-te a
faculdade de  poderes fazer bom uso das tuas qualidades, e de em ti próprio
achares os verdadeiros bens. Que mais pretendes? Regozija-te, adora tão
carinhoso pai e não deixes de dar-lhe graças no fundo do teu espírito.

 

15

 

           Os deuses criaram
todos os homens para serem felizes; se são desgraçados a culpa é somente deles.

 

16

 

           As enfermidades
entorpecem os atos do corpo, mas não os da vontade. A coxeadura poderá ser um
obstáculo para o meu pé, mas não para mim. Pensa desse modo em todos os
acidentes que te ocorrerem, e verás que poderão ser obstáculo para tudo, menos
para ti.

 

17

 

           A natureza do mal
não existe no mundo, pois não se concebe um fim destinado a se não realizar.

 

18

 

           Perdeste bens, prazeres,
presentes, distinções, e consideras tal uma grande perda de que não consegues
consolar-te; mas, ao perderes a fidelidade, o pudor, a doçura, a modéstia, não
notas falta. No entanto, uma causa involuntária, e alheia a nós, é que nos
rouba aqueles bens, e, por conseguinte, não é vergonhoso perdê-los. Pelo
contrário, estes últimos, bens internos, não os perdemos senão por nossa culpa;
e se é vergonhoso e reprovável não possuí-los, mais digno ainda de reprovação e
vergonha é chegar a perdê-los.

 

19

 

           Assim como um
mercador não repele moeda de ouro assinalada pelo busto do Príncipe, não recusa
a alma os verdadeiros bens; com freqüência os recebe falsos, mas é que o busto
do Príncipe a enganou, e ela não possui a arte de lhe conhecer a falsidade.

 

20

 

           Se empreenderes
feito superior às tuas forças, o pior não é que, por fim, o abandones, mas que
te esqueças do que poderias realizar.

 

21

 

           Em todas as coisas
deve fazer-se o que de nós próprios depende. Quanto ao resto, mantenhamo-nos
firmes e tranqüilos. Sou obrigado a embarcar. Que devo fazer? Escolher
cuidadosamente o barco, o piloto, os marinheiros, a estação, o dia e a hora, ou
seja, o que de mim depende. Já em alto mar, sobrevem terrível tempestade; não é
assunto meu. O barco afunda. Que fazer? Tudo quanto de mim depende: não grito,
nem me atormento. Sei que tudo o que nasceu deve morrer; é a lei geral. É
preciso que eu morra. Não sou a eternidade, sou um homem, uma parte do todo,
assim como a hora é uma parte do dia. A hora chega e passa; eu também chego e
passo. O modo de passar é indiferente, quer seja pela febre, quer pela água;
tudo é o mesmo.

 

22

 

           Quem se ajusta
como deve às circunstâncias necessárias é prudente e hábil no conhecimento das
coisas divinas.

 

23

 

           Não pretendas que
as coisas sejam como as desejas. Deseja-as como são.

 

24

 

           Lembra-te sempre
destas máximas gerais: "Que é próprio de mim? Que não é próprio de mim?
Que devo fazer?" Até agora, deixaram-te os deuses gozar de um prazer
imenso, deram-te tempo suficiente para pensar, ler, meditar, escrever acerca
destas importantes matérias. Esse tempo deve haver-te bastado. Agora, dizem-te:
Vai, combate, mostra o que aprendeste, mostra se és atleta digno de nós e de
ser coroado, ou um desses gladiadores vis que percorrem o mundo ocultando as
suas derrotas.

 

25

 

           É admirável a
natureza e a lei que nos liga à vida tão fortemente, dizia Xenofonte. Temos
extraordinário cuidado com o nosso corpo, por repulsivo e desagradável que
seja, ao passo que, se tivéssemos de cuidar do nosso vizinho, por quatro dias
que fosse, a coisa nos pareceria insuportável

 

26

 

           És cego e injusto;
podes ser independente e preferes depender de um milhão de coisas que te são
estranhas e te afastam do verdadeiro bem.

 

27

 

           – Sou pretor na
Grécia. –
Tu pretor? Sabes julgar? Onde aprendeste tal ciência? – Tenho
a nomeação de César.
E se César te houvesse nomeado juiz em música, de que
te valeria a nomeação, se jamais tivesses aprendido uma nota sequer? Mas
deixemos isso, e já que o que procuraste foi a nomeação, responde: de que modo
obtiveste o cargo? Quem to proporcionou? A quem estendeste a mão? A que porta
bateste? A quem deste presente? Com que baixezas, com que indignidade, com que
mentiras o compraste?

 

28

 

           É da virtude, e
não do nascimento, que provém a nobreza do homem. – Valho mais que tu; meu
pai foi cônsul, eu sou tribuno e tu não és nada.
Se nós ambos fôssemos
cavalos,  e tu me dissesses: – Meu pai foi o mais veloz de todos os  cavalos
do seu tempo, e eu disponho de muito feno, de muita cevada e de um magnífico
arreio,
eu te responderia: – Acredito no que me afirmas; mas vamos
comer.
Não há no homem alguma coisa que lhe seja peculiar, como a corrida
ao cavalo,  e por meio da qual se lhe possa conhecer a qualidade e julgar do
seu mérito? Não é o pudor, a honradez, a justiça? Mostra-me, pois, a vantagem
que sobre mim tens nisso, faze-me ver que vales mais do que eu, como homem,
porque se me dizes: posso relinchar ou escoicear, respondo-te que a tua
vanglória se estriba numa qualidade própria de asno e de cavalo, e nunca de
homem.

 

29

 

           Ninguém pode ser
mau e vicioso sem perda segura e dano certo.

 

30

 

           De quem é esta
medalha? De Trajano? Recebo-a e conservo-a. De Nero? Abomino-a e atiro-a para
longe de mim. Faze o mesmo com os bons e os maus. Quem é este? Um homem
bondoso, sociável, benfeitor, sofrido, amigo dos pobres; apoio-o, faço dele meu
concidadão, meu amigo. E aquele quem é? Um homem que tem alguma coisa de Nero;
é colérico, mau, implacável, cruel; repilo-o. Por que me disseste que era um
homem? Homem soberbo, vingativo, colérico, não é homem, assim como maçã de cera
não é maçã; desta só tem o aspecto e a cor.

 

31

 

           Nunca serás
vencido, se não empreenderes luta na qual de ti não dependa vencer.

 

32

 

           Por acaso será
infeliz o cavalo pelo fato de não poder cantar? Não, mas pelo fato de não poder
sentir.  Sê-lo-á o cão, por não poder voar? Não, mas pelo fato de carecer de
inteligência. Consistirá a infelicidade do homem em não poder estrangular leões
e realizar coisas extraordinárias? Não, pois não foi criado para isso. O homem
é infeliz quando perde o pudor, a bondade, a justiça, e quando se apagam todos
os divinos caracteres, impressos em sua alma pelos deuses.

 

33

 

           Quando ouço chamar
a alguém feliz por ver-se favorecido pelo Príncipe, pergunto imediatamente: Que
lhe sucedeu? – Foi colocado à frente de uma província. – Mas, obteve ao
mesmo tempo tudo quanto precisa para governá-la bem? – Foi nomeado pretor. – Mas dispõe de meios e condições para o ser? Não são as dignidades que
proporcionam felicidade, mas sim o desempenhá-las bem e delas fazer bom uso.

 

34

 

           Que não faz o
banqueiro para examinar o dinheiro que lhe entregam? Emprega todos os sentidos,
a vista, o tacto, o ouvido. Não se contenta com fazer vibrar a moeda uma, duas,
três vezes; à força de analisar os tinidos, quase se converte em músico. Todos somos banqueiros naquilo que, julgamos, nos interessa; não há cuidado nem
atenção que não empreguemos para evitar que nos enganem. Mas quando se trata da
nossa razão, de examinar os nossos juízos, somos preguiçosos e negligentes,
como se tal não tivesse para nós nenhum interesse, porque desconhecemos os
prejuízos acarretados pela nossa incúria.

 

35

 

           Exigem os
sentinelas uma contra-senha de quem quer que se aproxime. Faze o mesmo: exige
uma contra-senha de tudo quanto se te apresente à imaginação, e nunca serás
surpreendido.

 

36

 

           O desejo e a
felicidade não podem estar juntos.

 

37

 

           Prefiro sempre o
que acontece, por estar convencido de que a vontade dos deuses é superior à
minha. Atenho-me, pois, a ela, sigo-a e a ela conformo os meus desejos, as
minhas vontades e os meus atos.

 

38

 

           Conserva bem o teu
e não invejes o alheio. Nada te impedirá de ser venturoso.

 

39

 

           Em vez de fazeres
a côrte a um velho rico, faze-a a um sábio. Este não te fará corar, e tu jamais
te afastará dele de mãos vazias.

 

40

 

           Suponde uma cidade
governada segundo as máximas de Epicuro. Nela tudo será transtorno. Não haverá
casamento, nem magistrados, nem colégios, nem polícia, nem educação possível; a
piedade, a santidade, a justiça serão desterradas; seguir-se-ão apenas torcidas
regras de procedimento e conselhos perniciosos, que nem as mulherezinhas mais desavergonhadas
ousarão sustentar. Pelo contrário, numa cidade governada segundo as máximas
ditadas pela razão, reinará a justiça e a ordem; seguir-se-ão opiniões sãs,
praticar-se-ão todas as virtudes, florescerá a justiça, estará bem
regulamentada a polícia, casar-se-ão os cidadãos, terão filhos e servirão aos
deuses; o marido, contente com sua mulher, não cobiçará a do próximo; contente
com o seu bem, não invejará o dos outros. Numa palavra, em tal cidade se
cumprirão todos os deveres.

 

41

 

           Não depende de ti
ser rico, mas ser venturoso. A riqueza nem sempre constitui um bem e,
certamente, é pouco duradoura; mas a felicidade que emana da sabedoria é
eterna.

 

42

 

           É tão difícil aos
ricos adquirir sabedoria quanto aos sábios adquirir riqueza.

 

43

 

           O que aflige não é
a pobreza, mas a avareza, assim como não é a riqueza que preserva de todo e
qualquer temor, mas a razão.

 

44

 

           Ornar a própria
morada com móveis preciosos e magníficos é amar o luxo. Ornar a alma com
bondade, liberalidade e justiça é ser verdadeiramente magnífico e humano.

 

45

 

           A vida que se
passa na suntuosidade e na moleza é uma torrente de águas turvas, espumosas,
violentas, tumultuosas e passageiras. A vida empregada na virtude é uma pura
fonte cujas águas cristalinas, sãs e frescas, jamais se acabam.

 

46

 

           Não te esqueças de
que são os ricos, os reis, os tiranos que proporcionaram personagens às
tragédias; os pobres não aparecem nos nossos teatros, e quando neles têm lugar
é entre os cantores e bailarinas. São os reis que prosperam no começo da obra;
tudo lhes sorri, são honrados, respeitados, erguem-se-lhes altares,
ornam-se-lhes os palácios de coroas e bandeiras e, ao cabo do terceiro ou
quarto ato, exclamam: Ó Citérea, por que me abriste as portas?

 

47

 

           Prescreve-te desde
o início certas regras, e observa-as, quer estejas só, quer acompanhado.

 

48

 

           Não rias por muito
tempo, nem com excesso, nem com freqüência.

 

49

 

           Guarda-te de usar
coisas necessárias ao corpo, enquanto o não exijam as necessidades da alma,
como a alimentação, as vestes, a habitação, os criados, etc., e repele tudo
quanto diz respeito à moleza e à vaidade.

 

50

 

           Reúnes em ti
qualidades, cada uma das quais exige deveres que é mister cumprir; és homem,
cidadão do mundo, filho dos deuses, irmão dos outros homens. Sob outros
aspectos, és senador, ou possuis outra dignidade, és jovem ou velho, filho, pai
ou marido. Pensa em tudo aquilo a que te obrigam tais nomes e trata de não
desonrar nenhum deles.

 

51

 

           Foi bela sentença
a de Agripa: jamais me servirei eu próprio de obstáculo.

 

52

 

           Como os faróis dos
portos que prestam auxílio aos barcos perdidos, o homem de bem, na cidade
combatida por toda espécie de tempestades, é de grande utilidade aos
concidadãos.

 

53

 

           Antes de te
apresentares ao tribunal dos juizes, apresenta-te ao da justiça.

 

54

 

           Empalideces,
tremes, perturbas-te quando vais ver um príncipe ou outro ilustre senhor – Como
me receberá? Como me ouvirá?
– Vil escravo! Receber-te-á, ouvir-te-á como
queira; tanto pior para ele se acolher mal um homem prudente. Podes tu, por
acaso, sofrer pelo erro de outrem? Como lhe falarei? – Falar-lhe-ás como
te aprouver. – Tenho medo de perturbar-me. – Não sabes falar com
discrição, com prudência e com livre dignidade? Quem te aconselhou a temer um
homem? Zeno não temeu Antígono, mas Antígono temeu Zeno. Perturbou-se Sócrates
quando falou aos tiranos e aos seus juizes? Tremeu Diógenes quando falou a
Alexandre, a Filipe, aos piratas, ao amo que o havia comprado?

 

55

 

           Quem se submete
aos homens já está submetido às coisas.

 

56

 

           Livra-te de
desejos e temores, e livrar-te-á dos teus tiranos.

 

57

 

           Acabas de libertar
um escravo. Mas tu, que lhe desta a liberdade, és livre? Não és escravo de teu
dinheiro, de tua mulher, de teus filhos, de teu tirano, do último lacaio de um
tirano?

 

58

 

           Muito bem disse
Diógenes que o único meio de estabelecer a liberdade é estar pronto para
morrer.

 

59

 

           O próprio Diógenes
escreveu ao rei dos persas: "Mais fácil que reduzir os atenienses à
escravidão ser-te-á reduzir os peixes; um peixe viverá mais tempo fora da água
que um ateniense na escravidão".

 

60

 

           Quando estiveres
no teu quarto, de noite, com a porta bem fechada e apagadas as luzes, guarda-te
de crer que estás só, que o não estás.

 

61

 

           Afirmava Traséia
preferir ser morto hoje a desterrado amanhã. Que lhe respondeu Rufo? Se
consideras pior o primeiro, és louco em o escolher; se o consideras melhor, em
que estribas a escolha?

 

62

 

           Diante de toda
imagem que te assalte deves estar pronto a dizer: és enganosa, e não o que
pareces.
Examina-a bem, aprofunda-a e, para sondá-la, serve-te das regras
aprendidas, sobretudo da que consiste em examinar se o que te aparece é do
número das coisas que dependem de ti ou das que de ti não dependem.

 

63

 

           Visto que aspiras
a tão grandes coisas, lembra-te de que não deves trabalhar medianamente por
adquiri-las. Mas de todas as exterioridades deves renunciar completamente a
umas e postergar outras; porque se tentas alcançá-las juntamente, perseguindo
ao mesmo tempo os verdadeiros bens, as dignidades e as riquezas, não obterás
nem sequer estas últimas; talvez deixes de conseguir alguns bens, mas
certamente carecerás dos únicos que realmente podem constituir a tua felicidade.

 

64

 

           Não te esqueças de
que se tomas por livres as coisas que, pela sua natureza, são escravas, e por
tuas próprias as que de outrem dependem, verás por toda parte obstáculos,
afligir-te-ás, perturbar-te-ás, e queixar-te-ás dos deuses e dos homens. Se,
pelo contrário, tomas por teu o que verdadeiramente te pertence e por alheio o
dos outros, ninguém te obrigará ao que não queiras, nem te impedirá realizar os
teus gostos, nem terás motivo de queixa, nem de acusação.

 

65

 

           Qual é a natureza
da divindade? Inteligência, ciência, ordem, razão. Podes, portanto, conhecer
qual a natureza do teu verdadeiro bem, que nela somente se encontra.

 

66

 

           Um dia, perguntou
um insolente a Diógenes: És tu, Diógenes, o que crê não haver deuses?  –
Sou Diógenes, respondeu-lhe ele, e tão certo estou de que há deuses, que estou
completamente persuadido que te detestam.

 

67

 

           Quando te
aproximares dos príncipes e dos magnatas, lembra-te de que há lá em cima um
Príncipe ainda maior, que te vê e te ouve, e a quem deves comprazer mais que a
qualquer outro.

 

68

 

           Queres agradar aos
deuses? Reflete que não há coisa que mais detestem do que a impureza e a
injustiça.

 

69

 

           Não se entristecia
Hércules por deixar órfãos os filhos, pois sabia não haver órfãos no mundo, e
terem todos os homens um pai que deles cuida e que jamais os abandona.

 

70

 

           O começo da
filosofia é conhecermos a nossa fraqueza, a nossa ignorância e os deveres
necessários e indispensáveis.

 

71

 

           Que é o filósofo?
Homem que, se o ouves, há de fazer-te certamente mais livre que todos os
pretores.

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