Consciência - Filosofia e Ciências Humanas

Máximas de Epitecto – 2




MÁXIMAS DE EPICTETO

Tradução de Alberto Denis
Compilação da 1ª Edição da GRÁFICA E EDITORA EDIGRAF LTDA.
São Paulo, Brasil Col. Biblioteca de Autores Célebres

Material enviado por Tiago Tomasi

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72

           Se há uma arte de bem falar, há igualmente uma arte de bem ouvir.

73

           Por que discutir com pessoas que se não rendem às mais evidentes verdades? Não são homens, são pedras.

74

           Julgas que te direi laborioso, ainda que passes as noites estudando, lendo? Não, sem dúvida. Quero antes saber a que ligas tal estudo e aplicas tal esforço; porque não digo laborioso o homem que vela a noite inteira para ver a prometida; digo que está apaixonado. Se velas pela tua glória, chamo-te ambicioso; se para juntar dinheiro, chamo-te interessado; mas se velas para cultivar e formar a razão, e acostumar-te a obedecer à natureza e a cumprir os teus deveres, somente então te direi laborioso, porque é esse o único trabalho digno do homem,

75

           Cobres de injúrias uma pedra. Que proveito terás? Não compreenderá nada do que disseres. Imita a pedra e não dês ouvidos às injúrias.

76

           Não há coisa que o homem sensato suporte menos do que tudo quanto é irracional.

77

           Para cada um a medida da riqueza é o corpo, como é o pé a medida do calçado. Se te ativeres a essa regra, guardarás a medida justa; se dela te esqueceres, estarás perdido, e descambarás necessariamente para um precipício em que nada te poderá deter. Do mesmo modo, no calçado, uma vez que passares a medida do teu pé, terás sapatos dourados, terás sapatos de púrpura e, por fim, hás de querê-los bordados, pois não há termo para o que ultrapassa os justos limites.

78

           Vale mais o perdão que a vingança, porque um é efeito de uma natureza doce e humana, e outra o de uma organização feroz e brutal.

79

           Não deve inspirar medo a pobreza, nem o desterro, nem a prisão, nem a morte. O que deve inspirar medo é o próprio medo.

80

           Adquiriste belas coisas. Tens muitos vasos de ouro e prata, és rico, mas o melhor te falta: a constância, a submissão às ordens divinas, a tranqüilidade, o estar isento de confusão e temor. Quanto a mim, pobre como sou, sou mais rico que tu. Não me preocupo com ter padrinhos na côrte; não me importo com o que possa dizer-se de mim ao Príncipe, e não faço mal a ninguém. Eis o que me faz gozar de todos os bens. Tens vasos de pedraria, mas todos os teus pensamentos, todos os teus desejos, todos os teus atos, todas as tuas inclinações são de terra.

81

           Todos tememos pelo destino do corpo, e na alma ninguém pensa.

82

           Lembra-te de que deves haver-te na vida como num festim. Chega-te um prato? Estende a mão com decência, e serve-te moderadamente. Retiram-no da tua presença? Não o retenhas. Ainda não chegou? Não estendas muito longe o teu desejo, e espera que chegue, afinal, ao teu lado. Faze o mesmo com os filhos, com a mulher, com os cargos e as dignidades, com a riqueza, e serás digno de admitido à própria mesa dos deuses. Se, ao te serem apresentados os manjares, os não tocares, e repelires ou menosprezares, não somente serás convidado dos deuses, mas seu companheiro. Por tal meio, Diógenes, Heráclito e outros chegaram a ser homens divinos e universalmente reconhecidos como tais.

83

           Houve por bem Páris raptar Helena, e houve esta por bem segui-lo. Se da mesma maneira a Menelau se houvesse afigurado bem dispensar uma esposa infiel, que teria acontecido? Teríamos perdido a Ilíada e a Odisséia. O resto não tem importância.

84

           Por que meio conseguiremos não formar falsos juízos? Evitando que tal nos ensinem desde a infância. A nossa nutriz, que nos ensina a caminhar, quando, por acaso, damos de encontro a uma pedra e choramos, em vez de repreender-nos, põe-se a ralhar com a pedra. Poderia esta adivinhar que iríamos bater contra ela, e mudar de lugar? Quando já somos adolescentes, se, ao sairmos do banho, não achamos pronta a refeição, irritamo-nos, e o nosso pedagogo, ou aio, em vez de nos reprimir a cólera, começa a ralhar, por sua vez, e com mais aspereza, voltando-se para o cozinheiro. Bem se lhe poderia dizer: – Pagam-te para ser mestre do cozinheiro ou do menino? Modera a cólera e corrige a impaciência do teu discípulo. - Quando já somos homens formados e temos as nossas ocupações, vemos todos os dias casos idênticos. É por isso que vivemos e morremos crianças. Que é ser criança? – Assim como na música ou nas letras, é criança quem a não sabe, ou a sabe mal, na vida pode chamar-se criança quem não sabe viver e não tem idéias sensatas.

85

           O sábio salva a vida ao perdê-la.

86

           Pergunto-te que progresso realizaste na virtude, e mostras-me um livro de Crisipo, que te gabas de compreender. É como se um atleta, cuja força eu pretendesse conhecer, em vez de me mostrar os braços musculosos e os largos ombros, me fizesse ver apenas as manoplas. Assim como quereria ver o que fez o atleta com as manoplas, quereria saber o que fizeste tu com o livro de Crisipo. Praticaste-lhe os preceitos? Ordenaste bem os teus temores e desejos? O progresso aparece na própria obra. Educaste a alma na liberdade, na fidelidade, no pudor? Acha-se em estado de nada lhe poder servir de obstáculo e perturbação? Prescindiste na vida dos gemidos, das queixas e das exclamações importunas? Meditaste o que é a prisão, o ostracismo, a cicuta? Podes dizer em qualquer ocasião: sigamos com valor o caminho pelo qual nos chamam os deuses?

 

87

           O respeito que se tem ao que pode prejudicar é como o altar erguido à febre no meio de Roma. Adora-se, porque se teme.

88

           Nunca digas: perdi isto, senão: devolvi. Morreu-te o filho? Devolveste-o. Morreu-te a mulher? Devolveste-a. Tirou-se-te a terra? É uma restituição que fizeste. Quem ta tira é mau; mas que importa a qualidade das mãos com as quais te é tirada? Usa todas as coisas que estão em teu poder como coisas que te não pertencem, como fazem os viandantes com as estalagens.

89

           Se Sócrates, dizes, se tivesse salvado, ainda seria útil aos homens. – Meu amigo, o que Sócrates disse e fez, recusando salvar-se e morrendo pela justiça, é muito mais útil que tudo quanto houvera podido fazer noutro caso.

90

           Duas coisas há que devem ser tiradas aos homens: a vaidade e a desconfiança.

91

           Tudo quanto se pode utilmente descuidar, mais utilmente ainda se pode abandonar.

92

           Em tudo é necessária a atenção, até mesmo nos prazeres. Há coisa que a negligência adquira facilmente?

93

           Os que sustentam não haver verdade conhecida desmentem tal princípio com uma pretensa verdade. Seja verdadeira ou falsa tal afirmação é para eles, uma verdade conhecida.

94

           É mister possua um Príncipe extraordinário mérito para que, somente por amor, se lhe obedeça.

95

           Por que sou velho? Vil escravo! Acusas a Providência por um pé disforme. Que é mais racional, que a Providência esteja submetida ao teu pé, ou que este o esteja à Providência?

96

           A grandeza do entendimento não se mede pela extensão; mede-se pela verdade e certeza das opiniões.

97

           Pretendes ser como os maus comediantes, que só logram cantar nos coros?

98

           O meu dever, enquanto me dure a vida, é dar graças aos deuses, louvá-los pública e particularmente, e não deixar de os abençoar até que tenha termo a vida.

99

           Se te é possível, faze recair a conversação dos teus amigos sobre coisas convenientes e dignas. E se estás entre estranhos, guarda prudente silêncio.

100

           Quando vês uma víbora ou uma serpente num barco de ouro, acaso lhe tens alguma estima? Não sentes por ela o mesmo horror, a causa da sua natureza mortal e venenosa? Faze o mesmo com o mau, quando o vês no meio dos seus haveres.

101

           Evita comer fora de casa e foge dos festins públicos. Mas se uma circunstância extraordinária te obriga a assistir a um deles, redobra a atenção para contigo próprio, a fim de não vires a ser influído pelas maneiras vulgares. Sabe que se um dos convidados é sujo, necessariamente se manchará quem lhe estiver ao lado, por mais limpo que seja.

102

           Cada qual se atribui livremente um preço alto ou baixo, e ninguém vale senão o que se faz valer. Tacha-te, pois, de livre ou de escravo, que isso apenas de ti depende.

103

           Sócrates amava os filhos, mas amava-os como homem livre, e lembrado de que, em primeiro lugar, devia amar os deuses. Assim, jamais proferiu palavra que não fosse digna de homem de bem, nem quando se defendeu perante os juizes, nem quando foi senador, nem quando esteve na guerra. Nós, porém, em tudo achamos pretexto de baixeza e covardia; no filho, na mãe, no irmão. Não obstante, deveríamos não fazer-nos desgraçados por ninguém, e, pelo contrário, fazer de todas as criaturas meios da nossa felicidade, e, principalmente, servidores dos deuses que nos criaram, a fim de sermos venturosos.

104

           Deixas de prestar atenção e confias em que tornarás a prestá-la, quando te aprouver. Uma leve falta descuidada hoje te precipitará amanhã em outra maior, e esta, repetida, formará em ti um hábito que não mais poderás corrigir.

105

           Careces do necessário para viver, e perguntas-me se, para procurá-lo, deves rebaixar-te aos mais abjetos misteres: que posso dizer-te sobre isso? Há pessoas que preferem o mais baixo mister a morrer de fome: outras há às quais tal seria insuportável. Não é, portanto, a mim que deves consultar, senão a ti próprio.

106

           Assim como esta proposição: é dia, é noite, é muito sensata quando está separada e constituída em duas partes, e insensata quando é complexa, isto é, quando as duas partes constituem uma, assim também nos festins não há nada tão insensato como querer alguém tudo para si próprio, sem consideração aos demais. Portanto, quando te convidarem a um banquete, lembra-te de não pensar tanto na qualidade dos manjares servidos, que te excitem o apetite, como na qualidade de quem te convidou e em conservar o respeito e admiração que lhe deves.

107

           Procura, a maioria das vezes, guardar silêncio, ou, pelo menos, não proferir senão as palavras necessárias, e sê breve. Raramente nos vemos obrigados a falar, se não falarmos mais do que quando o permitam as circunstâncias; não nos entretenhamos com coisas triviais e comuns, como os combates de gladiadores, as corridas de cavalos, os trajes, o comer, o beber, que são assuntos das conversações de todos os dias. Sobretudo, jamais fales dos homens para criticá-los ou elogiá-los, e menos ainda para estabelecer entre uns e outros comparações.

108

           Queres parecer-te ao total dos homens, como se parece um fio da tua túnica aos demais fios que a compõem, mas eu quero esta faixa de púrpura que não somente é bela, como também embeleza tudo aquilo a que se aplica. Por que, pois, me aconselhas a ser como os outros? Se eu fora como o fio, não seria como a púrpura.

109

           Quando embarco e só vejo céu e água, espanta-me a imensa e líquida superfície que me rodeia, como se tivesse de bebê-la toda ao naufragar, sem ter em conta que bastam três medidas de água para afogar-me; do mesmo modo, ao menor tremor de terra imagino que vai cair sobre mim a cidade inteira, quando sei que basta uma telha para quebrar-me a cabeça. Ah, desditoso escravo da imaginação!

110

           Os loucos são incorrigíveis. Afirma o provérbio que é mais fácil quebrar um louco do que mudá-lo.

111

           Lembra-te de que o fim dos teus desejos é obter o desejado, e o fim dos teus temores evitar o temido. Quem não obtém o que deseja é desgraçado, e quem cai no que teme é mísero. Se não professares aversão senão ao que é contrário ao teu verdadeiro bem e de ti depende, jamais cairás no temido; mas se temeres a morte, as enfermidades ou a pobreza, serás mísero. Faze, portanto, recair os teus temores sobre as coisas que de ti dependem, e quanto aos teus desejos, faze o mesmo, porque se desejas alguma coisa que não esteja em ti alcançar, é sinal evidente de te não achares ainda em estado de conhecer as que devemos desejar. Esperando tal estado, contenta-te com desejar e temer as coisas docemente, sempre com exceção e sem violência.

112

           Compomo-nos de duas naturezas assaz distintas: de um  corpo que nos é comum com os animais e de um espírito que nos é comum com os deuses. Uns tendem para o primeiro parentesco, se é permitido assim falar, parentesco desditoso e morto, e outros tendem para o segundo, parentesco ditoso e divino. Nasce daí pensarem uns nobremente e outros, em maior número, só terem pensamentos baixos e indignos. Que sou eu? Um homem desditoso, e as carnes que me revestem são, com efeito, más e míseras; mas trago em mim algo mais nobre que a carne; por que, pois, tamanho apego a ela, afastando-me desse outro princípio tão elevado? Vede a pendente pela qual se atira a maioria dos mortais, e vede por que há neles tanto de tigre, tanto de lobo, tanto de leão, e tão pouco de homem. Cuidado, meu amigo! Procura não aumentar o número de tais monstros.

113

           Considera, primeiramente, o que desejas; depois, examina a tua própria natureza, e vê se é suficientemente forte para levar o fardo. Queres ser gladiador? Olha os braços, considera os músculos, examina as costas, porque nem todos nascemos para a mesma coisa. Pensas que, abraçando tal profissão, poderás comer como os outros, beber como eles, renunciar como eles a todos os prazeres? É mister velar, trabalhar, afastar-se dos parentes e dos amigos, ser o joguete de uma criança, ficar por baixo de todos nas honrarias, nos cargos, nos tribunais; numa palavra, em todos os negócios. Considera bem tudo isso e vê se podes comprar por tal preço a tranqüilidade, a liberdade, a constância. Se não, dedica-te a outra coisa e não procedas como as crianças: não sejas hoje filósofo, amanhã sequaz, em seguida pretor e depois privado do Príncipe; estas coisas não se condizem. É necessário que sejas um só homem, bom ou mau, que te apliques ao que te diz respeito, que trabalhes por adquirir os bens interiores e exteriores, isto é, que te sustentes com o caráter de filósofo ou de homem comum.

114

           Por que nasci de tais pais? Meu amigo, antes do teu nascimento, dependia de ti dizer: quero que tais pessoas contraiam núpcias, e quero nascer delas? Se o teu nascimento é desditoso, não depende acaso de ti corrigi-lo com a virtude?

115

           Teu amigo, teu filho, partiram; abandonaram-te, e tu choras. Não sabias que o homem era viandante? Sofres o castigo da tua loucura. Crês que terás sempre perto de ti os objetos dos teus prazeres e que gozarás sempre dos lugares e das coisas que te são agradáveis? Quem to prometeu?

116

           Queres dar à tua cidade natal uma oferta raríssima e de grande valor? Dá-te inteiramente a ela, depois de te haveres convertido em modelo perfeito de doçura, de liberalidade e de justiça.

117

           Queres envelhecer e não ver morrer os que amas, isto é, queres que todos os teus amigos sejam imortais, e que para ti unicamente mudem os deuses as suas leis e a ordem da natureza. É justo isso, insensato?

118

           Acabas de receber novas de Roma, e cais no pranto e na tristeza. É possível que o que se passa a duzentas léguas de ti te torne desgraçado? Dize-me, suplico-te: que mal pode suceder-te onde não estás?

119

           Nada tens que não tenhas recebido. Quem te deu tudo, tira-te uma coisa. Resistindo-lhe, além de louco, és ingrato e injusto.

120

           As coisas que de nós dependem são livres pela sua natureza; nada pode detê-las nem levantar-lhes obstáculos, e as que de nós não dependem são débeis, escravas, dependentes, sujeitas a mil inconvenientes e obstáculos, e inteiramente estranhas.

121

           Quando tornarei a ver Atenas e a Acrópole? Nada podes ver mais formoso que o céu, o sol, a lua, as estrelas, a terra, o mar. Se estás aflito por haveres perdido de vista Atenas, que farás quando for mister perder de vista o sol?

122

           Hércules, exercitado por Euristeu, não se considerava desditoso, e executava tudo quanto lhe ordenava o tirano, por difícil que fosse. Tu, exercitado pelos deuses que te criaram, gritas, lamentas-te e te consideras infeliz. Que covardia, que fraqueza!

123

           Não queres, pois, ser sóbrio e abandonar o leite para nutrir-te de carne sólida? Queres ainda chorar e gritar, recostado ao peito da nutriz e voltar aos contos e canções com que ela te embalava?

124

           A regra e medida dos nossos atos são as nossas opiniões. De onde nasceu a Astréia de Eurípedes? Da opinião. E a sua Medéia e o seu Hipólito? Da opinião. E o Édipo de Sófocles? Da opinião.

125

           Quando soar a hora, morrerei, mas morrerei como deve morrer o homem que sabe devolver o que lhe foi confiado para guarda.

126

           Não devemos regozijar-nos com os homens, nem com eles congratular-nos se não pelas coisas de que têm verdadeiro motivo de regozijo e que lhes são honrosas e úteis.

127

           O característico da verdadeira felicidade é durar sempre e não encontrar obstáculo. O que não possui esses dois caracteres não é verdadeira felicidade.

128

           Não te esqueças das palavras de Sócrates: "Críton, sigamos corajosamente a senda pela qual nos conduzem os deuses, e nos chamam. Anito e Melito podem matar-me, mas não podem fazer-me morrer".

129

           Umas coisas do mundo dependem de nós, outras não. As que de nós dependem são os nossos juízos, os nossos movimentos, as nossas inclinações, as nossas aversões, os nossos desejos, numa palavra, todos os nossos atos.

130

           As que de nós não dependem são o corpo, os bens, a reputação, as dignidades, numa palavra, todas as coisas que não são os nossos próprios atos.

131

           Lembra-te de que és ator na obra, breve ou longa, em que o seu autor te fez tomar parte. Se quer que representes o papel de mendigo, mister é que o desempenhes da melhor maneira possível. Ademais, se quer dar-te o papel de coxo, de príncipe, de particular, deves representá-lo, pois está em tuas mãos desempenhar bem o teu papel, mas não escolhê-lo.

132

           Temes falar da morte, como coisa de mau agouro. Não há mau agouro no que não faz senão marcar a ação da natureza. A preguiça, a imprudência, a covardia, os demais vícios, é que são realmente coisa de mau agouro. E, no entanto, uma vez que não se possa evitar uma coisa, não se deve temer proferir-lhe o nome.

133

           Os verdadeiros dias de festa para ti são aqueles em que venceste uma tentação, em que atiraste para longe de ti, ou pelo menos enfraqueceste, o orgulho, a temeridade, a malignidade, a maledicência, a inveja, a obscenidade das palavras, o luxo ou qualquer outro dos demais vícios que te tiranizam. Isso, muito mais que obter um consulado ou a chefia de um exército, merece que faças sacrifícios.

134

           Sobre cada uma das coisas que te divertem, que te servem e que aprecias, lembra-te de pensar e de perceber o que verdadeiramente é, começando pela menor. Se gostas de um vasinho de terra, lembra-te de que é de terra, para que, se suceda quebrar-se, não fiques impressionado. Se gostas de teu filho ou de tua mulher, dize ao espírito que gostas de uma criatura mortal, para que, se suceda morrer, te cause menos dor.

135

           Quando vires alguém cumulado de honras, ou elevado a um grande poder, ou de qualquer modo florescente, procura fazer com que não diminua a tua imaginação, e não o consideres ditoso, porque se a essência do verdadeiro bem consiste nas coisas que de nós dependem, nem a inveja, nem a emulação, nem os ciúmes têm motivos de existência. Tu próprio não quererás ser general de exército, nem senador, nem cônsul, mas livre; e para alcançares essa liberdade, há somente um caminho: o desprezo das coisas que de nós não dependem.

136

           Quando ouvires ou vires algo de mau agouro, não te deixes levar pela imaginação; pelo contrário, faze em ti próprio esta consideração: não diz respeito a mim próprio este infeliz agouro, senão ao meu corpo, ao meu bem ou à minha reputação, ou a meus filhos ou minha esposa. Quanto a ti, não pode haver mais que felizes presságios, se assim desejas, porque, suceda o que suceder, de ti é que depende tirar dele o maior bem.

137

           De ti depende fazer bom uso de tudo o que se verifica. Não digas, pois: que sucederá? Que te importa o que possa suceder, se de tudo és capaz de tirar proveito, se de tudo podes fazer bom uso, e qualquer coisa que se realize pode chegar a ser para ti felicidade enorme? Se aos olhos se te apresenta medonha fera, ou tens que sustentar um feroz combate contra homens implacáveis e terríveis, de que te afliges? Se te antolha uma fera, o combate é maior e mais glorioso. Se pelo caminho encontrares homens prodigiosos e intratáveis, terás maior mérito se conseguires, ao vencê-los, livrar deles o mundo. E se eu morrer? Se morreres, morrerás como herói. Que mais podes desejar?

138

           Ocupas-te unicamente de habitar suntuosos palácios, de te rodeares de uma turba de lacaios e mordomos, de te vestires magnificamente e de possuíres apetrechos de caça, músicos e tropa de comediantes. Julgas que te invejo por isso? Cultivaste a razão? Trataste de adquirir sãs opiniões e de aproximar-te da verdade? Por que, pois, te envergonhas de possuir eu sobre ti uma vantagem no que descuidaste? É que isso é precioso e grande. Tanto melhor se o sabes; mas quem te impede consegui-lo? Em vez de caçadores, de músicos, de comediantes, rodeia-te de gente sã de entendimento; ninguém pode dispor de mais tempo, de mais livros, de mais mestres do que tu. Começa; dá à razão alguma coisa do tempo que te sobra; numa palavra, escolhe. Se continuares a satisfazer-te com exterioridades, terás, certamente, móveis mais raros e magníficos que os de qualquer outro, mas a tua pobre inteligência, assim abandonada à incúria, ficará no embrutecimento.

139

           É justo e natural que o que se aplica inteiramente a uma coisa a consiga, e logre nela acerto, e vantagem sobre o que a descuida. O folgazão emprega toda a vida em busca do prazer e do requinte; quando se levanta, pensa no modo de fazer a côrte ao objeto do seu amor, e de adular o príncipe; diante deles, adula-os, faz-lhe presentes. Nas suas preces e sacrifícios, só pede aos deuses que lhe dêem a ventura de comprazer-lhes. Todas as noites faz exame de consciência: Em que delinqüi? Que fiz? Que omiti do que devia fazer? Deixei de dizer ao Príncipe alguma coisa que lhe houvera agradado? Deixei escapar imprudentemente alguma verdade que lhe haja desagradado? Deixei de lhe aplaudir os defeitos e elogiar tal injustiça ou tal má ação sua? Quando, por acaso, profere uma palavra digna de homem de bem e de homem livre, teme, faz penitência, e julga-se perdido. Vede como lavra o seu bem estar. Tu, pelo contrário, a ninguém cortejas, a ninguém adulas; cultivas a alma, trabalhas por formar sãos juízos; o teu exame de consciência é assaz diverso do primeiro. Perguntas-te: Descuidei alguma coisa das que contribuem para a verdadeira felicidade e agradem aos deuses? Faltei à amizade, à sociabilidade, à justiça? Deixei de fazer o que deve fazer o homem de bem? Com desejos tão opostos, sentimentos tão contrários e tão diversa aplicação, como pode envergonhar-te não igualares o primeiro nos bens da sorte? Por que o invejas? Seguramente, ele te não invejará. E assim sucede porque, imerso na ignorância e na cegueira, está firmemente persuadido de desfrutar dos verdadeiros bens, ao passo que tu não estás ainda bastante firme e seguro nos teus princípios para ver e sentir que está do teu lado toda a felicidade.

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