Consciência - Filosofia e Ciências Humanas

Máximas de Epitecto – 3



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02/21/07

MÁXIMAS DE EPICTETO

Tradução de Alberto Denis
Compilação da 1ª Edição da GRÁFICA E EDITORA EDIGRAF LTDA.
São Paulo, Brasil Col. Biblioteca de Autores Célebres

Material enviado por Tiago Tomasi

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140

           Não há nada tão freqüente como ver poderosos que julgam saber tudo, e nada sabem, ignorando até as verdades mais necessárias. Como nascem na abastança e não sentem necessidade nenhuma, não suspeitam de que lhes possa faltar alguma coisa. Dizia eu assim, uma tarde, a um dos mais considerados: – Estais perto do Príncipe, possuís grande quantidade de administradores poderosos e grandes alianças; por meio do vosso crédito podeis servir aos amigos e destruir os invejosos. – Que me falta, pois? perguntou-me. – O mais importante e necessário à verdadeira felicidade; até aqui, fizestes o contrário do que vos convém, descuidando o principal. Não sabeis o que são os deuses, nem o que é o homem; ignorais a natureza do bem e do mal, e, o que vos surpreenderá mais que tudo, vós próprio vos desconheceis. Ah, fugis e vos encolerizais pelo que vos manifesto com esta franqueza! Que mal vos fiz? Somente vos apresentei o espelho em que viste a vossa imagem.

141

           Nada se dá sem recompensa. Pretendes um Consulado? Terás de intrigar, pedir, rogar, beijar a mão deste, daquele, bater-lhe à porta, praticar mil baixezas e mil indignidades, enviar todos os dias novos presentes. E que é ser cônsul? Levar à frente doze feixes de varas, sentar-se três ou quatro vezes num Tribunal, dar jogos e festins ao povo; eis tudo. E para estar livre de paixões e de cuidados, para ser constante e magnânimo, para poder dormir de noite e velar de dia, para não ter angústias nem temores, não queres dar nada, nem ter nenhum trabalho? Julga tu próprio o teu procedimento.

142

           Foste preferido num festim, num conselho, numa visita. Se são bens as preferências de que és alvo, devera alegrar-te recaírem elas sobre o próximo, e se são males, não te aflijas, por te não veres livre deles; mas lembra-te de que não pode caber-te deles a mesma participação que cabe aos que lidam por adquirir o que deles não depende. Quem nunca bate à porta de um grande senhor não pode ser tão bem tratado como o que lá vai todos os dias; quem o não acompanha quando sai, como o que lhe fica sempre ao lado; quem o não adula nem tampouco o lisonjeia, como o que outra ocupação não conhece. Portanto, és injusto e insaciável, se, não dando as coisas com as quais se compram os favores, os queres obter gratuitamente. Por que preço vendem os legumes no mercado? Por um óbulo. Se, pois, der o teu vizinho um óbulo e levar o seu legume, ao passo que tu, sem dar o óbulo, sem o legume regressas, não imagines ser por isso menos afortunado, pois se ele tem legume, tens tu óbulo, já que o não entregaste. O mesmo sucede neste caso: não foste convidado a um festim? Tampouco deste ao hóspede o preço pelo qual o vende; esse preço é um elogio, uma visita, uma complacência, uma subordinação; dá, pois, o preço, se a coisa te agrada, mas não queiras, sem ele, adquirir a mercadoria. No resto, não sintas pesar se não tens assento no festim, desde que tenhas conseguido conservar o que é superiormente estimável, como a independência e o direito de exprimir livremente os teus sentimentos.

143

           Sê firme na prática de todas estas máximas, e observa-as,  pois devem ser para ti leis invioláveis, e não te preocupe a maledicência, pois ela não figura no número das coisas que de ti dependem.

144

           Quando acusas a Providência, sabe que em ti próprio está a sua justificação. Em que possui o mau vantagem sobre ti? Na riqueza? Examina-lhe o interior, e dize se te não envergonharia a vida que ele observa. Há dias, exprimi esse pensamento a um homem a quem envergonhava a prosperidade de Filostorcos. Disse-lhe eu: - Venderias os teus favores a Sura? – Não o queiram os deuses, respondeu-me, preferiria, e com prazer, perdem vida. Por que, então, te envergonhas de uma dita que tem o seu preço? Por que o achas ditoso ao possuir coisas que detestas? Em que te maltratou a Providência dando-te o que de melhor possui? Não te queixes; a sabedoria é mais preciosa que as riquezas, e a humildade mais que a ambição.

145

           Não podes ser um Hércules, nem tampouco um Teseu, para limpar de monstros a terra; mas podes imitá-los, atirando para longe de ti os monstros que te assediam. Em vez de Procusto e de Círon, doma a violência da dor, o medo, a concupiscência, a inveja, a avareza, a preguiça e a intemperança. O único meio de vencer tais monstros é ter sempre diante dos olhos os deuses, ser-lhes devoto e obedecer apenas aos seus preceitos.

146

           Desejas muitas coisas e, entretanto, se desejasses menos, as conseguirias. És semelhante à criança que, desejando colher as frutas metidas num vaso de estreita abertura, nela introduzisse a mão e pretendesse tirá-la cheia. A ambição desmedida só pode frutificar em lágrimas.

147

           Não é raciocinar prudentemente dizer: – Sou mais rico do que tu, logo sou melhor; sou mais eloqüente, logo valho mais. – Para raciocinar consequentemente, é preciso dizer: Sou mais rico do que tu, logo o meu bem atual é maior; sou mais eloqüente, logo a minha eloquência vale mais do que a tua.

148

           Quando se atiram à população figos e avelãs, os meninos se espancam para colhê-los, mas os homens não dão a eles a menor importância. Distribuem-se governos de província: são frutas para os meninos; honras, consulados, são para mim figos e avelãs. Se, por acaso, tomba um deles na minha túnica, pego-o e como-o. É tudo quanto vale; mas não me curvarei para pegá-lo, nem muito menos pisarei o próximo.

149

           Os deuses me abandonam na pobreza, na miséria, no cativeiro. Não é por cólera que por mim experimentem, porque não há quem se encolerize com um fiel servidor; não é por descuido, porque não descuidam a menor coisa. Querem provar-me, querem ver se tem em mim um bom soldado, um bom cidadão; querem, enfim, que lhes sirva de testemunho vivo no seio dos demais homens.

150

           Até quando diferirás julgar-te digno de grandes feitos e por-te em estado de jamais ferir a reta razão? Recebeste os preceitos aos quais deverias dar o teu consentimento. Deste-o. Por que, pois, postergar a emenda? Não és uma criança, e sim homem feito. Se te descuidares, se te distraíres, se abrigares resolução e mais resolução, se todos os dias assinalares um novo em que haverás de prestar atenção a ti próprio, sucederá finalmente que, sem o perceberes, não terás realizado nenhum progresso, e perseverarás eternamente na ignorância. Valor, portanto; julga-te digno, desde hoje, de viver como homem, e como homem  que já realizou alguns progressos na sabedoria; que tudo quanto se te afigure bom e belo seja para ti lei inviolável. Se se te oferecer algo de penoso ou agradável, de glorioso ou vergonhoso, lembra-te de que a luta está aberta, que os jogos olímpicos te chamam, que não convém postergar, e sim, pelo contrário, levar a caba, e enfim que, de um momento a outro de um único ato de valor ou de covardia depende a tua salvação ou a tua perda. Não foi de outro modo que logrou Sócrates chegar à perfeição fazendo com que todas as coisas servissem ao seu fim, e seguindo constantemente a razão. Quanto a ti, embora não sejas Sócrates, deves viver como se tivesses de o ser um dia.

151

           Se nasceste de pais nobres, persuadido da tua nobreza, não deixas de tê-la constantemente diante dos olhos, e de com ela aturdir todos. Mas tens a divindade por pai, ela se manifesta em volta de ti, e esqueces-te dessa nobreza e ignoras de onde vieste, e a marca que trazes na testa. Eis aquilo de que deverás lembrar-te em todos os atos da tua vida. Pensa a todo instante: foi a divindade que me criou; está em volta de mim, em mim próprio a levo por toda parte. Por que ofendê-la com pensamentos obscenos, baixas e impuras ações e infames desejos?

152

           Se os deuses te houvessem incumbido da guarda de uma pupila, cuidarias dela e não permitirias se perdesse tão valioso depósito. Mas confiaram-te a guarda de ti próprio. Disseram-te: não julgamos poder colocar-te em mãos de tutor mais fiel, mais afetuoso; guarda-nos este filho tal qual é por natureza; conserva-no-lo cheio de pudor, de fidelidade, de magnanimidade, de valor, isento de paixões. E tu te descuidas. Haverá maior crime?

153

           Terias escrúpulo em cometer atos desonestos diante de uma estátua ou de uma imagem dos deuses; não obstante, vêem-te, ouvem-te, e não coras ao abrigar em sua presença pensamentos obscenos, que os ferem, que os desonram, que os afligem. Oh, inimigo dos deuses! Oh, covarde, que te esqueceste da tua natureza!

154

           Se fosses uma estátua de Fídias, a sua Minerva, ou o seu Júpiter, e tivesses consciência do teu estado, cuidarias, lembrando-te do obreiro que te dera a forma, de nada fazer que fosse indigno dele e de ti, e por nada no mundo quererias aparecer num estado indecente que desonrasse a tua beleza; mas, sem te inquietares absolutamente com aquele em que apareceres diante dos deuses, desonras a mão que te formou. Que diferença, entretanto, entre obreiro e obreiro, obra e obra!

155

           Quando fizeres alguma coisa depois de saberes a fundo que é o teu dever, não evites, ao fazê-la, ser visto, ainda que o vulgo forme de ti falsos juízos; porque se a ação é má, não deves realizá-la; e se é boa, não deve importar-te a condenem os maus.

156

           Quis certa matrona romana enviar uma grande quantia em prata a um dos seus amigos, chamado Grátila, desterrado por Domiciano; disse-lhe alguém que o imperador se apoderaria da quantia e a confiscaria. – Não importa, respondeu ela. Prefiro, a não enviá-la, que Domiciano a roube.

157

           Qual é o varão invencível? Aquele que, imóvel no seu lugar, não se preocupa com as coisas que não dependem da sua vontade; considero-o um verdadeiro atleta. Sustentou um combate. Sustentará o segundo? Resistiu ao dinheiro. Resistirá à beleza? Venceu em pleno dia, no meio do mundo. Vencerá, sozinho, durante a noite? Triunfará da glória, da calúnia, da adulação, da morte? Dominará todos os incômodos e todas as tristezas? Numa palavra, será vitorioso até em sonhos? Vê o atleta que eu procuro.

158

           Hércules houvera sido Hércules sem os leões, tigres, os monstros, os bandidos e demais seres de que livrou a terra? Sem tais monstros, de que lhe teriam servido os musculosos braços, a força e a coragem, a paciência invencível e as demais qualidades?

159

           Evita o juramento em tudo e por tudo; se não, sempre que o permitam as circunstâncias.

160

           Um pede o Tribunato; outro a chefia dos exércitos; eu o pudor e a modéstia, porque sou livre e amigo dos deuses e lhes obedeço de todo o coração. É, pois, necessário que não dê importância ao corpo, à riqueza, às dignidades, à reputação, nem a qualquer coisa estranha, porque não querem os deuses que eu lhes dê importância. Se o tivessem querido, houveram feito com que fossem bons para mim; mas, visto que assim não procederam, não são evidentemente bons, e obedeço às ordens deles.

161

           A primeira coisa que é mister aprender é que existe um Deus que a tudo governa com a sua providência e a não podem estar ocultos nem os nossos atos, nem os nossos pensamentos e vontades. Logo, é necessário examinar-lhe a natureza. Uma vez bem determinada e conhecida a sua natureza, é preciso que os que pretendem agradar-lhe e oferecer-lhe, se esforcem por parecer-se a Ele; que sejam livres, fiéis, benévolos, misericordiosos, magnânimos. Todos os teus pensamentos, todas as tuas palavras, todos os teus atos sejam, pois, atos, palavras e pensamentos de homem que imita a Deus e com Ele procura ter alguma semelhança.

162

           Ensinam os filósofos que o homem é livre. Ensinam, por conseguinte, a menosprezar a autoridade do imperador? Não. Nenhum filósofo ensina os discípulos a revoltar-se contra o seu Príncipe, nem a subtrair à autoridade dele nada do que lhe está submetido. Tomai, eis o meu corpo, os meus bens, a minha reputação, minha família; entrego-vo-los; e se achardes que ensino alguém a retê-los, matai-me; sou um rebelde. Não é isso o que ensino aos homens; ensino-lhes apenas a conservar a independência das suas opiniões, de que os fez donos exclusivos a Divindade.

163

           Sabei que o principal fundamento da Religião consiste em crer que existem os deuses, que estendem a sua providência sobre tudo quanto existe, que governam o Universo com perfeição e justiça, que o homem está no mundo para lhes obedecer, para admitir de bom grado tudo o que deles provenha, e prestar a sua aquiescência às coisas que deles procedem, como de Providência boa e sábia. Desse modo, jamais te queixarás dos deuses nem tampouco os acusarás de te haverem esquecido. Mas tais sentimentos não podes adquiri-los sem renunciar a tudo quanto de ti não depende, e fazendo consistir os teus bens e os teus males no que depende da tua vontade; porque se tomas por bem ou por mal uma coisa estranha, é absolutamente necessário que, uma vez que se te frustrem os desejos ou que caias no que temes, te encolerizes e acuses a causa dos teus males; porque todo animal nasceu para detestar e fugir de tudo o que lhe parece mau e prejudicial, assim como para buscar e querer tudo o que lhe parece útil e bom. É, pois, impossível que quem julga ser lastimado se mostre agradável a quem o fere; donde se segue que ninguém se regozija no seu mal. Por isso, o filho cobre de censuras e, talvez, de injúrias o pai, quando o não faz participar dos seus bens; por isso, tornaram-se inimigos irreconciliáveis Etéoclo e Polinice, que consideravam o Trono um grande bem; por isso, o lavrador, o piloto, o mercador, chegam a maldizer os deuses, e por isso, finalmente, se ouvem as queixas dos que perdem mulheres e filhos; porque, onde está a utilidade, está a piedade. Todo homem que cuida de ajustar desejos e aversões, segundo as regras prescritas, cuida de conservar e aumentar a sua piedade; nas suas libações, nos seus sacrifícios e nas suas oferendas, cada qual deve seguir o costume do seu país e realizá-los com pureza, sem ostentação, sem negligência, sem irreverência, sem mesquinhez, e, por fim, sem suntuosidade que lhe exceda as forças.

164

           Não sejas, mortal, ingrato aos bens que recebeste dos deuses, e não te esqueças dos seus grandes benefícios. Dá-lhes constantemente graças pela vista, pelo ouvido que te concederam – que digo! – pela própria vida e por todos os auxílios que te prestaram para sustentá-la; pelos próprios frutos da terra. Ao mesmo tempo, porém, lembra-te de que te deram algo de mais precioso ainda, a faculdade que, servindo-se de todas as coisas, as analisa e a cada uma atribui o seu valor.

165

           Tendo sido Galba morto, disse alguém a Rufo: – Atualmente, a Providência toma parte nas coisas do mundo. – Desgraçado, respondeu-lhe Rufo, julgas, por acaso, que Galba alguma vez logrou impedi-lo?

166

           Se o Príncipe te houvesse adotado, terias insuportável orgulho. Mas esqueces a Divindade, à qual tanto deves.

167

           Se obrássemos com bom juízo, não faríamos outra coisa na vida pública e particular senão dar graças à Providência por todos os bens que dela recebemos. Lavrando, comendo, passeando, levantando-nos e deitando-nos, diríamos: – A Providência é grande! Tudo repercutiria o eco destas divinas palavras: A Providência é grande! Mas sois ingratos e cegos; é preciso, pois, que o diga eu por vós, e que, velho, coxo, pobre e enfermo, repita sem cessar: Como é grande a Providência!

 

168

           Se eu fosse rouxinol ou cisne, faria o que deve fazer o cisne ou o rouxinol; mas sou homem, e tenho por patrimônio a razão. Que devo fazer? Louvar a Divindade. É o que farei a vida toda, e exorto todos os homens a fazer o mesmo que eu.

169

           Os soldados que se alistam nas tropas de César prestam o juramento costumeiro. Qual é esse juramento? Que preferirão o bem do imperador a todas as coisas, que lhe obedecerão em tudo, que se exporão à morte por ele. Tu, que estás ligado à Divindade pelo teu nascimento, e por tantos benefícios que dela recebeste, tu que nasceste nas suas tropas, não farás análogo juramento? E, uma vez feito, não lhe serás fiel? Que diferença, contudo, entre os dois juramentos! O soldado jura que preferirá a salvação do imperador a todas as coisas, e tu juras que preferirás a todas as coisas a tua própria salvação.

170

           – Como poderei persuadir-me, disse alguém a Epicteto, de que todas as minhas ações são vistas pela Divindade, sem que uma só passe inadvertida? Respondeu-lhe Epicteto: – Não estás persuadido de que todas as coisas do mundo estão entrelaçadas? – É claro. Não estás persuadido de que as coisas terrenas são reguladas pelas celestiais? – Estou. Com efeito, vês que todas as coisas da natureza sucedem em tempos assinalados, como, por exemplo, as estações. Ao nascer e ao pôr do sol, quando a lua cresce e mingua, a face da natureza muda. Pois se todas as coisas deste mundo miserável, se os nossos próprios corpos estão ligados e tão unidos ao todo, como podes imaginar que a nossa alma, muito mais divina que todo o universo, seja a única isolada e não esteja unida à Divindade que a criou? – Mas, como pode ela ver ao mesmo tempo tantas coisas tão diversas e distantes? – Pobre cego, quantas operações diferentes não realiza de uma só vez o teu entendimento, embora tenha tão estreitos limites? Abraça as coisas divinas e humanas; raciocina, divide, julga, consente, nega. Quantas imagens diferentes, quantas idéias contrárias não encerra? O sol ilumina ao mesmo tempo a maior parte do mundo; o que se oculta aos seus raios é apenas uma parte da terra; e Aquele que fez o sol, que, por imenso que seja, não é mais do que um ponto no enorme universo, não iluminará a terra inteira? – Mas o meu entendimento não faz as suas operações senão sucessivamente, e não pode considerar os objetos senão um depois do outro. – Quem te disse que o teu entendimento é tão extenso como a própria Divindade? Considera, verme que és, quantos objetos diferentes abraça de uma só vez o olho, que é tão pequeno. Tudo o que o horizonte encerra se apresenta simultaneamente à vista. Que poderá escapar à vista de quem fez o olho?

          

171

           Os deuses não me deram multidão de bens; não quiseram que eu nade na opulência, nem tampouco que me entregue aos prazeres; mas de que me queixo? Não trataram melhor Hércules, que tantos feitos realizou em honra deles.

172

           Quando consultamos os áugures, é tremendo e dirigindo aos deuses ardentes preces. – Deuses, tende piedade de mim, permiti que me livre felizmente deste ou daquele cuidado, – Vil escravo! Queres outra coisa que a que te convém? Que pode convir-te mais que fazer a vontade dos deuses? Por que, pois, tentas corromper o teu árbitro e o teu juiz, enquanto pedes?

173

           Por que consultar os adivinhos acerca das coisas em que o nosso dever está marcado? Se se trata de expor-me a um perigo pelo meu amigo, devo morrer por ele; que necessidade tenho de adivinho? Não possuo dentro de mim próprio um adivinho mais seguro e incapaz de enganar-me, que me ensinou a natureza do bem e do mal, e que me explicou todos os sinais pelos quais os devo reconhecer?

174

           A fraqueza do homem pelos oráculos e adivinhações procede da sua timidez. Teme os sucessos, e é por isso que tem pelos adivinhos inexplicável complacência; fá-los árbitros e juizes de todos os seus assuntos, confia-lhes tudo quanto tem, e se lhe predizem algo de bom, os gratifica, como se lho estivessem dando. Que cegueira! Se fôssemos prudentes, consultaríamos os adivinhos do mesmo modo pelo qual perguntamos pela direção numa jornada, sem nos importar que seja para a esquerda ou para a direita que devemos passar. Porque, que é consultar os adivinhos? Indagar a vontade dos deuses para realizá-la. Deveríamos, pois, servir-nos dos oráculos como dos olhos, aos quais não tentamos fazer ver estes ou aqueles objetos, deixando, pelo contrário, que nos mostrem o que vêem. Façamos o mesmo com os adivinhos; não lhes supliquemos, e limitemo-nos a fazer o que nos mandarem.

175

           Acusar os demais das próprias desditas é coisa de ignorante; acusar apenas a si próprio é coisa de homem que começa a instruir-se; não acusar nem a si próprio nem aos outros é coisa de homem já instruído.

176

           Quando fores consultar o adivinho, lembra-te de que ignoras o que deve suceder, e que vais sabê-lo. Mas lembra-te ao mesmo tempo que, se fores filósofo, vais consultá-lo, muito bem sabendo de que natureza é o que deve suceder; porque se for coisa que de nós não dependa não poderá ser seguramente nem um bem nem um mal para ti. Não leves, pois, contigo, ao adivinho, inclinação ou aversão por coisa nenhuma; de outro modo, tremerás sempre; persuade-te, pelo contrário, e convence-te de que tudo quanto suceder será indiferente, não te dirá respeito, e que de qualquer natureza que seja, de ti depende fazer dele bom uso, sem que ninguém consiga impedir-to. Vai, pois, com confiança, como quem se aproxima de deuses que se dignam aconselhar e, ademais, quando te houverem sido dados alguns conselhos, lembra-te do que são os conselheiros aos quais recorreste, e que a tua desobediência será menosprezo das suas ordens. Não vás ao oráculo se não como Sócrates queria se fosse, isto é, não vás senão para as coisas que só podem ser conhecidas pelo acaso, e não podem ser previstas nem pela razão nem pelas regras de qualquer arte. Assim, quando se te deparar oportunidade de te expores a grandes perigos pelo amigo ou pela pátria, não vás consultar o adivinho se tiveres de fazê-lo, porque se te declarar que são más as entranhas das vítimas, serás evidente que o sinal te pressagia a morte, os ferimentos ou o desterro; afirma-te, porém, a razão, em que pese a todas essas coisas, que deves socorrer o amigo e expor-te pela pátria. Apolo Pitiano atirava para fora do seu templo quem, vendo em perigo de morte o amigo, o não ajudava.

177

           Só cortejo os poderosos. Mas é esse o teu destino? De mim sei dizer que não nasci para tal coisa. Não tenho a quem comprazer, obedecer e submeter-me? Tenho os deuses, nos quais está o verdadeiro poder.

178

           Quando tiveres de conversar com alguém, sobretudo se se tratar de um dos principais da cidade, imagina o que houvera feito Sócrates ou Zeno em tal entrevista. Desse modo, não terás o menor embaraço em cumprir o dever e valer-te convenientemente de tudo quanto puder deparar-se-te.

179

           Supondo que homem livre é aquele a quem tudo sucede como deseja, disse-me um louco, quero que me suceda tudo quanto me aprouver. Meu amigo, jamais andam juntas a loucura e a liberdade. A liberdade não é uma coisa somente belíssima, senão também racional, e não há nada mais absurdo nem mais irracional que desejar temerariamente e pretender que as coisas se verifiquem do modo pelo qual as pensamos. Quando tenho de escrever o nome próprio Díon, devo escrevê-lo não como me agradaria, mas tal qual é, sem a mudança de uma única letra. Sucede o mesmo em todas as artes e ciências. E queres que na maior e mais importante de todas as coisas, como é a liberdade, impere o capricho e a imaginação? Não, meu amigo, a liberdade consiste em querer que as coisas sucedam não como as desejamos, mas como são.

180

           Esperas ser feliz uma vez que tenhas obtido o que solicitas. Enganas-te; terás as mesmas inquietações, os mesmos cuidados, os mesmos aborrecimentos, os mesmos temores, os mesmos desejos. A felicidade não consiste em adquirir e desfrutar do adquirido, mas em não desejar, porque consiste em ser livre.

181

           Os deuses me deram a liberdade, e não desconheço os mandamentos. Por conseguinte, ninguém logrará reduzir-me à escravidão, porque tenho o libertador que me falta e os juizes dos quais careço.

182

           Um dia, perguntava Floro a Agripino: – Devo ir ao teatro com Nero? – Vai, respondeu Agripino. – E tu, retrucou Floro, por que não nos acompanhas? – Porque não sei calar-me.

183

           Estava muito bem gravada no coração de Prisco Helvídio essa máxima, e ele soube pô-la nobremente em prática. Um dia, ordenou-lhe Vespasiano que não fosse ao Senado. – Tem Vespasiano o poder de afastar-me do meu cargo, respondeu Helvídio, mas enquanto eu for senador, irei ao Senado. – Se vieres, disse-lhe o Príncipe, virás somente para calar-te. – Não me peças conselho, respondeu Helvídio, e eu me calarei. Mas se estiveres presente, retrucou o Príncipe, não poderei deixar de pedir-te conselho. – E eu, disse Helvídio, dir-te-ei o que me parecer justo. – Se o disseres, far-te-ei morrer. Quando te assegurei que eu era imortal? replicou Helvídio. Ambos faremos o que de nós depender; tu me farás morrer, e eu, sem queixa, me submeterei à morte. Que lucrou com isso Helvídio, sendo o único que se colocava em tal situação? O mesmo que a púrpura sobre a túnica; orna-a, embeleza-a, e causa aos outros inveja e desejos de possuir uma semelhante.

184

           – Foste condenado ao desterro. Mas haverá lugar fora do mundo para o qual eu possa ser enviado? Para onde quer que eu vá, não terei céu, sol, lua e estrelas? Não terei sonhos e agouros? Não poderei manter comércio com os deuses?

185

           Depois de todos os prazeres de que desfrutavas na pátria, e que perdeste, subsiste o de pensar que obedeces aos deuses e cumpras, real e efetivamente, o dever do homem bom e sábio. Grande prazer é poderes dizer a ti próprio: a estas horas semeiam os filósofos grandes coisas nas escolas, explicam todos os deveres do homem de bem, e eu os pratico. O que ensinam são as minhas virtudes: fazem o meu panegírico, sem o saber, porque realizei o que louvam e propagam.

186

           Lembra-te de que não é quem te injuria, nem quem te fere, quem te maltrata, senão a opinião que deles tens e que te faz encará-los como inimigos. Quando alguém se encoleriza e irrita, sabe que não é esse homem que te irrita, senão a opinião que tens das coisas. Trata, pois, de impedir que a imaginação te vença, porque se alguma vez o consegues, podes chegar a ser mais facilmente senhor de ti próprio.

187

           Para amar, devem colocar-se no mesmo lugar a santidade, a honestidade, a utilidade, a pátria, os pais, os amigos e a própria justiça. Se se separam, não há amizade; se o que é meu, ou seja, o meu interesse está com a honestidade e a justiça, sou bom amigo, bom pai, bom filho, bom marido; mas se de um lado está o meu interesse e de outro aquelas virtudes, não é possível a amizade, nem a existência dos deveres mais santos e indispensáveis.

188

           Um mestre de ginástica me exercita, endurecendo-me o pescoço, os ombros, os braços e ordenando-me provas penosas. – Levanta este peso com as duas mãos, diz-me. Quanto maior o peso, mais se me fortificam os nervos. O mesmo é o homem que me maltrata e injuria; exercita-me na paciência, na clemência, na mansidão, exercício pelo menos tão útil como o primeiro.

189

           Somente o sábio é capaz de amizade. Como pode amar quem confunde o mal com o bem?

190

           Os que se apegam à moleza, à voluptuosidade ou à vanglória não podem estimar os homens. O único amigo dos homens é aquele que ama a decência e a honestidade.

191

           Quando alguém te causa dano ou de ti fala mal, reflete que ele julga estar obrigado a tanto. Não é possível que siga os teus juízos, senão os seus, de modo que, se julga mal, a si apenas é que prejudica, porque somente ele se engana; assim, se alguém tacha de falso um silogismo muito justo e racional, não é o silogismo que perde, senão quem se engana julgando erradamente. Se te servires cuidadosamente dessa regra, suportarás com paciência todo mal que de ti se diga, porque não deixarás de afirmar do maldizente: – Diz isso, porque de boa fé o acredita.

192

           – Não devo vingar-me e devolver o mal que me fizeram? Meu amigo, não te fizeram o mal, visto que mal e bem só dependem da tua vontade. Quanto ao resto, se um tolo feriu a si próprio cometendo contra ti uma injustiça, por que pretendes imitá-lo?

193

           – Quando alguém te repetir o mal que outro falou de ti, não te preocupes com refutar o que se afirma, e responde simplesmente: – Quem assim falou de mim ignora, sem dúvida, os meus outros vícios, pois de outro modo se não contentaria com afirmar tais futilidades.

194

           O varão prudente aguarda sempre dos maus maior mal que o que deles recebe. Um semelhante me injuria; dou graças por me não haver golpeado. Golpeia-me; dou graças por me não haver ferido. Fere-me; dou graças por me não haver matado.

195

           Quando chegar ao teu conhecimento qualquer má notícia, lembra-te de que nada tem de ver contigo, pois não diz respeito a nenhuma coisa das que estão em teu poder. – Acusa-se-me de impiedade? Pois bem, Sócrates também não foi acusado? – Mas poderão condenar-me. – Também Sócrates foi condenado. Lembra-te de que a pena não está onde não está o erro; é impossível que estas duas coisas se separem. Não te consideres, pois, desditoso. Quem, a teu ver, foi mais desditoso, Sócrates ou aqueles que o condenaram? O mal não está em ser acusado como ímpio, senão em o ser. Portanto, o perigo não é para ti, mas para os juizes, porque tu não podes, de maneira nenhuma, morrer culpado, e eles podem fazer morrer um inocente.

196

           Em que ocupação desejas que a morte te surpreenda? Eu, por mim, quisera que me surpreendeste em ato digno de homem, grande, generoso e útil ao gênero humano; ou melhor, quisera que me surpreendesse ocupado em me corrigir, e atento a todos os meus deveres, para em tal momento poder erguer ao céu as mãos, puras e limpas de todo crime, e dizer aos deuses: todas as faculdades que de vós recebi para conhecer a vossa providência e para lhe ser eternamente submetido foram por mim observadas; até onde me chegaram as forças tratei de vos não desonrar. Vede o uso que fiz dos sentidos, das faculdades. Jamais me queixei de vós; jamais, por causa nenhuma me envergonharei da minha origem divina; nunca senti pesar pelo que tive de fazer por vós, nem desejei trocar essa tarefa por outra. Não violei as vossas ordens, e dou-vos graças por me haveres criado. Usei dos vossos bens, na medida em que mo permitistes; quereis retirar-mos, eu vo-los devolvo, são vossos, disponde deles como vos aprouver. Eu próprio me coloco em vossas mãos.

197

           Entristece-te ter que abandonar lugares tão belos; lamentas-te, choras. És, pois, mais desgraçado que os corvos e gralhas, que mudam de clima e passam os mares sem gemer e sem saudades do páramos que abandonam. – Mas esses animais carecem de razão. – Não te deram os deuses a razão para algo melhor que para te fazeres mísero? Pretendes que os homens sejam como as árvores, sujeitas pelas raízes e impossibilitadas de mover-se? – Entristece-me deixar os amigos. – Ora, o mundo está repleto de amigos e de protetores; todos os homens estão unidos pela natureza. Ulisses, que tanto viajou, não encontrou amigos? Não os encontrou Hércules?

198

           Esforça-te para que te não turve a idéia de ser menosprezado e de nada ser no mundo; porque se o menosprezo é um mal, não podes cair no mal por intermédio de outro, nem tampouco no vício. Depende de ti desempenhar os principais cargos? Está em tuas mãos seres convidado, ou não, a um festim? De maneira nenhuma; como, pois, há de ser isso para ti menosprezo ou desonra? De que modo deixarás de ser alguma coisa no mundo, quando, se és alguma coisa, sê-lo de ti é que depende? – Mas os meus amigos carecerão, por minha parte, de todo socorro. – Que queres dizer? Queres, acaso, manifestar que não poderás dar-lhes dinheiro nem fazê-los cidadãos romanos? Quem te disse que tais coisas pertencem ao número das que de ti dependem, e como podemos dar aos outros o que nós próprios não possuímos? Procura o teu bem estar, dizem-te, para que nós participemos dele. Se puder procurá-lo, conservando o pudor, a modéstia, a fidelidade, a magnanimidade, mostrai-me o caminho por seguir para que eu chegue a ser rico, e sê-lo-ei; mas se pretendeis que perca os meus verdadeiros bens, com o intuito de adquirirdes vós os falsos, examinai a desigualdade da vossa balança e até onde vos leva a vossa inconsideração e ingratidão. Preferis o dinheiro a um amigo prudente e fiel? Não fora melhor ajudar-me a adquirir tais virtudes que exigir faça eu coisas que mas fariam perder? – Mas dirás ainda: a minha pátria não receberá de mim nenhum serviço. Que serviço? Não conseguirá, por teu intermédio, pórticos nem termas? E que é isso? Certamente ninguém obtém calçados por meio de um ferreiro, nem armas com o trabalho de um sapateiro; é preciso que cada um, dentro da sua esfera, se dedique apenas ao seu trabalho. Mas se dás à tua pátria um novo cidadão prudente, modesto e fiel, não lhe prestas assinalado serviço? Certamente lhe prestarás um muito grande e não lhe serás, portanto, inútil. Que posição ocuparei, portanto, na cidade? A que puderes lograr, conservando-te fiel e modesto. Que serviço podes prestar à tua pátria, que posição ocuparás na cidade, se chegares a perder essas virtudes?

199

           Quando fores visitar um varão poderoso, imagina que o não encontrarás em casa, que estarás doente, que te será fechada a porta ou que te não dará a menor importância. Se depois disso, o dever te obrigar a ir, suporta com resignação tudo quanto suceda, e nunca digas que foste contrariado, porque tal linguagem só é própria do vulgo ou daquele para quem possuem as coisas exteriores demasiado poder.    

200

           Supões que foi uma grande desdita para Páris entrarem os gregos em Tróia, destruírem-na a sangue e fogo ou matarem toda a família de Príamo e raptarem as mulheres. Enganas-te, meu amigo. A grande desdita de Páris se realizou quando perdeu o pudor, a fidelidade, a modéstia, e quando violou a hospitalidade. Igualmente, não consistiu a desdita de Aquiles na morte de Patroclo, senão quando chorou e se esqueceu de que não partira para a guerra em busca de amantes, e sim para devolver a um marido a esposa.

201

           Guarda-te de fazer o papel de zombeteiro e de trocista, porque tal defeito te fará cair insensivelmente nas maneiras baixas e grosseiras, e fará que percam os outros o respeito e a consideração que por ti sentem.

202

           Não é menos prejudicial entregares-te a conversações obscenas. Quando te encontrares nessa espécie de conversações, não deixes, se to permitir a ocasião, de repreender quem estiver com a palavra; se não, guarda, ao menos silêncio, e dá a conhecer, pelo rubor da face e pela severidade do olhar, que te não são agradáveis tais conversações.

203

           Nunca viste uma feira a que acodem homens de todos os distritos? Uns vão vender, comprar outros, e um pequeno número por curiosidade, unicamente para ver a feira e saber porque se celebra e quem a estabeleceu. É a mesma coisa o mundo: todos os homens estão nele, uns para vender, para comprar outros; pouquíssimos há que admirem este grande espetáculo e examinem o que é, quem o fez, para que o fez e como o governa, porque é impossível não seja feito e governado por alguém. Uma cidade, uma casa, não existem sem obreiro, e se duram é porque alguém as governa; máquina tão imensa e admirável não pode existir por puro acaso; é impossível. Logo, existe alguém que a fez e a governa. Quem é e como a governa? E nós, que também somos obra sua, que somos e por que somos? Pouquíssimos fazem tais reflexões, e, após admirarem a obra e bendizerem o obreiro, se retiram contentes. Se alguém as faz é alvo das chacotas dos outros, como na feira o são os simples curiosos, a quem chamam tolos os mercadores. Se os bois e os carneiros pudessem falar, certamente se ririam de todos os que pensassem noutra coisa que não comer e ruminar.

204

           Não te esqueças do valor e da serenidade de Latrão. Tendo-lhe Nero enviado o seu liberto Epafrodita, para interrogá-lo sobre a conspiração em que entrara, limitou-se a responder ao liberto apenas isto: – Quando tiver o que dizer, di-lo-ei ao teu amo. – Serás agrilhoado. – Achas que isso bastará para me entristecer? – Irás para o desterro. – E que me impede ir alegremente, cheio de esperança e de contentamento pelo meu novo estado? – Serás condenado à morte. – Mas… é obrigatório morrer murmurando e gemendo? – Dize-me o teu segredo. – Não o direi, porque isso depende de mim. – Carregar-te-ei de ferros. – Que dizes, meu amigo? A mim é que ameaças carregar de ferros? Duvido. Carregarás, sem dúvida, minhas pernas e meus braços; mas a minha vontade será sempre livre e nem o próprio Júpiter ma poderá tirar. – Mandarei agora mesmo que te cortem o pescoço. – Disse-te eu alguma vez que o meu pescoço tem o privilégio de não poder ser cortado? As obras corresponderam as palavras; levado Latrão ao suplício, foi o primeiro golpe do verdugo demasiadamente fraco para lhe cortar a cabeça; Latrão ficou um instante aturdido; mas imediatamente recobrou os sentidos e de novo apresentou o pescoço com firmeza e constância.

205

           Se nos encontrássemos num calabouço e em vésperas de ser julgados por uma acusação capital, poderíamos admitir o homem que nos perguntasse se não queríamos ouvir um hino por ele composto? – Meu amigo, dir-lhe-íamos, por que vens importunar-me em tão má ocasião? Tenho cuidados de muita importância. Não sabes que devo ser julgado amanhã? Não tenho a serenidade de Sócrates, que compunha hinos na véspera da morte.

206

           Foi Agripino modelo de homens contentes com a sorte. Anunciou-se-lhe que o Senado estava reunido para o julgar. – Em boa hora! exclamou; vou preparar-me para o banho, segundo o meu costume. – Apenas saiu do banho, disseram-lhe que fora condenado. À morte, ou ao desterro? – Ao desterro. – Confiscaram-me os bens? – Não, deixam-nos em teu poder. – Nesse caso, partamos, sem demora. Vamos comer no lugar de desterro; comeremos tão bem como em Roma.

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