Metafísica, história do ser e subjetividade – uma reconstrução a partir dos fragmentos de Nietzsche: metafísica e niilismo.

Metafísica, história do ser e subjetividade – uma reconstrução a partir dos fragmentos de Nietzsche: metafísica e niilismo.

Metafísica,
história do ser e subjetividade – uma reconstrução a partir dos
fragmentos de Nietzsche: metafísica e niilismo.

Roberto S. Kahlmeyer-Mertens [1]

Resumo: O
propósito do artigo é elaborar um estudo sobre as noções de metafísica,
história do ser e subjetividade no pensamento de Heidegger. Para tanto,
interpretaremos estas concepções na obra Nietzsche – Metafísica e niilismo, de sua autoria. Assim, faremos uma ordenação de alguns dos fragmentos deste
trabalho.

Palavras-chave: Heidegger, Nietzsche – Metafísica e niilismo, metafísica, história do ser,
subjetivismo

O artigo propõe o tema metafísica, entendido como história do ser.
Enfoca o período conhecido como filosofia da subjetividade, desde o pensamento
do filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976); considera, portanto, algumas
das figuras que o autor entende essenciais a este processo, a saber, aquelas
que se afiguram estações da chamada história da subjetividade moderna.
Na atual situação da pesquisa, deter-nos-emos em uma única obra do autor: Nietzsche
– Metafísica e Niilismo
(1946-1948). Assumimos por problema a questão: como
Heidegger interpreta a história do ser e no universo da filosofia da
subjetividade;
tendo o objetivo de esclarecermos-nos acerca desta e das
compreensões que o autor têm de metafísica, seu começo, desdobramentos (no seu
itinerário próprio), fim e superação. Especificamente, o texto consiste na
tentativa de elaborar uma breve reconstrução desses conceitos históricos a
partir de uma bricolagem que encadeia passagens dessa obra
a-sistemática, buscando uma unidade temática.Tentaremos validar a hipótese de
que a concepção heideggeriana de metafísica, como história do ser, é
capaz de fornecer a unidade requerida por nós, exercício que se justifica por
esboçar o plano de questionamentos relevantes ao horizonte do pensamento
contemporâneo.

O trabalho possui quatro tópicos que abordarão, respectivamente: I. a
conceituação da metafísica como história do ser; II. sua origem e sua
implicação com a pergunta “o que é o ente?”; III. apresentação sumária dos
desdobramentos desse problema na história; IV. a explicação do caráter
histórico-ontológico da temática do ser, após sua superação. Advertimos,
finalmente, que o trabalho é produto parcial de uma pesquisa em andamento,
possuindo questões em aberto, que buscaremos sanar por meio da presente
reflexão.

I

O argumento se desenvolve a partir da seguinte concepção de metafísica
vigente em Heidegger (2000): “A metafísica é essencialmente história do ser (Seyn)[2] enquanto destino da verdade do ente (destino da verdade do ente e fio condutor
de seu esboço)”. Nesta passagem, podemos observar que o nomeado por
história foge da compreensão imediata de historiografia. O que contaria com
momentos prévios, essencialmente definidos; que receberiam interpretação
através de classificações, feitas de acordo com escolas e doutrinas na própria
metafísica. Não é essa compreensão que Heidegger tem de história da metafísica,
pois em seu modo de apreendê-la, o autor parte da consideração deste fenômeno
em sua errância e destino.

Por um lado como errância,
concebendo a metafísica como o processo de determinação incondicional da
verdade dos entes (do ser da totalidade). Entendida como aquela que erra
neste intuito e que nesta errância faz-se aberta às diversas épocas do ser em
seu questionamento, a ponto de não se distanciar deste. Assim, o que está em
jogo na metafísica em seu processo, é a tentativa de estabelecer isto que
dotaria o ente de sua entidade. Heidegger (2000) nos ilustra essa
situação assim: “nesta errância reside, entretanto, uma indicação velada para o
interior da pergunta pelo ser, suposto que esta pergunta já tenha antes
acontecido apropriativamente e principalmente em função do ser mesmo”. Por
outro lado
, enquanto destino, por inserir-se e encaminhar-se a compreensões
que buscam esclarecer um sentido próprio deste ser, já determinadas pelas
próprias concepções históricas com que este é apreendido. Isso nos demonstra
que a metafísica, pensada por Heidegger, neste momento, deve partir da
consideração do modo com que é tratada neste processo. Tratamento já feito de
acordo com um destino que se conforma em história, que só faz sentido se
pensada como itinerário das épocas do ser (que se revela à nós no interior do
processo metafísico, por meio da interpretação da pergunta objetiva por sua
verdade). Pois, segundo Heidegger (2000): “A história do ser só é de
qualquer forma experienciável a partir da sondagem da verdade do ser, sendo que
esta mesma acontece apropriativamente em função do ser”.

Observemos que em ambas as
citações que buscam ilustrar a metafísica como história do ser fica evidente
uma preocupação apropriativa do ser da totalidade. O que vem confirmar o
indispensável compromisso que esse processo tem com a questão da verdade, ainda
que o modo de expressar esse compromisso, em um primeiro momento, não se porte
de maneira coerente ao modo constitutivo do ser em seu fenômeno.

O que estaríamos querendo significar quando afirmamos que a pergunta
metafísica em seu modo de se instalar seria incoerente ao modo do ser? O que,
afinal, poderíamos entender por modo constitutivo do ser em seu fenômeno? Responderemos: a busca por uma compreensão de ser é incoerente, pois tal
pergunta ao instalar-se já parte do descuido (Versäumnis) de
desconsiderar o modo evidente e logo pré-temático deste ser, não limitando-se
ao mero aparecer do ente no fenômeno e ao seu modo de ser mais imediato;
criando uma anterioridade conceptual que o põe em questão. Esse questionamento se traduz com a pergunta grega (ti tó on) “o que é o
ente?”
, pergunta que, para Heidegger (2000), inaugura a metafísica, ao
questionar a essência do ser e, com isso, o ser mesmo.

II

Para Heidegger, a pergunta pelo ente na totalidade, enquanto tal, é
aquela que traz consigo o germe que desencadeia todo o processo metafísico,
pois tal indagação já partiria da obstrução do caráter de fenômeno com o qual
este ente se apresenta, gerando, assim, o desenfreado processo de determinação
da verdade do ente, para além da aparição do mesmo. Tal pergunta age como uma
“cunha”, apartando a evidência da verdade deste ente que se apresenta, criando
arbitrariamente a duplicação e o primado da essência sobre o ente em seu
fenômeno. Heidegger chamará esta obstrução de “esquecimento de ser” (Seinsvergessenheit),
que é o fenômeno que marca a situação histórica propícia para a pergunta
metafísica o que é o ente? e a cisão que ela instaura (HEIDEGGER, 2000).

O esquecimento do ser exprime o espaço histórico da existência ocidental,
instaurado pela “dialética” da verdade do próprio ser em sua tensão e retração.
Assim, podemos afirmar que a história da metafísica tem seu começo com o
questionamento pela verdade do ente
. Dizendo de modo claro, tal
questionamento inaugura a história da perspectiva que procura se assegurar de
uma suposta verdade metafísica que o ente, a totalidade dos entes, e a
realidade possuiriam.

Com este esboço, do que está em jogo na pergunta metafísica o que é o
ente?,
fica marcado o que Heidegger chama de primeiro começo da filosofia.
Este, significa o começo do pensamento do ser (Sein) como o que há de
mais essencial no início da metafísica.

Contudo, talvez ainda não tenhamos as proporções das conseqüências da
formulação desta questão e da complexidade o processo que ela engendra. Em um
primeiro exame, constata-se que ela gera uma cisão entre o ente e aquilo que
seria sua verdade
, sua essência. Após esta cisão, nossa questão passa a ter
um quadro bem diverso daquele descrito anteriormente. A partir deste momento,
passamos a ter o ente
“essencialmente duplo” sendo que esta
duplicação é, como se queira, unilateral e mesclada (HEIDEGGER, 2000). Sendo,
pois, o que nosso autor chama de “diferença ontológica”, que é a distinção
referente ao fundamento cujo ente agora se essencializa em seu ser. Em vista
desta, há, agora, o ente e algo deste ente dá sustentação à sua vigência
constante no fenômeno, há este e sua verdade. Fica assim determinada, a origem
do problema metafísico, que à luz do esquecimento do ser, passa a ser vista
como o esquecimento, ou obstrução da referência ao modo de ser do ser na
diferenciação de seu fenômeno.

Somente a partir dessa situação descrita aqui poderemos iniciar a tarefa
de demonstração sumária dos desdobramentos deste problema, como se seguirá
adiante.

III

Ainda na Grécia, a essência do ente recebeu o nome de “hypokeímenon”, que
literalmente indica algo que se encontra sob o ente, indicando um
sustentáculo. Com o mesmo sentido, a tradição medieval, e parte da modernidade,
traduziram este nome por “subjectum”, guardando a compreensão de ente real
sobre o qual recaem determinações predicáveis
. Assim, parece instituir-se
definitivamente a crença de que tudo que é real possui necessariamente um
suporte, substância.

Com a filosofia moderna, a compreensão de “sub-instância” dessa essência
é apropriada de outra maneira decisiva, aquela que pensa, pela primeira vez,
este subjectum como “sujeito”. Descartes assim o faz. Com ele, a
essência daquilo que se apresenta é submetida a condição de sujeito autônomo,
que põe o ente à medida em que o representa (HEIDEGGER, 2000), ou seja:
“Enquanto estabelecimento do subjectum no sentido de sua fixidez.(…)
Como subjetividade transpõe cada vez mais o âmbito do ser-humano e este
transforma-se em (…) produtor e propriedade” (HEIDEGGER, 2000).

Tal interpretação é assumida também por Kant, que parte desse pressuposto
para uma crítica dos limites de um sujeito que se lança ao conhecimento dos
entes (HEIDEGGER, 2000), para com isso confirmar, no sentido moderno do
idealismo subjetivo, a fundação necessária para o acabamento da metafísica.
Destarte, dizendo com o autor:

A
metafísica kantiana: os conceitos metafísicos fundamentais de substância e
causalidade nunca são para Kant questionáveis enquanto as determinações dos
entes enquanto tais. Ele só coloca em questão o modo e o limite da metafísica:
nunca a metafísica mesma (HEIDEGGER, 2000, p.118).

Daí, se a essência do ente, se a verdade do que se apresenta, é
posta pelo sujeito, a tarefa que coube ao próximo passo filosófico essencial
foi determinar o modo de ser deste sujeito. Assim Hegel faz, quando após todo o
movimento de sua Fenomenologia do Espírito, o sujeito, na forma de
“consciência”, descobre a si mesmo com a verdade do real, alçada ao final do
movimento reflexivo deste sujeito; compreendendo o movimento de determinação do
ser como história. Entretanto, o modo com que este movimento acontece, para
Hegel, ainda é transição entre modos da consciência, calcando-se na compreensão
de uma subjetividade, também sistemática da essência histórica.

Com esta manobra, o que Hegel fez foi transferir para o próprio âmago da
idéia de sujeito a condição de fenômeno que Kant ainda cingia à esfera do
objeto. Assim, a pergunta pelo ser e o processo que deriva desta pergunta chega
ao fim, quando a dicotomia entre a subjetividade e o objeto por ela posto,
sublima-se na fusão do objeto no sujeito, passando a possuir, a partir deste
momento, a mesma textura ontológica. Isso consuma, a perspectiva metafísica que
agora afirma que a verdade está no todo, e que este é consciência absoluta.

Heidegger endossa esta interpretação quando enuncia: “Também a metafísica
de Hegel é completamente lógica: isto é, ela realiza a essência da metafísica
ocidental até seu acabamento. Restou apenas o passo em direção à sua inessência
incondicionada; este passo foi levado a termo por Nietzsche” (HEIDEGGER, 2000).
Deste modo, a essência da modernidade, na forma de consciência absoluta que
encontra o fundamento do ser, realiza-se incondicionadamente. Isto acontece,
pois, a metafísica propiciou seus próprios meios em execução deste que é um
momento decisivo ao ser.

A experiência descrita nos põe diante de uma situação nunca antes
experimentada; trata-se do “fim (ou acabamento) da metafísica”, tema
cujos muitos pressupostos de que se necessita para ser explicado derivam do
material teórico apresentado até aqui. Para Heidegger, este fim não é uma mera
interrupção ou conclusão, fim é acabamento (Volledung).

Se compreendermos a metafísica tal como Heidegger, no já aludido
processo ou errância, em que a questão do fundamento se desdobra em história,
Nietzsche ocuparia, nesta, uma posição bem específica e nada casual.
Exatamente, aquela na qual alguns autores chamariam de “fim da filosofia” (ou
acabamento da metafísica).

No que concerne a Nietzsche, a metafísica tem fim não porque ele a
rejeita ou se volta contra ela, mas porque na avaliação de Heidegger, “Com a
metafísica de Nietzsche, a filosofia acaba. Isto quer dizer: ela já percorreu
todo o âmbito das possibilidades que lhe foram pressignadas” (HEIDEGGER,
2000). Fim é acabamento, não no sentido de uma realização de um ideal supremo
(HEIDEGGER, 2000), mas ao contrário, por criar condições para que este processo
experimente o que Heidegger chama do surgimento da última configuração de uma
determinada instância na forma de uma inserção da inessência extrema em sua
essência (HEIDEGGER, 2000). O que constitui, para o autor, traço
característico do pensamento que define o fim da metafísica como o preparo para
um novo começo da metafísica. O que não configura, ainda, sua plenificação.

Para Heidegger, é o pensamento que Nietzsche intensifica a perspectiva
metafísica, abrindo a possibilidade dessa ser interpretada como niilismo, na
medida em que parte da negação do fundamento como essência e torna possível
compreender a verdade dos entes como construção de algo que Heidegger chama de
“vontade de vontade”. Tal conceito vem significar um ímpeto incondicionado por
assegurar-se do modo de ser dessa verdade, da verdade como fundamento, como o
ser.[3]

Assim, o pensamento de Nietzsche, como aquele que se configura como
momento final das possibilidades da metafísica, se insere também neste
processo, apenas como mais uma determinidade categórica desta essência agora
determinada. Entretanto, não mais como o “ego sum” (isto é, um sujeito
que, qüiditativamente, é, aos moldes cartesianos), mas agora, como um “ego
volo”
, ou seja, um sujeito cujo modo de ser consiste em um ato volitivo, em
um ato de vontade, a ponto de colocar-se no lugar do fundamento.[4]

Tendo sempre em vista a pergunta pela verdade do ente, e a cisão da qual
ela instaura e parte, podemos resumir a questão em poucas linhas: a dicotomia
entre sujeito e objeto chega a seu fim através da assunção plena e arbitrária
de uma unilateralidade. No caso de Hegel, privilegiando o plano ontológico;
no caso de Nietzsche, em resposta a Hegel, o plano ôntico. O que já
configura o abandono do ser e o predomínio do ente. Entretanto, para Heidegger
(2000), isso não é uma rejeição à metafísica, mas o reconhecimento de seu
acabamento. De imediato, o que se presencia no acabamento é uma inversão da
perspectiva que primava pela determinação de uma verdade “transcendente ao
ente” (não mais na consciência, tampouco, posta por essa. Para leitura de
Nietzsche, passa a estar no que se apresenta no fenômeno) assim, a verdade do
objeto passa a ser compreendida como imanente ao mesmo, não cabendo mais a
metafísica como via de acesso para isso que é chamado de verdade. Destarte, a
metafísica em seu acabamento submete-se, sem qualquer possibilidade de decisão,
ao cisma entre ente e ser, para a realização e acabamento de sua própria
essência. De acordo com esta diferenciação, o ente ganha a primazia e faz com
que o ser se torne mero adendo (HEIDEGGER, 2000).

Isso parece poder ser interpretado como justificativa para uma lida
exclusivamente ôntica com esse objeto; em decorrência disso, uma atitude
investigativa que se ocuparia do asseguramento incondicional do ente enquanto
tal, do apoderamento deste dando autonomia à técnica moderna,[5] extrema possibilidade da perspectiva metafísica.

 

IV

Na dialética dos momentos históricos do ser, a urgência por pensar
apropriativamente este ser enquanto tal cunha a necessidade de uma passagem
deste primeiro momento da filosofia, tal como é compreendido, para um segundo
momento, um outro começo; que parte da finalização e preparação do acabamento
já descrito. Assim, nos assegura Heidegger:

No saber do pensamento inserido na transição, o primeiro começo permanece
decisivo enquanto primeiro e é entretanto superado enquanto começo. Para este
pensamento, a reverência mais clara em relação ao primeiro começo, que abre
além disto pela primeira vez seu caráter único, precisa caminhar lado a lado
com a ausência de um olhar para trás – uma ausência inerente à virada de um
outro questionar e dizer (HEIDEGGER apud CASANOVA, 2002, p.12).

Neste contexto, surge a superação da metafísica, que não se
confunde com seu acabamento, por não ser uma refutação. Ela é a tarefa que se
dá após este acabamento, estando ciente do que esteve em jogo em todo seu
processo descrito em nosso texto. Passa a ser possível, a partir desta, estar a
par dos envios e desvios do ser na história; pensados em uma dimensão
histórico-ontológica (Seynsgechichtlich).

Assim, superação não consiste, segundo Heidegger, em uma “alteração
erudita” de intenções e doutrinas através de uma exposição destas últimas, mas
a passagem histórica necessária da essência do ser a partir deste mesmo, da
compreensão não substancial de sua essência. O que Heidegger designou, acima, por
“virada” (Windung) é o modo com o qual se opera a superação, traçando
seu próprio itinerário em um movimento circular desde o ponto de onde
originariamente partiu. Neste, a metafísica encontra agora: por um lado,
acabamento; por outro, a constituição deste recomeço preparado pela
superação, forjado pelo errar per-feito no antigo itinerário, e pela
busca de pensá-lo tendo em vista a essencialização do ser.

Como já dito, cabe à superação a preparação de um novo
começo ao pensamento que trata da verdade do ser em seu acontecimento singular,

independentemente de um ato de determinação objetiva. Incumbência que
consistiria na reabilitação ou recondução da pergunta metafísica ao modo
originário da verdade do real, constituindo, pois, uma transição nessa que é sua
essência histórico-ontológica, i.e, da compreensão de ser em sua história, em
seu caráter fundamental de história do ser.

Só assim o ser passa a não ser mais elemento capaz de
estar circunscrito em uma história (como descrevemos no início de nosso texto).
O ser na superação está no “local” em que seu acontecimento coincide às suas
decisões em seu porvir; atendendo, segundo nosso autor, a urgência de ser
pensado em um modo inquestionado de sua essência. O que, dito com outras
palavras, significa que é pensado de maneira originária, como ser (Seyn),
como a verdade do ser em seu acontecimento apropriativo. Assim,

O pensamento inserido na
transição empreende o esboço fundante da verdade do ser enquanto uma mediação
histórica. A história não é aí o objeto e a circunscrição de uma consideração,
mas aquilo que o questionar pensante desperta e obtém enquanto sítios de suas
decisões, O pensamento em meio a transição coloca o primeiro acontecimento do
ser da verdade e o porvir mais extremo da verdade do ser e dá voz em meio a
esta à este essência até aqui inquestionada do ser (HEIDEGGER apud CASANOVA, 2002, p.12).

A passagem citada, além de apresentar a compreensão
que Heidegger faz de história, enfoca o acontecimento do ser, grifando que
nunca se pensa o ser a partir do ente, mas como seu pensamento apropriativo do ser (Ereignis); sendo é aquele que transpõe o ser a partir da compreensão
histórica que ele mesmo possibilita.

O trabalho teve como proposta tratar a metafísica como
história do ser, enfocando o período chamado filosofia da subjetividade, desde
a obra Nietzsche – Metafísica e Niilismo de Heidegger. Tratamos do
problema: como Heidegger interpreta a história do ser e sua errância no
universo da filosofia da subjetividade?
, cumprindo o objetivo de refletir sobre
os momentos do pensamento do ser enquanto história, diante da consideração de
suas diversas fases, errância e destino. O trabalho teve, como declarado
intuito, a explicitação e encadeamento dos conceitos envolvidos no tema, dentre
os quais podemos citar os começos e desdobramentos da filosofia, seu acabamento
e superação, sua dimensão histórico-ontológica. Tal exercício envolveu
questionamentos relevantes ao pensamento do autor contemporâneo.

Após este, julgamos poder conduzir nossa pesquisa a um
termo suficiente, a partir do aprofundamento destes conceitos e questões,
valendo-nos da obra Contribuições à filosofia: do acontecimento apropriativo (1936-1938) de Heidegger. Neste escrito (como nos sugere a última passagem
citada), acreditamos poder encontrar elementos capazes de sustentar um exame
pormenorizado do que o autor chama de história do ser, e da transição
que sua ontologia fundamental faz até essa última, tarefa que ainda se
encontra na condição acadêmica de projeto de pesquisa.

Referências

CASANOVA, Marco Antônio. O Salto
de volta: A meditação heideggeriana do princípio da Filosofia a partir do
acontecimento do fim.
pp. 1-20 (Teoria do conhecimento) – Universidade do
Estado do Rio de Janeiro – UERJ/IFCH, Rio de Janeiro: 2002. (mimeo).

HEIDEGGER, Martin. Contribuitions
to philosophy: From enowning.
Col. Studies in Continental Thought.
Translated by Parvis Emad e Kanneth Maly. Indianapolis (EUA): Indiana University Press, 1999.

___________. Nietzsche:
Metafísica e niilismo.
Trad. Marco Antônio Casa Nova. Rio de Janeiro:
Relume Dumará, 2000. p.294.

NUNES, Benedito. Passagem para o poético: filosofia e poesia em Heidegger. São Paulo:
Ática, 1986.

___________. O
Nietzsche de Heidegger
. Rio de Janeiro: Pazulin, 2000. p.62.

KAHLMEYER-MERTENS,
Roberto. S. Nietzsche: metafísica, errância e subjetividade. In A
fidelidade à terra – arte, natureza e política.
(Org.) Paulo Pinheiro et
all
. Rio de Janeiro: DP&A, 2003. pp 399-406.

LACOUE-LABARTE,
Philippe. A imitação dos modernos: ensaios sobre arte e filosofia. Trad.
Virginia de Araújo Figueiredo et all. São Paulo: Paz e
Terra, 2000. p.311.

RICHARDSON, William, J. Through phenomenology to thought.
ed. The Hague: Martinus Nijhoff, 1967. p.724.


[1] Doutorando em Filosofia pela Universidade do Estado
do Rio de Janeiro/UERJ, Professor na Faculdade de Formação de Professores da
UERJ e da Professor da Universidade Cândido Mendes/UCAM. Autor de Filosofia
Primeira – Estudos sobre Heidegger e outros autores. www.studium-kahlmeyer.com.br/

[2] O tradutor da língua portuguesa opta pela palavra “seer”, tal qual grafada na
Idade Média para traduzir o termo “Seyn” oriundo do alemão arcaico;
vocábulo que Heidegger utiliza para nomear a experiência do ser no segundo
começo da filosofia, isto é, o ser marcado por sua inessência. Optamos por
grafar “ser” (em itálico), guardando o mesmo sentido.

[3] O niilismo possibilitado por
Nietzsche seria, portanto, o mais elevado triunfo da subjetividade, pois a sua
condição de sujeito torna-se incondicionada no niilismo. Assim, diante desta
vontade de assegurar-se o saber torna-se o cálculo que sempre vem à tona, e a
vontade, força de comando que não se esgota, de modo que o devir, enquanto
continuidade, é transformado em valor supremo (HEIDEGGER, 2000). Em vista
disso, Heidegger avalia: “(…) se o homem conquista sua essência em meio ao
querer e enquanto o “eu quero” no sentido da vontade de poder [compreendida
agora como esta, vontade de vontade] ele ultrapassará sua essência até aqui: animal
racionale
(HEIDEGGER, 2000).

[4] A transição do sou ao quero é identificada como fase culminante de uma das principais
manifestações do pensamento moderno: o Idealismo Alemão. Neste, vemos o
conceito de vontade ganhar relevo, como nos descreve Benedito Nunes: “Foi na
Teoria da Ciência de Fichte, que o Eu penso se desdobrou no eu quero.
Schelling, antes de Hegel, identificaria a vontade ao saber. Depois
Schopenhauer reduziria a coisa em si kantiana à vontade universal, ao mesmo
tempo impulso que move as coisas e a força que as produz”
(NUNES, 2000, p.
26). Com esta conceituação prévia, teríamos uma situação capaz de ser
observada na figura de uma “pirâmide”, explicamos: em sua base encontraríamos Fichte; ascendendo por uma das faces, Schelling; Hegel, no
topo
; em seguida Schopenhauer, como marca de um primeiro declínio e
Nietzsche, como aquele que fala no fim, no momento do acabamento do
processo metafísico. Ponto no qual, em diametral oposição a Hegel (Hegel no
pico e Nietzsche em uma das bases da pirâmide), parte o próximo passo
necessário à filosofia.

[5] Tema que, por coerência ao nosso tema, não receberá maior
aprofundamento aqui.

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