Metafísica, história do ser e subjetividade – uma reconstrução a partir dos fragmentos de Nietzsche: metafísica e niilismo.



Metafísica, história do ser e subjetividade – uma reconstrução a partir dos fragmentos de Nietzsche: e niilismo.

Roberto S. Kahlmeyer-Mertens [1]

Resumo: O propósito do artigo é elaborar um estudo sobre as noções de metafísica, história do ser e subjetividade no pensamento de . Para tanto, interpretaremos estas concepções na obra , de sua autoria. Assim, faremos uma ordenação de alguns dos fragmentos deste trabalho.

Palavras-chave: Heidegger, Nietzsche – Metafísica e niilismo, metafísica, história do ser,

O artigo propõe o tema metafísica, entendido como história do ser. Enfoca o período conhecido como filosofia da subjetividade, desde o pensamento do filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976); considera, portanto, algumas das figuras que o autor entende essenciais a este processo, a saber, aquelas que se afiguram estações da chamada história da subjetividade moderna. Na atual situação da pesquisa, deter-nos-emos em uma única obra do autor: Nietzsche – Metafísica e Niilismo (1946-1948). Assumimos por problema a questão: como Heidegger interpreta a e no universo da filosofia da subjetividade; tendo o objetivo de esclarecermos-nos acerca desta e das compreensões que o autor têm de metafísica, seu começo, desdobramentos (no seu itinerário próprio), fim e superação. Especificamente, o texto consiste na tentativa de elaborar uma breve reconstrução desses conceitos históricos a partir de uma bricolagem que encadeia passagens dessa obra a-sistemática, buscando uma unidade temática.Tentaremos validar a hipótese de que a concepção heideggeriana de metafísica, como história do ser, é capaz de fornecer a unidade requerida por nós, exercício que se justifica por esboçar o plano de questionamentos relevantes ao horizonte do pensamento contemporâneo.

O trabalho possui quatro tópicos que abordarão, respectivamente: I. a conceituação da metafísica como história do ser; II. sua origem e sua implicação com a pergunta “o que é o ente?”; III. apresentação sumária dos desdobramentos desse problema na história; IV. a explicação do caráter histórico-ontológico da temática do ser, após sua superação. Advertimos, finalmente, que o trabalho é produto parcial de uma pesquisa em andamento, possuindo questões em aberto, que buscaremos sanar por meio da presente reflexão.

I

O argumento se desenvolve a partir da seguinte concepção de metafísica vigente em Heidegger (2000): “A metafísica é essencialmente história do ser (Seyn)[2] enquanto destino da verdade do ente (destino da verdade do ente e fio condutor de seu esboço)”. Nesta passagem, podemos observar que o nomeado por história foge da compreensão imediata de historiografia. O que contaria com momentos prévios, essencialmente definidos; que receberiam interpretação através de classificações, feitas de acordo com escolas e doutrinas na própria metafísica. Não é essa compreensão que Heidegger tem de história da metafísica, pois em seu modo de apreendê-la, o autor parte da consideração deste fenômeno em sua errância e destino.

Por um lado como errância, concebendo a metafísica como o processo de determinação incondicional da verdade dos entes (do ser da totalidade). Entendida como aquela que erra neste intuito e que nesta errância faz-se aberta às diversas épocas do ser em seu questionamento, a ponto de não se distanciar deste. Assim, o que está em jogo na metafísica em seu processo, é a tentativa de estabelecer isto que dotaria o ente de sua entidade. Heidegger (2000) nos ilustra essa situação assim: “nesta errância reside, entretanto, uma indicação velada para o interior da pergunta pelo ser, suposto que esta pergunta já tenha antes acontecido apropriativamente e principalmente em função do ser mesmo”. Por outro lado, enquanto destino, por inserir-se e encaminhar-se a compreensões que buscam esclarecer um sentido próprio deste ser, já determinadas pelas próprias concepções históricas com que este é apreendido. Isso nos demonstra que a metafísica, pensada por Heidegger, neste momento, deve partir da consideração do modo com que é tratada neste processo. Tratamento já feito de acordo com um destino que se conforma em história, que só faz sentido se pensada como itinerário das épocas do ser (que se revela à nós no interior do processo metafísico, por meio da interpretação da pergunta objetiva por sua verdade). Pois, segundo Heidegger (2000): “A história do ser só é de qualquer forma experienciável a partir da sondagem da verdade do ser, sendo que esta mesma acontece apropriativamente em função do ser”.

Observemos que em ambas as citações que buscam ilustrar a metafísica como história do ser fica evidente uma preocupação apropriativa do ser da totalidade. O que vem confirmar o indispensável compromisso que esse processo tem com a questão da verdade, ainda que o modo de expressar esse compromisso, em um primeiro momento, não se porte de maneira coerente ao modo constitutivo do ser em seu fenômeno.

O que estaríamos querendo significar quando afirmamos que a pergunta metafísica em seu modo de se instalar seria incoerente ao modo do ser? O que, afinal, poderíamos entender por modo constitutivo do ser em seu fenômeno? Responderemos: a busca por uma compreensão de ser é incoerente, pois tal pergunta ao instalar-se já parte do descuido (Versäumnis) de desconsiderar o modo evidente e logo pré-temático deste ser, não limitando-se ao mero aparecer do ente no fenômeno e ao seu modo de ser mais imediato; criando uma anterioridade conceptual que o põe em questão. Esse questionamento se traduz com a pergunta grega (ti tó on) “o que é o ente?”, pergunta que, para Heidegger (2000), inaugura a metafísica, ao questionar a essência do ser e, com isso, o ser mesmo.

II

Para Heidegger, a pergunta pelo ente na totalidade, enquanto tal, é aquela que traz consigo o germe que desencadeia todo o processo metafísico, pois tal indagação já partiria da obstrução do caráter de fenômeno com o qual este ente se apresenta, gerando, assim, o desenfreado processo de determinação da verdade do ente, para além da aparição do mesmo. Tal pergunta age como uma “cunha”, apartando a evidência da verdade deste ente que se apresenta, criando arbitrariamente a duplicação e o primado da essência sobre o ente em seu fenômeno. Heidegger chamará esta obstrução de “esquecimento de ser” (Seinsvergessenheit), que é o fenômeno que marca a situação histórica propícia para a pergunta metafísica o que é o ente? e a cisão que ela instaura (HEIDEGGER, 2000).

O esquecimento do ser exprime o espaço histórico da existência ocidental, instaurado pela “dialética” da verdade do próprio ser em sua tensão e retração. Assim, podemos afirmar que a história da metafísica tem seu começo com o questionamento pela verdade do ente. Dizendo de modo claro, tal questionamento inaugura a história da perspectiva que procura se assegurar de uma suposta verdade metafísica que o ente, a totalidade dos entes, e a realidade possuiriam.

Com este esboço, do que está em jogo na pergunta metafísica o que é o ente?,fica marcado o que Heidegger chama de primeiro começo da filosofia. Este, significa o começo do pensamento do ser (Sein) como o que há de mais essencial no início da metafísica.

Contudo, talvez ainda não tenhamos as proporções das conseqüências da formulação desta questão e da complexidade o processo que ela engendra. Em um primeiro exame, constata-se que ela gera uma cisão entre o ente e aquilo que seria sua verdade, sua essência. Após esta cisão, nossa questão passa a ter um quadro bem diverso daquele descrito anteriormente. A partir deste momento, passamos a ter o ente “essencialmente duplo” sendo que esta duplicação é, como se queira, unilateral e mesclada (HEIDEGGER, 2000). Sendo, pois, o que nosso autor chama de “diferença ontológica”, que é a distinção referente ao fundamento cujo ente agora se essencializa em seu ser. Em vista desta, há, agora, o ente e algo deste ente dá sustentação à sua vigência constante no fenômeno, há este e sua verdade. Fica assim determinada, a origem do problema metafísico, que à luz do esquecimento do ser, passa a ser vista como o esquecimento, ou obstrução da referência ao modo de ser do ser na diferenciação de seu fenômeno.

Somente a partir dessa situação descrita aqui poderemos iniciar a tarefa de demonstração sumária dos desdobramentos deste problema, como se seguirá adiante.

III

Ainda na Grécia, a essência do ente recebeu o nome de “hypokeímenon”, que literalmente indica algo que se encontra sob o ente, indicando um sustentáculo. Com o mesmo sentido, a tradição medieval, e parte da modernidade, traduziram este nome por “subjectum”, guardando a compreensão de ente real sobre o qual recaem determinações predicáveis. Assim, parece instituir-se definitivamente a crença de que tudo que é real possui necessariamente um suporte, substância.

Com a filosofia moderna, a compreensão de “sub-instância” dessa essência é apropriada de outra maneira decisiva, aquela que pensa, pela primeira vez, este subjectum como “sujeito”. Descartes assim o faz. Com ele, a essência daquilo que se apresenta é submetida a condição de sujeito autônomo, que põe o ente à medida em que o representa (HEIDEGGER, 2000), ou seja: “Enquanto estabelecimento do subjectum no sentido de sua fixidez.(…) Como subjetividade transpõe cada vez mais o âmbito do ser-humano e este transforma-se em (…) produtor e propriedade” (HEIDEGGER, 2000).

Tal interpretação é assumida também por Kant, que parte desse pressuposto para uma crítica dos limites de um sujeito que se lança ao conhecimento dos entes (HEIDEGGER, 2000), para com isso confirmar, no sentido moderno do idealismo subjetivo, a fundação necessária para o acabamento da metafísica. Destarte, dizendo com o autor:

A metafísica kantiana: os conceitos metafísicos fundamentais de substância e causalidade nunca são para Kant questionáveis enquanto as determinações dos entes enquanto tais. Ele só coloca em questão o modo e o limite da metafísica: nunca a metafísica mesma (HEIDEGGER, 2000, p.118).

Daí, se a essência do ente, se a verdade do que se apresenta, é posta pelo sujeito, a tarefa que coube ao próximo passo filosófico essencial foi determinar o modo de ser deste sujeito. Assim Hegel faz, quando após todo o movimento de sua Fenomenologia do Espírito, o sujeito, na forma de “consciência”, descobre a si mesmo com a verdade do real, alçada ao final do movimento reflexivo deste sujeito; compreendendo o movimento de determinação do ser como história. Entretanto, o modo com que este movimento acontece, para Hegel, ainda é transição entre modos da consciência, calcando-se na compreensão de uma subjetividade, também sistemática da essência histórica.

Com esta manobra, o que Hegel fez foi transferir para o próprio âmago da idéia de sujeito a condição de fenômeno que Kant ainda cingia à esfera do objeto. Assim, a pergunta pelo ser e o processo que deriva desta pergunta chega ao fim, quando a dicotomia entre a subjetividade e o objeto por ela posto, sublima-se na fusão do objeto no sujeito, passando a possuir, a partir deste momento, a mesma textura ontológica. Isso consuma, a perspectiva metafísica que agora afirma que a verdade está no todo, e que este é consciência absoluta.

Heidegger endossa esta interpretação quando enuncia: “Também a metafísica de Hegel é completamente lógica: isto é, ela realiza a essência da metafísica ocidental até seu acabamento. Restou apenas o passo em direção à sua inessência incondicionada; este passo foi levado a termo por Nietzsche” (HEIDEGGER, 2000). Deste modo, a essência da modernidade, na forma de consciência absoluta que encontra o fundamento do ser, realiza-se incondicionadamente. Isto acontece, pois, a metafísica propiciou seus próprios meios em execução deste que é um momento decisivo ao ser.

A experiência descrita nos põe diante de uma situação nunca antes experimentada; trata-se do “fim (ou acabamento) da metafísica”, tema cujos muitos pressupostos de que se necessita para ser explicado derivam do material teórico apresentado até aqui. Para Heidegger, este fim não é uma mera interrupção ou conclusão, fim é acabamento (Volledung).

Se compreendermos a metafísica tal como Heidegger, no já aludido processo ou errância, em que a questão do fundamento se desdobra em história, Nietzsche ocuparia, nesta, uma posição bem específica e nada casual. Exatamente, aquela na qual alguns autores chamariam de “fim da filosofia” (ou acabamento da metafísica).

No que concerne a Nietzsche, a metafísica tem fim não porque ele a rejeita ou se volta contra ela, mas porque na avaliação de Heidegger, “Com a metafísica de Nietzsche, a filosofia acaba. Isto quer dizer: ela já percorreu todo o âmbito das possibilidades que lhe foram pressignadas” (HEIDEGGER, 2000). Fim é acabamento, não no sentido de uma realização de um ideal supremo (HEIDEGGER, 2000), mas ao contrário, por criar condições para que este processo experimente o que Heidegger chama do surgimento da última configuração de uma determinada instância na forma de uma inserção da inessência extrema em sua essência (HEIDEGGER, 2000). O que constitui, para o autor, traço característico do pensamento que define o fim da metafísica como o preparo para um novo começo da metafísica. O que não configura, ainda, sua plenificação.

Para Heidegger, é o pensamento que Nietzsche intensifica a perspectiva metafísica, abrindo a possibilidade dessa ser interpretada como niilismo, na medida em que parte da negação do fundamento como essência e torna possível compreender a verdade dos entes como construção de algo que Heidegger chama de “vontade de vontade”. Tal conceito vem significar um ímpeto incondicionado por assegurar-se do modo de ser dessa verdade, da verdade como fundamento, como o ser.[3]

Assim, o pensamento de Nietzsche, como aquele que se configura como momento final das possibilidades da metafísica, se insere também neste processo, apenas como mais uma determinidade categórica desta essência agora determinada. Entretanto, não mais como o “ego sum” (isto é, um sujeito que, qüiditativamente, é, aos moldes cartesianos), mas agora, como um “ego volo”, ou seja, um sujeito cujo modo de ser consiste em um ato volitivo, em um ato de vontade, a ponto de colocar-se no lugar do fundamento.[4]

Tendo sempre em vista a pergunta pela verdade do ente, e a cisão da qual ela instaura e parte, podemos resumir a questão em poucas linhas: a dicotomia entre sujeito e objeto chega a seu fim através da assunção plena e arbitrária de uma unilateralidade. No caso de Hegel, privilegiando o plano ontológico; no caso de Nietzsche, em resposta a Hegel, o plano ôntico. O que já configura o abandono do ser e o predomínio do ente. Entretanto, para Heidegger (2000), isso não é uma rejeição à metafísica, mas o reconhecimento de seu acabamento. De imediato, o que se presencia no acabamento é uma inversão da perspectiva que primava pela determinação de uma verdade “transcendente ao ente” (não mais na consciência, tampouco, posta por essa. Para leitura de Nietzsche, passa a estar no que se apresenta no fenômeno) assim, a verdade do objeto passa a ser compreendida como imanente ao mesmo, não cabendo mais a metafísica como via de acesso para isso que é chamado de verdade. Destarte, a metafísica em seu acabamento submete-se, sem qualquer possibilidade de decisão, ao cisma entre ente e ser, para a realização e acabamento de sua própria essência. De acordo com esta diferenciação, o ente ganha a primazia e faz com que o ser se torne mero adendo (HEIDEGGER, 2000).

Isso parece poder ser interpretado como justificativa para uma lida exclusivamente ôntica com esse objeto; em decorrência disso, uma atitude investigativa que se ocuparia do asseguramento incondicional do ente enquanto tal, do apoderamento deste dando autonomia à técnica moderna,[5] extrema possibilidade da perspectiva metafísica.

 

IV

Na dialética dos momentos históricos do ser, a urgência por pensar apropriativamente este ser enquanto tal cunha a necessidade de uma passagem deste primeiro momento da filosofia, tal como é compreendido, para um segundo momento, um outro começo; que parte da finalização e preparação do acabamento já descrito. Assim, nos assegura Heidegger:

No saber do pensamento inserido na transição, o primeiro começo permanece decisivo enquanto primeiro e é entretanto superado enquanto começo. Para este pensamento, a reverência mais clara em relação ao primeiro começo, que abre além disto pela primeira vez seu caráter único, precisa caminhar lado a lado com a ausência de um olhar para trás – uma ausência inerente à virada de um outro questionar e dizer (HEIDEGGER apud CASANOVA, 2002, p.12).

Neste contexto, surge a superação da metafísica, que não se confunde com seu acabamento, por não ser uma refutação. Ela é a tarefa que se dá após este acabamento, estando ciente do que esteve em jogo em todo seu processo descrito em nosso texto. Passa a ser possível, a partir desta, estar a par dos envios e desvios do ser na história; pensados em uma dimensão histórico-ontológica (Seynsgechichtlich).

Assim, superação não consiste, segundo Heidegger, em uma “alteração erudita” de intenções e doutrinas através de uma exposição destas últimas, mas a passagem histórica necessária da essência do ser a partir deste mesmo, da compreensão não substancial de sua essência. O que Heidegger designou, acima, por “virada” (Windung) é o modo com o qual se opera a superação, traçando seu próprio itinerário em um movimento circular desde o ponto de onde originariamente partiu. Neste, a metafísica encontra agora: por um lado, acabamento; por outro, a constituição deste recomeço preparado pela superação, forjado pelo errar per-feito no antigo itinerário, e pela busca de pensá-lo tendo em vista a essencialização do ser.

Como já dito, cabe à superação a preparação de um novo começo ao pensamento que trata da verdade do ser em seu acontecimento singular, independentemente de um ato de determinação objetiva. Incumbência que consistiria na reabilitação ou recondução da pergunta metafísica ao modo originário da verdade do real, constituindo, pois, uma transição nessa que é sua essência histórico-ontológica, i.e, da compreensão de ser em sua história, em seu caráter fundamental de história do ser.

Só assim o ser passa a não ser mais elemento capaz de estar circunscrito em uma história (como descrevemos no início de nosso texto). O ser na superação está no “local” em que seu acontecimento coincide às suas decisões em seu porvir; atendendo, segundo nosso autor, a urgência de ser pensado em um modo inquestionado de sua essência. O que, dito com outras palavras, significa que é pensado de maneira originária, como ser (Seyn), como a verdade do ser em seu acontecimento apropriativo. Assim,

O pensamento inserido na transição empreende o esboço fundante da verdade do ser enquanto uma mediação histórica. A história não é aí o objeto e a circunscrição de uma consideração, mas aquilo que o questionar pensante desperta e obtém enquanto sítios de suas decisões, O pensamento em meio a transição coloca o primeiro acontecimento do ser da verdade e o porvir mais extremo da verdade do ser e dá voz em meio a esta à este essência até aqui inquestionada do ser (HEIDEGGER apud CASANOVA, 2002, p.12).

A passagem citada, além de apresentar a compreensão que Heidegger faz de história, enfoca o acontecimento do ser, grifando que nunca se pensa o ser a partir do ente, mas como seu pensamento apropriativo do ser (Ereignis); sendo é aquele que transpõe o ser a partir da compreensão histórica que ele mesmo possibilita.

O trabalho teve como proposta tratar a metafísica como história do ser, enfocando o período chamado filosofia da subjetividade, desde a obra Nietzsche – Metafísica e Niilismo de Heidegger. Tratamos do problema: como Heidegger interpreta a história do ser e sua errância no universo da filosofia da subjetividade?, cumprindo o objetivo de refletir sobre os momentos do pensamento do ser enquanto história, diante da consideração de suas diversas fases, errância e destino. O trabalho teve, como declarado intuito, a explicitação e encadeamento dos conceitos envolvidos no tema, dentre os quais podemos citar os começos e desdobramentos da filosofia, seu acabamento e superação, sua dimensão histórico-ontológica. Tal exercício envolveu questionamentos relevantes ao pensamento do autor contemporâneo.

Após este, julgamos poder conduzir nossa pesquisa a um termo suficiente, a partir do aprofundamento destes conceitos e questões, valendo-nos da obra Contribuições à filosofia: do acontecimento apropriativo (1936-1938) de Heidegger. Neste escrito (como nos sugere a última passagem citada), acreditamos poder encontrar elementos capazes de sustentar um exame pormenorizado do que o autor chama de história do ser, e da transição que sua ontologia fundamental faz até essa última, tarefa que ainda se encontra na condição acadêmica de projeto de pesquisa.

Referências

CASANOVA, Marco Antônio. O Salto de volta: A meditação heideggeriana do princípio da Filosofia a partir do acontecimento do fim. pp. 1-20 (Teoria do conhecimento) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ/IFCH, Rio de Janeiro: 2002. (mimeo).

HEIDEGGER, Martin. Contribuitions to philosophy: From enowning. Col. Studies in Continental Thought. Translated by Parvis Emad e Kanneth Maly. Indianapolis (EUA): Indiana University Press, 1999.

___________. Nietzsche: Metafísica e niilismo. Trad. Marco Antônio Casa Nova. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000. p.294.

NUNES, Benedito. Passagem para o poético: filosofia e poesia em Heidegger. São Paulo: Ática, 1986.

___________. O Nietzsche de Heidegger. Rio de Janeiro: Pazulin, 2000. p.62.

KAHLMEYER-MERTENS, Roberto. S. Nietzsche: metafísica, errância e subjetividade. In A fidelidade à terra – arte, natureza e política. (Org.) Paulo Pinheiro et all. Rio de Janeiro: DP&A, 2003. pp 399-406.

LACOUE-LABARTE, Philippe. A imitação dos modernos: ensaios sobre arte e filosofia. Trad. Virginia de Araújo Figueiredo et all. São Paulo: Paz e Terra, 2000. p.311.

RICHARDSON, William, J. Through phenomenology to thought. 2ª ed. The Hague: Martinus Nijhoff, 1967. p.724.



[1] Doutorando em Filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro/UERJ, Professor na Faculdade de Formação de Professores da UERJ e da Professor da Universidade Cândido Mendes/UCAM. Autor de Filosofia Primeira – Estudos sobre Heidegger e outros autores. www.studium-kahlmeyer.com.br/

[2] O tradutor da língua portuguesa opta pela palavra “seer”, tal qual grafada na Idade Média para traduzir o termo “Seyn” oriundo do alemão arcaico; vocábulo que Heidegger utiliza para nomear a experiência do ser no segundo começo da filosofia, isto é, o ser marcado por sua inessência. Optamos por grafar “ser” (em itálico), guardando o mesmo sentido.

[3] O niilismo possibilitado por Nietzsche seria, portanto, o mais elevado triunfo da subjetividade, pois a sua condição de sujeito torna-se incondicionada no niilismo. Assim, diante desta vontade de assegurar-se o saber torna-se o cálculo que sempre vem à tona, e a vontade, força de comando que não se esgota, de modo que o devir, enquanto continuidade, é transformado em valor supremo (HEIDEGGER, 2000). Em vista disso, Heidegger avalia: “(…) se o homem conquista sua essência em meio ao querer e enquanto o “eu quero” no sentido da vontade de poder [compreendida agora como esta, vontade de vontade] ele ultrapassará sua essência até aqui: animal racionale (HEIDEGGER, 2000).

[4] A transição do sou ao quero é identificada como fase culminante de uma das principais manifestações do pensamento moderno: o Idealismo Alemão. Neste, vemos o conceito de vontade ganhar relevo, como nos descreve Benedito Nunes: “Foi na Teoria da Ciência de Fichte, que o Eu penso se desdobrou no eu quero. Schelling, antes de Hegel, identificaria a vontade ao saber. Depois Schopenhauer reduziria a coisa em si kantiana à vontade universal, ao mesmo tempo impulso que move as coisas e a força que as produz”(NUNES, 2000, p. 26). Com esta conceituação prévia, teríamos uma situação capaz de ser observada na figura de uma “pirâmide”, explicamos: em sua base encontraríamos Fichte; ascendendo por uma das faces, Schelling; Hegel, no topo; em seguida Schopenhauer, como marca de um primeiro declínio e Nietzsche, como aquele que fala no fim, no momento do acabamento do processo metafísico. Ponto no qual, em diametral oposição a Hegel (Hegel no pico e Nietzsche em uma das bases da pirâmide), parte o próximo passo necessário à filosofia.

[5] Tema que, por coerência ao nosso tema, não receberá maior aprofundamento aqui.

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