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Continued from: Plutarco - Vidas Paralelas - Cícero

   

Catilina havia corrompido grande parte da juventude romana,
prodigalizando-lhe todos os prazeres, banquetes, mulheres, nada
poupando para que tudo saísse a seu contento. Já toda a Etrúria e a
maior parte dos povos da Gália Cisalpina estavam dispostos à revolta.
E Roma se encontrava ameaçada de um movimento subversivo, em
virtude da desigualdade reinante entre as fortunas, causa da ruína dos
cidadãos mais distintos por seu nascimento e pela sua coragem. Estes,
consumindo suas riquezas em espetáculos, festins, brigas pelos
cargos, construções de edifícios, tinham visto passar seus bens para
as mãos de homens abjetos e desprezíveis. Tudo havia chegado a tal
ponto que, para derrubar o governo, não seria preciso mais do que um
leve impulso dado pelo primeiro aventureiro que aparecesse.

   XI. Seja como
for, Catilina, a fim de assegurar à sua empresa um sólido e firme ponto
de apoio, enfileirou-se entre os candidatos ao Consulado. Fundava ele
suas grandes esperanças em um colega: Caio
Antônio 21, homem por si só incapaz de chefiar um bom ou mau
partido, mas que se tornaria um forte ponto de apoio para um colega enérgico. Os bons
cidadãos, prevendo o perigo que ameaçava a República, levaram Cícero
ao consulado, quase por unânimidade. O povo escolheu Cícero. Catilina
foi rejeitado e Cícero nomeado cônsul com Antônio. De todos os
candidatos, Cícero era, portanto, o único nascido de um pai simples
cavaleiro e não senador.

   XII. O povo ignorava ainda as conspirações de
Catilina. Cícero, desde a sua entrada no Consulado 22, viu-se
assoberbado de negócios difíceis: era o prelúdio dos combates que iria
travar em seguida. De um lado, os que haviam sido excluídos da
magistratura pelas leis de Sila e que, sem serem pouco poderosos nem
pouco númerosos, se apresentaram para disputar os cargos: nos seus
discursos ao povo eles se levantavam – tão cheios de verdade quanto
de justiça – contra os atos tirânicos de Sila; mas empregavam mal seu
tempo para realizar mudanças na República. De outro lado, os tribunos
do povo propunham leis que seguramente subverteriam a ordem :
reivindicavam o estabelecimento de dez comissários revestidos de um
poder absoluto e que, dispondo como senhores da Itália, da Siria e das
novas conquistas de Pompeu, tivessem o poder de vender as terras
públicas, de instaurar os processos que desejassem, de banir à
vontade, de fundar colônias, de usar dos dinheiros do Tesouro
Público, de conservar e levantar tropas a seu talante. Essas leis eram
apoiadas pelas pessoas mais consideradas de Roma e, à frente delas,
Caio Antônio, o colega de Cícero que esperava vir a ser um dos
decênviros. Acredita-se que ele não ignorasse os planos sediciosos de
Catilina e não desgostaria de vê-los vitoriosos, pois se encontrava
crivado de dívidas. É isso, sobretudo, o que horroriza os bons
cidadãos. Cícero, para prevenir este perigo, fez dar a Antônio o
governo da Macedônia e recusou para ele próprio o das Gálias, que lhe
haviam destinado. Tendo prestado esse importante serviço a Antônio,
Cícero esperou ter nele uma espécie de ator assalariado, que
representaria, de acordo com ele o segundo papel num drama em que

se tratasse da salvação da pátria. Conquistado ou domesticado
Antônio, Cícero sentiu mais valentia e força para se erguer contra os
que propunham inovações. Combateu no Senado a nova lei 23 e soube
amedrontar tão bem os que a queriam

votar, que estes não tiveram uma única palavra para lhe responder. Os
tribunos da plebe fizeram novas tentativas e notificaram os cônsules
para comparecerem perante o povo. Mas Cícero não se deixou
assustar: fêz-se seguir pelo Senado ao
Fórum e, subindo à tribuna, falou com tanto poder e brilho que a lei foi
rejeitada. Além do mais, tirou aos tribunos toda esperança de sucesso
nos outros projetos, tão completamente os havia vencido pela
eloqüência!

   

XIII. Cícero foi, de todos os oradores, o que soube fazer sentir melhor
aos romanos como o encanto da eloqüência amplifica o bem e como o
direito é invencível, quando sustentado pelo talento e pela palavra!
Mostrou-lhes como o homem de Estado que quer governar bem deve,
na sua conduta pública,

preferir sempre o que é honesto ao que engana; mas que deve também,
nos seus discursos, temperar a doçura da linguagem com o rigor dos
atos que propõe. Nada prova melhor a graça da sua eloqüência do que
o que fez no consulado, em relação aos espetáculos. Até então, os
cavaleiros romanos haviam sido confundidos nos teatros com a
multidão dos espectadores e se sentavam misturados com o povo.
Marco Oton 24, porém, pretor, separou, como prova de distinção, os
cavaleiros da multidão e lhes determinou lugares próprios que eles
conservam ainda hoje. O povo sentiu-se ofendido com essa medida. E,
quando Oton apareceu no teatro foi acolhido com uma vaia e assobios.
Os cavaleiros, pelo contrário, o receberam com os mais vivos aplausos.
O povo redobrou a assuada e os cavaleiros as ovações. Daí, a
reciprocidade das
injúrias e o teatro cheio de confusão. Cícero, informado da desordem,
transportou-se imediatamente ao teatro e se fez seguir do povo ao
templo de Belona: aí dirigiu aos amotinados severas e persuasivas
admoestações, e o povo, retornando
ao teatro, aplaudiu vivamente Oton e disputou com os cavaleiros
quem lhe rendia mais honras e homenagens.

   

XIV. Entretanto, a conspiração de Catilina, que a princípio havia sido
dominada, retomou sua audácia. Os conjurados reuniram-se e decidiram
meter mãos à obra ainda mais arrojadamente, antes que Pompeu – que
se dizia a caminho, seguido do seu exercito – voltasse a Roma. Os que
mais insuflavam Catilina eram os antigos soldados de Sila, espalhados
por toda a Itália e disseminados entre as cidades etruscas: esses
homens sonhavam, uma vez ainda, com o roubo e a pilhagem das
riquezas que tinham sob os olhos. Tendo tomado Málio por chefe, um
dos generais que haviam servido com honra sob Sila, entraram na
conjuração de Catilina e se concentraram em Roma para o apoiar nas
eleições, pois Catilina se fizera pretendente, pela segunda vez, ao
Consulado, resolvido a matar Cícero no tumulto dos comícios.
Tremores de terra, raios, aparições de fantasmas, pareciam ser
advertências do céu a respeito das conspirações que se tramavam.
Recebiam-se também, da parte dos homens, indícios verdadeiros, mas
que não bastavam ainda para abater uma personagem tão considerável
pelo poder e pela nobreza como o era Catilina. Eis por que Cícero, tendo
adiado o dia dos comícios, intimou Catilina a comparecer perante o
Senado para interrogá-lo a respeito dos rumores que corriam. Catilina,
persuadido de que havia no Senado mais do que um que desejava a
revolução, e querendo também elevar-se aos olhos dos seus cúmplices,
respondeu a Cícero com extrema arrogância:

   

– Que mal faço eu se, ao ver dois corpos, um com cabeça, mas
magro e esgotado, e outro sem cabeça, mas robusto e grande, quero
pôr uma cabeça neste último?
25

   

Cícero compreendeu que esse enigma era referente ao Senado e
ao povo, e o seu pavor não fez mais do que aumentar. Pôs uma
couraça e se fez escoltar da sua casa ao

Campo de Marte, pelos principais cidadãos e por um grande número
de moços. Entreabriu propositadamente sua túnica por debaixo das
espáduas e deixou à mostra a couraça, dando assim a entender aos
presentes que havia grande perigo. Vendo isso, o povo, indignado,
acercou-se dele. Enfim, Catilina fracassou mais uma vez e a votação foi
favorável a Silano e Murena, que foram nomeados cônsules.

   

XV. Tendo os soldados da Etrúria, pouco tempo depois, se reunido
para ficar às ordens de Catilina ao primeiro sinal, e aproximando-se o
dia fixado para a execução da conspiração, três das primeiras e mais
poderosas personagens de Roma, Marco Crasso, Marco Marcelo e
Cipião Metelo, foram, na calada da noite, à casa de Cícero e bateram-lhe à porta. Chamando o porteiro, pediram-lhe que fosse acordar Cícero
e anunciar-lhe a sua presença. Eis aqui do que se tratava. O porteiro de
Crasso levara a seu senhor, ao sair da mesa, cartas que haviam sido
entregues por um desconhecido e dirigidas a diferentes pessoas: entre
elas havia uma para Crasso, mas sem assinatura. Crasso só leu a que
trazia o seu endereço. Como lhe houvessem dito que Catilina devia, em
breve, realizar uma carnificina em Roma e que lhe pediam que
abandonasse a cidade, ele não teve tempo de abrir as demais. E, ou
porque temesse o perigo que ameaçava Roma, ou porque procurasse
se limpar das suspeitas que fizeram nascer as suas ligações com
Catilina, o certo é que saiu a procurar Cícero imediatamente. O cônsul,
após haver deliberado com eles, convocou o Senado de manhã cedo,
remeteu as cartas aos seus respectivos destinatários e os convidou a
lê-las em voz alta. Todas revelaram da mesma forma a existência da
conspiração. Mas, depois que Quinto Arrio, antigo pretor, denunciou
os ajuntamentos tumultuosos que se faziam na Etrúria, e que se soube,
por outras denúncias, que Málio, à frente de um exército considerável,
estava ao redor das cidades dessa província, para aí esperar os
acontecimentos que se desenrolariam em Roma, o

Senado votou um decreto pelo qual passava o govêrno às mãos dos
cônsules e lhes ordenava que tomassem tôdas as medidas que
julgassem convenientes para o bem do Estado e a salvação da
República. É uma medida que o Senado raramente decide tomar e
somente a toma quanto teme algum perigo.

   

XVI. Cícero, investido desse poder, confiou a Quinto Metelo os
negocios exteriores e se encarregou ele próprio dos da cidade. Em
geral, só caminhava pelas ruas de Roma escoltado por grande número
de cidadãos e, quando ia ao Fórum, o seu lugar se enchia logo da
multidão que o acompanhava. Catilina, impaciente com uma espera tão
longa, resolveu correr ao campo de Málio. Antes, porém, de deixar
Roma, encarregou Márcio e Cetego de irem, pela manhã, armados de
punhais, à porta de Cícero e, fingindo saudá-lo, atirar-se sobre ele e
matá-lo. Uma mulher de nascimento ilustre, Fúlvia, passou a noite na
casa de Cícero para inteirá-lo do que se forjava e recomendar-lhe que
ficasse em guarda contra Cetego. Os assassinos, de manhã cedo, para
lá se dirigiram. E como lhes fosse recusada permissão para entrar,
lamentaram-se em altos brados e fizeram grande barulho à porta, o que
veio aumentar mais ainda as suspeitas. Assim que saiu, Cícero
convocou o Senado no templo de Júpiter Stator, como chamam os
romanos a esse deus que se encontra à entrada da rua sagrada, na
subida para o Palatino. Catilina aí compareceu com os demais
senadores, como se quisesse justificar-se das acusações que lhe
faziam. Mas nenhum senador quis colocar-se perto dele. Abandonaram
por completo o banco em que Catilina se sentava. Todavia, começou a
falar. Sua voz, porém, não conseguiu dominar os clamores. Por fim,
Cícero se levanta e ordena-lhe que abandone a cidade.

   

– Uma vez que empregamos no govêrno, – disse Cícero, -, eu a
palavra e tu as armas, é preciso que um muro se erga entre nós.

   

Catilina saiu rapidamente de Roma, à frente de trezentos homens
armados. Fazia-se preceder – como se fora um comandante militar – de
litores com seus feixes. Carregavam-se diante dele as insígnias.
Marchou, dessa maneira, para o campo de Málio. Aí após a realização
de uma assembléia de vinte mil homens mais ou menos, saiu pelo país,
captando a simpatia das cidades e revoltando-as. Era uma fórmula de
declaração de guerra. Antônio foi enviado para combatê-lo.

   

XVII. Os cidadãos corrompidos por Catilina, que ficaram em Roma,
foram convocados e encorajados por Cornélio Lêntulo, apelidado Sura,
homem de família distinta, mas cuja conduta infame e cujos deboches
provocaram a sua expulsão do Senado. Ocupava, então, a pretoria pela
segunda vez, como é do uso entre os que querem restabelecer a sua
dignidade de senadores. Quanto ao apelido de Sura, conta-se ter sido
o seguinte o motivo pelo qual lhe foi dado. Sendo questor no tempo de
Sila, consumiu ele, em despesas loucas, grande parte dos dinheiros
públicos. Sila, irritado, pediu-lhe contas da sua
administração em pleno Senado. Lêntulo, com um ar de indiferença e de desdém, disse
que não tinha contas a prestar, mas que apresentava a sua perna: é o
que fazem as crianças quando cometem qualquer falta no jogo da péla.
Eis o fato que lhe acarretou o apelido Sura, que em latim quer dizer
perna. De outra

feita, citado em juízo, e tendo corrompido alguns dos juízes, só foi
absolvido pela maioria de dois votos.

   

– Perdi – exclamou Sura – o dinheiro que dei a um dos que me
absolveram, pois me bastava a maioria de um voto.

   

Um homem de tal caráter foi logo convencido por Catilina; e os
falsos adivinhos, os charlatães acabaram de corrompê-lo com as vãs esperanças com que o embalavam. Anunciaram-lhe predições e oráculos à sua maneira, tirados
falsamente dos livros sibilinos 26 e que afirmavam que era dos destinos
de Roma possuir três Cornélios por chefes.

   

– Dois, – asseguraram-lhe, – já preencheram os seus destinos: Cina
e Sila: tu és o terceiro que a Fortuna chama à monarquia. Põe, pois, a
tua alma na empresa e não deixes escapar, como Catilina pelos seus
adiamentos, a ocasião favorável.

   

XVIII. Lêntulo só formulava vastos e temerosos projetos. Resolvera
massacrar o Senado inteiro e tantos cidadãos quantos pudesse. Atearia
fogo na cidade e só pouparia os filhos de Pompeu. Propunha-se roubá-los e retê-los na sua companhia, como dois reféns que pudessem
facilitar as negociações de paz com seu pai. Corria já um rumor por toda
parte, com visos de verdade, de que Pompeu regressava da sua
expedição. A execução da conspiração estava marcada para a noite das
Saturnais 27. Haviam já amontoado e escondido, na casa de Cetego,
espadas, estopas, enxofre. Designaram cem homens e alguns
quarteirões da cidade, atribuídos pela sorte a cada um desses homens,
a fim de que, atiçado o fogo ao mesmo tempo em vários pontos, a
cidade fosse em um instante presa das chamas. Outros deviam cortar
os condutos d’água, colocar-se ao pé das fontes e matar os que delas
quisessem se acercar.

   

Enquanto tomavam tais disposições, encontravam-se em Roma
dois deputados dos Alóbrogos 28 , povo duramente tratado pelos
romanos e que suportava impacientemente a sua dominação. Lêntulo,
persuadido de que estes dois homens podiam ser-lhe úteis para agitar a
Gália e fomentar a revolta, fê-los entrar na conspiração e lhes deu
cartas para o Senado do seu país, nas quais prometia a liberdade aos
gauleses. Deram-lhes outras para Catilina pedindo-lhe que se
apressasse em libertar os escravos e marchasse sobre Roma. Fizeram
partir, com os Alóbrogos, um certo Tito, o Crotoniata, a quem fizeram
portador de cartas para Catilina. Todas essas diligências, porém,
desses homens levianos, que não falavam

nunca sobre os seus negócios, a não ser quando embriagados e entre
mulheres, Cícero as seguia com uma vigilância, um
sangue-frio e uma prudência extremos. Ele havia, entretanto, espalhado
pela cidade, grande número de pessoas fiéis, para espiar com cuidado
e despistar em seu proveito tudo quanto se passava. Cícero chegava
até a conferenciar secretamente com várias pessoas que os conjurados
acreditavam ser seus cúmplices e que o informavam das relações que
estes mantinham com os estrangeiros. De acordo com esses dados,
Cícero colocou pessoas da sua confiança em emboscada durante a noite.
Entrevistou-se secretamente com os dois Alóbrogos e fez prender o
Crotoniata e apreender as cartas de que era portador.

   

XIX. Cícero, desde cedo, convocou o Senado no templo da Concórdia
e leu as cartas apreendidas e ouviu as testemunhas. Júnio Silano
declarou que ouvira Cetego dizer que já
degolara três cônsules e quatro pretores. Pison, personagem consular,
prestou um depoimento parecido, e Caio Sulpício, um dos pretores,
enviado à casa de Cetego, aí encontrou grande quantidade de dardos
e de armas, sobretudo espadas

e punhais recentemente aguçados. Enfim, falou o Crotoniata, sob a
promessa de impunidade que lhe fez o Senado se quisesse tudo
confessar. E Lêntulo, convencido por Cícero, demitiu-se imediatamente
do seu cargo de pretor, deixou no próprio Senado a sua toga de
púrpura e tomou outra mais conforme com a sua presente situação. Ele
e seus cúmplices foram confiados à guarda dos pretores, cujas casas
lhes serviram de prisão. Como já fosse tarde e o povo esperasse em
massa à porta, Cícero saiu e comunicou aos cidadãos o
que se passara. O povo o conduziu até a casa de um dos seus amigos,
seu vizinho, porque a sua estava ocupada pelas mulheres romanas que
aí celebravam os sagrados mistérios da deusa que se chamava, em
Roma, a Boa-Deusa, e, na Grécia, Ginecia. Todos os anos a mulher, ou
a mãe do cônsul efetua,

em sua casa, um sacrifício a essa divindade, em presença das vestais 29.

   

Cícero, ao entrar nessa casa, só tendo consigo muito poucas
pessoas, refletiu sobre a conduta que devia ter para com os conjurados.
A doçura do seu caráter e o temor de que o acusassem de haver
abusado do poder que lhe outorgaram, punindo com o máximo rigor
homens de tão nobre nascimento e que tinham em Roma amigos
poderosos, levavam-no a vacilar quanto à pena que merecia a
enormidade das suas culpas. Por outro lado, se os tratasse com doçura,
fremia lembrando-se do perigo a que estaria exposta a cidade, pois os
conjurados, longe de se acalmarem se se lhes infligisse qualquer pena
mais branda que a morte, não fariam senão atirar-se com mais audácia
ainda do que nunca a todos os crimes, aliando à sua antiga perversidade
o ressentimento novo por essa injúria. E ele próprio passaria por um
covarde, aos olhos do povo, que já não possuía uma bela idéia da sua
valentia.

   XX. Enquanto Cícero flutuava nessa incerteza, as mulheres que
realizavam o sacrifício são testemunhas de um prodígio. Do fogo do altar
que parecia quase extinto lançou-se, de repente, do meio das cinzas e
das cascas queimadas, uma flama brilhante. O clarão dessa flama
assustou os presentes. As virgens sagradas, porém, aconselharam
Terência, mulher de Cícero, a ir procurar seu marido imediatamente e
forçá-lo a apressar a execução, sem perda de tempo, das resoluções
tomadas para a salvação da pátria, assegurando-lhe que a deusa havia
feito flamejar aquela luz como um presságio de segurança e de glória
para Cícero. Terência, que, de resto, não era de caráter fraco nem tímido;
que possuía mesmo ambição e, como disse o próprio Cícero, partilhava
mais com o marido o zelo pelos negócios públicos do que lhe
comunicava os negócios domésticos, foi levar-lhe as palavras das
vestais e o incitou vivamente contra os conjurados. A mesma coisa
fizeram Quinto, irmão de Cícero e Públio Nigídio, seu companheiro de
estudos de filosofia, homem cujos conselhos

ele escutava, muitas vezes, sobre os mais importantes negócios do
governo.

   

No dia seguinte, deliberou-se, no Senado, sobre a punição dos
conspiradores. Silano foi convidado a falar em primeiro lugar e propôs
que eles fossem conduzidos à prisão

pública, para aí serem punidos com a pena capital. Todos os que
falaram depois adotaram a sua opinião, até que chegou a vez de Caio
César 30, o que depois foi ditador. César era ainda jovem e começava,
naquele tempo, a lançar os fundamentos do seu grande futuro. Já
mesmo, por suas astúcias políticas e por suas esperanças, abria o
caminho que o conduziu enfim a trocar por uma monarquia o governo
de Roma.

Ninguém se apercebia disso. Só Cícero mantinha grandes suspeitas
contra ele mas nenhuma prova suficiente para convencê-lo. Afirmam alguns que Cícero atingia o momento de confundi-lo,
mas que César teve a habilidade de escapar-se. Pretendem outros que
Cícero negligenciou e rejeitou mesmo, de propósito, as provas que
possuía da sua cumplicidade, porque temia o seu poder e o grande
número de amigos que o sustentavam. Todos estavam persuadidos de
que os acusados seriam envolvidos na absolvição de César, bem antes
do que César no seu castigo.

   XXI. Quando chegou a sua vez de opinar,
César levantou-se e declarou que não estava de acordo em que se
punissem os conjurados com a pena de morte.

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