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– É preciso – afirmou – confiscar seus bens e colocar suas
pessoas nas cidades da Itália que Cícero deverá
escolher, para os ter a ferros até a inteira derrota de Catilina.

   

Esse voto, mais suave que o primeiro, e sustentado com

toda a eloqüência por César, recebeu ainda um grande peso

do próprio Cícero, que, estando de pé, discutiu os dois votos
e alegou fortes razões, primeiro em favor do de Silano, depois

em favor do de César. Seus amigos, que encontraram na

opinião de César o interesse de Cícero, porque, se deixasse

viver os culpados, teria que temer menos censuras, adotaram
o último voto, de preferência ao primeiro. O próprio Silano voltou ao
seu primitivo pensamento e explicou que não pretendera a pena de
morte porque encarava a prisão como o

máximo suplício para um
senador romano.

   

O primeiro que combateu o voto de César foi Lutácio Catulo; Catão 31
falou depois de Lutácio, e, insistindo com força sobre as suspeitas que
havia contra César, encheu o Senado de tanta indignação e ousadia,
que a sentença de morte foi, afinal, pronunciada contra os conjurados.
Quanto à confiscação dos bens, César a ela se opôs, alegando que não
era justo rejeitar o que seu voto continha de humano para só adotar a
sua disposição mais rigorosa. Como a maioria se declarasse abertamente
contra o seu voto, apelou para os tribunos, que recusaram interceder.
Cícero, porém, tomou o partido mais brando e abandonou a questão do
confisco dos bens.

   XXII. À frente dos senadores, Cícero foi à prisão dos
condenados, pois não tinham sido encarcerados em uma mesma casa:
estavam confiados à guarda dos pretores. Cícero se dirigiu primeiro ao
Palatino, onde estava Lêntulo, que ele mandou conduzir pela rua
sagrada e através do Fórum. As principais figuras da cidade cerravam-se em torno do cônsul e lhe serviam de guarda. O povo, numa imensa
multidão, seguia em silêncio, trêmulo de horror ao pensar que se
preparava a execução. Os moços, sobretudo, assistiam a esse
espetáculo com uma admiração misturada de terror, como nos mistérios
sagrados que celebrava a nobreza pela salvação da pátria. Quando
Cícero atravessou a praça e chegou à prisão, entregou Lêntulo ao
carrasco e ordenou que fosse executado. Conduziu em seguida Cetego
e cada um dos outros sucessivamente, fazendo-os executar. Cícero via,
entretanto, na praça, vários cúmplices da conspiração que se haviam
reunido e que, ignorando o que se passava, esperavam a chegada da
noite para arrebatá-los à prisão, julgando-os ainda com vida. Cícero
gritou-lhes:

   
– Eles viveram!

   

E a maneira de falar de que se servem os romanos que querem
evitar palavras funestas, para não dizer: Eles morreram.

   

A noite tombava. Cícero atravessou o Fórum para retornar à casa,
não mais em meio de um povo silencioso e que o escoltava na melhor
ordem possível, mas rodeado de uma multidão de cidadãos que o
cobriam de aclamações e de aplausos e que o chamavam de salvador, de
fundador de Roma. As ruas estavam iluminadas de lâmpadas e tochas
colocadas diante de cada porta. As mulheres iluminaram também o alto
dos tetos em homenagem a Cícero e para contemplá-lo subindo com o
seu majestoso cortejo de patrícios, cuja maioria havia tomado parte em
guerras importantes, entrado em Roma em carros de triunfo, ou
conquistado para o império uma vasta extensão de terras e de mares.
Marchavam, confessando entre si que, se o povo romano devia às
vitorias dos generais contemporâneos ouro e dinheiro, ricos despojos e
a condição de grande potência, Cícero fôra o único que lhe dera a
segurança e a salvação, afastando da pátria um perigo espantoso. O
admirável, em tudo isso, não foi que tivesse prevenido a execução da
conspiração e mandado punir os culpados, mas que tivesse sabido
sufocar, pelos meios menos violentos, a mais vasta conspiração que
jamais se formara em Roma, extinguindo-a sem sedições e sem
perturbações. Com efeito, a maioria dos que se haviam agrupado em
torno de Catilina, ao saberem do suplício de Lêntulo e de Cetego,
abandonaram seu chefe, e este mesmo, tendo combatido contra Antônio
com os que lhe ficaram fiéis, foi derrotado e pereceu, assim como todo o
seu exército.

   XXIII. Não obstante, havia pessoas que criticavam a conduta de Cícero
e se preparavam para fazê-lo arrepender-se. À sua frente estavam
César, Metelo e Béstia, – um, pretor, e os outros dois tributos,
designados para o ano seguinte. Quando entraram em ação, restavam
ainda alguns dias a Cícero de permanência no consulado. Não lhe
permitiram, pois, falar

ao povo e puseram bancos na tribuna a fim de impedir que ele
assomasse nela. Deixaram-lhe apenas a liberdade de comparecer, se
assim o quisesse, para se demitir do cargo e abandoná-lo em seguida.
Cícero acedeu e subiu à tribuna como se fôra para só pronunciar o
juramento. Fez-se um profundo silêncio. Mas, em lugar do juramento da
praxe, Cícero pronunciou outro em tom completamente novo e que não
convinha senão a si próprio. Jurou que salvaria a pátria e conservaria o
império. Todo o povo repetiu, após ele o mesmo juramento. César e os
tribunos, irritados com esse gesto, maquinaram contra Cícero outras
intrigas. Propuseram, principalmente, uma lei que chamava Pompeu com
as suas tropas, contando destruir assim o poder quase absoluto de
Cícero. Felizmente, para Cícero e para Roma, Catão era então tribuno, e,
como possuísse uma autoridade igual à de seus colegas, com uma maior
consideração, fez oposição aos decretos de César. Catão viu facilmente
o momento de satisfazer os seus desejos e de tal forma exaltou em seus
discursos ao povo o consulado de Cícero, que a este se concederam as
maiores honras jamais concedidas a nenhum romano, dando-se-lhe o
nome de pai da pátria, título honorífico que teve a glória de haver sido o
primeiro a possuir, e que Catão lhe conferiu em presença de todo o
povo.

   XXIV.

Cícero gozou da maior autoridade em Roma. Tornou-se, porém,
odioso para muita gente, não que praticasse alguma ação má, mas
porque geralmente chocava o fato de elogiar-se ele próprio, exaltar a
glória do seu consulado. Não ia nunca ao Senado, às assembléias
populares e aos tribunais que não tivesse na boca os nomes de Catilina
e de Lêntulo. Chegou mesmo a encher com os seus próprios elogios
todos os livros e escritos que compunha. E a sua eloqüência, tão cheia
de doçura e de graça, tornava-se enfadonha e fatigante para o
auditório. Essa afetação importuna era como uma doença fatal
inoculada na sua pessoa. Todavia, permaneceu puro, apesar dessa
ambição desmedida, de todo sentimento de

inveja a respeito dos outros. Prodigalizava louvores não só aos
grandes homens que o haviam precedido, mas também aos seus
contemporâneos, como se vê nos seus escritos. Lembram-se também
dele várias palavras caraterísticas. Ele dizia, por exemplo, de
Aristóteles, que era um rio em que rolava ouro em fortes ondas, e, dos
diálogos de Platão, que, se

Júpiter quisesse falar, seria aquele o seu
estilo. Costumavam chamar a Teofrasto “a sua delícia”. Como lhe
perguntassem; certa vez, qual era dentre os discursos de Demóstenes
o que

achava mais belo, respondeu: “O mais longo”. Entretanto, alguns dos
que se dizem fiéis zeladores da memória de Demóstenes, lhe
censuraram por haver escrito, numa carta a um dos

seus amigos, que Demóstenes, nos seus discursos, provoca algumas
vezes o sono. Esses censores, entretanto, parecem não se lembrarem
dos admiráveis elogios que ele fez a Demóstenes em várias passagens
das suas obras, e de que aos discursos em que trabalhou com mais
cuidado, os que pronunciou contra Antônio, deu-lhes Cícero o nome
de Filípicas.
32

   

Dentre todos os oradores e filósofos célebres do seu tempo, não
houve um só que não tivesse a sua fama acrescida pelos louvores que
Cícero espalhava em seus discursos e escritos. Apoiou com sucesso,
junto a César já ditador, a Cratipo, o peripatético, com o fim de lhe
conseguir o direito de cidadania romana. Obteve também, do
Areópago, um

decreto pelo qual se lhe pedia que ficasse em Atenas, para aí instruir os
moços, sendo ele como era um dos ornamentos da sua cidade. Há
cartas de Cícero a Herodo e outras a seu filho, em que o exorta a tomar
as lições de Cratipo. Censura no retórico Górgias o haver inspirado a
seu filho o gosto pelos prazeres, inclusive os da mesa, e recomenda
que se abstenha de qualquer relação com ele É essa, talvez, a única
carta de Cícero, além de uma outra a Pelops de Bizâncio, que foi escrita
em tom amargo. Mas ele tinha razão de se queixar de Górgias, se, de
fato, este era realmente tão
vicioso e tão corrompido como parecia ser. Quanto à carta dirigida a
Pelops, com estreiteza de ânimo e com ambição pueril, queixava-se da
sua negligência em não lhe haver conseguido, da parte dos bizantinos,
certos títulos honoríficos.

   XXV.

É sem dúvida à sua ambição que se devem atribuir essas
misérias, assim como a falta que cometeu, muitas vezes, de sacrificar
toda a conveniência à reputação do bem-dizer. Munácio 33, que
Cícero defendera e conseguira absolver, começou a perseguir Sabino,
um dos amigos do orador. Cícero ficou tão irritado que chegou ao
ponto de dizer

   
– Pensas, então, Munácio, que é à tua inocência que deves o fato
de teres sido absolvido, e não a mim, que, com a minha eloqüência,
ofusquei a luz aos olhos dos juízes?

   

Cícero fez, certa vez, da tribuna, um elogio a Marco Crasso,
tendo sido muito ovacionado e, pouco tempo depois, fez, ao mesmo
uma censura amarga.

   

– Não foi neste mesmo lugar, – lhe disse Crasso, que me elogiaste
há poucos dias?

   

– Sim, – respondeu-lhe Cícero, – eu queria experimentar o meu
talento num tema ingrato.

   

De outra vez, Crasso dissera que nenhum dos Crasso em Roma
tinha vivido mais de sessenta anos. Em seguida porém, se retratou

   

– Em quem pensava eu – disse – quando fiz tal afirmação?

   

– Tu sabias, – respondeu Cícero, – que os romanos ouviriam isso
com prazer e quiseste fazer-lhes a corte.

   

Tendo dito Crasso que apoiava a máxima dos estóicos “o sábio
é rico”, respondeu Cícero:

   – Cuidado, para que não adotes antes esta outra máxima
estóica: “tudo pertence ao sábio”.

   É que Crasso estava muito desacreditado em razão

da

sua
avareza. Um dos dois filhos de Crasso parecia-se perfeitamente com
um certo Áxio, contra cuja mãe se levantavam

suspeitas desairosas. Tendo sido esse moço aplaudido num discurso
que fizera no Senado, pediu-se a Cícero a sua opinião a respeito dele.
Cícero respondeu, em grego:

   – É digno (é filho) de Crasso.
34

   

XXVI. Crasso, no momento da sua partida para a Síria, pensou que lhe
seria mais útil reconciliar-se com Cícero do que o ter como inimigo: fez-lhe uma porção de presentes e mandou dizer-lhe que ia jantar com ele 35.
Cícero o recebeu com prazer. Poucos dias após, alguns dos seus
amigos foram dizer a Cícero que Vatinio, com quem ele brigara,
desejava fazer as pazes.

   

– Vatinio, – disse Cícero, – quererá mesmo jantar comigo?

   

Era assim que ele fazia com Crasso. Esse Vatinio tinha o pescoço
cheio de escrófulas. Um dia, em que havia atuado em um processo,
Cícero comentou:

   – Eis aí um orador bem empolado.

   

Foram dizer-lhe, um dia, que Vatinio morrera, mas como se soube,
algum tempo depois, com toda a certeza, que Vatinio vivia, Cícero teve
estas palavras:

   – Maldito o que mentiu tão mal a propósito!

   

César ordenara se distribuíssem aos soldados terras da Campania
e essa lei descontentou vários senadores. Lúcio Gélio, que era já muito
velho, declarou que a partilha não se realizaria enquanto ele vivesse.

   

– Esperemos, – falou Cícero, – pois Gélio não pede longo prazo.

   

Um certo Otávio, de quem se lamentava a origem africana, disse
um dia a Cícero que não o ouvia.

   

– Tu tens a orelha furada, replicou Cícero. 36

   

– Fizeste perecer mais cidadãos, – dizia-lhe Metelo Nepote, –
prestando testemunho contra eles, do que os que salvaste com tua
eloqüência.

   

– Concordo, – replicou Cícero, – que haja em mim ainda mais
crédito e fé do que eloqüência.

   

Um rapaz, acusado de ter envenenado o próprio pai com um bolo,
enfureceu-se contra Cícero e o ameaçou de liquidá-lo com injúrias.

   

– Prefiro tuas injúrias ao teu bolo – foi a resposta.

   

Públio Sextio, envolvido num processo criminal, pediu a Cícero e a
outros amigos que o defendessem; mas falava tanto que não dava
lugar a que seus defensores pronunciassem uma só palavra. Como os
juízes iniciassem a votação e parecessem favoráveis ao acusado, disse
Cícero:

   

– Aproveita a ocasião, Sextio, porque amanhã serás um homem
particular.

   

Públio Cota, que se tinha na conta de um jurisconsulto, se bem
que fosse homem sem conhecimentos e sem espírito, invocado certa
feita por Cícero como testemunha, respondeu que não sabia nada.

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