Vida de Licurgo, por Plutarco – Vidas Paralelas
XXX. Pois em primeiro lugar Licurgo não queria que as crianças pertencessem a particulares, mas fossem comuns à coisa pública, desejando assim, também, que aqueles que tivessem de ser cidadãos fossem gerados não por todos os homens, mas somente por gente de bem. Parecia-lhe, pois, que nas leis e ordenanças das outras nações, no tocante aos casamento, havia muitas tolices e vaidades, visto como faziam suas cadelas e éguas serem cobertas pelos mais belos cães e melhores garanhões que podiam obter, pedindo-os ou pagando-os aos respectivos senhores, e, não obstante, guardavam as mulheres encerradas debaixo de chave, com medo de que elas concebessem de outros que não eles, mesmo quando desmiolados, doentios ou velhuscos, como se não fosse primeira e principalmente por culpa dos pais e mães, e dos que os educam, que as crianças nascem viciosas e defeituosas, quando filhas de pessoas taradas; e, ao contrário, para proveito e contentamento daqueles, quando nascem bonitas e boas, por terem sido geradas de semelhante semente.
XXXI. Essas coisas assim se faziam então em virtude de razão natural e civil, mas eram tão necessárias que, embora as mulheres fossem tão fáceis, como se diz que depois o foram, não se sabia antigamente, na cidade de Esparta, o que era adultério; e em testemunho disso se pode alegar a resposta de um desses antigos Espartanos, chamado Geradas, a um estrangeiro que lhe perguntara que pena sofriam os que eram surpreendidos em adultério: «Meu amigo, disse ele, tal pena não existe.» «E se existisse?» replicou-lhe o estrangeiro. «Seria preciso, respondeu, pagar um touro tão grande que poderia beber a água do rio Eurotas de cima da montanha de Taígeto (19). «Mas como seria possível encontrar touro tão grande?» perguntou o estrangeiro. E Geradas, rindo, lhe respondeu: «E como seria possível encontrar em Esparta um adultério?» É o que se acha escrito a respeito das ordenanças de Licurgo, no tocante aos casamentos.
XXXII. Entrementes, depois que a criança nascia, o pai não mais era dono dela para educá-la à vontade, mas a levava para certo lugar a ele deputado que se chamava Lesche, onde os mais antigos de sua linhagem residiam: visitavam eles a criança e, se a achavam bela, bem formada de membros e robusta, ordenavam fosse educada, destinando-lhe nove mil partes das heranças para sua educação; mas, se lhes parecia feia, disforme ou franzina, mandavam atirá-la num precipício a que vulgarmente se dava o nome de Apothetes, isto é, depositórios, pois tinham a opinião de que não era expediente, nem para a criança, nem para a coisa pública, que ela vivesse, visto como desde o nascimento não se mostrava bem constituída para ser forte, sã e rija durante toda a vida. E, por esse motivo, as próprias mulheres que as governa-vam não as levavam com água simples, como se faz por toda parte, mas (20) com uma mistura de água e vinho, e por esse meio experimentavam se a compleição e a têmpera de seus corpos era boa ou má; porque dizem eles que as crianças sujeitas à epilepsia, ou então catarrosas e doentias, não podem resistir nem tolerar esse banho de vinho, mas definham e caem em langor; e, ao contrário, as que têm saúde se tornam
(19) A montanha de Taígeto é agora a montanha dos Mainotas mais rijas e mais fortes.
XXXIII. As governantes também usavam de certa diligência artificiosa para cuidarem de seus meninos sem enfraldá-los ou embrulhá-los com faixas e flanelas, de sorte que os tornavam mais desembaraçados (21) de membros, melhor formados e de mais bela e gentil corpulência; e assim se tornavam indiferentes no seu viver, sem serem difíceis de criar, nem gulosos ou enjoados, nem assustadiços e receosos de ficarem sós no escuro, nem gritalhões oú de algum modo perversos, que são todos sinais cie natureza frouxa e vil. De tal maneira que havia estrangeiros que compravam amas no país da Lacônia, expressamente para criarem os filhos: assim, dizem que Amilca, que criou Alcibíades, era uma delas; mas Péricles, seu tutor, deu-íhe depois (22) por mestre e governador um servo chamado Zópiro, o qual não tinha nenhum quinhão melhor do que os outros escravos comuns. O que não fez Licurgo, pois não pôs a educação e o governo dos meninos de Esparta entre as mãos de mestres mercenários ou de servos comprados a preço de dinheiro; e, assim, não era permitido aos pais educar os filhos à sua moda, como bem lhes parecesse. Pois logo que estes chegavam à idade de sete anos, ele os tomava e os distribuía por grupos, para serem educados juntos e se habituarem a brincar, aprender e estudar uns com os outros; depois, escolhia em cada grupo aquele com aparência de ser o mais avisado e o mais corajoso no combate, ao qual dava a superintendência de todo o grupo. Os outros tinham sempre a vista voltada para ele e obedeciam às suas ordens, suportando pacientemente as punições que ele lhes ordenava e as corvéias que lhes determinava; de maneira que quase todo o estudo era aprender a obedecer; mas, além disso, os velhos assistiam frequentemente aos seus brinquelos coletivos c a maior parte do tempo lhes proporcionavam ocasiões para debates e querelas uns com os outros, para melhor conhecerem e descobrirem qual era o natural de cada um e se mostravam sinais de. um dia deverem ser ou cobardes ou audazes.
(20) No grego: mas com vinho.
C.
(21) Mais livres, mais ágeis.
(22.)
Acrescentar, segundo o grego, pelo que diz Platão. C.
XXXIV. Quanto às letras, aprendiam somente o necessário e, em suma, todo o aprendizado consistia em bem obedecer, suportar o trabalho e obter a vitória em combate. Por essa razão, à medida que avançavam em idade, aumentavam-lhes também os exercícios corporais; raspavam-lhes os cabelos, faziam-nos andar descalços e os constrangiam a brincar juntos a maior parte do tempo, inteiramente nus; depois, quando chegavam à idade de doze anos, não mais usavam saios daí por diante, pois todos os anos lhes davam somente uma túnica simples, o que era causa de andarem sempre sujos e ensebados, como aqueles que não se lavavam nem se untavam senão em certos dias do ano, quando os faziam gozar um pouco, dessa doçura. Deitavam e dormiam juntos sôbre enxergas, que eles próprios fabricavam com pontas dos juncos e caniços que cresciam no rio Eurotas, 06 quais eles próprios deviam ir colher e quebrar, lòmente com as mãos, sem nenhuma ferramenta; mas, CIO inverno, ajuntavam a isso e misturavam no meio o que se chama (23) Lycophanos, porque parece que essa matéria tem em si um pouco de calor.
(23) É uma espécie de cardo, na língua dos Messenianos. Vide Hesíquio. Amyot. É o cardo algodoado, carduus tomentosus
XXXV. Mais ou menos nessa idade, seus amantes, que eram os rapazes mais galhardos e mais gentis, começavam a frequentá-los mais assiduamente , e também os velhos tinham as vistas semelhantemente voltadas para eles, aparecendo mais ordinariamente nos lugares onde faziam os exercícios e onde combatiam, e assistindo-os quando se divertiam em pllheriar uns com os outros: o que os velhos faziam não só por passatempo, mas com tal diligência e tal afeição como se fossem seus pais, mestres e preceptores desde que eles eram crianças; de maneira que nunca havia tempo nem lugar onde não tivessem sempre alguém para os admoestar, repreender e castigar, se cometessem alguma falta.
XXXVI. E, contudo além de tudo isso, ainda havia sempre um dos homens de bem da cidade que tinha expressamente o título e o encargo de governador das crianças, o qual as repartia por bandos e depois dava a superintendência àquele dentre os meninos que lhe parecesse mais prudente, ousado e corajoso: Chamavam aos rapazes írenes, dois anos após haverem saído da infância, e aos meninos maiores chamavam Melírenes, como se dissessem prestes a sair da infância. O moço a quem se dava esse cargo tinha já vinte anos e era seu capitão quando combatiam, e comandava-os quando estavam em casa, como a seus criados, injungindo aos que eram mais corpulentos e mais fortes que carregassem lenha para o jantar, e aos que eram menores e mais fracos, ervas. Precisavam furtá-las, para consegui-las. Uns iam furtar nos jardins, outros nas salas dos convívios, onde os homens comiam juntos, dentro das quais se esgueiravam o mais fina e cautamente que podiam, porque, se acaso fossem surpreendidos, seriam conscientemente chicoteados, por terem sido preguiçosos demais e não bastante finos e astutos no furto. Também furtavam quaisquer outras viandas sobre as quais pudessem pôr a mão, espiando as ocasiões de poderem tomá-las habilmente, quando os homens dormiam ou não faziam boa guarda; mas aquele que fosse surpreendido era chicoteado e (24) tinha ainda de jejuar, pois muito pouco lhes davam de comer, a fim de que a necessidade os constrangesse a arriscar-se ousadamente e a inventar alguma habilidade para escaparem sutilmente. Era a causa primeira e principal por que lhes davam tão pouco alimento, mas o acessório era enfim que seus corpos crescessem mais em altura, porque os espíritos de vida, não estando muito ocupados em cozer e digerir muita vianda, nem rebatidos para baixo ou estendidos em largura pelo peso demasiado grande dela, sè estendiam em comprimento e se rebatiam para cima, por causa de sua ligeireza e, por essa forma, o corpo crescia em altura, nada havendo que o impedisse de subir. E parece que a mesma causa os tornava também mais belos, porque os corpos miúdos e delgados obedecem melhor e mais facilmente à virtude da natureza, que dá o molde e a forma a cada; um dos membros; e, ao contrário, parece que os corpos grandes, gordos e demasiado nutridos lhe resistem, não sendo tão maleáveis quanto os outros, por’causa de seu peso: nem mais nem menos do que se vê, por experiência, que as crianças nascidas de mulheres formosas, que purgaram durante a gravidez, são também mais delgadas e mais belas, porque a matéria que lhes forma o corpo, sendo mais flexível, é também mais facilmente regida pela força da natureza, que lhe dá a forma: todavia, quanto à causa natural desse efeito, deixemos disputá-la quem o queira, sem nada decidir.
(24) No grego: e era obrigado a jejuar. C.
XXXVII. Mas, para voltar ao assunto dos meninos Lacedemônios: furtavam com tanto cuidado e tanto medo de serem descobertos que se conta de um que, tendo furtado um raposinho, o escondeu debaixo da túnica, deixando-se dilacerar todo o ventre com as unhas do animal, sem jamais gritar, por medo de ser descoberto, até que morreu onde se achava. O que não é incrível, pois se vê o que os menores sofrem ainda hoje: vimos vários deles serem chicoteados até à morte, em cima do altar de Diana sobrenomeada Órtia. Ora, aquele submestre que tinha a superintendência de cada grupo de crianças, após o jantar, sentado ainda à mesa, mandava que um dos meninos cantasse uma canção e fazia uma pergunta depois da outra, as quais exigiam bastante reflexão para que as respostas fossem adequadas, com por exemplo: «Quem é o melhor homem da cidade?» Ou: «Que te parece o que fez fulano?» Com esse exercício, acostumavam-se desde tenra idade, a julgar as coisas bem ou malfeitas e a indagar da vida e do governo dos cidadãos. Pois, se algum não respondia pronta e pertinentemente a tais perguntas — quem é homem de bem, quem é bom cidadão e quem não o é — estimavam eles que isso era sinal de natureza frouxa, indolente, não incitada à virtude pelo desejo de honra; e, assim, era preciso que a resposta fosse sempre acompanhada de sua razão e prova, curta e estrita, em poucas palavras: do contrário, a punição daquele que respondesse mal consistia em que o mestre lhe mordia o polegar, fazendo-o mais frequentemente em presença dos velhos e magistrados da cidade, para verificar se o castigava com razão e como convinha. E, ainda que o fizesse mal, não o repreendiam em seguida, mas quando os meninos já se haviam retirado; e então era ele próprio repreendido e punido, conforme a punição tivesse sido dura demais ou, ao contrário, demasiado branda.
XXXVIII. Além disso, imputava-se aos amantes a boa òu má opinião que se concebia dos meninos que haviam tomado para amar, de sorte que se diz que, tendo certa vez um menino, combatendo contra outro, deixado escapar da boca um grito que lhe revelou a coragem frouxa e falida, seu amante: foi por isso condenado à multa pelos oficiais da cidade. Mas, conquanto o amor fosse, coisa tão incorporada entre eles que até as mulheres honestas e virtuosas amavam as meninas, não havia contudo ciúmes, mas, ao contrário, era isso um começo de mútua amizade entre os que amavam no mesmo lugar; e procuravam juntos por todos os meios de que podiam dispor, fazer que o menino que amavam em comum fosse o mais gentil e o melhor condicionado de todos os outros. Ensinavam os meninos a falar de sorte que sua linguagem tivesse malícia misturada de graça e prazer, e que em poucas palavras compreendesse muita substância.
XXXIX. Pois Licurgo queria que a moeda de ferro, de grande peso e grosseira massa, tivesse muito pouco valor, como dissemos alhures; e, ao contrário que a fala, em poucas palavras, nem pesadas nem afetadas, compreendesse muito grave e boa sentença, acostumando as crianças, por longo silêncio, a serem breves e agudas nas respostas. Porque exatamente assim como a semente dos homens luxuriosos, que se misturam frequente e dissolutamente demais com as mulheres, não pode germinar nem frutificar, também a intemperança de falar demais torna a palavra vã, tola e vazia de sentido. Daí vem que as respostas Lacónicas eram tão agudas e tão sutis; conta-se (25) que o rei Agis respondeu um dia a um Ateniense que zombava das espadas usadas pelos Lacedemônios, dizendo que eram tão curtas que os saltimbancos e ilusionistas as engoliam facilmente na praça, diante de toda a gente: «E todavia, disse Agis, com elas atingimos bem os nossos inimigos.»
XL. Quanto a mim, sou de opinião que os Lacõnios, em sua maneira de falar, não usam de muita linguagem, mas tocam muito bem no ponto e se fazem entender muito bem pelos ouvintes; e, assim, parece-me que o próprio Licurgo era igualmente breve e agudo no falar, o que se pode conjecturar por algumas de suas respostas que se encontram por escrito, como foi a que deu a alguém que o aconselhava a estabelecer na Lacedemônia um governo popular, onde o pequeno tivesse tanta autoridade quanto o grande: «Começa, disse-lhe ele, a fazê-lo tu mesmo em tua casa.» Semelhantemente, também, o que respondeu a outro que lhe perguntara porque havia ordenado se oferecessem aos deuses coisas tão pequenas e de tão pouco valor: «A fim, disse ele (26), de jamais cessarmos de honrá-los.» E o que de outra feita disse no tocante aos combates (27): proibia aos cidadão somente aqueles nos quais a mão é estendida, isto é, onde há rendição.
(25) Vide as Observações, cap. XXXIX. C.
XLI. Encontram-se também algumas belas res^ postas em certas cartas missivas que escrevia aos seus concidadãos, como quando lhe perguntaram: «Como poderemos defender-nos contra os nossos inimigos?» Respondeu-lhes: «Continuando pobres e sem nenhum cobiçar possuir mais do que’ o outro.» E em outra missiva, na qual discute se era expediente fechar a cidade com muralhas: «Como se poderia dizer que a cidade está sem muralhas, quando está cingida e cercada de homens em toda a volta, e não de tijolos?» Todavia, quanto a essas cartas e outras semelhantes que se mostram dele, é difícil decidir se devemos crer ou descrever sejam de sua autoria.
(26) O grego: de que tenhamos sempre com que honrá-los. C.
(27) Ginásticas.
C.
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