A profissão de fé do vigário Saboiano – Rousseau

Este texto está dividido em partes: 1 2 3 4 5 6 7

A PROFISSÃO DE FÉ DO VIGÁRIO SABOIANO

(Do Emile, , ou da )
Tradução de J. Brito Broca e Wilson Lousada
Fonte: Clássicos Jackson

Há trinta anos que, em uma cidade da Itália, um jovem expatriado se via reduzido à última miséria. Nasceu , mas uma estroinice o levara fugitivo e sem recursos a país estrangeiro, e teve que mudar de religião para poder comer. Havia na cidade um albergue para convertidos. Nele foi admitido. À medida em que o iam instruindo nas artes da controvérsia, infundiam-lhe dúvidas que não tinha, ensinavam–llie o mal que ignorava. Falaram-lhe de novos dogmas; presenciou costumes mais novos ainda, de que esteve para ser vítima. Quis fugir, encarceraram-no; queixou-se e castigaram-no por suas queixas. À mercê de seus tiranos, foi tratado como um por não querer ceder ao crime. Só os que sabem como um coração ainda tenro, se exaspera com a primeira prova da e da injustiça poderão avaliar o estado do seu. Dos olhos, corriam-lhe lágrimas de raiva, a indignação sufocava-o; implorava ao céu e aos homens, confiava-se a todo o mundo, e ninguém o ouvia. Só via à sua volta fâmulos vis submetidos ao infame que o ultrajava, ou cúmplices do mesmo crime que zombavam da sua resistência, incitando-o a imitá-los. Se não fosse um eclesiástico que passou pelo albergue, e com quem pôde desabafar em segredo, estaria perdido. O eclesiástico era pobre, necessitava de todo o mundo, mas o oprimido ainda mais necessitava dele; e não vacilou em favorecer-lhe a fuga, ainda com risco de ganhar um perigoso inimigo.

Escapado ao vício para cair na indigência, o moço não cessava, de lutar contra o ; houve um momento em que julgou sobrepor-se-lhe. Aos primeiros lampejos da sorte, esqueceu-se de seus males e do protector. Mas logo sofreu o castigo dessa ingratidão; todas as esperanças se lhe desvaneceram. A juventude favorecia-o, mas em vão; suas idéias romanescas deitavam tudo a perder. Não tinha capacidade nem astúcia que lhe abrissem caminho fácil, e, como não era morigerado nem malicioso, tantas coisas pretendeu que não alcançou nenhuma. Caído novamente na miséria, sem pão, sem asilo, quase a morrer de fome, lembrou-se de seu benfeitor.

Procurou-o outra vez, encontrou-o, e foi bem recebido. A presença do jovem recordou ao eclesiástico uma das boas acções da sua vida; lembranças destas rejubilam sempre a alma. Era um homem naturalmente humano, compassivo, que avaliava, pelas suas, as penas dos outros; o bem-estar não lhe endurecera o coração, e as lições da sabedoria e uma virtude esclarecida tinham-lhe fortalecido a boa índole. Acolheu o moço e diligenciou–lhe um abrigo, onde o recomendou, repartindo com ele tudo de que dispunha, que mal chegava para os dois. Fez mais: instruiu-o, consolou-o, ensinou-lhe a difícil arte de suportar pacientemente a adversidade. Homens de preconceitos, esperaríeis, porventura, isto de um padre e na Itália?

Este honrado eclesiástico era um pobre vigário saboiano, de mal com seu bispo, devido a uma aventura de juventude, e que atravessara os montes em busca dos recursos que lhe faltavam em seu país. Não carecia de talento nem de cultura; com uma figura interessante, encontrou protectores que o colocaram em casa de um ministro, como educador de seu filho. Preferia a pobreza à dependência, e não sabia como se conduzir com os grandes. Não ficou muito tempo com este, mas não perdeu sua estima, quando o deixou; e, como levava uma vida sensata e era estimado de toda a gente, alimentava a esperança de reconquistar um dia o apreço do bispo e obter um pequeno curato nas montanhas, onde passasse o resto da vida. Não tinha mais ambições.

Sentia natural inclinação pelo moço fugitivo, e estu-dou-o atentamente. Verificou que a má sorte já lhe tinha secado o coração, que o opróbrio e o desprezo lhe haviam abatido a coragem, e que a sua altivez, transformada em amargo despeito, lhe mostrava apenas, na injustiça e na soberba dos homens, o vício da sua natureza e a quimera da virtude. Para ele, a religião era apenas a máscara do interesse, e o culto sagrado a salvaguarda da hipocrisia; o paraíso e o inferno eram, na subtileza das vãs disputas, simples jogo de palavras; via a sublime e primitiva ideia da Divindade desfigurada pelas caprichosas imaginações dos homens; e, convencido de que, para crer em Deus, era mister renunciar ao raciocínio que ele nos deu, sentia o mesmo desdém pelas nossas ridículas fantasias e pelo seu objecto. Como não sabia nada sobre o que existe, nem meditava sobre a génese das coisas, caiu em uma estúpida ignorância e em profundo desprezo pelos que julgavam saber mais do que ele.

O olvido de toda a religião leva o homem ao olvido de todos os deveres. Mais de metade deste caminho já tinha sido percorrido no coração do libertino. Não era, no entanto, um moço de maus sentimentos; mas a incredulidade e a miséria iam-lhe minando a pouco e pouco a boa índole, e precipitando rapidamente a sua perda, dando-lhe os hábitos do mendigo e a moral do ateu.

O mal, quase inevitável, não estava, porém, totalmente consumado. O moço tinha alguns conhecimentos e havia cultivado a sua educação. Estava nessa idade feliz em que o sangue, fermentando, começa a levar calor à alma, sem a escravizar ao furor dos sentidos. A dele ainda estava na posse de toda a sua iniciativa. O constrangimento era nele modéstia inata, seu carácter tímido prolongava-lhe esse período em que o aluno tantos cuidados requer. O exemplo odioso da depravação brutal é do vício sem encantos não lhe estimulavam a imaginação, amorteciam-lha. A repugnância foi. durante muito tempo a virtude que lhe conservou a inocência; esta só devia sucumbir a seduções mais delicadas.

O eclesiástico viu o perigo e o remédio. As dificuldades não o desanimavam. Comprazia-se na sua obra e resolveu levá-la até ao fim, restituindo a virtude à vítima que havia arrancado à infâmia. Tomou com calma a execução do seu projecto; a beleza do tema dava-lhe coragem e inspirava-lhe meios dignos de tanto zelo. Fosse qual fosse o resultado, estava certo do que não perdia, o seu tempo. Quando só se pretende fazer o bem, sempre se triunfa.

Começou procurando ganhar a confiança do rapaz, não lhe levando nada pelos seus serviços; não era inoportuno, nem lhe fazia sermões, pondo-se sempre ao seu alcance e diminuindo-se para se colocar ao seu nível. Era um espectáculo impressionante ver como um homem grave se tornava o camarada de um vadio, e como a virtude sintonizava com o vício para deste obter triunfo mais seguro. Quando o estouvado lhe fazia suas loucas confidências, expandindo-se com ele, o padre ouvia-o e punha-o à vontade; não aprovava o mal, mas demonstrava interesse por tudo; nunca lhe detinha a loquacidade ou lhe confrangia o coração com uma censura indiscreta. O prazer de se saber ouvido era ainda maior que o de não ter que calar nada. Fez, assim, uma confissão geral, sem saber que se estava confessando.

Depois de lhe estudar bem os sentimentos e o carácter, viu o padre claramente que, embora não fosse um ignorante para a sua idade, havia esquecido tudo quanto lhe interessava saber, e que o opróbrio, a que a sorte o reduzira, ia apagando nele todo o verdadeiro sentimento do bem e do mal. Há um grau de embrutecimento que arranca a vida à alma; e a voz interior não chega ao que só pensa em alimentar-se. Para preservar o desventurado moco desta morte moral, de que tão perto se encontrava, começou por lhe despertar o amor próprio e a estima por si mesmo; apontava-lhe um destino mais feliz, se empregasse melhor as suas capacidades; reanimava em seu coração um generoso ardor, contando-lhe as belas acções dos outros, e, provocando-lhe a admiração pelos que as haviam feito, incitava-lhe o desejo de os imitar. Para afastá-lo insensivelmente daquela vida ociosa e vagabunda, mandava-o copiar extractos de livros escolhidos; e, fingindo que necessitava deles, incutia-lhe o nobre sentimento do reconhecimento. Doutrinava-o indirectamente por esses livros. Fazia-o formar um conceito bastante lisonjeiro de sua própria pessoa para que não se julgasse um ser inútil para o bem, nem se visse desprezível aos seus próprios olhos.

Um simples episódio nos dará ideia dos métodos de que este homem benemérito se servia para elevar insensivelmente o coração do aluno acima das baixezas humanas, sem que ele pressentisse tal intuito. Era tão patente a probidade do eclesiástico e tão firme o seu bom senso, que muita gente preferia confiar-lhe suas esmolas em vez de aos padres ricos das cidades. Certo dia, em que lhe deram algum dinheiro para os pobres, teve o moço a fraqueza de, a título de pobre, pedir-lhe a sua parte.

— "Não, disse-lhe o vigário, nós somos irmãos, és coisa minha; e só devo tocar neste dinheiro para o empregar como me foi determinado." A seguir, porém, deu-lhe de suas economias a quantia solicitada.

Lições como esta raras vezes se perdem no coração dos homens que não estão totalmente corrompidos.

Já estou cansado de falar em terceira pessoa; a preocupação é inútil porque você já viu, meu caro concidadão, que esse infeliz fugitivo era eu. Creio-me bastante desviado dos desatinos da juventude para poder confessá-los, e a mão que se me estendeu bem merece que eu, sacrificando embora um pouco de vergonha, preste algumas homenagens aos benefícios que dela recebi.

O que mais me sensibilizava era ver, na vida particular do meu digno mestre, a virtude sem hipocrisia, a humanidade sem desfalecimentos, juízos sempre rectos e simples, e uma conduta constantemente de acordo com esses juízos. Não lhe importava saber se os que recebiam seu auxílio iam ou não à missa, se se confessavam muitas vezes ou jejuavam nos dias de preceito, se faziam abstinência, nem lhes impunha outras condições semelhantes, sem as quais morreríamos de necessidade se tivéssemos que contar com a ajuda dos devotos.

Suas observações davam-me coragem, e, longe de alardear em sua presença o zelo próprio de um novo prosélito, nunca lhe ocultava meu modo de pensar, sem nele advertir jamais o menor sinal de reprovação. Pensava às vezes comigo: perdoa-me a indiferença pelo culto que abracei pela que me vê ter também pelo culto em que nasci; sabe que a minha indiferença já não é sectarismo. Mas que pensar, quando o ouvia, de vez em quando, aprovar os dogmas contrários aos da Igreja romana, parecendo não ter em grande estima as suas cerimónias? Crê-lo-ia um protestante disfarçado, se não o visse tão fiel a essas práticas, a que, aparentemente, não prestava grande atenção; mas, observando que cumpria tão pontualmente seus deveres de sacerdote, sem testemunhas, como em público, não sabia como interpretar essas contradições. Exceptuando o defeito que, em outros tempos, fora a causa de sua desgraça, e de que não se havia corrigido muito, levava vida exemplar: seus costumes eram irrepreensíveis, sua forma de pensar judiciosa e honesta. Vivia com ele na maior intimidade, e aprendi a respeitá-lo cada vez mais; conquistou-me inteiramente o coração com tantas bondades, o que me fazia esperar, com curiosa inquietação, o momento de saber em que princípios fundava uma vida tão uniforme e singular.

Esse momento não se apresentou logo. Antes de se abrir com o discípulo, fez germinar as sementes da razão e da bondade que lhe lançara na alma. O que havia mais difícil de destruir em mim era uma orgulhosa misantropia, certa quizília contra os ricos e os homens felizes deste mundo, como se eles o fossem à minha custa, ou a sua pretensa felicidade me tivesse sido usurpada.

A louca vaidade da juventude, que se subleva contra a humilhação, provocava-me este humor colérico; e o amor próprio, que meu mentor procurava despertar em mim, feria-me a soberba, tornando os homens ainda mais vis a meus olhos; todo o meu desprezo e ódio se concentrava neles.

Não combateu este orgulho directamente, mas não consentiu que se transformasse em dureza de alma; não me privou da estima própria, mas fê-la menos desdenhosa para com os outros. Apontava-me sempre as falsas aparências, mostrando-me os males reais que nelas se ocultam, e ensinava-me a deplorar as faltas de meus semelhantes, a comover-me com suas misérias, a sentir por eles mais pena que inveja. Um profundo sentimento das próprias misérias inspirava-lhe compaixão pelas fraquezas alheias, considerando sempre os homens vítimas de seus vícios e dos alheios; via os pobres gemer sob o jugo dos ricos, e os ricos sob o jugo dos preconceitos. Crê, dizia-me ele, as ilusões não nos encobrem os males, aumentam-no-los, dando valor aos que o não têm, e fazendo-nos sofrer mil privações que, sem elas, não sentiríamos. A paz da alma consiste no desprezo por tudo quanto a possa perturbar: o homem que mais apego tem à vida é o que menos a desfruta, e o mais infeliz, o que mais avidamente aspira à felicidade.

— "Ah que triste quadro! exclamava eu, com amargura; se temos que renunciar a tudo, para que nascer? Se temos que desprezar a própria felicidade, quem po derá ser feliz?" — "Eu", respondeu um dia o padre, num tom de voz que me impressionou. — "Feliz, vós! tão pouco afortunado, tão pobre, exilado, perseguido? vós, feliz! E que caminho seguistes para sê-lo?" — "Meu filho, replicou ele, vou dizer-te com prazer". Deu-me logo a entender que, depois de ter recebido as minhas confissões, sentiu o desejo de me fazer as suas. "Vou depositar em teu seio, disse, abraçando-me, todos os sentimentos do meu coração. Ver-me-ás, senão como sou, pelo menos, como me vejo. Quando ouvires toda a minha profissão de e conheceres bem o estado da minha alma, compreenderás por que me sinto feliz; e, se concordares comigo, verás o caminho a seguir para o seres também. Mas estas confissões não são coisa de um instante. Dizer tudo o que penso sobre o destino do homem e a verdadeira paz da vida requer algum tempo. Marquemos hora e lugar cómodo para conversar com toda a tranquilidade".

Mostrei impaciência por ouvi-lo. Combinámos logo o encontro para a manhã do dia seguinte. Era verão; levantámo-nos ao nascer do dia. Levou-me para fora da cidade, para o alto de uma colina; aos pés passava o Pó, serpenteando através de férteis ribeiras, vendo-se, ao longe, a imensa cadeia dos Alpes, dominando a paisagem. Os raios do sol que nascia derramavam-se pelas planícies, projectando nos campos, em longas sombras, as árvores, os outeiros, as casas, e enriquecendo com mil acidentes de luz o mais belo quadro que olhos humanos podiam ter surpreendido. Dir-se-ia que a natureza exibia à nossa frente toda a sua magnificência, como que suscitando um tema para as nossas conversas. Foi ali que, depois de contemplar por algum tempo, em silêncio, esses objectos, o homem de paz falou assim:

— Meu filho, não esperes de mim discursos sábios ou conceitos profundos. Não sou um grande filósofo, nem faço muita questão de o ser. Às vezes, porém, tenho bom senso, e prezo sempre a verdade. Não me proponho argumentar contigo, nem mesmo tentarei converter-te; quero só dizer-te o que penso na simplicidade do meu coração. Consulta o teu no decurso desta palestra; nada mais te peço. Se me enganar, será de boa fé; basta isso para que não me imputem o erro a crime, e se tu, da mesma forma, te enganasses, também não havia mal nenhum nisso. Se meu pensar for bom, a razão ser-nos-á comum, e igual interesse teremos em prestar-lhe ouvidos. Por que não hás-de pensar como eu?

Nasci pobre e aldeão, destinado pelo meu estado a trabalhar na terra; mas acharam que devia aprender a ganhar o pão no ofício de sacerdote, e facilitaram-me os meios de estudar. Decerto que nem meus pais nem cu buscávamos com isso o que era bom, verdadeiro e útil, mas o que era preciso saber-se para receber ordens. Aprendi o que me mandaram aprender, disse o que me mandaram dizer, comprometi-me ao que me ordenaram, e fizeram-me padre. Mas adverti logo que, quando me comprometi a deixar de ser homem, prometera mais do que me era dado prometer.

Dizem que a consciência é obra dos preconceitos; sei, no entanto, por própria, que se obstina em seguir a ordem da natureza contra, todas as leis humanas. Em vão nos proíbem isto ou aquilo, porque nunca o remorso reprova com energia o que a natureza bem ordenada consente, e, com mais razão, o que prescreve. Oh! meu rapaz, não contraries nunca os teus sentidos: deixa-te viver nesse feliz estado em que a vida é inocente. Lembra-te que mais a ofendemos evitando-a que combatendo-a; aprendamos, primeiro, a resistir, para saber, depois, quando devemos ceder sem culpa.

Desde a juventude, sempre respeitei o casamento como a primeira e a mais sagrada instituição da natureza. Privado do direito de contrair matrimónio, resolvi não o profanar; porque, apesar de minhas aulas e estudos, sempre levei uma vida igual e simples, e conservei no espírito todo o resplendor das primeiras luzes; não as obscureceram as máximas do mundo, e a pobreza arredava-me das tentações que os sofismas do vício nos oferecem.

Essa resolução foi precisamente o que me perdeu; o respeito pelo tálamo alheio, deixou minhas culpas a descoberto. Tive que expiar o escândalo; detido, suspenso, expulso, fui mais a vítima dos meus escrúpulos que da minha incontinência; compreendi, então, pelas recriminações que acompanharam minha desgraça, que basta às vezes agravar a falta para fugir ao castigo.

Bastam algumas experiências como esta para afectar profundamente um espírito reflexivo. Tristes observações subvertiam o conceito que formava do justo, do honesto e dos deveres do homem, fazendo-me perder dia a dia as opiniões em que tinha sido criado; as que me restavam eram insuficientes, em conjunto, para formar um corpo capaz de se sustentar por si só, e sentia que a evidência dos princípios se ia obscurecendo no meu espírito. Não sabendo, finalmente, em que pensar, cheguei ao ponto em que tu te encontras hoje, com a diferença de que a minha incredulidade, fruto tardio de uma idade mais madura, se tinha gerado mais lentamente que a tua, e era, portanto, mais difícil de destruir.

Estava nessas disposições de incerteza e de dúvida que Descartes requer para a investigação da verdade; estado de pouca duração, inquietante e penoso, em que nos deixa o interesse do vício ou a indolência da alma. Não tinha ainda o coração bastante corrompido para me conciliar com ele; o que melhor conserva o hábito de reflexionar é sentirmo-nos mais satisfeitos conosco do que com o destino.

Meditava, pois, na triste sorte dos mortais, lançados no mar das opiniões humanas, sem leme nem bússola, entregues às paixões tempestuosas, levando como único guia um piloto inexperiente que desconhece a rota e não sabe donde vem nem para onde vai. Amo a verdade, pensava, procuro-a e não a encontro; que alguém ma indique, e eu a abraçarei. Por que se furtará às ânsias do meu coração que nasceu para adorá-la?

Experimentei muitas vezes outros males piores, mas nunca tive uma vida tão desagradável como nesses tempos de agitações e ansiedades, em que, vagando, sem cessar, de dúvida em dúvida, não tirava de minhas longas meditações senão incertezas, obscuridades e contradições sobre a origem do meu ser e as normas de meus deveres.

Como se pode ser céptico por sistema e de boa-fé ? Não compreendo. Esses filósofos, se é que existem, são os mais infelizes dos homens. A dúvida sobre o que devemos conhecer é um estado violentíssimo para o espírito humano, a que este não resiste por muito tempo, preferindo tomar uma decisão, qualquer que ela seja, a enganar-se e não crer em nada.

O que aumentava a minha confusão era ter nascido no seio de uma Igreja que tudo decide sem deixar margem à dúvida; rejeitar um ponto equivalia a rejeitar todos os outros, e a impossibilidade de admitir tantas decisões absurdas não me consentia aceitar as que não o oram. Mandavam-me crer em tudo e não me permitiam crer em nada; não sabia onde me deter.

Consultei os filósofos, folheei seus livros, analisei suas opiniões; todos me pareciam arrogantes, afirmativos, dogmáticos, até em seu pretenso cepticismo, nada ignorando, nada provando, zombando uns dos outros; e este ponto, a todos comum, parecia-me o único em que todos tinham razão. Triunfam no ataque, mas não se sabem defender com vigor. Se reflectires nas razões disto, concluirás que só as têm para destruir, e se contares as opiniões que os seguem, verás que não contam senão com a sua. Só estão de acordo num ponto: discutir. Escutá-los, pois, não era o melhor meio de sair da minha incerteza.

Compreendi que a incapacidade do espírito humano é a primeira causa dessa prodigiosa diversidade de sentimentos, e a segunda, o orgulho. Como se nos escapam as dimensões dessa imensa máquina, não lhe podemos calcular as relações; ignoramos suas principais leis e a causa final. Ignoramo-nos a nós mesmos; desconhecemos a nossa natureza e o nosso princípio activo. Mal sabemos se o homem é um ser simples ou composto; estamos rodeados de mistérios impenetráveis que nos dominam a região sensível, julgamo-nos com inteligência para os devassar, e não temos senão imaginação. Através desse mundo imaginário, traçamos a rota que julgamos certa, mas ninguém pode saber se é, realmente, a que leva ao fim. Entretanto, tudo queremos penetrar e conhecer. Só não sabemos ignorar o que não podemos saber. Preferimos lançar-nos ao acaso, e crer no que não existe, a confessar que não sabemos ver o que existe. Pequenina parte de um grande todo, cujos limites nos fogem, e seu autor expõe às nossas loucas disputas, somos suficientemente vãos para pretender decidir o que esse todo é em relação a si e nós em relação a ele.

E mesmo que os filósofos pudessem encontrar a verdade, qual deles se interessaria por ela? Nenhum ignora que seu sistema não é melhor fundado que o dos outros; mas sustenta-o porque é seu. Todos sabem onde está o verdadeiro e o falso, mas preferem a mentira por eles encontrada à verdade por outros descoberta. Onde está o filósofo que, para glória sua, não engane conscientemente o género humano? Onde aquele que, no fundo de seu coração, se proponha outro objectivo que o de se distinguir? Chegar a ultrapassar o nível do vulgar, eclipsar o brilho de seus concorrentes, eis todas as suas aspirações ! O essencial é não pensar como os outros. Entre os crentes é um ateu, entre os ateus um crente.

A primeira vantagem que tirei dessas reflexões foi aprender a reduzir minhas pesquisas ao que imediatamente me interessava, a viver em profunda ignorância de tudo o mais, a me inquietar apenas com a dúvida das coisas que devia saber.

Compreendi ainda que os filósofos não me desembaraçavam das dúvidas inúteis; multiplicavam, ao contrário, as que me atormentavam e não esclareciam nenhuma. Segui, pois, outros caminhos, pensando: Consultemos a luz interior que não me extraviará tanto, e, se errar, o erro, pelo menos, será só meu; se me deixar levar pelas minhas próprias ilusões, não me perverterei tanto como com as suas falsidades.

Repassando então no meu espírito as opiniões que me haviam incutido desde que nasci, verifiquei que, conquanto nenhuma oferecesse evidência capaz de rne levar a uma convicção imediata, tinham entre si vários graus de verossimilitude, e que o assentimento interior as admitia ou repelia em distinta medida. De acordo com esta primeira observação, comparei todas essas idéias no silêncio das minhas preocupações, e vi que a principal e a mais comum era também a mais simples e razoável, faltando-lhe apenas ser a última para conquistar todos os sufrágios. Imaginai todos os filósofos antigos e. modernos, esgotando seus extravagantes sistemas de força, acasos, fatalidades, necessidade e átomos, de mundo animado, de matéria viva, de materialismo de toda a espécie, 0 aparecer, depois, o ilustre Clarice[1] a iluminar o mundo 0 a anunciar finalmente o Ser dos seres, o que concede todas as coisas! Com que universal admiração, com que unanimidade de aplausos não teria sido recebido esse novo sistema tão grande, tão reconfortante, tão sublime, tão próprio para elevar a alma e ser a base da virtude, e, ao mesmo tempo, tão impressionante, tão luminoso, tão simples, e, ao que parece, apresentando menos coisas incompreensíveis ao espírito humano que de absurdos se encontram em qualquer outro sistema! Pensava, pois, que as objecções insolúveis são comuns a todos eles porque o espírito humano é muito limitado para as solucionar; nada provam, pois, contra nenhum em particular, Dias que diferença entre as provas directas! Como não preferir o único que tudo explica e não apresenta dificuldades superiores aos outros?

Levando, pois, comigo, como única filosofia, o amor à verdade, e, como único método, uma regra fácil e simples que me dispensa da vã subtileza dos argumentos, analiso de novo os conhecimentos que me interessam, disposto a admitir como evidentes os que não pugnam com a sinceridade do meu coração, e, como verdadeiros, os que me pareça terem forçosa conexão com estes, deixando os mais na incerteza, não os repelindo nem admitindo, e sem me preocupar com o seu , visto que a nada de útil podem conduzir na prática.

Comentários

Mais textos

Este texto está dividido em partes: 1 2 3 4 5 6 7

Adicione o seu comentário

Prezado visitante: por favor, não republique esta página em outros sites ou blogs na web. Ao invés disso, ponha um link para cá. Obrigado.


Tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Início