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A profissão de fé do vigário Saboiano – Rousseau

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Vede, pois, a que se reduzem vossas pretensas .provas sobrenaturais, vossos milagres, vossas profecias: a crer em tudo isso sobre a palavra de outrem, e a submeter a autoridade de Deus, que me fala à razão, à autoridade dos homens. Se as verdades eternas, que meu espírito concebe, pudessem sofrer menoscabo, cessaria para mim toda a espécie de certeza; e não só poria em dúvida que me faláveis da parte de Deus, como até a sua própria existência.

Grandes dificuldades são essas, meu filho, e ainda não é tudo. Entre tantas religiões diversas, que se proscrevem e excluem mutuamente, só uma é a boa, se alguma o é. Para a reconhecermos, não basta examinar uma só, é mister examiná-las todas; ninguém deve condenar sem ouvir, seja qual for a matéria[17]; é preciso confrontar as objecções com as provas; saber o que cada um opõe e responde aos outros. Quanto mais demonstrado um sentimento nos pareça, mais devemos investigar em que se fundam tantos homens para o não considerarem como tal. Muito ingénuo é quem crê que basta ouvir os doutores do seu partido para avaliar das razões do partido contrário. Onde estão os teólogos que presumem de boa–fé? Onde os que, para rebater as razões de seus adversários, não tratam de enfraquecê-las de antemão? Brilham todos no partido a que pertencem; mas há quem muito se ufane com as provas que apresenta no meio dos seus e faz papel de imbecil, esgrimindo essas mesmas provas entre as pessoas do bando contrário. Pretendes instruir-te pelos livros? Mas quanta erudição a adquirir, quantas línguas a aprender, quantas bibliotecas a consultar; que imensa leitura a fazer! Quem me guiará na opção ? É difícil encontrar num país os melhores livros do partido adverso, e menos ainda os de todos os partidos ; e, embora fosse fácil, seriam logo refutados. O ausente nunca tem razão, e as más razões, ditas com convicção, apagam facilmente as boas, ditas com displicência. Além disso, nada, geralmente, engana tanto como os livros nem com menos fidelidade reproduz os sentimentos dos que os escrevem. Quando quiseste ajuizar da fé católica pelo livro de Bossuet, encontraste-te longe da ideia que formavas depois de teres vivido conosco. Viste que a doutrina com que se responde aos protestantes não é a mesma que se ensina ao povo, e que o livro de Bossuet pouco se parece com as doutrinas dos sermões[18]. Para julgar bem uma religião, não basta estudá-la nos livros de seus sectários; é necessário aprendê-la em seu país, o que é bem diferente. Cada um tem as suas tradições próprias, seus significados, seus costumes, seus preconceitos que fazem o espírito das crenças, e tudo se deve tomar em consideração para julgar.

Quantos países muito populosos não editam livros, nem lêem os nossos! Como julgarão as nossas opiniões? E nós, as suas’? Rimo-nos deles, e eles nos desprezam; e, se nossos viajantes os ridicularizam, bastaria que viajassem entre nós para nos pagar na mesma moeda.» Em que país não há pessoas sensatas, gente de boa-fé honrada, amiga da verdade, que só procura conhecê-la para a abraçar! Todos a vêem em seus cultos, mas acham absurdos os cultos das outras nações: portanto, ou esses estranhos cultos não são tão extravagantes quanto nos parecem, ou a razão que no nosso vamos encontrar nada prova.

Há na Europa três religiões principais. Uma admite uma só revelação, a outra, duas, e a última, três. Cada uma delas detesta e maldiz as outras, acusando-as de cegueira, de insensibilidade, de obstinação, de mentira. Que homem imparcial será capaz de julgá-las, sem antes ponderar devidamente as suas provas e ouvir as suas razões. A mais antiga, e parece que a mais segura, é a que admite apenas urna revelação; a que admite três é a mais moderna e parece que a mais consequente; a que admite duas, rejeitando a terceira, talvez seja a melhor, mas tem, decerto, todos os preconceitos em contra. A inconsequência salta aos olhos.

Nas três revelações, os livros sagrados estão escritos era línguas desconhecidas para os povos que as seguem. Os judeus já não entendem o hebraico; os cristãos, nem o hebraico nem o grego; os turcos e os persas não entendem o árabe; e os árabes modernos deixaram de falar a língua de Maomé. Não é um modo extravagante esse de doutrinar os homens, falando-lhes sempre numa língua que eles não entendem’? Dir-se-á que esses livros estão traduzidos. Bela resposta! E quem me garante a fidelidade da tradução, ou sequer se esta era. possível? E, se Deus pode falar aos homens, para que necessita de intérpretes?

Nunca poderei conceber que esteja nos livros o que todo homem está obrigado a saber, nem que deva ser castigado por voluntária ignorância o que não está ao alcance dos livros nem das pessoas que os entendam. Sempre livros! Que mania! Por que será que a Europa está cheia de livros, que os europeus consideram indispensáveis, sem pensar que existem três quartas partes da terra em que jamais se viu um deles! Não foram esses livros escritos por homens ? Como há-de, pois, o homem necessitar deles para conhecer suas obrigações? E de que meios disporia ele para conhecer seus deveres, antes de compostos esses livros? Ou aprenderá esses deveres por si só ou está dispensado de os saber.

Nossos católicos fazem grandes espaventos com a autoridade da Igreja; mas que adiantam com isso, se, para instituir essa autoridade, precisam de tão grande aparato de provas como as demais seitas para estabelecer a sua doutrina’? A Igreja decide que a Igreja tem direito a decidir. Queres autoridade melhor demonstrada? E se saíres daí, cairás em todas as nossas discussões.

Conheces muitos cristãos que já se tenham dado ao trabalho de examinar cuidadosamente o que o judaísmo contra eles alega? Se alguns encontraram alguma coisa sobre isso, foi nos livros dos cristãos. Boa. maneira, não há dúvida, de averiguar as razões dos contrários! Mas, que fazer? Se alguém, entre nós, ousasse publicar um livro que favorecesse abertamente o judaísmo, seria castigado o autor, o editor o o livreiro[19]. Nossa polícia é suficientemente cómoda e segura para ter sempre razão. É sempre agradável refutar quem não se atreve a falar.

Os que conseguem falar com os judeus não adiantam muito mais. Os desgraçados sentem-se à nossa mercê! A tirania que contra eles se exerce fá-los medrosos; sabem quão pouco custa à caridade cristã a injustiça e a crueldade! Que poderão dizer que não corram o perigo de que brademos contra o blasfemo? A cobiça, torna-nos zelosos, e eles são muito ricos para não serem culpados. Os mais sábios e os mais esclarecidos são sempre os mais circunspectos. Converterás algum miserável, pago para caluniar a seita a que pertence; farás falar alguns pícaros vis, que cederam para te adular; vangloriar-te-ás da sua ignorância e da sua covardia, enquanto seus doutores sorrirão em silêncio da tua estupidez. Julgas, porém, que nos países onde se sentem seguros será fácil contar com eles? Na Sorbonne, c claro como a luz do dia que as predições do Messias se referiam a Jesus Cristo, e não é menos claro, entre os rabinos de Amsterdão, que essas predições não tinham com ele a menor relação. Nunca me convencerei de entender bem as razões dos judeus, enquanto eles não possuam um Estado livre, escolas, universidades, onde possam falar e discutir sem risco. Só então saberemos o que eles têm a dizer.

Em Constantinopla, os turcos proclamam as suas razões, e nós não ousamos dizer as nossas, ali nos toca humilhar-nos. Se os turcos nos exigem o mesmo respeito por Maomé, em quem não cremos, que nós exigimos por Jesus Cristo aos judeus, em quem eles também não crêem, procedem mal por isso? E nós procedemos bem? Por que princípio de equidade resolver esta questão?

Dois terços do género humano não são nem judeus, nem cristãos, nem maometanos; e quantos milhões de homens não ouviram nunca falar de Moisés, de Jesus Cristo, de Maomé? Nega-se isto, porque se diz que nossos missionários andam por toda. parte. Isso é fácil de dizer. Mas irão eles ao coração da África, ainda desconhecida, onde jamais penetrou nenhum europeu? Irão à Tartária, seguindo a cavalo as hordas errantes, das quais nunca estrangeiro algum se aproximou e que nunca ouviram falar do Papa, mas apenas do Grão-Lama? Irão aos imensos continentes da América, onde nações inteiras ignoram ainda que povos de outros países puseram os pés no seu? Irão ao Japão, onde, para sempre expulsos por suas artimanhas, seus predecessores são conhecidos pelas gerações que nascem como meros intrigantes astutos, que ali chegaram com zelo hipócrita para se apossarem suavemente do império? Irão aos haréns dos príncipes da Ásia anunciar os Evangelhos a milhões de escravas? Que delito cometeram as mulheres dessa parte do mundo que nenhum missionário pode lá ir pregar-lhe a fé? Irão todas parar aos infernos por viver em reclusão?

Embora o Evangelho tivesse sido anunciado em toda a terra, que provaria isso? Na véspera do dia em que chegou o primeiro missionário a determinado país, morreu decerto alguém que não o pôde ouvir. Dize-me, pois, e esse alguém? Houvesse um só homem em todo o universo a quem não fosse pregado Jesus Cristo, e a objeção seria tão forte para esse homem como para a quarta parte do género humano.

Quando os ministros dos Evangelhos se fizeram ouvir pelos povos longínquos, que lhes teriam dito eles que logo foi admitido, à luz da razão, sobre a sua simples palavra, e sem necessidade da mais escrupulosa verificação? Anuncias-me um Deus nascido e morto há dois mil anos na outra extremidade do mundo, em não sei que pequena cidade, dizendo-me que os que não creiam nesse mistério se condenarão. Eis aqui coisas bastante estranhas para eu nelas crer tão rapidamente sobre a simples palavra de um homem que desconheço. Por que quis vosso Deus que esses acontecimentos se produzissem tão longe de mim e agora me obriga a que por eles me esclareça? Será crime ignorar o que se passa nos antípodas? Como posso adivinhar que existiu no outro hemisfério o povo hebreu e a cidade de Jerusalém? Seria o mesmo que me obrigassem a saber o que acontece na lua. Dizes que vieste ensinar-mo; e corno não vieste antes ensiná-lo a meu pai? Ou por que condenas esse bom velho, que nunca o soube? Deve sofrer castigo eterno por causa de um desleixo teu, ele que era tão bom, tão benemérito, o andou sempre em busca da verdade? Tem um penico de boa-fé, coloca-te em meu lugar, e dize-me se, fiando-me apenas de teu testemunho, devo eu crer em todas as coisas incríveis que me estás dizendo, conciliando tantas injustiças com o Deus justo que me anuncias? Deixa-me ir ver, por favor, esse país distante, onde se operam tantas maravilhas singulares; quero saber por que trataram lá Deus como um facínora. Alegas que não o reconheciam como Deus. E eu, que nunca ouvira falar dele antes de chegares? Argumentarás que foram castigados, dispersos, oprimidos, escravizados, que nenhum deles se acerca da cidade. Mereceram, decerto, tudo isso; mas que dizem os habitantes de hoje do deicida de seus predecessores? Negam-no, e também não reconhecem a Deus como Deus. Pois, para isso, preferível fora lá ter deixado os filhos dos outros.

Pois que? Nem os antigos, nem os novos habitantes da cidade em que Deus morreu o reconhecem como tal, e queres tu que o reconheça eu, eu que nasci dois mil anos pois, e a duas mil léguas de distância? Não vês que, antes de dar crédito a esse livro, que chamas de sagrado, e do qual nada entendo, devo saber dos outros, e não por ti, quando e por quem foi ele feito, como foi conservado, como chegou até ti, que razões aduzem os que em seu país o rejeitam, embora saibam, tão bem como tu, tudo o que me estás ensinando? Já vês que devo ir à Europa, à Ásia, à Palestina examinar tudo por mim; seria um louco se até então te desse ouvidos.

Não só esse raciocínio me parece razoável, mas defendo que, em semelhante caso, todo homem sensato deve falar assim, despedindo logo o missionário que, antes de verificadas as provas, pretenda catequizá-lo e baptizá-lo. Sustento que não há revelação alguma contra a qual não tenham tanta ou mais força as objecções feitas contra o cristianismo. Donde se conclui que, se há uma só religião verdadeira, que todo homem é obrigado a seguir sob pena de condenação- eterna, devemos passar a vida a estudá-las todas, a aprofundá-las, a compará-las, a percorrer os países onde se acham estabelecidas. Ninguém está isento do primeiro dever do homem, ninguém tem o direito de se fiar do juízo alheio. O artesão, que não vive senão do seu trabalho, o lavrador que não sabe ler, a donzela delicada e tímida, o enfermo que mal se pode levantar da cama, todos, sem excepção, deverão estudar, meditar, discutir, viajar, percorrer o inundo; não haverá povo estável e fixo: a terra inteira estará pejada de peregrinos que, à custa de grandes despesas e longas fadigas, irão verificar, comparar, examinar directamente todos os vários cultos que se estendem por esse mundo além. Então, adeus ofícios, artes, ciências humanas, e todas as ocupações civis; já não se poderá estudar nada mais senão a religião; e só o que desfrute de melhor saúde, e melhor empregue seu tempo, faça melhor uso da razão e mais anos viva, poderá saber na velhice, e a grande custo, o que fazer; e muito terá conseguido se, antes de morrer, souber em que culto devia ter vivido.

Queres suavizar esse método e conceder alguma importância à autoridade dos homens? Devolve-lhes tudo imediatamente; e, se o filho dum cristão faz bem em seguir a religião de seu pai, sem uma análise profunda e imparcial, por que há-de fazer mal ao filho de um turco, em seguir, da mesma forma, a religião do seu? Desafio todos os intolerantes a que me dêem uma resposta capaz de satisfazer qualquer homem sensato.

Compelidos por estas razões, uns preferem tornar Deus injusto, obrigando os inocentes a purgar os pecados dos pais, antes de renunciar a seu bárbaro dogma. Outros resolvem a dificuldade, enviando oficiosamente um anjo a instruir aquele que, numa invencível ignorância, tenha vivido moralmente bem. Que magnífica invenção a deste anjo! Não contentes com escravizar-nos às suas máquinas, obrigam Deus a servir-se delas.

Vê, meu filho, a que absurdo o orgulho e a intolerância nos conduzem, quando nos obstinamos em nossas idéias, e julgamos ter mais razão que o resto do género humano. Que todas as minhas pesquisas foram sinceras, apelo para o testemunho de Deus; mas, vendo que não davam fruto, nem jamais dariam, e que me ia afundando num oceano sem fim, voltei atrás e limitei minha, fé às minhas noções primitivas. Nunca pude conceber que Deus me ordenasse ser sábio, sob pena de me mandar para o. inferno. Fechei, pois, todos os livros. Há apenas um que se abre a todos os olhos: o da natureza. É neste grande e sublime livro que eu aprendo a adorar e a servir seu divino autor. Ninguém pode alegar que não o lê, porque fala aos homens uma língua inteligível a todas as inteligências. Tivesse eu nascido em uma ilha deserta, e jamais visto outro homem nem aprendido o que acouteceu, em tempos remotos, em certo canto do mundo, bas-tar-me-ia o exercício e o cultivo da minha razão, fazer "bom uso das faculdades imediatas que Deus me deu para, por mim mesmo, aprender a conhecê-lo, a amá-lo, a amar suas obras, a desejar o bem que ele deseja, c a cumprir, para o comprazer, todos os meus deveres na terra. Que mais me poderá ensinar todo o saber dos homens?

No que se refere à revelação, se eu discorresse melhor ou fosse mais instruído, talvez sentisse sua verdade e utilidade para os que têm a sorte de a reconhecer; mas, se acho provas a seu favor que não posso rebater, encontro também objecções que não posso resolver. São tantas e tão sólidas as razões em pró como em contra, e, como não sei que determinação tomar, não a admito nem rejeito; rejeito apenas a obrigação de a reconhecer, porque essa suposta obrigação é incompatível com a justiça de Deus e, em vez de remover os obstáculos no caminho da salvação, tornou-os irremovíveis para a maior parte do género humano. Exceptuando isso, mantenho-me em uma respeitosa dúvida. Não tenho a presunção de me crer infalível; talvez outros tivessem já decidido o que mo parece indeciso, mas raciocino por mim e não por eles. Não os censuro nem os imito. Seu raciocínio pode ser melhor do que o meu, mas o certo é que não é o meu, nem minha a culpa.

Confesso-vos também que a santidade do Evangelho é um argumento que me fala ao coração, e que lamentaria mesmo ter alguma objecção a fazer-lhe. Olha para os livros dos filósofos com toda a sua pompa; como eles são pequenos ao lado deste! É possível que livro tão sublime e tão simples seja obra dos homens? E que aquele, cuja história nos conta, seja apenas um homem? É esse o tom de um entusiasta ou de um sectário ambicioso? Que brandura e pureza de costumes. Que profunda sabedoria a de seus raciocínios! Que comovedora graça a de suas instruções! Que elevação a de suas máximas! Que presença de espírito, que delicadeza, que precisão a de suas respostas! Que domínio sobre suas paixões! Onde está o homem, onde o sábio que saiba agir, sofrer e morrer sem fraqueza nem ostentação! Quando Platão nos pinta o seu justo imaginário[20], defendido contra o opróbrio do crime, e digno de todos os prémios da virtude, vai-nos pintando, traço a traço, a figura de Jesus Cristo; a semelhança é tão patente que todos os Padres a viram, e não é possível enganar-se. Que preconceitos e que cegueira para comparar o filho de Sofronisco com o filho de Maria! Que distância entre um e outro! Sócrates, morrendo sem dor, sem ignomínia, manteve-se bem no seu papel até ao fim; mas, se essa morte fácil não lhe tivesse glorificado a vida, quem sabe se não pensaríamos agora que Sócrates, com todo o seu talento, não passara de um sofista! Diz-se que inventou a moral; outros a praticaram antes; limitou-se apenas a dízer-nos o que eles fizeram, reduzindo a lições seus exemplos. Aristides fora justo antes de Sócrates nos dizer o que era a justiça; Leônidas morrera por seu país, antes de Sócrates nos ditar como um dever o amor da pátria; Esparta era sóbria, antes de Sócrates louvar a sobriedade; antes dele definir a virtude, abundavam na Grécia homens virtuosos. Mas aprendeu Jesus com os seus aquela moral elevada e pura de que só ele foi lição o exemplo?[21] Foi no seio do mais furioso fanatismo que emergiu a mais alta sabedoria1! E foi a simplicidade das virtudes mais heróicas honrar o mais vil dos povos? A morte de Sócrates, filosofando serenamente com seus amigos, é a mais doce que se pode desejar; a de Jesus, expirando entre tormentos, injuriado, escarnecido, amaldiçoado por todo um povo, a mais horrível que se pode temer. Sócrates, tomando a taça envenenada, bendiz o que, banhado em lágrimas, lha apresenta; Jesus, em meio de um suplício horroroso, ora por seus encarniçados algozes. Sim, se a vida e a morte de Sócrates são as de um sábio, a vida v a morte de Jesus são as de um Deus. Dir-se-á que foi inventada a história do Evangelho? Meu amigo, isso não se inventa assim; e os feitos de Sócrates, de que ninguém duvida, estão menos comprovados que os de Jesus Cristo. No fundo é furtar-se à dificuldade, sem a destruir; seria mais inconcebível que esse livro fosse fabricado por vários homens, postos de acordo, do que um só lhe fornecesse o assunto. Nunca os autores judeus teriam encontrado esse tom e essa moral, e o Evangelho apresenta tão grandes caracteres de verdade, tão impressionantes, tão perfeitamente inimitáveis, que a existência de um inventor seria coisa mais para assombrar que o próprio herói. Apesar de tudo, esse mesmo Evangelho está cheio de coisas incríveis, que repugnam à razão e que nenhum homem sensato pode conceber ou admitir. Que fazer, pois, no meio de tantas contradições? Sermos sempre modestos e circunspectos, meu filho; respeitarmos em silêncio o que não sabemos repelir nem compreender, e humilhar-nos perante o grande Ser que é o único que sabe a verdade.

Eis o cepticismo involuntário a que cheguei; mas esse cepticismo não me é de forma alguma penoso, porque não afecta os pontos essenciais na prática, visto já estar bem compenetrado dos princípios de todos os meus deveres. Sirvo a Deus na simplicidade do meu coração. Só procuro saber o que interessa à minha conduta. Quanto aos dogmas, que não influem nas acções nem na moral, com que tanta gente se atormenta, não me preocupam muito nem pouco. Considero as religiões particulares como outras tantas instituições salutares que decretam para cada país uma maneira uniforme de honrar a Deus por meio de um culto público, e cujas razões assentam no clima, no governo, na índole do povo, ou em qualquer outra causa local que a façam prevalecer sobre as outras, segundo as épocas e os lugares. Para mim todas são boas, contanto que sirvam a Deus convenientemente. O culto essencial é o do coração. Deus não repele nenhuma homenagem, quando sincera, seja qual for a forma em que lha ofereçam. Chamado, na que professo, ao serviço da igreja, cumpro com a possível exactidão as funções que me estão determinadas, e condenar-me-ia a consciência se faltasse voluntariamente a alguma das suas regras. Sabes que, depois de prolongada suspensão, obtive, por influência de M. de Mellarède, licença para reassumir o meu cargo que me ajuda a ganhar a vida. Outrora dizia a missa com a vulgaridade a que a gente acaba por se habituar quando as coisas se repetem muitas vezes, mesmo as mais graves. Depois de meus novos princípios, celebro-a com a maior veneração; penetro-me da majestade do Ser supremo, da sua presença, da insuficiência do espírito humano, que tão pouco compreende o que se relaciona com o seu autor. Pensando que lhe levo as preces do povo numa forma prescrita, observo escrupulosamente todos os ritos, recito com toda a atenção, cuido de não omitir a menor palavra nem a menor cerimônia; ao aproximar-se o momento da consagração, recolho-me para a fazer com todos os preceitos exigidos pela Igreja e a grandeza do sacramento; procuro humilhar a razão perante a suprema inteligência. Quem és tu — digo a mim mesmo — para medir o poder infinito? Pronuncio com respeito as palavras sacramentais, imprimindo-lhes toda a fé de que sou capaz. Seja qual for esse mistério inconcebível, não receio ser castigado no dia do juízo por tê-lo profanado em meu coração.

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Última Modificação: 22 mai, 2010.

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