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A profissão de fé do vigário Saboiano – Rousseau



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Honrado com o sagrado ministério, embora na mais modesta das suas categorias, nada farei nem direi que me faça indigno de observar os sublimes deveres. Pregarei sempre a virtude aos homens, exortando-os a praticar o bem; e, no que de mim dependa, dar-lhes-ei o exemplo. Por mim, tornar-lhes-ei a religião agradável incutindo-lhes a fé nos dogmas realmente úteis e em que todo o homem está obrigado a crer; mas praza a Deus que jamais lhes pregue o dogma da intolerância, levando-os a detestar o próximo, e a dizer aos outros homens: "Estais condenados, fora da Igreja não há salvação"[22]. Se ocupasse um posto mais elevado, esta reserva podia acarretar-me consequências, mas sou tão insignificante que nada tenho a recear, e mal posso cair mais baixo do que estou. Em qualquer hipótese, não blasfemarei contra a justiça divina, nem mentirei contra o Espírito–Santo.

Durante muito tempo, ambicionei a honra de ter um curato; ainda a ambiciono, mas já não a espero. Meu bom amigo, nada há mais belo que ser pároco! O bom pároco é um ministro da bondade, como o bom magistrado um ministro da justiça. Um pároco não tem nunca necessidade de fazer mal; se não pode fazer o bem por si mesmo, está sempre no seu papel o solicitá-lo, e obtem-no geralmente, quando se faz respeitar. Oh! se me dessem nas montanhas um pobre curato de gente humilde, seria feliz, porque me parece que faria a felicidade de meus paroquianos. Não os faria ricos, mas compartilharia de sua pobreza; afastá-los-ia da desonra e do desprezo, que são mais insuportáveis que a indigência. Fa-los-ia amar a concórdia e a igualdade, que afugentam às vezes a miséria, e sempre a tornam suportável. Quando verificassem que em nada era superior a eles, e, no entanto, vivia contente, aprenderiam a conformar-se com a sua sorte e a viver satisfeitos como eu. Nas minhas prédicas, cingir-me-ia menos ao espírito da Igreja que ao do Evangelho, onde o dogma é simples e a moral sublime, onde se vêem poucas práticas religiosas e muitas obras de caridade. Antes de lhes ensinar o que deviam fazer, esforçar-me-ia sempre em praticá-lo, para se convencerem de que pensava tudo quanto lhes dizia. Se houvesse protestantes nas vizinhanças ou na minha paróquia, não os distinguiria de meus verdadeiros fregueses em tudo que respeita à caridade cristã; levá-los-ia a amarem-se uns aos outros igualmente, olhando-se como irmãos, a respeitar todas as religiões, e cada um a viver na sua. Creio que exigir de alguém que abandone a religião em que nasceu, é obrigá-lo a proceder mal, e, por consequência, também não procederia bem quem lho propusesse. À espera de luzes mais claras, mantenhamos a ordem pública, respeitemos as leis de todos os países, não perturbemos os cultos nelas prescritos, não incitemos os cidadãos à desobediência; porque não estaremos nunca certos se será um bem ou um. mal o que lhes predicamos, levando-os a abandonar suas opiniões por outras, mas sabemos, sim, que é um mal a desobediência às leis.

Acabo, meu jovem amigo, de te expor a minha profissão de fé, tal como Deus a lê no meu coração; és o primeiro a quem a fiz, e talvez o único a quem a farei. Enquanto houver uma boa crença entre os homens, não devemos perturbar as almas pacíficas nem sobressaltar a fé dos simples com dificuldades que não podem resolver, que os inquietam e não os esclarecem. Mas, quando tudo está abalado, cumpre-nos conservar o tronco sacrificando os ramos. As consciências agitadas, incertas, quase extintas, no estado em que se encontra a tua, precisam de quem as fortifique e acorde; e para se restabelecerem sobre a base das verdades eternas, é mister arrancar os pilares combalidos em que ainda julgam apoiar-se.

Estás nessa idade crítica em que o espírito desperta para a certeza, em que o coração adquire forma e carácter, e em que tomamos determinações para toda a vida, seja para o bem ou para o mal. Mais tarde, a substância endurece, e as impressões novas já não se gravam. Recebe, meu rapaz, na tua alma, ainda flexível, o cunho da verdade. Se eu estivesse mais seguro de mim mesmo, teria adoptado contigo um tom dogmático e decisivo; mas sou homem, ignorante, sujeito a erros, e não podia proceder de outro modo. Abri-te meu coração sem reservas: o que tenho por seguro apresentei-te como tal; as dúvidas como dúvidas, as opiniões como opiniões; dei-te as razões que tinha para duvidar e para crer. Agora, compete a ti julgar. Pediste-me que te deixasse algum tempo; esta precaução é prudente e leva-me a formar boa ideia de ti. Começa pondo a consciência em estado de querer que a iluminem. Sê sincero contigo mesmo. De meus sentimentos, apropria-te dos que te persuadiram; abandona os restantes. Ainda não estás tão depravado pelo vício que corras o risco de escolher mal. Gostaria que conferenciássemos entre nós, mas o que discute exaltasse, a vaidade e a obstinação misturaram-se nas discussões e a boa-fé desaparece. Não discutas nunca, meu amigo, as discussões não nos trazem luz, nem a nós, nem aos outros. Só após longos anos de intenso meditar é que tomei uma determinação, e nela me conservo. Sinto a consciência tranquila e o coração satisfeito. Se tivesse que começar de novo o exame dos meus sentimentos, não o empreenderia com mais puro amor à verdade, e meu espírito, já mais cansado, não estaria tão apto a reconhecê-la. Fico onde estou, com receio de que o prazer da contemplação, tornando-se ociosa, insensivelmente me esmoreça no exercício dos meus deveres, e eu vá cair de novo no meu anterior pírronismo, sem forças para de lá sair. Já decorreu mais de metade da minha vida; disponho do tempo preciso para aproveitar o resto a redimir meus erros pelas virtudes. Se me enganar, não será por minha vontade. O que lê no fundo meu coração sabe bem que não me obstino na minha cegueira. Não tenho luzes próprias que dela me tirem e o único meio que se me oferece é uma vida correcta. Se das próprias pedras pôde Deus inspirar filhos a Abrão, todo o homem tem o direito a esperar , quando disso se tornar merecedor.

Se, por minhas reflexões, teu pensar for como o meu, como os meus teus sentimentos e tivermos a mesma profissão de fé, eis o conselho que te dou: Não voltes a expor a vida às tentações da miséria e do desespero, não a arrastes ignominiosamente à mercê dos estranhos, deixa de comer o vil pão da esmola. Regressa à tua pátria, volta à religião de teus pais, observa-a na sinceridade de teu coração e não mais a abandones; é muito simples e santa. Creio que, entre todas as religiões que existem na terra, é aquela cuja. moral é mais pura e a que mais satisfaz à razão. Não te preocupes com as despesas de viagem; eu providenciarei. Não temas tão pouco o escrúpulo de um arrependimento humilhante; devemos corar quando cometemos uma falta, mas não quando a reparamos. Ainda estás na idade em que tudo se perdoa, mas em que já não se peca impunemente. Quando quiseres dar ouvidos à consciência, verás como mil obstáculos desaparecerão perante a sua voz. Reconhecerás que, na incerteza em que vivemos, é imperdoável presunção professar religião diferente daquela em que nascemos, e uma falsidade não praticar sinceramente a que professamos, Se nos extraviamos, perdemos uma poderosa desculpa junto do tribunal do juiz soberano. Não nos perdoaria ele mais facilmente o erro em que fomos criados que o que escolhemos por nossa conta?

Meu filho, conserva tua alma em estado de desejar que Deus exista, e jamais duvidarás de sua existência. Pensa, de resto, que, qualquer partido que tomasses, os verdadeiros deveres da religião seriam sempre independentes das instituições humanas; que um coração justo é o verdadeiro templo da Divindade; que em todos os países o em todas as seitas o amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos é a suma da lei; que não há religião que nos dispense dos deveres da moral, que são os únicos verdadeiramente essenciais; que o culto íntimo é o primeiro desses deveres, e que sem fé não pode haver verdadeira virtude.

Foge daqueles que, sob o pretexto de explicarem a natureza, semeiam no coração dos homens doutrinas de desolação; seu cepticismo aparente é cem vezes mais afirmativo e dogmático que o de seus adversários. Com o arrogante pretexto de que só eles são cultos, verazes e de boa-fé, submetem-nos imperiosamente a opiniões categóricas, pretendendo apresentar-nos, como os verdadeiros princípios das coisas, sistemas ininteligíveis arquitectados pela sua imaginação. Além disso, derribando, destruindo, pisando tudo quanto os homens respeitam, tiram aos aflitos o último consolo para as suas desventuras, e aos poderosos e aos ricos o único freio para as suas paixões, arrancam-lhes do fundo do coração o remorso do crime, a esperança da virtude, vangloriando-se ainda de serem os benfeitores do género humano. Dizem que a verdade nunca prejudica os homens; também assim o creio, e é, a meu ver, uma prova decisiva de que não é verdade o que nos predicam[23].

 

Sê sincero e verídico sem orgulho, meu rapaz; aprende a ser ignorante, não te enganes a ti nem aos outros. Se um dia teu talento, cultivado, te permitir falar aos demais homens, fala-lhes pelos ditames da tua consciência, e não te confundas, embora te aplaudam. O abuso do saber gera a incredulidade. Todo o sábio desdenha a opinião vulgar; cada um deles quer ter uma para seu uso. A filosofia orgulhosa leva ao fanatismo. Evita esses excessos; permanece sempre firme no caminho da verdade, ou do que, na simplicidade do teu coração, julgues ser a verdade, sem nunca te desviares dela por vaidade ou fraqueza. Ousa afirmar Deus entre os filósofos, pregar a humanidade aos intolerantes. És o único da tua seita? Talvez. Mas levarás em ti mesmo um testemunho que te dispensará o dos homens. Não importa que te amem ou odeiem, que leiam ou desprezem teus escritos. Dize sempre a verdade e pratica o bem. O que importa ao homem é cumprir seus deveres na terra, esquecendo que trabalha para si. Meu filho, o interesse próprio engana-nos; só a esperança do justo não engana nunca.

 


[i] Célebre teólogo inglês, morto em 1729.

 

[2] Os relatos de M. de la Comdamine falam-nos de um povo que só sabia contar até três. No entanto, os homens que o constituíam, como tinham mãos, apercebiam-se também de que tinham dedos, sem saber contar até cinco.

 

[3] . Este repouso é, talvez, relativo; mas, visto que o observamos mais ou menos no movimento, concebemos claramente um dos dois extremos, que é o repouso; o tão bem o concebemos que pretendemos tomar o repouso por absoluto, quando é relativo. Não é, pois, verdade que o movimento pertença à essência da matéria, se a matéria se pode conceber em repouso.

 

[4] Os químicos consideram o flogístico, ou elemento do fogo, disperso, imóvel e estagnado nas misturas de que participa, até que causas estranhas o desprendam, reúnam, ponham em movimento e convertam em fogo.

 

[5] Fiz os maiores esforços para conceber uma molécula viva, e não o consegui. A ideia da matéria que sente, carecendo de sentidos, parece-me ininteligível e contraditória. Para aceitar ou repelir tal idéia, teria, primeiro, que a compreender, e confesso que não tenho essa sorte.

 

[6] Seria difícil imaginar, se não tivéssemos provas disso, como a extravagância humana chegou a tal ponto. Amato Lusitano dizia ter visto um homúnculo de uma polegada de altura, metido dentro de um copo, feito por Júlio Camílio, qual outro Prometeu, pela ciência da alquimia. Paracelso, de natura rerum, ensina o modo de produzir esses homens diminutos, e sustenta que os pigmeus, os faunos, os sátiros e as ninfas foram gerados pela química. Para estabelecer, com efeito, a possibilidade desses factos, só falta dizer que a matéria orgânica resiste à acção do fogo, e que suas moléculas se podem conservar com vida num forno de revérbero.

 

[7] Parece-me que em vez de descobrir que as rochas pensam, a filosofia moderna descobriu, ao contrário, que os homens não pensam. Ela só reconhece na natureza seres sensitivos; c a única diferença que encontra entre o homem e a pedra é que o homem é um ser sensitivo que tem sensações, e a pedra um ser sensitivo também, mas que não as tem. Se fosse certo, porém, que toda a matéria sente, onde conceber a unidade sensitiva ou o eu individual? Em cada molécula de matéria, ou nos seres agregativos? Tanto nos sólidos como nos fluidos, nas misturas como nos elementos? Diz-nos que na natureza não há senão indivíduos! Mas onde estão esses indivíduos? Uma pedra é um indivíduo ou uma agregação de indivíduos? É um ser sensitivo, ou contém em si tantos seres como grão de areia? Se cada átomo elementar é um ser sensitivo, como conceber essa íntima comunicação pela qual cada um deles se sinta no outro, de forma a que seus dois cus se confundam em um só? A atracção é talvez uma lei da natureza, cujo mistério ignoramos; mas, ao menos, podemos conceber que, actuando a atracção em razão das massas, não é incompatível com a extensão e a divisibilidade. Como conceber isso no sentimento? As partes sensíveis têm extensão, mas o ser sensitivo é indivisível e um só, que não se reparte, que é um todo ou nenhum. O ser sensitivo não é, pois, um corpo. Não sei como entendem isso os nossos materialistas, mas parece-me que pelas mesmas razões que rejeitam o pensamento, devem rejeitar também o sentimento. Não vejo por que, tendo dado o primeiro passo, não dão o último. Que lhes custaria? E, se tão convencidos estão de que não pensam, como afirmam que sentem?

 [8] Quando os antigos chamavam optimus maximus ao Deus supremo, falavam verdade; mas, com mais verdade falariam, se lhe chamassem maximus optimus, porque, vindo-lhe a bondade do poder, ele é bom porque é grande.

[9] Não por nós, Senhor, não por nós, — Mas, por teu nome, pela tua própria glória, — Oh! Deus! volta-nos à vida!’— (Salmo 115).

[10] A filosofia moderna, que só admite o que pode explicar, não aceita essa obscura faculdade chamada instinto, que parece guiar, sem nenhum conhecimento adquirido, os animais para um determinado fim. Diz um de nossos filósofos mais criteriosos que o instinto é apenas um hábito destituído de reflexão, mas um hábito que se obtém reflexionando; e, da maneira como explica esse processo, conclui-se que as crianças reflexionam mais que os homens. Estranho paradoxo que não vale a pena examinar. Sem entrar aqui em debates, pergunto que nome devo dar ao entusiasmo com que meu cão faz a guerra às toupeiras, que não como, à paciência com que as espreita às vezes horas seguidas, à habilidade com que as agarra e tira para fora da terra, no momento em que elas avançam, matando-as e abandonando-as depois, sem que ninguém lhe tivesse ensinado essa caça e dito que havia ali toupeiras. Pergunto ainda, e isto é mais importante, por que a primeira vez que ameacei esse mesmo cão, ele se deitou na terra de barriga para cima e as patas encolhidas, numa atitude de súplica, para me comover, posição de que logo sairia, se eu não me deixasse comover e lhe batesse nesse momento? Então, meu cão, tão pequeno, que mal acaba de nascer, já adquiriu idéias morais? Já sabe o que é clemência e generosidade, e por meio de que noções adquiridas me deve acalmar, entregando-se ao meu arbítrio? Todos os cães do mundo, no mesmo caso, fazem exactamente a mesma coisa,  e não estou dizendo nada’ que não se possa verificar. Que os filósofos, que tanto desdenham o instinto, me expliquem esse facto pelo simples jogo das sensações e dos conhecimentos que estas nos dão; que o expliquem de forma a convencer qualquer homem sensato, e eu nada mais terei a dizer, nem voltarei a falar de instinto.

[11] V. todo o capítulo XXII do livro primeiro, principalmente a seguinte passagem: "As leis da consciência, que dizemos nascidas da natureza, nascem do coração: todos temos íntima veneração pelas opiniões e costumes consagrados e recebidos no meio em que vivemos, e que não saberemos abandonar sem remorso, nem adoptar sem satisfação".

[12] Sob certos aspectos, as idéias são sentimentos e os sentimentos idéias. Os dois nomes cabem cm toda a percepção que nos ocupa, e se ocupa de seu objecto e de nós, que por ele, somos afectados; só a ordem desta impressão determina o nome que lhe corresponde. Quando se ocupa, primeiro, do objecto, e só pensamos em nós reflexivamente, é uma ideia; se, ao contrário, a impressão que recebemos fere a nossa primeira atenção, e só, reflexivamente, pensamos no objecto que a causa, é um sentimento,

[13]Eia o que o bom do vigário podia agora dizer em público.

[14] "Todos afirmam — diz um bom e judicioso sacerdote — que a têm e lhes foi revelada, não pelos homens ou por outro ser criado, mas por Deus. E todos falam a mesma linguagem. Mas, a dizer verdade, sem mentir nem adular ninguém, não é certo; todas elas provêm, digam o que nos disserem, de mãos e meios humanos. A principal prova disso está na maneira como as religiões foram recebidas no mundo, e ainda o são, pelos particulares; a nação, o país ou o lugar c que dão a religião, e todos pertencemos à do lugar onde nascemos e fomos educados. Ainda não sabíamos que éramos homens, e já éramos circuncisos, baptizados, judeus, maometanos, cristãos. A religião não é da nossa alçada nem da nossa escolha. E a prova é a vida e os costumes que depois tão mal se lhe amoldam, e, como, nas emergências humanas e transitórias, agimos contra o teor da nossa religião". Charron, Da Sabedoria, liv. II, cap. V, pág. 257, ed. Bordéus, 1601.

"Há fortes indícios de que a sincera profissão de fé do virtuoso cónego do Condom não difere muito da do vigário saboiano".

"Antes de Charron, já Montaigne tinha desenvolvido o mesmo pensa mento, dizendo em igual sentido: "Somos cristãos como somos perigor- dinos ou alemães". (Liv. II, cap. XII).

[15] Consta isto, de modo formal, em milhares de passagens das Escrituras, entre outras, no capitulo XIII do Deuteronômio, onde se diz que um profeta que anuncie deuses estranhos e confirme sua missão por meio de milagres, pelos quais se verifiquem as suas predições, longe de I nos inspirar apreço, devemos dar-lhe morte. Não sei, pois, que objectai; de sólido contra aqueles pagãos que matavam os apóstolos que lhes anunciavam um deus estranho, provando sua missão por meio de predições e milagres, que eles não pudessem objectar contra nós. Que fazer em semelhante caso? Uma coisa apenas: voltar ao raciocínio e deixar os milagres de lado. Mais valia não ter recorrido a eles. Isto é do mais elementar bom senso, que só se obscurece à força de distinções muito subtis.

Subtilezas no cristianismo! Porventura, teria andado mal Jesus Cristo em prometer aos simples o reino dos céus e começar a mais bela das suas orações abençoando os pobres de espírito, quando tanto espírito se requer para entender sua doutrina e aprender a crer nela ? Provaí-me que mo devo submeter, e estaremos de acordo; mas colocai-vos antes ao meu nível, ajustando vossos raciocínios à capacidade de um pobre de espírito. Ou então não vos reconhecerei como o verdadeiro discípulo de vosso mestre, nem verei a sua doutrina na que me anunciais.

 

[16] Nome que se dá em lógica ao argumento pelo qual se revela o círculo vicioso resultante de um raciocínio que se reduz a provar uma coisa incerta c obscura por outra que tem os mesmos defeitos, e depois esta por aquela. O dialelo é o argumento favorito dos cépticos ou pirrônicos, o, segundo Bayle, o mais formidável dos que se esgrimem contra os dogmáticos.

[17] Diz Plutarco que os estóicos, entre outros paradoxos extravagantes, sustentavam a inutilidade de, num juízo de provas, ouvir ambas as partes, porquanto, alegavam, ou o primeiro prova o seu direito, ou não o prova; se o prova, no há mais nada a dizer, e a outra parte deve ser condenada; se não o prova, não terá razão, e deve, portanto, a acção ser denegada. Penso que o método dos que admitem uma revelação exclusiva se parece muito com o destes estóicos. Visto todos pretenderem que só eles têm razão, a todos devemos ouvir antes de decidir entre tantos bandos, sob pena de faltarmos à justiça.

[18] Esse livro de Bossuet é "Exposição da doutrina da Igreja Católica".

[19] Eis um facto, entre mil conhecidos, que não precisa de comentário. No século XVI, os teólogos católicos condenaram ao fogo, sem distinções, os livros dos judeus. Consultado sobre o caso o ilustre c sábio Reuchlin, viu-se em terrível transe, que o perdeu, por ter manifestado a opinião de que deviam ser conservados os livros que nada dissessem contra o cristianismo e tratassem de matérias alheias à religião,

[20] Da República, Liv. I.

[21] Veja-se, no Sermão   da Montanha,  o paralelo que ele mesmo faz entre a sua moral e a de Moisés. (Mat., cap. V, vers. 21 e seguintes).

[22] O dever de seguir e amar a religião de um país não se estende aos dogmas contrários a uma sã moral, tais como o da intolerância. É esse dogma horrível que arma os homens uns contra os outros, tornando-os todos inimigos do género humano. A distinção entre a tolerância civil e a teológica é pueril e vã. Essas duas tolerâncias são inseparáveis, não se podendo admitir uma sem a outra. Os próprios anjos não poderiam viver em paz com os que eles considerassem inimigos de Deus.

[23] Os dois partidos atacam-se reciprocamente com tantos sofismas que seria empresa imensa e temerária rebatê-los todos; basta notar alguns à medida que se apresentem. Um dos mais frequentes no bando filosofista é opor um suposto povo de bons filósofos a outro de maus cristãos; como se um povo de verdadeiros filósofos fosse mais fácil de formar que outro de verdadeiros cristãos! Não sei qual é mais fácil de encontrar entre os indivíduos; mas sei que, tratando-se de povos, é de crer que abusem da filosofia sem religião, como os nossos da religião sem filosofia; e isto me parece mudar muito os termos da questão.

Bayle provou muito bem que o fanatismo o mais pernicioso que o ateísmo, o que é incontestável, mas não nos disse, o que não é menos verdade, que o fanatismo, muito embora sanguinário e cruel, não deixa de ser uma grande e forte paixão, que exalta o coração do homem e o leva a desprezar a morte, dando-lhe um prodigioso poder de iniciativa, e só bastando dirigi-la bem para se lhe extrair as melhores virtudes; ao passo que a irreligião, o espírito raciocinador e filosófico em geral, prende-nos à vida, degenera e avilta as almas, concentra todas as paixões na baixela, do interesso particular, na abjecção do eu humano, minando assim, surdamente, os alicerces reais de toda a sociedade; porque o que de comum existe nos interesses privados é tão pouco que não chega para contrabalançar o que neles se opõe.

Se o ateísmo não faz derramar o sangue dos homens, não é tanto por amor à paz corno por indiferença ao bem. Que importa ao pretenso sábio o que quer que seja, contanto que o deixem sossegado no seu gabinete?

Seus princípios não provocam a morte dos homens, mas evitam o seu nascimento, destruindo os costumes que os multiplicam, desmembrando-os da espécie, reduzindo todas as suas afeições a um secreto egoísmo, tão funesto para a população como para a virtude. A indiferença filosófica parece-se com a tranquilidade do Estado sob o despotismo; è a tranquilidade da morte, mais destruidora que a própria guerra.

Ora, o fanatismo, que é mais funesto em seus efeitos imediatos que o que se chama hoje espírito filosófico, não o é tanto em suas consequências. Por outra parte, não é difícil fazer alarde de boas máximas nos livros; a questão é saber se estão de acordo com a doutrina e se desta emanam precisamente. Até hoje, isto ainda não está claro. Resta saber ainda se a filosofia, imperando a seu bel-prazer, seria capaz do governar bem a vanglória, o interesse, a ambição, as pequeninas paixões humanas, e se exerceria essa doce humanidade que ela tanto nos louva por escrito.

Por seus princípios, a filosofia não pode fazer bem algum que melhor não faça a religião, e esta faz muitas coisas que a filosofia não sabe fazer.

Na prática, é diferente; mas também aqui se requer uma explicação. Certo é que não há homem que. observe rigorosamente a sua religião, quando a tem; como não ó menos verdade que a maior parte deles não possui nenhuma e em nada imitam os que a têm. Mais verdade é ainda, porém, que alguns a têm e observam pelo menos em parte. E está fora de dúvida que os motivos da religião os constrange às vezes de fazer mal, obtendo deles virtudes e acções louváveis, que, sem esses motivos, não fariam.

Nega um frade um depósito que lhe foi confiado?    Que se infere daí?
Isto apenas: que foi. um idiota quem lho confiou. Se fosse Pascal que o negasse, provar-se-ia somente que Pascal era um hipócrita, e nada mais. Mas um frade!.. . São acaso as pessoas que traficam com a religião as que a possuem? Todos os crimes cometidos pelo clero, como, aliás, por outros, não demonstram a inutilidade da religião, mas que são poucas as pessoas que a têm.

Os governos modernos devem incontestavelmente ao cristianismo uma autoridade mais sólida e que as revoluções não sejam hoje tão frequentes como outrora; comparados com os antigos, são também menos sanguinários, devido à mesma causa. A religião, melhor compreendida, afastou o fanatismo e suavizou os costumes cristãos. Não se pode dizer que esta evolução seja obra das letras, pois que nem em toda a parte onde estas brilharam a humanidade tem sido mais respeitada. E a prova são as crueldades dos atenienses, dos egípcios, dos imperadores de Eoma e dos chineses. Quantas obras de misericórdia não se devem ao Evangelho! Quantas restituições e reparações entre católicos não se devem à confissão! No período da comunhão, quantas reconciliações e esmolas não se fazem entre nós! O jubileu dos hebreus não tornava os usurpadores menos sôfregos? Não prevenia tantas misérias? A fraternidade legal unia a nação inteira. Não se via um mendigo. Como não se vê agora um entre os turcos, onde as fundações piedosas são numerosas. Os turcos são, por princípio religioso, hospitaleiros, até para os inimigos do seu culto.

"Dizem os maometanos — declara Chardin — que, depois do exame que há-de seguir-se à ressurreição universal, todos os corpos passarão por unia ponte chamada Pul-Serro, construída sobre o fogo eterno, ponte que bem poderia chamar-sc terceiro e último exame, de verdadeiro juízo final, porque será nela onde se faria a separação dos bons e dos maus, etc…

Os persas — continua Chardin — estão tão preocupados com essa ponte que, quando um deles sofre uma injúria, de que, em tempo algum, espera alcançar reparação, seu último consolo ó gritar: "Juro por Deus vivo que mas pagarás com juros no dia do juízo final. Não passarás a ponte de Pul-Serro, se antes não me deres satisfação; agarro-me às abas de teu casaco c lanço-me às tuas pernas". Tenho conhecido muita gente eminente, e cm todas as profissões, que, com medo de que os acusem na passagem dessa ponte terrível, pedem perdão aos que deles se queixam. Deu-se cem vezes comigo isso. Pessoas de posição que, à força, de importunas, me levavam a fazer coisas que me contrariavam, abordavam-me tempos depois, quando julgavam que o desgosto me tinha passado, e diziam: "Peço-vos halal be con antchísra, isto é, torna-me este negócio lícito ou justo". Durante meses seguidos íaziam-me presentes e prestavam serviços, pedindo-me que lhes perdoasse de todo o meu coração. Estavam convencidos de não passar a ponte do inferno se não me pagassem até à última moeda as ofensas que me haviam infligido".   (Tomo VII,  in-12, pág.  50).

Creio que a ideia dessa ponte, que repara tantas iniquidades, não evita alguma? Que se tirassem aos persas tal ideia, convencendo-os de que não existia Pul-Serro ou coisa semelhante, onde os oprimidos, após a morte, se vingassem dos tiranos, não ficariam completamente à vontade de não se preocuparem com acalmar esses desventurados’? É, pois, prejudicial essa doutrina?    E, no entanto, é a verdadeira?…

Filósofo, as leis morais são excelentes; mas mostra-me nelas, por favor, a sanção. Pára um momento de delirar, c responde-me simplesmente a isto: com que queres substituir a ponte de Pul-Serro?

 

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Homens há em quem o desengano gera o ceticismo. Em outros, porém, a fé é tão profunda e tão de raiz que não há extirpá-la; não podendo arrancá-la, o que fazem a ingratidão e deslealdade é que, à força de a abalarem, deixaram ali uma chaga que se está magoando a cada instante contra as misérias do mundo. — José de Alencar

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