A profissão de fé do vigário Saboiano – Rousseau
Mas quem sou eu? Que direito tenho a julgar as coisas? Que determina os meus juízos? Se as impressões que recebo os arrastam e forçam, é inútil cansar-me em semelhantes investigações, que não se farão, ou se farão por si sós, sem necessidade de eu intervir. Tenho, pois, antes de mais nada, que me voltar para mim, a fim de conhecer o instrumento de que me servirei e saber até que ponto me posso fiar do seu uso.
Existo e tenho sentidos que me guiam. Eis a primeira verdade que encontro e sou obrigado a aceitar. Tenho o sentimento próprio da minha existência, ou sinto-a por meio das minhas sensações? Eis a primeira dúvida que, por agora, não posso resolver. Porque, se estou constantemente sujeito às minhas sensações, de modo directo ou por meio da memória, como poderei saber se o sentimento do eu está fora dessas sensações e é independente delas ?
As sensações passam-se em mim, pois que, por elas, sinto que existo; mas a causa que as determina é-me estranha, posto que me impressionem independentemente da minha vontade, e não depende de mim produzi-las ou eliminá-las. Concebo, pois, claramente, que a minha sensação (que está em mim) e a sua causa ou objecto (que está fora de mim) não são uma e a mesma coisa.
Assim, não existo somente eu, mas também outros seres : os objectos das minhas sensações. E, embora esses objectos não passassem de meras idéias, o certo é que tais idéias nunca seriam eu.
Chamo matéria a tudo quanto sinto fora de mim e actua sobre os meus sentidos; e corpos, a todas as porções de matéria que concebo reunidas em seres individuais. Portanto, carecem de sentido todas as discussões entre materialistas e idealistas, e as distinções que eles fazem entre aparência e realidade dos corpos não passam de quimeras.
Já estou, pois, tão convencido da existência do universo como da minha. Medito, depois, sobre os objectos das minhas sensações, e, achando em mim a faculdade de as comparar, sinto-me na posse de uma força activa que até aqui ignorava.
Se perceber é sentir, e comparar é julgar, julgar e sentir não são a mesma coisa. Os objectos oferecem-se-me, pelas sensações, separados, isolados, tal como estão na natureza; por meio da comparação reúno-os e transporto, por assim dizer, colocando uns em cima dos outros, para me pronunciar pela sua diferença ou semelhança, e suas relações em geral. A meu ver, a faculdade distintiva do ser activo e inteligente consiste em dar um sentido a esta palavra ê. Procuro em vão no ser puramente sensitivo aquela força inteligente que sobrepõe os objectos e depois se pronuncia; não poderei descobri-la em sua natureza. Este ser passivo sente cada objecto separadamente, ou o mesmo objecto total formado por ambos; mas, como não tem força para colocar um em cima de outro, nunca os poderá comparar ou julgar.
Assim como ver dois objectos ao mesmo tempo não é ver suas relações nem julgar suas diferenças, distinguir vários objectos, uns separados dos outros, não é contá-los. Posso ter a ideia de uma vara grande e de uma vara pequena num mesmo instante, sem as comparar e verificar se uma é menor que a outra, como posso ver toda a minha mão, ao mesmo tempo sem contar os dedos[2]. Estas idéias comparativas do maior e do menor, bem como as idéias numéricas de um e dois, etc., não são, de certo, sensações, embora o meu espírito não as produza senão por meio das minhas sensações.
Dizem que o ser sensitivo distingue as sensações pelas diferenças que as separam. Isto requer uma explicação: quando as sensações são diferentes, o ser sensitivo distingue-as pelas suas diferenças; quando semelhantes, por sentir umas separadas das outras. Como, senão, uma sensação simultânea podia distinguir dois objectos iguais? Confundiria, necessariamente, esses dois objectos, tomando-os por um só, sobretudo num sistema em que se pretende que as sensações representativas da extensão não são extensas.
No momento em que se percebem as duas sensações a comparar, já se obteve a sua impressão, e sente-se cada objecto por si só, e sentem-se os dois, mas não as suas relações. Se a determinação dessas relações fosse uma simples sensação que me fosse dada apenas pelo objecto, minhas conclusões não me enganariam, pois que nunca é falso sentir o que sinto.
Por que me engano, pois, na relação entre essas duas varas, sobretudo se não estão paralelas? Por que digo, por exemplo, que a mais pequena é um terço da maior, quando não passa de um quarto? Por que não concorda a imagem, que é a sensação, com o seu modelo, que é o objecto? Porque, quando julgo, sou activo, e é falível a operação que estabelece a comparação, e o meu entendimento, que julga as relações, confunde os erros, que lhe são próprios, com a verdade das sensações, que mostram apenas os objectos.
Atenta noutra reflexão que não deixará, sem dúvida, de te impressionar, se a meditares bem, e é que, se fôssemos simplesmente passivos no uso dos nossos sentidos, não haveria a menor comunicação entre eles, e não saberíamos se o corpo que tocamos e o objecto que vemos eram ou não o mesmo. Ou nada sentiríamos fora de nós, ou existiriam para nós cinco substâncias sensíveis, cuja identidade não havia meio de perceber.
Que se dê este ou aquele nome à força do meu espírito que aproxima e compara as minhas sensações; que se lie chame atenção, meditação, reflexão ou como se quiser, 0 certo é que ela reside em mim, e não nas coisas, que só eu a produzo, embora só a produza pela impressão que os objectos exercem sobre mim. Sentir ou deixar de sentir não depende de mim, mas depende, sim, examinar, mais ou menos, o que sinto.
Não sou, pois, um mero ser sensitivo e passivo, mas activo e inteligente, e, diga a filosofia o que disser, ouso aspirar à honra de pensar. Sei apenas que a verdade está nas coisas, e não no meu espírito, que as julga, e que, quanto menor puser de mim nos juízos que faça, mais certo estou de me aproximar da verdade. Assim, a a minha norma de me entregar mais ao sentimento do que à razão está confirmada pela própria razão.
Já seguro, por assim dizer, de mim mesmo, olho para 0 exterior, e vejo-me lançado e perdido, não sem certa comoção, no vasto universo, e como que submerso na imensidade dos seres, sem nada saber do que eles são entre si e em relação a mim. Estudo-os e observo-os| e o primeiro objecto de comparação que se me apresenta, sou eu mesmo.
Tudo quanto percebo pelos sentidos é matéria, e deduzo todas as propriedades essenciais da matéria das qualidades sensíveis pelas quais a percebo e dela são inseparáveis.- Vejo-a urnas vezes em movimento e outras em repouso[3]; donde concluo que nem o repouso, nem o movimento são da sua essência, mas que, sendo o movimento uma acção, é o efeito de uma causa, da qual o repouso está ausente. Assim, quando nada actue sobre a matéria, esta não se move, e, sendo indiferente ao repouso e ao movimento, seu estado natural é permanecer em repouso.
Percebo nos corpos duas espécies de movimentos, a saber: movimento comunicado, e movimento espontâneo ou voluntário. No primeiro, a causa motriz é estranha ao corpo que se move, e no segundo está nele. Não concluirei daí que o movimento de um relógio, por exemplo, seja espontâneo, porque, se nada de estranho à corda actuasse sobre ele, não funcionaria por si só, nem aquela se gastaria. Pela mesma razão, não posso atribuir espontaneidade aos fluidos, nem mesmo ao fogo que produz a sua fluidez [4].
Se me perguntarem se os movimentos dos animais são espontâneos, responderei que não sei, mas que a analogia responde pela afirmativa. Como saber, então, se há movimentos espontâneos? Sei, porque o sinto. Quero mover um braço e movo-o, sem que esse movimento tenha outra causa imediata, que a da minha vontade. Seria inútil que alguém, pelo raciocínio, procurasse destruir em mim esse sentimento, que é mais forte que toda a evidência; seria o mesmo que provar que não existo.
Se não houvesse espontaneidade nas acções dos homens, nem em nada do que se faz sobre a terra, mais difícil seria ainda imaginar a causa de todo o movimento. Quanto a mim, estou tão persuadido de que o estado natural da matéria é permanecer em repouso, e de que a matéria carece, por si só, de força para actuar, que, quando vejo um corpo em movimento, logo penso, ou que é um corpo animado ou que esse movimento lhe foi comunicado. Meu espírito recusa-se a admitir a ideia da matéria não organizada, movendo-se por si só ou produzindo alguma acção.
No entanto, o universo visível é matéria dispersa e morta[5], que não tem em seu todo nada da união, da organização, do sentimento comum das partes de um corpo animado, pois que é certo que nós, que somos partes, de forma alguma nos sentimos no todo. Esse mesmo universo está em movimento, e, em seus movimentos ordenados, uniformes, submetidos a leis constantes, não há nada da liberdade que aparece nos movimentos espontâneos do homem e dos animais. O mundo não é, pois, um grande animal que se move por si só; há em seus movimentos uma causa que lhe é estranha, e de que eu não me apercebo, mas a persuasão íntima torna-me essa causa tão sensível que não posso ver o sol mover-se, sem pensar na força que o move, nem girar a terra, sem crer que sinto uma força que a faz girar.
Se tenho que admitir leis gerais, de cujas relações essenciais com a matéria não me apercebo, que adiantei eu? Se essas leis não são seres reais, substâncias, têm outro fundamento que me é desconhecido. Pela experiência e pela observação, conhecemos as leis do movimento, as quais, determinando os efeitos, sem demonstrar as causas, não bastam para explicar o sistema do mundo e a marcha do universo. Descartes formava por meio de cubos o céu e terra, mas não pôde dar o [primeiro impulso a esses cubos nem imprimir-lhes força centrífuga, sem se valer do movimento de rotação. Newton descobriu a lei da atração; mas a atração, de per si, reduziria logo o universo a uma massa imóvel; foi necessário juntar a essa lei uma força projéctil para que os corpos celestes descrevessem curvas. Descartes nos diga que lei física fez girar seus turbilhões; que Newton nos mostre a mão que lançou os planetas sobre a tangente de suas órbitas.
As primeiras causas do movimento não estão na matéria; esta recebe o movimento, transmite-o, mas não o produz. Quanto mais observo a acção e a reacção das forças da natureza, actuando umas sobre as outras, mais me convenço de que, de efeito a efeito, temos que chegar a uma vontade para determinar uma primeira causa; porque imaginar uma série de causas até ao infinito, seria não imaginar nenhuma. Em conclusão, movimento não produzido por outro, só pode provir de um acto espontâneo, voluntário; os corpos inanimados só agem pelo movimento, e não há verdadeiras acções sem vontade. Eis o meu primeiro princípio. Creio, pois, que há uma vontade que move o universo e anima a natureza. E aqui está o meu primeiro dogma, ou o meu primeiro artigo de fé.
Como poderá uma vontade produzir uma acção física e corpórea ? Não sei, mas vejo em mim que a produz. Quero actuar e actuo; quero mover meu corpo, e meu corpo move-se; mas que um corpo inanimado e em repouso se mova por si só ou produza o movimento é incompreensível e sem. exemplo. Conheço a vontade pelos seus actos e não pela sua natureza. Conheço essa vontade como causa motriz; mas, conceber a matéria como produtora do movimento é, sem dúvida alguma, conceber um efeito sem causa, e não conceber, portanto, absolutamente nada.
É tão impossível conceber minha vontade movendo meu corpo, como minhas sensações afectando minha alma. Não sei mesmo como se possa explicar mais facilmente um desses mistérios que o outro. No que a mim respeita, quer activo ou passivo, me parece absolutamente incompreensível o meio de união das duas substâncias. É realmente estranho alegar essa incompreensão para fundir as duas substâncias, como se operações de natureza tão diferente se explicassem melhor em um só sujeito do que em dois.
O dogma que acabo de estabelecer é, de certo, obscuro; mas oferece, finalmente, um sentido, e não há nada nele que repugne à razão e à observação; dir-se-á o mesmo do materialismo? Não está claro que, se o movimento fosse essência da matéria, seria inseparável desta, na que entrava sempre no mesmo grau, sempre o mesmo em cada porção de matéria, que seria incomutável, não aumentando nem diminuindo, não se podendo mesmo conceber a matéria em repouso? Quando me dizem que o movimento não lhe é essencial, mas necessário, querem confundir-me com palavras, que seriam mais facilmente refutáveis se tivessem um pouco mais de sentido. Porque, ou o movimento da matéria provém dela e pertence à sua essência, ou de uma causa estranha, e, neste caso, só lhe é necessário enquanto a causa motriz actua sobre ela; e voltamos à primeira dificuldade.
As idéias gerais e abstractas são nos homens as fontes dos seus maiores erros; nunca a linguagem arrevesada da metafísica descobriu uma só verdade, enchendo a filosofia de absurdos que envergonham, quando despidos de suas palavras pomposas. Dize-me, meu amigo, se, quando te falam de uma forca cega espalhada em toda a natureza, te levam ao espírito alguma verdadeira idéia? Crêem dizer alguma coisa com essas palavras vagas de força universal, de movimento necessário, e não nos dizem absolutamente nada. A ideia do movimento é apenas a ideia da deslocação de uma parte para a outra; não há movimento sem direcção, porque um ser individual não se pode mover em todos os sentidos ao mesmo tempo. Em Em que sentido, pois, a matéria se move necessariamente? Toda a matéria, em conjunto, tem um movimento uniforme, ou cada átomo, de per si, tem o seu próprio movimento? Segundo a primeira ideia, todo o universo forma uma massa sólida e indivisível; pela segunda, um fluido disperso e incoerente, dada a impossibilidade da junção de dois átomos. Em que direcção se faz esse movimento comum a toda a matéria? Em linha recta ou circular, para cima ou para baixo, para a direita ou para a esquerda? Se cada molécula de matéria tem a sua direcção própria, onde estão as causas de todas essas direcções e diferenças? Se cada átomo ou molécula de matéria girasse sobre seu próprio centro, nada sairia do seu lugar, e não haveria movimento comunicado; seria mesmo forçoso que esse movimento circular fosse determinado nalgum sentido. Dar à matéria movimento por abstracção, é dizer palavras que nada significam; e dar-lhe um movimento determinado, é supor uma causa que determine esse movimento. Longe de imaginar uma ordem no concurso fortuito dos elementos, nem sequer me é permitido imaginar seu choque, e o caos do universo seria ainda mais inconcebível do que a sua harmonia. Sei que o mecanismo do mundo pode não ser ininteligível ao espírito humano, mas quando um homem se mete a explicá-lo, deve dizer coisas que os homens entendam.
Se a matéria em movimento me demonstra uma vontade, a matéria, que se move sob certas leis, também me demonstra uma inteligência. Eis o meu segundo artigo de fé. Agir, comparar, seleccionar são operações de um ser activo e pensante; logo esse ser existe. Onde vês tu a sua existência? Não somente nos céus que giram, no astro que nos alumia, em mim mesmo, mas também na ovelha que pasta, na ave que voa, na pedra que cai, na folha que o vento leva.
Julgo a ordem do mundo, embora ignore o seu fim, porque, para julgar essa ordem, basta-me comparar as partes entre si, estudar seu concurso, suas relações, e advertir o seu concerto. Não sei como o universo existe, mas vejo como está ordenado, e percebo a íntima correspondência pela qual os seres que o constituem se prestam um concurso mútuo. Sou como um homem que visse pela primeira vez um relógio aberto, admirasse o seu trabalho, mas não soubesse para que servia a máquina, nem visse o mostrador. Não sei, diria ele, para que serve tudo isto, mas verifico, que cada uma das peças está relacionada com as outras; admiro o artífice na minúcia do seu trabalho, e estou certo de que todas essas rodas, assim combinadas, marcham para um fim comum que me é impossível determinar.
Comparemos os fins particulares, os meios, as relações ordenadas de toda a espécie, e escutemos depois o sentimento íntimo; que espírito são se pode recusar a ouvir essa voz? A que olhos, não preconcebidos, não revela a ordem sensível do universo uma suprema inteligência? E que quantidade de sofismas não teremos que acumular para ignorar a harmonia dos seres e o admirável concurso de cada peça para a conservação das outras? Fale-se quanto se quiser de combinações e acasos; de que vale que me reduzam ao silêncio, se não me convencem? E quem me poderá privar do sentimento involuntário, que sempre se afirma, independentemente mesmo da minha vontade? Se os corpos organizados se combinam de mil maneiras, fortuitamente, antes de tomarem formas permanentes, se os estômagos se formaram, primeiro, sem bocas, os pés sem cabeças, as mãos sem braços, órgãos imperfeitos de toda a espécie, que pereceram por não se poderem conservar, por que já não assistimos hoje a essas experiências informes? Por que teria decretado a natureza leis, a que, de princípio, não se submeteu? A ninguém deve surpreender, concordo, que uma coisa aconteça simplesmente quando possa acontecer, e que a dificuldade do acontecimento seja compensada por uma série de jactos. No entanto, se me dissessem que os caracteres lançados ao acaso produziram a Eneida já ordenada, não perderia um segundo em verificar tal mentira. Esqueceis, objectarão, a quantidade de actos que se produziram. Mas, quantos devo supor para tornar a combinação verossímil? Eu, que não vejo senão um, aposto o infinito contra um que esse produto não é o efeito do acaso. Acrescentemos a isso que as combinações e os acasos só dão produtos da mesma natureza que os elemen-bos combinados; que a organização e a vida não provém de um surto de átomos, e que um químico, fazendo combinações de misturas, não as fará sentir e pensar no seu cadinho[6].
Li Nieuwentit com surpresa, e quase com escândalo. Como se lembrou esse homem de fazer um livro das maravilhas da natureza, que nos mostra, aliás, a sabedoria do seu autor? Não esgotaria o assunto, ainda que o livro fosse do tamanho do mundo. Quando entra em detalhes, escapa-lhe a maior maravilha, que é a harmonia e o concerto do todo. É no abismo do espírito humano que se geram os corpos vivos e organizados; a barreira intransponível que a natureza ergueu entre as espécies para que não se confundissem, demonstra as suas intenções com a maior evidência. Não se limitou a estabelecer a ordem; tomou medidas certas para que nada pudesse perturbá-la.
Não há ser no universo que não possa ser considerado, sob qualquer aspecto, como centro comum a todos os outros, e em torno do qual todos se ordenam de forma, a serem reciprocamente fins e meios, uns em relação aos outros. O espírito se confunde e perde nessa infinidade de relações, em cuja multidão nem uma só se perde e confunde. Quantas hipóteses absurdas teríamos que fazer para deduzir toda essa harmonia do mecanismo cego da matéria movida fortuitamente! Os que negam a unidade de intenção nas relações de todas as partes desse grande todo, procuram, em vão, ocultar seus galimatias nas abstracções, nas coordenações, nos princípios gerais, nos termos emblemáticos j apesar de todos os seus esforços, não posso conceber um sistema de seres tão constantemente ordenados, sem uma inteligência que os ordene. Não depende de mim crer que a matéria passiva e moral produzisse seres vivos e sensitivos, que seres inteligentes tenham sido o produto de uma cega fatalidade, que seres que pensam saíssem do que não pensa.
Creio, pois, que o inundo está governado por uma vontade poderosa e sábia; vejo-a, ou melhor, sinto-a, e é isso que me importa saber. Mas esse mundo é eterno ou criado? Há um só princípio que rege todas as coisas1? Não sei, nem me importa. À medida que esses conhecimentos me interessem, procurarei adquiri-los; até lá, renuncio a questões ociosas, que me podem espicaçar o amor próprio, mas são inúteis para a minha conduta, e superiores à minha razão.
Tem sempre presente que não pretendo impor o que sinto, mas expor. Seja a matéria eterna ou criada, exista 011 não um princípio passivo, o certo é que o todo é um só, e denuncia uma inteligência única; porque nada vejo que não esteja, ordenado no mesmo sistema, e que não concorra para. o mesmo fim, que é a conservação do todo na ordem estabelecida. A esse ser que quer e pode, a esse ser activo por si só, a esse ser, enfim, seja ele qual for, que move o universo e ordena todas as coisas, chamo eu Deus. Alio a esse nome as idéias de inteligência, de poder, de vontade conjugadas e a da bondade, que é a sua consequência fatal; mas nem por isso conheço melhor o sor a que assim chamei. Oculta-se-me, por igual, aos sentidos e ao entendimento, e, quanto mais nele penso, mais me confundo. Sei muito bem que existe e que tem existência própria, que a minha está subordinada à sua, e que todas as coisas que conheço se encontram absolutamente no mesmo caso. Reconheço Deus em tudo por suas obras, sinto-o em mim, vejo-o à minha volta, mas quando quero contemplá-lo directamente, saber onde está, o que í, qual a sua substância, escapa-se-me, e meu espírito, confuso, nada mais compreende.
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