A profissão de fé do vigário Saboiano – Rousseau
Olhemos para nós, meu jovem amigo, e, abstraindo de todo o interesse pessoal, vejamos para onde nos levam nossos pendores. Com que espectáculo nos consolamos mais; com o da felicidade ou o da desgraça alheia? Que melhor impressão nos deixa e fazemos com maior prazer; um acto de bondade ou de malvadez? Que mais te atrai no teatro? As cenas de grandes crimes? Arranca-te as lágrimas o castigo de seus autores? Dizem os filósofos que só nos preocupa o que nos interessa, quando se dá absolutamente o contrário. As delícias da amizade e da humanidade consolam-nos das amarguras que sofremos, e sentir-nos-íamos muito sós, muito desgraçados, se não tivéssemos com quem compartilhar nossos prazeres. Se no coração humano nada de moral existe, donde lhe vêm esses transportes de admiração pelas acções heróicas, esses arroubos de amor pelas grandes almas? Que relação tem com o interesse privado esse entusiasmo pela virtude? Por que preferias ser Catão, que dilacera as próprias entranhas, a César triunfante? Tira-nos do coração esse amor pelo belo, e tirarás todo o encanto à vida. Aquele em cuja pequenina alma as paixões apagaram os deliciosos sentimentos e que, à força de se concentrar em si mesmo, acaba por só se amar a si, jamais saberá arrebatar-se, e seu coração gelado nunca mais palpitará, nem uma doce ternura voltará a humedecer seus olhos, e não desfrutará de nada mais. O desgraçado já não sente, nem vê; está morto.
Mas, por grande que seja o número dos maus sobre a terra, há poucas almas cadavéricas insensíveis ao bom e ao justo, embora o bom e o justo não lhes digam directamente respeito. Só nos comprazemos com a iniquidade que nos beneficia; em tudo o mais, desejamos o amparo do inocente. Se numa rua ou caminho, assistimos a um acto de violência ou de injustiça, logo se nos irrompe do fundo da alma um movimento de cólera e indignação, que nos compele a defender o oprimido; mas um dever mais poderoso nos retém, e as leis não nos dão o direito de defender a inocência. Se, pelo contrário, depara-se-nos um acto de generosidade ou clemência, quanta admiração, quanto amor não nos inspira esse acto! Quem não pensará: gostaria de fazer o mesmo? Pouco importa, é certo, que determinado homem tivesse sido malvado ou justo há dois mil anos; e, no entanto, a história antiga desperta-nos o mesmo interesse que se esses factos decorressem em nossos dias. Que me importam os crimes de Catilina? Aterroriza-me a ideia; de ser sua vítima? Por que me infunde, pois, o mesmo horror que se fosse meu contemporâneo? Não só odiamos os maus porque nos prejudiquem, mas por serem maus. Não queremos apenas a felicidade própria, mas também a alheia, que aumenta a nossa, quando não é feita a suas expensas. Compadecemo-nos ainda finalmente dos infortunados, e sofremos com o seu mal, quando o presenciamos. Nem mesmo os mais perversos conseguem furtar-se totalmente a essa propensão, que às vezes os põe em contradição consigo mesmo. O ladrão, que desnuda os caminhantes, vai às vezes cobrir a nudez dos pobres: o mais feroz assassino não deixa de amparar o homem que ele vê cair desmaiado.
Fala-se da voz do remorso, que castiga, em segredo, os crimes ocultos e muitas vezes os delata. Ai! quem não ouviu ainda essa voz inoportuna? Falamos por experiência, e desejaríamos abafar esse sentimento tirânico que tanto nos atormenta. Obedeçamos à natureza, e saberemos do encanto do seu império, e, depois de termos ouvido a sua voz, que prazer sentimos em formar bom conceito de nós. O malvado receia e foge de si, lança em torno os olhos inquietos e procura um objecto de distracção. Sem a sátira amarga, sem a mofa insultante, estaria sempre triste; seu único prazer é o riso que escarnece. A serenidade do justo, pelo contrário, é interior; seu riso não é maligno, mas alegre, e a fonte está em si. E tão alegre é só como entre os outros, porque o contentamento não lhe provém dos que se lhe aproximam, que são por ele contagiados.
Olha para todos os povos do mundo, repassa as suas histórias! Sempre encontrarás as mesmas idéias de justiça e honestidade, os mesmos princípios de moral, as mesmas noções do bem e do mal entre tantos cultos desumanos e extravagantes, entre tão prodigiosa diversidade de costumes e de caracteres. O antigo paganismo forjou deuses abomináveis, que teriam sido perseguidos na terra como celerados; a única imagem de felicidade suprema que esses deuses nos ofereceriam eram crimes a cometer e paixões a saciar. Mas o vício baixava da morada divina revestido em vão de uma autoridade sagrada, porque o instinto moral o afastava do coração humano. Celebrava-se a devassidão de Júpiter e admirava-se a continência de Xenócrates; a casta Lucrécia adorava a impudica Vénus. O intrépido Romano imolava-se ao Pavor, invocando o deus que lhe mutilara o pai, e morria da mão do seu, sem proferir uma queixa. Os maiores homens rendiam-se às divindades mais desprezíveis. A sacrossanta voz da natureza, mais forte que a dos deuses, fazia-se respeitar na terra, parecendo desterrar para o céu o crime e seus autores.
Há, pois, no fundo das almas um princípio inato de justiça e de virtude, pelo qual julgamos boas ou más as nossas acções como as dos outros, a despeito das nossas próprias máximas, e é a esse princípio que eu chamo consciência.
Mas ao som dessa palavra, de toda a parte se levantam os clamores dos pretensos sábios. Erro da infância, preconceito de educação! bradam todos à uma; só existe no espírito humano o que nele introduzimos pela experiência, tudo julgamos por meio de idéias adquiridas! Vão mais longe: chegam a rejeitar esse concerto evidente e universal de todos os povos, e, contra a uniformidade que resplandece na opinião dos homens, vão buscar às trevas algum exemplo obscuro, que só eles conhecem, como se bastasse a corrupção de um povo para eliminar todas as tendências da natureza, ou a espécie se acabasse com a existência dos monstros. Mas de que serve ao céptico Montaigne passar tormentos para desterrar para um canto do mundo um costume contrário às noções de justiça?[11]De que lhe serve atribuir aos viajantes mais suspeitos uma autoridade que nega aos escritores mais célebres’? Alguns usos incertos e bizarros, fundados em causas locais que desconhecemos, poderão acaso destruir a conclusão geral que se tira do concurso dos povos, apenas concordes nesse ponto e opostos em tudo o mais? Ó! Montaigne, tu que te prezas de ser franco e veraz, sê sincero e verdadeiro, quanto um filósofo o pode ser, e dize-me se existe país na terra onde seja crime guardar a fé, ser-se clemente, generoso, benemérito, onde se despreze o homem de bem e se honre o pérfido ?
Dizem que todos concorremos para o bem público pelo nosso interesse. Como explicar, pois, que o justo contribua para ele em seu prejuízo? Que significa ir à morte por interesse próprio ? Ninguém procede, decerto, senão para seu bem, mas, se considerarmos o bem moral, só se explicarão por interesse próprio as acções dos maus, e é mesmo de crer que ninguém procure ir mais longe. Abominável filosofia a que proclamasse, como obstáculos a vencer, as acções virtuosas, atribuindo-lhes deliberadamente baixos intuitos e motivos sem virtude em defesa de sua tese, e nos levasse a envilecer Sócrates e caluniar a Régulo! Se semelhantes doutrinas germinassem dentro de nós, contra elas se insurgiria sempre a voz da natureza e da razão, e nenhum de seus adeptos teria a desculpa da boa-fé.
Não pretendo entrar aqui em discussões metafísicas, que não estão ao meu alcance nem ao teu, e que, pinai, a nada conduzem. Já disse que não me propunha filosofar contigo, mas que queria apenas ajudar-te a consultar teu coração. Ainda que todos os filósofos do mundo me demonstrassem que estou em erro, bastava-me que tu sentisses que tenho razão.
Devo, para isso, distinguir entre idéias adquiridas e sentimentos naturais, pois que sentimos necessariamente antes de conhecer; e, como não aprendemos a desejar o bem, nem a evitar o mal, visto essa vontade nos vir da natureza, o amor ao bem e o ódio ao mal são em nós, do mesmo modo, tão inevitáveis como o amor a nós mesmos. Os actos da consciência não são opiniões, mas sentimentos, embora as idéias nos venham de fora. Os sentimentos que os apreciam estão dentro de nós, o só por eles percebemos a discrepância ou a analogia que existe entre nós e as coisas que devemos respeitar ou evitar.
Para nós, existir é sentir; nossa sensibilidade é incontestavelmente anterior à nossa inteligência, e já tínhamos sentimentos antes de ter idéias[12]. Seja qual for a causa do nosso ser, ele contribuiu para a nossa conservação, dando-nos sentimentos de acordo com a natureza; e que estes sentimentos são inatos, ninguém o vai negar. No que respeita ao indivíduo, tais sentimentos são o amor de nós mesmos, o medo à dor, o horror à morte, o desejo de bem-estar. Mas, se o homem é sensível por natureza, como não se pode pôr em dúvida, ou é feito, pelo menos, para ser sensível, só o será por outros sentimentos inatos, relativos à sua espécie, pois que, se considerarmos somente a necessidade física, esta dispersa os homens em vez de os aproximar. É, portanto, do sistema moral formado pela dupla reacção entre nós e nossos semelhantes que nasce o impulso da consciência. Conhecer o bem, não é amá-lo; o homem não tem dele o conhecimento inato, mas logo que a razão lho faz conhecer, ama-o pela consciência, sentimento, este último, inato.
Não me parece, pois, meu amigo, impossível explicar, como consequência da nossa natureza, o princípio imediato da consciência, independente mesmo da razão. E fosse embora impossível, tal explicação seria desnecessária, porque os que negam esse princípio, admitido e reconhecido pelo género humano, não provam a sua inexistência, limitam-se apenas a afirmá-la; temos tão bons fundamentos como eles para declarar que existe, e dispomos, além disso, do testemunho íntimo, e da voz da consciência que se faz ouvir por si só. Se os primeiros lampejos do julgar nos confundem e ofuscam os objectos, esperemos que nossos pobres olhos se reabram e reafirmem, e veremos novamente esses objectos à luz da razão, como antes no-los mostrava a natureza. Ou, melhor, sejamos mais simples e menos vãos, restringindo-nos aos primeiros sentimentos que em nós se manifestam, pois Que é sempre para eles que o estudo nos reconduz, quando não nos extravia.
Consciência! Consciência! Divino instinto, celeste voz imortal, guia seguro de um ser ignorante e limitado, mas inteligente e livre, juiz infalível do bem e do mal, pelo qual o homem se assemelha a Deus, és tu que lhe sublimas a natureza e fazes a moralidade das suas acções. Sem ti, nada sentiria que me elevasse acima dos animais, como não fosse o triste privilégio de vagar de erro em erro, levado por um entendimento sem norma e uma razão sem princípio.
Graças ao céu, já estamos livres desse espantoso aparelho de filosofia; podemos ser homens, sem ser sábios. Dispensados de consumir a vida no estudo da moral, achamos, com menor esforço, um guia mais firme no dédalo imenso das opiniões humanas. Não basta, no entanto, que esse guia exista; é mister saber reconhecê-lo o segui-lo. Se a todos os corações fala, por que tão poucos o entendem? Ah! porque nos fala a linguagem da natureza, que tudo nos faz esquecer. A consciência é tímida ; ama a solidão e a paz. O mundo e o ruído espantam-na. Os preconceitos, de que a querem fazer filha, são os seus inimigos mais. cruéis, diante dos quais foge ou se cala, e cuja voz estridente apaga a sua e não a deixa ouvir. O fanatismo ousa desfigurá-la e decreta o crime em seu nome. Esmorece à força de abandonada; não nos torna a falar e a responder, e, após tão longo desprezo, custa tanto despertá-la como custou bani-la.
Quantas vezes, em minhas investigações, não me cansei da frialdade que em mim sentia! Quantas vezes a tristeza e o desgosto não me envenenaram as primeiras meditações, fazendo-as insuportáveis! Meu árido coração entregava-se, com tíbio e desfalecido zelo, ao amolda verdade. Por que me atormentar — pensava — à procura do que não existe? O bem moral não passa de uma quimera; o único real é o prazer dos sentidos. Oh! quando uma vez se perde o gosto pelos prazeres da alma, quão difícil é recuperá-lo! Porém mais difícil é adquiri-lo a quem nunca o teve! Se existisse um homem tão miserável, sem uma única recordação que o reconciliasse consigo mesmo e lhe desse a alegria de viver, esse homem seria incapaz de se conhecer; e como não podia sentir a bondade que corresponde à sua natureza, permaneceria forçosamente mau e seria eternamente infeliz. Ores, porém, que haverá no mundo homem tão depravado que jamais entregasse o coração à tentação de fazer bem? Essa tentação é tão natural e agradável que é impossível resistir-lhe sempre; e a recordação do prazer que uma vez nos deu basta para a lembrarmos constantemente. Infelizmente, ao princípio, não é fácil satisfazê-la; tem mil razões para se esquivar aos pendores do coração. A falsa prudência comprime-a nos limites do eu humano; só com mil esforços do coragem ousará franqueá-los. Comprazermo-nos em bem fazer é o prémio das nossas boas obras, e só alcançamos esse prémio quando o merecemos. Nada existe mais grato que a virtude, mas só assim a julgamos quando nos dá alegria. Pretendemos abraçá-la, mas, como o Proteu da fábula, reveste-se, ao princípio, de mil formas espantosas, só se mostrando na que realmente tem aos que nunca a abandonaram.
Combatido sempre pelos sentimentos naturais, que se pronunciavam a favor do interesse comum, e pela razão que tudo relacionava comigo, andaria a vida inteira flutuando nessa alternativa contínua, se novas luzes me não iluminassem o coração, e a verdade, que me firmou os juízos, não me tivesse marcado a conduta e posto de acordo comigo mesmo. Não se pode estabelecer a virtude unicamente pela razão. É inútil pretendê-lo. Que base sólida caberia dar-lhe? Dizem que a virtude é o amor da ordem. Mas pode e deve sobrelevar-se esse amor ao que sinto pelo meu bem-estar? Que me dêem uma razão mais clara e capaz; perfilhá-la-ei. No fundo, esse pretenso princípio é um simples jogo de palavras, visto que poderei dizer também que o vício é o amor da ordem, tomada em sentido inverso. Onde houver sentimento e inteligência existe ordem moral. A diferença consiste em que o bom se coordena em relação ao todo, e o mau ordena o todo em relação a si, tornando-se o centro de todas as coisas; o primeiro mede seu raio e se coloca na circunferência, ordenando-se em relação ao centro comum, que é Deus, e em relação a todos os círculos concêntricos, que são os seres criados. Se a Divindade não existisse, só o mau raciocinaria e o bom não passaria de um insensato. Oh!, meu filho, oxalá possas ter um dia a sensação de alívio que experimentamos quando, esgotada a vaidade de todos os juízos humanos e saboreada a amargura das paixões, achamos, finalmente, tão perto de nós o caminho da sabedoria, o prémio dos trabalhos desta vida, a fonte da felicidade, de que já havíamos desesperado. Todos os deveres da lei natural, que a injustiça dos homens havia quase afastado do meu coração, ressurgem J de novo em nome da eterna justiça, que mos impõe e vê cumprir. Sinto apenas que sou a obra e o instrumento do Ser supremo, que quer o bem, que o faz, que fará o meu com o concurso das minhas vontades e das suas e pelo exercício da minha liberdade; submeto-me à ordem por ele estabelecida, certo de desfrutar um dia dessa mesma ordem, onde encontrarei a felicidade. Que maior felicidade, com efeito, do que nos sentirmos coordenados com um sistema onde tudo está em ordem? Vítima da injustiça, suporto-a pacientemente, pensando que é transitória e provém de um corpo que não é o meu. Se cometo uma má acção sem testemunhas, sei que estou sendo visto e que constituirá na outra vida testemunho do meu proceder na terra. Quando sofro uma injustiça, sei que o Ser justo, que tudo rege, ma compensará, e que as exigências do corpo e as misérias da vida me tornarão a ideia da morte mais suportável. Serão menos laços a romper quando abandonar o mundo.
Por que tenho a alma submetida aos sentidos e encadeada ao corpo que a escraviza e oprime? Não sei, porque não estou dentro dos desígnios de Deus. Mas não julgo temerário aventurar umas modestas conjecturas. Se o espírito humano fosse livre e puro, que méritos seriam os seus em amar e seguir uma ordem já estabelecida e que não teria interesse em alterar? Seria feliz, é certo, mas faltaria a essa felicidade o grau mais sublime: a glória da virtude e a própria satisfação. Assemelhar-se-ia aos anjos, mas um homem virtuoso é decerto superior a eles. Unida a alma a um corpo mortal por laços tão poderosos como incompreensíveis, o cuidado da conservação desse corpo obriga-a a relacionar tudo com ele, dando-lhe um interesse em pugna com a ordem geral, que é, no entanto, capaz de ver e amar; só assim o exercício da sua liberdade se converto em mérito e recompensa, ao mesmo tempo, e lhe tece uma felicidade inalterável, combatendo-lhe as paixões terrestres e mantendo-a fiel à sua primeira vontade.
Se, mesmo no estado de rebaixamento em que nos encontramos durante a vida, são legítimos nossos primeiros impulsos; se todos nossos vícios de nós provêm, por que nos queixamos de que nos subjuguem? Por que atribuir ao autor das coisas os males que só nós nos infligimos e os inimigos que contra nós armamos? Ah! não corrompamos o homem; ele será sempre bom sem sacrifício, e feliz sem remorsos. Os culpados, que se crêem forçados a cometer o crime, são tão mentirosos como malvados, porque sabem que a fraqueza de que se queixam é a sua própria obra, que sua primeira depravação é fruto de sua vontade e que, à força de quererem ceder às tentações, lhes cedem, finalmente, mesmo a pesar seu, tornando-as irresistíveis. Não depende deles, certamente, não serem maus nem fracos, mas, sim, não se fazerem uma coisa nem outra. Oh! quão fácil não seria sermos senhores de nós e das nossas paixões, mesmo durante esta vida, se, ainda não adquiridos os nossos hábitos e quando nosso espírito começa a abrir-se, soubéssemos ocupá-lo com os objectos que deve conhecer para avaliar os que não conhece; se quiséssemos ficar realmente esclarecidos, não para brilhar aos olhos alheios, mas para sermos bons e sábios, de acordo com a nossa natureza, a fim de que encontrássemos a felicidade no cumprimento dos deveres; parece-nos este estudo fastidioso e árduo porque, quando nele pensamos, já estamos vencidos pelo vício e entregues às nossas paixões. Fixamos nossos juízos e apreço antes de conhecer o bem e o mal, e, amoldando tudo a tão falsa medida, a nada damos seu justo valor.
Há uma idade em que o coração, ainda livre, mas ardente, inquieto, ávido da felicidade que ignora, a procura com curiosa incerteza, e, enganado pelos sentidos, se volta para a sua falsa imagem, julgando vê-la onde não existe. Muito tempo duraram em mim essas ilusões! Ah! descobri-as já tarde e não as pude destruir completamente ; e agora durarão tanto como o corpo mortal que as causa. Ao menos, é inútil que tentem seduzir-me porque já não me enganam; conheço-as pelo que são, sigo-as, mas desprezo-as, e, longe de ver nelas o objecto da minha felicidade, vejo o seu obstáculo. Aspiro ao momento em que, livre dos entraves do corpo, eu seja eu mesmo sem contradições nem partilhas, e precise apenas de mim para ser feliz; entrementes, já o sou nesta vida, porque faço abstracção de todos os males, e a contemplo como quase estranha ao meu ser, sabendo que de mim depende todo o verdadeiro bem que dela possa tirar.
Para me antecipar, enquanto é tempo, a esse estado de felicidade, de força e de liberdade, exercito-me nas contemplações sublimes. Medito na ordem do universo não para explicá-lo por meio de vãos sistemas, mas para admirá-lo incessantemente e admirar o sábio autor que nele se faz sentir. Converso com ele, embebo todas as minhas faculdades na sua divina essência, enterneço-me com os seus benefícios e bendigo-o pelos seus dons; mas não lhe dirijo preces. Que lhe poderia eu pedir? Que alterasse, para me dar satisfação, o curso das coisas e operasse milagres a meu favor? Como pretender que a ordem se perturbe em benefício meu, eu, que devo amar sobre todas as coisas a ordem que a sua sabedoria estabeleceu e a sua providência mantém! Não, este rogo temerário, não mereceria louvor, mas castigo. Não lhe peço tão pouco me conceda o poder de fazer bem; para que solicitar dele o que dele já recebi? Não me concedeu a consciência para amar o bem, a razão para o conhecer, a liberdade para optar? Se proceder mal, não terei desculpa; procederei assim, porque quero. Pedir-lhe que me modifique a vontade? Equivaleria a pedir-lhe o que ele me pede, e pretender que trabalhasse por mim, recebendo eu o salário. Se não estou satisfeito com o meu estado, é porque quero ser o que não sou e desejo a desordem e o mal. Fonte da justiça e de verdade, Deus clemente e bom!, tenho tanta confiança em ti que a maior ânsia de meu coração é que seja feita a tua vontade. Juntando-lhe a minha, sigo teus passos e anuo à tua bondade, e creio já participar no mundo da suprema felicidade que é o prémio da minha conduta.
Na justa desconfiança de mim mesmo, só lhe peço, ou melhor, aguardo de sua justiça que rectifique meu erro, quando esse erro me extraviar e me trouxer perigo. Quando estamos de boa-fé, não nos julgamos infalíveis, e os juízos que mais verdadeiros nos parecem são talvez outras tantas falsidades. Por que não seguir, pois, os seus? E quantos homens estão de acordo em tudo? A ilusão que me engana provém de mim mesmo; só ele me pode curar. Faço o que posso para alcançar a verdade, mas a origem da verdade está muito alta; se me faltarem forças para seguir adiante, a culpa não será minha. A ela corresponderá aproximar-se.
O bom sacerdote .havia falado com veemência. Estava comovido, e eu também. Parecia-me ouvir o divino Orfeu cantando os primeiros hinos e ensinando aos homens o culto dos deuses. Tinha, porém, muitas objecções a fazer–Ihe; mas não lhe fiz nenhuma, porque não eram tão sólidas como confusas, e a persuasão estava de seu lado. Falava-me, segundo os ditados, da sua consciência, e a minha parecia confirmar tudo quanto dizia.
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