Resenha do livro “a história entre a filosofia e a ciência” de José Carlos Reis

Resenha do livro “a história entre a filosofia e a ciência” de José Carlos Reis

Resenha do livro “a história entre a
filosofia e a ciência” de José Carlos Reis. 
Por Diego José Fernandes

aluno do 4º período de história da UFRN
 

Introdução

     José
Carlos Reis inicia seu livro tecendo comentários sobre o século XIX, o qual foi
marcado, na atmosfera intelectual, pelo Cientificismo[1].
As ciências estavam embebedadas pelas idéias de Darwin e pela herança científica
do passado. Razão, Método, Objetividade e Imparcialidade eram as bandeiras de
tal época. Essa maré científica inundou a História, que até então era reduto de
filósofos metafísicos[2]
Como estes davam mais ênfase ao geral (humanidade) e eram especulativos e
idealísticos, beirando ao misticismo, logo entraram em choque com a mentalidade
de tal época. A história decidiu-se pela ciência, abandonando a filosofia. Essa
decisão tinha uma série de implicações; rejeita a qualquer a priorismo,
valorização da pesquisa, fortalecimento de um método empírico, delimitação de
um objeto próprio e ênfase ao singular. A história agora pretendia ser científica.

     Nesse
percurso para fazem da história uma ciência, surgem três grandes escolas;
Metódica (dita positivista), Marxista e Annales. Todas estas possuíam em comum
a crença na cientificidade de Clio e a recusa categórica a filosofia da
história, pois esta era a-histórica, especulativa e metafísica. O autor, porém,
afirma que mesmo tentando romper com a filosofia da história, tais escolas
estavam carregadas, sem saber e sem confessar, de pressupostos filosóficos,
sobretudo as duas primeiras. Assim, caminhando para os braços da Mãe-Ciência, a
historia carregava no seu calcanhar a filosofia da história. Advém daí o titulo
do livro. O autor pretende analisar essas três escolas históricas, mostrando
como a filosofia esteve em suas entranhas.

     A escola Metódica,
dita “positivista”[3]

O
autor pretender mostrar as principiais características desta escola bem como
sua ligação com a filosofia da história, ainda que tal escola tenha postulado a
recusa total da “história especulativa” [4]. O
autor inicia tratando da escola metódica Alemã, mais precisamente de seu
principal representante; L. V. Ranke. Alemanha e França, em termos de escola
histórica, foram as principais herdeiras da crítica filológica do século XVI e
XVII. Nesses dois países desenvolveu-se, quase simultaneamente, um grande
desenvolvimento da pesquisa histórica, baseada nos métodos dos exegetas
bíblicos. Ranke vai absorver toda essa atmosfera de crítica textual, ao ponto de
valorizá-la demasiadamente, afirmando ser possível, a partir de tal, uma
história completamente objetiva. Sua pesquisa histórica contemplava assuntos
relacionados aos Estados nacionais, tidos por ele como “agentes universais do
processo histórico”.

Ranke
acreditava ser possível, por meio de um método, reviver o passado tal qual
aconteceu. O historiador seria capaz de mergulhar no passado despojado de toda
influência do presente e de subjetividade, fazendo assim emergir um
conhecimento real, objetivo. Vai-se ao passado para ressuscitá-lo, jamais para
julgá-lo. Daí a preocupação com as reflexões filosóficas e interpretações, pois
estas poderiam contaminar o conhecimento. A ciência histórica deveria – e
poderia – ser completamente neutra e imparcial, do mesmo modo que as ciências
da natureza. Para atingir um conhecimento com estas características, o
historiador alemão advogava um método de crítica histórica. A despeito destas
considerações históricas, Ranke absorveu também a atmosfera filosófica de sua
época, sobretudo as idéias de Hegel. Tal como este, acreditava que “a história
era o palco da manifestação do Espírito”. A história cumpriria certos
propósitos transcendentais, uma força supra-histórica atuava no curso dos
eventos. Chegar-se-ia a essa compreensão quando se atentasse para os documentos
oficiais, de onde brotavam naturalmente os fatos históricos. Por isso a
importância do método, visto que por meio dele se faz não somente a
reconstituição do passado tal qual aconteceu, mas também a apreensão do sentido
da humanidade. Desta forma, Ranke, mesmo sem saber, combina história científica
e filosofia da história (hegeliana).

Na
escola metódica da França ocorreram também as mesmas características;
valorização do método, negação da filosofia da história, fetiche dos fatos
históricos,  valorização dos eventos políticos, cultivo a dúvida e
observação, imparcialidade, etc. A única diferença consiste na incorporação da
filosofia Iluminista. A escola histórica Francesa afirma um processo histórico
gradual, irreversível e linear. O ápice da história era o futuro, e não o
presente. Enquanto a escola histórica tradicional alemã incorporava a filosofia
hegeliana, a Francesa vai absorver a da Ilustração. Esta escola vai simplificar
o método defendido por Ranke. Langlois e Seignobos conceberam o método
histórico dividido em três etapas; heurística (pesquisa), operações analíticas
(critica interna e externa) e operações sintéticas (escrita histórica). O fim
de tudo isso era fazer da história uma ciência, reviver o passado. Fustel de
Coulanges, com a obra “a cidade antiga”, é tido como o primeiro a fazer uma
obra próxima a preconizada por essas escolas históricas metódicas, embora ele
não tenha sido um positivista no sentido comtiano. O autor propõe uma
relativização do termo “positivista” para denominar essas duas escolas
históricas (Alemã e Francesa), rotulando-as de “metódicas”, uma vez que ambas
supervalorizavam o método. Para ele, o termo “positivo” caberia em vez de
“positivista”, já que nenhum dos representantes da escola dita positivista
reivindicava tal atributo. Eles não buscavam leis históricas a lá Comte, apenas
compartilhavam com este pensador a preocupação por objetividade, empirismo e
rejeição a metafísica.

Reis
finaliza tal capítulo com uma instigante reflexão; os historiadores metódicos
realizaram, inconscientemente, uma evasão do presente vivido. Valendo-se de
algumas idéias de Pierre Nora (séc. XIX e XX produção vertiginosa de eventos),
o autor afirma que tais historiadores praticavam uma negação do evento presente
mediante um culto do evento passado, na medida em que aquele era imanipulável,
imprevisível, novidade, emergência. No passado buscavam o sentido do presente e
do futuro, visto que os eventos passados eram inseridos em uma continuidade
histórica. Ademais, os eventos passados eram divinizados, cumpriam certos
propósitos transcendentais. Portanto, uma evasão acontecimental, utópica e
divina. Reis vê nessa evasão plural a consciência da burguesia que, vendo seus
feitos revolucionários, teme ser deles vítima.

     O
Historicismo; Aron X Dilthey

Reis
inicia afirmando que a emergência do Historicismo representa o fim da filosofia
da história tradicional; esta buscava uma evolução no processo histórico, a
presença de uma entidade supra-histórica guiando o curso dos homens. De fato, o
Historicismo possui duas características fundamentais; a recusa da filosofia da
história tradicional e da objetividade, tal qual das ciências naturais, nas
ciências humanas. Os historicistas resgataram a critica kantiana contra a
física newtoniana. Assim, se auto-intitulavam filosofia crítica da história,
responsáveis pela crítica histórica. A principal reflexão destes pensadores era
acerca da objetividade do conhecimento e singularidade das ciências do espírito[5],
e não questões metafísicas de sentido ou evolução da história. Perscrutavam
sobre o conhecimento das ciências humanas, de como ele era produzido ou
atingido, se tinha validade universal ou não.

O
resultado destas reflexões é a defesa da singularidade das ciências do
espírito, o total afastamento das ciências da natureza e a negação da objetividade
(tal qual pensada nas ciências naturais). De fato, a principal característica
do Historicismo é o relativismo. Pensadores como Droysen e Dilthey gritavam a
favor da relatividade no conhecimento histórico, o qual seria sempre parcial,
limitado e unilateral. Para entender tal afirmação é preciso atentar para as
primeiras premissas do Historicismo; todo fenômeno é histórico, objeto e
sujeito estão imersos no fluxo do processo histórico e subjetividade e
conhecimento são inseparáveis. Segundo o Reis, estas três idéias só podem
oferecer uma única coisa às ciências humanas; a relatividade.

Além
deste caráter intrínseco da história, Dilthey pensa Clio com um processo de
“consciência de si”, isto é, a história é o estudo do homem pelo homem. Para o
filósofo alemão, o objeto da história é o próprio sujeito da história. Trata-se
de algo que não é exterior, como ocorre nas ciências da natureza (nomotéticas).
Existe uma identidade entre sujeito e objeto, uma solidariedade entre passado e
presente. Para Reis, nestas postulações encontra-se a incorporação de aspectos
filosóficos na história, embora não sejam confessados. Dilthey vê a história
como uma viagem ao interior do próprio homem, é a consciência presente querendo
conhecer a consciência passada. Desta forma, valorizava, ao contrario da
filosofia da história tradicional, somente o passado e o presente no
conhecimento histórico, dado que esses dois tempos estão ligados
espiritualmente. O futuro, segundo os historicistas, era devir, invisível,
incomtemplavel, disperso, caótico. A história se fazia somente a partir da
relação presente – passado, do encontro destas consciências separadas pelo
tempo.

O
autor finaliza tal capítulo citando o estudo de Raymond Aron sobre os
historicistas. Tal pensador combinou as idéias do Historicismo com a filosofia
da história evolucionista. Tal como os historicistas, o sociólogo alemão
afirmava a especificidade da historia e seu condicionamento a época, mas negava
o devir histórico de Dilthey, colocando-o em seu lugar a idéia Iluminista.
Finalmente, Reis retoma a idéia de Aron de que o Historicismo formulou o
pensamento da aristocracia alemão do final do século XIX, pois ela era
justamente a classe que rejeitava o futuro. Materializando este medo, Dilthey
formula a união entre passado e presente, haja vista que este representava a
segurança e aquele a gloria para a aristocracia.

     O marxismo

Reis
aborda algumas idéias de Marx correlacionadas ao pensamento histórico. Seu
intuito não é discorrer sobre as principais idéias do marxismo, mas sim aquelas
que se relacionam com a história, que foram incorporadas pelos historiadores.
Em suma, idéias de Marx que pertencem ao âmbito do pensamento histórico. Nesse
sentido, inicia afirmando que o marxismo compartilha o mesmo objetivo das escolas
históricas analisadas anteriormente, embora tente alcançar seu objetivo através
de um outro caminho[6].
Pergunta o autor; teria o marxismo conseguido eliminar a filosofia da história
e erigir uma história científica?

Segundo
Villar, historiador marxista e dos Annales, sim. Para ele, a recusa ao
idealismo hegeliano e a metafísica de Feuerbarch confirmam a positividade do
projeto marxista. O objeto da história, segundo as idéias de Marx, não é uma
exteriorização do pensamento nem muito menos “expressões do Espírito”[7].
Trata-se de algo concreto e objetivo, isto é, as estruturas econômico-sociais.
De fato, Marx almeja uma teoria global que contemple toda a realidade, a qual é
objetiva e dialética. Afirma-se que ele criou as primeiras teorias estruturais.
Assim, o marxismo seria uma filosofia, mas não uma filosofia da história,
entendendo esta como especulativa e idealística. Embora o marxismo afirme um
sentido para história, ele quer dizer com isso que a historia é racionalmente
estruturada, que possui regularidades.

O
pensamento de Marx aproxima-se da história na medida em que formula tal teoria
global, pois esta quer apreender o movimento das sociedades, o qual seria fruto
da interação entre três fatores; A) forças produtivas. B) classes sociais. C)
modo de produção (relação de produção + forças produtivas). Estes elementos
engendram as mudanças e realizam as rupturas. Assim, a história deveria se
debruçar sobre aqueles elementos. Reis afirma que, ao propor a interação destes
elementos, o pensamento marxista rompe com a idéia de homem universal e
metafísica tradicional. Esta porque são os homens quem fazem a história, ainda
que existam grandes condicionamentos, e aquela porque os homens são analisados
socialmente, isto é, por grupos e classes, os quais são produtos dos modo de
produção. 

A
despeito de todo esse materialismo, o autor diz que Marx retoma certas idéias
de Hegel, cientificizando-as; a duplicidade da ação humana (consciente e
inconsciente). Se Hegel afirma que os homens, ao agirem, cumprem inconscientemente
certas vontades do Espírito, Marx vai afirmar que os homens, ao agirem, cumprem
certas necessidades da estrutura econômico-social. Assim, toda ação humana,
quer individual ou coletiva, para ambos os autores remetem para a
involuntariedade do sujeito.

A
despeito da enorme variedade de leituras da obra de Marx, devido a sua riqueza
teórica, o autor propõe duas interpretações. A primeira consiste na visão
marxista segundo a qual a história é um processo evolutivo, contínuo. Em muitos
escritos de Marx podemos enxergar essa visão. A história culminaria,
inelutavelmente, no comunismo, estágio em que se eliminam todas as contradições
da sociedade. Um reino de justiça, paz e igualdade. A outra seria a visão
repetitiva da história, a qual deixa de representar uma continuidade para
representar uma descontinuidade, ruptura. Encontra-se tal visão nas análises de
Marx sobre os modos de produção pré-capitalistas.  Assim, o capitalismo
não é somente um estágio a ser superado, mas um estágio descontinuador. Reis
acredita que se pode combinar estas duas leituras em uma só, evitando qualquer
polarização. Para Marx, a história é, ao mesmo tempo, permanência e ruptura,
evolução e repetição.

Segundo
o autor, ao propor a história também como evolução cujo termino é a “cidade
feliz dos homens”, a teoria de Marx torna-se uma filosofia da história. Seu
caráter emancipador da história transforma suas idéias em uma filosofia da
história. Para Reis, há nas idéias de Marx uma síntese das filosofias da
história anteriores; Hegelianismo, dialética, contradição da realidade.
Positivismo, extermínio da metafísica, da religião e da imaginação. Iluminismo,
a visão linear da história, a redenção histórica. Darwinismo, existe ou
existirá uma espécie evoluída. Portanto, o autor conclui que o marxismo não
rompeu com a filosofia da história, mas que se tornou uma espécie de resumo das
teorias históricas especulativas. Finalmente, Reis vê no marxismo, tal como nas
outras escolas históricas, uma evasão. Esta se dá pelo presente, pois não
percebe a sua própria historicidade, e pelo conceito. Ao pensar a realidade
como objetiva, se perde em conceitos abstratos, rompendo como o materialismo,
com a concreticidade que se propõe.

     Os Annales

Reis
inicia discutindo as questões da unidade dos Annales e seu status de
continuidade ou descontinuidade. Para tal, vale-se da idéia de “paradigma”,
proposta por Kuhn. Aquele possui duas acepções, uma de caráter sociológico e
outra de caráter filosófico. Sob o prisma deste, paradigma é aquilo que, a
despeito de todas as diferenças, permite uma comunicação entre os sujeitos.
Trata-se de algo central, o qual promove a comunicação intersubjetiva. Sob o
prisma sociológico, paradigma é aquilo que é compartilhado por todos,
indiscutivelmente. Nesse sentido, pergunta o autor; haveria um paradigma entre
os membros dos Annales? Todos possuem semelhanças mais que diferenças? Trata-se
de um grupo homogêneo? Eis as problemáticas iniciais abordadas pelo autor.

Segundo
Reis, muitas são as respostas para tal problemática, de uma maneira que se pode
facilmente observar as diferenças e oposições. Uns afirmaram que sim, que os
Annales constituíram um paradigma, qual seja, o estrutural-funcionalista.
Embora houvesse discordâncias entre os membros, todos eles se harmonizavam e
formavam um conjunto coerente e harmônico. Braudel posiciona-se mais
radicalmente a questão. Para ele, não existe nem se quer uma escola, imagine um
paradigma, pois os fundadores – Bloch e Febvre – jamais admitiram algo fechado,
rigorosamente articulado, como sugere tais termos. Outros falam, ainda, em
filosofia dos Annales e múltiplos paradigmas, isto é, em razão de os Annales
advogarem uma história aberta, tem-se varias orientações, visões e concepções.
Por fim, Reis apresenta a visão de Le Goff, a qual sustenta um espírito,
orientação, tendências comuns entre os membros dos Annales.

O
autor resolve a questão da unidade dos Annales propondo um outro conceito e
relativizando o conceito de paradigma (usá-lo fora do entendimento de Kuhn),
usando mais frouxamente. Reis pensa a unidade dos Annales como um programa,
isto é, entre os diversos membros dos Annales existem expressões comuns (seu
significado para paradigma). Eis o programa dos Annales; interdisciplinaridade,
novos objetos e mudanças analíticas (tempo, explicação, fonte, fato, etc.). No
entanto, problematizar a questão da unidade dos Annales traz como corolário a
discussão da continuidade ou descontinuidade. Haveria uma permanecia entre a
história tradicional e a nova? As três gerações dos Annales praticaram apenas
um “seguimento”? Ou mudaram tudo bruscamente? São eles herdeiros da escola
metódica? Nesse sentido, as posições variam aos extremos; para uns, houve uma
completa ruptura, para outros houve sim uma completa continuidade. Alguns
também combinam essas duas polarizações.

No
inicio do século XX, o pensamento científico mudara bastante e nesta alteração
uma ciência despontava com grande prestigio; as ciências sociais. Estas viam
com um discurso crítico, modernizador e sedutor. Nesse sentido, empreenderam uma
serie de críticas a história vigente. Pediam uma total revisão dos saberes
históricos. Tais recriminações encontraram solo fértil em alguns historiadores
que decidiram aceitar o ponto de vista das ciências sociais, promovendo uma
renovação do conhecimento histórico. Entre tais homens estavam os progenitores
dos Annales. Eles perceberam que a história estava em um beco sem saída; ou
cedia aos “cientistas sociais” ou eram engolidos por eles. Assim, realizaram
varias reformulações no pensamento histórico, destacando a abertura da história
a outros saberes e a nova concepção de tempo. Trata-se, então, de uma
revolução?

Reis
acredita que não. Revolução é uma palavra muito forte. Houve sim, para o autor,
uma mudança substancial. Os Annales herdaram, e fizeram questão disso, os
métodos da história tradicional, o caráter de valorização da pesquisa, da
busca, mas sem incorporar o metodismo. Porém, rejeitaram categoricamente o
isolacionismo e o fetichismo dos fatos e documentos oficiais, bem como a noção
de tempo. Assim, tem-se uma combinação de continuidades e descontinuidades, as
quais produziram uma nova história. O mesmo raciocínio aplica-se as três
gerações dos Annales; a continuidade se expressa na fidelidade ao diálogo
proposto pelos fundadores, a descontinuidade refere-se aos novos objetos,
explicações.

A) A interdisciplinaridade

Como
conseqüência direta da adesão ao ponto de vista das ciências sociais, opera-se
um dialogo intenso entre os historiadores e os cientistas sociais (sociólogos,
economistas, políticos, geógrafos). A história bebe e se torna bebida para as
ciências sociais. Em suma, a história passa a circular nos interstícios das
ciências sociais. Advém daí inúmeros trabalhos historiográficos de caráter
econômico, geográfico, jurídico, antropológico, etc. Reis propõe uma
problematização desta união, uma reflexão crítica, precisa e atenta. Nesse
sentido, o autor aponta aspectos positivos e negativos deste contato.

O
ponto positivo da abertura da história consistem na riqueza do arcabouço
metodológico que ela passa a incorporar. Conceitos, idéias, visões, novos
objetos estão agora disponíveis a historia. Existe uma diversidade de meios
para tal disciplina atingir seu fim, alcançando uma compreensão muito mais
elevada e profícua. Há, agora, uma riqueza no instrumento analítico do
historiador. No entanto, Reis vê um perigo; a perda da identidade. Ao assimilar
métodos, conceitos e objetos das ciências sociais, a história estaria correndo
o serio risco de uma auto-dissolução e fragmentação. Tanto é assim que, passado
alguns anos da interdisciplinaridade, a história passa a ser a historia de…ou
seja, surge vários objetos para historia.

Desta
forma, o autor propõe uma revisão desta união, abertura, diálogo para com as
ciências sociais. Tal contato não deve ser feito de maneira desenfreada,
irracional e religiosa. Pelo contrario, deve ser conscientizada e balizada por
questões éticas e filosóficas. Assim, evita-se a perda da especificidade do
olhar histórico, mantendo esta disciplina ainda singular.

B) Novos objetos

O
autor ratifica a ampliação dos objetos da história, de uma maneira que se opera
um alargamento do campo de pesquisa do historiador. Por conseguinte,
verifica-se uma ruptura para com a história tradicional do século XIX, cujos
objetos eram, tradicionalmente, a política, economia, diplomacia, religião e
grandes homens. A história que “conversa” com as ciências sociais vai rejeitar
profundamente tal maneira de enquadrar a pesquisa histórica. Para ela, os
fenômenos, qualquer sejam, não possuem uma natureza que os aprisionem em uma
categoria objetiva. Pelo contrario, o sujeito é que enquadra os fenômenos em
tal ou qual categoria.

Reis
diz que os objetos refletiam a disciplina que a historia dialogava. Assim, na
primeira fase dos Annales, os objetos eram aqueles que eram também abordados
pela economia, sociologia e demografia; o problema da população russa, o ouro
no Medievo, conflitos sociais da França feudal, etc. Portanto, o objeto a ser
pesquisado vai variar mediante a aliança com uma disciplina específica,
operando uma renovação e ampliação no campo de pesquisa histórica. Porém, tal
febre por novos objetos traz também o esquecimento do político, dificultando
uma compreensão mais profícua do passado.

O
autor finaliza dizendo que os historiadores, em pleno contato com as ciências
sociais, encontram novos horizontes. Seja de objetos, pesquisa, compreensão e
análise, redundando em uma reatualização do pensamento histórico, faces as
transformações do presente.

C) Os Annales e a compreensão de Ciência

Reis
aborda a questão do entendimento de Ciência, isto é, do que seria ciência para
os membros dos Annales. Em cada fase dos Annales pode se perceber compreensões
diferentes sobre o que é ciência, pois tal escola se caracterizava, entre
outras coisas, pela diversidade de paradigmas, concepções, valores, idéias,etc.
Assim, o autor investiga a compreensão que cada fase dos Annales tinha da
história, de seu caráter científico.

Desta
forma, Reis inicia discorrendo sobre alguns modelos epistemológicos que
influenciaram o pensamento intelectual do século XIX. De uma maneira quase
hegemônica, vigorava naquele século o modelo nomológico ou nomotetico[8],
o qual afirmava a existência de leis objetivas em qualquer fenômeno. Tal modelo
era originado das ciências naturais, e como este gozava de grande prestigio e
desenvolvimento, foi logo transportado para as ciências humanas. Assim,
afirmava-se que natureza e sociedade eram realidades que poderiam ser
analisadas a partir de um mesmo método. Os fenômenos naturais eram idênticos
aos sociais.

Existindo
marginalmente tinha-se o modelo hermenêutica, erguido por Dilthey. Tal modelo
afirmava a diferença entre ciências naturais e ciências do espírito. Aquele era
nomotetico e este era ideográfico. A conseqüência disto era uma serie de
discrepâncias, que ia do objeto ao sujeito, entre ciências naturais e ciências
do espírito, beirando a quase uma oposição. Nas ciências do espírito
valorizava-se a interpretação muito mais do que a descrição, a fim de se
alcançar uma compreensão. Havia ainda o modelo epistemológico erguido pelo
marxismo, o qual, segundo Reis, seria um modelo médio entre os dois já
analisados. A epistemologia marxista combina a visão do modelo nomotetico e
ideográfico; afirmam-se as regularidades verificáveis, a evolução, coordenação
e sentido, mas também se afirma a compreensão subjetiva, em razão do caráter
inconsciente da vida humana.

Sendo
assim, qual foi à postura adotada pelos Annales? Ou melhor, quem e quando
adotou tal ou qual modelo? Para responder a esta pergunta, o autor procede a
uma analise sobre como a história era praticada e pensada em cada uma das fases
dos Annales. Em suma, como era praticada a história no decorrer das gerações
dos Annales. Nesse sentido, a primeira geração falava de uma história-problema,
história-global e compreensão. Não havia ainda um consenso na práxis histórico.
Bloch fala mais de uma compreensão, de um estudo que relacionasse
reciprocamente presente e passado. Febvre afirmava a necessidade de uma
interpretação, de uma problematização mais sobre as sociedades dos que sobre os
homens. Em suma, o primeiro era mais sociólogo e o segundo mais historicista.
Em comum, todavia, existia a crença que a história caminhava para ser uma
ciência, ainda que com alto grau de especificidade.

Com
a segunda geração, coexistiam modos diferentes de “historear”;
historia-problema e historia-global. Esta se caracteriza por uma analise sobre
sistemas, os quais interligados permitiriam uma visão global, total. Com essa
práxis a analise histórica tendeu ao tempo de longa duração, isto é, o objeto
era estudado em um tempo extenso, largo. Tal projeto mostrou-se inviável,
somente alguns tentaram tal feito (Braudel). A terceira geração falará ainda de
uma história geral, mas deslocará a analise histórica para a descontinuidade, a
ruptura, o novo. Foucault é a grande influêcia. Com tal geração ocorre ainda a
ampliação do objeto. Tudo pode ser objeto da historia, desde que seja
problematizável. Advém daí a critica ao esmigalhamento da história.

Feito
o percurso pela práxis histórica nas três gerações do Annales, pode-se
responder ao questionamento principal do tópico. Segundo Reis, os fundadores
dos Annales – Febvre e Bloch – acreditavam que a cientificidade da história era
um dado certo para o futuro, a história era uma ciência em construção. Por isso a geração dos Annales posterior viveu o “otimismo cientifico”; eles
confiavam que sua disciplina tinha atingido o patamar de “Ciência”.
Historiadores (Labrousse, Braudel, Chaunu,etc) se referiam a sua profissão como
exata, informatizada e quantificada. Porém, a terceira geração não só mostrou o
equivoco de tal ambição como o esqueceu, repudiou completamente o caráter
cientifico da história.

Para
demonstrar o pensamento da terceira geração sobre a cientificidade da história,
Reis vale-se de algumas idéias de Duby. Este vai afirmar a história como um
gênero narrativo singular, uma arte específica. O discurso histórico se
aproxima muito mais da arte literária do que da narrativa científica. Contudo,
a arte histórica exige certas condições, frutos do esforço de veracidade que se
impõe ao historiador. Trata-se, assim, de um discurso que não se fundamenta tão
somente pela imaginação, mas também pelo dado empírico. O historiador precisa
de provas. Ainda que esta não dê, por si só, inteligibilidade ao discurso.

Portanto,
a terceira geração dos Annales mostra o limite da ambição científica da
história, colocando esta muito mais como arte literária “sui generis”. De fato,
a posição atual dos Annales é exatamente a negação a qualquer delírio
nostálgico cientificista.

A legitimidade intelectual e social da
história

Para
finalizar seu livro, Reis discorre sobre a razão de ser da história, isto é,
dos motivos que fazem valer a pena praticar e estudar historia. Para tal, ele
vale-se de algumas reflexões feitas por historiadores da primeira e terceira
geração dos Annales. Nesse sentido, inicia com as reflexões realizadas por
Bloch, o qual problematizou acerca da utilidade e legitimidade da história.
Para aquele historiador, a razão de ser da história reside, antes de tudo, no
fato de ela ser constituidora da civilização ocidental. Esta, desde o berço, já
cultuava a historia e a valorizava. Assim, a história aparenta ser parte
congênita da sociedade ocidental. No entanto, isto é apenas uma constatação.
Não resolve o problema da razão ser da história, o qual complica ainda mais na
medida em que verifica-se que a história não pode evitar a infelicidade de
guerras e catástrofes.

Reis
continua com as idéias de Bloch. Este começa respondendo a problemática
supracitada de maneira aparentemente ingênua; A história entretém. Ainda que
todas as utilidades da história sejam negadas, ficará uma irrefutável, qual
seja, ela satisfaz, traz um gozo e diverte o espírito humano. Porventura tal
prazer justificaria o tamanho investimento, esforço e gasto que a prática
histórica exige? A justificativa que o autor apresenta consiste no diálogo
entre passado e presente que a história possibilita. A história permite um
“papo” entre dois mundos diferentes, uma visualização do passado pelo presente.
Assim, enriquece a vida no presente, fazendo com que este não seja vivido,
experimentado de forma solitária, desconexa e solto no ar. O dialogo promovido
pela historia desanestesia o presente. Portanto, Bloch dá razões de ser para
história bastante relevantes; A) caráter distintivo e constitutivo da
civilização ocidental. B) a história toca o espírito humano, deleitando-o. C)
põe em contato os mortos com os vivos.

Febvre
compartilha a mesma visão de Bloch. Para ele, a história possui uma clara
função social; organizar o passado. Continuando com os historiadores dos
Annales, Reis mostra as opiniões de Duby e Le Goff. Ambos reivindicam a
importância da história. O primeiro afirma que a história ensina a duvida
metódica, a questionar a realidade, aguçando olhar crítico sobre o presente. Já
Le Goff grita a incorporação da história a toda atividade intelectual, pois ela
é o conhecimento de toda criação. Para contrastar um pouco, Reis apresenta a
visão de Veyne, o qual afirma que a história é apenas uma atividade de
conhecimento, algo frio que encontra razão de ser no sujeito.

Sendo
assim, o autor finaliza seu livro defendendo uma legitimidade e utilidade para
a história. O simples fato de o homem existir já demonstra uma legitimidade para
a história, uma vez que se faz necessário uma problematização, um estudo sobre
tal ser. A história fornece tal estudo. Ademais, o historiador é uma espécie de
mediador entre o passado e o presente. Sua ação faz com que a finitude humana
pareça menos incerta e estonteante.  
 

Contatos; [email protected] 

Referência
Bibliográfica

REIS, José
Carlos. A história entre a filosofia e a ciência. 3.ed., 1 reimp. Belo
Horizonte: Autêntica, 2006.

 


[1]
No século XIX, pensava-se que a Ciência constituiria o caminho mais segura para
a verdade e, diga-se também, para a felicidade humana. Por isso inúmeros
saberes tentaram ser Científicos nesse período. Ex; História, Geografia,
Psicologia, Sociologia, entre outras.

[2]
Metafísico, no presente livro, está relacionado a esquemas especulativos que
tentam não somente apreender o sentido da história, mas explicar todo o
processo histórico.

[3]
Essa escola também é conhecida como história tradicional ou factual, sobretudo
aqui no Brasil.

[4] 
Era como os historiadores “positivistas” chamavam a filosofia da historia de
seu tempo vigente.

[5]
Era como Dilthey denominava as ciências sociais.

[6]
Marx foi um dos pensadores do século XIX que mais absorveu a mentalidade
cientificista de sua época. Vide sua doutrina auto-intitulada “socialismo
cientifico” (em oposição direita ao socialismo utópico).

[7]
Expressão usada por muito idealistas, sobretudo Hegel.

[8]
Modelo das ciências da natureza.

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