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§ 2.° — Alberto Magno e Tomás de Aquino

A — ALBERTO MAGNO

77. ALBERTO MAGNO (1193-1280), filho da nobre família de Boilstädt, abandonando a carreira militar, entrou na Ordem de S. Domingos. Estudou na Itália, ensinou em Colônia, Paris (1245-1248) e várias cidades da Alemanha, adquirindo fama universal pela profundidade de seu saber filosófico e amplidão de seus conhecimentos científicos (69). Os contemporâneos chamaram-no Doctor universalis. Comentou, parafraseando, quase toda a enciclopédia aristoté-lica e escreveu várias obras originais filosóficas e teológicas, entre as quais lembramos: De unitate intellectus contra Averroem, De causis et -processu universitatis e a Summa theologica.

Alberto Magno é o grande vulgarizador de Aristóteles, êle que orienta definitivamente a escolástica para o peripatetismo. Quando Aristóteles mal traduzido e pior interpretado pelos árabes invadia o Ocidente, Alberto concebeu o grandioso projeto de pôr a serviço da verdade a força dialética e a grande soma de conhecimentos do es-tagirita. Na execução dessa laboriosa tarefa utilizou, além de quanto lhe havia legado a antigüidade grega e latina, conhecida na época, a vastidão imensa de seu saber pessoal. Sua obra reúne assim a totalidade dos conhecimentos científicos do tempo: é a grande enciclopédia, dos princípios do see. XIII. Se nesta árdua empresa de transfusão ainda lhe restam alguns elementos que se não coadunam com o aristotelismo puro (puralidade das formas, rationes séminales) é que para levar a termo tão grande inovação nas doutrinas tradicionais era mister um gênio de maior envergadura. Sua síntese apresenta menos lucidez, menos coerência, menos unidade orgânica e perfeição estrutural que a de seu discípulo, Tomás de Aquino. Mas, nem por isso, Alberto Magno deixa de ser um dos mais insignes comentadores de Aristóteles e sua obra uma das mais autorizadas exposições da escolástica. Deve-lhe o Doutor Angélico várias doutrinas que correm sob o seu nome. Pode dizer-se, com Man-donnet, que Alberto já é a nebulosa clara, da qual se desprenderá Tomás, sol brilhante.

Outro título de glória do grande Alberto é a importância por êle ligada ao estudo das ciências experimentais num tempo em que a especulação pura atraía as mais belas inteligências. "Oportet, escrevia êle, experimentum non in uno modo sed secundum omnes circumstantias probare", Ethic. VI, 25. E, dando por primeiro o exemplo, adquiriu uma vastidão de conhecimentos naturais prodigiosa. A geografia, a física, a mineralogia, a botânica e a zoologia lhe são devedoras de longas e pacientes investigações pessoais. Pode afirmar-se que nenhuma das ciências de seu tempo ficou estranha à esfera de seus conhecimentos.

(68) Sobre este opúsculo de Middletown, cfr. dois notáveis artigos do P. E. Portalié, L’hypnotisme au Moyen-Âge, Avicenne et Richard de Middletown, Études, Mars-Avril, 1892. .

(69) Vir in omni scientia aâeo divinus, escreve um contemporâneo, ut nostri temporis stupor et miraculum congrue voccri potest.

BIBLIOGRAFIA

Alb. Magni, Opera omnia, Ed. Jammy, 21 vols., in-fólio Lugduní, 1651; — Ed. Borgnet, 38 vols, in 4.°, Paris, 1890-99; — Van Weddingen, Albert le Grand, le maître S. Thomas d’Aquin, Bruxelles, 1881; — Th. de Régnon, La métaphysique des causes d’après S. Thomas et Albert le Grand*, Paris, 1906; — A. Garreau, S. Albert le Grand, Paris, 1932; — M. Gorce, L’essor de la pensée au Moyen-Age. Albert le Grand. Thomas d’Aquin, Paris, 1933.

Β — S. Tomás de Aquino

78. VIDA E OBRAS — Descendente da nobre estirpe dos condes de Aquino, unido com laços de sangue à família imperial e às famílias reais de França, Sicília e Aragão, nasceu Tomás em 1225, no castelo de Roccasecca. Passada a meninice no mosteiro dos beneditinos de Montecassino e a primeira mocidade em Nápoles, aos 19 anos, apesar da viva oposição da família, vestiu o hábito de S. Domingos. Estudou em Paris e Colônia, sob a direção de Alberto Magno, recebendo, mais tarde, em Paris (1257), juntamente com S. Boaventura, o título de Mestre. Sua reputação bem depressa se espalhou por toda a Europa e êle houve de percorrer no seu magistério os grandes centros de cultura. Ensinou sucessivamente em Paris (1/ vez, 1256-59), Anagni (1259-61), Orvieto (1261-65), Roma (1265-67), Viterbo (1267-68), Paris (2.» vez, 1269-72), Nápoles (1273).

Faleceu na plenitude dos anos, em 1274, quando, por ordem de Gregório X, ia tomar parte no concilio de Lião. Pela inocência da vida ilibada e pela profunda penetração de seu gênio, conferiu-lhe a posteridade o título de Doutor angélico ou Anjo das escolas.

Suas obras podem dividir-se em dois grupos: comentários e obras originais. Os comentários referem-se a vários tratados de Aristóteles, ao livro das Sentenças de Pedro Lombardo, ao De Tri-nitate e De Hebdomadibus de Boécio. Entre os trabalhos originais citamos: a Summa contra gentes, em que revela seus talentos de apologeta, as Quaestiones disputatae, vários opúsculos e finalmente a Summa theologica, grandioso monumento de ciência teológica e filosófica, no qual com admirável clareza de doutrina se encontra a expressão definitiva do pensamento do Santo. A morte o surpreendeu antes que o pudesse ultimar (70).

79. CARÁTER GERAL DA FILOSOFIA DE S. TOMASA. S. Tomás rompe definitivamente com todas as doutrinas que não se harmonizam com os princípios fundamentais da filosofia aristo-télica e inaugura na escolástica o verdadeiro peripatetismo, por êle compreendido, corrigido e aperfeiçoado com gênio não inferior ao1 do estagirita.

B. Sua síntese apresenta por isso mesmo um caráter de unidade, uma coesão doutrinai de que não se pode gloriar nenhum outro sistema escolástico. É uma estrutura compacta de partes rigorosamente concatenadas em que as idéias constitucionais, simples e profundas, repercutem harmoniosamente em todas as particularidades.

C. Seu método é analítico-sintético, em que nem se desprezam os direitos da experiência nem se conculcam os princípios da razão. A linguagem é sóbria, límpida e concisa, revestindo conceitos profundos com precisão admirável. Ninguém, como êle, possuiu a arte de dizer tantas coisas em tão poucas palavras.

80. DOUTRINAS FILOSÓFICAS — FILOSOFIA Ε TEOLOGIA — A questão das relações entre a razão e a fé, sobre a qual tanto se exercitaram os espíritos, recebe, em S. Tomaz, uma solução definitiva. Filosofia e teologia são duas ciências distintas, não contrárias: razão e fé não se hostilizam (71). De fato, Deus manifesta-nos a verdade de dois modos: diretamente pela revelação e indiretamente subministrando-nos, com as faculdades cognoscitivas, os instrumentos para adquiri-la. O estudo da verdade revelada é objeto da teologia, o estudo racional do Universo é da alçada da filosofia. O objeto material das duas ciências poderá por vezes ser comum (a existência de Deus, a espiritualidade da alma etc. são ao mesmo tempo verdades filosóficas e teológicas), mas o aspecto sob qual o encaram as duas ciências (objeto formal) é sempre diverso, procedendo o estudo do dogma por autoridade e a filosofia por demonstração cientifica.

Apesar de distintas, as relações entre as duas ciências são muito íntimas.

A filosofia, provando a existência de Deus, a possibilidade e o fato da revelação, prepara a inteligência para a teologia, tornando o ato de fé eminentemente racional, "non enin crederet (homo) nisi videret ea esse credenda". Mais. Nos próprios mistérios, que são do domínio exclusivo da teologia, porque não os pode demonstrar a razão, o concurso da filosofia é ainda valioso. Compete-lhe esclarecê-los com analogias tiradas da ordem natural, refutar as objeções dos adversários e mostrar que o supra-racional não é anti–racional e que a fé longe de contrariar a razão, lhe alarga a esfera de conhecimento.

(70) Sobre as obras autênticas de S. Tomás Cfr. P. Mandonnet, O. P., Des écrites authentiques de Saint Thomas d’Aquin. Friburgo (Suíça), 1910: M. Gbabmamn, Die Werke des hl. Thomas von Aquin, Münster 1. W. 1931.

(71) "Ea quae εx revelatlone divina per fidem tenentur non possunt natual cognition! esse contraria". C. Gentes, I,

LÓGICA — Na lógica, considerada como vestíbulo da filosofia, S. Tomás expõe e comenta os ensinamentos de Aristóteles, neste ponto irreformáveis.

METAFÍSICA — As noções de ato e potência, de substância e acidente, as categorias, a doutrina das quatro causas são expostas com muito mais amplidão do que no estagirita. O estudo da noção de pessoa é novo, as suas relações com a natureza são acuradamente definidas. A distinção entre a essência e a existência nos seres criados transcurada pelo filósofo grego estabelece uma separação profunda entre o Ser Necessário e os seres contingentes. O princípio de individuação, isto é, a razão pela qual se constituem e se distinguem os diferentes indivíduos de uma mesma espécie, é a matéria prima, dotada da aptidão de estender-se em determinadas dimensões, "materia signata quantitate". Nos anjos, portanto, puras formas subsistentes, sem composição alguma de matéria não se podem multiplicar indivíduos numa mesma espécie. Esta questão, das mais debatidas no século XIII, é um aspecto metafísico do problema dos universais.

ANTROPOLOGIA — A união substancial da alma com o corpo é um dos polos da antropologia tomista. A alma, princípio imate-rial, une-se ao corpo como a forma à matéria, o ato à potência, formando um composto substancial — o homem. Da alma recebe o corpo a existência, a vida e todas as outras perfeições. Do corpo recebe a alma, que é substância incompleta, o complemento natural de sua natureza e o substratum material necessário ao pleno desenvolvimento de sua atividade.

Sendo, porém, a alma nas suas operações superiores, intelectivas e volitivas, independente da matéria, pode sem ela subsistir. A imortalidade do princípio superior do homem é conseqüência da sua incorruptibilidade e esta da sua imaterialidade.

A liberdade tem suas raízes no conhecimento intelectual. O homem é livre na escolha dos bens finitos. No desejo, porém, da

felicidade, o ato volitivo, posto espontâneo, é necessário. O problema do livre arbítrio é considerado sob todos os seus aspectos e as dificuldades que suscita são encaradas com firmeza e resolvidas com segurança e profundidade.

Dentre as faculdades humanas, realmente distintas da alma, a mais perfeita, absolutamente falando, é a inteligência, ainda que sob certos aspectos lhe leve vantagem a vontade. Na distinção das potências da alma e na afirmação de intelectualismo, S, Tomás se afasta da escolástica anterior, inspirada em S. Agostinho,

TEORIA DO CONHECIMENTO (72) — O conhecimento faz–se por uma assimilação vital do sujeito cognoscente com o objeto conhecido. Pode ser sensitivo ou intelectual.

Na sensação, que não é nem puramente psíquica nem puramente fisiológica, o corpo concorre intrinsecamente para a operação cognoscitiva, cuja sede é o órgão animado. No conhecimento inte-lectivo, o concurso do sistema nervoso é meramente extrínseco, ministrando à parte ativa da inteligência a imagem sensível da qual é abstraída a idéia. Todas as idéias têm, portanto, sua origem nos sentidos e o princípio: nil est in intellectu quod prius non fuerit in sensu, retamente interpretado, é fundamental na ideogenia tomista.

Tanto pelo conhecimento sensitivo quanto pelo intelectual põe–se a alma em contato imediato com a realidade. O estado subjetivo, a modificação psíquica que determina a percepção, a species impressa, não é objeto de conhecimento direito. Assim, em harmonia com os dados fundamentais da consciência, evita S. Tomás o famoso abismo que separa o eu do não-eu, abismo que desde Descartes quase todos os modernos tentaram em vão transpor.

COSMOLOGIA — Duas teses dominam tôda a cosmologia: a finalidade interna de todos os seres e a composição dos corpos de matéria e de uma só forma substancial. A teoria da pluralidade das formas, comum a todos os predecessores, é energicamente combatida.

Em física geral, segue as teorias correntes dos quatro elementos, dos lugares naturais, da incorruptibilidade dos astros e outras que uma observação mais exata da natureza condenou mais tarde por errôneas.

TEODICÉIA — Aqui, sobretudo, resplende o gênio sintético do Doutor angélico. Sua teodicéia é um monumento acabado. A de Aristóteles é-lhe incomparavelmente inferior.

A existência de Deus, se bem seja uma verdade que se pode exprimir por um juízo analítico em si — veritas per se nota quoad se, não é para nós imediatamente intuitiva, nem mesmo suscetível de uma demonstração a priori. O argumento ontológico de S. Anselmo é uma passagem ilegítima da ordem lógica para a ordem real. Os argumentos α posteriori são, porém, de uma evidência inelutável. S. Tomás os reduz a cinco — o do movimenot, o da concatenaçao das causas, o da contingência, o dos graus de perfeição das criaturas e o da ordem universal.

Da noção de ato puro — conceito sob o qual se demonstra a existência de Deus no primeiro argumento — deduz S. Tomás quanto podemos naturalmente conhecer acerca da natureza e dos atributos divinos, observando, porém, que tal conhecimento é naturalmente imperfeito, analógico e feito mais de negação que de afirmação. Deus e infinito, eterno, imutável, livre, oniciente, onipotente. Nas suas relações com o mundo é Criador e Providência.

MORAL — O fim do homem é a felicidade e a felicidade é a posse do bem infinito. Procurar a bem-aventurança nos bens fini-tos é aviltar a dignidade humana. A moralidade ou imoralidade de um ato depende da sua relação de meio ou de obstáculo a consecução do fim último. A norma externa da moralidade é a lei que se define "uma ordenação da razão promuigaaa para o bem comum pela autoridade". S. Tomás distingue a lei eterna — ordenação da sabedoria divina que governa todas as criaturas; a lei natural — participação da lei eterna na criatura racionai; — e a positiva que pode ser divina ou humana; esta, eclesiástica ou civil.

POLÍTICA — O fim da sociedade, para a qual o homem é de sua natureza destinado, é a felicidade geral, obtida por meio da paz e da prosperidade. A autoridade que para esse fim não concorrer é anti-social, injusta e tirânica e pode ser deposta ou pela Igreja, desligando os súditos da obediência ao príncipe, ou por uma autoridade constituída pelo povo ad tempus, dentro dos limites da lei.

A bondade de um governo não aepende da sua forma, mas da fidelidade com que se consagra ao bem comum.

"Quando seres livres reunidos em sociedade têm um soberano que zela o bem comum da sociedade, o governo é reto, justo e qual convém a homens livres. Quando pelo contrário não é o bem comum, mas o individual que o soberano tem em vista nos seus atos, o governo é injusto e mau" (73).

Com esta ressalva, a monarquia, a aristocracia e a democracia (74) são formas de governo.

As doutrinas sociais de S. Tomás acham-se expostas no De Regimine Principum, em quatro livros, dos quais só os dois primeiros sao autênticos.

(72) Para uma exposição mais minuciosa da teoria tomista do conhecimento podem consultar-se: Salis Seewis, Delia conoscenza sensitiva, Prato, 1831; e Libebatobe, Delia conoscenza intellettuale, 2 vols., Roma, 1858.

(73) "Si liberorum multitudo a regente ad bonum commune multitudinis ordi-natur, erit regimen rectum et justum, quale convenit liberis. Si vero non ad bonum commune multidudinis sed ad bonum privatum regimen ordinetur, erit reeimen injustam et perversum". De regimine princ, L. 1, c. 1.

(74) Ut omnes aliquam partem habeant in principatu; per hoc enim conservatur pax populi, et omnes talem ordinationem amant et custodiunt, S. Theol., I, 2ae Q: 105, a. 1. Ver também: S. Theol., 1, 2ae, Q. 90, a. 3; Q. 97; a. 1; a. 3 ad 3um; I. P., Q. 96 a. 4. Sobre as opiniões políticas de S. Tomás cfr. Antoniades, Die Staatslehre des Thomas ab Aquin, Leipzig. 1890; e. Crahay, La politique de Saint-Thomas d’Aquin, Louvain, 189G; J. Zeiller, L’idée de l’État dans Saint-Thomas d’Aquin, Paris, Alcan, 1910. B. Rolland-Gosselin, La doctrine politique de S. Th. d’Aq., Paris, 1928; O. Schilling, Die Staats und Soziallehre des hl. Th. d’Aquin, Paderborn, 1923; M. De-mongeot, Le meilleur régime politique selon S. Thomas, Paris, 1929.

 

81. IMPORTÂNCIA HISTÓRICA DE S. TOMÁS — S. Tomás é o maior gênio da escolástica. Espírito eminentemente coordenador, sintético e coerente, funde num sistema de proporções gigantescas e harmoniosas os materiais acumulados pelos séculos que o precederam. O que de mais verdadeiro havia produzido a filosofia grega no seu mais alto representante — o estagiríta, o que de mais profundo havia inspirado a sabedoria cristã, reunido e compendiado na obra genial do grande bispo de Hipona, quanto de aproveitável haviam legado os pensadores cristãos, arabes e judeus üos primeiros séculos medievais, tuüo amadurecido pela prolunda meditação pessoal e opulentado pelos frutos originais de sua especulação, toi por Tomás d’Aquino utilizado para a construção desta síntese orgânica — filha da tradição fecundada pelo gênio, maravilhosa pela unidade de sua travação, pela solidez de seus princípios, pela profundidade ampla e luminosa de suas doutrinas, pelo rigor conciso de suas fórmulas, pela universalidade de suas aplicações. Êle é, fora de contestação, "o principal organizador e legislador da ciência católica" (Liberatore).

As grandes questões filosóficas das relações entre Deus e o mundo, entre o espírito e a matéria, entre o conhecimento e a realidade, entre a ciência e a fé — questões vitais para os destinos da humanidade e para a existência do cristianismo — receberam com êle uma solução racional, clara e definitiva.

Sete séculos passaram por sobre a obra admirável do anjo das escolas — séculos de luta e de revoluções profundas no campo das idéias, e ela ainda hoje persiste viva, palpitante, imortal como a verdade (75).

"Só quando estudarmos a história da escolástica posterior e da filosofia dos tempos modernos e volvermos a contemplar o século XIII através duma idade de tentativas menos felizes na síntese filosófica, entraremos a compreender, em sua plenitude, a verdadeira grandeza da figura mais alta na história do pensamento medieval" (76).

(75) Não é, portanto, de maravilhar a surpresa que tem causado aos pensadores modernos o conhecimento dac doutrinas genuínas de S. Tomaz por tanto tempo ignoradas do mundo leigo. No prefácio à segunda edição da sua celebre obra: "A Finalidade do Direito", escreve R. von Ihebing: "Recriminaram-se com razão a ignorância das doutrinas de S. Tomás, mas com muito mais razão se podem acusar os filósofos modernos e os teólogos protestantes de haverem esquecido os pensamentos másculos deste espirito vigoroso. Agora que os conheço, admiro-me como foi possível que verdades como as que ele professou viessem entre os sábios protestantes a cair no mais completo olvido. Quantos erros se teriam evitado se houvessem com fidelidade conservado as suas doutrinas! Quanto a mim, creio que se as houvesse conhecido antes não teria escrito o meu livro. As idéias fundamentais que desejava publicar Já se acham expressas com clareza perfeita e notável profundidade neste pensador robusto". Der Zweck im Recht2, Vol. 2.°, p. 161. Leipzig, 1886. Van der Vlugt, na Holanda exprime-se do mesmo modo: "Que surpresa para quem não conheceu S. Tomás, senão pelas informações malévolas de butrem e que, um belo dia, entra em contato imediato com êle na leitura de suas obras! Um homem deste porte não pertença a uma geração, pertence a todos os séculos. Glória a este iniciador! Glória a sua obra!" Citado no Philosophisches Jahrbuch, III, 1890, p. 133. Outro protestante, Ch. Gide, exalta a atualidade do tomlsmo corn estas palavras: "A renascença da escola católica do tomismo torna hoje indispensável o estudo destas doutrinas, que se Julgavam fósseis e que desenterradas parecem tão vivas e semelhantes às atuais que nos maravilhamos de ver quão pouco progresso temos feito". Reime d’économie politique, 1896. p. 514. Outras citações análogas podem ver-se em Pelzer. Institut Supérieur de Philosophie à l’Université Catholique de Louvain: Mercier. Origines de la psychologie contemporaine, pp. 450 e segs.; Revue Néo-scolastlque, 1894, n. 1.

(76) Tubner, Storia delia filosofia, p. 341.

 

BIBLIOGRAFIA

8. Thomae Aqutnatis, Opera omnia, edições principais, Roma, 1570, 18 vols, in fólio; — Veneza, 1594-98, 18 vols, in fólio; — Antuérpia. 1612, 18 vols, in fólio; — Paris, 1636-41. 23 vols, in fólio; — iterum 1660: — Veneza. 1745-88. 28 vols., in 4.°, — Parma, 1852-73. 25 vols, in 4.°; — Paris (Vives) 1872-80, 34 vols, in 4.°; — Roma (ed. de Leão ΧΠΙ) 1882, já saíram 15 vols, in-folio.

Comentadores -principais, antiaos: Capreolus, Sylvestre de Ferrara. Cajetano, João de S. Thomas. Suarez, Toledo, Vasouez. Valencta, Baííes; recentes: Satolli, Btllot, L. Janssens. Mattcussl T. Pegues, L. A. Paquet. H. Buonpensiere . Vejam-se também os inumeráveis cursos e tratados ad mentem S. Thomae.

Monografias gerais: K. Werner, Der hi. Thomas von Anuin. 3 vols. Regensburg, 1858-59: — Ch. T. Bellet, S. Thomas d’Aguin, Paris, 1902; Ch. Jourdain, La Philosophie de Saint Thomas d’Aguin, Paris, 1858; — Pierre Rousselot, L’intellectualisme de Saint Thomas2, Paris. 1924; — M. Grabmann, Thomas von Aguin*. Kempten und München. 1926: — Α. D. Serttllanges. S. Thomas d’Aguin3. 2 vols. Paris, 1922 (ótima iniciação das doutrinas tomistas) ; — Id., La philosophie morale de Saint Thomas d’Aguin2, Paris. 1922: — E. Gilson. Le Thomisme, Strassburg. 1920: — P. Conay, S. Thomas Aquinas, London. 1911; — Fr. Olgiati. L’anima di S. Tommaso. Milano, 1923; — E. de Bruyne. Saint-Thomas d’Aauin. Le milieu, l’homme, la vision du monde, Paris-Bruxelles. 1928: — J. Maritain. Le docteur angéliaue, Paris. 1930; — J. Webert, S. Th. d’Aguin. Le génie de l’ordre. Paris, 1934: — H. Meyer. Th. v. Aguin, Sein System u. seine geis-tesgeschichtl. Stellung, Bonn, 1938: — J. Ameal. S. Tomas de Aguino, Iniciação ao estudo da sua figura e da sua obra. Porto, 1938.

Para ulteriores informações bibliográficas cfr. Baumgartner. Wulf, Serttllanges. Grabmann Mandonnet- Destrez, Bibliographie thomiste, Kain. 1921 (mais de 2.200 números, ainda assim bastante incompleta), e os boletins bibliográficos das revistas já citadas principalmente Revue thomiste e Divus Thomas (de Friburgo).

§ 3.° — Antîtomistas, tomistas e ecléticos

82. ANTITOMISTAS — A introdução do aristotelismo tomista era uma verdadeira inovação na escolástica tradicional. A teoria das formas subsistentes, da unidade de forma substancial, do princípio de individuacão e a distinção real entre as faculdades da alma eram teses inteiramente novas que não podiam deixar de suscitar a mais viva oposição por parte dos defensores das antigas doutrinas. Além disto. S. Tomás pessoalmente foi um polemista valoroso que tomou parte ativa nas mais candentes discussões de seu tempo, sobretudo nas controvérsias entre seculares e reguläres. Natural era, pois, a luta entre as novas e as antigas idéias. As hostilidades romperam com grande violência logo depois da morte do santo.

Entre os franciscanos, defensores das próprias doutrinas assinalaram-se Guilherme de la Mare, que saiu com um verdadeiro libelo acusatório intitulado Correptorium fratris Thomae e João Peckham que, mais tarde (1286), como arcebispo de Cantuária, proibiu algumas das teses tomistas controvertidas.

À frente dos seculares achavam-se os partidários de Guilherme de S. Amor e Geraldo Abbeville.

Entre os próprios dominicanos, Roberto Kilwardby chefia em Oxford um movimento antitomista. Os adversários do Doutor Angélico chegaram até a obter do bispo de Paris, E. Temnier, a condenação (1277) de várias proposições tomistas de envolta com outras relativas ao averroísmo.

A oposição, porém, ao menos com tal violência, durou pouco. Com o tempo serenaram as paixões e a verdade foi iluminando as inteligências. Em 1279, já os dominicanos constituem S. Tomás doutor da ordem. A reputação de suas doutrinas tornou-se em pouco tempo mundial e os que continuaram a combatê-lo nunca deixaram de prestar o tributo da admiração ao seu gênio incomparável.

83. TOMISTAS — Entre os primeiros defensores do tomismo são dignos de menção: Pedro Tarentaise (1225-1276), discípulo e amigo de S. Tomás, resumiu e defendeu em seus escritos as doutrinas do mestre, foi professor de teologia, provincial dos dominicanos, arcebispo de Lião e finalmente papa sob o nome de Inocêncio V; Vicente de Beauvais (m. 1264), autor de Speculum Magnum, obra de vulgarização tomista; Gilles de Lessines. que escreveu o De unitate formae contra Kilwardby; Herveu de Nédellec (m. 1323), um dos mais ilustres entre os primeiros discípulos de S. Tomás.

Dante, poeta-filósofo, escrevendo a sua Divina Comédia nos princípios do século XIV, mostra quão vulgarizadas já eram então as doutrinas do Doutor Angélico que êle revestiu da mais encantadora forma poética.

84. ECLÉTICOS — Por esse mesmo tempo surgiram vários outros filósofos, que, sem se aliarem decididamente a um dos partidos em luta, adotaram não poucas das teses introduzidas por S. Tomás, conservaram algumas antigas e propuseram outras soluções originais, constituindo destarte novas sínteses ecléticas. Os mais conhecidos são: Godofredo de Fontaines, Egídio Romano (Gilles de Roma, 1243-1316), doctor fundatissimus, geral dos eremitas de S. Agostinho de cuja escola foi chefe, Henrique de Gand (m. 1293), doctor solem^ nis, que introduzindo a forma corporeitatis como mediador plástico entre a alma espiritual e a matéria e defendendo a superioridade da vontade sobre a inteligência, preparou o advento da nova escola franciscana à cuja frente se acha Scoto.

BIBLIOGRAFIA

S. Talamo, L’aristotelismo nella storia della filosofia3, Siena, 1900; — Fr. Ehrle em Zeitschrift f. katholische Theologie, t. XIII (1889). n. 172–193: — t. XXXVII (1913), p. 266-318: — Id. em Archiv, f. Lit. u. Kirchengeschichte des Mittelalters, t. V. (889). (603-635) : — M. de Wulf, Le traité des formes de Gilles de Lessines, Louvain, 1901 (P.B., I) ; — G. von Bertling, Wissenschaftliche Richtungen und philosophische Probleme im dreizehnten Jahrhundert, München, 1910; — Mandonnet. Premiers travaux de polémiaue thomiste, na Rev. des sc. phil. et théol. t. VII (1913) ; — De Wulf, Études sur Henri de Gand, Louvain, 1895; — J. Paulus, Henri de Gand, Paris, 1938.

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