DEMÉTRIO da Macedônia – Plutarco – Vida Paralelas
XXXIX. Depois do infeliz êxito desta batalha, os príncipes e reis que haviam ganho tão bela vitória, como se tivessem partido um corpo volumoso em vários pedaços, repartiram entre si o império de Antígono, e cada qual teve sua parte nas províncias, regiões e países que haviam pertencido a ele, as quais eles anexaram aos que já possuíam antes. Demétrio, com cinco mil homens de infantaria e quatro mil de cavalaria, fugiu com a maior rapidez possível, chegou à cidade de Éfeso, onde todos julgavam que, precisando ele de muito dinheiro, não hesitaria em depredar o templo de Diana Efesina, apoderando-se da prata e do ouro que nele havia; mas, ao contrário, temendo que seus soldados o fizessem contra sua vontade, ele partiu imediatamente, navegando para a Grécia, depositando a maior e a melhor parte da sua esperança nos atenienses, pois havia deixado em Atenas sua mulher Deidamia, com alguns navios e uma soma de dinheiro, julgando que não poderia encontrar retiro mais seguro nem refúgio mais certo em sua desdita, do que na benevolência dos atenienses. Por isso, quando os embaixadores de Atenas vieram encontrá-lo, perto das ilhas Cidades, ele navegava a toda velocidade para a Ática; comunicaram-lhe eles então a nova inesperada, isto é, que desistisse ele de entrar na cidade, porque o povo tinha feito uma lei e um edito, de não permitir mais que nenhum rei entrasse na cidade, e que tinham mandado Deidamia, sua mulher, com acompanhamento honroso à cidade de Megara. Demétrio então encheu-se de imensa cólera; mostrou-se despeitado e perdeu completamente a calma, embora tivesse até então suportado pacientemente a sua infelicidade, não se mostrando, em momento nenhum, dominado pelo desânimo e pelo medo; era porém, aquele, um golpe muito rude, ver-se, contra sua esperança, abandonado pelos atenienses, que lhe faltavam no momento oportuno, constatando assim, na hora em que mais deles necessitava, que a amizade e a benevolência de antes eram falsas e vãs.
XL. Por isso, pode-se evidentemente conhecer, que o argumento mais incerto e enganador da amizade dos povos, das cidades e das aldeias, para tom os príncipes e reis, são as demonstrações excessivas de honras que lhes concedem e decretam. Pois, assim como a verdade e a certeza da honra dependem da afeição daqueles que a prestam, o temor que os povos e as comunidades têm ordinariamente do poder dos reis é bastante suficiente para se suspeitar que eles governem de boa vontade e de coração, visto que por temor eles decretam as mesmas coisas que decretariam por verdadeira e cordial amizade. Por isso os príncipes sábios e prudentes devem considerar, não somente as estátuas que para eles se erigem, ou para os quadros e honras divinas que se lhes decretam, como os atos e as ações e, segundo estes, aceitá-las e crer nelas, como verdadeiras honras, ou rejeitá-las e não crer, como feitas à força: pois é isto que faz que os povos tenham mui freqüentemente grande ódio dos reis, quando eles aceitam as honras que lhes são decretadas desmesurada e ultrajosamente, e, o mais das vezes, por aqueles que o fazem contra sua vontade.
XLI. Demétrio, portanto, vendo a ação má e indigna que lhe faziam os atenienses, não tendo, porém, no momento, os meios de se vingar, mandou-lhes somente participar a sua tristeza e o seu sentimento, com moderação, pedindo-lhes a restituição de seus navios, entre os quais estava aquela galera que tinha dezesseis ordens de remos, e logo que os teve, se pôs imediatamente ao mar, rumo ao estreito do Peloponeso, onde pôde ainda constatar que de fato as coisas lhe iam mal, pois, de todos os lados, aqueles que ele havia deixado como guardas das praças as haviam abandonado e voltavam as costas para ele e se lhe mostravam inimigos. Por isso deixou Pirro, seu lugar-tenente, na Grécia e navegou para o Quersoneso, onde, pelas depredações que fazia e pelos botins que arrebatava, nas terras de Lisímaco, ele sustentava seus homens e enriquecia de novo seu exército, o qual começou então a se tornar outra vez poderoso e temível aos seus inimigos. Quanto a Lisímaco, os outros reis com ele não se incomodavam nem pensavam em auxiliá-lo, porque ele não era mais eqüitativo do que Demétrio, tinha mais terras e mais poder que os outros, sendo-lhes ainda, suspeito e temível.
(39) Nicanor.
XLII. Pouco tempo depois Selêuco (39) mandou pedir em casamento a Estratonice, filha de Demétrio e de Filia, embora ele já tivesse um filho de nome Antíoco, de sua mulher Apama Persiana; mas julgava ele que seus negócios e a grandeza de leu estado e de seus domínios eram bem suficientes para vários sucessores: além disso, pensava em se aliar com ele, tendo disso necessidade, pois via que Lisímaco tomava uma das filhas de Ptolomeu para ele, e outra para seu filho Agátocles. Demé trio, vendo essa boa fortuna, que se lhe apresentava, contra sua esperança, sem delongas, levou a filha consigo, e se pôs ao mar com todos os seus navios, rumo à Síria, embora durante essa viagem tivesse sido obrigado a descer à terra várias vezes, mesmo na Cilícia, que Plistarco, irmão de Cassandro, tinha então sob seu domínio, a qual lhe fora entregue pelos outros reis como sua parte nas terras de Antígono, depois da sua derrota. Este Plistarco, pensando que Demétrio tinha descido ao seu território, não para um descanso, mas para saqueá-lo e depredá-lo, querendo ainda queixar-se de que (40) Selêuco fazia aliança com seu inimigo comum, sem o consentimento de todos os outros príncipes e reis confederados, foi ter com ele. Demétrio foi logo avisado e partiu imediatamente para a cidade de Cindes, levando cento e vinte talentos que ainda pôde encontrar no tesouro de seu pai (41) ; depois, com a maior diligência possível, voltou para embarcar em seu navio e se pôs ao largo. Logo depois sua mulher Filia veio procurá-lo, e assim Selêuco os recebeu perto da cidade de Orosso (42) onde eles tiveram uma entrevista real que foi bastante franca, sem fingimento, nem suspeita de parte a parte. Selêuco por primeiro o homenageou em seu campo, dentro de sua tenda, e depois, Demétrio, em sua galera de treze ordens de remos: passaram vários dias juntos em conversações amigáveis, mostrando um ao outro a mais cordial satisfação, sem estarem armados, e sem guardas, até que Selêuco, com sua mulher Estratonice, partiu, com grande triunfo e magnificência, para a cidade de Antio quia. Demétrio ocupou e conservou a província da Cilícia, mandou sua mulher Filia ao seu irmão Cassandro, para responder às queixas e acusações de Plistarco contra ele. Nesse ínterim, Deidamia, sua mulher, partiu da Grécia para vir ter com ele, e, depois de ter ali permanecido algum tempo, morreu de doença. Tendo caído de novo nas boas graças de Ptolomeu, por intermédio de Selêuco, êle casou-se com sua filha Ptoíomaida.
(40) Leia-se: de que Selêuco fazia aliança com seu inímlgfl comum, sem o consentimento dos outros reis, foi ter com Cassandro
(41) Setecentos e vinte mil escudos. — Amyot, 5.602.500 llbra| de nossa moeda.
(42) Rosso, segundo Celário
XLIII. Até aqui Selêuco procedera honesta e delicadamente para com êle: mas, depois, intimou-o a entregar a Cilícia recebendo em troca uma importância em dinheiro; o que Demétrio recusou muito hem; Selêuco então manifestou uma avareza violenta e tirânica: pediu-lhe, enraivecido, com ferozes ameaças, pelo menos as cidades de Tiro e Si don. pasto, parece-me, êle usava de um meio mau e desonesto, como se êle, que tinha sob seu domínio tudo o que está entre as índias e o mar da Sina, fosse ainda tão pobre e indigente que, por duas cidades, punha em dificuldades e cuidava de expulsar seu próprio genro e que tinha sofrido tão severa e dolorosa mudança de fortuna, dando um testemunho certo e seguro daquilo que nos ensina Platão: "Que aquele que quer ficar verdadeiramente rico deve cuidar não em aumentar e fazer crescer suas riquezas, mas antes, de diminuir sua ambição de possuir, porque aquele que não fixa um alvo, e não põe limites aos seus desejos nunca deixará de ser pobre e indigente". Demétrio, porém, não cedeu pelo temor, mas reforçou as cidades com guarnições para defendê-las e guardá-las contra ele, dizendo que, amda que ele tivesse sido vencido dez mil outras vezes em batalhas (43), jamais lhe haveria de entrar na mente a idéia de que ele se devia contentar, e reputar-se bem feliz de aceitar com tanto agrado a aliança de Selêuco.
XLIV. Por outro lado ele foi avisado de que um certo Laçares, aproveitando a ocasião de terem os atenienses se envolvido em uma sublevação civil, atirando-se uns contra os outros, os havia oprimido, alvorando-se em tirano e senhor da cidade; ele teve então esperança de facilmente poder retomá-la, se lá chegasse inopinadamente, surpreendendo-os; atravessou então o mar, com grande frota de navios, sem perigo algum: sobreveio, porém, uma grande tempestade na costa da Ática, onde ele perdeu boa parte de seus navios, e muitos dos seus homens também: ele, porém, salvou-se e então começou a fazer guerra aos atenienses, mas depois vendo que assim perdia seu tempo e que nada conseguia, inundou gente de confiança para novamente reunir navios e ele foi ao Peíoponeso, para sitiar a cidade de Messene, onde então correu um grave perigo; pois combatendo bem perto da muralha, ele foi ferido por um dardo que lhe passou pela boca e furou a face. Quando, ao depois, se curou da ferida, submeteu ao seu domínio algumas cidades que se haviam revoltado contra ele, e depois novamente voltou à Ática, onde tomou as cidades de Eleusina e Ramnus, cujo território percorreu e saqueou, tomou um navio carregado de trigo, mandando enforcar o indivíduo ao qual o trigo era destinado, e o piloto do navio, a fim de intimidar os outros negociantes, para que nao se atrevessem mais a semelhante ato, e a carestia tomasse conta de toda a cidade, e tivessem eles falta de todas as coisas indispensáveis à vida humana; o que de fato aconteceu, pois a medida de sal era vendida a quarenta dracmas de prata (44), e o alqueire de trigo a trezentos (45) . Nesta extrema penúria, os atenienses tiveram uma breve alegria, por causa de cento e cinqüenta galeias que divisaram perto de Egina, que Ptolomeu lhes mandava em auxílio; quando os sol dados que estavam dentro delas, porém, viram que também a Demétrio se juntavam muitas outras do Peíoponeso, de Chipre e de outros lugares, de modo que ele poderia facilmente reunir ao todo uns trezentos navios, ergueram as âncoras e fugiram.
(43) Veja as Observações.
(44) Quatro escudos. — Amyot, 31 1. 2 s. 6 d.
(45) Trinta escudos. — Amyot, 233 1. 8 s. 9 d.
XLV. O mesmo Lacares abandonou às ocultas a cidade e salvou-se. E então os atenienses, embora tivessem decretado pena de morte contra os que fizessem menção de tratar de paz ou de acordo com Demétrio, abriram-lhe incontinenti as portas, mais próximas do lugar onde estava localizado o seu campo, e mandaram-lhe embaixadores, não por terem esperança de alguma graça ou acordo, mas porque a extrema necessidade a isso os obrigava. Durante esse cerco tão apertado aconteceram vários casos estranhos e esquisitos; entre outros, vejamos este: um pai e um filho estavam em sua casa, completamente desanimados em poder levar adiante a própria vida; caiu diante deles, do teto da casa, um camundongo morto; disputaram então, pai e filho, quem o haveria de comer. Diz-se ainda que nesse mesmo cerco o filósofo Epicuro nutriu e sustentou a si mesmo e aos seus familiares, que aderiam à sua doutrina, distribuindo-lhes, contadas, cada dia, um certo número de favas, com o que eles viviam. Estando pois a cidade de Atenas reduzida a tal extremo, Demétrio lá entrou, e ordenou a todos os cidadãos presentes que se reunissem no teatro, onde os fez rodear de soldados armados; depois colocou outros soldados em volta do palco dos atores. Feito isso, ele mesmo desceu ao teatro, pelas amplas galerias e entradas, como costumam fazer os que representam nas tragédias; com isso amedrontaram-se os atenienses, mais do que antes; ele, porém, acalmou-lhes o medo, imediatamente, logo que começou a falar; pois não deu às suas palavras um tom de cólera ou de raiva, não usou de palavras acres e ásperas, mas somente depois de se ter queixado ama-velmente deles, e de lhes ter mostrado delicadamente suas faltas, disse-lhes que os perdoava e que queria de novo gozar das boas graças de todos, e mais ainda, fêz distribuir ao povo dez milhões de medidas de trigo e escolheu magistrados, que foram muito aceitos ao povo. Vendo então Democles, o Orador, que o povo soltava grandes exclamações de alegria em louvor de Demétrio, e que os oradores à porfia, se sucediam na tribuna para decretar-lhe todos os dias novas honras a quem sobrepujasse o seu companheiro, ele propôs um decreto, a saber, que se entregasse nas mãos do rei Demétrio o porto e o ancoradouro do Pireu e de Muníquia, para que ele agisse a seu bel-prazer. Isto lhe foi concedido por votos do povo, mas ele mesmo, com sua autoridade própria, colocou uma grande e poderosa guarnição dentro do forte chamado Museum, de medo de que o povo ainda se rebelasse contra ele e não lhe viesse causar novas ameaças e perigos.
XLVI. Depois de ter assim conquistado os atenienses, foi observar os lacedemônios: mas o seu rei Arquidamo, com uma poderosa esquadra, veio ao seu encontro, a qual ele desmantelou em com bate, e pôs em fuga perto da cidade de Mantinéia depois entrou de armas na mão na Lacônia, chegando até perto da cidade de Esparta, onde desbaratou outra vez os lacedemônios em severo combate, no qual fez quinhentos prisioneiros e matou duzentos; e a cada qual bem parecia que nesse passo, sem obstáculos, ele iria apoderar-se da cidade de Esparta, a qual até então jamais tinha sido tomada.
XLVII. Não houve jamais rei, em tempo algum, que tivesse sofrido tantas e tão rápidas mudanças e vicissitudes em sua vida, do que ele, nem que nos seus empreendimentos fosse, ao mesmo tempo, tão grande, tão pequeno, que caísse tão baixo e ao depois tanto se elevasse, que fosse tão fraco e logo em seguida tão poderoso e forte; e por isso diz-se que nas suas grandes adversidades, quando a sorte se voltava contra ele, ele costumava clamar, endereçando seus clamores à fortuna, com as palavras de Esquilo em um de seus versos:
Tu me quiseste primeiramente fazer
e agora me parece que tu me queres desfazer.
quando suas empresas estavam bem encaminhadas, para reconquistar novamente grande império e gran-[ de poder, vieram-lhe trazer notícias, primeiro, que Lisímaco havia tomado todas as cidades que ele linha na Ásia, e, por outro lado, que Ptolomeu lhe linha tirado o reino de Chipre, exceto somente acalmou-lhes o medo, imediatamente, logo que começou a falar; pois não deu às suas palavras um tom de cólera ou de raiva, não usou de palavras acres e ásperas, mas somente depois de se ter queixado amavelmente deles, e de lhes ter mostrado delicadamente suas faltas, disse-lhes que os perdoava e que queria de novo gozar das boas graças de todos, e mais ainda, fez distribuir ao povo dez milhões de medidas de trigo e escolheu magistrados, que foram muito aceitos ao povo. Vendo então Democles, o Orador, que o povo soltava grandes exclamações de alegria em louvor de Demétrio, e que os oradores à porfia, se sucediam na tribuna para decretar-lhe todos os dias novas honras a quem sobrepujasse o seu companheiro, ele propôs um decreto, a saber,, que se entregasse nas mãos do rei Demétrio o porto e o ancoradouro do Pneu e de Muníquia, para que ele agisse a seu bel-prazer. Isto lhe foi concedido por votos do povo, mas ele mesmo, com sua autoridade própria, colocou uma grande e poderosa guarnição dentro do forte chamado Museum, de medo de que o povo ainda se rebelasse contra ele e não lhe viesse causar novas ameaças e perigos.
XLVI. Depois de ter assim conquistado os atenienses, foi observar os lacedemônios: mas o seu rei Arquidamo, com uma poderosa esquadra, veio ao seu encontro, a qual ele desmantelou em combate, e pôs em fuga perto da cidade de Mantinéia; depois entrou de armas na mão na Lacônia, chegando até perto da cidade de Esparta, onde desbaratou outra vez os lacedemônios em severo combate, no qual fez quinhentos prisioneiros e matou duzentos; e a cada qual bem parecia que nesse passo, sem obstáculos, ele iria apoderar-se da cidade de Esparta, a qual até então jamais tinha sido tomada.
XLVII. Não houve jamais rei, em tempo algum, que tivesse sofrido tantas e tão rápidas mudanças e vicissitudes em sua vida, do que ele, nem que nos seus empreendimentos fosse, ao mesmo tempo, tão grande, tão pequeno, que caísse tao baixo e ao depois tanto se elevasse, que fosse tao fraco e logo em seguida tão poderoso e forte; e por isso diz-se que nas suas grandes adversidades, quando a sorte se voltava contra ele, ele costumava clamar, endereçando seus clamores à fortuna, com as palavras de Esquilo em um de seus versos:
Tu me quiseste primeiramente fazer
e agora me parece que tu me queres desfazer.
Quando suas empresas estavam bem encaminhadas, para reconquistar novamente grande império e grande poder, vieram-lhe trazer notícias, primeiro, que Lisímaco havia tomado todas as cidades que ele linha na Ásia, e, por outro lado, que Ptolomeu lhe linha tirado o reino de Chipre, exceto somente a cidade de Salamina, na qual ele ainda conservava sua mãe e seus filhos, que êíe tinha cercado de maneira rigorosa.
XLV111. Não obstante, a fortuna ainda lhe fazia, como a má mulher, de que fala Arquíloco a qual,
numa das mãos, trazia a água enganadora e, na outra, vingadora, o fogo ardente.
Com estas terríveis e espantosas notícias quase a fortuna lhe tirou das mãos a cidade de Esparta, justamente quando ele estava certo de apoderar-se dela, mas ela mesma lhe veio logo apresentar e oferecer esperanças de outros novos e grandes acontecimentos, assim: depois da morte de Cassandro, Felipe, que era o primogênito de todos os seus filhos, e seu sucessor no reino da Macedônia, não reinou muito tempo sobre os macedônios, mas morreu logo depois de seu pai, e os outros dois irmãos mostraram-se mui diferentes um do outro, chegando a combater-se reciprocamente; um, que se chamava Antípater, matou a própria mãe, Tessalônica, e o outro chamou em seu auxílio a Demétrio e Pino, um do reino do Épiro e o outro da região do Peloponeso. Pirro chegou primeiro, e ocupou uma grande parta da Macedônia, que conservou como recompensa pelo auxílio que a seu pedido lhe viera trazer, da modo que ele era já um vizinho temível a Alexan dre, que o havia chamado. Além disso, sendo avisado de que Demétrio se tinha posto a caminho, apenas recebera suas cartas, com todo o seu exército, para vir em seu socorro, o moço ficou ainda mais admirado e duplamente espantado pela dignidade e reputação muito grandes de Demétrio. Foi então ao seu encontro, no lugar a que chamam de Deion, onde o saudou e abraçou, com grandes demonstrações de amizade; mas, logo depois, disse que seus negócios estavam em tal estado que (graças aos deuses) não tinha mais necessidade da sua presença para auxiliá-lo.
XLIX. Depois destas palavras, começaram ambos a desconfiar um do outro. Aconteceu que, um dia, Demétrio ia à casa de Alexandre, onde se havia preparado um festim, e alguém lhe veio denunciar uma emboscada que lhe haviam preparado e dizer-lhe que tinham deliberado matá-lo, logo que ele se apresentasse, para divertir-se nessa recepção; Demétrio não se perturbou absolutamente com isso, mas somente diminuiu um pouco o passo e não caminhou mais com a mesma desenvoltura que antes; no entretanto, mandou dizer aos seus generais que conservassem os homens de prontidão e disse, aos companheiros que estavam com ele e aos oficiais de sua casa, que então estavam junto de si e que eram cm número muito maior que os de Alexandre, que entrassem todos com ele na sala, e lá ficassem até que ele se levantasse da mesa: por isso os homens de Alexandre, encarregados de atacá-lo, não o ousaram fazer, tanto medo sentiram, vendo-o bem acompanhado. Além disso Demétrio, fingindo que então não estava se sentindo bem, saiu imediatamente da sala e deliberou partir no dia seguinte, como se tivesse recebido notícias urgentes, sobro outros negócios importantes que o chamavam, e rogou a Alexandre que o desculpasse, por não poder mais fazer-lhe companhia, constrangido a partir como era, e a se afastar de sua corte, e que, de outra vez, ele viria com mais vagar, quando estivessem ambos mais folgados.
L. Alexandre muito prazer sentiu ao saber que Demétrio se ia contente e não desgostoso, da Macedônia: acompanhou-o até a Tessália e quando chegaram à cidade de Larissa, começaram novamente a se obsequiar um ao outro para se surpreenderem: isso fez com que Demétrio tivesse Alexandre em suas mãos, do modo que ele desejava; pois Alexandre, de própria vontade, não quis a guarda junto de si, de medo que Demétrio também quisesse conservar seus homens, e, por isso, aconteceu-lhe sofrer, por primeiro, o que tinha imaginado e preparado para o outro, pois havia deliberado não o deixai mais escapar, se o pudesse agarrar de novo. Tendo sido convidado a cear em casa de Demétrio, aceitou e foi; no meio da refeição Demétrio levantou se da mesa; Alexandre também se levantou muito assustado, por esse seu gesto, e seguiu-o até a porta; Demétrio então disse aos guardas que estavam ali:
"Matem aquele que me segue!" Saiu depois, e Alexandre, que lhe vinha atrás, foi morto ali mesmo, e, com ele, alguns de seus cortesãos que haviam corrido em seu auxílio; um destes, quando morria, disse que Demétrio não o havia precedido senão de um dia. Toda aquela noite passou-se em grande tumulto; no dia seguinte cedo, os macedônios as-sustaram-se e muito se espantaram, temendo o grande poder de Demétrio, mas quando viram que ninguém os veio atacar, e que ele mesmo ao contrário, mandou dizer-lhes que lhes queria falar e dar-lhes satisfação pelo que tinha feito, começaram então a se tranqüilizar e lhe deram audiência de muito boa vontade.
LI. Não lhe foi necessário usar de muitas palavras, nem fazer longos discursos para ganhá-los e atraí-los a si; pois odiavam eles Antípater, como parricida e assassino de sua mãe, e não tendo outro melhor, escolheram facilmente a Demétrio, rei dos macedônios: e assim o reconduziram à Macedônia para que ele tomasse posse do seu reino. Esta mudança não foi desagradável aos outros macedônios, que ainda estavam no país, e em suas casas (46), pela recordação que ainda conservavam do mau e desleal proceder de Cassandro para com Alexandre, o Grande, pela qual razão, eles odiavam a toda a sua posteridade; e se havia ainda algum resto da recordação da bondade e doçura de seu avô Antípater, Demétrio recebia-lhe os frutos, tendo por esposa a Filia, da qual tinha um filho, que lhe devia suceder no reino e estava já na adolescência, no campo com seu pai. Gozava então ele de grande prosperidade e tudo lhe corria bem, quando soube que Ptolomeu não somente tinha levantado o cerco de diante da cidade onde ele conservava sua mãe e seus filhos mas lhe tinha ainda prestado grandes homenagens e dado ricos presentes . Por outro lado soube que sua filha Estratonico, que antes fora esposa de Selêuco, tinha-se casado com Antíoco, filho de Selêuco, e tinha sido coroada rainha das nações bárbaras que habitam nas altas províncias da Ásia, o que acontecera assim:
(46) Leia-se assim: "que tinham horror à memória de Cas-sandro, por causa da maneira indigna, como procedera para com Alexandre, depois de sua morte" Cassandro, com efeito, tinha entregue Olímpia, a mãe de Alexandre, ao furor dos soldados e tinha feito perecer com veneno os, dois filhos de Alexandra. Veja Pausânías. Beócia, c. VII.
LII. O jovem príncipe Antíoco, pois o amor às vezes surpreende os homens, enamorou-se de sua madrasta Estratonice, que já tivera um filho de Selêuco: mas sendo jovem e singularmente bela, êle ficou de tal modo preso e apaixonado, que embora êle tivesse feito tudo para dominar essa paixão, todavia cada vez sentia-se mais fraco, de tal modo que espontaneamente êle se condenava à morte porque percebia que seu desejo era censurável, sua paixão, incurável, e sua razão, vencida de todos os lados; resolveu então abandonar a vida e pouco a pouco deixar que ela se esvaísse, abstendo-se de comer e de beber e não cuidando em procurar remédio ao seu mal, fingindo ter alguma doença interior e secreta. Não soube, porém, ele fingir à perfeição e Erasístrato, que era médico, percebeu bem facilmente que seu mal era proveniente de amor; mas era difícil conjeturar-se de quem estava ele apaixonado. Querendo descobri-lo, ele ficava o dia todo no quarto do jovem príncipe e quando ali entrava algum belo rapaz ou moça, ele olhava atentamente para o rosto do jovem Antíoco, e observava cuidadosamente todas as partes do seu corpo e seus movimentos exteriores, que costumam corresponder às paixões e afetos secretos da alma. Várias vezes pôde então notar que quando outros vinham vê-lo, fosse quem fosse, ele permanecia impassível; mas, quando Estratonice ali chegava, ou sozinha, ou em companhia de seu marido Selêu co, percebia ordinariamente nele os sinais que Safo dá dos apaixonados, isto é, faltavam-lhe a voz e as palavras, o rosto tornava-se vermelho e inflamado, lançava olhares ardentes, com a fronte banhada de suor, e palpitações fortes nos pulsos; e quando as energias da alma estavam esgotadas, ele ficava como em êxtase, fora de si, empalidecendo.
LIII. Erasístrato então, por estes sinais e demonstrações tão claras e tão eloqüentes, concluiu que não podia ser outra senão Estratonice, aquela de quem o jovem príncipe se apaixonara, o que ele se esforçava por ocultar até à morte; pensou, porém que era coisa vergonhosa declará-lo ao rei; no entretanto, confiando no grande amor que Selêuco tinha pelo filho, um dia, tomou ânimo para fazer-lhe essa difícil confidencia, isto é, que a doença de seu filho outra coisa não era, senão amor; mas, era um amor diferente, um amor impossível, e por isso era necessário que ele morresse, pois o mal era incurável. Selêuco ficou fora de si pela tristeza, ante esta notícia e perguntou-lhe: "Como e por que me dizes que é incurável?" — "Porque, majestade, respondeu o médico, ele está apaixonado por minha mulher". E então, Selêuco: — "Eu sempre te tive, disse êle, no número dos meus melhores amigos, e agora queres negar-me esse favor, de dar tua mulher como esposa a meu filho, pois bem sabes que é o único que eu tenho, e que êle virá fatalmente a morrer se não o salvares?" — "Vossa majestade não faria o mesmo se fosse de Estratonice que êle estivesse apaixonado", disse Erasístrato. — "Prouvesse aos deuses, respondeu incontinenti Selêuco, que os mesmos deuses ou os homens dirigissem o seu amor para tal lado, pois, quanto a mim, eu lhe daria, não somente o meu afeto, mas entregaria de boamente o meu reino para salvar-lhe a vida". Vendo então Erasístrato que o rei dizia estas palavras com grande sentimento do coração e com lágrimas nos olhos, tomou-lhe a mão direita e disse-lhe francamente: "Não terá vossa majestade que fazer senão isso mesmo, para ajudar a Erasístrato, pois sendo pai, marido e rei, poderá ainda ser o médico da enfermidade de seu filho". Ouvindo isto, Selêuco mandou reunir o povo e diante de todos declarou que ele tinha deliberado coroar seu filho Antíoco rei das altas províncias da Ásia e Estratonice, rainha, paia que se casassem e que ele estava persuadido de que seu filho, que sempre se havia mostrado obediente e submisso à vontade de seu pai, não o contradiria quanto a esse casamento; e quanto a Estratomce, se estivesse descontente com essas núpcias ou se tivesse dificuldade em consentir, pois não era coisa muito comum, ele queria que seus amigos lha fizessem saber, que ela devia considerar bom e honesto tudo aquilo que agradava ao rei, e que era pelo bem do reino universal e utilidade das coisas públicas. Eis como se realizou o casamento de Antíoco com Estratonice.
LIV. Voltando à história de Demétrio, ele recebeu o remo da Macedônia e da Tessália, do modo como dissemos há pouco; e ainda conservava a melhor parte do Peloponeso, e, aquém do estreito, as cidades de Megara e de Atenas; levou ainda ieu exército contra os beócios, os quais no princípio quiseram fazer um acordo e tratar da paz, com ele; mas depois que Cleônimo Espartano, com seu exército, entrou na cidade de Tebas, o.s beócios, anima" dos e encorajados pelas belas palavras de incitamento de Pisis, natural da cidade de Tespis, que então era o maior homem deles, em prestígio e em autoridade, eles renunciaram ao que tinham começado a tratar e deliberaram aceitar a guerra. Por isso Demétrio foi sitiar a cidade de Tebas e mandou aproximar suas máquinas de guerra, de modo que Cleônimo, de medo, saiu ocultamente da cidade: por esse motivo os tebanos, assustados, entregaram-se a Demétrio, o qual, depois de ter colocado grandes reforços nas cidades e ter levado uma boa soma de dinheiro, deixou-lhes como governador seu lugar-tenente, o historiador Jerônimo; parece que êle os tratou com muita generosidade e bondade, perdoando mesmo a Pisis; tendo-o feito prisioneiro não lhe causou maus tratos, mas o recebeu com gentileza, mostrando-lhe simpatia, dando-lhe depois o magistrado de Polemarca, isto é, mestre da guerra, que tem a superintendência com relação às armas, na cidade de Tespis. Pouco tempo depois que isto se havia passado, o rei Lisímaco foi aprisionado por um outro rei bárbaro, de nome Dromicates. Por isso Demétrio, não querendo perder tão boa oportunidade de cuidar dos seus interesses, decidiu-se a invadir a Trácia, julgando não encontrar quem lhe impedisse o caminho, para apoderar-se de tudo e reduzi-la ao seu domínio.
LV. Mas, apenas êle partiu, os beócios revoltaram-se uma segunda vez, e êle soube que Lisímaco se havia libertado da prisão; voltou então fortemente irritado contra os beócios, que já haviam sido vencidos por seu filho Antígono e então novamente partiu para sitiar Tebas, capital de toda a província. Nesse ínterim, porém, Pirro veio assaltar e saquear toda a Tessália, e chegou até o desfiladeiro das Termópilas: Demétrio foi obrigado a. deixar ao seu filho a continuação do cerco de Tebas, enquanto ele foi contra Pirro, o qual se retirou imediatamente para o seu reino. Assim Demétrio deixou dez mil soldados de infantaria e mil de cavalaria na Tessália, para defesa da região e voltou com o resto do seu exército para atacar Tebas. Fez aproximar-se das muralhas a sua máquina de guerra, que se chamava Elepolis, como já dissemos, que se movia devagarzinho com grande dificuldade, por causa do seu peso e do seu tamanho, de medo que com grande esforço a podiam fazer caminhar um meio quarto de légua (47) em dois meses. Mas os beócios e os tebanos defendiam-se valentemente; e Demétrio, por uma obstinação e ambição de vingança, mais do que por proveito, que lhe pudesse advir, obrigava a miúdo seus soldados a dar o assalto e a se expor ao perigo, de modo que todos os dias muitos deles morriam em grande número. Vendo isso, seu filho Antígono disse-lhe: "Por que fazemos morrer nossos soldados, Bem nenhuma necessidade, nem vantagem?" Demétrio, irritado, respondeu-lhe: "Por que te importas? Deves (48) a distribuição de trigo aos que morrem?" Mas, para que não se pensasse que ele queria somente expor os outros ao perigo, e ele nao se atrevesse a enfrentá-lo, ia também aos combates, tanto que, certa vez, teve o pescoço atravessado por um dardo muito agudo, que lhe foi atirado do alto da muralha, e com isso passou grave perigo; não levantou, porém, o cerco, nem mudou o seu campo, mas tomou outra vez a cidade de Tebas, ao assalto, a qual, repovoada e restaurada, foi tomada duas vezes no espaço de dez anos. Tomaram-se os te-banos de grande medo, pelas furiosas ameaças que ele fez ao entrar na cidade; de modo que eles esperavam toda a sorte de penas e sofrimentos, que podem ser infligidos aos vencidos pelos vencedores, justamente’ indignados. Todavia, depois de ter feito morrer somente treze e expulsado outros, ele perdoou aos demais. Nesse tempo veio à estação em que se celebravam os jogos e a festa chamada de Pítia, em honra de Apoio; tendo os etólios ocupado todas as estradas e passagens, pelas quais era necessário passar para se ir a Delfos, onde os velhos estavam habituados a celebrar os mencionados jogos e festas, ele mandou que estas se fizessem em Atenas, como o lugar mais apropriado, onde se deveria honrar e reverenciar o deus, pois era o patrono da cidade, e os atenienses o consideravam seu progenitor.
(47) Dois estádios.
(48) O trigo era distribuído como soldo, nos guerreiros, todos os meses. — Amyot.
LVI. De lá ele voltou à Macedônia, e sabendo que não era seu natural viver na ociosidade e no descanso, vendo outrossim que os macedônios lhe eram mais serviçais e submissos em tempo de guerra, e que em tempo de paz se tornavam mais sediciosos, cheios de curiosidade, de murmurações e de litígios, ele foi fazer a guerra aos etólios, e depois de ter saqueado e pilhado toda a região, ele deixou uma boa parte do seu exército sob o comando de Pantauco, que nomeou seu lugar-tenente; e depois com o resto de seus homens marchou contra Pino, e Pirro também marchou contra ele, mas não se encontraram um com o outro; Demétrio continuou e chegou até o reino do Épiro, que devastou e saqueou; Pino, por sua vez, caminhou para frente; encontrou Pantauco, ao qual atacou imediatamente, chegando a combater corpo-a-corpo com ele, causando-lhe ferimentos e também foi ferido por ele; mas finalmente Pirro venceu, e pôs Pantauco em fuga, matando muitos soldados, fazendo também cinco mil prisioneiros, causando assim grande prejuízo a Demétrio.
LVII Pirro, porém, não incorreu na ira dos macedônios pelo mal e prejuízo que lhes causou, mas, ao contrário, granjeou entre eles grande fama de valente, por ter feito com suas forças, unicamente, a maior parte dos grandes feitos de armas, que tiveram lugar naquele dia, e por isso, de então, ele foi muito estimado e respeitado pelos macedônios. Alguém mesmo ousava dizer que somente ele era o único rei dentre todos os outros, no qual se podia divisar a imagem, a valentia e a coragem de Alexandre, o Grande, reproduzidas ao vivo e que todos os outros, mesmo Demétrio, não faziam senão imitar sua gravidade, magnificência e majestade real, como os artistas que num palco querem copiar e imitar a alguém. E assim, para se dizer a verdade, havia mesmo muito de tragédia e de pompa em redor de Demétrio: pois não somente ele tinha sempre a cabeça coberta com um chapéu de bordas largas e duplos cordões, e vestia-se de púrpura com bordados de ouro; usava ainda calçados feitos de uma lã também tingida de púrpura, não tecida, mas cortada à maneira de feltro e dourada por cima. Mandou fazer, e usou durante muito tempo, um manto de um trabalho esplendidamente soberbo e arrogante: pois sobre ele estava pintado o mundo dos astros e dos círculos do céu, que ficou imperfeito pela mudança e pelas vicissitudes de sua fortuna; não houve, porém, rei algum da Macedônia, ao depois, que se atrevesse a usá-lo; embora tivesse havido depois dele vários outros, muito arrogantes e presunçosos.
LVIII. Estavam muito desgostosos e aborrecidos os macedônios, não somente por verem coisas, às quais não estavam acostumados, mas também, estavam ofendidos por seu modo de viver e pelos prazeres que a si mesmo proporcionava; ainda, porque era muito difícil de ser ele entrevistado e com muita demora podia-se falar com ele. Não dava audiência, ou se a dava, era grosseiro ê rude, recriminando altivamente aos que tinham que tratar com ele; chegou a reter por dois anos os embaixadores de Atenas, sem falar com eles, aos quais no entretanto, ao que parece, ele estimava mais do que a outro qualquer povo ou cidade da Grécia: irritou-se porque os lacedemônios lhe tinham mandado apenas um homem, como embaixada, pensando que o haviam feito por desprezo. Respondeu-lhe o embaixador, muito graciosamente e à Lacedemônia, quando Demétrio lhe disse: "Como é que os lacedemônios me mandam somente um homem numa embaixada?" — "Não, ele respondeu, majestade, a um". Ele apareceu algumas vezes em público um pouco mais particular e popularmente vestido que de costume: e deu esperança de um acesso mais fácil, e de que benignamente ouviria as queixas de cada qual. Muitos correram a ele, e apresentaram-lhe humildemente suas queixas por escrito. Êle as recebeu todas, colocando-as na dobra do seu manto; os pobres suplicantes ficaram bem alegres, e o seguiam passo a passo, certos de que seriam prontamente atendidos. Mas, quando êle chegou sobre a ponte do rio Axis, êle desdobrou seu manto e as lançou todas ao rio. Isso entristeceu grandemente o coração dos macedônios, que então constataram que não eram governados por um rei, mas ultrajados por um tirano; e o que mais ainda os amargurava era a recordação de que eles mesmos tinham visto ou tinham ouvido seus antepassados dizer que o rei Felipe era doce e benigno em tais circunstâncias; pois um dia, passando pela rua, uma pobre mulher puxou-o pelo manto pedindo-lhe insistentemente, que a escutasse: ele respondeu que naquele momento não o podia fazer, e então a mulher começou a clamar, em altas vozes: "Não queiras então ser rei í" Estas palavras tocaram-lhe vivamente o coração e ele refletiu, deliberando voltar imediatamente ao seu palácio e deixando de lado todas as outras ocupações, se pôs a escutar as queixas e os pedidos de todos os que o procuravam, a começar por aquela pobre velhinha .
LIX. Certamente, nada há que esteja tão bem num príncipe, como fazer e administrar a justiça; Marte, que significa a força, é um tirano, como diz Timóteo: "mas a justiça e a lei, segundo o que diz Píndaro, é a rainha de todo o mundo"; e diz ainda o sábio poeta Homero (49), "que os príncipes e os reis não receberam de Júpiter, em depósito e em custódia, máquinas de artilharia para destruir e arrasar cidades, nem navios fortes e poderosos, mas leis santas e o direito"; e por isso chama ele de discípulo e familiar de Júpiter, não o mais sanguinário dos reis, ou o mais violento, ou o mais conquistador; mas o mais reto e o mais justo (50) . E Demétrio regozijava-se de ter um título e de ser chamado por um apelido, totalmente contrário ao de Júpiter: que é chamado de Polieus ou Polieuco, o que significa protetor e conservador das cidades, e ele era chamado Poliorcetes, isto é, tomador e vencedor de cidades; e assim o mal era tomado pelo bem, e o vício posto no lugar da virtude por uma força que não sabia distinguir o bem do mal e que mudava a sua injustiça em glória e sua iniqüidade em honra.
(49) Ilíada, 1. I, v. 238.
(50) A saber. Minos. Odisséia. 1. XIX, pág. 179.
LX. Voltando, porém, ao ponto de partida, Demétrio adoeceu gravemente na cidade de Pella, durante a doença perdeu quase toda a Macedônia, por um ataque repentino levado a efeito por Pino, que. a percorreu toda e chegou até à cidade de Edessa: mas logo que começou a melhorar, facilmente o afastou, e depois teve com ele alguns acordos, pois, unindo-se a ele, visto que o teria continuamente à sua porta e divertindo-se em combatê-lo, em escaramuças cá e lá, nao queria tornar-se menos poderoso e forte para executar o que pretendia. Não premeditava ele pouca coisa, mas pensava em recuperar todas as terras e possessões que seu pai tivera também; e os preparativos que fazia não eram menores nem menos suficientes ao desígnio de sua empresa: pois já tinha organizado e preparado um exército de cem mil homens de infantaria e eram suficientes apenas dois mil, e, além desses, não menos de doze mil cavaleiros, mandando preparar também mais ou menos quinhentos navios, que eram construídos, parte no porto do Pneu, parte em Corinto, parte na cidade de Caleis, e parte nos arredores de Pella. Êle mesmo percorria os estaleiros, mostrando aos operários como era necessário fazer, ajudando-os e conversando familiarmente com eles, de modo que todos se admiravam, não somente da grandeza e da magnificência das suas obras, mas também do seu número: pois ninguém até então havia visto galera, nem de quinze, nem de dezesseis ordens de remos: é verdade que mais tarde Ptolomeu, cognominado Filopater, construiu uma de quarenta ordens de remos, que tinha o comprimento de duzentos e oitenta cevados e a altura desde a quilha até ao alto da popa, de quarenta e oito, e eram precisos nada menos de quatrocentos marinheiros para guarnecê-la e quatro mil forçados para fazê-la navegar e, além disso, ainda podia ela conter, sobre a sua ponte de bordo, uns três mil combatentes; mas esta galera não servia senão de amostra, e era quase semelhante aos edifícios firmes e imóveis, e jamais foi movida do lugar, onde fora construída, senão com grande dificuldade e não menor perigo, mais para causar admiração ao mundo, do que por serviço ou utilidade que dela se pudesse obter; mas a beleza dos navios de Demé trio não impedia que eles fossem bons e velozes para combater, nem a grandeza da estrutura lhes tirava o uso, mas sua ligeireza e agilidade eram ainda mais dignas de serem observadas, que não a magnificência e a suntuosidade.
LXI. Assim, pois, com este grande poder, qual nenhum outro rei antes desde Alexandre pudera conseguir, preparava-se ele para invadir a Ásia: Ptolomeu, Selêuco e Lisímaco aliaram-se então contra ele, primeiramente, e depois, enviaram em nome de todos, seus embaixadores a Pirro, para atraí-lo e chamá-lo à aliança, incitando-o a vir à Macedônia, mostrando-lhe que não devia confiar no tratado que Demétrio tinha feito com ele, como uma paz segura e duradoura, pois não lhe davam garantia de que Demétrio no futuro não lhe faria guerra, mas aguardava ele apenas a oportunidade para fazê-la contra quem melhor lhe parecesse. Pirro, considerando estas coisas e achando-as verdadeiras, consentiu no acorda, e a guerra surgiu áspera e forte de todos os lados contra Demétrio, que adiava o seu começo e esperava ainda: ao mesmo tempo, Ptolomeu com uma grande armada veio à Grécia, e fê-la toda revoltar-se contra êle; Lisíma co do lado da Trácia, e Pirro do lado do Epiro, limítrofe com a Macedônia, penetraram nos territórios e os saqueavam totalmente. Demétrio deixou seu filho Antígono na Grécia e voltou apressadamente à Macedônia, para ir primeiramente contra Lisímaco: quando, porém, se preparava para isso, vieram dizer-lhe que Pino já havia tomado a cidade de Berrea. Difundindo-se estas notícias entre os macedônios, os empreendimentos de Demétrio se desorganizaram completamente; todo o campo se encheu de gritos de desespero e de lamentações, seus homens começaram a mostrar abertamente sua ira contra ele, dizendo toda sorte de impropérios e acusações, e não queriam mais permanecer ali, mas pediam licença para se retirar, sob o pretexto de querer ordenar os seus próprios negócios em suas casas, mas, na verdade, para se ir entregar a Lisímaco.
LXII. Por isso Demétrio julgou que seria conveniente afastar-se dele o mais possível, e voltar suas forças contra Pirro, pois ele era do seu país e familiarmente conhecido da maior parte deles, por ter estado com Alexandre, o Grande, e a seu juízo, os macedônios não preferiam Pirro, que era estrangeiro, a ele; mas, nisso ele se enganou; pois apenas colocou seu campo perto dele, os macedônios, que sempre tinham tido veneração e singular admiração pela sua virtude e coragem, e que desde toda a antigüidade costumavam julgar mais digno de ser rei, aquele que era mais hábil nas armas e mais valente na guerra, e que ainda pretendiam contar como ele tinha tratado com benevolência, os prisioneiros: acrescente-se que há muito tempo eles tinham vontade de deixar Demétrio, e para isso buscavam os meios de entregar-se a Pirro ou a qualquer outro; então, começaram a se afastar e secretamente fugiam uns após outros, em pequenos grupos, no começo; mas, depois rebentou no campo uma revolta e uma sedição geral, contra ele, de modo que por fim foram à sua tenda dizer-lhe que se retirasse, que se salvasse, porque os macedônios estavam já cansados de ter as armas na mão para combater para seu prazer: Demétrio ainda julgou estas palavras as mais modestas e as mais doces, em comparação às ultrajosas e ásperas que outros lhe haviam dito.
LXIII. Retirou-se à sua tenda, envolveu-se num manto negro, em lugar das vestes luxuosas e soberbas que costumava usar, como faria, não um rei, mas um ator de tragédia, depois de terminado o espetáculo; e depois ausentou-se secretamente: tendo-se espalhado esta notícia, por todo o campo, muitos soldados correram incontinenti à sua tenda, para saqueá-la, e cada qual, querendo arrebatar o mais possível, acabaram por destruí-la totalmente, chegando a desembainhar as espadas para lutar: mas Pirro, que chegara, acalmou os exaltados, e logo no início, sem derramamento de sangue, conquistou todo o campo de Demétrio; depois dividiu pela metade todo o remo da Macedônia com Lisímaco, no qual Demétrio havia reinado em paz durante sete anos. Assim, miseravelmente privado de seus bens e de seu reino, fugiu Demétrio para a cidade de Cassandra, onde estava sua mulher Filia, que, ferida pela dor, não pôde suportar a humilhação de vê-lo como um homem privado, derrubado e expulso do seu trono, e o mais miserável de todos os reis, que antes haviam existido. Não tendo então mais nenhuma esperança, e detestando a sorte de seu marido, muito mais firme nas adversidades do que na prosperidade, ela matou-se tomando veneno; Demétrio retirou-se à Grécia, com intenção de reunir ainda o pouco que lhe restava do seu naufrágio, e lá convocou todos os seus generais e os amigos que ainda tinha.
LXIV. Parece-me esta a comparação que Menelau faz da sua fortuna em uma das tragédias de Sófocles, nestes versos:
Incessantemente meu destino gira
como uma roda, jamais permanece
no mesmo estado, como a lua,
que nunca fica duas noites na mesma forma,
mas, depois de se ter ocultado,
aparece um pouco, na noite iluminada,
primeiro em seu novo crescente,
que pouco a pouco vai aumentando
e depois se enche completamente de fecunda
luminosidade, em sua bela face redonda:
depois, novamente vai diminuindo
e volta ao seu primeiro nada.
Esta comparação, digo, se poderia muito melhor e mais a propósito aplicar-se às aventuras de Demétrio, aos seus progressos e retrocessos, ao apogeu e à ruína de suas empresas, pois quando parecia a todos que seu poder e sua força estavam completamente esgotados e aniquilados, novamente elas surgiam e se reorganizavam, muitos soldados pouco a pouco iam-se novamente reunindo em torno dele, reanimando-lhe as esperanças. Foi esta a primeira vez que o viram andar vestido simplesmente, como um homem do povo, por toda a região, sem insígnias, nem distintivos de rei; alguém, vendo-o neste estado, em Tebas, aplicou-lhe sarcàsticamente alguns versos de Eurípides, assim:
Tendo (51) mudado sua figura imortal e sua fortuna em natureza mortal, ele veio ao rio de Dirceu e passou ao longo do Ismeneu.
(51) Bacantes, v. 4.
LXV. Quando, porém, ele outra vez sentiu a esperança, como, por assim dizer, no grande caminho dos reis, e quando novamente começou a reunir em torno de si alguns homens, que formaram um como corpo e lhe deram algo de aparência real e de poder soberano, ele deu liberdade e seu governo aos tebanos: mas os atenienses abandonaram-no uma segunda vez (52), e reclamaram a dignidade e o sacerdócio de Difilo, que naquele ano tinha sido criado sacerdote dos salvadores, em lugar de prefeito, que antigamente era chamado Epôni mo, como já dissemos antes, e ordenaram que desde então, em diante, os antigos magistrados e ordinários seriam escolhidos e eleitos como antigamente; e os mandaram a Macedônia, a Pino, mais para causar medo e temor a Demétrio, que eles viam novamente readquirir seu antigo poder e autoridade, do que pela esperança de vê-lo vir em seu auxílio. Mas Demétrio foi atacá-los com grande fúria, e cercou fortemente a cidade; então os atenienses mandaram a ele o filósofo Crates, homem de grande reputação e de autoridade, que tanto fez junto dele, rogando-o e advertindo-o seriamente, que ele levantou incontinenti o cerco. Tendo depois reunido muitos navios, e embarcando doze mil homens de infantaria e alguns de cavalaria, ele se pôs ao mar e navegou para a Ásia, com intenção de tirar a Lisímaco as províncias da Caria e da Lídia e fazê-las voltar-se contra êle: e lá, Eurídice, irmã de sua mulher Filia, recebeu-o perto da cidade de Milet, tendo consigo uma das filhas de Ptolomeu e dela, chamada Ptolemaida, a qual antes lhe havia sido nada como noiva, por meio de Selêuco: e assim ele a esposou com o desejo e o consentimento de sua mãe Eurídice. E logo após as núpcias ele se pôs ao campo e prosseguiu, para alcançar as cidades, algumas das quais o receberam de boamente, e outras foram tomadas à força: dentre as quais tomou Sardes, e aí generais de Lisímaco foram entregar-se a êle levando-lhe alguns soldados e uma boa soma de dinheiro.
(52) Leia-se: se apagaram da lista dos Epônimos o nome de Difilo que tinha sido inscrito como sacerdote dos deuses salva dores, e ordenaram, por um decreto que se escolheriam os arconti como no passado". Veja o Cap. XIII.
LXVI. Tendo, porém, sido avisado de que Agátocles, filho de Lisímaco, seguia as suas pegadas com um poderoso exército, passou para a Frí-gia; pois imaginava que se conseguisse alcançar a Armênia, facilmente êle poderia levantar e rebelar leda a Média e tentaria conquistar as outras altas províncias da Ásia, onde poderia ter vários refúgios, se por acaso fosse depois perseguido. Mas Agáto-cles perseguia-o bem de perto, e no entretanto, todas as vezes que eles travavam escaramuças, Demétrio sempre levava a melhor; mas Agátocles cortava-lhes os víveres de todos os lados, e o apertava fortemente, tanto que seus homens não ousavam, se afastar do campo para procurar forragem, e por isso sofriam grande penúria de víveres; começaram então seus homens a duvidar e suspeitar de que êle os queria conservar perto dele, e levá-los à Armênia e à Média. A fome crescia todos os dias, cada vez mais, no seu exército, e aconteceu que por ter perdido-o caminho e não ter bem experimentado o vau ao atravessar o rio de Lico, a força e a impetuosidade das águas carregaram muitos de seus homens que morreram afogados; no entretanto, apesar de tantos desastres, eles ainda se alegravam cem ele, pois alguém escrevera até, à entrada da sua tenda, o primeiro verso da tragédia de Edipo, o Colônio, escrita por Sófocles, trocando apenas algumas palavras:
Ó filho do velho cego Antígono, ende estamos e a que lugar viemos?
Por fim. a peste começou a se misturar com a fome, como sói acontecer, porque os homens, levados pela necessidade cernem tudo o que encontram e lhe foi necessário deixar para trás o que restava dos soldados, pois ele tinha perdido mais ou menos oito mil homens ao todo, bons e maus.
LXVII. Quando chegou à província de Tarso ordenou que não se tocasse em nada, porque ela estava então sob a dominação de Selêuco, ao qual ele não queria absolutamente prejudicar: mas, quando viu que isso era impossível, pois seus homens estavam reduzidos à extrema necessidade, e Agátocles tinha feito murar e fechar as passagens do monte Tauro, ele escreveu uma carta a Selêuco, que continha, antes, uma longa lamentação e queixa amarga sobre a sua sorte, e depois de humildes súplicas e orações, pedia que tivesse piedade de seu aliado, que tinha caído em tão difícil e miserável infortúnio, tão grande que poderia mover à compaixão os seus maiores inimigos. As suas palavras comoveram um pouco o coração de Selêuco, de modo que ele escreveu aos prepostos e governadores que ele tinha naqueles lugares, que fornecessem para a sua pessoa, tudo o que era necessário para o palácio de um rei, e víveres à vontade aos seus soldados. Todavia, um certo indivíduo de nome Pa-trocles, que tinha a reputação de ser um homem de muito entendimento, e leal amigo de Selêuco, veio fazer-lhe ver, que dar de comer aos soldados de Demétrio, não era a maior falta que ele cometia, e da qual ele devia fazer mais conta, mas que não era, ao invés, muito prudente, com relação aos seus empreendimentos, deixar que Demétrio permanecesse em suas terras, pois desde todos os tempos, êle tinha sido assaz violento e mais ousado em acometer grandes empresas, do que nenhum outro príncipe, e agora estava reduzido a tal extremo e a tal desespero, o qual faz os mais tímidos e medrosos temerários em empreender e violentos em executar todas as tentativas ousadas contra o seu natural.
LXVIII. Selêuco, considerando estes motivos, se pôs imediatamente a caminho da Cilícia Com um grande exército; Demétrio assustado com tal mudança, e temendo seu grande poder retirou-se aos lugares mais fortes e mais ásperos do monte Tauro: depois mandou a Selêuco, embaixadores, pedindo-lhe permissão para subjugar e conquistar algumas regiões dos bárbaros nas imediações, que ainda não tinham reis, e viviam com suas leis, a fim de que lá pudesse passar tranqüilo os seus últimos dias e por fim ao seu exílio, detendo-se em algum lugar que lhe fosse determinado; ou então, se isso não fosse do seu agrado, que ele lhe quisesse sustentar o exército somente no inverno, no lugar onde ele estava, e que não tivesse o coração tão duro para expulsá-lo desprovido de tudo e de todas as coisas mais necessárias, para expô-lo aos seus mais cruéis e ferozes inimigos. Mas Selêuco suspeitando de tudo o que ele lhe pedia, mandou-lhe, ao invés, dizer que passasse somente ali dois meses de inverno, e não mais, na região da Catonia, dando-lhe como refém seus melhores amigos; no entretanto fazia impedir todas as passagens e caminhos por onde se pudesse passar à Síria.
LXIX. Por isso Demétrio, vendo-se cercado e rodeado de todos os lados como um animal que se quer prender numa teia, por necessidade, recorreu à forca; vasculhou toda a região, nos arredores; e todas as vezes que tratava escaramuças com Selêuco sempre levava a melhor; mesmo quando várias vezes lançaram contra ele carros armados de foices, ele passou por cima e os pôs em fuga; depois desalojou os que guardavam os cumes das montanhas, e fechavam as passagens para impedir que ele passasse à Síria e as ocupou em seguida. Em suma, vendo seus homens animados e decididos, criou ânimo também, a ponto de se preparar e deliberar dar combate ao mesmo Selêuco, e de arriscar-se de qualquer modo, e assim o próprio Selêuco não sabia o que devia fazer; pois êle tinha feito voltar o auxílio que Lisímaco lhe havia mandado, porque o temia e não confiava nele; e por outra parte, êle duvidava em combater sozinho contra Demétrio, temendo enfrentar um homem desesperado; duvidando também da instabilidade da sua fortuna, a qual, muitas vezes, de extrema necessidade o havia elevado a grande prosperidade. Mas, nesse ínterim, Demétrio adoeceu gravemente, ficando extremamente fraco e débil, perdendo por completo as forças do corpo, e com isso arruinou todas as suas empresas; de seus soldados, alguns foram se entregar aos inimigos, outros debandaram e espalharam-se cá e lá sem licença. Quando mais tarde a custo recobrou a saúde, refazendo~se durante quarenta dias, com apenas poucos soldados que lhe permaneceram fiéis, êle apareceu fazendo menção aos seus inimigos de partir para a Cilícia; depois, repentinamente, à noite, sem dar sinais, nem toques de trombetas, êle movimentou-se e passou para o outro lado, pelo monte Amano, saqueando toda a região que estava abaixo, até as terras da Cirrestica.
LXX. Selêuco, porém seguiu-lhe as pegadas, e foi acampar bem perto dele; Demétrio, então, armou imediatamente seus homens, e durante a noite, foi ao seu encontro, enquanto ele dormia, e não suspeitava absolutamente de nada; de tal sorte, que ele não soube desta surpresa senão muito tarde porque alguns traidores do campo de Demétrio, que haviam fugido na frente, vieram às pressas adverti-lo, quando ele ainda dormia, e trazer-lhe a notícia do grande perigo que corria. Selêuco, muito assustado, levantou-se incontinenti, deu o sinal de alarme, vestiu-se e preparou-se, clamando e dando ordens em altas vozes, aos seus amigos e servidores: "Temos agora que enfrentar um animal selvagem e muito perigoso!" Mas Demétrio, imaginando pelo grande ruído que escutava no campo inimigo, que seu ardil tinha sido descoberto, retirou-se apressadamente: no dia seguinte ao raiar do dia, Selêuco foi apresentar-lhe batalha. Demétrio preparou-se para recebê-lo, e tendo confiado o encargo de uma das pontas do seu exército a um dos seus mais fiéis amigos, tomou êle a outra, e venceu alguns inimigos, do seu lado. Mas Selêuco no meio do combate desceu do cavalo, e tirando seu capacete, tomou somente um escudo no braço, dirigiu-se às primeiras filas do seu exército, apresentando-se e mostrando-se aos soldados de Demétrio, aconselhando-os a se voltarem contra êle, e a reconhecer, pelo menos, no fim, que havia muito tempo que êle evitava dar-lhe batalha, mais para poupá-los, que não a Demétrio. Ouvindo isto os soldados de Demétrio fizeram-lhe uma reverência, e saudando-o como seu rei, reconhecendo-o tal, entregaram-se totalmente a ele.
LXXI. Então Demétrio, que tinha experimentado antes tantas vicissitudes, tantas mudanças e alterações em sua fortuna, cuidando de escapar desta última, fugiu para as portas Amanidas, que são algumas passagens e estreitos do monte Amano, onde encontrou um bosque muito espesso e ali deliberou esperar a noite, com alguns companheiros, gentis-homens de sua corte, alguns oficiais e servos, que o haviam seguido em pequeno número, para depois, se lhe fosse possível, retomar o caminho da cidade de Cauno, e chegar até à costa do mar, onde esperava encontrar algum dos seus navios; mas quando lhe disseram que não havia víveres e outra provisão qualquer senão para aquele dia, unicamente, ele começou a ter outras preocupações e a falar de outro modo até que Sosígenes, um de seus familiares, chegou, o qual tinha no cinto mais ou menos quatrocentas peças de ouro. Assim, esperando com aquele dinheiro poder escapar até o mar, retomaram o caminho, durante a noite, para o alto da montanha; mas, vendo que os inimigos já estavam perto, vigiando, e haviam feito grandes fogueiras, eles perderem a esperança de poder passar sem ser percebidos: voltaram então ao mesmo lugar, de onde haviam partido, não todos, porém, pois alguns haviam fugido, e os mesmos que haviam ficado não se mostravam tão animados como antes. Um houve que ousou dizer que não havia outro meio de salvação senão entregar Demétrio a Selêuco. Demétrio então desembainhou sua espada e quis matar-se, mas seus amigos o impediram, e puseram-se todos a persuadi-lo que ele o devia fazer; por isso êle mandou dizer a Selêuco que se entregava, e com isso Selêuco experimentou grandíssima alegria, e disse que não era a boa sorte de Demétrio que o salvava, mas a dele a qual, além de outros grandes bens e honras, que lhe tinha concedido, oferecia-lhe ainda uma tão honrosa ocasião e essa felicidade de mostrar a todo o mundo sua clemência e humanidade.
LXXII. Mandou imediatamente chamar seus mordomos, e ordenou-lhes que construíssem uma tenda real, e que aprontassem todas as outras coisas convenientes para se receber e tratar magnificamente a Demétrio. Havia na corte de Selêuco um gentil-homem de nome Apolonide que outrora fora muito íntimo de Demétrio: Selêuco mandou-o incontinenti a ele, para assegurar-lhe de uma boa recepção, e que poderia vir sem nenhum temor ao seu rei, pois nele encontraria um amigo e um aliado. Logo que se tornou conhecida a vontade do rei, alguns cortesãos compareceram à sua presença, em pequeno número, a princípio; mas logo depois, cada qual a porfia corria para chegar primeiro, pois julgavam todos que imediatamente teriam crédito e autoridade perante Selêuco: isso, porém, foi causa de se mudar a piedade em raiva e de dar ocasião aos invejosos e aos indivíduos de má índole, de impedir e deturpar a humanidade do rei; pois lhe foram falar de suspeitas dizendo que dentro de pouco tempo, desde que o vissem os soldados, então grandes novidades haveriam de surgir, e grandes mudanças em seu campo. E assim pouco depois que Apolonide, muito satisfeito por trazer boas notícias, havia chegado a Demétrio, e quando outros também satisfeitos iam repetindo e comentando as gentis palavras de Selêuco, e o mesmo Demétrio, depois de tao grande infelicidade, (ainda que antes ele pensasse ter feito uma ação ignommiosa, entregando-se nas mãos do seu inimigo) mudara de idéia e começara a tranquilizar-se e a retomar esperança de poder voltar ao seu primitivo estado; eis que chega um dos generais de Selêuco, de nome Pausânias, com uns mil homens de mfantaria e cavalaria, com os quais rodeou Demétrio, mandou afastarem-se todos os outros que lhe estavam perto, pois tinha o encargo de o levar, não à corte do rei, mas a Quer-soneso da Síria, onde ele foi desterrado, com uma guarda numerosa que o custodiava.
LXXIII. Depois Selêuco mandou-lhe oficiais, dinheiro e tudo o de que se precisava para a casa de um príncipe, e todos os dias preparavam-lhe tudo tão opulentamente, para o seu viver, que nada mais se poderia desejar. Além disso foram-lhe determinados vários lugares de passeio, onde havia belas corridas, e ele podia divertir-se, montando a cavalo ou passeando, pomares, parques cheios de animais, onde ele podia caçar: aos que o tinham acompanhado, de sua corte, era permitido conviver com ele, se quisessem; vinham freqüentemente pessoas da parte de Selêuco trazer-lhe boas palavras, e confortá-lo, dando-lhe sempre esperanças de que apenas Estratonice e Antíoco tivessem voltado, eles lhe fariam uma visita. Estando pois Demétrio reduzido a este estado, ele escreveu a seu filho Antígono e aos seus oficiais e amigos que estavam em Corinto e em Atenas, que não prestassem fé a nenhuma carta que lhes fosse endereçada em seu nome, nem mesmo ao seu selo, se nelas estivesse gravado; mas, ao invés conservassem para Antígono as cidades que eles tinham, e o resto de seu poder, como se ele tivesse morrido. Antígono depois de ter sabido do deplorável estado de seu pai, ficou assaz amargurado, vestiu-se de luto, escreveu a todos os outros reis, até mesmo a Selêuco, suplican-do-lhes que o tomassem como refém, por seu pai, pois ele estava pronto a deixar tudo o que lhe restava para sua libertação; o mesmo lhe pediram várias cidades e quase todos os príncipes, exceto Lisímaco, o qual lhe prometia, por seus embaixadores uma boa soma de dinheiro, se o quisessem fazer morrer. Mas Selêuco que já há muito não o amava e o tinha em grande desprezo, considerou-o ainda mais malvado, mais cruel e mais bárbaro, por esta vil e baixa perseguição; ele, porém, adiava sempre e prolongava o tempo, porque queria que Demétrio fosse libertado por seu filho Antíoco e por Estratonice, a fim de que devesse a sua libertação aos mesmos, e para sempre de boamente eles soubessem disso.
LXXIV. Demétrio, desde o princípio, suportou pacientemente o seu exílio e a sua infelicidade, e cada dia mais se acostumava a levar facilmente o estado em que se encontrava: pois, em primeiro lugar, ele exercitava seu corpo em corridas e caçadas, enquanto o lugar o permitia, e lhe era concedido; mas pouco a pouco começou a se enfastiar e a se aborrecer de tais exercícios, e entregou-se à embriaguez e aos jogos de dados, tanto que passava a maior e a melhor parte do seu tempo nesses divertimentos, quer para evitar os enfadonhos pensamentos da sua infelicidade, que lhe traziam à memória o tempo em que ele vivia sòbriamente, quer para abafar o que ele tinha na mente com esses excessos de comer e de beber, ou ainda reconhecendo em si mesmo que era aquela a vida que ele por tanto tempo havia procurado, almejado e desejado, e por loucura de vã ambição, se tinha desviado e tinha deixado o verdadeiro caminho, dando a si mesmo e aos outros, muitas penas e aborrecimentos, para cuidar de encontrar em exércitos e esquadras, por terra e por mar, a felicidade e o soberano bem que ele tinha encontrado no descanso e na ociosidade, quando não mais esperava outra coisa nem mais a desejava. Que outro fim de seus trabalhos, perigos e guerras, podem propor-se os maus e mal aconselhados príncipes e reis? São eles grandemente enganados, não somente porque perseguem com afã as delícias e a voluptuosidade, como seu bem soberano em lugar da virtude e da verdadeira honestidade: mas também porque não sabem, na verdade, empregar bem o tempo em folganças, nem em gozar acertadamente do prazer. Demétrio então, depois de ter estado três anos relegado no Quersoneso, contraiu pela ociosidade, pela gula e pela embriaguez uma enfermidade, da qual morreu na idade de cinqüenta e quatro anos; o mesmo Selêuco foi grandemente censurado e depois arrependeu-se muito de ter suspeitado dele, e de não ter pelo menos seguido a honestidade e a cortesia de Dromicates, homem bárbaro, nascido na Trácia, que tinha tratado Lisímaco com tanta humanidade e de modo real, sendo êle seu prisioneiro de guerra: e todavia, ainda teve êle uma certa pompa trágica e teatral no aparato do seu funeral.
LXXV. Seu filho Antígono, quando foi avisado que traziam suas relíquias e suas cinzas, pôs-se ao mar com todos os seus navios e foi ao seu encontro, para recebê-las, até as ilhas, e depois de as ter recebido, as colocou numa urna de ouro, na popa da galera capitania, e todas as cidades diante das quais passava, ou onde eles aportavam, umas cobriam a urna de coroas de flores, outras enviavam homens vestidos de luto para as acompanhar e para lhes prestarem as honras merecidas, e assistirem aos funerais até o fim. Assim navegava toda a frota, para a cidade de Corinto e via-se de longe essa urna em lugar elevado sobre a popa da nau-chefe, toda circundada de púrpura e por cima o diadema real, com o estandarte, e ainda muitos jovens armados, como guarda de honra. Além disso, Xenofanto, o mais exímio músico daqueles tempos, sentado junto da urna, tocava na flauta, uma melodia tão piedosa e devota, que combinava com o movimento dos remos e das vagas e cujo som se misturava com graça às lamentações daqueles que batiam no peito, a cada estrofe da canção. Mas o que causava tristeza e mais levava o povo de Corinto a chorar e a se lamentar, quando, postado ao longo do mar, aguardava a chegada, era Antígono, que se lhes apresentava todo macilento de dor, trajado de luto. Depois de terem atirado flores, muitos ramalhetes e festões sobre a urna, depois de lhe tevem prestado todas as honras possíveis à cidade de Corinto, Antígono fez transportar a urna para sepultá-lo na cidade de Demetríade, que tinha o nome do falecido, e era uma cidade nova, que tinha sido povoada e construída de pequenas outras cidades, em redor de Iolcos. Demétrio deixou dois filhos de sua primeira esposa Filia, isto é, Antígono e Estratonice; e dois outros, ambos chamados Demétrio, um apelidado o Magro, de uma mulher da região dos Ilírios e o outro, que foi príncipe de Cirene, de sua mulher Ptolomaida: e de Deidâmia um outro chamado Alexandre, que viveu no Egito: e diz-se que ainda teve um outro filho chamado Corrabo, de sua mulher Eurídice, e continuou sua posteridade reinando por sucessão de pai a filho, até Perseu que foi o último rei, no tempo do qual os romanos subjugaram e submeteram â sua dominação o reino da Macedônia. Agora é tempo, depois que o macedônio representou o seu papel, que o romano venha ao palco, para também desempenhar o seu.
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