Biografia do romano MARCO ANTÔNIO por Plutarco – Vidas Paralelas

Biografia do romano MARCO ANTÔNIO por Plutarco – Vidas Paralelas

SUMÁRIO DA VIDA DE MARCO ANTÔNIO

Nascimento e educação de Antônio. II. Suas relações com Clóclio e Cúrio. III. Serve sob Gabínio contra os judeus. IV. Incita Gabínio a restaurar Ptolomeu no trono. V. Costumes de Antônio. VI. Sua liberalidade. VII. Toma o partido de César. VIII. Foge com Quinto Cássio para César. IX. Insolências e de-vassidão de Antônio,, durante a ausência de César. X, Leva auxílio a César. XI. Comanda a ala esquerda do exército de César na batalha cie Farsalia. XII. Resiste abertamente a Dolabela que propunha a abolição universal das .dívidas. XIII. Indecências e licenciosidades da vida de Antônio. XIV. Casa-se com Fúlvia. XV. Honras que César lhe confere, desprezando-o. XVI. Oferece o diadema a César na festa das Lupercais. XVII. Procedimento de Antônio depois da morte de César. XVIII. Profere a oração fú­nebre de César. XIX. Otávio pede-lhe a sucessão de César. XX. Otávio, ajudado por Cícero faz declarar Antônio inimigo da pátria. XXI. Corajosa paciência de Antônio na sua adversidade. XXII. O exército de Lépido entrega-se a êle. XXIII. Triunvirato. XXIV. A ira principal cai sobre Antônio. XXV. Vai com Otávio fazer guerra a Bruto e a Cássio. XXVI. Viagem de Antônio à Grécia. XXVII. Insolència de seu proceder na Ásia. XXVIII. Considera­ções que lhe faz Hibreas sobre a imposição exorbitante que dlfl exigia da Ásia. XXIX. Gosto de Antônio pela zombaria; a liberdade com que êle permite os gracejos contra êle mesmo, ajudava a OU gana-Io. XXX. Manda ordem a Cleópatra de lhe vir prestar con tas de seu procedimento. XXXI. Comitiva na qual Cleópatra chega a Antônio. XXXII. Entrevista de Antônio e Cleópatra XXXIII. Maneira de viver de Antônio e Cleópatra. XXXIV Presentes magníficos feitos pelo filho de Antônio ao médico Pilotai XXXV. Habilidade de Cleopatra para cativar Antônio. XXXVI. Gracejo que ela lhe faz em uma pescaria. XXXVII. Antônio parte para a Itália. XXXVIII. Sua reconciliação com Otávio. XXXIX. Congraçamento de Otávio e Antônio com Sexto Pompeu. XL. Antônio parte para a Grécia. XLI. Vitória? de Ventídio, lugar -tenente de Antônio, contra os partos. XLII. Antônio volta a Atenas. XLIII. Antônio desavém-se com Otávio. Otávia os faz reconciliarem-se. XLIV. Antônio prende-se novamente nas cadeias de Cleopatra. XLV. Empreende a guerra contra Fraortes. rei dos partos. XLVI. Imprudente precipitação de Antônio. XLVII. Seu lugar-tenente Taciano é cortado em pedaços com dez mil homens. XLVIII. Inútil vitória de Antônio sobre os partos. XLIX. Levanta-se o cerco de Fraortes. L. Estratagema de Fraortes para surpreender Antônio, inspirando-lhe confiança. LI. Antônio prepara-se para voltar pelo caminho pelo qual tinha vindo. LII. Um mareio vem avisá-lo das emboscadas que os partos lhe preparavam. LIII. Aparecem os partos. Escaramuças de parte a parte. LIV. Vantagem considerável qus os partos levam por causa da temeridade de Flávio Gallo. LV. Elogio do proceder de Antônio depois deste fato. LVI. Tornam a aparecer os partos. LVII. São repelidos. LVIII. -A fome penetra no exército de Antônio. LIX. Novo estratagema dos partos para enganar Antônio. LX, Mitrídates o adverte sobre isso. LXI. Os partos perseguem o exército romano. LXH. Tumulto no exército de Antônio. LXIII, o exército passa um rio e os partos se retiram. LXIV. Como Antônio perdeu o mundo nessa expedição. LXV. Leva Artabase em triunfo a Alexandria. LXVI. Impaciência de Antônio, para se unir a Cleopatra. LXVII. Novos projetos de Antônio para levar a guerra, contra os partos. LXVIII. Otávio embarca para ir se encontrar com Antônio. LXIX. Manejos de Cleopatra para prender ainda mais a Antônio. LXX. O proceder de Antônio para com Otávio torna-o odioso. LXXI, Reinos divididos por Antônio e Cleopatra e a seus filhos. LXXII. Começo do rompimento entre Otávio e Antônio. LXXIII. Antônio parte para a guerra com Cleopatra. LXXIV. Seu proceder a caminho. LXXV. Falta que Antônio comete dando a Otávio o tempo de se preparar para a guerra. LXXVI. Queixas espalhadas contra Antônio. Seus amigos o deixam. LXXVII. Presságios funestos para Antônio. LXXVIII. Forças de Antônio e Otávio, respectivamente. LXXIX. Desafios de Antônio e de Otávio. LXXX. Domício deixa Antônio, para passar para o lado de Otávio. LXXXI. Canídio aconselha Antônio a combater por terra. LXXXII. Cleópatra o move a preferir uma batalha naval. LXXXIII. Enfrentam-se os exércitos. LXXXIV. Trava-se o combate. LXXXV. Cleópatra foge. Antônio segue-a. LXXXVI. Ceia com ela. LXXXVII. Ordena a Canidio de voltar à Ásia, pela Macedônia. LXXXVIII. Bela resistência de seu exército por mar e por terra. LXXXIX. Esgotamento a que Antônio tinha reduzido a Grécia. XC. Desespero de Antônio. XCI. Digressão sobre Timon, o Misantropo. XCII. Encontro de Antônio com Cleópatra. Luxo e delícias de sua vida. XCIII. Experiência que Cleópatra faz com diversos venenos. XCIV. Negociações entre Antônio e Cleópatra na presença de Otávio. XCV. Suspeitas de Antônio contra Cleópatra. XCVI. Cleópatra manda levar todas as suas riquezas a um túmulo. XCVII. Otávio sitia Alexandria. XCVIII. Antônio vencido e traído. XCIX. Atravessa-se com sua espada. C. Paz que o levem ao túmulo onde Cleópatra estava encerrada. Sua morte. Cl. Otávio envia Proculeio para se apoderar da pessoa de Cleópatra. CII. Entra no túmulo, agarra-a e a desarma. CHI. Honra que Otávio presta ao filósofo Arrio. CIV. Sepultamento de Antônio. CV. Cleópatra propõe ao seu médico ajudá-la a se livrar da vida. CVI. Visita de Otávio a Cleópatra. CVII. Ofertas fúnebres de Cleópatra sobre o túmulo de Antônio. CVIII. Sua morte. CIX. Divergências na narração da sua morte. CX. O que foram os filhos de Antônio depois dele.



Desde o ano 668 ou 671 até o ano 724 de Roma, antes de J. C., ano 30.

MARCO ANTÔNIO, por PLUTARCO – Vidas Paralelas

Tradução Brasileira de Padre Vicente Pedroso. Fonte: Edameris

O avô de Antônio foi aquele famoso orador que
Mário mandou matar, porque era do partido de Sila, e seu pai foi um outro
Antônio, apelidado o Cretense (1) que não foi tão célebre,’ nem teve muito
prestígio no governo das coisas públicas, mas que, afinal, foi um homem de bem
e de boa índole, muito liberal, como se pode julgar por este seu ato: êle não
tinha grandes posses, e por isso sua mulher não lhe permitia usar de sua
liberalidade e bondade natural. Um dia, veio a êle um de seus familiares, pedindo-lhe
uma certa quantia de dinheiro, de que estava precisando, e sucedeu que
casualmente êle não o tinha para lho dar; ordenou por isso a um de seus
servidores, que lhe trouxesse água numa bacia de prata; molhou ele então a
barba como se quisesse raspá-la, depois, fez afastarem-se os criados, e deu ao
amigo a bacia de prata, dizendo que podia dispor dela. Alguns dias depois,
todos procuravam ansiosamente a bacia e vendo que a esposa dele muito se
inquietava com o desaparecimento, e queria interrogar um por um todos os
criados para saber o que havia acontecido, ele confessou que a tinha dado e
rogou-lhe que o perdoasse. Sua esposa chamava-se Júlia e era da família e da
descendência de. Júlio César, a qual em honestidade e seriedade nada ficava a
dever a qualquer uma das mulheres cio seu tempo. Antônio foi criado e educado
por ela, que se casou de novo, após a morte do seu primeiro mando, com Cornélio
Lêntulo, que Cícero mandou matar por ter sido um dos que se tinham envolvido na
conjuração de Catilina: isto parece ter sido o princípio e o primeiro motivo
daquela ira veemente e mortal que Antônio tinha a Cícero, porque Antônio mesmo
diz, que ele não lhe quisera entregar o corpo de seu padrasto para sepultá-lo,
até que sua mãe não foi pedi-lo à mulher de Cícero, o que manifestamente e sem
dúvida era falso: pois não houve um sequer, de todos os que Cícero fêz morrer
pela justiça, ao qual fosse negada a sepultura.

 

(1) Porque êle terminou e concluiu, com sua
morte, a guerra que tinha felizmente podido fazer contra os de Creta, isto é,
Candia. Floro. na epítome do livro 97. — Amyot. Aí êle foi morto no ano
679 de Roma. 75. antes de J. C. Mas é fora de propósito o que Amyot diz. que
êle concluiu a guerra com sua morte. Pois ela continuou depois dele. e foi
terminada por Quinto Metelo, que lubmeteu a ilha toda, no ano 687 de Roma, e
foi apelidado, por isso. o Cretense.

 

II. Tornando-se Antônio um belo rapaz, na flor da idade,
travou relações com Cúno; ao que se diz esta amizade e conhecimento foi uma
calamidade, pois era êle um
homem perdido e viciado em tudo o que há de mais torpe, e para ter Antônio ao
seu dispor, levou-o a fazer grandes despesas com mulheres, dando banquetes e
festas, de modo que em pouco tempo êle ficou endividado; tão grande era a
quantia que dificilmente êle poderia pagá-la, demasiado grande para sua idade,
isto é, duzentos e cinqüenta talentos (2) ; o mesmo Cúrio era o causador dessa
dívida: e por isso seu pai (3), vindo a sabê-lo, afastou Antônio de junto dele
e proibiu-lhe entrar em sua casa. Foi então êle buscar a companhia de Clódio,
o mais temerário e o pior dos homens que então se davam ao governo das coisas
públicas e por algum tempo participou da sua temeridade, que punha em grande
sobressalto toda a cidade de Roma; mas afastou-se dele bem depressa, pois
cansou-se e aborreceu-se com o seu furor e também porque começou a temer o
poder dos que estavam contra êle.

III. Partiu então da Itália e foi à Grécia, onde passou o
tempo em exercícios militares e no estudo da eloqüência. Usava da maneira de
falar que se denomina asiática, a qual florescia e estava em grande voga
naquele tempo, e tinha também grande conformidade com seus costumes, e sua
maneira de viver que era vaidosa, cheia de fanfarronice e de ambição desigual e
pouco comunicativa. Depois de algum tempo, Gabínio, sendo cônsul, foi à Síria
(4) e quis persuadi-lo a acompanhá-lo em sua viagem, ao que respondeu ele que não
iria simplesmente como um particular; por isso Gabínio confiou-lhe o comando da
cavalaria e o levou consigo, mandando-o primeiramente contra Anstóbulo, que
tinha feito revoltarem-se os judeus, onde ele, por primeiro, subiu ao alto da
muralha da praça mais forte do lugar, e lançou Aristóbulo fora de todas as suas
fortalezas, e com poucos homens que ainda tinha consigo, derrotou os judeus,
que eram muitos contra um só,,e os fêz passar quase todos à espada e ainda
prendeu Anstóbulo com o filho.

(2)     Cento
e cinqüenta mil escudos. — Amyot. 1.167.187 libras e 10 s.  de
nossa moeda.
(3)    
Isto
é, o pai de Cúrio.

 

IV. Depois disse Ptolomeu (5), rei do Egito, que
tinha sido expulso do seu país, marchou contra Gabínio, para rogar-lhe e
induzi-lo a entrar com ele no Egito, a fim de restaurá-lo em seu reino,
prometendo-lhe, se ele o fizesse, a soma de dez mil talentos (6) . A maior parte
dos generais foi de opinião que não se deveria ir, e o mesmo Gabínio criou
muitas dificuldades para entrar nessa guerra, embora a tentação
dos dez mil talentos o dominasse e o prendesse fortemente, mas Antônio, que
não aguardava senão o ensejo para realizar grandes coisas, e que desejava
também satisfazer a Ptolomeu, em seu pedido, se pôs a persuadir a Gabínio,
incitando-o a empreender a viagem. Eles temiam mais a estrada que lhes era
necessário percorrer, para chegar à cidade de Pelúsio, que não o resto do
perigo que poderiam correr nessa guerra, pois tinham de passar por desertos
(7) e lugares onde não havia água potável, ao longo de pântanos (8), a que
chamam de Sermonidas, os quais os egípcios dizem que são os orifícios por onde
o gigante Tifon respira: mas parece, de verdade, que é uma variante do mar
Vermelho, que se espalha por baixo da terra, no lugar em que ele se separa no
seu intervalo mais estreito, do mar, do lado de cá. Antônio então para lá foi
mandado, com a cavalaria, e não somente conquistou essa passagem, mas também tomou
Pelúsio, que é uma cidade grande e poderosa, com todos os soldados que lá se
encontravam: e, fazendo isso, tornou ao mesmo tempo fácil e seguro o caminho
para o resto do exército e a esperança da vitória: os mesmos inimigos, na
cidade, gozavam da sua gentileza e bondade e do desejo que linha ele de se ver
honrado; pois, Ptolomeu incontinenti. ao entrar na cidade pensou em passar à
espada muitos dos egípcios que lá se encontravam, pelo grande ódio que nutria
contra seus habitantes, nus Antônio a isso se opôs e não permitiu que ele o
fizesse: e em todas as outras batalhas e escaramuças, que foram muitas,
Antônio praticou muitos atos de bravura, próprios de um genial comandante: como
quando êle cercou e rodeou por trás os inimigos, deu a vitória aos que
combatiam de frente e por isso recebeu o prêmio e o estipêndio de honra, que
era devido à sua virtude. Também tornou-se conhecida de todos a humanidade e a
honestidade que êle usou para com Arquelau; pois tendo sido seu familiar e
hóspede, êle lhe fêz guerra, por coação de seu general, mas, depois de sua
morte, fêz procurar seu corpo e o honrou com pomposos funerais e obséquios
dignos de um rei.

 

(4)    
Na   
qualidade   de   procônsul,   no   ano   699   de   Roma;   êle tinha sido
cônsul no ano 696 de Roma.
(5)    
Auletes.
(6)    
Seis
milhões de escudos, — Amyot. 46.687.500 libras na nossa moeda.   .
(7)    
Outros
dizem odocis bateikas, o que significa caminhos profundos, mas o
primeiro sentido é o melhor. — Amyot.
(8)    
O
grego diz: ao longo do Ecregma e do pântano de Sermonidas; esta palavra
Ecregma, que é grega, parece ter sido nome próprio da origem do lago, isto é,
do lago por onde o mar aí entrava c o formava. Êsse lago unia-se ao mar pela
sua extremidade ocidental, de onde estendia-se paralelamente ao mar, desde
Casio até a Palestina.

 

V. Por estas e outras
razões êle deixou de si mesmo uma gloriosa lembrança em Alexandria, e foi
julgado como uma pessoa muito gentil, pelos romanos, que estiveram nessa
viagem; tinha além disso uma dignidade liberal, apresentando todo seu aspecto
exterior certa beleza de porte e de atitude, linha a barba forte e espessa, a
fronte larga, o nariz aqulino, e em seu rosto transparecia tal virilidade como a que se vê representada em medalhas
e imagens pintadas e modeladas, como as de Hércules. Disto já se falava desde
toda a antigüidade, isto é, que a família dos Antônios descendia de um Anton,
filho de Hércules, do qual ele conservava o porte e o nome; esta opinião ele
procurava confirmar não somente pela figura e pela forma natural do seu corpo,
que era como acabamos de descrever, mas também pela maneira de se adereçar e de
se vestir. Pois todas as vezes que ele devia aparecer em público e ser visto
por grande multidão, usava sempre alguma veste grossa, cingida fortemente
quase à altura da coxa, com uma grande espada pendurada ao lado, e por cima uma
capa grossa: o que muitos, porém, julgavam aborrecido e insuportável nele, é
que ordinariamente ele se vangloriava, e zombava sempre de alguém; não fazia
dificuldade em beber diante de todo mundo, de sentar-se junto de soldados,
quando eles comiam e de comer e de beber à sua mesa; e é de se crer como isso o
fazia amado, desejado e querido deles. Ainda mais; sendo inclinado ao amor,
tornava-o desejável, assim levava muitos a querer amá-lo também; pois sentia
prazer em ajudar os que estavam enamorados a gozar dos seus amores, e assim não
tomava a mal, quando zombassem dos seus: e com isso, sua liberalidade, pois
dava tudo, sem nada poupar, aos seus guerreiros e aos amigos, foi-lhe de grande
impulso para bem começar e quando se tornou grande,
aumentou-lhe ainda e de muito á autoridade e o poder, que afinal o arruinavam e
o perdiam por causa de inúmeras outras faltas que ele cometia ordinariamente.

VI.      Citarei neste ponto um exemplo somente de sua
grande largueza e generosidade: Um dia, ele ordenou àquele que dirigia ás suas
finanças, que
desse a um de seus familiares duzentas e cinqüenta mil dracmas (9) de prata,
que os romanos na sua maneira de falar chamam de Décies (10): admirou-se o seu
tesoureiro, mas trouxe à sua presença esse dinheiro, para mostrar-lhe e
fazer-lhe ver que soma enorme era. Antônio então perguntou o que era aquilo: o
tesoureiro respondeu-lhe que era o dinheiro que ele havia ordenado que desse
ao familiar. Antônio, percebendo a malícia do homem, disse: "Eu pensava
que Décies era uma soma muito maior, pois isso é ainda pouco e por isso dá-lhe
ainda outro tanto".   Mas isso foi depois.

VII.        Estando então os romanos
divididos entre si, uns contra os outros, em duas ligas; os que defendiam a
autoridade do senado aderiam a Pompeu, que estava presente, e os que tinham o
partido do povo, chamavam em seu auxílio a César, que estava fazendo a guerra
nas Gálias, Cúrio, amigo de Antônio, que tinha
mudado de opinião, e então defendia o partido de César, do qual um pouco antes
tinha sido adversário, puxou Antônio para o seu lado e, quer pelo grande
prestígio e crédito que tinha entre o povo, tanto fez, por causa também de seu
falar, quer, por causa da grande largueza em despender o dinheiro que César lhe
dava, que Antônio foi eleito tribuno do povo, e logo depois admitido ao
colégio dos sacerdotes, que pelo vôo dos pássaros conhecem e predizem o futuro,
aos quais os romanos chamam de augures. Isso foi de grande conseqüência para as
atividades e manejos de César, pois logo que ele tomou posse do seu cargo,
primeiramente se opôs ao que propunha naquela ocasião o cônsul Marcelo, que
queria que certas legiões que já tinham sido recrutadas e organizadas, fossem
entregues a Pompeu, com a comissão e o poder de recrutar ainda outras e propôs
que os soldados, que estavam reunidos e agrupados, fossem enviados à Síria,
como reforço a M. Bíbulo, que movia a guerra aos partos; e por fim, que se proibisse
a Pompeu de recrutar mais homens e aos soldados, de obedecer-lhe. Depois, como
os partidários de Pompeu impedissem que as cartas de César fossem recebidas
pelo senado e lidas, tendo ele poder e garantia de sua pessoa pela santidade do
tribunato, leu-as publicamente, e fez que vários outros mudassem assim de
opinião, pois lhes parecia que César com suas cartas não pedia senão coisas justas
e razoáveis. Finalmente, propôs-se à deliberação do senado, dois pontos: um,
se o senado era de opinião que Pompeu deixasse seus exércitos; e o outro, que
César; poucos senadores foram de opinião que Pompeu abandonasse as armas, mas,
quanto a César, quase todos o decidiram. Antônio então, levantando-se,
perguntou se lhes parecia bem que Pompeu e César, juntamente, deixassem as armas,
e ambos entregassem seus exércitos: todos os senadores aprovaram unanimemente
essa proposta, e louvando a Antônio com grandes aclamações, rogaram-lhe que
pusesse à deliberação do senado, mas os cônsules não o quiseram permitir.

 

(9)             Vinte e cinco mil escudos.  — Amyot.
194.531 libras e G s.
da nossa moeda.

(10)    Veja as Observações
sobre a vida de Cícero.

 

VIII. Os amigos de César, então, fizeram outras
propostas e pedidos, que pareciam razoáveis e úteis, aos quais, porém, Catão se
opôs; e Lêntulo, um dos cônsules, fez Antônio sair à força do senado; contra
ele dirigiu então o mesmo Antônio graves palavras de protesto e de crítica:
depois vestiu a roupa de um escravo e correu a toda pressa para César, com
Quinto Cássio, tomando uma carruagem; apenas lá chegaram, puseram-se a gritar
em altas vozes, que em Roma tudo estava convulsionado, pois não era mais
permitido aos tribunos do povo falar livremente, pois eram expulsos com grande
perigo de suas vidas, aqueles que ousavam defender o direito e a eqüidade. Por
isso César lançou-se  imediatamente  contra  a  Itália  com  seu exército; diz
Cícero em suas Filípicas (11) que assim como Helena foi causa da guerra de
Tróia, assim Antônio foi autor da guerra civil: o que indubitavelmente é falso
(12): pois C. César não era* tão
fácil a se deixar levar pela ira, a um mau raciocínio, se ele não tivesse há
muito tempo projetado e premeditado fazer isso, não teria, no momento,
deliberado empreender a guerra contra o seu país, somente porque tinha visto
Antônio e Cássio mal vestidos correrem a ele numa carruagem. Mas como há muito
tempo ele procurava algum motivo, este serviu-lhe de pretexto, e lhe deu a
aparência de uma guerra justa. E para se dizer a verdade, o que o estimulava a
fazer a guerra a todo o mundo, outra coisa não era que o mesmo, que a
princípio, tinha incitado a Alexandre, e ainda antes, a Ciro, isto é, um desejo
insaciável de reinar, uma ambição desmesurada de ser o primeiro e o maior homem
do mundo; o que não podia conseguir, sem ter antes vencido e derrotado a
Pompeu.

(11)       
Na  
segunda.

(12)       
Veja  
as  Observações.

 

IX. Depois que César se
apoderou da cidade de Roma e expulsou Pompeu da Itália, deliberou ele passar
em seguida à Espanha, contra as legiões que lá Pompeu ainda tinha,  e ao mesmo tempo
fazer provisão de navios e de equipagem de mar, para depois perseguir o mesmo
Pompeu. Durante esse tempo ele deixou o governo da cidade a Lépido, que era
pretor; e a Antônio, que era tribuno, o encargo dos soldados e da defesa da
Itália. Antônio tornou-se imediatamente querido e amado por seus soldados, pois
ordinariamente estava com eles, com eles comia e bebia freqüentemente é dava-lhes
presentes, segundo os seus meios e as suas posses. Incorreu, porém, ele na ira
e na malevolência de outros homens, porque, devido ao seu descuido e pouco
caso, ele não se preocupava em fazer justiça àqueles que ultrajavam e ofendiam,
assaz rudemente, aos que tinham que tratar com ele, e corria a má fama de que
desencaminhava e corrompia as mulheres dos outros. Em suma, os amigos de César
e os que governavam com ele, eram causa de que se caluniasse e odiasse a sua
dominação, embora não fosse ela nada mais que tirania, quanto a ele, pelas
msolências e ultrajes que eles faziam, dentre os quais, Antônio, como o mais
poderoso, e o que cometia as maiores faltas, era por isso o mais censurado.
Todavia César, quando voltou da guerra da Espanha, não fez caso das queixas que
lhe eram apresentadas, contra ele, mas ao contrário, sabendo-o homem valente e
empreendedor, bom general, serviu-se dele em suas empresas principais, e nisso
não teve, absolutamente, decepção alguma.

 

X. Passou depois o mar
Jônico, para Brin-disi, com uma pequena parte de homens, e depois fez regressar
os navios nos quais havia passado o mar, e mandou a Antônio e Gabínio que o
mais depressa possível embarcassem seus soldados, e os levassem à Macedônia.
Gabínio teve medo de se pôr ao mar, que estava revolto, por ser já o inverno,
e mandou seu exército fazer uma grande caminhada por terra. Mas Antônio,
temendo que acontecesse algum acidente a César, porque estava ele rodeado de
grande número de inimigos, repeliu e afastou em primeiro lugar a Libo, que
estava ancorado com muitos navios mesmo diante da boca do porto de Brindisi:
cercou-o de um número tao grande de barcas, chalupas e outras espécies de embarcações
(13) em redor de cada galera, que ele foi obrigado a se afastar dali. Feito
isto, embarcou em seus navios vinte mil homens de infantaria e oitocentos
cavalos; com essa tropa se pôs a navegar e lançou-se em pleno mar. Logo que os
inimigos o perceberam, puseram-se a persegui-lo, e ele venceu este perigo,
porque o vento do sul começou a soprar furiosamente, suscitando terrível
tempestade no Oceano, e as ondas impediram que as galeras dos inimigos o
pudessem alcançar. Foi ele então ter com toda a sua esquadra a uma costa
rochosa, onde o mar era muito alto, de modo que não tinha mais esperanças de se
poder salvar; mas a boa fortuna repentinamente fez mudar a direção do vento,
que soprou de Lebeche (14), a qual está entre o sul e o oeste e sopra da costa
do golfo, impelindo as ondas do rio para dentro do mar alto. Assim Antônio,
deixando a terra atrás de si e singrando com segurança à vontade, viu logo
depois a costa cheia de náufragos: pois a força e violência do vento lá arremessara
as galeras que o perseguiam, várias das quais foram partidas e perderam-se, e
Antônio fez um grande número de prisioneiros, arrecadou uma grande soma de
dinheiro, tomou além disso a cidade de Lisso e trouxe a César grande conforto
e segurança, por ter chegado bem a tempo e com tal poder.

(13)  
Veja. a  descrição mais detalhada  deste fato  nos  Comentários de César. — De
Bel. Civ. — L. III, cap. 24.

 

XI. Travavam-se então
freqüentemente ásperas escaramuças e combates renhidos nos quais Antônio
comportava-se tão valentemente que levava a palma a todos os outros,
especialmente, por duas vezes, quando os soldados de César se retiravam, e
fugiam apressadamente: ele se pôs à frente deles e os obrigou a voltar ao
combate, de tal modo, que por fim a vitória lhes sorriu. Tinha ele então no
campo de batalha, entre os soldados, a segunda autoridade e a César só se
falava dele, o qual também
mostrou a sua opinião a seu respeito, quando na última batalha de Farsália, a
que devia decidir o final e dar o império do mundo ao vencedor, conduziu ele a
ponta direita do seu exército e entregou a esquerda a Antônio, para que a
dirigisse, como o mais valente e mais entendido em fato de guerra de todos os
que estavam em sua companhia.

(14)  
Da   Líbia.   Veja   o   Quadro   dos   Ventos  nas   Observações sobre o tomo XV.

 

XII. Ganha a vitória, César
foi criado ditador e se pôs a seguir as pegadas de Pompeu: antes, porém,
nomeou Antônio chefe da cavalaria e o enviou a Roma, pois o chefe da cavalaria
é o segundo magistrado, quando o ditador está na cidade, mas quando não está, é
o primeiro e, talvez mesmo, o único (15), pois suprimem-se todos os oficiais e
magistrados, desde que há um ditador eleito. Todavia, sendo então Dolabela
tribuno do povo, jovem que pedia somente renovações, propunha o que os romanos
chamam novas tábulas, isto é, uma rescisão de todas as obrigações, e abolição
geral de qualquer espécie de dívida, e chamava novas tabelas, porque era então
necessário fazer novos bilhetes de crédito e de receita, e persuadia a Antônio
que era seu amigo, e que não desejava senão os meios de agradar e comprazer ao
povo, ajudá-lo a levar adiante esse projeto: ao contrário, Trebélio e Asímo
procuravam dissuadi-lo e afastá-lo disso, o mais possível. Aconteceu casualmente
que Antônio começou a ter ciúmes de Dolabela e a suspeitar que êle se
encontrava com sua mulher, e levou isso a tal ponto que a expulsou de casa; ela
era sua prima-irmã, filha de C. Antônio, que tinha sido companheiro de Cícero
no consulado, e unindo-se a Asínio resistiu a Dolabela, até a combatê-lo:
Dolabela tinha-se apoderado da praça onde se faziam as assembléias do povo, e
aí havia colocado homens armados, com intenção de fazer passar e ratificar
pelo povo, à força, o seu edito. Antônio por ordem do mesmo senado, que lhe
tinha outorgado o poder de recrutar homens para resistir com armas a Dolabela,
foi contra êle, e combateu com tanto ardor que houve homens mortos na praça de
lado a lado: isto fêz que êle incorresse de um lado, na malevolência do povo
por esse ato, e por outro lado êle não agradava aos homens de bem e honrados,
por causa dá sua vida desonesta e dissoluta, como diz Cícero, mas era odiado
por eles, porque eles abominavam os banquetes e as libações a que êle se
entregava ordinariamente, em horas impróprias, seus gastos exagerados, e o
fato de estar continuamente entre mulheres de vida fácil, e depois durante o
dia, êle dormia, ou andava embriagado para digerir o vinho bebido durante a
noite.

(15)  
O grego  acrescenta:  pois o tríbunato subsiste,  e  veremos pelo que se segue
que isso era necessário que se dissesse.

 

XIII. Em sua casa só havia festas, danças e momices;
êle passava o tempo assistindo à representação de farsas, ou às núpcias de
farsistas, charlatães, palhaços e outros indivíduos semelhantes. A este
propósito, conta-se que nas núpcias de um seu amigo palhaço, chamado Híppias,
êle bebeu tanto durante a noite, que depois, na manhã seguinte, quando foi
falar perante o povo reunido na praça, que o havia chamado, tendo ainda o
estômago cheio de vinho e de carne, foi obrigado a vomitar na presença de
todos, e um de seus amigos teve de estender-lhe a capa por cima do vômito. Êle
era ainda amigo de outro comediante de nome Sérgio, que era o maior de todos os
seus companheiros, e que de maior prestígio e crédito gozava junto dele, e de
uma mulher chamada Citendes, da mesma profissão, dá qual êle se tinha
enamorado; êle a levava por todas as cidades para onde se dirigia, dentro de
uma liteira; e não havia menos servidores e acompanhamento junto da liteira
dessa comediante do que da sua própria mãe. Isso desgostava imensamente às
pessoas de bem, por verem que quando êle ia para o campo levava em pós de si
grande quantidade de vasilhas de ouro e prata, à vista de todos, como se fosse
a demonstração de um triunfo; muitas vezes no meio do caminho êle fazia erguer
suas tendas, à beira de alguma floresta verdejante, ou ao longo de algum fresco
regato, e aí servia-se suntuosamente o seu jantar; às vezes fazia atrelar leões
ao seu carro, para que o levassem; obrigava, pelas cidades por onde passava
que em casas de gente honesta fossem hospedados pecadoras públicas, meretrizes
e comediantes: causava-lhes grande desgosto ver que César estava fora da
Itália, perseguindo os restos de seus inimigos, para pôr um fim à guerra, com
tantos perigos e sofrendo toda a sorte de incômodos, ao passo que outros, que
estavam sob sua autoridade e seu nome, cometiam estas injúrias e estes ultrajes
aos mesmos cidadãos. Isso parece-me, ter sido a causa de que a rebelião contra
César fosse crescendo cada vez mais: e de que se soltasse o freio aos soldados,
que então tiveram a ousadia de cometer várias extorsões, violências e furtos.
César, tendo voltado, perdoou a Dolabela, e tendo sido criado cônsul pela
terceira vez, não escolheu mais a Antônio, mas preferiu Lépido, para seu
companheiro. Depois, quando foi posta à venda a casa de Pompeu, Antônio a comprou;
mas quando lhe pediram o dinheiro, ele achou-o estranho e irritou-se com isso;
escreveu ele mesmo que não queria ir com César à guerra da África, porque não
tinha sido bem recompensado pelos grandes serviços que havia prestado anteriormente
.

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