Consciência - Filosofia e Ciências Humanas

Biografia do romano MARCO ANTÔNIO por Plutarco – Vidas Paralelas


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LXX. Em suma, com suas bajulações encomendadas, conseguiram comover e convencer Antônio a permanecer; de medo que ela morresse, êle transferiu a sua expedição, voltou a Alexandria, despediu o rei dos medas, adiando a guerra para o ano seguinte, embora soubesse que os partos estavam em lutas consigo mesmos: todavia depois foi fazer aliança com êle: pois êle casara sua filha, que era ainda muito jovem, com um dos filhos que Cleópatra tivera dele: depois voltou, tendo já na mente e no propósito a guerra civil, porque quando Otávia voltara de Atenas para Roma, César lhe ordenara que deixasse a casa de Antônio, e que se conservasse sozinha em sua casa, porque êle lhe havia feito uma injúria: ela, porém, respondeu que jamais abandonaria a casa de seu marido, e que se êle não tinha outra ocasião de lhe fazer guerra, ela rogava-lhe que não se inquietasse por causa dela, pois seria coisa muito censurada, que dois imperadores tão grandes e tão poderosos, tivessem lançado os romanos numa guerra civil, um por amor de uma mulher, o outro pelo ciúme de uma outra. Ora, se ela lhe dizia estas palavras, muito mais ainda e melhor o fazia com fatos: pois ficou na casa de Antônio, como se lá êle estivesse presente, e cuidava honesta e honradamente de seus filhos, não somente dos que eram mesmo dela, mas também dos que êle tivera de Fúlvia. E quando Antônio mandava algum de seus familiares a Roma, para conseguir algum ofício ou cargo público da magistratura, ou para outro qualquer assunto, ela o recebia e tanto fazia que obtinha de seu irmão o que lhe pedia: mas fazendo isso, sem pensá-lo, causava grande mal a Antônio: pois isso acarretava-lhe o ódio de todos, quando viam que êle tratava tão mal uma mulher tão bondosa e tão honesta, mas foi ainda mais odiado por uma repartição que êle fêz entre seus filhos, na cidade de Alexandria: também, para se dizer a verdade, era êle igualmente muito soberbo e muito insoiente, pois quase o fizera por despeito e por desprezo para com os romanos.

LXXI. Pois mandou êle reunir todo o povo no parque, onde as crianças e os moços se exercitam em ginástica e jogos de educação física, e sobre uma tribuna coberta de prata, mandou colocar duas cadeiras de ouro, uma para êle, outra para Cleópatra, e outras mais abaixo para seus filhos: depois declarou publicamente diante de todos os presentes, que, por primeiro, êle criava Cleópatra, rainha do Egito, de Chipre, da Lídia e da baixa Síria, e igualmente Cesário, rei dos mesmos reinos: este Cesáno era considerado filho de Júlio César, que tinha deixado Cleópatra grávida. Em segundo lugar, aos seus filhos e dela, chamou de reis dos reis e deu como partilha a Alexandre, a Armênia, a Média e os partos, quando êle os tivesse subjugado e conquistado, e a Ptolomeu, a Fenícia, a Síria e a Cilícia: depois fêz aparecerem em público a Alexandre, trajando uma longa veste à maneira dos medos, com um chapéu alto e pontudo na cabeça, cuja extremidade era reta, como o usam os reis medas e armênios, e a Ptolomeu, coberto com um manto à Macedônia, com pantufas nos pés, e um chapéu largo cingido de uma faixa real, pois era assim que costumavam trajar os reis sucessores de Alexandre, o Grande. Assim, depois que seus filhos lhes prestaram homenagem, curvando-se diante deles e beijando o pai e a mãe, imediatamente uma tropa de guardas armênios, organizada expressamente, cercou um, e uma tropa de macedônios, o outro. Cleópatra, porém, não somente então, mas sempre que saía em público, diante do povo, vestia-se de trajes sagrados, como a deusa ísis, e dava audiência aos seus súditos, como uma nova Ísis.

LXXII. César, referindo estas coisas ao senado e acusando-o muitas vezes diante de todo o povo romano, tanto fez que irritou a todos, atirando-os contra ele. Antônio, por outro lado, mandou a Roma mensageiros, para contra-acusá-lo também; os principais pontos das acusações eram: tendo ele despojado Sexto Pompeu da Sicília, não lhe havia dado a sua parte na ilha: em segundo lugar, que não lhe entregava os navios e os barcos que lhe tinha pedido emprestado para essa guerra: em terceiro lugar, que êle, tendo alijado a , seu companheiro no triunvirato, da sua parte no império, e tendo-o privado de todas as honras, êle conservava para si, a pessoa (41), as terras e os rendimentos das mesmas, que lhe tinham sido destinadas como sua parte, e finalmente, que êle tinha quase distribuído aos seus homens toda a Itália e nada tinha deixado aos dele. César respondeu-lhe que, quanto a , realmente, o havia deposto e privado da sua parte no império, porque êle abusava ultrajosa mente: quanto ao que êle havia conquistado pelas armas, dana de boamente parte a Antônio, contanto que êle também lhe fizesse o mesmo da Armênia. Quanto aos seus soldados, eles nada deveriam pretender na Itália, pois possuíam a Média e a terra dos partos, que haviam anexado ao império romano, combatendo valentemente com seu imperador.

LXXIII. Antônio recebeu estas notícias quando ainda estava na América: ordenou então a Canídio que rumasse incontinenti para a costa do mar, com as dezesseis legiões que êle tinha, e êle com Cleópatra, partiu para a cidade de Êfeso, onde se reuniram suas galeras e navios, de todos os lados, que eram mais ou menos oitocentos, contando-se também os grandes navios de carga, dos quais Cleópatra fornecia uns duzentos e vinte mil talentos  (42)  e víveres para alimentar todo o exército durante essa guerra. Depois, Antônio determinou que Cleópatra voltasse ao Egito, a conselho de Domício, esperando o início das operações: ela, porém, temendo que Antônio voltasse às boas graças com César por intermédio de Otávia, tanto fez, a peso de ouro, com Canídio que falou por ela, e disse a Antônio que não era razoável afastar e eliminar desta guerra, aquela que sustentava e custeava uma grande parte da mesma, nem proveitoso, porque isso desencorajava os egípcios, que eram a principal força do exército, por mar, além de que não havia rei dentre todos os aliados seus, aos quais Cleópatra fosse inferior em prudência, nem em bom senso, pois que antes já ela tinha por muito tempo sabiamente governado um tão grande reino como o Egito, e além disso, tinha convivido com ele por tanto tempo, e tinha por isso aprendido como se devia tratar os seus negócios mais importantes. Estas belas demonstrações e razoes venceram-no; ele era predestinado e era de mister que o governo de todo o mundo estivesse todo e unicamente sob o poder de César.

 

(41)     Em grego, o general;   leia-se o exército.

(42)     Doze milh ões de ouro. — Amyot, 93.373.000 libras de nossa moeda.

 

LXXIV. E assim, tendo reunido todas as forças, rumaram para a ilha de Samos, onde se entregaram a todos os prazeres e divertimentos; do mesmo modo que ele antes havia ordenado a todos os reis, príncipes, potentados, comunidades, povos e cidades, desde a Síria até os mares meótidas, e desde os armênios até os ilírios, que são os eslavos, que levassem ou mandassem munições e todo o necessário para a guerra, assim também convidou a todos os farsantes, artistas, palhaços e músicos que se dirigissem à ilha de Samos: e assim quando em quase toda a terra habitada havia choro e lágrimas, suspiros e pranto, naquela ilha somente e durante vários dias, não se ouviam senão cantos, risos, músicas de instrumentos, e os teatros estavam cheios de espectadores, bem como de comediantes, artistas e músicos de toda a espécie: além disso, cada cidade devia mandar um boi para o sacrifício e os reis porfiavam uns com os outros para ver quem daria o mais suntuoso festim, e lhe enviavam os mais ricos presentes, a ponto de cada qual dizer: "Que poderão eles fazer, se ganharem a batalha em regozijo pela vitória, pois que fazem tao suntuosas festas quando se preparam para a guerra?" Depois que tudo isso se passou, ele deu como residência, durante a guerra aos músicos e aos demais a cidade de Pnene, e em seguida partiu para Atenas e lá se deu novamente à vida de divertimentos, pelos teatros e pelos salões de banquetes: por outro lado, Cleópatra, ciumenta das honras que Otávia havia recebido nessa cidade, onde tinha deveras sido muito amada e honrada pelos atenienses, para se insinuar na benevolência do povo ateniense, fêz-lhe grandes benefícios: eles, por sua vez, concederam-lhe grandes honras, determinando vários embaixadores, para lhe levar o decreto ao seu aposento, dos quais um foi Antônio como cidadão de Atenas, o qual lhe dirigiu então a palavra, e fez o discurso em nome da cidade: depois mandou, em Roma, expulsar Otávia de sua casa, a qual, como se diz, saiu com todos os filhos de Antônio, menos o mais velho dos de Fúlvia, que estava com o pai, chorando e lastimando a sua infelicidade, que o tinha levado a tal proceder, que ela fosse considerada como uma das causas dessa guerra civil. Os romanos tinham piedade dela, mas, ainda mais, de Antônio, mesmo aqueles que haviam visto Cleópatra, a qual não superava a Otávia nem em beleza, nem em mocidade.

LXXV. César, avisado da grandeza e da urgente preparação de Antônio, ficou bastante perturbado, temendo ser obrigado a combater nesse primeiro verão, porque várias coisas ainda necessárias lhe faltavam e as violentas extorsões e cobranças de dinheiro que exigiam, sobrecarregavam excessivamente o povo: pois todas as outras espécies de pessoas eram obrigadas a contribuir com a quarta parte de seus frutos e de suas rendas e os que se chamam de libertos, isto é, aqueles dos quais os pais haviam sido outrora servos, a oitava parte de seus bens, paga uma vez: levantou-se assim um grande clamor e toda a Itália estava convulsionada e em grande efervescência, de modo que se contam entre as maiores faltas que jamais Antônio cometeu, o adiamento e a dilação da batalha.  Porque ele deu a César a oportunidade de fazer seus preparativos e de acalmar as queixas e lamentações dos povos; pois quando se lhes pedia tanto dinheiro, eles se irritavam e se rebelavam, mas depois de ter pago, não se lembravam mais disso.

LXXVI. Ademais Tício e Planco, principais amigos de Antônio, homens consulares, pela grande injustiça e pelo mal que Cleópatra lhes fazia, porque tinham obstado com todo o seu poder que ela viesse a essa guerra, foram entregar-se a César, se lhe disseram onde estava o testamento que Antônio tinha feito, sabendo muito bem o que ele continha. Estava ele nas mãos das virgens sagradas, as Vestais, às quais César o pediu. Elas responderam que não lho entregariam: mas que se ele quisesse que o fosse buscar, pois não o impediriam, também. Por isso César foi, e tendo-o lido em particular, anotou algumas passagens reprováveis, mandou depois reunir todo o senado, e leu-o publicamente, com o que vários nao ficaram contentes: pois lhes parecia estranho que um homem, ainda vivo, sofresse a pena daquilo que ele determinava fosse feito depois de sua morte. César atacava primeiramente o que ele determinava que se fizesse com relação à sua sepultura: ele queria que seu corpo, embora ele morresse em Roma, passasse em cortejo fúnebre pelo meio da praça, e fosse enviado a Alexandria, a Cleópatra.   Ademais, Calvísio, um dos amigos de César, dentre outros encargos e incumbências que Antônio lhe havia dado por amor a Cleópatra, censurava ter-lhe ele dado como mero presente as livrarias da cidade real de Pérgamo, nas quais havia duzentos mil volumes simples: e que em um banquete onde havia várias pessoas à mesa, ele lhe pisou no pé, e levantou-se repentinamente da mesa para uma citação e conjuração que tinham combinado: que ele tinha permitido, estando ele presente, que os efésios chamassem a Cleópatra de sua senhora: que muitas vezes estando em seu tribunal, em conferência com reis e príncipes, êle tinha recebido dela, cartas de amor, escritas em tabuazinhas de cornalina ou cristal, e as tinha lido sentado em seu trono imperial: que um dia, quando Fúrmo, homem de grande autoridade e o mais eloqüente de todos os romanos, defendia uma causa perante êle, por acaso Cleópatra passou em sua liteira, pelo lugar onde se fazia a ação judicial; Antônio levantou-se imediatamente, e deixou a audiência para seguir a liteira. Todavia julgou-se que Calvísio tinha inventado a maior parte de tudo isso: contudo aqueles que queriam bem a Antônio rogavam o povo por êle, mandaram um tal, chamado Gemínio, a Antônio rogá-lo que não tolerasse, que por seu descaso lhe arrebatassem o império e o tivessem por inimigo do povo romano. Gemínio mesmo, tendo chegado à Grécia, por mar, despertou imediatamente as desconfianças de Cleópatra, porque ela pensou que ele tinha vindo só para falar em favor de Otávia: e por isso deu-lhe por várias vezes demonstrações de pouco caso: durante todo o jantar não deixou de o motejar e de lhe dirigir indiretas: para mostrar-lhe mais despeito ainda ela o fez sentar-se à mesa nos lugares menos honrosos: tudo ele suportou pacientemente, esperando a ocasião de falar com Antônio. Mas, tendo Antônio durante o jantar pedido a ele que dissesse a razão da sua vinda, ele respondeu que não era um assunto a ser discutido à mesa, e que o diria no dia seguinte de manha: mas, nessa circunstância, quer estivesse ele em seu juízo, ou estivesse embriagado, estava certo de uma coisa, que tudo jamais iria bem, se não se fizesse Cleópatra voltar para o Egito. Antônio tomou a mal estas palavras e Cleópatra respondeu-lhe: "Procedeste sabiamente, Gemínio, confessando a verdade, antes que fosses obrigado a fazê-lo à força de torturas". Pouco depois Gemínio fugiu para Roma. E os aduladores para agradar a Cleópatra fizeram expulsar vários outros dos melhores servidores e amigos de Antônio, os quais já não podiam tolerar as injúrias e as contundias que se lhe dirigiam, dentre os quais estavam também Marco Silano e Délio, o Historiador, o qual escreveu que êle fugira porque fora avisado pelo médico Glauco que Cleópatra o vigiava para mandar matá-lo. Êle tinha incorrido na sua inimizade porque um dia, jantando, dissera que lhe serviam vinho azedo, e que Sarmento, em Roma, bebia o vinho de Falerno. Este Sarmento era um jovem muito insinuante, daqueles que os senhores de Roma costumavam ter consigo para fazê-los passar o tempo, e aos quais chamavam de suas delícias, e era de César.

LXXVII. Depois que César terminou seus preparativos, decretou publicamente a guerra contra Cleópatra e destituiu a Antônio do poder do império, pois ele já o tinha antecedentemente cedido a uma mulher. E dizia ainda César que Antônio não era senhor de si, porque Cleópatra, por meio de seus encantos e de seus venenos amorosos, o havia privado de seu bom senso e que lhes fariam guerra, um Mardion que era eunuco, um Fotino, uma Iras, sua criada de quarto de Cleópatra, que lhe penteava o cabelo, e um Charmion, que dirigiam os principais assuntos e negócios do império de Antônio. Antes desta guerra, como se diz, aconteceram estes sinais e prodígios: primeiro, a cidade de Pi-sauro, que tinha sido repovoada por Antônio, à margem do mar Adriático, por um violento tremor de terra foi tragada pela terra e desapareceu no abismo. Uma das estátuas de pedra que tinham sido erguidas em honra de Antônio na cidade de Alba, suou por vários dias: e embora alguém a enxugasse, ela não deixava de suar. Na cidade de Patras, durante o tempo em que Antônio lá estava, o templo de Hércules foi destruído pelo raio que sobre ele caiu, e em Atenas num lugar, onde havia a guerra dos gigantes contra os deuses representada em estátuas, a de Baco, foi arrancada e lançada no teatro por um turbilhão de vento. Antônio dizia-se proveniente da raça de Hércules, como já dissemos também anteriormente, e na sua maneira de viver imitava a Baco, por essa razão era chamado de novo Baco. A mesma tempestade abateu os colossos, isto é, imagens excessivamente grandes, muito além do natural, feitas em honra de Eumenes e de Átalo, os quais eram chamados de Antoníanos. E não causou mal aos outros, embora houvesse havido vários. Na galera capitania de Cleópatra, chamada Antoniada, aconteceu uma coisa de presságio sinistro: as andorinhas tinham feito seu ninho debaixo da popa: vieram outras pouco depois, que afugentaram estas primeiras e destruíram seus ninhos.

LXXVIII. Quando tudo estava pronto e preparado e que se aproximaram, para combater constatou-se que Antônio não tinha menos de quinhentos navios de guerra, entre os quais havia várias galeras de oito e dez ordens de remos, que tinham sido preparadas e equipadas soberbamente, não tanto para o combate como para o triunfo, cem mil homens de infantaria, com doze mil cavaleiros, e tinha ainda com ele, para seu socorro os reis, seus súditos e vassalos, que seguem: Boco, rei dos líbios, Tarcondemo, da alta Cilícia, Arquelau, da Capadócia, Filadelfo, rei da Paflagônia, Mitrídates, rei de Comagena, Adallas, da Trácia, que estavam em pessoa, com ele. Os que estavam ausentes mandaram seus exércitos, como Polémon, rei do Ponto, Manco, da Arábia, Herodes, rei dos judeus, e além desses, Amintas, dos licaônios e (43) dos gaiatas: tinha ainda o auxílio que lhe mandava o rei dos medas. Quanto a César tinha duzentos e cinqüenta navios de guerra para o combate, oitenta mil homens de infantaria e cavalaria mais ou menos tantos quantos o seu inimigo: e Antônio tinha sob sua obediência, de um lado toda a terra que está além da Armênia e o rio Eufrates até o mar Jônico e a Eslavônia e César por seu lado tudo o que resta em nosso hemisfério desde a Eslavônia até o Oceano no poente, e depois tudo o que está além do Oceano até o mar da Sicília e da África, tudo o que está do lado oposto da Itália, das Gálias e da Espanha: o que estava além da província da Cirenaica até a Etiópia, estava sob Antônio, o qual estava tão dominado pela vontade de uma mulher que embora êle fosse muito mais forte por terra, quis no entretanto que a empresa se realizasse por um combate no mar, por amor a Cleópatra,   embora  êle visse  com seus  olhos  que, por falta de forçados, suas capitanias tiravam e levavam da pobre Grécia, à força, todos os jovens que se podiam encontrar pelos campos, viandantes, almocreves, ceifadores, rapazes de serviço e ainda que não podiam fornecer o suficiente para encher as galeras, de modo que ainda uma grande parte estava vazia e -não podia vogar, porque não tinha número suficiente de braços para movê-la. Mas, ao contrário, as de César não estavam equipadas com tanta pompa e grandeza, para uma ostentação de magnificência, mas estavam bastante leves, ligeiras e fáceis de se manejar, armadas e guarnecidas de forçados, como era de mister, as quais êle conservava prontas nos portos de Tarento e de Brindisi. LXXIX. Mandou então dizer a Antônio que não recuasse mais perdendo tempo e que viesse com seu exército para a Itália que êle lhe dana portos e ancoradouros para poder em segurança e sem obstáculos descer em terra, e que retrocederia com seu exército para trás do mar, na Itália, quanto se pode estender a corrida de um cavalo, até que tivesse colocado seu exército em terra, e tivesse êle mesmo se preparado. Antônio ao contrário, mostrando-se corajoso, mandou dizer-lhe que o desafiava a combater a sós em campo fechado embora êle fosse mais velho, e que se êle evitava este combate que êle o combateria em pugna organizada nos campos de Farsália, como haviam feito antes Júlio César e Pompeu.

 

(43)   Acrescente-se:   Dejotaro,   rei   dos   gaiatas,   como   se   verá mais adiante.

LXXX. Enquanto Antônio estava ancorado, sem nada fazer ao abrigo do chefe de Áctio (44) no lugar onde hoje está a cidade de Nicó-polis, César atravessou o mar Jônico e ocupou o lugar que se denomina Torine sem que Antônio tivesse notícias da sua partida: e por isso seus homens muito se espantaram, porque seu exército de terra ficou para trás. Mas Cieópatra zombando, disse: "Bem, que perigo há se César está acampado em Torine (45) ?" No dia seguinte, pela manhã, os inimigos puseram-se em movimento, navegando para dar-lhes combate: Antônio teve receio de que viessem a chocar-se e lhe tomassem e levassem os navios que estavam desprovidos de homens: organizou então os forçados, deu-lhes armas e os alinhou na amurada dos navios, depois fez levantar todos os remos no ar, tanto de um lado como do outro, com a proa voltada para os inimigos, à entrada da caverna (46) que começa na ponta de Áctio e os teve assim em ordem de batalha, como se eles estivessem armados e equipados, tanto de forçados como de soldados aptos para o combate. César enganado por este ardil retirou-se: e com isso Antônio cortou-lhe a água, sutil e engenhosamente: pois sabendo que os lugares circunvizinhos onde ele havia descido à terra tinham pouca água e muito ruim, ele os encerrou entre trincheiras e fortes, que construiu nos arredores, para impedi-lo de sair à. vontade e ir buscá-la mais longe: fez a Domício, mesmo contra a vontade de Cleópatra, um ato de gentileza, pois como ele tivesse ido em uma pequena barca para o campo de César, preso de grande agitação, Antônio ficou imensamente pesaroso: mas no entretanto, mandou após dele, toda sua bagagem, seus pertences e seus homens: por ter sido descoberta sua traição, morreu imediatamente. Também alguns reis o deixaram e passaram para o lado de César, como Amintas e Dejotaro.

 

(44)    Cidade e promont ório da Acamânia, célebre pela batalha que decidiu o império do mundo entre Augusto e Antônio.

(45)        A gra ça da frase não se pode exprimir-em outra língua por causa da ambigüidade da palavra Torine, que significa uma cidade da Albânia e uma colher com a qual se tira a espuma da vasilha, como se ela dissesse, que César estava em casa, a tirar espuma de uma vasilha. — Amyot.

(46)    N ão se trata de caverna, aqui, mas da entrada do porto ou do ancoradouro.

 

LXXXI. O que e mais, porem, seus navios, sempre infelizes, não estavam prontos para o serviço, obrigaram-no novamente a mudar a sua deliberação e a tentar a batalha por terra; Canídio que tinha o comando do exército de terra, quando chegou o momento de pôr mãos à obra, começou também a mudar de opinião, aconselhando a Antônio que mandasse embora Cleópatra, que ele se dirigisse à Macedônia para combater por terra, pois que Dicome, rei dos getas, prometia-lhe vir em seu auxílio, com grande poder, e que não lhe seria absolutamente vergonha alguma ceder o mar a César, pois ele, se tinha exercitado e seus soldados também em combates marítimos, durante a guerra da Sicília contra Sexto Pompeu: mas, que, ao invés, seria coisa fora de todo bom senso, se ele, que tinha tanta experiência em combates por terra, não se servisse da força e da coragem, bem como da perícia de seus soldados, da valentia de todos seus homens de infantaria que estavam todos prontos, mas fosse enfraquecendo seu exército dividindo-o e distribuindo-o pelos navios.

LXXXII. Não obstante todas estas razoes e motivos, Cleópatra obrigou-o a entregar tudo ao sabor de uma batalha naval, imaginando, porém, desde então, como poderia fugir, e dispondo seus negócios, não para ajudar a conquistar a vitória, mas para mais rapidamente escapar quando tudo estivesse perdido. Havia desde o campo de Antônio até o lugar onde estavam ancorados seus navios, um caminho longo que muito antes tinha sido preparado, como lançado por sobre o mar, pelo qual ele ia e vinha freqüentemente sem suspeitar de coisa alguma. Um dos homens de César percebeu-o e foi avisar seu senhor, dizendo que seria muito fácil surpreender e prender a Antônio, quando ele percorresse aquele trecho do caminho; César então para lá enviou alguns homens que se puseram de emboscada para vigiá-lo, e pouco faltou que não o agarrassem, tendo apanhado o que ia diante dele, porque se levantaram do esconderijo um pouco antes do tempo e ele pode com dificuldade, porém, escapar rapidamente. Depois que estava determinado que se combateria por mar, ele mandou queimar todas as outras naus, exceto umas sessenta egípcias, conservando apenas as melhores, as maiores galeras de três ordens de remos, até dez, sobre as quais colocou vinte e dois mil combatentes, com dois mil archeiros: mas enquanto ele preparava seus soldados para a batalha, um chefe de um grupo de homens, corajoso e valente, que se tinha encontrado várias vezes sob seu comando em várias empresas, tanto que tinha o corpo cheio de cicatrizes, quando Antônio passava perto dele, gritou em voz alta: "Sir Imperador! Como põe sua esperança nestes frágeis e míseros barcos? Desconfia talvez destas minhas cicatrizes e desta espada? Deixe os egípcios e os fenícios que combatam por mar, e vamos nós para terra firme, onde estamos acostumados a vencer, ou a morrer de pé!" Antônio continuou o caminho, sem nada responder, somente acenou-lhe com a mão e com a cabeça, como querendo dizer-lhe que ele tinha coragem e valor, todavia, ele mesmo não tinha grandes esperanças: como os pilotos e comandantes das galeras quisessem soltar as velas, ele ordenou que atacassem, dizendo com seu gesto, que não devia escapar nem sequer um dos inimigos.

LXXXIII.    Durante todo esse dia e os três seguintes, o mar esteve tão forte e tão borrascoso, batido de ventos impetuosos, que a batalha foi adiada. No quinto dia o vento acalmou-se, e o mar tornou-se sereno, e então navegaram à força de remos, um contra o outro, na expectativa da batalha, Antônio levando a ponta direita com Publícola e Célio a esquerda, Marco Otávio e Marco Insteio, o centro. Do outro lado César tinha posto na extrema-esquerda de seu exército a Agripa e tinha conservado a direita para ele. Quanto aos exércitos de terra, Canídio tinha o supremo comando do de Antônio, e Tauro, o de César, os quais se puseram em posição de combate, um diante do outro, à margem do mar, sem se chocarem. Quanto aos dois soberanos chefes, Antônio estava numa das fragatas, navegando como se estivesse com todo seu exército, encorajando seus homens a combater como se estivessem em terra firme, por causa do peso e da firmeza de seus navios, ordenando aos pilotos e comandantes das galeras, que sem se mover, como se estivessem ancorados, sustentassem o primeiro choque dos inimigos e não abandonassem a entrada da caverna (47) . César, no dia seguinte cedo, quando saía de sua tenda para vir visitar seus navios, encontrou um homem que tocava um jumento diante de si; perguntou-lhe quem ele era e qual o seu nome. Eu me chamo, disse o bom homem, Eutico, que quer dizer, muito feliz: e meu jumento chama-se Nicon, isto é, vencedor: por isso César depois de ter ganho a batalha, adornando o lugar com espo-rões dos navios e das galeras aprisionadas, como uma marca da vitória ali fez também erguer a estátua de um homem e de um burro, de bronze. Quando depois visitou bem todo o seu exército, inspecionando-o fêz-se transportar numa barca para a ponta direita e muito se maravilhou por ver que seus inimigos conservavam-se imóveis dentro do estreito: pois ao vê-los de longe ter-se-ia dito que os navios estavam ancorados e por muito tempo ele pensou assim: conservou então suas galeras longe do inimigo mais ou menos uma meia légua.

(47)   Veja a nota 46 à página 389.

 

LXXXIV. Chegando o meio-dia, começou a soprar uma leve brisa e então os soldados de Antônio, impacientes de tão longa demora, e confiando na força e no poder de seus navios, como se fossem totalmente inexpugnáveis, começaram a avançar pela ponta-esquerda: vendo isso, César ficou muito contente, e começou a retroceder um pouco e recuar a ponta direita, querendo atraí-los mais para fora do estreito, e da embocadura do porto, a fim de que pudesse com seus navios que eram leves e bem guarnecidos de forçados, rodear e cercar as galeras dos inimigos, que eram pesadas e vazias, tanto pelo rcu grande volume como também porque tinham falta de remadores. Quando começou a refrega e eles já combatiam corpo-a-corpo, não houve violência na luta, nem os navios se chocaram,  fortemente, uns contra os outros, como se faz ordinariamente, nos combates navais, porque, de um lado os navios de Antônio pelo seu peso não podiam ter a velocidade nem a rapidez, que torna os golpes de ponta violentos e eficazes, e por outro lado, os navios de César evitavam, não somente chocar-se e enfrentar os de Antônio, que tinham a proa revestida de pontas de cobre: não ousavam ainda nem mesmo atacá-los pelos flancos, porque suas pontas se quebravam facilmente de qualquer lado que eles sustivessem a violência dessas naus, que eram feitas de grandes pedaços de madeira quadrada, ligadas juntamente por tiras de ferro de modo que a batalha era quase como um combate terrestre, ou melhor, o assalto de uma cidade, pois umas três ou quatro das de César sempre rodeavam as de Antônio, e os soldados combatiam a golpes de lanças, de alabardas e lançavam potes e lanças incandescentes: e os de Antônio com balestras e máquinas de atirar, lançavam também flechas do alto das torres de madeira de seus navios.

LXXXV. Ora, Publicola vendo Agripa estender e alargar a ponta-esquerda do exército de César para cercar Antônio, que combatia, foi também obrigado a passar para o largo, e assim pondo-se um pouco para o lado, afastou os que estavam no meio da batalha, os quais se assustaram: pois estavam já bastante oprimidos por Arúncio: todavia  o  combate  ainda  estava  equilibrado, e  a vitória pendia duvidosa, sem se inclinar mais para um lado do que para outro, quando repentinamente as sessenta naves de Cleópatra levantaram os mastros e desfraldaram as velas para a fuga: passaram através das que combatiam, pois tinham sido colocados atrás dos grandes navios, e puseram as outras em grandes dificuldades, porque os mesmos inimigos se maravilharam muito de vê-las singrar de velas estendidas para o Peloponeso: foi quando Antônio mostrou mesmo que tinha perdido o bom senso e a coragem não somente de imperador mas também de um homem virtuoso, e que tinha a mente ofuscada, e que isso era verdade,. nós o sabemos, pois um ancião disse gracejando: "Que a alma de um amante vive no corpo de outrem, não no próprio", tanto ele se deixou dominar por essa mulher, como se estivesse colado a ela, e que ela não se soubesse mover sem movê-lo também com ela. Pois logo que ele viu partir o seu navio, esqueceu, abandonou e traiu os que combatiam e se deixavam matar por ele, e lançou-se (48) em uma galera de cinco ordens de remos para seguir àquela que já começava a ser a causa de sua ruína, e que deveria ainda acabar por destruí-lo.

(48) Acrescente-se: acompanhado somente por Alexandre da Síria, e por Scélio. Não sei por que Amyot omitiu estas palavras: Alexandre da Síria é o mesmo que se vai encontrar mais adiante com o nome de Alexas de Laodicéia.

 

LXXXVI. Quando ela percebeu de longe aquela galera, mandou tirar da popa do seu navio um escudo e assim Antônio aproximou-se e depois passou ao navio e foi onde estava Cleópatra, mas não a viu nem ela a ele; foi Antônio sentar-se sozinho, em silêncio, na proa do navio, com a cabeça entre as mãos: e no entretanto alguns navios de César, que o perseguiam, aproximaram-se: Antônio imediatamente fez voltar a proa da nau, e obrigou os outros a se afastar, menos o de um certo Euricles Lacedemônio, que sempre o perseguia, com muita insistência, brandindo um dardo que tinha na mão, do alto da proa, como se o quisesse lançar contra Antônio: ele veio postar-se no castelo da frente e perguntou: "Quem é este que persegue Antônio?" — "Eu sou, respondeu êle, Euricles, filho de Laçares, que por meio da boa sorte de César procuro vingar a morte de meu pai". Pois Laçares tinha sido acusado de furto, e Antônio o tinha feito decapitar: contudo Euricles evitou atacar o navio onde estava Antônio, mas deu à outra capitania, pois havia duas, tão grande golpe de ponta, que era de cobre, grande e reforçada, que o fez revirar, e apoderou-se de toda a carga, a qual consistia em grande quantidade de móveis muito ricos e preciosos. Depois que êle se retirou, Antônio voltou ao mesmo lugar, e colocou-se na mesma atitude, como antes, em profundo silêncio, e assim passou três dias sem falar com ninguém até que chegaram a Tenaro, onde as damas de Cleópatra os fizeram falar um com o outro, e depois, cearam e foram dormir juntos.

LXXXVll. Já começavam a se reunir a eles grande número de navios mercantes, e alguns familiares que tinham escapado à derrota, os quais traziam notícias de que o exército de mar estava perdido, mas que pensavam que as forças de terra ainda existiam: então Antônio mandou a Canídio que voltasse com seu exército pela Macedônia, à Ásia. Êle, porém, pensava em dirigir-se à África -tomou então uma de suas caravelas, cheias de ouro e prata e de várias outras coisas preciosas e a deu aos seus amigos, mandando-lhes que repartissem entre si, e que procurassem salvar-se. Eles, porém, responderam chorando, que não o fariam e que jamais o abandonariam. Então Antônio os animou, com palavras comovidas e muito afetuosas, rogan-do-lhes que se retirassem; escreveu a Teófilo, governador de Corinto, que lhes desse os meios de se porem em segurança, e que os escondesse em algum lugar secreto até que eles tivessem se avistado com César. Teófilo era pai de Hiparco, que gozara de grande crédito perante Antônio; foi êle o primeiro de todos os seus libertos, que se voltou e se reuniu a César, e logo depois foi residir em Corinto. Eis como êle foi ter com Antônio.

 

LXXXVIII. A sua esquadra, que combatia diante de Áctio, pôde resistir por muito tempo, e nada lhe causou tão grande prejuízo, como um vento forte que se levantou por diante, na proa; foi, porém, ao depois, com grande dificuldade, destruída às cinco horas da tarde. Morreram mais de cinco mil homens, e foram ainda aprisionados uns trezentos navios, como César mesmo o diz em seus Comentários. Muitos tinham mesmo visto Antônio fugir, e no entretanto, custavam a acreditá-lo, que êle, que tinha ainda dezenove legiões intactas e doze mil soldados de cavalaria, à beira do mar, os tivesse abandonado, e fugido tão covardamente, como, se êle nunca tivesse experimentado uma e outra vicissitudes: e que não estivesse habituado às várias alternativas da batalha e no entretanto ainda o desejavam seus homens, e esperavam sempre que êle voltasse de alguma parte: e se mostravam tão fiéis e leais para com êle, que ainda que tivessem certeza da sua fuga, permaneceram sete dias inteiros, nao prestando atenção aos embaixadores que César lhes enviava todos os dias. Finalmente, seu chefe, Canídio, lugar-tenente de Antônio, também fugiu de noite e saiu do acampamento; quando se viram abandonados por seus chefes, então entregaram-se ao mais forte.

LXXXIX. Depois disto César navegou para a cidade de Atenas, onde teve uma entrevista com os gregos, e distribuiu o que restava do trigo que se tinha reunido para o exército de Antônio, às cidades e aldeias da Grécia, as quais estavam reduzidas à extrema pobreza e miséria, esgotadas de dinheiro, de servos, de cavalos, de outros animais de carga e de carro: de tal modo que o meu bisavô Nicarco contava que então os cidadãos da nossa cidade, sem excetuar-se um só, foram obrigados a levar eles mesmos sobre seus ombros uma certa quantidade de trigo até a costa do mar, que está diante da ilha de Anticira e ainda eram açoitados com golpes de chibata. Desse modo, porém, levaram-no somente uma vez, pois na segunda viagem, quando deviam levar de novo outra quantidade, e as cargas já estavam quase todas divididas, chegaram notícias de que Antônio tinha perdido a batalha, o que foi a salvação da nossa pobre cidade: pois os comissários de homens de armas de Antônio fugiram imediatamente e os cidadãos repartiram o trigo entre eles.

XC. Antônio, tendo chegado à Líbia, mandou adiante Cleópatra ao Egito, da cidade de Paretônio e ficou sozinho em grande solidão, tendo por companheiros apenas dois familiares, com os quais errava cá e lá: ambos eram retóricos, um grego, Aristócrates e o outro, romano, Lucílio; deles já escrevemos em outro lugar: como quando Bruto foi derrotado perto da cidade de Filipes, ele veio espontaneamente entregar-se nas mãos dos que perseguiam a Bruto, dizendo que era ele, a fim de que Bruto, entretanto, tivesse ocasião de se salvar e depois porque Antônio lhe salvou a vida, ele ficou em sua companhia e manteve-lhe fidelidade e lealdade de amizade até o fim de seus dias. Mas quando Antônio foi notificado de que aquele ao qual ele havia confiado o governo da Líbia e ao qual tinha dado o comando do exército, que ainda existia, tinha passado para o lado de César, ficou tão des-gostoso que quis se matar, e o teria feito, se seus amigos o não tivessem impedido. Foi para Alexandria onde encontrou Cleópatra entregue a uma empresa grandiosa e que dela exigia muita coragem e ousadia: há entre o mar Vermelho e o que banha as costas do Egito um pequeno espaço de terra que separa os dois mares, e divide a África da Ásia, e que se localiza bem no ponto em que os dois mares se apertam e se restringem o mais possível, e que mede de largura mais ou menos dezoito léguas (49) e meia. Cleópatra tencionava fazer tirar seus navios de um mar e fazê-los transportar até o outro, pelo estreito, e depois que eles estivessem colocados nessa caverna (50), da Arábia, transportar então todo o seu ouro e sua prata, e partir com um grande séquito de seus amigos, para residir em alguma terra do Oceano, longe do Mediterrâneo, para fugir ao perigo dessa guerra e da escravidão: mas, porque os árabes que estão nos arredores da cidade de Petra, queimaram os primeiros navios que para lá se haviam levado, e Antônio pensava que seu exército de terra, que estava perto de Áctio, ainda existia, ela desistiu dessa empresa, e mandou guardar os portos, passagens e saídas de seu reino. Antônio, então, por sua vez, deixou a cidade e a companhia dos amigos, e mandou construir uma casa dentro do mar, perto da ilha de Faros, sobre bases que mandou colocar no meio das águas, e lá vivia com alguns homens, afastado dos demais, dizendo que queria levar uma vida como a de Timon, porque havia acontecido a ele a mesma coisa, pela ingratidão e pela grande injustiça que os outros haviam cometido contra ele, máxime aqueles aos quais havia feito muitos benefícios, e considerava como amigos, ele desconfiava de todos os demais e os desprezava.

(49)        Em grego, 300 est ádios,  12 léguas e meia.

(50)    Golfo.

 

XCI. Timon era um cidadão de Atenas que vivera no tempo, mais ou menos, da guerra do Peloponeso, como se pode deduzir das comédias de Platão e de Aristófanes, nas quais ele é criticado como inimigo do gênero humano, por recusar e evitar toda e qualquer companhia e comunicação com os demais homens, exceto Alcibíades, jovem, ousado e insolente, ao qual ele dava mostras de amizade, abraçando e beijando de boamente, e por isso Apemanto se irritava, e perguntava-lhe qual o motivo, pelo qual tanto queria assim a um homem como ele, e unicamente a ele, e desprezava a todos os outros: "Eu o amo, respondeu ele, porque eu bem sei e estou certo de que um dia ele será causa de grandes males aos atenienses". Timon tinha recebido algumas vezes a Apemanto e com ele conversara, porque mais ou menos tinha a mesma natureza e os mesmos hábitos que ele, e porque imitava muito a sua maneira de viver. Um dia, quando se celebrava em Atenas a solenidade a que chamam de Choe, isto é, a festa dos Mortos (51) e se fazem sacrifícios e libações pelos mortos, eles juntos, festejavam a data, sozinhos, quando Apemanto começou a dizer: "Eis aqui um belo banquete, Timon"; e Timon respondeu: "Sim, muito belo, se tu nao estivesses aqui". Diz-se que um dia quando o povo estava reunido na praça para o ajuste de algum negócio, ele subiu à tribuna, como faziam ordinariamente os oradores, quando queriam falar ao povo: fêz-se logo grande silêncio, e cada qual estava atento para escutar o que ele iria dizer, pois era coisa desusada e uma novidade estranha vê-lo na tribuna; começou então a dizer: "Senhores atenienses, tenho em minha casa um íugarzinho, onde há uma figueira, onde vários já se enforcaram: e como eu quero construir nesse lugar, eu quis antes advertir-vos, antes de cortar a figueira, para que se alguém ainda quiser se enforcar, que se apresse". Êle morreu na cidade de Hales (52)  e foi sepultado à beira-mar. Aconteceu que em redor de sua sepultura o mar transbordou de modo que alcançou as proximidades do túmulo, e impedia que alguém dele se aproximasse, sobre o qual estavam gravadas estas estrofes:

Tendo terminado minha vida miseravelmente, neste lugar me  sepultaram: Morrei, malvados, de morte desastrada, sem perguntar como eu me chamava.

Diz-se que ele mesmo ainda vivo fez este belo epitáfio, pois aquele que a ele se atribui comumente, não lhe pertence, mas é do poeta Calímaco:

Aqui tenho para sempre a minha morada, Timon, odiando ainda os homens; passa, leitor, dando-me uma hora má, passa somente, e vai maldizendo-me.

Poderíamos ainda escrever outras coisas do mesmo Timon, mas o pouco que dissemos é bastante, por hora.

(51)    Veja  as  Observações.

(52)    Na Atica:  havia duas  aldeias com esse nome.

 

XCII. Voltando então a Antônio, o mesmo Canídio lhe veio trazer notícias, que ele tinha perdido o seu exército de terra perto de Áctio. Por outro lado, ele também foi notificado, que Herodes, o rei dos judeus, que tinha com ele algumas coortes  e  algumas  legiões,  tinha  passado  para  o lado de César, e todos os outros reis haviam feito o mesmo, de modo que, fora os que estavam junto da sua pessoa, nada mais havia que estivesse com ele. No entretanto nada de tudo aquilo o perturbou, e parecia até que ele estava bem contente de deixar toda esperança, a fim de poder desobrigar-se também de todo o peso dos negócios públicos: saiu então daquela moradia que ele havia feito construir dentro do mar, e à qual ele chamava a mansão timoniana, e o recebeu Cleópatra em seu palácio real. Logo que ele lá chegou, toda a cidade se pôs a dar-lhe banquetes, e festas se organizaram, por sua iniciativa também: pois ele fez inscrever, segundo o costume romano, o filho de Júlio César e de Cleópatra, no número dos jovens, e deu a veste viril, que era veste longa, imaculada, sem bordados nem adornos de púrpura, a Antilo, seu filho primogênito, que tivera de Fúlvia; por estes fatos houve durante vários dias em Alexandria, festas e divertimentos, jogos e danças, banquetes e festins. É verdade que eles aboliram aquela primeira agremiação a que chamavam de grupo da vida inimitável: mas organizaram uma outra, a que denominaram de Sinapotanumenon, isto é, o grupo daqueles que querem morrer juntos, que em suntuosidade, gastos e prazeres nada ficava a dever à primeira: pois seus amigos alistando-se nesta agremiação de co-moribundos, assim viviam sempre alegres, porque cada qual, por sua vez, procurava tornar festiva a reunião.

 

XCIII. Entretanto Cleópatra fazia uma lista de todos os venenos que têm o poder de matar os homens: e para conhecer os que faziam morrer com o mínimo de dor, ela os experimentava nos criminosos de morte que estavam nas prisões: mas, quando ela viu, que aqueles que eram rápidos, traziam logo a morte com dores e tormentos atrozes, e ao contrário, os mais suaves não tinham a força de causar a morte imediatamente, ela se pôs a experimentar as mordidas de serpentes, e fazia diante dela várias provas, aplicando a uns e outros os mais variados venenos: e embora fizesse todos os dias novas experiências, não encontrou nenhum, de todos os que experimentou, mais próprio do que a morde-dura de uma serpente, que sem gemido ou estertor, causa somente um peso na cabeça e uma grande vontade de dormir, com um pouco de suor no rosto; e pouco a pouco amortece os sentidos, sem que os pacientes sintam grandes dores, pois ficam quase fora de si, como adormecidos, ou atordoados, como quem desperta do sono, e ainda tem grande vontade de novamente dormir.

XCIV. Não obstante eles enviaram embaixadores a César, na Ásia, ela pedindo o reino do Egito para seus filhos, e ele rogando que o deixasse viver em Atenas, como um particular, se César não quisesse que ele residisse no Egito. E como eles não tivessem junto de si pessoas de destaque, porque alguns  tinham  fugido  e  eles  não  confiavam muito nos outros, foram obrigados a mandar para lá a Eufrônio, o preceptor de seus filhos. Pois Alexas Laodicense, que tinha sido introduzido na casa e na amizade de Antônio por Timagenes e depois tinha conquistado mais crédito e favor que nenhum outro grego, porque tinha sido sempre um dos instrumentos e ministro de Cleópatra para ganhar Antônio, e para desfazer todas as suas deliberações de regressar para junto de Otávia, Antônio o havia mandado a Herodes, rei dos judeus, para tentar conservá-lo na sua amizade, e impedir que o abandonasse: mas êle ficou lá e traiu a Antônio pois em vez de converter o outro, êle o aconselhou a abandoná-lo e teve ainda a ousadia de se apresentar a César, entregando-se a Herodes. Contudo Herodes de nada lhe serviu, pois êle foi imediatamente preso e levado sob ferros ao seu país, onde por ordem de César, foi morto. Eis como Alexas foi castigado pela sua traição, pelo inimigo mesmo de Antônio, e pela deslealdade de que havia usado para com êle.

XCV. Finalmente César não quis ouvir os rogos e pedidos de Antônio; quanto a Cleópatra, porém, êle respondeu-lhe que nada lhe recusaria que fosse justo e eqüitativo, contanto que ela fizesse morrer ou expulsasse de seu país, a Antônio, e enviou logo um de seus servidores, chamado Tireu, homem ilustre e sensato, que, levando carta de crédito de um jovem senhor a uma senhora orgulhosa, que muito se comprazia de sua beleza e nela confiava, tê-la-ia, por sua eloqüência facilmente podido movê-la. Este homem falava-lhe mais tempo que os outros e prestava-lhe a rainha grande honra, de modo que despertou suspeitas e desconfianças em Antônio: assim foi que este o mandou açoitar e depois o mandou assim a César, como notificando-o de que êle o havia irritado, porque fazia pouco caso dele, mostrando-se soberbo e o tinha desprezado, naquela contingência, principalmente, quando êle estava se consumindo na miséria em que se encontrava: "Em suma, se achas que êle é mau (disse êle), tens junto de ti, um de meus libertos Hiparco, toma-o, se queres, e açoita-o à vontade, para que sejamos iguais". De então em diante, Cleópatra, para se desculpar das acusações que se lhe faziam, e das suspeitas que se levantavam contra ela, entre-tinha-o e o acariciava mais que de costume; agora ela celebrava o dia do seu nascimento, com pouca solenidade e modestamente, como convinha à sua situação e fortuna presente, e ao contrário, celebrava o dia do seu nascimento de tal sorte, que ultrapassava os limites da suntuosidade e da magnificência de modo que muitos dos convidados ao festim, que haviam chegado pobres, voltavam ricos.

XCVI. Enquanto estas coisas se passavam, Agripa por várias cartas sucessivas, ordenava a César que regressasse a Roma, porque os negócios exigiam a sua presença indispensàvelmente,  pelo que a guerra foi diferida para o ano seguinte; apenas o inverno passou, porém, ele voltou novamente contra Antônio, pela Síria, e os seus outros generais pela costa da África. Ora, como a cidade de Pelúsio tivesse sido tomada, correu uma voz pela cidade, que Selêuco a tinha entregue com o consentimento de Cleópatra; mas, para mostrar que não, ela entregou nas mãos de Antônio sua mulher e seus filhos, para que se vingasse segundo a sua vontade. Ademais, ela tinha há muito mandado fazer sepulturas e monumentos suntuosos, tanto em beleza de obra como em altura e grandeza de construção, perto do templo de ísis: para lá mandou levar tudo o que possuía de riquezas e de preciosidades dos antigos reis, seus predecessores, ouro, prata, pedras preciosas, esmeraldas, pérolas, ébano, marfim, cinamomo e outras coisas, muitas tochas, lenha, estôpa, de modo que César receando que tantos bens se perdessem e que essa mulher por desespero incendiasse tudo e queimasse tão grande riqueza, mandava-lhe sempre alguém que lhe dizia uma boa palavra, para manter-lhe sempre a esperança, enquanto ele se aproximava da cidade com o exército.

XCVII. E aproximou-se tanto que chegou a pôr o seu acampamento bem perto da cidade, dentro do campo onde se costumavam domar os cavalos e tratá-los; Antônio atacou-o e combateu valentemente, tanto que conseguiu afastar a cavalaria de César, e os perseguiu sob as armas até dentro do seu acampamento e depois voltou ao palácio, engrandecendo-se por essa vitória, beijou Cleópatra ainda vestido como estava de regresso do combate, elogiando ele um de seus homens, que naquela escaramuca havia combatido com valor e feito seu dever e ela para louvar sua virtude, deu-lhe uma pequena couraça e um elmo de ouro: mas o homem depois que recebeu esse presente, riquíssimo, deveras, de noite, se foi entregar a César. E Antônio mandou outra vez desafiar a César e apresentar-lhe combate homem contra homem. César respondeu-lhe que tinha outros modos de morrer que não aquele. Pelo que Antônio vendo que não lhe restava outro meio de morrer valentemente senão combatendo, deliberou fazer um último esforço, tanto por mar como por terra; e ceando, segundo se diz, ordenou aos seus servidores, à mesa, que lhe dessem de beber, e o tratassem do melhor modo possível, porque, disse ele "não sabeis se me podereis fazer amanhã o mesmo que agora, ou se servireis a outros senhores, e talvez nada mais exista de minha pessoa, senão um corpo morto e inerte". Todavia, vendo que seus servidores e amigos choravam, ouvindo estas palavras, para corrigir o que havia dito, acrescentou que não os levaria a um combate do qual não tivesse antes certeza de voltar, seguramente com a vitória, do que lá morrer valentemente e com glória.

 

XCVIII Finalmente, naquela mesma noite, pela meia-noite, mais ou menos, estando toda a cidade envolta em profundo silêncio, temor e tristeza, pela expectativa dessa guerra, diz-se que de repente ouviram-se harmonias de sons que brotavam de toda espécie de instrumentos, com os clamores de uma grande multidão, como se muitos dançassem e cantassem, tal como se costuma fazer nas festas de Baco, com movimentos e bailados satíricos: e parecia que essa dança percorria a cidade inteira, vindo da porta que correspondia ao campo dos inimigos, e que também por aquela porta toda a tropa cujo rumor se ouvia, saía para fora da cidade. Foi esta uma advertência aos que com razão procuravam a interpretação desse prodígio, que era o deus, ao qual Antônio tinha singular devoção em imitar e afeto em se lhe assemelhar, que os, deixava. No dia seguinte ao despontar do dia foi reunir os poucos soldados que ainda tinha, no outeiro que está em frente da cidade, e de lá observavam suas galeras que partiam do porto e vogavam contra as dos inimigos: permaneceram imóveis esperando alguma façanha de seus soldados, que estavam dentro: mas imediatamente, levados pela força dos remos, apenas se aproximaram, saudaram antes os de César e os de César retribuiram-lhes a saudação e das duas se fêz uma só armada, e em seguida navegaram para a cidade. Apenas estas coisas aconteceram, os cavaleiros de Antônio também se entregaram a César, abandonando-o, também, quando seus soldados de infantaria foram derrotados e dispersos: ele então retirou-se para dentro da cidade, clamando que Cleópatra o havia traído, em favor daqueles mesmos, contra os quais ele movera a guerra, por amor a ela.

XCIX. Então, ela, temendo o seu furor e o seu desespero, fugiu pára dentro daquele túmulo que tinha feito construir, e mandou fechar as portas e abaixar as grades que eram presas com grandes fechaduras e barreiras resistentes e mandou dizer a Antônio que ela tinha morrido. Êle acreditou sem mais e disse a si mesmo: "Que mais esperas, Antônio, quando a fortuna inimiga tirou-te a única coisa que te restava, pela qual ainda desejadas viver?" Depois de ter dito estas palavras, entrou no quarto, despiu a couraça e estando despido se pôs a dizer: "Ó Cleópatra, não estou sentido por estar separado de ti e privado de tua companhia, pois eu me dirigiria logo para junto de ti; mas estou atônito, pois tendo sido um grande general e um grande imperador, estou com efeito convencido de ser menos magnânimo e menos corajoso que uma mulher". Êle tinha um servo de nome Eros, em quem êle confiava, e ao qual êle havia já há muito tempo feito jurar que o mataria quando êle o tivesse ordenado: ordenou-lhe então que cumprisse a sua promessa: o servo, então, desembainhou sua espada, e a empunhou para feri-lo,  mas voltando o rosto para um outro lado, ele atravessou-se a si mesmo com a arma, e caiu morto aos pés de seu senhor: então disse Antônio: "Ó, gentil Eros, eu te conheço muito bem, e fizeste-o virtuosamente a ti mesmo, aquilo, que, mostrando-me, eu deveria fazer a mim também, o que não pudeste fazer em meu lugar". E então dizendo estas palavras, atravessou o ventre com sua espada e deitou-se num pequeno leito: o golpe não era mortal, e por isso a efusão do sangue diminuiu um tanto, quando ele se deitou, e depois de ter-se reammado um pouco, pediu aos que ali estavam que o acabassem de matar: mas eles todos fugiram do quarto e o deixaram gritando de desespero até que um seu secretário, de nome Diomedes, veio ter com ele, o qual tinha o encargo de levá-lo onde estava Cleópatra,  ao túmulo.

C. Quando ele soube que ela ainda vivia, mandou com grande afeto aos seus que o levassem para lá: eles, então, tomaram-no nos braços e assim chegaram até a entrada do mesmo. Cleópatra, porém, não queria abrir as portas, aparecendo, todavia numa das; janelas ao alto, atirou para baixo algumas cordas, às quais amarraram Antônio, e ela com duas outras mulheres, que ela permitira em sua companhia dentro do sepuícro, o puxou para cima. Os que estavam presentes a esse espetáculo dizem que jamais se presenciou coisa mais piedosa, pois levantavam aquele pobre homem todo banhado em sangue,  nas vascas da morte,  que estendia  as mãos para Cleópatra, e se sustinha como podia. Era coisa difícil suspendê-lo, principalmente tratando-se de mulheres; todavia, Cleópatra com grande esforço, empregando todas as suas energias, inclinando a cabeça para baixo, sem soltar as cordas, tanto fez que finalmente conseguiu fazê-lo chegar até junto dela, e com o auxílio das outras, animada pelos que estavam embaixo, que lhe procuravam também dar coragem, sofrendo tanto quanto ela naquela dolorosa expectativa. Depositou-o em seguida num leito, desatando suas vestes, batendo e esfregando-lhe o peito, friccionando o rosto e o estômago; enxugou-lhe o sangue, que lhe banhava o rosto, chamando-o seu senhor, seu marido e seu imperador, esquecendo quase sua miséria e sua própria infelicidade, pela compaixão e pena de quanto presenciava. Antônio fê-la terminar as lamentações, pediu vinho para beber, quer porque tinha sede, de verdade, quer porque assim esperava morrer logo e mais depressa. Depois de ter bebido, aconselhou-a a salvar a própria vida, se pudesse fazê-lo, sem desonra e sem vergonha, e que confiasse principalmente em Proculeio mais que em qualquer outro de todos os que tinham prestígio perante César: quanto a êle, que ela não o lamentasse pela miserável mudança de fortuna, no fim dos seus dias, mas que o julgasse muito feliz, pelos seus triunfos, e honras que havia recebido no passado: pois tinha êle sido durante sua vida o mais glorioso, o maior triunfador e o mais poderoso dos homens sobre a terra, e que então ele tinha sido vencido, não covardemente, mas com muito valor e coragem, ele que era. romano, por um outro, também romano. No momento mesmo de exalar o último suspiro, Proculeio chegou, mandado por César: porque depois que Antônio se ferira, e quando o levavam para a sepultura de Cleópatra, um de seus guardas, chamado Der-ceteo, tomou a espada com a qual ele se havia ferido e a escondeu: depois, roubou-a secretamente e foi o primeiro que levou a notícia da sua morte a César, mostrando-lhe ainda a espada tinta de sangue.

Cl. Césiar, tendo ouvido estas notícias, retirou-se ao mais íntimo da sua tenda, e se pôs a chorar de pena e a lamentar sua miserável fortuna, como a daquele que tinha sido seu aliado, seu cunhado e seu igual no império, e companheiro em vários feitos de armas e grandes empresas; depois chamou todos os seusi amigos e mostrou-lhes as cartas que lhe tinha escrito e respondido durante suas diversas altercaçoes e como em todas as coisas justas e razoáveis que ele lhe escrevia, o outro lhe respondia altiva e arrogantemente. Feito isto, mandou Proculeio, ordenando-lhe que tudo fizesse para apanhar viva a Cleópatra, se possível, porque ele temia que o seu tesouro fosse perdido e ainda mais, porque julgava que seria ela um grande ornamento para o seu triunfo, se ele a pudesse levar viva a Roma. Mas ela não se entregou nas mãos de Proculeio, embora tivessem falado com ele quando Proculeio aproximou-se das portas que eram muito grandes e fortes, e estavam fechadas com toda a segurança. Havia, porém, algumas fendas por onde a voz podia passar e ouvia-se que ela pedia o reino do Egito para seus filhos, e que Proculeio lhe respondia que tivesse toda esperança disso e que não duvidasse de se entregar à boa vontade de César.

CII. Tendo depois observado e considerado bem o lugar, ele veio relatar a César tudo o que acontecera; este mandou novamente a Gallo para parlamentar ainda uma vez com ela. Manifestou-lhe expressamente a sua vontade, insistindo, enquanto Proculeio preparava uma escada bem aíta junto da janela, pela qual Antônio havia passado, pela qual entrou no túmulo com dois homens, junto da porta onde Cleópatra estava, escutando o que Gallo lhe dizia. Uma das mulheres que estava lá encerrada com ela, por acaso viu Proculeio quando ele descia, e se pôs a gritar: "Pobre Cleópatra! Estás presa!" Voltando-se, viu Proculeio por trás dela; procurou então servir-se de uma pequena espada que usava sempre à cintura; mas o oficial avançou de repente, agarrou-a e disse: "Cleópatra, cometerás um grande erro contra ti mesma e contra César também, privando-o da ocasião de pôr em evidência toda a sua magnanimidade e clemência, dando aos que o querem mal, motivo de caluniar o mais humano dos príncipes que jamais existiu, como se fosse pessoa sem misericórdia, e no qual não se tivesse absolutamente confiança". Dizendo isto, tirou-lhe a espada que ela trazia, sacudiu-lhe as vestes temendo que ela tivesse algum veneno escondido.

CIII. Depois, César mandou um de seus libertos, chamado Epafrodita, ao qual ordenou expressamente que a guardasse, com cuidado e segurança, e que impedisse, absolutamente, que ela se matasse, e por fim, que a tratasse o mais gentilmente possível. Êle, por sua vez, entrou na cidade de Alexandria, entretendo-se com o filósofo Arrio, tomando-o pela mão, para que os cidadãos o tivessem em grande reverência, vendo que César o honrava tão altamente. Foi depois ao parque dos exercícios e subiu a uma cátedra elevada, que lhe haviam preparado diante da qual estava reunido por sua ordem, todo o povo de Alexandria, tremendo de medo, de joelhos!, por terra diante dele, pedindo misericórdia. César mandou-o levantar-se, e declarou publicamente que êle absolvia o povo, e lhe perdoava a ofensa e a traição que haviam cometido durante aquela guerra, primeiramente, por causa do fundador da cidade, Alexandre, o Grande: em segundo lugar, pela sua beleza, que êle apreciava e admirava muito: em terceiro lugar, pela amizade que dedicava ao seu amigo Arrio.  Tal honra prestou César a ele, que lhe pediu perdão e intercedeu por vários outros, dentre os quais Filóstrato, o mais eloqüente e o mais erudito de todos os sofistas e retóricos do seu tempo, por falar sempre e de improviso, mas que se dizia filósofo acadêmico com insígnias falsas: César, porém, que odiava sua natureza e seus costumes, não queria ouvir os seus rogos, por isso, então, êle deixou crescer uma longa barba branca e seguia a Arrio passo a passo, vestido de uma longa túnica preta, repetindo-lhe sempre um verso grego, mais ou menos assim: "Homens de saber, os sábios vão salvando. Ou eles mesmos não são sábios". César sabendo disto e querendo não tanto livrar Filóstrato do medo que êle tinha, como também evitar a Arrio o ódio e a inveja que poderiam ser suscitados contra êle, acabou por perdoá-lo .

CIV. Quanto aos filhos de Antônio, Anti-lo, o filho mais velho de Fúlvia, foi morto, porque Teodoro, seu preceptor, o entregou aos soldados, que lhe cortaram a cabeça, e tirou-lhe ainda uma pedra preciosa de grande valor que êle trazia ao pescoço, que êle coseu ao seu cinto, e depois negou tê-lo tirado, mas a pedra foi encontrada e por isso César o fêz crucificar. Os de Cleópatra eram guardados com seus preceptores, e os que tinham o encargo de suas pessoas os alimentavam honrosamente. Quanto a Cesário, que se dizia ser filho de Júlio César, sua mãe o havia mandado às índias, pela Etiópia, com uma grande soma de dinheiro: mas um outro seu preceptor, chamado Rodon, semelhante a Teodoro persuadiu-o a voltar, porque César o chamava para lhe entregar o reino de sua mae: e como César deliberava o que se deveria fazer, Arrio lhe disse:

Pluralidade de Césares não é boa (53).

Pelo que César ao depois o fez morrer, após a morte de Cleópatra. Vários príncipes, generais e reis pediram a César o corpo de Antônio, para sepultá-lo: mas ele não o quis tirar a Cleópatra e foi sepultado com pompa real e magnificamente pelas mãos dela mesma, à qual foi permitido tomar tudo o que quisesse para empregar no seu funeral.

CV. Estava ela torturada pela tristeza e pela melancolia, e ao mesmo tempo pela dor, porque tanto tinha batido no peito por angústia, que tinha o seio todo ferido e em vários lugares chagado, com inflamação, de modo que lhe sobreveio a febre: com isso ela muito se alegrou, porque lhe seria motivo para não se alimentar, e assim pensava acabar seus dias e extinguir sua vida sem obstáculo. Ela tinha um médico chamado Olimpo, ao qual ela se manifestou e contou toda a verdade, a fim

(53)   Fazendo alusão a um certo verso de Homero, onde se lê: "Pluralidade de senhores não é boa".)

 

de que a ajudasse a partir desta vida, como o mesmo Olimpo deixou escrito, o qual escreveu e. publicou uma história destas coisas: mas César desconfiou de tudo, por algumas notícias que teve e intimidou-a, ameaçando-a de fazer morrer seus filhos vergonhosamente: ante tais ameaças ela se rendeu incontinenti, como se tivesse sido atacada por golpes de baterias e depois deixou-se medicar e alimentar como era de mister.

CVI. Poucos dias depois César mesmo em pessoa foi visitá-la para falar-lhe e confortá-la. Ela estava deitada em um pequeno leito em estado deplorável . Quando o viu entrar, porém, em seu quarto, levantou-se imediatamente, e foi lançar-se vestida somente de camisa aos seus pés, muito desfigurada, quer por causa dos cabelos desgrenhados, quer pelo rosto que tinha dilacerado com suas unhas; tinha a voz fraca e trêmula, os olhos fundos por causa das lágrimas, que corriam continuamente, e podia-se ver grande parte de seu ventre dilacerado e ferido. Todo seu corpo estava tão abatido quanto seu espírito: entretanto sua graça, o vigor e a força da sua beleza não se haviam extinguido completamente, mas ainda que ela estivesse em tão piedoso estado, quase transparecia do íntimo e se manifestava nos movimentos do rosto. Depois que César fê-la novamente deitar-se e sentou-se perto dela, começou a apresentar a sua defesa, suas justificações, desculpando-se do que havia feito e atribuindo tudo ao temor e ao receio de Antônio. César, ao contrário, a convencia em cada ponto e motivo; pelo que ela então começou a lhe pedir perdão e implorar dele a misericórdia, como se ela tivesse grande medo de morrer e grande vontade de viver. Finalmente, ela lhe entregou uma lista das jóias e dos tesouros que possuía, Por acaso ali se encontrava um dos seus tesoureiros, chamado Selêuco, que veio à presença de César, declarando, como bom servo, que ela ali não havia posto tudo, e que escondia secretamente outras coisas; com isso ela foi tomada de tal sentimento de cólera e de impaciência, que o agarrou pelos cabelos e lhe deu vários socos no rosto. César se pôs a rir, e fê-la acalmar-se. "Ora, César, — disse ela — não é uma grande indignidade, que tenhas tido o trabalho de vir até mim e me tenhas concedido a honra de falar comigo, neste estado, tão mesquinha e miserável e ainda meus servidores me venham acusar porque eu quis reservar alguma coisa dos meus haveres, jóias, próprias de uma mulher, ai! não para me enfeitar, infelizmente, mas com a intenção de dar alguns presentes a Otávia e a Lívia, para que por sua intercessão e por seu intermédio fosses mais benigno para comigo e mais indulgente?" César ficou muito satisfeito com essa declaração, persua-dindo-se de que ela desejava muito garantir a sua vida: respondeu-lhe que êle lhe dava não somente o que ela havia conservado, para lhe ser absolutamente agradável, mas que além disso, ele a trataria mais liberalmente e mais magnificamente do que ela poderia esperá-lo: e assim despediu-se dela, e foi-se embora, pensando tê-la enganado, mas estando bem enganado ele também.

CVII. Um jovem de nome Cornélio Dola bela, que era um dos mais íntimos de César, não era dos menos afeiçoados a Cleópatra: ele mandou-lhe secretamente, como ela lhe havia pedido, dizer que César tinha deliberado retomar o caminho pela Síria, e que dentro de três dias êle a mandaria adiante com seus filhos}. Quando ela soube dessa deliberação, pediu a César que se dignasse consentir-lhe oferecer as últimas oblações aos mortos, pela alma de Antônio: foi-lhe isto permitido, e ela se fez conduzir ao lugar da sepultura, e lá, de joelhos, abraçando o túmulo com suas mulheres de companhia, disse, com lágrimas, nos olhos: "Caro senhor Antônio, eu te sepultei sendo ainda livre, e agora apresento-te estas ofertas e libações fúnebres como prisioneira e escrava, e me proíbem rasgar e estraçalhar o meu corpo escravo, que é cuidadosamente conservado, apenas para o triunfo sobre ti, nao esperes, pois, outras honras, ofertas, nem sacrifícios da minha parte: estas são as últimas que Cleópatra te pode ofertar, pois a levam cativa. Enquanto vivemos nada  nos pôde  separar,  mas  agora  à  nossa morte, eu duvido de que nos façam trocar o lugar do nosso nascimento: e como tu, romano, estás sepultado aqui no Egito, assim eu, infeliz egípcia, serei sepultada na Itália, o que será o único bem que terei recebido do teu país. Se pois os deuses de lá, onde tu estás presentemente, têm algum poder e autoridade, pois que os cá da terra nos abandonaram, não permitam que levem viva a tua amiga, e não suportem que em mim triunfem sobre ti, mas recebe-me contigo, e sepulta-me num mesmo túmulo, pois, embora os meus males sejam infinitos, não houve um só que me tivesse sido tão duro de suportar, como o pouco tempo que fui obrigada a viver sem ti".

CVIII. Depois destas lamentações e preces, ela cobriu o túmulo de flores, grinaldas e festôes, que tinha preparado carinhosamente, e ordenou que lhe preparassem um banho: depois de se ter banhado e lavado pôs-se à mesa, onde foi servida magnificamente. Enquanto ceava, chegou um camponês que trazia um cestinho: os guardas imediatamente lhe perguntaram o que ele trazia dentro: êle abriu o cestinho, tirou as folhas de figueira que estavam por cima, e mostrou-lhes alguns figos. Ficaram todos admirados pela beleza e tamanho das frutas. O camponês se pôs a rir, e disse-lhes que tirassem se quisessem: eles pensaram que o homem dizia a verdade e lhe disseram que os levasse para dentro. Depois de Cleópatra ter ceado, ela mandou a César tabuazinhas escritas e seladas, e ordenou que todos os outros saíssem da sepultura, onde ela estava, exceto as duas mulheres: depois fechou as portas. Quando César leu as lamentações e as súplicas, compreendeu como Cleópatra queria que ele a deixasse ser sepultada com Antônio, ele entendeu logo o que ela queria dizer: foi então ele mesmo para lá: mas mandou antes alguém para que indagasse do que se passava. A morte foi rápida: os enviados de César apressaram-se, e encontraram os guardas que de nada sabiam, e não tinham percebido a morte da rainha. Quando abriram as portas, encontraram Cleópatra morta sobre seu leito de ouro, vestida de hábitos reais, e uma das mulheres, a que se chamava Iras, morta também aos seus pés: a outra, Charmion, quase morta, na agonia, mas ainda ajustando o diadema que ela tinha em redor da cabeça. Alguém lhe disse então naquele momento: "Isto é belo, Charmion?" Muito belo! — respondeu ela — e muito conveniente a uma senhora da raça de tantos reis". Dizendo isto caiu por terra e morreu perto do leito de Cleópatra.

CIX. Alguns dizem que lhe trouxeram a serpente dentro do cesto de figos, e que ela havia ordenado que a ocultassem nas folhas da figueira, a fim de que pensassem que ela fora picada pela serpente, quando comia os figos, sem que ela o tivesse, antes, percebido: mas, quando ela quis tirar as folhas para tomar as  frutas!, ela a percebeu e disse: "Então estás aqui?" E lhe estendeu o braço nu para ser mordida. Outros dizem que ela a conservava dentro de um arbusto, e que a provocou e irritou com um fuso de ouro de tal modo que a serpente raivosa saiu e mordeu-lhe o braço: ninguém, porém, sabe de fato a verdade. Pois se diz mesmo que ela tinha veneno escondido numa pequena lima ou raspador oco que tinha oculto entre os cabelos, e no entretanto, não se encontrou nenhum vestígio no seu corpo, nem se percebeu por sinal algum que ela tinha sido envenenada. Nem, por outro lado, jamais se encontrou dentro do túmulo tal serpente, somente diz-se, que dela se viram alguns vestígios e rastos à beira-mar, onde se via este sepulcro do mesmo lado das portas. Outros dizem que se encontraram duas picadas em um dos seus braços, muito pequenas e que quase não se percebiam. Pelo que, parece que César mesmo prestou fé a esta ocorrência, porque no seu triunfo mandou levar uma imagem de Cleópatra, na qual se via uma cobra mordendo-Ihe o braço. Eis como se diz que este fato aconteceu. Quanto a César, embora estivesse bastante emocionado com a morte dessa mulher, tinha ele muita admiração pela grandeza e nobreza da sua coragem, e ordenou que ela  fosse sepultada real e magnífica mente, ficando seu corpo com o de Antônio e querendo também que as duas mulheres tivessem igual honra fúnebre. Cleópatra morreu na idade de trinta e oito anos, depois de ter reinado vinte e dois e de ter governado com Antônio, mais de quatorze.

CX. De Antônio uns dizem que ele tinha cinqüenta e três anos, e outros, cinqüenta e seis: mas todas suas estátuas, imagens e medalhas foram abatidas e as de Cleópatra permaneceram em seus lugares;, com a condição que Arquibio, um de seus amigos, desse a César mil talentos (54) para que não se lhes fizesse o mesmo que com as de Antônio. Êíe deixou sete filhos de três mulheres, dos quais César mandou matar somente o mais velho de Fúlvia, chamado Antilo. Otávia tomou todos os; outros e os fez criar com os seus, e deu em casamento Cleópatra, filha de Antônio, ao rei Juba, príncipe muito formoso e gracioso: Antônio, filho de Fúlvia, foi tão grande que, depois de Agripa, que tinha o primeiro lugar e grau de honra junto de César, e depois dos filhos de Lívia, que tinham o segundo, ele estava no terceiro: e ainda, tendo Otávia tido duas filhas do seu primeiro marido Marcelo, e um filho chamado também Marcelo, César deu a este filho, sua filha em casamento: e pelo mesmo meio adotou-o por seu filho: e Otávia deu em casamento uma de suas filhas a Agripa. Depois que Marcelo morreu, pouco tem*po depois de se ter casado, vendo que César, ser irmão, estava impedido de escolher dentre seus amigos algum no qual ele confiasse para fazer dele seu genro, ele lhe disse que seria bem que Agripa esposasse sua filha, viúva de Marcelo, deixando a sua, dela: César a princípio concordou, e depois, também Agripa, e por isso ela retirou sua filha e" a casou com Antônio, e Agripa desposou Júlia, filha de César. Restavam ainda os dois filhos de Otávia e de Antônio. Domício Enobarbo casou-se com uma, e a outra, a jovem Antônia, senhora muito afamada, pela sua singular beleza, e por sua pudicícia, casou-se com Drusio, filho de Lívia, e enteado de César, de cujo casamento nasceram Germânico e Clódio, tendo este último sido ao depois, imperador; dos filhos de Germânico, um que se chamou Caio, o foi também, e depois de ter reinado desordenadamente, por algum tempo, foi morto com sua mulher e sua filha: e Agripina tendo um filho, Lúcio Domício, de seu primeiro marido Enobarbo, tornou a se casar com Clódio, que adotou seu filho e o chamou Nero Germânico, o qual teve o império desde o nosso tempo e fez morrer sua mãe e pouco faltou que ele não arruinasse o império dos romanos por sua maldade e furiosa loucura, sendo o quinto sucessor do império depois de Antônio.

(54)Seiscentos mil escudos. — Amyot. 4.668.750 libras de nossa moeda.

 

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