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GÊNERO LÍRICO – ESPECIE BUCÓLICA – Poesia portuguesa no século XVI


Cônego Fernandes Pinheiro (1825 – 1876)

CURSO DE LITERATURA NACIONAL

 

LIÇÃO VI

GÊNERO LÍRICO —  ESPECIE BUCÓLICA

À amenidade do clima de Portugal e ao gosto pslos praze­res campestres que sempre tiveram os seus habitantes cumpre atribuir a aparição da poesia bucólica na alvorada de sua civi­lização, e o grau de aperfeiçoamento que revelaram os seus primeiros ensaios. Podia-se com justeza dividir a população deuses tempos em três grandes classes: a dos guerreiros, que repeliam os mouros para além das suas raias africanas; a dos lavradores, que armados da charrua e do arado, conquistavam ao sol a sua subsistênca; e a dos pastores que apascentavam pelos montes, veigas e quebradas os rebanhos, indispensáveis auxiliares da lavoura. Devera produzir a conformidade do seu céu com o da Grécia as cenas d’Arcadia; o certame dos pas­tores fora talvez uma das primeiras formas de poesia nativa. Deixando à margem esses tentâmens mais ou menos felizes, tratemos dos poetas que maior nome^xlquiriam nessa espe­cialidade durante o período que ora estudamos.

>BERNARDIM RIBEIRO

Era este ilustre poeta natural da vila de Torrão, no Alentejo, e nasceu no ano de 1475. Terminados os seus estu­dos, entrou para o serviço do paço na qualidade de moço fidalgo: exercendo mais tarde com distinção as funções de


capitão-mor da índia e governador da fortaleza de S. Jorge da Mina, pelo que mereceu ser agraciado com uma comenda da ordem de Cristo.

A data da morte de Bernardim Ribeiro foi anterior ao ano de 1554, em que pela primeira vez saiu dos prelos de Ferrara o seu romance intitulado Menina e Moça como obra póstuma.

Reservando para mais de espaço emitir nosso voto acerca deste seu romance cavalheiresco, considera-lo-emos como poe­ta bucólico.

"Bernardim Ribeiro foi um tanto mais original em sua simplicidade, diz Garrett; o que lhe falta de sublime e culto sobeja-lhe em brandura, e em uma ingênua ternura que faz suspirar de , daquela , cujo poeta foi, cujos suaves tormentos tão longo padeceu, e tão bem pintou.1"

Preferindo sempre as opiniões dos outros aos nossos mes­quinhos juízos, juntemos às palavras do exímio reformador da o grave pensador do maior crítico que no século XVIII contou a nossa literatura. Queremos falar do erudito Francisco Dias Gomes.

"As belíssimas éclogas de Bernardim Ribeiro são as mais antigas que em Espanha se conhecem; e, segundo o meu pa­recer, são as melhores que há escritas em verso de arte me­nor, e onde como na mais pura fonte se deve beber o verda­deiro estilo pastoril.2"

Apesar dos gabos de tão grandes mestres, faltaríamos ao nosso dever se deixássemos de mencionar algumas manchas que obumbram o disco dessas maviosas composições.

Em primeiro lugar torna-se monótona a espécie de eco que de espaço a espaço repete a mesma idéia, senão o mesmo vocábulo; e depois essa infeliz imitação de Sannazaro, Boscán e Garcilaso, que lhe faz repudiar tantas galas pátrias para co­brir-se de peregrinos andrajos. Travavam no ânimo do poeta porfiada luta as usanças e costumes nacionais, que tão gracio­sos puderam tornar seus painéis, com a impressão que lhe dei­xavam suas diletas leituras, e esforçando-se por ser português cometeu mais de uma à cor local.

1   Bosg. da Hist, da poes. e da ling. port.

2   Obras Poet. pág. 292.


Para que possa o leitor por si próprio avaliar as belezas e defeitos do nosso poeta citemos alguns trechos das suaves éclogas e romances:

Nas selvas junto do mar, Pérsio pastor costumava Seus gados apascentar; De nada arreceiava. Não t.nha que arreceiar. Na mesma seiva nasceu; Fez-se famoso pastor; Mas foi permissão do céu Fazer-lhe guerra o amor; Era mais forte e venceu.

Sendo livre, mui isento, Viu dos olhos Caterina; Cegou-lhe o entendimento, E Caterina era dina Pera dar pena e tormento. Logo então começou Seu gado a emagrecer, Nunca mais dele curou, Fol-se-lhe todo a perder. Dá-me conta do teu dano, Porque a um desconsolado, Um conselho, ou um engano Tira as vezes de cuidado. Poderás julgar então Se quiseras ter razão, O teu cuidado por vão, Mas no grande bem querer Poucas vezes há razão

Da écloga IV, chamada Jano, extratamos o começo, notá­vel pelos doces sentimentos que nela dominam. Ei-la:

Um pastor Jano chamado, De amor da formosa Dina Andava tão transportado, Que por dita nem mofina Nunca era outro cuidado, Segundo o bem que queria. Tão pouco do mal se guardou, Que vendo a Dina um dia Logo da vista cegou, Que d’antes d’alma não via.

De si ela o desterrou.
Pera longe terra estranha,
Seu mal só acompanhou
Sobre uma mágoa tamanha,
Tamanha mágoa
ajuntou:
Vendo-se assim desterrado,
Muitas vezes se subia
Para um despovoado,
                          y

Onde ir ninguém podia      / Senão desencaminhado.


Ali triste se assentava; Pascendo ao derrador Seu pobre gado o cercava, E o coitado do pastor Nunca uma hora repousava. Encostado a uma mão. Os olhos postos na terra, E a Dina no coração Assi ante aquela serra Se estava queixando em vão.

Dina minha, ou se me engano Ao menos muito querida, E com tanto desengano Já me vós fostes a vida, Agora me sos o dano, Danos meus tão encobertos, Aqui podereis sem medo Ser agora descobertos; Se ficou algum segredo Al de menos nos desertos.

A nenhum outro lugar, Por minha desaventura, Vos não posso já levar, Levou-me toda a ventura, Le’xou-me só o pesar, Pesar nunca me leixou, Depôs que por meu pecado Tudo me desamparou, E eu mais desamparado, Fico como que me ficou…

Traça-nos ele em um dos seus romances o mimoso quadro de um sítio abençoado, uma estância do silêncio, guarida sau­dosa do amor. Demos aqui uma amostra desse primor literário:

Ao longo duma rbeira Que vai po’o pé da serra. Onde me a mim fez a guerra Muito tempo o grande amor, Me levou a minha dor, Era já tarde do dia, E a água dela corria Per antre um alto arvoredo, Onde as vezes ia quedo O rio e as vezes não; Entrada era do verão. Quando começam as aves Com seus cantares suaves Fazer tudo gracioso. Das águas cantavam elas, Todalas minhas querelas

Se me puseram diante: Ali morrer quisera ante, Que ver per onde passei; Mas eu que digo? Passei! Antes inda hei de passar Enquanto houver pesar Que sempre e hi ha de haver. As águas que de correr Não cessavam um momento, Me trouxeram ao Que assim eram minhas mágoas, Donde sempre correm águas Por estes olhos mesquinhos, Que tem abertos caminhos Pelo meio do meu rosto: E já não tenho outro gosto Na grande desdta minha. O que eu cuidava que tinha Foi-se-me assm não sei como, Donde eu certa crença tomo, Que pera me leixar veio…

FRANCISCO DE

Nascido em Coimbra em 1495 e distinguindo-se na pátria universidade a ponto de nela lecionar, foi arrastado pelo im­pulso de seu gênio poético a viajar pela Espanha e Itália, que então eram os maiores focos do saber humano, deixando para isso a cadeira, que tão dignamente ocupava na de direito em que se formara. Regressando a Portugal fixou sua residência em Lisboa, onde gozou da privança de D. João III, e consagrando às musas todo o seu tempo poderosamente con­tribuiu para o aperfeiçoamento da e metrificação por­tuguesas. Faleceu na sua qu"nta da Tapada a 15 de Março de 1558, sinceramente pranteado por todos os que o conheceram e praticaram.

Imitador acérrimo dos italianos, transplantou Sá de Mi­randa, com o seu metro, a fisionomia de sua escola, sacrificou a naturalidade, ou como também se diz a cor local, ao imode derado desejo de seguir as pegadas de SannSzaro. Nota-se po­rém harmonia em suas éclogas: e posto que inferior nesse ponto ao suavíloquo Bernardim, pode-se ser contado como um dos melhores bucólicos da nossa literatura. Profundo pensa­dor, não deixa o nosso poeta de misturar aos seus cantares da mais pura moral, e se algumas vezes deparamos com palavras que ferem a delicadeza dos nossos ouvidos é por­que em seu tempo nada tinham elas de ásperas, ou indecentes. Para bem avaliarmos quaisquer escritor cumpre que nos co­loquemos pela imaginação na época em que ele escreveu.

Como prova de quão filósofo era Sá de Miranda citemos esta sentença que se lê na sua segunda écloga:

A virtude é paga igual De si mesma sem mais troca, Mas tratemos ora d’al, Sabe-se que vos não toca O bem, nem menos o mal. Quem sabe por onde vai Leva sua conta leita; Nunca do caminho sai, Nao olha a quem diz tomai A esquerda e à direita.

Na mesma écloga lemos outro trecho, notável pela in­genuidade e candura de estilo;

Fui-me um dia à vila, Gil, E logo ao , Mais verde que um perrexil Cuidei que matava a brasa De galante e de gentil. Bem passei co’os viandantes, Mas depois, quando lá cheias Vi ruas d’outros galantes, Se eu viera uíano de antes, Não tornei tal às aldeias. Dizia um vendo-me assim; "Bom vai o do barretinho, Nunca o tão fidalgo vi! — Chamaram-me outros ratinho, Uns assi, outros assi; Finalmente por acerto Vi alguns nossos de cá, Deixei-os chegar mais perto, Meti-me entre eles por certo, Que tarde me acolhem lá."

Se os pastores de Sá de Miranda falassem sempre com esta graça e naturalidade seriam mui superiores aos de Virgí­lio, e rivais dos de Teócrito; infelizmente porém tomam a miúdo ares acadêmicos e discorrem como não se devera deles esperar.

ANTONIO FERREIRA

Contemporâneo do precedente poeta, foi um dos legisla­dores do Parnaso Português, que muito deveu à sua íntima e comunhão de vistas.

Era natural de L5sboa, onde nascera no ano de 1528, e pertencia a uma família distinta sendo seu pai, Martim Fer­reira, condecorado com o hábito de S. Tiago da Espada. Pas­sando na flor da idade à Universidade de Coimbra, aí com­pletou com aplauso o seu curso de humanidades, alcançando os foros de grande latinista e helenista. Seguiu depois os es­tudos de Direito civil, e tão notável tornou-se neste ramo, que apenas recebia o capelo e já uma cadeira magistral lhe era destinada. Mais tarde trocou a vida de lente pelo cargo de desembargador da relação de Lisboa, onde gozou dos favores da corte, obtendo a mercê de fidalgo da casa real, e sendo geralmente benquisto. Sua morte, acontecida no ano de 1569, foi considerada como uma calamidade pública, e os pri­meiros poetas do tempo, como Diogo Bernardes, Andrade Ca­minha, Sá de Menezes e outros, consagraram-lhe o tributo de sua dor em sentidos versos.

Ainda que o estro de Ferreira o chamasse antes para as espécie lírica, elegíaca e trágica do que para a pastoril, legou-nos todavia algumas éclogas recomendáveis principal­mente na parte descritiva. Citemos o começo da intitulada Títiro:

Uma fresca manhã, fria orvalhosa

Ao longo do Mondego que corria

Com água clara, mansa e graciosa;

Quando já o claro raio reluzia

Do louro Febo na água, e começava

O orvalho derreter, dourar o dia:

Ao pé de um grã ceiceiro rodeava

O gado de Castalho e de Serrano,

Que ambos um bom amor sempre juntava.

Mas outro amor cruel, amor tirano,

Os trazia ambos tais que pareciam

Dois espritos perdidos trás seu dano.

Ambos mancebos, ambos se perdiam

Um por uns olhos verdes, outro brancos,

Ambos cantavam sempre, ambos tangiam,

Diziam que aprenderam de dois Francos.

Pastores que com as Musas se criaram

Dois Linos. dois Orfeus os nossos Francos.

Bem conhecidos são: Sás se chamaram

Um de Menezes, outro de Mrafljia

De que as irmãs de Febo se espantaram!

E ainda hoje entre nós soa voz tão branda

Do seu divino canto que lhe ouvimos,

Que todo o céu aclara e o ar abranda.

Ditosos nós que em nosso tempo vimos

A nomeada Arcádia, tão vencida

Destes nossos pastores que seguimos!

Aconteceu que enquanto era ouvida

De mim uma bela ninfa, que contando

Na veia d’água estava meia-metida,

Um cordeiro dos meus se foi lançando

Para onde ambos escavam; o que eu seguindo

Ouvi Castainó estar-me ja chamando.

"Titiro, amigo, sejas tao bem vindo

Como este ciaio sul que nos aquenta.

Aqui (diz) teu cordeno veio lug.ndo,

De.xa o mais gado ao moço: aqui ie assenta.

Não vês esta ciara água que nos chama

Esta erva verde que se nos presenta?

Aqui se esfria aqueia doce chama

Que arde em nós sempre; aqui amor se engana,

Aqui queres amar quem te desama.

Se o sol muito apertar temos choupana

De canas e ramadas bem cobeita,

Onde nem entra sol, nem a chuva dana.

Sentei-me. Eis se ergue entre eles grã referta

De quem tange melnor, ou meihor canta.

A contenda então mais a voz esperta.

Assi ora um, ora outro a voz levanta.

Mostra-nos este trecho da terceira écloga de Ferreira que o sublime autor da Castro era também capaz de tanger o arrabil: pena é que as reminiscências clássicas tanto preo­cupassem o seu espírito que nos parece ouvir o eco da flauta mantuana através de seus versos.

LUÍS DE CAMÕES

O egrégio cantor dos Lusíadas, com quem nos ocuparemos mais de espaço, aspirou também um nome na poesia bucólica, e, graças à inimitável flexibilidade do seu gênio, pode ser nela inscrito entre os da primeira plana.

Admiremos o tom mavioso com que começa a sua un­décima écloga:

A rústica contenda desusada Entre as musas dos bosques, das areias, De seus rudes cultores modulada; A cujo som atônitas e alheias Do monte as brancas vacas estiveram, E do rio as saxátiles lampreias; Desejo de cantar. Que se moveram Os troncos às avenas dos pastores E já silvestres brutos suspenderam. Não menos o cantar dos pescadores As ondas amansou do fundo pego E fez-se ouvir aos mudos nadadores...

O que maior interesse comunica às éclogas de Camões é a paixão que as anima, e a constante melodia de seus versos, que, se nos de Bernardim Ribeiro e Sá de Miranda encontram superioridade em singeleza, levam-lhes incontestável vanta­gem em elevação de sentimentos. Deve-se-lhe também o na­turalizar entre nós o idílio piscatório, que quando bem traça­do, é sumamente agradável. Copiemos integralmente um a que chamou Sereno, que poucos rivais conhece em todas as lite­raturas antigas e modernas.

Arde por Galatéia, branca e loura,

Sereno pescador   pobre, forçado

Duma estrela que quer que a míngua moura»

Os outros pescadores tem lançado

No Tejo as redes: ele só fazia

Este queixume ao vento descuidado:

Quando virá, formosa ninfa, um dia,

Em que te possa dar a conta estreita

Desla doidice triste e vã porfia?

Não vês que me foge alma e que me enjeita,

Buscando um só sorriso dessa boca

Nos teus olhos azuis mansa colheita?

Se ao teu espírito alguma mágoa toca,

Se de amor fica nele uma pegada

Que te vai, Galatéia, nesta troca?

Dar-te-ei minh’alma: lá ma tens roubada,

Não ta demandarei; dá-me por ela

Uma só volta d’olhos descuidada.

Se muito te parece, e minha estrela

Não consentir ventura tão ditosa,

Dou-te asas do amor perdidas nela.

Que ma:’s te posso dar, ninfa formosa,

Inda que o mar de aljôfar me cubrira

Toda esta praia leda e graciosa?

Amansão-se as ondas, quebra o vento a ira:

Minha tormenta só nunca sossega;

O meu peito arde em vão, em vão suspira.

Anda no romper d’alva a névoa cega

Sobre os montes d’Arrabida viçosos

Enquanto o solar raio não lhe chega.

Eu, vendo aparecer outros formosos

Raios que a graça e cor ao céu roubaram,

Se os olhos cegos vi, vejo-os saudosos.

Quantas vezes as ondas se escrejparam

Com meus suspiros! Quantas com o meu pranto

As fez parar de mágoa e me escutaram!

Se na força da dor a voz levanto

E ao som do remo, que a água vai ferindo,

Perante a lua meu cuidado canto,

Os maviosos delfins me estão ouvindo,

i   Em vez de morra está moura, como então se dizia.

A noite sossegada, o mar calado: Tu só foges de ouvir-me e te vás rindo! Estranhas porventura o mar cercado Da fraca rede? a barca ao vento solta? E um pobre pescador aqui lançado? Antes que o sol no céu cerre uma volta, Se pode melhorar minha ventura, Como a outros sucede, n’água involta. Igual preço não é da formosura D’ouro a areia que o rico Tejo espraia, Mas um amor que para sempre dura. Vejam teus olhos, bela ninfa, a praia; Verás teu nome na mimosa areia. Nunca sobre ele o mar com fúria saia! Vento algum até agora o não salteia: Três dias há que escrito aqui o leixou Amor, e o veda a toda a força alheia. Ele com suas mãos próprio ajudou A escolher estas conchas, afirmando Que o sol para ti só as matizou. Um ramo te colhi de coral brando: Antes que o ar lhe desse, parecia O que de tua boca estou cuidando. Ditoso se o soubesse inda algum dia!

DIOGO BERNARDES

Natural de Ponte de Lima, província do Minho, viu a luz pelos anos de 1530—1540 e distinguiu-se desde a mais tenra infância pelo seu gosto poético. Acompanhando, na qualidade de secretário, a Pero de Alcaçova Carneiro, no­meado embaixador na corte de Madri, regressou a Por­tugal para seguir a D. Sebastião em sua desastrada expe­dição da África. Combatendo com galhardia ao lado de seu rei, caiu prisioneiro dos mouros e curtiu os amargores da escravidão. De volta à pátria, abandonou a vida pública consagrando seu tempo à poesia. Julga-se que então com­pusera uma coleção de éclogas que denominou — O Lima, — por figurarem seus pastores nas margens desse rio. É a sua melhor obra; e incontestavelmente um dos monumentos da nossa literatura. Os conceitos e trocadilhos que enfeiam seu livro são vícios que começavam a invadir a poesia contempo­rânea e de que não soube libertar-se como o imortal cantor dos Lusíadas. Pura é ainda a sua linguagem; harmoniosos e fluidos os seus versos, apropriados os costumes, e bem expres­sadas as . Exemplifiquemos o que acabamos de dizer.

Com grande naturalidade pinta o poeta o lugar da cena cm que se passa a segunda écloga:

Num solitário vale fresco e verde Onde com veia doce e vagarosa, O Vez no Lima entrando o nome perde; Numa tarde rosada graciosa Quando no mar seus olhos resfriava, O sol deixando a terra saudosa; Ouvi uma voz triste que soava Tão brandamente ali que parecia Um rio que com outros murmurava. O gado que do campo recolhia Deixando nele por antre a espessura Me fui chegando à triste voz que ouvia. Vi Tirso e Melibeu que na verdura Entre bastos salgueiros escondidos, Choravam duras mágoas com brandura. Nesta nossa ribeira ambos nascidos, Mas como pouco nela conversaram, Eram mais na do Tejo conhec:dos. Em moços foram lá, lá se criaram Em outros de mor nome, mor estima De tanger, de cantar fama cobraram.

Modelo de ternura e doce melancolia é sem dúvida a écloga quinta em que se lêem estes belos tercetos:

Quão docemente agora aqui cantava Um rouxinol entre estas aveleiras, Enquanto Fílis sua dor chorava, Eu vim a lançar fora estas cordeiras Daquele trigo e não ouvi jamais Senão as diferenças derradeiras, A sem ventura Fílis deu uns ais, Tão sentidos então que me cortou O coração com dor de dores tais. Enfim triste se foi, ele voou, Não sei se voou triste, ou voou ledo, Co’a minha saudade me deixou.

Alguns ligeiros, mas vivos traços, da poesia descritiva no­tam-se aqui e acolá, como v. g. na écloga décima sétima:

Sentamo-nos à sombra duns olmeiros, Num prado de arvoredo rodeado, . Onde cruzar-se vinham três ribe^r*òs; Lugar fresco e sombrio aparelhado Para fugir ao sol que então entrara, No rei dos animais todo abrasado. Por cima da corrente doce e clara,   * Um freixo te amostrei cuja verdura Um raio que deu nele chamuscara, Em cujo tronco, nós, e sua altura, Uma gralha três dias gritou tanto Que sem folgo caiu na veia dura.

Nem menos feliz foi Bernardes no patético, revelando grande estudo do coração humano. Sirva de prova o seguinte trecho da primeira écloga, em que dois pastores pranteiam a morte do príncipe D. João:

SÍLVIO

Secai-vos verdes campos lusitanos, Secai, fontes e rios, secai flores, Mostrai neste grã dano grandes danos. Cobri-vos verdes bosques doutras cores. Tão triste como traz a dor consigo • Senti tamanha perda dos pastores.

SERRANO

Descobre esse mal já, ah! Sílvio amigo, Que pois é mal comum segundo vejo, Também o chorarei aqui contigo.

SÍLVIO

Levou a cruel morte sem ter pejo Aquele belo moço a quem tributo Esperavam pagar o Indo e o Tejo. Que bem na vida já, que rosto enxuto De ninfa, ou de pastor se pode ver! Qual ave escura dor, qual fero bruto? Morreu contigo, Adônis, o prazer, A brandura, o amor, o aviso raro. De tudo quis-se o céu enriquecer.

SERRANO

Oh Adônis, Pastor formoso e caro, Contigo nos crescia erva na terra, E das fontes corria o cristal claro. Os frutos sem trabalho dava a terra, Seguro andava o gado nas montanhas, Não lhe fazia o lobo cruel guerra.

SÍLVIO

Chorai tamanho mal, gentes estranhas, Nas frias e nas quentes regiões, Chorai perda, que fez perdas tamanhas.

SERRANO

Dai lágrimas sem fim, várias nações,

A dor que enche de dor, enche de espanto,

A dor de tigres, mágoa de leões,

Não negue coisa viva, vivo pranto

De quantas o céu vê, a terra cria;

As que o mar cobre façam outro tanto.

SÍLVIO

Escuro torne sempre aquele dia,

Em que da branca neve andou roubando

A morte as frescas rosas com mão fria.

SERRANO

Assim se foi teu rosto descorando Como o lírio no campo, ou a bonina, A quem o arado talha em traspassando.

SÍLVIO

Levou-te para si, oh! flor divina, Esse que gera o sol, enfreia os ventos A quem o céu, a terra, o mar se inclina.

SERRANO

Já gozas imortais contentamentos, Nós ficamos sem ti nesta baixeza, Em mágoas, em misérias, em tormentos.

Pesa sobre a memória de Bernardes a grave acusação de haver roubado bastantes sonetos, éclogas e o poema de Santa Úrsula ao cantor dos Lusíadas, o que é para lamentar-se em um poeta de tanto mérito.

Para não alongar demasiado esta lição deixamos de fazer
excertos de alguns outros poetas que nesse século se en-
tregaram
à espécie bucólica, como sejam Pero de Andrade
Caminha,
Fernão Alvares d’Orienté, e Maneei da Veiga, que
todos, com mais ou menos felicidade, adquiriram boa reputação
nessa espécie, com que tanto se conforma o caráter nacional.
Dos nomes acima citados o mais justamente célebre é sem
dúvida o de
Fernão Álvares d’Orienté, pela frescura de sua
imaginação, sendo profundamente para lamentar que, nas-
cido nas poéticas ribas do
Ganges, não se inspirasse dos es-
plendores da natureza tropical para só cantar na sua
Lusitâ-
nia transformada,
o clima e os costumes da Europa que só por
tradição conhecia.
                                                   .. t

 

Fonte: editora Cátedra – MEC – 1978

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