O INFERNO SÃO OS OUTROS: uma reflexão sobre a diversidade cultural nos domínios da Inquisição

O INFERNO SÃO OS OUTROS: uma reflexão sobre a diversidade cultural nos domínios da Inquisição

O INFERNO SÃO OS OUTROS: uma
reflexão sobre a diversidade cultural nos domínios da Inquisição.
Ida Duclós

Trabalho originalmente
apresentado para a FFLCH/USP

No século XII, foi instaurada a Inquisição contra os crimes de heresia, quase
na mesma época em que foi fundada a ordem dos frades dominicanos. O objetivo
era universalizar o mundo cristão e através da catequese e punição, firmar seu domínio. Este objetivo de cristianizar o
mundo não era recente nesta época. Carlos Magno já o tinha feito à força
com os povos bárbaros da Europa e as cruzadas partiram em direção ao Oriente
para tomar a terra santa (Jerusalém), mas fracassaram. Houve um movimento contrário, uma guerra religiosa que avançou na
Europa, chegou até a Espanha, onde os povos orientais permaneceram por
séculos.

A inquisição espanhola, tal como a
Inquisição medieval, foi instituída para
atacar a heresia formal. Como para ser herege é preciso ser cristão, judeus e mouros eram considerados simplesmente infiéis.
Foi necessária sua conversão compulsiva para incriminá-los. " E
gradualmente tanto os judeus como os mouros foram sujeitos ao controle deste
órgão de conformidade social, tal como as
bruxas o tinham sido ao controle da Inquisição medieval." (Trevor-Roper,1972)
No caso das bruxas foi necessário uma definição extensiva de heresia para incluí-las sob a alçada da
Inquisição (séc. XV, mas a perseguição começou antes que isso fosse permitido,
tal como aconteceu aos judeus.

No século XIII, tem início a caça às bruxas junto com a expansão da
sociedade feudal cristã. Esta primeira etapa da perseguição vai se dirigir
principalmente contra sociedades localizadas, onde a Igreja Católica não estava firmemente
implantada. No resto da Europa, com exceção de alguma perseguição política em
número não expressivo, a prática da bruxaria é tolerada. O feudalismo era
tipicamente uma organização social de planície e nunca
se impôs plenamente nos lugares montanhosos como os Pirinéus ou os Alpes, habitados
por dois povos culturalmente diversos do modelo feudal europeu: os albigenses
do Lanquedoque (Pirinéus) e os vaudois, nos Alpes. "Na Idade
Média, os homens da montanha diferiam dos da planície na organização social, e portanto diferiam também
nesses costumes ou padrões de crença que derivam da organização social e a
consagram ao longo dos séculos. Podemos dizer que tinham civilizações
diferentes." (Trevor Roper,1972)

O trabalho dos dominicanos – "os evangelistas dos
cantos escuros da Europa" – começa na forma de luta contra a identidade
cultural destes dois povos. Somente no princípio da Idade Moderna é que a caça
às bruxas vai se voltar contra indivíduos isolados e se generalizar por todo
continente europeu e depois o americano. Pouco se ficará sabendo sobre essas
duas sociedades de montanheses, pois seus documentos autênticos foram quase
todos destruídos pelos seus perseguidores. Algo semelhante, mais aterrorizador
talvez, por se tratar de povos sem contato
com o mundo ocidental, vai ocorrer alguns séculos depois na América, com
a destruição dos manuscritos da civilização maia. A Inquisição – a outra face
da evangelização – procura não somente o extermínio físico de indivíduos, mas
principalmente a eliminição de todas as culturas que marcam a diversidade, garantindo o domínio pela homogeneização cultural.

Os atributos, que os
frades dominicanos dizem pertencer aos povos montanheses feudais, não parecem
corresponder à realidade de albigenses e vaudois. As mesmas
qualidades vão ser atribuídas a todos os grupos sociais dissidentes dessa
época, como os esotéricos, por exemplo. E vão pemanecer iguais, mesmo quando se
muda de época e personagem; os jesuítas vão encontrar
na América, entre os indígenas, o velho maniqueísmo dualista entre Deus
e o Diabo na natureza e as mesmas orgias de promiscuidade sexual que os
dominicanos acharam nos Alpes e Pirinéus. E será assim que a Renascença irá
caracterizar as bruxas do solo europeu.

É possível formular duas hipótese para as
causas dessa insistência em classificar o inimigo sempre da mesma forma, mesmo
em contextos e épocas tão diferentes. " Na Europa, bruxos e bruxas
constituíram esse outro que a cultura opunha a seus padrões, identifícando-os,
para alguns, com a anti-sociedade, ou com o estado de natureza." (Souza,
1993) Na verdade, são os evangelizadores que
acreditam estar numa luta entre o bem e o mal e enxergam seu reflexo quando olham a diferença. Negando a
identidade do "outro", os catequisadores são incapazes de reconhecer
a diversidade. Por isso, o estado de natureza é característico do diabo, em
contraposição ao civilizador cristão. Não existindo cultura senão a sua
própria, não há regras ou normas exteriores a ela. Por isso, o imaginário cristão cria as orgias
sexuais como atributos das bruxas e dos indígenas americanos, em
oposição a monogamia católica ou a castidade dos frades.

A outra hipótese, é que as sociedades dominadas
joguem o jogo do simulacro, imitando quem os
persegue. "O simulacro, a imitação do branco, no caso dos índios,
ou do modelo do dominador, para qualquer outro grupo minoritário, parece ser um
passo importante para todo um conjunto de sociedades
ou grupos dentro de uma sociedade específica, que buscam, contraditoriamente, afirmar-se na sua diferença."
(Novaes, 1993). Mas seja qual for a razão, a luta por uma identidade
própria foi sempre considerada como uma
heresia pelos conquistadores que não podiam assimilar a diferença, nem conviver com a oposição. Mesmo que fossem
elementos da própria sociedade européia, como no caso das bruxas ou dos
judeus, que foram eleitos como símbolo de negação, por não serem iguais aos
outros.

Foi assim com os albigenses
e os vaudois na sociedade feudal. Foi entre esses
povos que os dominicanos começaram a identificar bruxaria com heresia,
definindo nesse processo uma nova ortodoxia que iria modificar radicalmente a maneira da
Igreja Católica conceber as práticas mágicas.

Os velhos cânones da
Igreja, principalmente o cânon episcopi, nega e proíbe
a crença nas bruxas. Em 1257, quando os frades insistem com o papa Alexandre para que este inclua a magia como crime de heresia, não
conseguem permissão, pois não é possível condenar aquilo que não
se crê que exista.

Mesmo assim, os
dominicanos utilizam a tortura e o tenor no vale dos Pirineus
e dos Alpes. Através das confissões que conseguem, vão elaborando um tratado de demonologia, baseado nos traços culturais das sociedades
perseguidas e nas crenças espalhadas por toda a Europa. Para eles, heresia e bruxaria estão juntos e não se conformam com a necessidade legal de
provar o crime de heresia primeiro para só depois conseguir a
condenação das bruxas.

No inicio da Idade
Moderna, os dominicanos conseguem inverter essa situação
da Igreja. Ao longo dos anos de perseguição, tinham elaborado uma demonologia sistemática, estabelecendo que toda a bruxa faz um pacto
com o demónio, não sendo mais necessário investigar sua culpa, mas sim julgar
se há ou não prática de magia. Com o pacto, driblou-se o cânon
episcopi
. "A elaboração da nova heresia, tal como a
da nova ortodoxia, foi obra da Igreja católica medieval,
e em especial, dos seus membros mais ativos, os frades dominicanos.
Este fato não é suscetível de ser iludido ou rodeado por qualquer argumento. Os elementos da obsessão podiam ser não-cristãos, ou até
pré-cristãos. A prática dos encantamentos, da influência sobre o tempo, o uso
da magia de simpatia podem ser universais. Os conceitos de
um pacto com o Diabo, das cavalgadas noturnas até do sabat dos incúbos
e dos súcubos podem derivar do folclore pagão dos povos germânicos. Mas a
combinação desses diferentes elementos numa demonologia sistemática que
fornecia um estereótipo social para a perseguição foi obra exclusiva não do
cristianismo, mas da Igreja Católica." (Trevor-Roper)

Em 1484, Inocêncio VIII emitiu a bula papal "Summus Desiderantes Affectibus", cedendo a pressão dos
dominicanos, que tomava a magia crime herético e que tinha como epígrafe
"não acreditar em bruxaria é heresia máxima." Dois anos depois,
Kramer e Springer, dois frades inquisidores da região alpina, publicam uma verdadeira enciclopédia de demonologia
chamada "Malleus
Malefícarum", especificando todo o sistema da crença no Diabo. Na realidade,
eles usaram esse livro para convencer o Papa Inocêncio, mas publicaram somente
depois da bula papal para que parecesse que estavam dando uma resposta a esta.
"Parece-nos ter sido essa a origem do sistema. Foi aperfeiçoado no decurso
de uma luta local e começou por ter uma aplicação local. Mas a construção
intelectual, uma vez completada, era universal. Podia ser aplicada em qualquer
parte. A arma forjada para combater as sociedades não conformistas foi
utilizada para destruir os indivíduos não conformistas (Trevor-Roper, 1972)

A Idade Moderna começa acreditando
oficialmente em bruxaria e num pacto demoníaco. Este é corroborado pelo sabat,
uma reunião do demônio e seu séquito com os seus servos aqui na Terra, os
bruxos. Ao contrário dos encantamentos e do
mau olhado, o encontro pode ser visto e narrado pelas testemunhas
interrogadas pela Inquisição, e por isso é encarado como uma prova concreta. A demonologia é construída dentro
de elementos culturais que fazem parte do imaginário da época. Não existe
dúvidas sobre a existência da magia para os homens da renascença, talvez
somente em algumas mentes mais

ilustradas. "Desta ignorância
quanto à distinção entre os sonhos, e outras ilusões fortes, e a visão e a
sensação, surgiu, no passado, a maior parte da religião dos gentios, os quais adoravam sátiros, faunos, ninfas
e outros seres semelhantes, e nos nossos dias a opinião que a gente
grosseira tem das fadas, fantasmas, e gnomos, e do poder das feiticeiras. Pois,
no que se refere às feiticeiras, não penso
que sua feitiçaria seja algum poder verdadeiro; mas contudo elas são justamente
punidas pela falsa crença que possuem, acrescentada ao seu objetivo de a
praticarem se puderem, estando sua atividade mais próxima de uma nova religião do que de uma arte ou uma
ciência." (Hobbes, 1651)

O Inferno é assim
hierarquizado e sistematizado. Essa cosmologia vem completar a
sistematização que a Igreja já tinha feito do reino dos céus, com a Sumiria
Theologiae
, ambas derivadas de São Tomás de Aquino, que baseado em Aristóteles, havia criado um sistema
filosófico para ancorar os preceitos da religião. Dividindo o cosmos
entre natural e sobrenatural, São Tomas de Aquino abriu as portas para que as
práticas mágicas não fossem mais consideradas como ilusão, e sim reais.
"Para agora descermos aos tópicos particulares da vã filosofia, derivada
para as Universidades e daqui para a Igreja, em parte proveniente de
Aristóteles, em parte da cegueira do entendimento, considerarei em primeiro
lugar seus princípios…Dizem-nos, a partir desta metafísica, que misturada com
as Escrituras passa a constituir a escolástica, que há no mundo certas
essências separadas dos corpos, às quais chamam
essências abstraías e formas substanciais…Há um outro erro em sua filosofia civil (o qual nunca aprenderam com Aristóteles,
nem com Cícero, nem com qualquer outro dos pagãos) para aumentar o poder da
lei, a qual é apenas a regia das ações, a ponto de abarcar os próprios
pensamentos e consciências dos homens, por meio de
exame e de inquisição daquilo que sustentam, apesar da conformidade de seu discurso e de suas ações. Pelo que, os homens ou
são punidos por responderem a verdade de seus pensamentos, ou
constrangidos a responder uma mentira com
medo ao castigo." (Hobbes, 1651)

Mas, um sistema de crenças não pode ser
imposto de cima para baixo numa sociedade,
é preciso que haja um respaldo popular para que ele alcance o impacto que teve a perseguição das bruxas entre os
europeus. Hobbes acha que as bruxas não tem poder, mas mesmo assim devem
ser punidas por exercer bruxaria. Protesta
contra a Inquisição por esta perseguir a ciência e lucidamente denúncia
o uso político que a igreja faz da Inquisição, mas parece concordar com as
fogueiras.

Embora usada como
instrumento de domínio político, a demonização das práticas mágicas
baseia-se no medo da população. Esta era ensinada pelos inquisidores a
acreditar que a demonização provinha das próprias palavras do Evangenlho. "Finalmente, a metafísica, a
ética, e a política de Aristóteles, as distinções frívolas, os termos bárbaros,
e a linguagem obscura dos escolásticos ensinada nas Universidades
servem-lhes para evitar que seus erros sejam detectados e para levar os homens
confundirem o ignis futuus da vã filosofia com a luz do Evangelho." (Hobbes,1651). Ao medo e aos ensinamentos evangelizadores,
junta-se o fato que o tratado demoníaco baseou-se no imaginário cultural renascentista, não é de se estranhar parque as
fogueiras foram tão populares e as bruxas tivessem tão poucos
defensores. É com bastante entusiasmo que elas são adotadas como bode
expiatório para todos os males e como válvula de escape para as tensões
sociais.

Através dos processos da
Inquisição, pode-se traçar um perfil que é mais ou
menos semelhante na maioria dos casos dos julgamentos da Inquisição: mulheres velhas, pobre, geralmente viúvas, sem atrativos
físicos, analfabetas, muitas vezes desaforadas, antigas parteiras ou curandeiras.
Embora em quase todas as áreas da Europa as mulheres tenham sido mais caçadas
do que os homens, três países reverteram
essa tendência: na Finlândia, na Estónia e aparentemente na Rússia (Barstow).
A suposição é que " a corda ruiu no ponto
mais fraco": tais mulheres por serem pobres e sozinhas, tinham menos meios
de defesa, além de se tomarem um estorvo por viverem na mendicância. Além
disso, as mulheres tem pouco meios de subsistência na crise económica que se
instaura no final do feudalismo. Muitas famílias perdem suas terras e perambulam pela Europa. Os homens encontram
emprego mais facilmente que as mulheres. Suas profissões anteriores de
curandeiras que utilizavam benzeduras e ervas, passam a ser proibidas e vistas
como suspeita de baixaria. A medicina popular que elas exerciam passa cada vez
mais a ser um saber científico. Mas o povo continua acreditando que assim como
podiam curar podem causar doenças e outros
malefícios. Muitas vezes, como aconteceu na Inglaterra, elas são acusadas pela própria comunidade em que vivem.
Tanto que quando os sintomas de
bruxaria se manifestam nos conventos, onde as fieiras pertencem a elite,
são encaradas como possessões e exorcistas são chamados. (Aix-de-Provence em 1661, Louvres em 1647). Estes
casos chamam a atenção pública, não só pela posição social, mas também por
serem casos urbanos com um tratamento diferenciado. Juristas
inquisitoriais e população estão predispostos a encará-las como pobres mulheres
histéricas, iniciando-se um debate e o declínio progressivo das fogueiras.

As vítimas da Inquisição estão muito
próximas da descrição física que se faz das bruxas dos contos de fadas, que ainda
não viraram livros infantis, mas são preservados pela tradição oral e muitas vezes
destinados ao público adulto. Hobbes vai escrever no calor da batalha, uma
comparação entre o clero e estas histórias que circulam na sociedade
renascentista. " As fadas, seja qual for a nação onde habitem, só tem um rei universal, que alguns de nossos
poetas denominam rei Oberon, mas as Escrituras chamam Belzebu, príncipe
dos demónios. Do mesmo modo os eclesiásticos,
seja qual for o domínio em que se encontrem, só reconhecem um rei
universal, o Papa. Os eclesiásticos são homens espirituais e padres
fantasmagóricos. As fadas são espíritos e fantasmas.
As fadas e os fantasmas habitam as trevas, as solidões e os túmulos. Os eclesiásticos caminham na obscuridade da
doutrina, em mosteiros, igrejas e claustros. A estas e outras
semelhanças entre papado e o reino das fadas se pode acrescentar mais uma, que
assim como as fadas só têm existência na fantasia de gente ignorante, que se
alimenta das tradições contadas pelas velhas, também o poder espiritual do Papa
(fora dos limites de seu próprio domínio
civil) consiste apenas no medo, em que se encontra o povo, seduzido, de
ser excomungado, por ouvir aos falsos milagres, as falsas tradições e as falsas
interpretações das Escrituras." (Hobbes, 1651)

O poder inquisitorial vai ser muito utilizado
durante a Reforma e a Contra Reforma para assegurar o domínio geográfico das
regiões onde se da estas luta ideológica. "Todos os estágios cruciais da
luta ideológica foram estágios da reanimação e perpetuação da obsessão das
bruxas…os reformadores mantiveram toda a infra-estrutura filosófica do
catolicismo escolástico."'(Trevor-Roper). Se a Reforma começou com o
movimento humanista, em breve esqueceu-se dele e se utilizou da anua criada
pela demonologia sempre que se deparou com a resistência de indivíduos ou de
sociedades inteiras. Todas às vezes em que os missionários de uma igreja ou outra tentavam retomar uma sociedade a
seus rivais, a heresia se revelava como bruxaria. O
estereótipo criado foi usado em larga escala. A própria sociedade quando se sentia ameaçada recrutava a Inquisição laica ou clerical.
"Os dissidentes eram sempre bruxos, é nesses tempos de
pânico que vemos a perseguição se alargar deixando de
incidir nas mulheres velhas, as vítimas usuais dos ódios das
aldeias, para abranger também juízes cultos e membros do clero
cujo crime se limitava a terem resistido à obsessão."(Trevor-Roper)

Na Península
Ibérica, os hereges preferidos foram os judeus. Portugal concentrou-se
também na produção literária da época, e os Inquisidores censuravam
os livros antes que estes pudessem ser publicados, visitavam bibliotecas
privadass e examinavam os navios que chegavam ao seu país, em busca de publicações proibidas. Estes dois países chegam na América
trazendo junto
toda a corte demoníaca.

As fogueiras da Inquisição
vão perdurar até o século XVIII, quando os homens deixam de temer as bruxas e passam a encará-las com
ceticismo. A magia que fazia parte de um conhecimento popular e de um
modo de vida cai no descrédito, condenada pelo racionalismo iluminista.
Mas foi principalmente Descartes quem colocou a magia em xeque
com seu conceito: "penso, logo existo". A passagem
do homem do estado de natureza se faz através da razão e não
da religião, como pretendiam os inquisidores. A partir daí, estava aberto o
caminho para a ciência desencantar o mundo, pondo fim a dois séculos de perseguição.

Portugueses e
espanhóis ao se depararem com a exuberância da natureza dos
solos americanos e frente ã estranheza de seus habitantes, classificam os indígenas como idólatras e servos do demônio, velhos conhecidos da sua
pátria. "Na
demonologia de que se trata aqui – referida à alteridade americana -a relação heterológica se verificaria sobretudo pela negação:
nomeava-se e se classificava o Outro ameaçador com os elementos negativos e
detratores por excelência disponíveis no
âmbito da cultura dos conquistadores e colonizadores da América "
(Souza/1993)

No México, foram os franciscanos que ficaram
encarregados da catequese. Desde o início, os espanhóis pretenderam a
colonização de seu império. "El mundo que surgia ante los ojos de los
conquistadores era imprevisto e imprevisible. Ni la sencillez conciliadora de
las Islãs, ni los refinamentos que se daban
por descontados en el Japón o en La China dei Gran Kan. Las sociedades mayas de Yucatán, los
totonacas de Veracruz, los nahuas sometidos a Moctezuma – o rebeldes a
sugemonia – companíam una asombrosa paleta de culturas que los espaííoles
tratarom de comprender a medida que los descubrían e intentaban someterlos ai
rey."
(Gruzinski e Bemand,
1992). A admiração que os espanhóis
sentiram veio misturada com a aversão. Englobam tudo o que vêem sobre o
termo de idolatria, projetando sobre as realidades exóticas uma categoria
familiar. "Desde entonces idólatras e idolatrias serán localizas,
identificadas, etiquetados y descritos. La cuestión, por lo demás, no es filosófica o intelectual. La idolatria que
observo Cortês brindaba también y ante
todo um pretexto político-militar, puesto que legitimaba la conquista lustre a
las glorias de una nueva "Reconquista", como sifuera posible
preseguir em tierra americana la cruzada empreendida en Espana contra el
Islan."(Gruzrnski e Bernard, 1992).
Assim, os espanhóis derrubam templos e destroem ídolos, construindo em
seu lugar igrejas e símbolos cristãos.

Os índios brasileiros são caracterizados
pelos portugueses não só como idólatras, mas sobretudo como por estarem sob o
domínio do demónio. A própria natureza
parece estar a serviço do diabo, por ser selvagem e indomável.

Ao olhar as prática mágicas e os costumes das sociedades
indígenas, os conquistadores concluem que só
o próprio príncipe das trevas pode ter contado aos selvagens como
cultuá-lo, pois estes nunca tiveram contato com os europeus para aprender sobre
tal assunto.

Novamente, a luta contra o bem e o mal justifica a conquista
e a extirpação de sociedades diferentes, que julgam estar no estado de
natureza, sem civilização. "Entre este gentio tupinambá há grandes
feiticeiros, que têm este nome entre eles, por lhes meterem em cabeças mil
mentiras: os quais feiticeiros vivem em
casas apartada cada um por si, a qual é muito escura e tem uma porta muito
pequena, pela qual não ousa ninguém entrar em sua casa, nem de lhe tocar em coisa dela… mas há alguns que
falam com os diabos, que os espancam muitas vezes… A estes feiticeiros
chamam os tupinambás pajés… o que afirmam que lhes ensinou o diabo, e que
lhes aparece…é esse gentio tão luxurioso
que poucas vezes têm respeito às suas irmãs e tias…dormem com elas pelos
matos e alguns com suas próprias filhas; e não se contentam com uma mulher, mas
tem muitas…E em conversação não sabem falar senão nestas sujidades, que cometem cada hora…coisa que não
faz nenhuma nação de gente senão estes bárbaros." (Souza, 1587).

 

CONCLUSÃO

O ilumismo inaugura
o império da razão e estabelece a lógica cartesiana como
princípio unificador e universal do pensamento humano. Entre outros méritos o
racionalismo foi fundamental para acabar com a barbárie das fogueiras do século XVI e XVII. Ao dar esse
passo a humanidade consegue vencer o medo do sobrenatural, colocando as bruxas
nos livros de história infantis. Mas não vence o temor ante o ‘outro’, que
continua a assombrar os cantos escuros do
inconsciente humano do civilizador ocidental.

Rousseau percebeu isso e colocou não a razão, nem a
religião, como condição básica para a
tríplice passagem da natureza à cultura, do sentimento ao conhecimento,
da animalidade à humanidade. A única faculdade capaz de vencer a contradição
entre estes estados, é a piedade. E a piedade proveniente da identificação com o outro, como um ser vivo, que nos
permite reconliecermos como iguais. Mas, para isso é necessário, primeiro,
recusar-se em si mesmo. "É a Rousseau que se deve a descoberta deste
principio, o único sobre o qual podem fundar-se as ciências humanas, mas que
deveria permanecer inacessível e
incompreensível enquanto reinasse uma filosofia que, tendo seu ponto de
partida no Cogito, era prisioneira das pretendidas evidências do eu…
Descartes acredita passar diretamento da interioridade de um homem à exterioridade do mundo, sem ver que
entre esses dois extremos se colocam
sociedades, civilizações, isto é, mundos de homens." (Lévi-Strauss, 1962)

 

Bibliografia

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