maravilhas das antigas civizações

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PARTE II:

A METODOLOGIA DAS REGRAS

CAPÍTULO III

A METODOLOGIA
DE DESCARTES:

UMA
APRESENTAÇÃO

Com o objetivo de fornecer, principalmente, subsídios teóricos à interpretação que vem sendo
desenvolvida, segue abaixo uma reflexão sobre a metodologia apresentada nas Regras
[1]. Nessa
perspectiva, em primeiro lugar, este terceiro capítulo (Parte II) complementa a
Parte I do presente estudo, na medida em que trata de um outro aspecto, de
natureza teórico-reflexivo, da metodologia cartesiana (além do prático-ilustrativo,
privilegiado no capítulo anterior). Por outro lado, visto a partir de si mesmo,
este capítulo, ao se propor explicitar, caracterizar e estruturar os elementos
constitutivos (os procedimentos teórico-operacionais) da metodologia das Regras,
pretende fornecer, na medida do possível, uma interpretação global, coerente e
de conjunto da própria obra, a partir dessa temática.

É amplamente aceita a tese de que as Regras se
constituem na principal obra de reflexão metodológica dentro do pensamento
cartesiano[2].
Além disso, em geral se admite que, por mais diversas que possam ser as
interpretações, a problemática do método é o eixo central que a conduz e a
orienta em seu conjunto
[3]. Este estudo não pretende romper com essa visão
tradicional dominante. Poder-se-ia mesmo dizer que ele pretende, de algum modo,
resgatá-la e reabilitá-la (ainda que, visto com mais detalhes, é menos ortodoxo
do que poder-se-ia esperar), depois que alguns estudos têm tentado mostrar a sua
inconsistência, principalmente por razões advindas do caráter inacabado e
incompleto da obra
[4]. Nesse sentido, a despeito da existência de
interpretações dissidentes, é possível proceder à
tentativa
de restituir à obra e à metodologia, enquanto seu objeto principal, uma visão
completa e unitária.

Seja como for, parece importante apresentar, mesmo que
rapidamente, pelo menos uma dessas posições dissidentes
[5]. WEBER (1964a, p. 2)[6], através de um trabalho minucioso que lhe custou vinte
anos, se pôs como tarefa datar a obra e mostrar suas etapas de composição em
função das rupturas de conteúdo, lacunas e “contradições” encontradas no
interior do próprio texto, bem como das diferenças entre as várias cópias
existentes. A conclusão principal do autor é a sua fragmentação e a datação
diferenciada de suas partes dentro de um período de mais ou menos dez anos,
onde por vezes fragmentos de uma mesma regra pertencem a datas diferentes
[7]; ao mesmo tempo, nada mais resta de um método único e
geral, mas, sim, são vários que se superpõem e se substituem ao longo deste
período em que o texto foi redigido
[8].

A obra de Weber é de extrema importância, principalmente
por trazer à tona as dificuldades de compreensão deste texto cartesiano
inacabado e não revisado, bem como por colocar em evidência as diferenças e a
oposição entre o conteúdo de diversas passagens, quando postas lado a lado e
confrontadas diretamente. Entretanto, quanto ao seu principal objetivo, mesmo
que, em linhas gerais, haja boas razões para crer que a obra foi composta em
datas diversas
[9], o seu resultado é apenas conjectural, ainda mais sob a
forma meticulosa e radical que este especialista propõe
[10].

Disso não se segue, evidentemente, a falsidade da
afirmação de que possa haver vários métodos nas Regras. Ela se torna
problemática, entretanto, enquanto acoplada a esta proposta de datação e como
resultado de uma leitura demasiadamente rígida e fragmentária, o que é
suficiente para um retorno à perspectiva tradicional e crer na viabilidade de
uma interpretação unitária e geral do método.

A principal tese a ser defendida, neste capítulo,
consiste em afirmar que a metodologia das Regras se concentra em dois
grandes momentos, o primeiro mais geral e abrangente, e o segundo mais
operacional e equacionável, mas também decorrente, dependente e, de alguma
maneira, antecipado ou semipresente já no primeiro. Ela leva em
consideração a divisão da obra em “livros”, conforme a intenção de Descartes,
apesar de seus problemas de interpretação e ainda que não totalmente realizada.
O primeiro grande momento tem seu centro gravitacional nas Regras V, VI et VII,
onde se encontra a “estrutura básica do método” (ou os “princípios gerais do
método”, desde que ao termo “geral” não seja dada uma conotação muito ampla e
pouco definida), caracterizada principalmente pelo seu duplo procedimento,
tradicionalmente chamados de etapa analítica e etapa sintética. O segundo
grande momento se encontra principalmente nas Regras XIII e XIV, onde Descartes
apresenta uma “teoria das questões”, desenvolvida ao longo do “Livro II”,
principalmente no domínio da matemática. Estes dois grandes momentos direcionam
e estruturam a obra sob o ponto de vista metodológico, o que significa dizer
que as outras regras, de alguma forma, se subordinam a eles e têm suas funções
definidas a partir deles.

Como parte integrante dessa tese está, em primeiro
lugar, a caracterização do duplo procedimento do método (apresentado nas Regras
V e VI) por meio do binômio simplicidade versus complexidade: a etapa
analítica e a etapa sintética são definidas, respectivamente, como o movimento
de ida do complexo ao simples e aquele, contrário, do simples ao complexo. Mas,
para justificar a pertinência dessa atribuição às duas etapas do método, a
configuração aí assumida por esse binômio deve ser diferenciada de outras
formas de emprego desses conceitos, tais como: a) quando se trata (como foi
visto na Introdução Geral deste estudo) da descrição das operações do espírito
(fora de um contexto metodológico), onde a intuição, a operação mais simples, é
vista como a mais certa e primeira, em relação à dedução; b) quando se trata do
ordenamento entre problemas, bem como da forma de treinamento da mente em
função do método, casos em que Descartes recomenda começar pelos problemas mais
simples e fáceis; c) por fim, por ocasião do ordenamento dos objetos em sua
“ordem natural” de dependência e, como prolongamento, da organização de uma
disciplina ou mesmo do conjunto completo do saber. Isso significa reconhecer
que, nas Regras, há diferentes empregos para os conceitos de simplicidade
e complexidade e que nem todos esses usos (ou movimentos) dizem respeito à
ordem propriamente implementada pelo método. Cabe ter em mente principalmente a
distinção entre tais conceitos usados metodologicamente e quando usados em outros
contextos, de caráter mais expositivo ou estrutural do conhecimento produzido
[11].

É verdade que todos esses movimentos, que se entrecruzam
das mais diversas formas, estão relacionados à metodologia em seu sentido mais
amplo; entretanto, tendo em conta que é à resolução de problemas que ela verdadeiramente
se destina, a metodologia propriamente dita parte sempre de uma complexidade
dada de elementos (conforme a própria definição de problema), cujo objetivo
principal é encontrar os elementos simples e mais básicos. Como tal, ela é o
reverso daqueles outros movimentos, ainda que seu objetivo final seja
realizá-los o mais plenamente possível: respondendo a exigências de ordens
diversas, com predomínio das que levam em conta a maneira como os objetos do
conhecimento são dados (e os problemas, formulados), ela se contrapõe aos
movimentos expostos acima, enquanto governados por exigências apriorísticas
ditadas pela razão.

Por sua vez, o segundo momento do método é necessário
para casos mais complexos (na verdade, para os problemas científicos em geral),
onde o primeiro não é suficiente. Pois, se os preceitos das Regras V, VI e VII
são aplicados a todas as questões, eles nem sempre são eficazes, contudo, para
a resolução das menos simples. Nesses casos, são exigidos procedimentos
auxiliares, dentre os quais alguns podem ser particulares a cada ciência.
Assim, depois de apresentado o método de resolução de problemas em suas linhas
gerais, no primeiro momento (“Livro I”), as Regras XIII e XIV nos oferecem uma
“teoria das questões”, ao examinarem os elementos de uma questão (o conhecido,
o desconhecido e suas relações), bem como o modo de pô-los em
equação, para depois resolvê-la. Essas regras (e, com elas, todo o “Livro II”)
reconhecem a necessidade do tratamento de cada “equação”, de uma forma mais
técnica e precisa, e os procedimentos de análise e de síntese serão rediscutidos
em função disso. Entretanto, não se pode ver aí um segundo método, como à
primeira vista poderia parecer, pois esse segundo momento é um desdobramento
“natural” do primeiro e deve ser acoplado ou mesmo incluído em seu interior,
como parte integrante.

Outras teses de menor alcance serão examinadas no
interior do texto. Todas elas, comandadas pela tese exposta acima e
direcionadas em função da elaboração de um método de resolução de problemas sob a inspiração dos geômetras antigos e algebristas modernos, bem como sob os
auspícios da força nativa do espírito, como afirma a Regra IV, constituirão a
significação e a originalidade da metodologia das Regras, mas também
evidenciarão sua relação para com a Geometria e a metodologia cartesiana
em geral.

3.1 As primeiras quatro regras

Descartes apresenta seu método somente a partir da Regra
V. O primeiro grupo de regras (as Regras I a IV) expõe, como diz MARION (1981,
p. 71), uma “teoria da ciência”, isto é, um conjunto de reflexões
epistemológicas que, sob o ponto de vista da metodologia, são responsáveis por
boa parte de sua orientação, tônica e direção. Como tais, elas preparam o
terreno à metodologia e são uma espécie de “afunilamento” progressivo em sua direção.
Não apresentam, contudo, “regras metodológicas”, isto é, regras que dizem
respeito ao como proceder para produzir o conhecimento.

Não interessa examinar aqui o conteúdo de cada uma
dessas primeiras regras, além do que já foi exposto anteriormente. A intenção é
somente mostrar, por meio de um rápido resumo, como elas caminham em direção à
metodologia, dando-lhe direção e sustentação, ainda que, como foi explorado no
início desta pesquisa (em sua Introdução Geral), esse conjunto de regras (mais
precisamente as Regras II e III), contrariamente à tese tradicionalmente
aceita, não determine a natureza dos procedimentos metodológicos propriamente
ditos.

A Regra I apresenta duas características básicas. A
primeira enuncia o objetivo geral da obra: “a orientação do espírito para
emitir juízos sólidos e verdadeiros sobre tudo o que se lhe apresenta” (359,
5-7). A metodologia é a encarnação operacional deste objetivo. A segunda,
absolutamente “revolucionária” (BECK, 1952, p. 4), é a de ter posto em ação a
“inversão do centro de gravidade do saber” (MARION, 1981, p. 25-28), ao afirmar
que as ciências, por serem atividade e produto do mesmo e idêntico espírito,
não se distinguem enquanto tais e não exigem aptidões diferentes, não sofrendo
influência alguma da diversidade dos objetos. É esta nova “referência” que
fornece as regras do “jogo” do conhecimento; e, se os objetos em nada alteram
sua forma de atuação, “não há necessidade de impor aos espíritos quaisquer
limites” (360, 12-13). Como conseqüências metodológicas dessa regra, cabe
destacar: a possibilidade de um método único para todas as ciências, a partir
da unicidade do espírito; o reconhecimento da ausência de limites externos ao
espírito, portanto, autonomia da razão e à sua capacidade “ilimitada” de
manipular (“iluminar”) quaisquer objetos; o reconhecimento de que a conquista
de uma verdade não “desvia da descoberta de outra” (360, 14), mas aumenta a luz
natural da razão.

Por sua vez, a Regra II apresenta, essencialmente, a
definição de ciência como “conhecimento certo e evidente” (362, 5) e, com isso,
limita a investigação da verdade àqueles objetos dos quais o espírito possa ter
um “conhecimento certo e indubitável” (362, 3), introduzindo, assim, no domínio
dos objetos, o que a Regra I não admitiu no domínio do sujeito. Além disso,
essa regra apresenta a razão pela qual as ciências matemáticas (as únicas)
estão de acordo com a definição dada, uma vez que lidam com um “objeto tão puro
e simples” e suas “conseqüências são deduzidas racionalmente” (365, 16-19).
Essa regra não desrespeita a absoluta liberdade que a primeira atribui ao
espírito, mas somente traz maior precisão e uma explicitação das condições
dentro das quais o conhecimento se produz. Se a “luz” do espírito não sofre
nenhuma influência dos objetos que “ilumina”, ela mesma tem seus próprios
critérios, entre os quais o principal é este que a Regra II apresenta (admitir
somente o conhecimento certo e evidente). As principais conseqüências
metodológicas desta regra são as seguintes: o método deve excluir o provável e
o que não é certo e evidente do campo da ciência; há a possibilidade de se
estender o domínio do conhecimento para além das disciplinas matemáticas,
respeitado o critério acima exposto.

A Regra III trata basicamente das operações da mente, a
intuição e a dedução. Se a Regra II delimitou o campo de atuação da razão aos
objetos dos quais possamos ter um conhecimento certo e evidente, a Regra III
delimita o mesmo campo sob o ponto de vista do sujeito. Esta coincidência entre
estes dois domínios é assegurada visto que a intuição e a dedução são operações
que, se executadas enquanto tais, “produzem” exclusivamente tal conhecimento.
Assim, de alguma forma, a Regra II é absorvida pela Regra III, e a delimitação
dos objetos do conhecimento é secundária em relação à delimitação das operações
mentais.

Por fim, a Regra IV afirma a necessidade do método,
expõe sua definição e função, bem como mostra seus antecedentes históricos e
trata da mathesis universalis. Depois disso, o caminho está aberto para
as regras seguintes exporem o método efetivamente. É importante reafirmar que é
somente essa regra que reconhece que a matemática é modelo metodológico, enquanto
a Regra II afirma que ela é modelo paradigmático do conhecimento certo[12].

De
um modo geral, as conseqüências dessas
regras são muito mais epistemológicas do que metodológicas. A Regra II, por
exemplo, implica que o conhecimento, desde que certo e evidente, possa ser
estendido para qualquer disciplina, o que acaba acarretando uma concepção da
natureza dos objetos cuja característica básica é, como diz a Regra IV, a de
que eles devam poder ser ordenados e medidos ou, como diz a Regra XIV, a de que
eles tenham uma natureza comum entre si, de modo que possam ser ditos
homogêneos. Nesse sentido, a Regra II acaba por nos conduzir, primeiramente, à
Regra IV e à idéia de mathesis universalis[13]. Ela nos conduz também à Regra III, uma vez que a exclusão dos objetos heterogêneos
(sem ordem e sem medida) corresponde a um tipo de experiência enganadora, enquanto
que os objetos “matematizados”, com alguma atenção, jamais nos enganam. Seja
como for, tais regras não dizem ainda como e quais procedimentos devem ser empregados
para a produção do conhecimento. Isso está reservado às seguintes.

3.2 A estrutura do método e sua aplicação

Certamente não há, em Descartes, apresentação do método
tão enfática e incisiva quanto aquela exposta no cabeçalho da Regra V. Depois
de quatro regras que preparam sua apresentação e concluem que ele é
indispensável e necessário, esta regra o expõe abruptamente: “Todo o método
consiste na ordem e na disposição das coisas para as quais deve se dirigir a
atenção da mente, a fim de descobrirmos alguma verdade. E observá-lo-emos
exatamente, se reduzirmos gradualmente as proposições complicadas e obscuras a
outras mais simples e se, em seguida, a partir da intuição das mais simples de
todas, tentarmos nos elevar pelos mesmos degraus ao conhecimento de todas as
outras” (379, 15-21). E, logo adiante, no início do seu comentário, ela continua
com a mesma força e convicção: “Nisto apenas está contido o essencial de toda a
humana indústria, e esta regra não deve ser menos seguida por quem anseia
batalhar pelo conhecimento das coisas que o fio por Teseu quando desejou
penetrar no labirinto” (379, 22-380, 2)
[14].

Os elementos que talvez mais chamam a atenção em uma
primeira leitura destas citações, antes de qualquer exame, são, por um lado, o
caráter “totalitário”, “impositivo” e absoluto do método (ao lado da convicção
e da resolução com que é apresentado) e, por outro, a extrema importância que
lhe é atribuída. Com efeito, esta regra parece pura e simplesmente apresentar
nada menos do que a totalidade do método e o essencial da
indústria humana[15],
cuja função é tão vital àquele que deseja desafiar o “labirinto das ciências”
[16] quanto o foi o fio de Ariane para Teseu.

Mas será que se deva conduzir ao extremo o exame de tais
afirmações apenas lançadas, sem a consideração de toda a reflexão metodológica
em seu conjunto? Independente da resposta a esta questão, uma coisa é certa: se
as outras regras devem ser reduzidas ao papel de meros atores coadjuvantes ou
se, de fato, elas trazem novos preceitos metodológicos e maior precisão ao que
aqui é apresentado, não se pode negar a pretensão desta regra de apresentar,
senão todo o método (rigorosamente falando), pelo menos algo
extremamente vital e essencial à atividade do conhecimento. Na verdade, esta
regra apresenta a estrutura geral e mínima do método; ela expõe o que é mais
básico à atividade humana de conhecer e, dessa forma, pode-se dizer que ela
apresenta “todo” o método e o essencial da atividade de conhecer. E isso está
em acordo com as regras posteriores.

Uma vez apresentadas (e retidas) as primeiras impressões
sobre a Regra V, podemos passar ao exame de seu conteúdo. Ela afirma
essencialmente duas coisas: a) que todo o método consiste na atividade de
ordenar e de dispor os objetos aos quais a mente deve dirigir sua atenção para
descobrir algo de verdadeiro; b) que este ordenamento se configura ao se proceder
da seguinte forma: pela redução das proposições complicadas às mais simples e
pelo processo contrário de “elevação” daquelas mais simples, pelos mesmos
degraus, até as mais complexas. O método das Regras, portanto, em sua
forma essencial, diz respeito fundamentalmente à produção de uma ordem metodológica em relação a uma determinada complexidade dada de elementos (proposições,
objetos), onde, num primeiro momento, trata-se de examinar esta complexidade e
encontrar os elementos mais simples e, depois, de posse destes, fazer o caminho
inverso, em direção aos mais complexos. Disto surgiria uma nova complexidade,
mas agora reconstruída e totalmente compreendida. Neste duplo movimento de ida
do complexo ao simples e do simples ao complexo consistiria a estrutura mínima
e essencial do método: eis, pois, que a Regra V apresenta o que Descartes
poderia ter denominado a espinha dorsal ou a estrutura básica do seu método
[17].

É por esta razão, continua Descartes, que ela deve ser
seguida por todo aquele que se lança na batalha do conhecimento
[18]. Contudo, este modelo mínimo do método, dada a forma
esquemática e geral em que é apresentado, dificilmente poderá ser entendido e
posto em prática satisfatoriamente sem se ter em conta a Regra VI. Assim,
continua Descartes: “Mas, como a ordem, que aqui é exigida, é de tal modo
obscura e intrincada que nem todos podem reconhecer qual seja ela, dificilmente
podem satisfatoriamente se guardar de não errarem, a menos que observem
diligentemente o que será exposto na proposição seguinte” (380, 18-22). Esta
citação, à luz do conjunto da Regra V, parece esclarecer dois pontos. O
primeiro é que a próxima regra, a Regra VI, trará esclarecimentos ou precisões
importantes para a compreensão da Regra V e, neste sentido, elas devem ser lidas
e interpretadas sempre conjuntamente. O segundo é que a Regra VI é necessária
porque a ordem metodológica exigida é muitas vezes muito mais complexa e
obscura do que a Regra V apresenta. Isto significa que a Regra V apresenta não
absolutamente e rigorosamente todo o método, como o enunciado da regra
aparenta afirmar, mas somente sua forma geral e esquemática. Pois, se a ordem é
geralmente mais complexa do que até então a Regra V a apresenta, há que se
admitir que ela a expõe, mas (ou ainda que) somente de uma forma bastante
simplificada.

A Regra VI, portanto, retoma e precisa a anterior. Mas
ela vai também mais além da Regra V, como será visto mais abaixo
[19]. Ela afirma que, dada uma determinada complexidade, é
necessário antes de tudo explicitar a configuração e a trama de todos os
elementos envolvidos, com o objetivo primeiro de identificar o seu elemento
mais simples e absoluto, para depois mostrar como todos os outros estão a ele e
entre si interligados. Diz Descartes: “Para distinguir as coisas mais simples
das complicadas e prosseguir ordenadamente, é necessário, em cada série de coisas
em que diretamente deduzimos algumas verdades umas das outras, notar o que é
mais simples e ver como todo o restante dele está mais, ou menos, ou igualmente
afastado” (381, 2-6). E continua logo abaixo: “Se bem que esta proposição [a
própria Regra VI] não pareça ensinar nada de muito novo, ela contém, no
entanto, o principal segredo da arte” (381, 7-8). E, ainda, mais abaixo: “E o
segredo de toda a arte consiste em buscarmos com diligência em todas as coisas
o que há de mais absoluto” (382, 17-19)[20].
Esta regra apresenta, pois, o que há de mais fundamental para o método – o seu
segredo e etapa principal – e, assim, talvez se pode afirmar que, não somente
“nenhuma há mais útil em todo este Tratado” (381, 8-9), mas também que, em algum sentido, seja tão
útil quanto ela
[21].

Há, no entanto, uma certa ambigüidade quanto à
determinação exata de qual é o tema principal da Regra VI e no que consiste
precisamente a grande utilidade desta regra e o seu segredo, apesar da aparente
limpidez da afirmação dada acima. E isto é devido principalmente a uma outra
afirmação, que vem em seguida do último trecho citado acima. Continua Descartes:
a Regra VI “instrui, na verdade, que todas as coisas se podem dispor em certas
séries, não evidentemente enquanto se referem a algum gênero de ser, tais como
as dividiram os Filósofos em suas categorias, mas enquanto umas podem ser
conhecidas a partir das outras” (381, 9-13). Esta citação parece sugerir que o
segredo do método é o tema da disposição dos objetos em séries e não a busca do
que é simples e absoluto; e, neste sentido, o cabeçalho da regra deveria ser
interpretado diferentemente. Segundo esta interpretação, a importância da Regra
VI pareceria ser sobretudo a de introduzir a noção de disposição dos objetos em
forma de série e nisto consistiria a grande utilidade e mesmo o segredo do
método. Sob este ponto de vista, a idéia de série ou de ordem serial adquire um
papel fundamental e é vista como a idéia central desta regra e, por
conseqüência, da metodologia das Regras como um todo
[22].

Mas será que estas citações apresentam uma oposição
irreparável e, portanto, não são compatíveis de uma forma a não precisarmos
optar por uma dentre elas? É precisamente esta interpretação que será defendida
aqui, mas não sem ter que admitir um certo privilégio a uma delas. Em outros
termos, os dois temas, juntos, formam a idéia central que Descartes quer
apresentar nesta regra, ainda que cada um com um lugar e estatuto diferente.
Se, por um lado, os objetos do conhecimento se dispõem em séries, enquanto uns
dependem de outros, por outro, esta mesma noção (para sua efetivação) depende
da conquista dos elementos mais simples e daqueles que permitem organizá-la ou
lhe dar origem. Ainda que, desde o início de uma investigação, seja útil
heuristicamente (mesmo necessário) pressupor que os objetos se dispõem
em séries, o tema de sua constituição é subordinado àquele da busca do objeto
mais simples e absoluto, dado que uma série é, efetivamente, produzida somente
como resultado do método. E, assim, é na procura do elemento mais absoluto que
consiste precisamente a chave de todo o sucesso do método.

Descartes insistirá sobre este ponto em toda uma “seção”
(381, 17-383, 10)
[23] da Regra VI, exatamente no lugar onde afirma que “o
segredo de toda a arte consiste em buscarmos com diligência em todas as coisas
o que há de mais absoluto” (382, 17-19). Logo abaixo do cabeçalho e do
comentário geral que lhe segue (e já examinado acima), diz esta regra que, para
que se possa corretamente cumprir o que foi imediatamente acima afirmado, isto
é, dispor os objetos do conhecimento em séries e resolver ordenadamente
qualquer dificuldade que se apresenta, tais coisas, “sob o aspecto da sua
utilidade possível para o nosso propósito, isto é, quando não consideramos a
sua natureza isoladamente, mas as comparamos entre si para as conhecer umas a
partir das outras, podem ser ditas ou absolutas, ou relativas” (381, 18-21)[24].
Absoluto é “tudo o que contém em si a natureza pura e simples de que trata uma
questão” (381, 22-23), como o que é “independente, causa, simples, universal,
uno, igual, semelhante, reto, ou outra coisa do gênero” (381, 24-26); absoluto
“é, antes de tudo, o mais simples e o mais fácil, em função do uso que dele
faremos na resolução das questões” (381, 26-382, 2). Relativo, por sua vez, é
“o que participa desta mesma natureza ou, ao menos, de algum dos seus elementos”
(382, 3-4) e pode estar mais ou menos afastado do absoluto e dele se deduzir
dentro de uma série; ele inclui em seu conceito também sua “relação” para com o
elemento absoluto, cuja quantidade determina seu maior ou menor afastamento
deste último. É relativo o que é “dependente, efeito, composto, particular,
múltiplo, desigual, dissemelhante, oblíquo, etc.” (382, 8-9).

O primeiro elemento importante deste conjunto de
considerações diz respeito à perspectiva a partir da qual a problemática se
coloca. Sob a perspectiva do conhecimento das coisas (e não de sua natureza
pura e simplesmente), os objetos não são considerados fechados em si mesmos,
completos e “incomunicáveis”, mas enquanto se relacionam, são solidários, partilham
e são cúmplices entre si. É esta solidariedade e cumplicidade que define o
próprio estatuto de cada um deles, os institui enquanto tais e os caracteriza.
Assim, um determinado objeto pode variar de “identidade” dependendo de suas
“relações” e da “identidade” dos outros “membros” do grupo; a classificação dos
objetos em absolutos e relativos é, pois, ela mesma relativa: “Há coisas, com
efeito, que são, sem dúvida alguma, mais absolutas que outras, mas que,
consideradas de outra maneira, são mais relativas.” (382, 19-21). De forma
semelhante como um triângulo pode ser considerado um objeto simples e ser
intuído como tal, mas também pode ser considerado composto (de diversas propriedade
e de outros objetos, como linhas e ângulos), assim também o universal, geralmente
visto como o mais absoluto, porque simples, pode ser considerado mais relativo
que o particular. De maneira análoga, a espécie é mais absoluta que os
indivíduos, mas mais relativa que o gênero; a extensão é o mais absoluto dos
objetos mensuráveis, mas é o comprimento o mais absoluto entre os tipos de
extensão; a causa e o igual são naturezas verdadeiramente relativas, mas serão
consideradas absolutas em relação ao efeito e ao desigual (382, 21-383, 10).

A segunda consideração, decorrente do que é dito acima,
é a de que a instauração da perspectiva do conhecimento não é suficiente para
classificar um objeto como absoluto ou relativo. Em outras palavras, se a
classificação dos objetos em relativos e absolutos é ela mesma relativa, ela é
relativa a quê? Em nada adianta dizer que ela é relativa ao conhecimento, pois
algo (por exemplo, o universal) é enquanto objeto do conhecimento que ele pode
ser tanto relativo quanto absoluto: assim, mesmo que e pelo fato de que esta
classificação se dá no interior desta perspectiva (em contraposição à da
natureza das coisas), é necessário um outro “critério” que lhe seja responsável.
Em nada adianta também dizer que ela é relativa a uma determinada série, pois a
própria série, para ser constituída, pressupõe a decisão já tomada em relação a
esta classificação
[25]. Deste modo, o que define a “identidade” dos objetos e
à que, em primeira instância, eles são solidários e cúmplices? O que faz com
que um objeto assuma em um dado momento uma determinada “situação cognitiva” e
não outra? A resposta de Descartes é a seguinte: a sua identidade ou situação
cognitiva é determinada “em função do uso que dele [do absoluto; e, portanto,
também do relativo] faremos na resolução das questões” (381, 26-382, 2),
pois absoluto é definido como “o que contém a natureza pura e simples do
que trata uma questão” (381, 22-23), e relativo como “o que participa
desta mesma natureza ou, ao menos, de algum dos seus elementos” (382,
3-4)[26].

Assim, a classificação dos objetos do conhecimento em
relativos e absolutos é, em um primeiro plano, sempre relativa a uma questão
proposta (ou conjunto de questões). Uma questão, para Descartes, pelo menos no
“Livro I”, é entendida em um sentido bem amplo e não-técnico: ela é entendida
como sinônimo de um problema ou mesmo de uma proposição complexa que se queira
investigar. Não é necessário (nem mesmo recomendável), pois, tentar, por
enquanto, fornecer uma caracterização mais precisa deste termo
[27]. O importante é que, por ora, se entenda por questão o
que há de comum quando se fala de um problema matemático, de um problema de
física ou mesmo de um enigma que se queira resolver: ela se apresenta como um
conjunto de elementos que devem ser examinados em função de sua resolução;
estes elementos (os quais Descartes chama de coisas, proposições) formam uma
complexidade à qual o método deve ser aplicado
[28].

A Regra VI faz notar, pois, até esta altura, que o passo
crucial é a procura e a conquista do elemento mais simples e mais absoluto,
dentro de uma problemática dada. Isto significa dizer que ele não é
imediatamente percebido, ainda que potencialmente presente. Ele está submerso
na complexidade dada (na questão) e, portanto, deve ser identificado e
descoberto. Dado o duplo movimento do método, o segredo do seu sucesso é
exatamente buscar, conquistar e captar o que há de mais simples e absoluto no
problema investigado, elemento fundamental que possibilita tornar evidente a
complexidade dada e resolver a questão. Assim, o procedimento de ida do
complexo ao simples (a análise ou a etapa resolutivo-regressiva) é um procedimento
de descoberta do(s) elemento(s) que possibilita(m) a resolução da questão[29].
O segredo do método é, pois, o resultado de uma conquista, o que pressupõe uma
preparação e uma busca: não se parte, portanto, de algo dado de antemão como
simples e evidente, de uma intuição imediatamente dada, mas de uma complexidade
que deve ser examinada. Assim, pode-se perceber claramente que Descartes
concede importância fundamental a este movimento do método em relação ao
segundo (a síntese ou a etapa compositivo-progressiva), pois se constitui na
chave do processo de descoberta, por ir em busca da “causa” ou do “segredo” da
solução do problema. O simples e o absoluto são, pois, uma conquista e,
portanto, não podem ser o ponto por onde inicia uma investigação científica,
segundo a metodologia cartesiana.

Mas, se o segredo do método consiste em procurar e
conquistar o simples e o absoluto, qual a função ou porque Descartes fala da
noção de série e a relaciona ao método
[30]? Este conceito parece ter várias características, todas
ligadas ao método e à conquista do conhecimento. A primeira está relacionada à
própria instauração da perspectiva do conhecimento: uma vez desconsiderada a
perspectiva da natureza em si mesma das coisas e instaurada a perspectiva do
conhecimento, o conceito de série é importante e aparece como que naturalmente,
pois representa nada mais nada menos do que esta própria perspectiva do
conhecimento. Nesse sentido, somente é possível comparar e estabelecer relações
entre os objetos uns a partir dos outros (e isto se chama conhecê-los, pois
conhecer é “conhecer umas [coisas] a partir de outras” (381, 20-21)), se tais
objetos se estruturarem e apresentarem uma certa interdependência entre si,
isto é, se forem passíveis de se organizarem em “certas séries”, “enquanto uns
se podem conhecer a partir dos outros” (381, 9-13): pressupor a possibilidade
do conhecimento ou instaurar tal perspectiva é, pois, o mesmo que pressupor a
existência de séries em geral.

Neste caso, toda questão ou todo problema, para ser
solucionado, pressupõe que os objetos que lhe dizem respeito estejam ou possam
ser organizados em séries, isto é, dependam uns dos outros e possam ser
conhecidos enquanto tais. No que diz respeito, pois, a esta primeira característica do conceito de série, o método (e toda questão à qual ele se
aplica) a pressupõe. Mas é somente uma pressuposição, a qual equivale, a
um tempo, à instauração da perspectiva do conhecimento (isto é, à pressuposição
de que os objetos estão todos relacionados, enquanto objetos do conhecimento)
e, a outro, à possibilidade de utilizar tal pressuposição heuristicamente
durante a resolução de uma questão (toda questão, portanto, antes de começar a
ser examinada, em sua própria formulação ou essência, pressupõe uma dependência
serial entre os objetos que lhe dizem respeito)
[31].

Mas, dentro deste contexto, caberia uma outra pergunta:
a série é resultado de uma questão (ou questões) ou é o que possibilita sua
formulação e resolução? Na verdade, ela é as duas coisas (e talvez mais do que
isso). Se a sua primeira característica é a de possibilitar a atuação do método
através do tratamento de questões (portanto, antecede logicamente a própria
questão), ela surge efetivamente (uma série particular origina-se) somente como
resultado delas (portanto, ela é temporalmente posterior). Assim, a segunda característica da série é a de que ela, realmente, é resultado da resolução de
uma questão (ou de várias). A série, no primeiro sentido, era simplesmente
pressuposta e heuristicamente fecunda à resolução das questões; agora, ela é
efetivamente constituída a partir da hierarquização dos objetos em sua
dependência cognoscitiva e epistêmica (a partir do mais simples e absoluto).
Neste caso (no segundo sentido), a série se relaciona com o (ou é resultado
direto do) segundo procedimento do método, conforme caracterizado acima (isto
é, com o movimento de ida do simples ao complexo).

Estes dois sentidos (ou faces de um mesmo sentido) do
conceito de série permitem compreender melhor o próprio enunciado da Regra VI.
Ele afirma que “em cada série de coisas em que diretamente deduzimos algumas
verdades umas das outras, [deve-se] notar o que é mais simples” (381, 3-5),
cuja primeira impressão é a de que, antes de tudo, a série é apresentada
(dada), para que se possam deduzir as verdades, e somente após é que se percebe
o que é mais simples. Ora, como foi visto, a constituição efetiva da série
depende da conquista do que é mais simples e, portanto, ela é constituída
posteriormente. Assim, o enunciado acima deve ser entendido no sentido de que,
em um conjunto de objetos onde se pressupõe que eles dependem uns dos
outros (isto é, que eles se organizam em séries), começa-se a “deduzir”, a
desmembrar os objetos da complexidade dada e somente aí (concomitantemente ao
processo de “dedução”) pode-se encontrar o simples e, então, constituir
efetivamente a série.

Entretanto, o conceito de série vai além destes dois
sentidos dados acima (de seu valor heurístico, por ocasião da instauração da
perspectiva do conhecimento, e de ser computado como resultado ou arranjamento
dos objetos de uma questão, cuja dependência entre si foi exposta por ela). Há,
pois, uma terceira característica do conceito de série, que se desdobra
a partir das duas anteriores e que a “seção” seguinte (373, 11-384, 8) da Regra
VI apresenta alguns indícios.

Na seqüência desta regra, Descartes faz a primeira
alusão à sua concepção de naturezas simples e compostas, à sua maneira de
concebê-las e a seu modo de estruturação. Diz ele que são poucas as naturezas
puras e simples, as quais podem ser intuídas diretamente e independente de
quaisquer outras e que são as mesmas que começam a aparecer (e, portanto, a se
repetir) em cada série de objetos. Desse modo, deve-se considerá-las
cuidadosamente, dado que estão sempre no início dos mais diversos encadeamentos
de conhecimentos que se venha a constituir
[32]. As outras, as naturezas compostas, só podem ser
conhecidas enquanto deduzidas das primeiras, das quais se distanciam mais ou
menos dependendo do número de objetos que intermedia sua ligação. Tal é a forma
pela qual os objetos do conhecimento são organizados, pela qual e a partir da
qual é possível aplicar o método rigorosamente a toda questão proposta. Mas,
como não é fácil recenseá-las a todas e mesmo é mais importante saber
reconhecê-las distintamente do que retê-las na memória, é necessário, conclui
Descartes, se habituar a refletir com perspicácia sobre cada uma delas em
particular (383, 11-384, 8)
[33].

Este parágrafo, à primeira vista, poderia dar a
impressão de se contrapor à visão de método dada acima, pois parece sugerir que
ele se reduz a um movimento dedutivo das naturezas simples em direção às
compostas
[34]. Não há, entretanto, quaisquer indicações que
justifiquem uma tal interpretação reducionista e de oposição ao que acaba de
ser exposto; parece mais correto dizer que Descartes, antes do querer redefinir
o método, está complementando-o através do tratamento da sua segunda etapa
[35] (já que, na “seção” anterior, a primeira etapa foi
discutida) e, como conseqüência, da aplicação do método em função da
estruturação do conhecimento
[36]. Neste sentido, não só o método em seu duplo movimento
pode ser aplicado, se os objetos do conhecimento se dividem em simples e
complexos, mas também o próprio conhecimento, uma vez adquirido, poderá ser
organizado dentro do modelo e no sentido simples → complexo.

Em outras palavras, o método, por meio de sua própria
atuação, por assim dizer, se ultrapassa a si mesmo, enquanto método de solução
de problemas (aparentemente soltos), pois, progressivamente, começa a engendrar
uma estrutura dedutiva ao conhecimento, que vai além de uma ou de outra questão
posta isoladamente. Tal processo ocorre, porque, à medida que problemas vão
sendo resolvidos uns após outros, as mesmas naturezas simples aparecem e
começam a se repetir em cada um deles, o que leva à percepção da função
primordial e primeira que exercem e a mostrar que todos ou, pelo menos, a
maioria dos problemas de um mesmo domínio são reconduzidos a (ou são
dependentes de) um número reduzido delas. Isto não mostra somente que a solução
de um problema pode fortificar e tornar mais convincente a solução de um outro
(à proporção que é conduzido às mesmas naturezas simples), mas também que um
problema pode ser reduzido a outro
[37] e que o número de “princípios” de um determinado
domínio de objetos é bem reduzido. Assim, o método permite paulatinamente a
“transformação” dos objetos absolutos e relativos em naturezas simples e
compostas e, com isso, a montagem de uma estrutura dedutiva do conhecimento
[38].

Nesta perspectiva, à medida que as mesmas naturezas
simples (e mesmo algumas complexas) começam a aparecer nas diversas séries
dedutivas, o próprio conceito de série, ainda limitado a uma questão (segundo
sentido, dado acima), se ultrapassa a si mesmo em direção de um conceito de
série mais geral e que dá conta de um conjunto mais amplo de questões, isto é,
de um domínio de objetos. O conceito de série, portanto, recupera o seu sentido
de disposição dos objetos “enquanto uns se podem conhecer a partir dos outros”,
em sua mais ampla abrangência; agora (neste terceiro sentido), a série é
efetivamente construída; ela não é apenas suposta (contra o primeiro sentido),
mas também ultrapassa o nível de uma questão (contra o segundo sentido).

Os conceitos de questão e de série são, portanto,
intimamente cúmplices e interdependentes, mas ambos dependentes da conquista
dos elementos mais simples e absolutos (a chave do sucesso do método). Até este
momento, o método nos ensinou que, conforme a Regra V, deve-se examinar a
complexidade dada (uma questão, um conjunto de questões ou uma proposição
complexa) e aplicar o duplo procedimento do método (ir desta complexidade a
seus elementos simples e, depois, reconstituí-la até seus elementos mais
complexos, mas agora de uma forma evidente); mas, para fazer isso, segundo a
Regra VI, deve-se considerar que os objetos dependem uns dos outros e,
portanto, pressupor que eles se ordenem em séries; depois disso, é possível
partir efetivamente para a resolução da questão, a qual depende
fundamentalmente da conquista do elemento mais simples e absoluto; esta
conquista não é somente o passo principal para a solução da questão, mas possibilita
constituir efetivamente a série dos objetos que estiveram de alguma forma implicados
na complexidade investigada. Um conjunto de questões “próximas”, uma vez
resolvidas, ou várias séries paralelas, que se entrecruzam ou que têm um idêntico
ponto de partida podem dar origem a um domínio organizado de conhecimento, onde
os objetos simples se transformam em naturezas simples ou algo como princípios.
É este o método até então apresentado por Descartes.

Mas a Regra VI não para por aí. Ela, por fim, em sua
terceira e última “seção”, trata longamente (384, 11-387, 8) de exemplos de
“progressão geométrica” e da maneira como um conjunto de questões se relaciona
entre si, sendo umas mais difíceis e complexas que outras. Tais reflexões, ao
contrário do que geralmente se diz, pelo menos no que diz respeito à Regra VI,
não têm por objetivo fornecer propriamente exemplos de aplicação do método
(anteriormente exposto) ou ilustrar o que é uma série
[39] (e, com isso, mostrar que a função imediata do método é
sua constituição), ainda que sua utilidade é, antes de tudo, metodológica. Mas,
então, qual é a utilidade desta “seção”?

Em um primeiro momento, ela pretende mostrar que, antes
da abordagem de “algumas questões determinadas” e mais difíceis (dentro de um
determinado assunto, por exemplo, “questões relativas às proporções”), convém
recolher as verdades que espontaneamente aparecem e ver o que se pode a partir
delas saber (“deduzir”). É preciso, além disso, se perguntar por que algumas
verdades são descobertas mais cedo e mais facilmente, bem como quais são elas
(384, 9-18). Deste modo, por ocasião do exame de uma questão determinada,
saberemos quais outras questões é útil examinar previamente
[40]. Assim, conclui Descartes, “uma reflexão atenta faz-me
compreender a maneira como se complicam todas as questões” e ensina “a ordem que a sua investigação exige” (384, 30-385, 3). Trata-se, pois, de mostrar que
uma questão de um determinado domínio (como a matemática) não se encontra
isolada, mas têm uma tal imbricação com outras que uma investigação inicial de
todas elas (e de seu contexto) propicia a compreensão da ordem que o cientista
deve seguir para melhor e mais economicamente examiná-las. Em outras palavras,
a preocupação de Descartes, aqui, é a de mostrar que, uma vez tendo questões
mais ou menos complicadas sobre uma mesma problemática ou área de conhecimento,
a boa ordem mostra por quais se deve começar: por ora, esta ordem consiste em
recolher os conhecimentos que espontaneamente aparecem e em começar a resolver
os problemas sempre pelos mais simples, quando possível
[41].

Logo a seguir, Descartes fornece exemplos e evidências
sobre como e quando se complicam as questões (bem como quando se pode
simplificá-las), relacionando-as à alteração da “natureza” (385, 10) ou “gênero
da dificuldade” (385, 17-18); com isso, o autor exemplifica a distinção entre
problemas simples e complexos. Assim, a procura da “média proporcional” (385,
19) (sendo um problema de segundo grau: 3/x=x/12) é mais difícil do que
a de uma “terceira” (385, 23) proporcional (por ser um problema de primeiro
grau: 3/6=6/x); por sua vez, a determinação de “uma das duas médias
proporcionais” (385, 26) (por ser um problema de terceiro grau, com dois desconhecidos: 3/x=x/y=y/24) é ainda mais difícil. Enfim, se desejarmos determinar “três
médias proporcionais” (386, 6-7), este problema é, à primeira vista, ainda mais
complexo (por ser um problema de quarto grau, com três incógnitas: 3/x=x/y=y/z=z/48),
mas, na verdade, se torna mais simples que o anterior, dado que pode se reduzir
(se simplificar) a problemas de segundo grau (3/y=y/48; 3/x=x/12; 12/z=z/48).

Descartes conclui, pois, que há vias diferentes para
conhecer a mesma coisa (diretas, indiretas, por simplificação), sendo umas são
mais difíceis e obscuras que outras (386, 15-387, 8), da mesma forma como há
problemas mais simples e mais complexos (mais fáceis e mais difíceis) dentro de
uma mesma disciplina e que há conhecimentos que podem ocorrer espontaneamente e
anteriormente ao exame de uma questão determinada. Diante disso, recomenda,
antes de tudo, considerar cuidadosamente tais conhecimentos e começar a
investigação pelos problemas mais simples e fáceis. E isto é válido, não só
para a matemática, mas também para qualquer outra ciência
[42].

Nestes termos – e com isso está sendo concluída a
análise da Regra VI –, fica estabelecido que, não são somente os objetos de um
determinado problema que se classificam em simples e complexos, mas também os
próprios problemas entre si
[43]. Isto significa dizer que o binômio simplicidade versus complexidade é válido tanto para objetos quanto para problemas; e, com isso, o
método apresenta uma (outra) dimensão até então não mencionada (e que também se
caracteriza por ultrapassar o tratamento interno de uma questão, a exemplo
daquela examinada acima), ao ter que considerar, não mais a complexidade
interna de um problema, mas a relação (externa) entre vários dentre eles. Neste
caso, ao contrário do que é válido para uma questão, a metodologia cartesiana
aconselha que se deva examinar, antes de tudo, os problemas mais simples e
somente, depois, os mais complexos. Diante de um conjunto de questões de um
determinado campo do conhecimento, a boa ordem diz que se deva começar com os
problemas mais simples e somente depois examinar os mais complexos, enquanto
que, no caso de uma questão, ela reza que se deva partir da complexidade dada
para encontrar os elementos mais simples. E, assim, como se acaba de ver, o
conceito de ordem metodológica, exposto nas Regras V e VI, negocia e é
determinado tanto pelos conceitos de objetos simples e complexos e de série de
objetos, quanto pelo de questões simples e complexas.

Uma vez exposta a Regra VI, a Regra VII pretende
apresentar o que falta “para completar a ciência”, na perspectiva de que “é
preciso examinar, uma por uma, todas as coisas que se relacionam com o nosso
objetivo, por um movimento contínuo e jamais interrompido do pensamento,
abarcando-as numa enumeração suficiente e ordenada” (387, 10-13). Este exame em
que se constitui a enumeração não é de natureza única e constante, mas abarca
várias situações, a partir de dois eixos principais de atuação. Esta regra tem
como uma de suas funções, por um lado, corrigir possíveis falhas ou erros do
método (já aplicado), através de recapitulações e revisões, ao mesmo tempo em
que pretende “condensar” os conhecimentos adquiridos, reduzindo-os ou
aproximando-os ao máximo a intuições. Mas, por outro lado, ela também se propõe
a efetivamente auxiliá-lo (quando em atuação), em situações onde as informações
se encontram dispersas ou desconectadas e nas ocasiões em que é preciso
detectar e elencar os vários objetos (ou problemas) envolvidos no processo de
resolução. Em outras palavras, a “regra da enumeração”, como geralmente é
chamada, é responsável por trazer à tona a necessidade de se fazer enumerações
“recapitulativas” e enumerações “resolutivas”. A sua importância cresce à
medida que os problemas se tornam mais complexos.

As várias situações em que a enumeração entra na ordem
do dia podem, pois, ser reunidas fundamentalmente ao redor de dois tipos. O
primeiro tem o encargo de rever o que já foi feito. Ela é fundamental nos casos
mais complexos de dedução, tanto naqueles em que a cadeia dedutiva for muito longa
(387, 17-388, 2), ainda que linear, quanto nos outros em que há estruturas mais
complexas não lineares
[44]. Em ambos os casos, a enumeração recapitulativa refaz o
caminho percorrido pelo método, cujo primeiro objetivo é revisar todos os seus
passos e evitar possíveis lacunas ou omissões. O segundo objetivo é diminuir ao
máximo o papel da memória, ao transitar de um degrau para outro com a maior
rapidez possível, abarcando-os em um todo, na tentativa de reduzir a dedução à
intuição. Este movimento do pensamento não pode ser interrompido em nenhum
momento, nem executado com negligência e superficialidade (ainda que com
rapidez) (387, 14-388, 17). Ele é geralmente vertical, por seguir a dependência
entre um passo e outro, e pode assumir, por vezes, formas complexas e menos
lineares
[45].

O segundo tipo tem um papel, não de rever (ainda que
caiba uma revisão desta própria enumeração), mas de elencar ou examinar os
objetos que fazem parte de uma “classe” ou da complexidade dada. E isso, por
vezes, de uma forma somente suficiente, por outra, de uma forma completa. Aqui,
a enumeração tem uma função efetiva de completar a ciência e ajudar as outras
regras na resolução das questões (388, 18-24). Por isso, ela pode ser chamada
de enumeração resolutiva. Assim, ela pode ser útil na própria compreensão do
problema, ao elencar todos os elementos que lhe fazem parte, tanto os
conhecidos quanto os desconhecidos, bem como os mais e os menos importantes.
Ela pode ser utilizada também no decorrer da investigação, para elencar os elementos
envolvidos em um determinado momento da investigação. Ela tem um sentido, em
geral, horizontal, mas pode, de quando em vez, ser também vertical.

Na verdade, a enumeração resolutiva parece ter um papel
bastante amplo e nem sempre fácil de ser determinado. Se ela “é exigida para
completar a ciência”, enquanto os outros preceitos (as Regras V e VI (?))
servem para “resolver a maioria das questões”, sua função é ao mesmo tempo a de
“ajudar a aplicar o nosso espírito a qualquer uma delas”, a de permitir “um
juízo seguro e certo” e “não deixar escapar absolutamente nada” (388, 18-24).
Além disso, ela é a “investigação de tudo o que se relaciona com uma questão”,
de tal forma que, se não permite descobrir o objeto procurado, é porque este
não pode ser encontrado por “nenhuma das vias por nós conhecidas” (388, 25-389,
7). Por fim, ela serve para “tirarmos uma única conseqüência de um grande
número de coisas separadas” (389, 17-20).

Como se pode ver, a enumeração tem um papel bastante
múltiplo no auxílio das outras regras. E isto é válido principalmente para a espécie
resolutiva, mas não deixa de ser pertinente também à recapitulativa. Em resumo,
a enumeração está aí para desempenhar as várias funções necessárias “para
completar a ciência”, não cobertas ou “instintivamente” e ligeiramente
executadas pelas duas regras anteriores. Ela, como tal, não precisa ser sempre
completa, mas basta por vezes ser suficiente (390, 6-24); entretanto, nunca
pode deixar de ser feita ordenadamente (390, 25-391, 11).

Restam ainda duas observações a serem feitas sobre a
Regra VII. A primeira é quanto ao lugar da enumeração. Pode-se perceber que ela
não pertence propriamente à estrutura do método: ela não tem, aí, um lugar
determinado e pode intervir, dependendo da necessidade e da complexidade do
problema, a qualquer momento. Ela reafirma e refaz (em seu sentido recapitulativo)
o que a análise e a síntese realmente executam; e, em seu sentido resolutivo,
ela executa algo que, de alguma forma, poderia em princípio ser absorvido “naturalmente”
pelas outras etapas, já que as outras regras “servem, certamente, para resolver
a maioria das questões” (388, 19-20). Seu caráter é, portanto, complementar;
mas isto não significa desprezar seu papel. Sua importância parece estar em
valorizar três procedimentos: a) a possibilidade de reduzir um conjunto de
passos a uma perspectiva instantânea e intuitiva, eliminando ao máximo a
atuação da memória; b) a necessidade de nada omitir ou esquecer e revisar o
caminho percorrido, evitando lacunas ou quebra na cadeia dedutiva; c) a
necessidade de, dado um objeto ou conjunto de objetos em um problema,
examiná-los e discriminá-los, elencando-os e estabelecendo relações (por vezes,
extraindo conclusões) entre eles.

Uma última observação diz respeito aos esclarecimentos
quanto à relação entre estas três regras entre si e em comparação às outras. A
Regra VII conclui: “De resto, estas três últimas proposições não devem ser
separadas, porque é preciso, geralmente, refletir nelas ao mesmo tempo e porque
todas contribuem igualmente para a perfeição do método; não teria grande
interesse determinar qual delas se deve ensinar em primeiro lugar, e nós as
temos explicado aqui em poucas palavras, uma vez que quase mais nada temos a
fazer no resto do Tratado, onde mostraremos em detalhe o que aqui abordamos em
geral” (392, 1-8).

Esta última citação mostra a unidade, a atuação conjunta
e a suficiência metodológica destas três regras, restando às que vêm a seguir o
detalhamento do que nelas é posto em geral. Com efeito, elas devem ser
utilizadas conjuntamente e todas têm por único objetivo a perfeição do método,
não cabendo ao restante da obra senão uma explicação e detalhamento do que elas
acabam de expor. Deste modo, os elementos centrais do método estão aí
expostos de forma suficiente
e não há motivo algum para procurá-los em
outro lugar.

Eis, em resumo, o que Descartes entende pela estrutura
básica de seu método. Mas ele próprio fornecerá alguns exemplos de sua
aplicação, principalmente na Regra VIII, os quais serão examinados agora. A
investigação do conteúdo da obra, como um todo, não desautorizará o que até
agora tem se afirmado
[46].

Descartes apresenta, ao longo das Regras, vários
problemas na sua maioria científicos, bem como exercícios “pedagógicos” que
poderiam servir como ilustração (ainda que geralmente parcial) da aplicação do
método. Dentre todos estes, a Regra VIII apresenta dois exemplos “propriamente”
metodológicos, no sentido de que são efetivamente expostos para ilustrar a atuação
do método. É a eles que a atenção voltar-se-á neste momento.

O primeiro é um exemplo de física-matemática, mais
precisamente, de ótica (393, 22-395, 16)
[47]. Trata-se do problema da anaclástica, questão bem atual
desde Kepler e objeto de interesse de vários dos correspondentes do círculo do Pe.
Mersenne. O problema consiste em se perguntar pela “linha” (isto é, pelo modelo
da lente) “em que os raios paralelos se refratam de tal forma que todos, depois
da refração, têm um só ponto de intersecção” (393, 23-394, 2). Descartes
claramente apresenta este problema numa seqüência de passos, os quais serão apresentados
abaixo.

Eles são os seguintes: 1) apresentação e exposição do
problema: “suponhamos que alguém procura, entregando-se exclusivamente às
matemáticas”, determinar a anaclástica, conforme a definição dada acima; 2) tal
cientista “facilmente observará, sem dúvida, segundo as regras quinta e sexta,
que a determinação desta linha depende da proporção que os ângulos de refração
mantêm com os ângulos de incidência”; 3) mas, como esta última questão pertence
à física, um matemático não pode ir mais adiante (e em nada adianta pedir ajuda
à filosofia ou à experiência – pois pecaria contra a regra terceira, além do
que a afirmação do passo 2 é ainda composta e relativa, enquanto é somente das
coisas puramente simples e absolutas que se pode ter uma experiência certa -,
nem mesmo supor uma proporção qualquer entre tais ângulos, pois procuraria
somente a conseqüência lógica desta suposição); se alguém, entretanto, que não
se limita à matemática, mas, conforme a primeira regra, procura a verdade nos
mais diversos domínios, “descobrirá, além disso, que a proporção entre os
ângulos de incidência e os ângulos de refração depende da mudança desses
ângulos devido à variedade dos meios”; 4) por sua vez, “esta mudança depende da
maneira como o raio penetra através de todo corpo diáfano”; 5) “por seu turno,
o conhecimento desta penetração supõe o conhecimento da natureza da ação da
luz”; 6) por fim, o conhecimento da natureza da ação da luz supõe “o que é em
geral uma potência natural”, e isto é “o que há de mais absoluto em toda esta
série” (393, 23-395, 4).

Estes seis passos, nesta seqüência (1→2→3→4→5→6),
correspondem à primeira etapa do método, a etapa analítica ou
resolutivo-regressiva; mas Descartes trata também da segunda etapa, a etapa
sintética ou compositivo-progressiva, a qual apresenta os mesmos passos (ainda
que com algumas nuances ou peculiaridades) na seqüência contrária (6→5→4→3→2→1).
Assim, diz ele, “depois de ter feito claramente e em pormenor este exame [do
passo 6] através da intuição intelectual, [o cientista] voltará a passar
pelos mesmos degraus, seguindo a quinta regra; e, se, a partir do segundo
degrau [o passo 5], não puder descobrir a natureza da ação da luz,
enumerará, de acordo com a sétima regra, todas as outras potências naturais, a
fim de que o conhecimento de alguma destas potências lhe faça compreender essa
ação, pelo menos por analogia (…). Feito isto, investigará de que maneira o
raio penetra através de todo o corpo diáfano [passo 4] e procederá,
assim, por ordem em tudo o mais [passos 3 e 2], até chegar à
própria anaclástica [passo 1]”. E conclui: “nada vejo que possa impedir
alguém de vir a conhecê-la de maneira evidente, pelo uso correto de nosso
método” (395, 4-16).

Essa é exatamente a maneira como Descartes expõe o
problema da anaclástica. Esse exemplo apresenta claramente as duas etapas do
método, compostas pelos mesmos passos e expostos em seqüência contrária. As
etapas se distinguem pelo fato de que a primeira é regressiva, ascendente (em
direção à causa) e não-dedutiva (no sentido lógico), enquanto a segunda é
progressiva, descendente (em direção ao efeito) e dedutiva. A primeira etapa
apresenta os passos na seqüência do mais complexo para o mais simples, do
efeito para a causa, até chegar ao elemento mais simples e absoluto; e a
relação de dependência do passo antecedente para o imediatamente
posterior é sempre afirmada. Ela é, portanto, um movimento de descoberta dos
estágios anteriores: a ela cabe, antes de tudo, descobrir e não provar. Nesse
sentido, os passos apresentam a seguinte seqüência e configuração de dependência: 1←2←3←4←5←6 (isto é, o passo 1 precede e depende do passo 2; este precede e depende do passo 3,
etc.). A segunda etapa apresenta os passos do mais simples ao mais complexo, da
causa para o efeito, até chegar ao problema originalmente posto; e a relação de
dependência é a do passo posterior para com o anterior (portanto, a mesma da
primeira etapa). Os passos apresentam a seguinte seqüência e configuração de
dependência: 6→5→4→3→2→1 (isto é, o passo 5 é posterior e depende do passo 6, o passo 4 é posterior e depende
do passo 5, etc.). A segunda etapa inverte, pois, os passos da primeira,
expõe-nos dedutivamente, mas preserva a mesma dependência.

Assim, os dois procedimentos do método, conforme
apresentados nas Regras V e VI, são aqui seguidos à risca. Descartes diz
explicitamente que se deve aplicar as Regras V e VI (neste caso, o primeiro
procedimento do método) à complexidade dada, não somente ao problema original
no início da cadeia, mas também ao longo do percurso. O passo 2, por
exemplo, é dito representar “uma proposição [que] é ainda composta e relativa”;
e, pois, como é somente do que é simples e absoluto que se pode ter uma
experiência certa, deve-se continuar descomplexificando até conquistá-lo, isto
é, até o passo 6, que contém finalmente “o que há de mais absoluto em
toda esta série”. Por sua vez, a segunda etapa do exemplo corresponde exatamente
ao segundo procedimento do método, exposto na Regra V. Uma vez conquistado por
meio da intuição intelectual o elemento mais simples e absoluto, deve-se voltar
(segundo a Regra V, diz o texto) ordenadamente pelos mesmos degraus até chegar
à própria anaclástica. Se, em algum momento, houver algum problema, por
exemplo, no passo 2 (se não houver meio mais seguro para descobrir a
natureza da ação da luz), é suficiente compreendê-la por meio de uma analogia
com outra potência natural. Assim, poder-se-á, por meio do método, conhecer
este objeto ainda arredio à pesquisa dos sábios.

Contudo, se os dois procedimentos do método são
rigorosamente aplicados, eles pressupõem, por sua vez, uma investigação e um
exame detalhados do problema original (e de cada um que aparece ao longo da
pesquisa), pois é ele que possibilita ou orienta sua aplicação. Em outras
palavras, o método não é aplicado artificialmente e como que do exterior (como
se fosse uma estrutura que é jogada sobre o conteúdo), mas o próprio problema
conduz, por meio de seu exame, o procedimento metodológico. Assim, a noção de problema
é capital para a atuação do método. Sua compreensão começa por sua
apresentação, isto é, com a exposição de sua complexidade interna (ainda que,
muitas vezes, não se apresenta totalmente explicitada). Além disso, o
reconhecimento de que há, aí, legitimamente um problema (um fenômeno a ser
estudado) implica a pressuposição de que o fenômeno seja dado, o que é o mesmo
que pressupor como dados todos os elementos necessários para que ele ocorra,
tanto os efetivamente dados (os conhecidos) quanto os supostamente dados (os
desconhecidos)
[48].

Suponhamos, portanto, que o fenômeno da anaclástica seja
dado
[49] e que pretendemos explicá-lo. O enunciado do problema e
a definição de “anaclástica” nos fornecem um caminho a seguir. Seja dado, pois,
um conjunto de raios de luz (no ar, como meio), sendo que, por ocasião de seu
encontro e passagem por um objeto refratário (um vidro, por exemplo), todos
esses raios, até então paralelos, são desviados para um mesmo ponto. É, então,
lícito nos perguntarmos: o que provocou o desvio dos raios? Qualquer indivíduo,
baseando-se no seu senso comum, responderia que foi a presença deste objeto, o
vidro, que ocasionou o desvio. E poderíamos facilmente provar isto:
retirando-o, os raios continuariam paralelos; introduzindo-o, os raios voltariam
a incidir no mesmo ponto. Portanto, é sobre este objeto que deve recair a
investigação
[50]. Mas, além disso, um cientista da época de Kepler e de
Descartes já sabia que o fenômeno da refração tem sua origem na superfície de
contato entre os dois meios (o ar e o vidro), e não no interior do segundo
meio. Portanto, a causa do fenômeno é a “linha”
[51] que separa os dois meios, e não qualquer outro objeto.
Descartes sabe também que, se essa linha fosse reta e perpendicular aos raios,
ela não provocaria nenhum desvio; e, se essa linha reta fosse posta obliquamente
aos raios, eles sofreriam um desvio, mas seria o mesmo para todos, e os raios
continuariam paralelos em outra direção
[52].

Portanto, a anaclástica só pode ser uma linha curva. E
alguém que tenha percebido toda esta complexidade, presente na própria
problemática, “facilmente observará”, aplicando o preceito da
descomplexificação (da análise), que ela depende ou se reduz ao problema da
proporção entre os ângulos de incidência e os ângulos de refração. Esta
proporção deve ser a mesma para todos os pares de ângulos (pelo menos, se
supõe)
[53], quando os meios são os mesmos, mas não quando os meios
são diferentes: ela é, portanto, comum para todos os pares de ângulos para dois
meios dados. Esse problema passa, pois, a depender de considerações físicas, já
que essa proporção é particular a cada meio envolvido.

Assim, o “índice de refração” depende da mudança desses
ângulos em razão da variedade dos meios. Cabe, pois, uma investigação sobre os
meios, suas peculiaridades, tais como sua densidade, a velocidade que a luz
adquire em cada um deles, enfim, como ocorre, fisicamente, a passagem da luz e
o desvio dos raios. Mas isso é se perguntar pelo comportamento da luz em
qualquer corpo que funcione como seu meio de passagem; em outras palavras, esse
passo acaba por depender de uma investigação sobre como a luz penetra em cada
corpo. Por sua vez, o comportamento da luz em cada um deles depende ainda do
que é a luz e qual é sua natureza. Por fim, sendo a luz uma potência natural,
essa investigação começa por se saber o que é, afinal, uma potência natural.

Como se pode perceber pela seqüência dos passos exposta
acima, um problema conduz a outro, do qual o anterior é dependente. Nesses
termos, a noção de problema, seu exame e sua compreensão são fundamentais para
a atuação do método. É ela que conduz o procedimento de análise. Um problema
traz consigo, se não sua solução, pelo menos indicativos e caminhos que devem
ser seguidos para conquistá-la ou para que ele seja reduzido a outro mais
simples. Nesse último caso, a análise tem como resultado problemas cada vez
mais simples e não propriamente objetos cada vez mais simples. A síntese, por
sua vez, organiza os problemas em sua “ordem natural” de dependência. Ela
sugere como “solucionar” o segundo passo, ao afirmar que a luz, sendo potência
e sendo natural, “deve” agir de forma semelhante às outras
[54]; mas o método, em quaisquer de suas etapas aqui
apresentadas, não soluciona o problema original. Ele mostra, ao contrário, como
um problema composto (ou uma proposição composta) se reduz a problemas mais
simples (ou proposições mais simples). A solução completa do problema pressupõe
um tratamento “local” de cada subproblema
[55].

Isso posto, ficou clara a aplicação das Regras V e VI.
Mas a Regra VII também tem sua função assegurada. Uma das funções da enumeração
é, diante de uma dificuldade, elencar todas as possibilidades para resolvê-la.
Um exemplo disso é dado após o passo 2. No caso do matemático, ele
poderia enumerar as várias possibilidades de continuar a investigação: poderia
consultar os Filósofos, a experiência ou mesmo supor uma relação qualquer entre
os ângulos em questão, que lhe parecesse a mais verdadeira (394, 8-18). Mas
essa enumeração seria incompleta e insuficiente: nem os Filósofos, nem a
experiência poderiam lhe auxiliar e, no último caso, estaria procurando uma
linha qualquer, que seria a conseqüência lógica daquela pressuposição
[56]. Porém, a enumeração poderá continuar ainda sendo incompleta,
mas agora suficiente, desde que ele, agindo como um físico, tenha percebido a
dependência do passo 2 em relação ao passo 3.

Outro exemplo de enumeração horizontal é dado (ou
melhor, subentendido) no passo 6: após se perguntar o que é uma potência
natural, devem-se enumerar as diversas potências naturais, até encontrar entre
elas a própria luz. Só assim adquire sentido esse passo, pois a enumeração
possibilita relacionar o movimento da luz com o movimento instantâneo de uma
extremidade para outra de um bastão. Por fim, cabe sempre uma enumeração
vertical, no sentido de revisar e percorrer todos os passos, tanto na análise
quanto na síntese, evitando toda falha na ligação entre eles. Essa revisão
auxilia também na aquisição de uma visão de conjunto e mais ampla do
conhecimento e, portanto, na formação do “sistema”
[57]. Com essa observação final, termina o exame do primeiro
exemplo de aplicação do método.

O segundo exemplo de aplicação do método, “o exemplo
mais nobre de todos”
[58], tem os seguintes passos (395, 17-396, 25): 1)
problema: investigar todas as verdades para as quais a razão humana é
suficiente; 2) a partir das regras dadas, diz Descartes, o pesquisador
descobrirá que nada pode ser conhecido antes do entendimento, visto que dele
depende o conhecimento de tudo o mais; 3) depois disso, investigará o que vem
imediatamente após o conhecimento do entendimento puro e enumerará as outras
faculdades de conhecimento, a imaginação e os sentidos; 4) examinará, em
seguida, esses três modos de conhecimento e, vendo que a verdade e o erro só
podem existir no entendimento, ainda que tenha sua origem comumente nos outros,
prestará atenção ao que possa lhe enganar e enumerará todas as vias abertas à
verdade, para escolher uma que seja segura; 5) feito isso, poderá distinguir o
verdadeiro conhecimento, que torna um homem sábio, daquele falso, que somente
ornamenta a memória, e sentir-se-á inteiramente satisfeito ao poder traçar
claramente os limites do conhecimento humano.

Este exemplo apresenta dificuldades, para analisá-lo
quanto à estrutura metodológica, visto que os passos não são apresentados de
uma maneira clara, nem a relação entre eles. Além disso, de uma hora para
outra, parece deixar de ser um exemplo de método para se tornar uma reflexão
sobre os limites do conhecimento, sobre as faculdades e sobre as naturezas
simples e composta das coisas, antecipando discussões da Regra XII[59].
Assim, é difícil precisar onde termina o exemplo, e não há nada que indique o
duplo movimento do método.

Mesmo assim, é possível perceber a sua estrutura
analítica (o primeiro procedimento). O problema consiste em investigar a
totalidade das proposições candidatas a fazerem parte do conjunto das verdades
que a razão humana possa conhecer: trata-se, portanto, de examinar este
conjunto, esta complexidade de proposições, com idêntica pretensão à verdade
(1). Ora, na ausência de um critério de classificação (entre proposições
verdadeiras e falsas), elas não podem ser investigadas diretamente e devem,
portanto, ser postas de lado, não restando senão a constatação de que nada pode
ser conhecido antes do entendimento puro, condição de qualquer outra verdade e
do próprio atual processo de investigação (2). Uma vez feito isso, instaura-se
um outro problema no interior do primeiro, qual seja, assumindo como dada essa
primeira verdade, o que se pode saber a partir dela? Em outras palavras,
através de uma mudança de foco, aquele objeto simples, resíduo da primeira
etapa do problema, dá origem a uma nova complexidade, ao se perguntar o que é o
entendimento puro e o que mais se pode saber a partir dele (as perguntas pelo
que é e pelo que esconde pressupõem que inaugure uma nova complexidade), e
revela que é uma faculdade do sujeito, além da imaginação e dos sentidos (3).
Constatada a existência das três faculdades, deve-se examiná-las cada uma em
particular e a relação entre elas; ou seja, um novo problema se instaura: dadas
as três faculdades, o investigador deve perguntar pelo que cabe a cada uma
delas. Segue-se que, sabendo qual a função de cada uma e quais os cuidados que
deverá ter, o sábio saberá escolher o seguro caminho da verdade (4). Por fim,
uma vez sabendo escolher o caminho da verdade, bem como os limites de cada
faculdade, ele poderá traçar os limites intransponíveis do conhecimento humano
(5).

Com a resolução deste último problema, termina o
processo de análise. Entretanto, ela não resolveu propriamente o problema
proposto. Não o resolveu, mas conquistou todos os elementos ou estágios
necessários para tal; na verdade, o reduziu a um problema diferente: a
investigação de todas as verdades que podemos conhecer se transformou na
investigação dos poderes e limites dos instrumentos (as faculdades) que o homem
dispõe para conhecer. A tarefa infinita de examinar cada proposição que tivesse
pretensão à verdade foi substituída pela análise das capacidades humanas,
exeqüível pelo número reduzido (finito) delas. A síntese não é fornecida por
Descartes. Poder-se-ia tentar reconstruí-la, na perspectiva de fazer o caminho
inverso ao da análise. Entretanto, Descartes não dá indicativos para isso.
Qualquer reconstrução deveria utilizar reflexões posteriores do autor, o que
poderia influenciar a avaliação do método nas Regras.

Em todos os casos, percebe-se, mais uma vez, como um
problema se desdobra em outro ou outros problemas, os quais, por sua vez, podem
ser enumerados horizontalmente ou se desdobrarem em outros problemas
verticalmente. A análise termina quando as várias complexidades foram
dissecadas em um nível suficiente, sugerido pelo “problema-mãe”. Não há sempre
uma linearidade nos passos, mas eles se desenvolvem nas mais diversas formas. A
“ordem metodológica” se configura nas mais diversas maneiras, não em função de
um rigor morfo-estrutural ou de uma estrutura harmônica e estética, mas em
razão da configuração de cada problema e do modo natural da força do espírito
proceder .

Cabe ressaltar, por fim, que, em várias ocasiões, como a
presença do próprio vocábulo indica, são feitas enumerações. A enumeração pode
recair tanto sobre objetos (elementos no interior de um problema), quanto sobre
complexidades ou objetos complexos (problemas, oriundos do problema central).

3.3 Aprendizagem e treinamento do método

Uma vez apresentados o núcleo central do método e
exemplos ilustrativos de sua atuação, Descartes passa a tratar da aprendizagem
e do treinamento deste mesmo método. As Regras IX, X e XI têm a função, se não
exclusiva pelo menos principal, de fazer a ligação entre a teoria das operações
da mente, apresentada na Regra III, e a estrutura básica do método. Elas têm a
função de treinar a mente no sentido de torná-la apta e hábil na realização de
suas operações, fazendo com que se liberte de uma preocupação consigo mesma,
quando da aplicação do método. Em outras palavras, elas objetivam fazer com que
a mente se torne mais apta para efetuar a intuição e a dedução/enumeração, por
meio do cultivo da perspicácia e da sagacidade (400, 20-23), bem como mostrar
como elas são complementares, podendo até praticamente se fundir em uma só
(408, 13-17). Para tanto, tais regras apresentam modelos, ilustrações e
exemplos, os mais simples e fáceis, para que a mente tenha a oportunidade de
ser introduzida na resolução de problemas.

Para se compreender a função atribuída a esse conjunto
de regras, é preciso ter presente o que se disse, no início dessa pesquisa (na Introdução
Geral), sobre a caracterização da intuição e da dedução e sobre sua relação com
o método. Como se viu naquele momento, as operações da mente e o método mantêm
entre si certa exterioridade jamais eliminada totalmente, em razão do caráter
inato e primitivo da intuição e da dedução, bem como da impossibilidade de o
método aprender a realizá-las, ao mesmo tempo em que ele deva vir a provocar o
surgimento delas, dado que correspondem à apreensão da verdade. Em resumo, o
método deve vir a provocá-las indiretamente, sem poder, no entanto,
propriamente produzi-las ou aprender como são produzidas. Por isso, não podendo
tê-las diretamente como seu próprio objetivo ou fim, mas, sendo elas
necessárias ao conhecimento (e como que a garantia da sua conquista), o método
pressupõe, para sua melhor performance, que o sujeito tenha uma tal
destreza que a ocorrência delas se torne natural e “automática” no decorrer da
investigação.

Nessa perspectiva, o bom funcionamento do método (ainda
mais quando é arredio à formalidade e a uma parafernália de regras
aprisionadoras, mas conta com a espontaneidade e criatividade do poder natural
da razão) não pode se passar sem uma “teoria” da aprendizagem e do treinamento
das operações no interior dos problemas científicos. Só assim se estabelece a
ligação entre o fato das operações, por um lado, serem inatas e as únicas que
se deva utilizar em função do conhecimento, mas ser função da metodologia, por
outro, apresentar os procedimentos efetivamente produtivos da conquista deste
conhecimento. Em outras palavras, esta teoria de caráter “pedagógico”
automatiza a produção das operações da mente dentro da estrutura metodológica,
ao treinar a sua ocorrência dentro de “exemplos metodológicos”, por mais
elementares e banais que possam parecer.

A Regra IX trata da intuição, na perspectiva de mostrar
a importância do seu cultivo e do seu treinamento. Diz ela: “É preciso dirigir
a acuidade do espírito para as coisas menos importantes e mais fáceis e nelas
nos determos o tempo suficiente até nos habituarmos a ver a verdade por
intuição de uma maneira distinta e transparente”. E, assim, o espírito cultiva
“a perspicácia, vendo distintamente por intuição cada coisa em particular”
(400, 13-15; 21-22).

A função desta regra não é a de repetir o que a Regra
III já afirmara, nem se contrapor a ela, como poderia parecer à primeira vista.
Ao contrário, ela não quer refletir sobre a intuição em si mesma, mas aprimorar
a sua realização. Ela quer mostrar a necessidade do treinamento da mente, dá
exemplos e modelos a serem seguidos e outros que desaconselha. Com este
objetivo, ela fala dos artesãos, os quais por serem minuciosos e por dirigirem
atentamente seu olhar para cada ponto em particular e um de cada vez, adquirem
a capacidade de distinguir perfeitamente um objeto de outro. Da mesma forma, o
nosso olho fornece o exemplo de que não se pode ver com nitidez vários objetos
ao mesmo tempo. Disto Descartes conclui que, para evitar a confusão do
espírito, não se deve abarcar pelo pensamento várias coisas ao mesmo tempo, mas
“olhar” cada uma delas em particular, para perceber o que há de mais simples e
fácil: isto é ser perspicaz, isto é, ter uma intuição clara e evidente (400,
24-401, 10). Por isso, deve-se evitar um defeito comum de muitos “sábios”, os
quais procuram imediatamente as coisas mais difíceis, por considerá-las mais
belas. Na verdade, para o verdadeiro sábio, não há verdades mais difíceis que
outras, havendo somente um percurso mais ou menos longo para conquistá-las,
dado que os atos de aquisição são idênticos. Deve-se evitar, portanto, seguir
aqueles “insensatos” que gostam mais das trevas que da luz (401, 11-26). Como a
natureza do ato de conhecer é sempre a mesma, não é, pois, de coisas “profundas”
e obscuras que é preciso construir a ciência, mas daquelas fáceis e que estão
mais perto (402, 5-8).

Dessas observações acima dadas, adverte Descartes para
“que todos se habituem a abarcar pelo pensamento tão poucas coisas ao mesmo
tempo e coisas tão simples que nunca julguem saber algo que não o vejam também
por intuição tão distintamente como aquilo que, de tudo, mais distintamente
conhecem.” (401, 27-402, 1). Assim, ainda que alguns sejam mais dotados que
outros, o exercício metodológico torna a mente mais apta: é somente uma questão
de ser exercitada e de se habituar a uma certa prática metodológica.

É interessante notar que Descartes fala aqui de uma
certa aptidão que se deva adquirir para ver a verdade e que, para tal, se deve
dirigir a atenção da mente para as coisas menos importantes e mais fáceis. Ora,
obviamente ele não está tratando da estrutura do método, uma vez que não há
sentido razoável de, numa complexidade que está sendo investigada, prestar
atenção, antes de tudo, às coisas menos importantes. Nem mesmo o conceito de
facilidade exerce qualquer papel importante na estrutura do método; e, quando
aparece, está subordinado ao conceito de simplicidade. Ao contrário, Descartes
está preocupado em utilizar exemplos de atividades e modelos existentes, para o
exercício metodológico, sem levar em conta a estrutura metodológica
propriamente dita. Pois, se não há propriamente conhecimentos mais fáceis e
mais difíceis, mas somente mais distantes e mais próximos, por que deveríamos
treinar a partir dos mais distantes?

De forma semelhante, o autor também não está preocupado
em definir e caracterizar a intuição, como fez na Regra III. Assim, a função
desta regra é treinar a ocorrência da intuição, através de problemas ou
atividades os mais simples, mas que já apresentem um certo ordenamento
“natural” e, portanto, se configurem em um certo “procedimento metodológico” espontâneo.

Por fim, Descartes dá dois exemplos de problemas, úteis
dentro desta perspectiva. O primeiro consiste em, “se eu quisesse examinar se
alguma potência natural pode, no mesmo instante, exercer-se num local afastado,
atravessando todo o espaço intermediário” (402, 9-12), não é para coisas mais
complexas que se deva prestar atenção, tais como a força magnética, a
influência dos astros, a ação da luz, pois isto seria mais difícil de provar
que a questão dada. Deve-se olhar, ao contrário, para algo mais perceptível e
“claro” aos sentidos, como o movimento dos corpos. Neste caso, percebe-se que
uma pedra não passa instantaneamente de um lugar para outro, dado que é um
corpo, ao contrário de uma potência natural como o movimento de uma extremidade
de um bastão à outra, que ocorre em um instante e sem necessidade que um corpo
se desloque conjuntamente (402, 9-28). Um outro exemplo é aquele em que, se
quisermos saber como algo produz simultaneamente efeitos contrários, deve-se
observar o funcionamento de uma balança, e não a atuação dos remédios, a ação
da lua ou outras coisas complicadas (402, 29-403, 6).

Percebe-se também aqui, nestes exemplos, que eles não
são estritamente metodológicos, no sentido de ilustrarem a estrutura
metodológica afirmada nas Regras V e VI. Eles têm a função de mostrar como se
poderia agir em determinadas situações, usando casos simples de fenômenos para
entender outros mais complexos
[60].

A Regra X, por sua vez, afirma em seu cabeçalho que,
para cultivar a perspicácia, o espírito “deve exercitar-se em procurar o que já
por outros foi encontrado e em percorrer metodicamente todas as artes ou
ofícios dos homens, ainda os menos importantes, mas sobretudo os que manifestam
ou supõem ordem” (403, 8-11). Esta regra deixa mais claro ainda que aqui se
trata de um exercício metodológico, o qual não se pode confundi-lo nem com o
que a Regra III apresenta, nem com o próprio método.

Em contraposição à Regra III, a Regra X, além de
reafirmar que se devam examinar todas as artes menos importantes e mais
simples, como a dos artesãos, dos que tecem telas e tapeçarias, das mulheres
que bordam, aconselha a prática de jogos matemáticos, de quebra-cabeças e
também – estranhamente à primeira vista – o exercício a partir do que os outros
já encontraram e praticaram. Ora, esta é uma prática condenada pela Regra III.
Diz ela: “No que respeita aos objetos considerados, há que procurar, não o que
os outros pensaram ou o que nós próprios suspeitamos”; “Há, contudo, um grande
perigo de se contraírem talvez algumas manchas de erro na leitura demasiado
atenta desses livros [dos Antigos], manchas que a nós se agarram sejam quais
forem as nossas resistências e precauções”; “nunca nos tornaremos matemáticos,
por exemplo, embora saibamos de cor todas as demonstrações feitas por outros,
se com o espírito não formos capazes de resolver todo e qualquer problema; nem
nos tornaremos filósofos se, tendo lido todos os raciocínios de Platão e
Aristóteles, não pudermos formar um juízo sólido sobre quanto nos é proposto.
Com efeito, daríamos a impressão de termos aprendido não ciências, mas
histórias” (366, 11-12; 19-22; 367, 16-23).

Esta aparente contradição, entretanto, se desfaz à
medida que se distingue, por um lado, o tratamento dado à conquista da intuição
evidente e da dedução certa, enquanto efetivamente em ação e em função da
conquista do conhecimento, da utilização “pedagógica” que se possa fazer, por
outro, daquilo que os outros já fizeram, quando aí reina uma certa ordem, ainda
que não se possa aceitar isso como conhecimento.

Metodologicamente, de forma semelhante, não se pode
seguir simplesmente o que os outros já fizeram. A função do método é resolver
questões ainda não formuladas, não ou mal-resolvidas; enfim, a sua função
circunscreve-se dentro da perspectiva de construir todo o edifício do
conhecimento, sem a utilização das velhas ruínas. O próprio Descartes afirma,
nesta mesma Regra X, (403, 12-404, 4), que teve a oportunidade de se exercitar
na descoberta e no estudo da ciência de tal forma que, antes de ler um novo
livro, ele tentava saber se, por suas capacidades inatas, não poderia chegar a
resultados semelhantes aos que aí eram prometidos, para não destruir o prazer
da descoberta pela leitura apressada do texto; e foi muitas vezes tão bem
sucedido que, desta prática, formara seu próprio método. Mas, ao contrário do
que poderia se esperar, Descartes não aconselha neste momento que se siga seu
método ou algo semelhante, mas que se deva cultivar o espírito através destes
exemplos mais fáceis e simples, nestas matérias de menor importância, onde o
método não difere da ordem que já existe na própria coisa ou que se inventa com
certa sutileza. Não se trata, pois, nesta regra, de orientar a aplicação do
método de Descartes, mas de um treinamento que, mais tarde, por ocasião da
investigação de problemas realmente relevantes (científicos), se supõe já
feito.

Dentro dessa perspectiva de cultivar o espírito, nem
toda prática é salutar. Há aquelas que surtem o efeito contrário daquele aqui
desejado. Além de novamente afirmar que não se deva trilhar o caminho das
coisas mais difíceis e obscuras (405, 9-13), alerta o autor que, diante de
determinado problema ou enigma (por exemplo, a leitura de uma escrita com
caracteres desconhecidos (404, 25-26)), uma atitude a evitar é seguir o caminho
da adivinhação ou da tentativa e erro, sem ordem ou critério algum. Isto
enfraquece a luz natural do espírito, ao invés de exercitá-la e aumentá-la. Ao
contrário, exercitando-se com método sobre as coisas fáceis, “nos
acostumaremos, como quem brinca, a penetrar sempre até a mais íntima verdade
das coisas” (405, 15-16). Outra atitude desaconselhável (reiterada várias vezes
ao longo da obra), por razões semelhantes às dadas acima, é a da aprendizagem e
utilização dos “preceitos dos Dialéticos” (405, 24). A Regra X apresenta uma
crítica das mais fortes e das mais contundentes à lógica de tradição aristotélica
(405, 21-406, 26).

A Regra XI, por fim, desenvolve-se na mesma linha de
pensamento das duas anteriores. Diz ela: “Depois da intuição de algumas
proposições simples, se delas tirarmos outra conclusão, é útil percorrê-las com
o pensamento num movimento contínuo e em nenhuma parte interrompido, refletir
nas suas relações mútuas e conceber distintamente várias coisas ao mesmo tempo,
tanto quanto se puder; efetivamente, é assim que o nosso conhecimento se torna
muito mais certo e se aumenta a capacidade do espírito” (407, 2-7). Esta regra,
aparentemente, retoma e repete temas discutidos em regras anteriores. E isso,
em parte, é verdadeiro. Ela retoma a discussão da intuição, precisando suas
características fundamentais, e sua relação com a dedução e com a enumeração.
Assim, ao mesmo tempo em que reconhece que a Regra IX tratou do treinamento da
intuição e a Regra X mostrou a necessidade de treinar a mente no que diz
respeito à dedução, ou melhor, à enumeração (408, 12-13), a Regra XI reavalia
toda essa discussão e se propõe distinguir estes três procedimentos. A intuição
é caracterizada por meio de duas exigências, quais sejam, a de que ela deve ser
compreendida clara e distintamente, bem como instantaneamente (407, 16-18); a
dedução, por ocasião da sua realização, implica um certo movimento do espírito
no tempo e é, pois, distinta da intuição (como Descartes já havia dito na Regra
III), mas, se for considerada como já feita (como foi dito na Regra VII), ela
pode ser reduzida à intuição; a enumeração (por vezes chamada de indução) é o
movimento dedutivo complexo, que não pode ser reconduzido à intuição
[61].

Na realidade, esta regra vai mais além das duas
anteriores, pois pode ser vista como o fechamento e a elaboração final da
discussão sobre a relação entre as operações da mente e os procedimentos do
método, bem como sobre o modo mais eficaz do método pô-las em funcionamento.
Nesse sentido, se a Regra III expõe as operações da mente por assim dizer em
si mesmas
, sem ligá-las ainda ao método, se as Regras V, VI e VII expõem o
método
(cabendo à última tratar da enumeração nos seus mais diversos
desdobramentos, sem ainda relacioná-la claramente com a dedução), se as Regras
IX e X tratam do treinamento da intuição e da dedução/ enumeração, à
Regra XI cabe mostrar (uma vez reduzida à intuição a dedução, quando simples e
depois de feita, e chamada de enumeração, se complexa) “de que maneira estas
duas operações [a intuição/dedução e a enumeração/dedução] se completam e se
aperfeiçoam mutuamente, a ponto de parecerem se fundirem conjuntamente numa só”
(408, 13-15). Deste modo, “a maior utilidade dessa regra consiste em que, ao
refletir sobre a dependência mútua das proposições simples entre si, nos faz adquirir
o hábito de prontamente distinguir o que é mais ou menos relativo, e por quais
graus se reduz ao absoluto” (409, 10-15). Em outros termos, a Regra XI, ao mesmo
tempo em que põe um ponto final sobre essa discussão das operações da mente,
seu treinamento e suas relações, remete-a, quanto à sua utilidade e valor, à
aplicação do duplo procedimento do método. Nessa perspectiva, tanto o tratamento
das operações quanto a questão de seu treinamento confluem para o objetivo central
das Regras, a exposição do método
[62].

A primeira conclusão que se pode tirar dessa reflexão é
a de que se deve, por um lado, distinguir a melhor forma de se treinar e
praticar a intuição e a dedução/ enumeração, a partir de “exemplos
metodológicos”, tanto do método propriamente dito, quanto das operações da
mente, quando examinadas em si mesmas, mas, por outro, ter consciência de que
toda esta problemática conflui para um único objetivo, a eficiência e a
aplicabilidade do método em sua mais ampla abrangência. E, assim, dado que as
operações da mente são naturais, que não são adquiridas, mas somente
aperfeiçoadas, o treinamento e a prática são fundamentais para o bom funcionamento
dele.

É importante salientar, além disso, que a prática metodológica
deve ser iniciada através de exemplos os mais simples possíveis, onde o método
pode se confundir (ou se reduzir) às operações da mente e onde, portanto, não
há propriamente separação entre esses dois níveis. Tal é o caso de exemplos
simples de matemática (aritmética), que por vezes Descartes menciona. Mas, à
medida que os problemas se tornem mais complexos, é cada vez mais visível a
distinção dos procedimentos do método em relação à simplicidade e naturalidade
das operações da mente. O treinamento metodológico possibilita a reintegração
desses dois estágios distintos. Na perspectiva do treinamento e da aprendizagem
do método, portanto, há um processo “pedagógico” de complexificação contínua
(um movimento que, didaticamente, deve ir do mais simples para o mais complexo)
com o objetivo de progressivamente “substituir” o uso espontâneo das operações
do espírito pelo método em si mesmo.

Portanto, deve-se distinguir o método em si mesmo, com
seu duplo movimento, não só das operações da mente, as quais sugerem um
movimento na direção do simples para o complexo e que, em um raciocínio
simples, podem ser suficientes, mas também do processo de treinamento e
aprendizagem do método, que deve começar, de forma semelhante ao “movimento”
daquelas operações, mas oposto ao do método, com exemplos mais simples, indo se
complexificando aos poucos.

Disto decorre uma conseqüência importante. Parece
errôneo o ponto de vista, comum entre estudiosos de Descartes, que afirma que o
método vai do simples ao complexo. Efetivamente, ele faz o contrário, como
várias vezes aqui foi dito: ele parte de uma complexidade dada (de um problema)
e o seu objetivo primeiro é conquistar algo de simples e absoluto, a chave para
a solução do problema, como afirma a Regra VI, e depois faz o caminho inverso.
Mas, se isso é assim, como entender esses mais variados movimentos ou relações,
nas mais diversas direções e sentidos? A Regra VI já expôs, através do conceito
de série, das relações que governam os problemas entre si e do método de
solução de um problema, como ela compreendia esses movimentos diversos. Por sua
vez, o que acaba de ser exposto neste capítulo traz novos esclarecimentos a
essa problemática. Alguns esclarecimentos sobre isso serão dados em seguida.

3.4 A estrutura do saber e a estrutura do método

Descartes, nas Regras, trata somente de relance e
indiretamente da forma e da estrutura do saber. Poder-se-ia justificar essa
atitude, ao menos parcialmente, pelo fato de que, encontrando-se na fase
inicial de sua produção científica, o sistema do conhecimento poderá ser
exposto, rigorosamente falando, somente no período posterior àquele de sua
aquisição ou, pelo menos, em um de seus estágios mais avançados. Não é por
outra razão que somente nos Princípios, de 1644, seu autor pretende
reorganizar seu pensamento produzido ao longo de seu percurso intelectual e
propor, pela primeira vez, sua filosofia em seu conjunto
[63]. Entretanto, como também não poderia ser diferente, a
constituição e a gênese do conhecimento, desde o início, não podem deixar de
considerar, por que nele imbricadas, o modo como o conhecimento se organiza, se
estrutura, enfim, como ele dá origem a uma disciplina ou ao conjunto todo do
saber. No caso específico das Regras, mesmo que escritas anteriormente
ao primeiro “tratado de metafísica” de 1629, hoje perdido, e, portanto,
desconhecendo ainda a complexa relação entre filosofia natural e metafísica
(entre ciência física e fundamentos metafísicos)[64],
elas não deixam, contudo, de se referir, de quando em vez, a termos como
“princípio primeiro”, significando o que é adquirido por intuição e
independente do restante, e ao seu correlato “verdades segundas”,
correspondendo àquelas adquiridas por dedução a partir dos princípios. De forma
semelhante, já existem indícios (poucos, é verdade) da relação de dependência
entre as ciências (como quando Descartes diz, na Regra V, que não se pode
estudar a mecânica sem a física (380, 12-13)); enfim, a própria concepção de
naturezas simples e complexas sugere essa estrutura do conhecimento, como ver-se-á.

Tal observação inicial tem a intenção de assinalar essa
perspectiva presente nas Regras e reforçar alguns itens já apresentados
sobre o método. Descartes acompanha (desde essa obra, ainda que sem uma visão clara
e total) a tradição filosófica dos gregos, ao reconhecer a estruturação do
saber dentro do modelo princípios → verdades segundas
[65]. Tais princípios, como diz a Regra III[66], não podem ser adquiridos por dedução, mas somente por
intuição e deles decorrem outros conhecimentos, os quais, à proporção que mais
se afastam dos primeiros, só poderão ser conhecidos por dedução. Assim, mesmo
que não esteja claro se Descartes está se referindo a cada ciência particular
ou ao conjunto do saber como um todo
[67], é manifesta a concepção de Descartes quanto à relação
de dependência entre os conhecimentos adquiridos, cuja organização assume a
forma clássica. O saber adquirido se organiza, pois, dentro da forma simples →
complexo, e sua exposição segue um ordenamento diferente do da sua descoberta e
conquista.

Poder-se-ia citar outras passagens que ilustrariam, em
germe, a futura concepção de conhecimento de Descartes. Entretanto, para os
propósitos deste estudo, mais interessantes que elencar tais citações, são os
indicativos presentes nos textos examinados anteriormente, sobre as operações
do espírito e o seu treinamento dentro de exemplos metodológicos, bem como
sobre o conceito de série, o de “ordem natural” e sobre a organização dos
problemas.

Como já foi dito por diversas vezes, as operações do
espírito, mencionadas na Regra III, são as únicas vias seguras para a conquista
do conhecimento. Entretanto, entre as duas, por suas características, a
intuição é ainda mais segura que a dedução. Na verdade, ela nunca falha,
porque, ou intuímos algo (e, então, ela é absolutamente certa), ou não acontece
absolutamente nada: para ela, não há meio termo. Ao contrário, a dedução
precisa de muito mais mecanismos de controle e, se bem feita, também não é
acometida de erros. Não é por outra razão que Descartes tenta reduzir a dedução
à intuição.

Esta superioridade da intuição sugere que o conhecimento
deva começar pelos objetos mais simples e mais fáceis, adquiridos por meio
dela. Por sua vez, a dedução tem sua maior função na extração de outras
verdades daquelas primeiramente postas. No caso da dedução, como afirma a Regra
III, as “coisas são conhecidas com certeza, embora não sejam em si evidentes”
(369, 22-23). Ora, vê-se claramente que a teoria das operações da mente implica
(pelo menos no que diz respeito ao sujeito, dado que a mente não pode “obrigar”
que os objetos se subjuguem às suas condições) uma estrutura do conhecimento
conforme o modelo descrito acima, do mais simples para o mais complexo
[68].

Dentro dessa mesma perspectiva, caminham também as
observações sobre o conceito de série e o de “ordem natural” (382, 13-14),
apresentados na Regra VI. Em ambos os casos, dado que os objetos são conhecidos
uns a partir dos outros (isto é, definido o conhecimento como o estabelecimento
de uma “dependência ou determinação epistêmica” entre os objetos), o processo
final e “natural” consiste em arranjá-los dentro de uma seqüência serial, cujo
primeiro elemento é o mais simples e absoluto. Por sua vez, tanto o tratamento
de problemas, quanto o treino com exemplos metodológicos, como foi visto acima,
devem recair sempre que possível sobre os casos mais simples e somente depois
sobre os mais complexos. Tudo isso sugere, ou melhor, denuncia o modelo de
conhecimento exposto acima.

Disso tudo, pode-se concluir que, já nas Regras,
há uma estrutura hierárquica do saber, onde os termos “simples” e “absoluto”
ocupam o lugar de elementos que encabecem as séries ou os encadeamentos de
objetos, dentro de uma forma dedutiva. Nessa perspectiva, é preciso ter
presente que muitas afirmações dessa obra dizem respeito à relação entre os
objetos simples e complexos, mas fora de um contexto metodológico e, sim,
dentro do contexto descrito acima. É importante ter presente essa perspectiva,
para não confundi-la com aquela que diz respeito à metodologia propriamente
dita
[69].

A Regra XII serve para ilustrar esse caso. Depois de
afirmar que essa regra é “a conclusão de tudo o que se disse anteriormente”
(410, 24)[70], o
autor divide sua reflexão sobre o conhecimento em duas categorias, a que diz
respeito às faculdades do sujeito cognoscente e a que diz respeito aos objetos
a conhecer (411, 3-4). Por ocasião do exame dos objetos do conhecimento (417,
16-ss), Descartes apresenta várias considerações sobre sua concepção de
naturezas simples e compostas, de modo a elucidar a “estrutura do conhecimento”
que tem em mente, sem, no entanto, identificá-la com a estrutura do método.

Cabe destacar pelo menos um exemplo desse tipo de considerações.
Em várias ocasiões, o autor afirma a independência das naturezas simples em
relação às compostas e reconhece que tais naturezas simples são conhecidas por
si mesmas e por meio da intuição (420, 14-15; 425, 14-15); além disso, dadas
suas características, tais naturezas não exigem da mente esforço adicional
algum, mas somente que sejam separadas e consideradas adequadamente (425,
20-24), de sorte que ou as conhecemos completa e perfeitamente ou não a
conhecemos em absoluto (420, 14-421, 2). Por sua vez, continua o autor, nada
mais pode ser compreendido para além delas e da sua mistura (422, 7-9), de modo
que a ciência humana não vai além da atividade de perceber como as naturezas
simples concorrem em conjunto para a composição das demais (427, 33-6). Ora,
embora estejam os objetos do conhecimento estruturados dessa forma, isso não
significa que as naturezas simples sejam percebidas anterior e separadamente às
compostas. Ao contrário, reconhece Descartes que freqüentemente é o oposto que
ocorre, como quando conhecemos o triângulo sem nunca ter pensado nos elementos
que o compõem, como o ângulo, a linha, a figura, a extensão, etc., ainda que
estas sejam mais conhecidas do que o triângulo (422, 7-22). Algo semelhante
ocorre quando o pesquisador se depara com um problema científico, por exemplo,
quando investiga a natureza da pedra-ímã. Ainda que ele saiba de antemão que
esta deve ser composta por certas naturezas simples e conhecidas por si mesmas,
ele não sabe de quais se trata nem tampouco do modo como elas se misturam para
produzir o efeito atestado pela experiência (427, 6-26). Assim, é do efeito ou
da complexidade dada que parte o cientista, para descobrir as naturezas simples
componentes.

Mais uma vez, é preciso reconhecer que as Regras já apresentam a idéia de estrutura do saber, ainda que extremamente simples e
ingênua. Além disso, é preciso distingui-la (juntamente com a idéia de ordem
serial e a de ordenamento dos problemas) do modo pelo qual se produz o
conhecimento e são resolvidos os problemas. Assim, há dois conjuntos de movimentos
distintos, o primeiro fundamentado nas características do ato intuitivo e o
segundo, na estrutura complexa de um problema ou de uma questão.

3.5 A teoria das questões e sua aplicação

Antes de proceder à exposição da “teoria das questões”
apresentada nas Regras XIII e XIV, é preciso refletir sobre a divisão que o
autor faz entre “proposições simples” e “questões”. Descartes, em algumas
ocasiões, como já foi dito anteriormente, faz alusão ao plano geral das Regras,
isto é, à sua divisão em partes e à atribuição de uma função metodológica
específica a cada uma delas. A Regra XII (428, 21-429, 19) fornece a visão mais
completa desse plano, e é por meio das informações aí contidas que sabemos que
Descartes pretendia escrever (pelo menos no momento da redação dessa regra) uma
obra composta de três livros, cada um com doze regras, totalizando trinta e
seis
[71].

Se, por um lado, estas referências podem ser úteis à
compreensão dos objetivos da obra (e fornecem também algumas noções do “Livro
III” jamais escrito), elas, ao mesmo tempo, dão origem a um sério problema de
interpretação e de avaliação das considerações que introduzem. A dificuldade
diz respeito ao fato de não haver nas primeiras regras
[72] nenhuma referência a essa divisão, donde surge a conseqüente
questão de saber se esta idéia de estruturação em partes não surgiu somente
mais tarde, ao longo da redação da obra (ou em um segundo período de sua redação),
sendo, portanto, posterior à concepção de método centrada nas Regras V, VI e
VII. Assim, caberia avaliar a pertinência de aplicar tal divisão às regras
precedentes àquela que a expõe e, com isso, à obra toda, ao mesmo tempo em que
se deva compreender qual o seu sentido e seus elementos característicos.

Segundo a Regra XII, os objetos do conhecimento se
dividem em “proposições simples” e “questões”; a esta divisão corresponde a
divisão da obra em livros (428, 21-429, 19). O “Livro I” trata das proposições
simples e compreende as doze primeiras regras. Para o conhecimento dessas
proposições, diz Descartes, não são necessários senão os preceitos que preparam
o uso correto e espontâneo da força da mente e, deste modo, ensinam a
apreendê-las por intuição e a examiná-las com maior sagacidade. Sendo
proposições simples, elas não podem propriamente ser objeto de
investigação e devem ocorrer espontaneamente ao espírito. Por sua vez, as
questões se dividem naquelas compreendidas perfeitamente e naquelas que o são
somente imperfeitamente. À primeira classe pertence toda questão que, de alguma
forma, é “completamente determinada” (431, 4-5), ainda que sua solução não
esteja dada. Tais questões são normalmente abstratas e se encontram geralmente
nas ciências matemáticas (429, 27-430, 1). As questões imperfeitas, por sua
vez, são aquelas em que há algo de indeterminado e que necessitam de uma
espécie de “ajuste” ou complemento para se tornarem passíveis de solução. Para
a resolução das questões perfeitas e imperfeitas não são suficientes as doze
primeiras regras, restritas à tarefa de “facilitar o uso da razão” (429, 3-4).
O “Livro II” é dedicado às questões perfeitas, enquanto o “Livro III”, se
tivesse sido escrito, teria sido consagrado às questões imperfeitas.

Pondo, por ora, à parte o tema da divisão entre questões
compreendidas completamente e incompletamente (que será tratado mais adiante),
o problema, neste momento, é de compreender a divisão dos objetos do
conhecimento entre proposições simples e questões. Esta divisão, claramente
afirmada somente essa única vez ao longo da obra, não se apresenta de forma
muito evidente. Descartes não define o que entende por uma proposição simples
(nem por uma proposição complicada ou complexa) em contraposição ao que seria
uma questão (noção razoavelmente caracterizada na Regra XIII, mas em uso ao longo
de toda a obra); e, ainda que fornece alguns elementos característicos desta
distinção, são exatamente tais características que são difíceis de serem
conciliadas com o conteúdo das regras que, segundo esta mesma fonte, lhe dizem
respeito. Assim, é extremamente complicado conciliar a afirmação de que as
proposições simples ocorrem espontaneamente e não são realmente objetos de
investigação, ao mesmo tempo em que a elas são dedicadas nada menos do que as
doze primeiras regras. Deve-se reconhecer que Descartes, por várias vezes, fala
de proposições simples ao longo do “Livro I” (por exemplo, na própria Regra V e
na Regra XI), mas geralmente como proposições que devem ser conquistadas
metodicamente a partir do exame de proposições complexas (379, 15-21) ou da
mútua dependência entre as proposições simples (409, 10-15), e não como algo
que aconteça espontaneamente sem investigação.

Poder-se-ia dizer, talvez, que Descartes estaria
pensando, neste momento determinado, que as proposições simples, mesmo que
encontradas no interior (ou a partir) das complicadas ou em meio a um
“amontoado” de proposições simples (que não deixa de constituir “algo”
complicado), são independentes de quaisquer outras, já que, na verdade, são as
complexas que delas dependem e é por isso que se chamam simples. Nesse
sentido, sendo independentes e simples, elas não são objeto de investigação,
pois não são derivadas de outras. Elas seriam resultados da intuição,

verdadeiros objetos intuídos, os quais, quando pensados, são claramente e totalmente
pensados[73]. Neste caso, as doze primeiras regras se resumiriam a
mostrar e a facilitar o uso da luz natural da razão, e isto significa que elas
teriam uma função (para usar uma expressão mais familiar ao Discurso) de
depuração e purificação da razão em relação aos “prejuízos” e “preconceitos”
que esta última adquiriu pela educação e por outros meios, bem como de
treinamento no sentido de capacitá-la a intuir mais facilmente e cada vez mais
objetos ao mesmo tempo.

Se, por um lado, boa parte do “Livro I” se aplica a esta
situação, é impossível reduzi-lo a isso somente. A primeira razão é que o
método que ele apresenta é muito mais que um mero tratamento terapêutico da
razão, acoplado a um treinamento da intuição, ou algo que se poderia dizer que
não apresente um procedimento de investigação
[74]. Na verdade, as regras anteriores à Regra XII dizem
exatamente o contrário do que ela afirma: a Regra V diz tratar de “todo o
método”, enquanto a Regra VII diz que o restante da obra nada mais é que uma
explicação mais detalhada do que a estrutura básica contém. Assim, como já foi
visto mais acima, são exatamente elas que pretendem apresentar o método em sua
forma geral e básica e, com isso, torná-lo apto à resolução das mais diversas
dificuldades que o pesquisador enfrenta. Mas, se este é o caso, alguém poderia,
com razão, perguntar por que Descartes teria ido além das doze primeiras
regras? Na realidade, se o “Livro I” pode ser dito conter todo o método, é
somente no sentido de que ele contém as suas linhas gerais e que as regras
posteriores não acrescentam algo que não esteja, nele, de alguma forma, já
potencialmente presente; como será mostrado abaixo, o “Livro II” não proporá um
método diferente, mas, ao recuperá-lo e reapresentá-lo, pretende complementá-lo,
precisá-lo e torná-lo mais eficiente. Portanto, ainda que algumas informações
tomadas em si mesmas são contraditórias, quando o método é, ele mesmo, também
considerado, o que se percebe é uma continuidade, uma complementaridade e um aperfeiçoamento
entre os dois momentos (já que o “Livro III” não foi escrito), onde o segundo
traz maior precisão ao ser introduzido no interior do primeiro, e não a exposição
de dois métodos distintos. Mas isso será discutido mais adiante.

Uma segunda razão pela qual o “Livro I” não pode ser
reduzido ao que foi dito acima, conforme a Regra XII, é a de que o método aí
apresentado se aplica tanto (ou mais) às questões que às proposições (complexas
e simples). Como ver-se-á adiante, a “teoria das questões” retoma-o
completamente, ainda que não se reduz a ele. Mas, antes disso, a todo momento,
o “Livro I” (supostamente dedicado às proposições simples), fala tanto de
questões quanto de proposições, e o próprio método foi caracterizado, em um
primeiro plano, como um método de resolução de questões
[75].

O problema, pois, persiste, e o que antes representava
uma questão de terminologia e de divisão da obra como um todo se configura
agora como uma possível duplicidade (ou ambigüidade) metodológica dentro de
um mesmo momento
(“Livro I”), a partir da oscilação entre dois tipos de
entidade sobre as quais o método estaria atuando (proposições e questões).
Descartes fala por diversas vezes que se propõe investigar proposições
complexas ou um conjunto de proposições com o objetivo de conquistar
proposições simples, mas, com igual ou mais freqüência, diz que está analisando
questões, problemas, cujo objetivo é também a conquista de elementos simples,
os quais não necessitam ser pensados como proposições, mas sim como objetos ou
coisas. Mesmo que tais objetos simples pudessem sempre ser associados às
proposições simples ou revertidos em proposições simples, o fato inegável é que
ao longo do “Livro I” Descartes fala constantemente de questões e de sua
resolução, enquanto a Regra XII diz que o tratamento das questões foi reservado
aos livros seguintes. Além disso, como já se disse, quando Descartes fala de
proposições, ele parte das proposições complexas e não das simples, o que
significa dizer que, independentemente das entidades envolvidas, é somente como
resultado de uma investigação que surgem os elementos simples.

WEBER, em seu texto sobre a datação da Regras (1964a, p. 137), sustenta que a forma de se dissipar essas contradições
existentes entre o que as Regras V, VI e VII proclamam (apresentar todo o método)
e o que a Regra XII atribui ao “Livro I” (representar, não propriamente um
método, mas preceitos propedêuticos ao bom uso da razão) é reconhecer uma
mudança (dentre outras existentes) na concepção de método no interior da
própria obra, ocorrida em um período posterior à elaboração do primeiro
conjunto de regras. Este autor tem o mérito de ter evidenciado a oposição e o
descompasso existentes entre estes dois momentos, como em vários outros ao
longo da obra. É mesmo possível (provável, talvez) que esta obra tenha sido
composta em períodos diferentes, e isto poderia ajudar a explicar seus problemas
de constante retomada de alguns pontos, reelaboração de outros ou mesmo
alteração dos propósitos ou da concepção metodológica. Tudo isso tem boas
razões para ser defendido: nunca é demais afirmar que as Regras são um
texto inacabado, não revisado, cheio de lacunas em seu interior e sem
referências ou elemento exterior algum (bibliográficos, cartas, etc.) que lhe
forneçam pistas seguras sobre tais problemas internos.

Entretanto, se considerarmos não exclusivamente as
afirmações que tratam do que coube a esta ou aquela regra, mas for examinado
conjuntamente e principalmente o conteúdo da metodologia, como foi feito acima,
percebe-se que o que antes parecia irreconciliável torna-se aceitável e
justificável. Como já foi dito, a estrutura básica do método, apresentada no
“Livro I”, tem sua função voltada, como afirma a Regra VI, para a “resolução
das questões” (382, 1-2), mas também, a exemplo do que diz a Regra V, para o
exame de proposições complexas; e, assim, como as considerações precedentes
evidenciaram, o método se aplica tanto a questões quanto a proposições. Ambos
os termos (ou entidades), entendidos em uma forma não técnica, como aqui é o
caso, se não são sinônimos, ao menos têm características semelhantes e
paralelas. Tanto uma questão quanto uma proposição complexa são uma
configuração de elementos (uma complexidade de elementos) sobre a qual recai a
investigação. Uma proposição complexa, de um modo geral, pode ser transformada
em questão e, talvez, o contrário também seja válido.

Disto se seguem algumas observações (ou conclusões)
importantes para a compreensão da metodologia da obra. Uma primeira é a de esta
oscilação de terminologia e de entidades às quais o método se aplica não
implica uma duplicidade metodológica ou a existência de reais contradições no
interior do “Livro I”. Há que se reconhecer tal oscilação e as dificuldades que
acarreta, mas isso não chega a comprometer o projeto metodológico de Descartes.
Apesar destes problemas, a sua unidade é garantida, por um lado, porque o
método aplicado a questões e a proposições complexas é fundamentalmente o
mesmo, dadas as semelhanças entre estes dois tipos de entidades; mas, por outro
lado, porque há, em todo o “Livro I”, um certo predomínio e uma maior
incidência (e, com isso, um certo privilégio) do termo “questão” e,
conseqüentemente, uma maior ênfase ou concentração ao redor do tratamento das
questões em relação ao das proposições complexas
[76].

Uma segunda observação é a de que o tratamento
metodológico “alternativo” aplicado às proposições parece englobar casos onde a
abordagem sob a perspectiva das questões seria menos pertinente. Em outros
termos, a “perspectiva proposicional” parece reconhecer que as proposições
simples podem ser conhecidas, não só quando descobertas no interior de uma
(verdadeira) proposição complexa, mas também em meio a um amontoado de
proposições desordenadas, das quais podemos dizer que formam uma “complexidade”
distinta da anterior, onde não haveria propriamente relações de “dependência
epistêmica” entre elas, pois seriam somente proposições que ao pesquisador
aparecem unidas por uma razão qualquer. Neste caso, o termo questão parece não
poder ser aplicado satisfatoriamente; e pode ser que Descartes esteja
privilegiando exemplos desse tipo, quando caracteriza as doze primeiras regras
como restritas às proposições simples por oposição ao que vem a seguir: o
tratamento da questões em um sentido mais forte e “técnico”.

Uma terceira observação é a de que, se optarmos por
caracterizar o método a partir da “perspectiva proposicional”, poderia surgir
um inconveniente à ampla e clara utilização da intuição, no caso de isso
representar um privilégio ou uma ênfase aos passos proposicionais e ao caráter
formal do raciocínio que à construção dos passos. O estabelecimento de relações
entre proposições pode prejudicar o exame da complexidade interna de cada uma
delas. Na resolução de questões, ao contrário, onde se examinam os elementos de
uma complexidade dada e se busca estabelecer relações entre eles (sem
subsumi-los a proposições), o ato de “ver” intelectual é mais propício e, com
isso, é maior a possibilidade de captar determinada relação entre tais
elementos, dado que se “olha” diretamente para os objetos, sem a mediação de
proposições e da formalização (como acontece com as formas silogísticas)
[77]. Isso não significa que Descartes, ao caracterizar seu
método a partir dessa “forma proposicional”, estaria se contradizendo em
relação à sua própria concepção das operações mentais. Ao contrário, parece
justificar apenas seu privilégio (inconsciente (?)) dado à entidade “questão”,
enquanto o tratamento alternativo poderia ser explicado tanto pelo fato de que
o conhecimento deverá, finalmente, ser exposto “proposicionalmente” (princípios
e verdades derivadas) quanto por uma espécie de “contaminação” conceitual
proveniente da tradição filosófica, dentro da qual o termo “proposição” tem
estado largamente em uso. Em todo caso, apesar da divisão entre a busca de
proposições simples e a busca de solução de problemas, em ambos os casos o
duplo movimento é o mesmo (exceto nos casos simples, onde não há propriamente
necessidade de método algum); além disso, a “perspectiva proposicional” em nada
altera ou prejudica as características da metodologia e da teoria das operações
mentais da Regras.

Feitas tais observações, segue a reflexão cartesiana
sobre a “teoria das questões” e sua metodologia aplicada às “questões” (em um
sentido mais técnico), apresentada principalmente nas Regras XIII e XIV,
enquanto as seguintes têm a tarefa de desenvolvê-las, principalmente dentro do
domínio da matemática. A Regra XIII se propõe basicamente mostrar os elementos
que constituem toda e qualquer questão, como deve ser examinada, compreendida e
reduzida à sua expressão mais clara e simples. Feito isso, acredita Descartes,
a dificuldade aparece se não nua e crua, pelo menos com maior limpidez, cuja
solução poderá ser conquistada com maior facilidade e segurança. É à Regra XIV
que cabe a responsabilidade de enfrentar propriamente a dificuldade com o
intuito de equacioná-la, uma vez apresentada em sua formulação mínima. Esta
duas regras serão examinadas separadamente, uma após a outra.

O cabeçalho da Regra XIII já enuncia algumas das características
que compõem o exame de uma questão e que serão retomadas no interior da regra.
Ele diz o seguinte: “Estando diante de uma questão perfeitamente compreendida,
devemos abstraí-la de todo elemento conceptual supérfluo, reduzi-la à sua forma
mais simples e dividi-la em partes tão pequenas quanto possível, enumerando-as”
(430, 7-10). Entretanto, para compreendê-las em seu conjunto, é necessário
começar por expor em que consiste uma questão e somente depois tratar do que é
preciso para tornar possível seu exame e sua resolução. Uma questão, para
Descartes, deve ser perfeitamente compreendida, e isso significa que nela há
três elementos característicos: deve haver algo de desconhecido (devidamente
reconhecido ou nomeado como tal), pois, do contrário, não há o que procurar;
deve haver algo de conhecido ou dado, donde a investigação possa partir ou se
basear; e, enfim, deve existir uma relação de dependência entre eles, único
meio de determinar o procurado a partir do dado.

Há, é verdade, algumas variações, como ver-se-á nas
citações abaixo, quanto à precisão do que contém exatamente uma questão. No
final da Regra XII, Descartes diz que nas questões compreendidas perfeitamente
percebemos “três coisas, a saber: quais sinais permitem reconhecer o que se
procura, quando este surgir; o que é precisamente aquilo a partir do qual
devemos deduzi-lo; e como é preciso provar que há entre estes objetos uma tal
dependência que um não pode de forma alguma mudar quando o outro não muda”
(429, 13-19). Por sua vez, a Regra XIII diz que, “primeiro, em toda questão,
deve haver necessariamente algo de desconhecido, pois, de outro modo, a sua
investigação seria inútil; em segundo lugar, esse desconhecido tem de ser
designado de alguma maneira, pois, de outro modo, não estaríamos determinados a
investigá-lo de preferência a qualquer outro objeto; em terceiro lugar, só pode
ser designado mediante alguma outra coisa já conhecida” (430, 16-22). Contudo,
os três elementos dados mais acima estão sempre presentes. A Regra XII, além
disso, realça o fato de que deve haver um meio para reconhecer o desconhecido
quando ele aparecer, além de chamar a atenção para a importância da ligação do
desconhecido para com o outro elemento do qual é deduzido. A Regra XIII, de
maneira diferente, precisa a importância da “presença” do desconhecido (pois do
contrário não há questão alguma) e afirma que ele deve ser denominado de alguma
maneira. Isto significa que o desconhecido, enquanto tal, não poderá ser examinado,
nem mesmo mencionado (porque desconhecido), a menos que ele seja de alguma
forma nomeado e, sob um certo aspecto, “conhecido” ou determinado
[78].

Por outro lado, Descartes reconhece que os três
elementos acima apresentados se encontram mesmo nas questões imperfeitas e
fornece algumas ilustrações disso (430, 23-431, 27). Estando, por exemplo,
diante do seguinte problema: se desejarmos investigar e conhecer a natureza do
ímã, diz ele, devemos saber de antemão o que significam os termos “natureza” e
“ímã”, envolvidos na questão. A questão supõe também, mesmo que Descartes não
diga explicitamente, que já se saiba algo sobre os fenômenos relacionados a
este objeto, sem ainda poder explicá-los cientificamente. Em todos os casos, a
questão posta nestes termos permite falar da natureza da pedra-ímã, dos seus
poderes de atração e supor que ela esconde a explicação destes fenômenos. A
questão, pois, reconhece a existência de tais fenômenos peculiares a estas
pedras e que eles devem estar ligados a certas particularidades da sua natureza.
Com isso, o desconhecido é designado (e pode ser determinado) como sendo ou
estando na própria natureza ou em algumas das características deste objeto.
Esta questão é, contudo, ainda imperfeita, uma vez que não fornece quaisquer
“limites” para determiná-lo. Pois, como investigar a natureza desta pedra sem
parâmetro algum, sem outros elementos ou critérios adicionais? Uma maneira de
torná-la perfeita (isto é, completamente determinada) é assumir como válido um
conjunto de experiências sobre o assunto, tais como aquelas feitas por GILBERT
(em sua obra Sobre o ímã, publicada em 1600), independentemente de serem
verdadeiras ou falsas
[79].

Exemplos como este mostram como se constituem as
questões completa ou, pelo menos, suficientemente determinadas. Segundo
Descartes, por meio de certas condições “todas as questões imperfeitas se podem
reduzir às perfeitas”
[80] e “uma dificuldade bem compreendida”, ao que é
essencial e mais simples (conforme já haviam ensinado as Regras V, VI e VII),
de tal forma que “não tenhamos o pensamento ocupado” senão “em comparar certas
grandezas entre si” (431, 16-17; 19-23)
[81]. É interessante notar aqui que as Regras V, VI e VII
são invocadas como etapa essencial para a compreensão e a resolução das
questões. Diz a Regra XIII: “a dificuldade deve ser reduzida à sua maior
simplicidade, conforme as Regras V e VI, e dividida segundo a Regra VII” (432,
1-3). Uma questão, uma vez exposta, deve ser analisada com a perspectiva de
precisar e reduzir ao essencial a dificuldade que apresenta, dividindo-a em
várias, se for necessário. Isto significa que, mesmo que delimitados os seus
três elementos e estando ela “completamente determinada” (431, 4-5), uma
questão perfeita pode ainda não mostrar sua complexidade interna nem os possíveis
caminhos de sua solução. Esta observação de Descartes indica, pois, que a exposição
sistematizada de uma questão não garante ainda sua total compreensão e a
delimitação de sua dificuldade. Por vezes, sua exposição e sua compreensão preliminar
mostra uma relação ainda superficial entre os elementos componentes, e somente
pela intervenção das Regras V, VI e VII é que será possível compreendê-la
verdadeiramente. E isto é, em algum sentido, estar já a caminho de sua solução,
mas sem tê-la conquistado ainda.

Assim, pois, a estrutura básica do método apresentada no
“Livro I” é incorporada à teoria das questões aqui em discussão. Mas Descartes
vai mais além e pretende rediscutir e organizar, em etapas, a maneira de
compreender e de resolver uma questão. Tudo o que foi dito acima será
incorporado aqui, de um modo mais sistemático e ordenado.

Dentro dessa perspectiva, Descartes tratará de expor de
um modo “mais rápido e mais cômodo (…) e com ordem tudo o que é preciso para
resolver qualquer dificuldade” (434). Dada uma questão, diz ele, o pesquisador
não pode se assemelhar ao criado que, ávido por obedecer ao seu senhor, se
precipita a correr por todos os lados para cumprir a ordem sem ainda tê-la
recebido (434, 21-24). De modo totalmente oposto, para resolver uma questão, é
preciso: a) compreendê-la perfeitamente, como se falou acima, e isto significa
principalmente (i) determinar o que é desconhecido, as condições e limites de
sua procura, (ii) evitar supor mais do que é dado, (iii) enfim, evitar supor
menos do que é dado, ou seja, nada omitir (434, 25-437, 10).

Para determinar o desconhecido, não é suficiente
designá-lo, se por isso for entendida a sua simples nomeação. Ele deve ser
delimitado por condições precisas, como meio de determiná-lo de preferência a
outra coisa e de prefigurá-lo dentro da complexidade dada, como que
“desenhando” e garantindo seu lugar no interior dela. A análise dessas
condições e limites deve ser feita desde o início, mas isso supõe também a
clara percepção do que a questão fornece como dado ou conhecido. A demasiada
preocupação com o desconhecido, sem relacioná-lo ao conhecido, pode levar ao
extravio do pesquisador e à perda da relação entre ambos, que é o que dá a
peculiaridade à questão. Além disso, dois tipos de enganos são comuns nesta
fase do exame da questão: ou supondo mais do foi dado, ou omitindo algo. Em
primeiro lugar, deve-se ter o cuidado de não supor mais coisas e coisas mais
precisas do que as que são efetivamente dadas. Por outro lado, peca-se por
omissão quando, por inatenção, uma condição ou um elemento qualquer é
negligenciado, mesmo que presente explícita ou implicitamente[82].

Uma vez compreendida a questão, por meio destes três
passos da primeira etapa da investigação, segue a segunda: b) examinar
propriamente a dificuldade e ver em que consiste, para que se possa isolá-la e
mais facilmente resolvê-la (437, 11-13). Nem sempre é suficiente compreender
uma questão para bem detectar a dificuldade, mas é necessário refletir sobre
todos os elementos do problema, selecioná-los e isolar o que importa procurar.
A dificuldade deve aparecer em sua limpidez e transparência, tanto quanto
possível.

Por fim, segue a terceira e última etapa: c) passando em
revista ordenadamente tudo o que foi dado, deve-se rejeitar o que é supérfluo e
o que é duvidoso, retendo somente o necessário e essencial (438, 3-7).

Uma vez expostas todas essas etapas, a teoria das
questões, como aqui se chamou, se encontra apresentada em seus traços gerais,
pelo menos quanto ao que cabe à Regra XIII. Além disso, foi visto que a
estrutura básica do método, apresentada no “Livro I”, é incorporada à teoria
das questões aqui em discussão. Este fato é, ao mesmo tempo, fundamental e intrigante,
para os objetivos deste estudo. Fundamental, porque evidencia e corrobora a
tese da unidade dos dois “livros”; intrigante, porque parece promover, melhor,
reduzir as Regras V, VI e VII a uma função, não mais de princípios gerais e
básicos do método, mas de meros preceitos propedêuticos àqueles verdadeiramente
resolutivos (WEBER, 1964a, p. 243). Essa situação, entretanto, não é
desesperadora, como poderia parecer à primeira vista. Não se trata, aqui,
simplesmente de reduzir a estrutura básica do método a simples preceitos
propedêuticos, mas de reconhecer que, para o tratamento de uma real dificuldade
científica, ao duplo procedimento do método, visto em seu quadro geral, devem
ser adicionados ou acoplados alguns mecanismos mais precisos e que podem
diferir de uma ciência para outra. Pois, seria possível resolver um problema
matemático de forma idêntica à de um problema de física? Os procedimentos de
análise e síntese, na forma anteriormente descrita, nem sempre garantem a
resolução da questão[83].
Por vezes, eles somente evidenciam a dificuldade em sua mais límpida expressão,
sobre a qual deve recair um tratamento detalhado e particular.

A Regra XIV, nesse sentido, representa a etapa
subseqüente àquela apresentada na Regra XIII. Esta última regra, apesar de por
vezes pretender expor o caminho completo que se deva proceder para solucionar
uma questão
[84], na verdade, tem como função principal mostrar que é
preciso compreendê-la completamente e apresentar exata e claramente a
dificuldade. Mas isso não corresponde ainda à sua resolução (pelo menos para as
questões mais complexas). Neste caso, a Regra XIII contribui principalmente com
as etapas que antecedem o tratamento resolutivo (definitivo) da dificuldade e
cabe às posteriores levar adiante seu acabamento
[85]. Sob esse ponto de vista, a Regra XIV representará um
avanço considerável em relação às anteriores, pois é ela que começa a mostrar
como resolver, no sentido forte do termo, uma questão (conforme caracterizada
acima).

Este avanço pode ser mostrado por meio de vários passos
sucessivos, todos interligados e como que, pelo menos em parte, decorrentes um
do outro. O primeiro consiste (assim será chamado) na tese da “homogeneização”
ou “homogeneidade” entre o conhecido e o desconhecido; o segundo afirma, por
sua vez, que todo conhecimento, que não seja adquirido por intuição, se dá por
meio de uma “comparação” entre os objetos envolvidos, cujo objetivo é
estabelecer sua natureza comum, traduzida em relações ou proporções, para
finalmente se reduzir, no caso das questões perfeitas, à relação de igualdade;

isto só é possível, por fim, se os objetos comparados forem grandezas (pois é
somente deste modo que eles podem ser “medidos” uns pelos outros), dentre as
quais é a extensão que melhor se encaixa para representar tais proporções entre
eles, cujos aspectos centrais são a dimensão, a unidade e a figura.

Quanto ao primeiro item, Descartes afirma que, no
tratamento de uma questão, quando se pretende “deduzir algo de determinado e
desconhecido de outro já conhecido”, não se deve procurar algo que pertença a
“um novo gênero de ser”, mas alguma coisa que “participa da natureza daquelas
que nos são dadas na proposição” (438, 12-18). Esta tese da “homogeneização” do
desconhecido ao conhecido é de fundamental importância para a problemática da
metodologia, pois, ao mesmo tempo em que elimina um tipo de prática infrutífera
(para não dizer criadora de “monstruosidades”)
[86], representa um preceito básico para a sua aplicabilidade.
A Regra XII já havia antecipado esta tese, ao tratar do exemplo do ímã, como
ilustrativo da conclusão de que a ciência dos homens consiste apenas em ver
distintamente as naturezas simples e como elas se combinam para dar origem às
complexas. Dentro desta perspectiva, lembrava que “quase todos se detêm no
limiar, na incerteza de saber a que pensamentos devem aplicar a sua mente e na
persuasão de que importa procurar algum outro novo gênero de ser antes
desconhecido”; além disso, muitos pesquisadores, “ao prefigurarem que a coisa é
árdua e difícil, desviam a inteligência de tudo o que é evidente e a orientam
para tudo o que há de mais difícil e, partindo à aventura e errantes pelo vazio
das causas múltiplas, esperam encontrar algo de novo” (427, 3-16;
itálico acrescentado). Ao contrário, conclui a Regra XIV: “se houver no ímã
algum gênero de ser que nada tenha de semelhante com o que o nosso entendimento
até agora viu, não é de se esperar que alguma vez o venhamos a conhecer por
raciocínio, pois seria preciso ser dotado, para isso, ou de um novo sentido, ou
de uma mente divina. Tudo o que, neste caso, o espírito humano pode oferecer,
julgaremos tê-lo obtido, se percebermos distintamente a mistura de seres ou de
naturezas já conhecidas, que produz os mesmos efeitos que se descobrem no ímã”
(439, 1-10)
[87].

Essa tese, apresentada pela Regra XIV, parece estar por
detrás, pelos indicativos presentes nas regras subseqüentes, de um dos
primeiros resultados importantes e fundamentais da Geometria, qual seja,
o da “homogeneização dos objetos geométricos”. De forma semelhante como a
adição e a subtração de linhas produzem sempre outras linhas, assim também o produto
de duas linhas retas quaisquer é também uma linha reta (e não um quadrado), a
divisão de uma linha reta por outra e a extração da raiz quadrada de uma linha
reta qualquer têm como resultado outras linhas retas, e não um objeto de
natureza heterogênea. Na verdade, esta tese da homogeneidade entre os elementos
de um mesmo problema ou até de um mesmo domínio de conhecimento tem
conseqüências bem mais gerais que a citada acima. Em primeiro lugar, ela parece
perpassar e determinar não só o início da Geometria, mas toda a obra, por
tratar de um único tipo de objetos geométricos, as linhas (desde as mais
simples às mais complexas).

Mas, além disso ou talvez antes disso, ela parece
determinar todo tipo de investigação científica, nomeadamente aquela que se
refere ao mundo físico. Mesmo que Descartes não tenha escrito o “Livro III” das Regras, há indicações suficientes para concluir que as naturezas simples
“puramente materiais” pretendem garantir a aplicabilidade dessa tese no domínio
da física, pois “este seres já conhecidos, tais como a extensão, a figura e o
movimento (…) conhecem-se em diversos sujeitos por intermédio de uma mesma
idéia, e não imaginamos de outra forma a figura de uma coroa, quer seja de
prata ou de ouro” (439, 11-15). Esta “idéia comum” aos diversos objetos
possibilita uma operação metodológica fundamental que Descartes chama de
“comparação”.

Este é o segundo dentre os pontos apresentados pela
Regra XIV. Decorre do primeiro item (co-participação em uma mesma natureza) a
possibilidade e, se desejarmos resolver a questão, a necessidade de explicitar
a relação de dependência ou de determinação entre o que é dado e o que é
procurado. Afirma Descartes que é por uma “comparação” que se torna possível
passar do conhecido ao desconhecido: “em todo raciocínio, é apenas por uma
comparação que conhecemos a verdade de uma maneira geral”[88];
assim, por exemplo, “todo o A é B, todo o B é C,
portanto, todo o A é C, compara-se entre si o que é procurado e o
que é dado, quer dizer, A e C, sob esta relação que um e outro
são B” (439, 19-24). Dessa forma, todo conhecimento não obtido por meio
da “intuição pura e simples de um objeto isolado” se adquire pela comparação
entre eles; e “quase toda a indústria da razão humana consiste em preparar esta
operação, pois, quando é manifesta e simples, não há necessidade de nenhum
auxílio da arte, mas apenas da luz natural para ver por intuição a verdade que
se adquire por ela” (440, 2-9)
[89].

As comparações podem ser simples ou mais complicadas.
Nas simples, é imediatamente evidente que “o que se procura e o que é dado
participam igualmente de uma certa natureza” (440, 10-12); no caso das
complexas, “a natureza comum não se encontra nos dois objetos como tal, mas
segundo determinadas relações ou proporções em que está envolvida”. Neste caso,
é necessário um exame preliminar ou uma “preparação”, para que essa natureza
comum possa ser estabelecida, dado que “a maior parte da indústria humana não
consiste em outra coisa senão em transformar estas proporções, de maneira a ver
claramente a igualdade que existe entre o que se procura e o que já se conhece”
(440, 12-20)
[90].

O terceiro e último ponto diz respeito à “tradução” dos
objetos em forma de grandezas, pois não há outro meio para compará-los e
reduzi-los a igualdades. Assim, diz a Regra XIV, uma vez aplicada a regra precedente
(que nos ensina a abstrairmos de tudo o que é supérfluo e, com isso, mostra a
dificuldade em sua nudez) ou realizada a preparação que conduz à operação de
homogeneização e de comparação dos objetos (conforme foi dito acima), resta
como última etapa nos ocuparmos das grandezas. Esse passo depende diretamente
do que ficou estabelecido na primeira parte da Regra XII (411, 17-417, 15),
onde Descartes afirma que a extensão é a grandeza que melhor convém para a
comparação entre os objetos. Disto conclui o autor: “Que fique, pois,
definitivamente estabelecido que as questões perfeitamente compreendidas não
contêm quase nenhuma dificuldade além daquela que consiste em transformar as
proporções em igualdades; e também que tudo aquilo em que se encontra precisamente
uma tal dificuldade pode e deve ser separado com facilidade de todo o outro
sujeito, para, em seguida, ser transposto em forma de extensão ou de figuras”
(441, 21-27)
[91].

Com o objetivo de melhor proceder à comparação entre os
objetos “transformados” em grandezas e expor as diferenças de proporções,
segundo o autor, basta considerar na própria extensão (a grandeza privilegiada)
três de seus aspectos: a dimensão, a unidade e a figura (447, 18-23). A
dimensão é a garantia da mensurabilidade dos objetos envolvidos: “Por dimensão,
nada mais entendemos que o modo e a razão segundo a qual um sujeito é
considerado mensurável” (447, 23-25); não só o comprimento, a largura e a
profundidade são dimensões, mas também o peso, a velocidade e mesmo as medidas
de tempo como o ano, o dia, a hora, etc. (447, 25- 448, 10). Na verdade, há uma
infinidade de dimensões, reais ou inventadas pela mente, em um mesmo assunto,
cabendo aos físicos examinar o seu fundamento real (448, 11-22; 449, 12).

Poder-se-ia estranhar que Descartes subordina o conceito
de dimensão àquele de extensão; e isso parece ser válido, não só para as
dimensões geométricas, mas também para todas as outras. Como entender, então, o
peso ou a velocidade como extensos? Parece que cabe à figura representá-los dessa
forma. Assim, ou a dimensão já é um “aspecto” (real) da extensão, como é o caso
da largura, do comprimento, da profundidade e dos elementos de um objeto
geométrico qualquer (por exemplo, os lados, os ângulos e a superfície de um
triângulo (449, 13-18)), ou ela é transposta em linguagem extensiva por meio de
figuras. Nesse último caso, a velocidade, a distância e outras dimensões seriam
representadas por um triângulo, por exemplo, ou por outra figura
[92].

Uma segunda observação é a de que dimensões distintas
podem se relacionar entre si, desde que co-participam de um mesmo objeto ou
assunto. Assim, um triângulo pode ser determinado perfeitamente em função da
dimensão “lado” ou pelas dimensões “lado” e “ângulo”, etc. (449, 15-16). Em
outras palavras, as dimensões se comunicam entre si, e isso não rompe com a
necessidade da homogeneidade dos elementos de uma questão.

A unidade, por sua vez, é definida como “aquela natureza
comum na qual (…) devem igualmente participar todas as coisas que entre si se
comparam”; é a “medida comum de todas as outras” grandezas (449, 26-28; 450,
3). Ela deve ser da mesma natureza que as grandezas comparadas entre si. Por
fim, a figura serve para representar as grandezas a serem comparadas, tanto as
contínuas, quanto as descontínuas (pluralidades).

São esses os recursos por meio dos quais os objetos
podem ser representados e comparados, para serem conhecidos uns em função dos
outros. Eles garantem o princípio metodológico da homogeneidade dos objetos
relacionados em uma questão e, portanto, a possibilidade de sua comparação e
determinação. Garantem, em resumo, que todas as “relações que podem existir
entre seres do mesmo gênero devem se reportar a dois itens, a saber, a ordem e
a medida” (451, 5-8).

Uma vez expostos os elementos centrais apresentados na
Regra XIV, nem sempre é claro o modo como eles, juntamente com a Regra XIII e
as seguintes, serão aplicados concretamente aos problemas. Isso é válido
principalmente para problemas não-matemáticos, sobre os quais as referências são
escassas. Em todos os casos, sabe-se que o autor tinha a intenção de aplicar
tais regras também no “Livro III”, se o tivesse escrito. Com efeito, diz
Descartes, no final da Regra XVI: “É preciso notar ainda que iremos usar essas
quatro últimas regras [as Regras XIII, XIV, XV e XVI] na terceira parte deste
Tratado, tomando-as em um sentido um pouco mais largo do que aquele pelo qual
foram aqui explicadas, como se dirá no seu devido lugar” (459, 1-4). A partir
dessa afirmação e de outras relacionadas, pode-se concluir que o “Livro III”
adaptaria, tanto quanto possível, essas regras às questões imperfeitas. Em
outras palavras, conforme a Regra XVII, se “as quatro regras precedentes
ensinaram como é que as dificuldades determinadas e perfeitamente compreendidas
devem ser abstraídas de cada um de seus sujeitos e reduzidas a ponto de, em
seguida, nada mais se procurar senão conhecer certas grandezas, estabelecendo
esta ou aquela relação com outras grandezas dadas” (459, 10-15), caberia àquele
“livro” aplicar tais procedimentos às questões imperfeitas, as quais, conforme
a Regra VIII, apresentam “naturezas compostas” dadas como tais pela própria
experiência das coisas mesmas. O problema, pois, permanece, já que, nas Regras,
Descartes não ensina como “montar equações” e resolvê-las em matéria não
estritamente matemática.

No caso de problemas matemáticos, as indicações são bem
mais numerosas e mais claras. As últimas regras das Regras, na
realidade, antecipam muito do que será dito nas primeiras páginas do Livro I da Geometria[93]. A Regra XVI introduz a simbolização aperfeiçoada nessa última obra, ao mesmo
tempo em que
critica a noção de dimensão geométrica até então
utilizada (incorporada nos termos “raiz”, “quadrado”, “cubo”, etc.)[94], enquanto a Regra XVIII trata das operações
aritméticas e de seu uso, com o auxílio e utilização da noção de unidade. As
Regras XIX e XXI (não desenvolvidas) são mais interessantes metodologicamente,
na medida em que afirmam que para cada desconhecido corresponde uma equação (ou
comparação), e que, depois, elas devem ser reduzidas a uma única e a de menor
grau. Essa é uma referência direta ao procedimento analítico, conforme foi
exposto mais acima no exame da Geometria, cujo objetivo final é a
conquista da equação mais simples e representante da dificuldade em exame. A
Regra
XVII é ainda mais clara sobre as estratégias metodológicas a serem utilizadas.
Ela afirma que devemos desconsiderar a simples oposição entre conhecido e
desconhecido (distinção assegurada, por outro lado, pela simbologia) e
reconhece que os elementos de um problema estabelecem relações de dependência
recíproca entre si (459, 6-9; 460, 9-11), de sorte que, nas questões complexas,
o artifício básico do método é supor como dadas e conhecidas as coisas
desconhecidas e, com isso, determinar diretamente umas (mesmo as conhecidas) a
partir das outras[95].

3.6 Considerações finais

Uma das principais características da metodologia das Regras diz respeito à duplicidade de exigências à que ela se submete. Por um lado, ela
deve cumprir exigências epistemológicas, derivadas principalmente das
características do intelecto humano e de suas operações, bem como da concepção
de conhecimento a elas relacionada. Por outro lado, ela se caracteriza como um
método de resolução de problemas e, enquanto tal, deve dar conta de
“exigências” provenientes do próprio processo de produção do conhecimento.
Enquanto as imposições do primeiro tipo são de caráter apriorístico e,
portanto, são independentes das dificuldades que o método encontrará por
ocasião de sua efetiva aplicação, as do segundo tipo têm em consideração a
situação característica do sujeito e aquela dentro da qual se encontram os
objetos que ele pretende investigar. A despeito da distinção estatutária de
cada uma, elas não conduzem, entretanto, a metodologia a ambigüidade alguma ou
à contradição. Servir a dois “senhores” com exigências distintas não a leva nem
à inoperância, nem à divisão.

Nem por isso a situação deixa de ser complexa. A teoria
das operações mentais se faz presente, direta ou indiretamente, em toda a obra.
Sendo a intuição e a dedução as únicas operações, todo o conhecimento é
adquirido por meio delas. Além disso, dadas a superioridade da intuição e a
necessidade de dela partir e a ela se reduzir, sempre que possível, toda
dedução, todo o conhecimento fica condicionado a começar pelas intuições (e
pelos objetos) mais simples possíveis e primeiros. Desse modo, a natureza das
operações mentais direciona toda a atividade humana de conhecer a procurar o
que há de mais simples, para daí constituir a cadeia dedutiva do conhecimento.
Concomitantemente, a concepção – em parte dela decorrente – de que conhecer
significa comparar e dispor os objetos uns a partir dos outros, conforme sua
dependência ou determinação cognoscitivas, reforça a tendência exposta acima de
que o conhecimento deve começar pelos objetos mais simples e fáceis, não
somente porque as operações assim o exigem, mas também porque os próprios
objetos se organizam dessa forma: eles se determinam uns a partir de outros e
dão origem a ordenamentos seriais organizados dentro da forma e na direção
simples → complexo. Disso derivam, inclusive, a classificação dos objetos
do conhecimento em naturezas simples e complexas, bem como, ainda que não
claramente exposta nas Regras, a estrutura dedutiva do conhecimento
dentro do modelo princípios primeiros → verdades segundas.

Essas duas teses, condicionadoras da metodologia, trazem
como conseqüência principal a de que todo conhecimento se organiza a partir dos
elementos mais simples e mais fáceis a conhecer. Nesse sentido, o modelo ideal
para apresentar essa organização ou estrutura do conhecimento é de inspiração
sintética. Além disso, essas teses assumem que se deva começar toda
investigação pelos objetos e problemas mais simples e fáceis. Assim, diante de
problemas e objetos de complexidades distintas, deve-se começar pelos mais
simples; da mesma forma, se quisermos treinar nossas capacidades à conquista do
conhecimento, devemos começar pela resolução de problemas ou exemplos
metodológicos mais simples e fáceis e, somente depois, nos adentrarmos pelos
mais complexos. Afinal, dado que “os conhecimentos das coisas não devem ser
olhados como mais obscuros uns do que os outros, já que todos são da mesma natureza
e consistem apenas numa composição de coisas conhecidas por si mesmas” (427,
27-428, 2), são somente as vias que são umas mais longas que outras. É norma do
“bom senso”, pois, começar pelos caminhos mais curtos e mais acessíveis.

Entretanto, se, por um lado, a metodologia não pode
deixar de cumprir o que a epistemologia impõe, por outro lado, ela precisa
reconhecer uma distinção ainda desconhecida no âmbito estritamente
epistemológico: aquela entre a forma de aquisição do conhecimento e a sua
dependência e organização estrutural. A metodologia não pode ser constituída de
um conjunto de procedimentos elaborados aprioristicamente e de forma
independente aos problemas e à “situação cognitiva” a que cada um deles se
encontra. Se, por um lado, ela prolonga os poderes naturais da razão humana e
responde às exigências estruturais do conhecimento, por outro, ela tanto atua
sobre situações particulares e concretas (por vezes, muito complexas), como
precisa reconhecer um descompasso entre o modelo ideal de conhecimento e aquele
a que o homem (o cientista) se encontra. Sem ainda ter em conta problemas epistemológicos
e metafísicos tratados em obras posteriores (tais como o problema da relação
entre corpo e alma, o problema da sensibilidade e dos vícios da educação,
etc.), os quais poderiam explicar ou justificar esse descompasso, Descartes
está ciente, pelo menos, dos “efeitos” daí decorrentes.

Em termos metodológicos, isso significa que a síntese
não é somente o método de exposição do conhecimento adquirido, mas talvez
poder-se-ia dizer que, idealmente, ela deveria ser também seu método de
descoberta. Entretanto, não é possível cumprir esse último requisito: ela deve
ceder seu lugar à análise, pois, dada a condição humana, o procedimento de descoberta
é distinto daquele de apresentação. Na realidade, a atividade de produção do
conhecimento tem como entidades imediatamente acessíveis, não as intuições
primeiras e fundamentais, mas complexidades de elementos, dados, por vezes, de
uma forma confusa e desordenada. A metodologia das Regras, portanto,
precisa dar conta dessa situação, tendo diante de si problemas, questões,
proposições complexas. E isso significa duas coisas: a primeira é que ela deve
aprender a lidar com todas as modalidades de complexidades dadas, procurando
agrupá-las em conjuntos e definindo mecanismos próprios e fecundos para seu
exame, compreensão e resolução; a segunda é que as próprias noções de
“problema”, “questão”, “complexidade”, vistas a partir da luz e dos poderes
naturais da razão, fornecem estratégias e caminhos de solução.

No que diz respeito ao primeiro item, ao das modalidades
de complexidades sobre as quais o método deve atuar, apesar da obscuridade do
tratamento cartesiano, parece possível distinguir dois tipos básicos
[96]. O primeiro tipo de complexidade é mais um amontoado de
elementos do que uma questão propriamente dita: Descartes fala, nesse caso, de
proposições complexas, mas também de questões em um sentido amplo e não
técnico. Aí, o procedimento da análise consiste mais em “desamarrar” ou
desfazer a complexidade dada do que estabelecer a dependência entre os
elementos envolvidos; é mais um processo de separação dos elementos simples do
que de determinação de uns a partir dos outros; a complexidade é, assim, mais
“circunstancial” que “real”. O segundo tipo de complexidade é aquele próprio do
que chamamos um problema ou questão, dentre os quais alguns são plenamente determinados
enquanto outros não (mas, em princípio, poderiam ser “ajustados” ou
transformados em problemas perfeitos). No caso desse tipo de complexidade, o método
pode ser mais bem equacionado, pois aí se supõe “claramente” presentes os
elementos constituintes de uma questão: o que é dado como conhecido, o desconhecido
ou procurado e a suposta relação entre ambos, mas, por outro lado, são
necessários mecanismos adicionais ausentes no tipo anterior, já que o procedimento
direto de ida do complexo ao simples e o movimento contrário são insuficientes
à resolução da dificuldade.

Em ambos os casos, contudo, o procedimento de análise e
de síntese é semelhante. O método sempre parte da noção de problema ou da
complexidade dada e, supondo presentes todos os elementos necessários à sua
compreensão ou dissecação, por meio de seu primeiro procedimento, a análise,
vai em direção daqueles que são determinantes, cujo resultado pode ser tanto um
objeto simples quanto o estabelecimento de uma igualdade (uma “equação”) entre
o procurado e o dado. A síntese, por sua vez, faz o movimento contrário, tanto
pela inversão direta dos passos da análise quanto pela resolução da equação e
volta (indireta) à complexidade inicial do problema.

O método das Regras, portanto, se aplica a
questões, a problemas, dados evidentemente dentro de um certo contexto ou
dentro de um certo domínio de objetos. Nós temos, pois, que distinguir o
tratamento das questões (onde o que é dado é uma complexidade de elementos) da
organização dos objetos em sua conexão mútua ou “ordem natural” de dependência,
que vai do mais simples ao mais complexo, da causa para o efeito. Assim, por um
lado, qualquer domínio do conhecimento se organiza dentro do modelo e na
direção do simples para o complexo ou da causa para o efeito, mas, por outro, o
que é imediatamente dado ao cientista são problemas, questões, efeitos,
fenômenos a serem explicados.

Para finalizar este estudo, algumas palavras sobre os
limites da metodologia das Regras. Muitos autores têm afirmado que ela é
extremamente ingênua, simplista e ineficiente. Apesar de o texto apresentar uma
riqueza e uma diversidade de idéias extraordinárias, é preciso admitir – e,
certamente, o próprio Descartes tem notado muitas dificuldades para elaborá-la,
deixando a obra inacabada e sem registros – a simplicidade do método,
principalmente se tomado em seu esqueleto básico (de decompor e recompor, de
encontrar o simples e de remontar ao complexo)[97] e
tendo em mente a complexidade que adquire a estrutura do saber, depois de 1629.
Além disso, as Regras apresentam-se como uma reflexão metodológica
desencarnada da produção científica – ainda que Descartes esteja muito
produtivo nessa época –, o que lhe confere certo grau de artificialidade e de
generalidade. Um outro problema diz respeito à sua possível ineficiência no
caso dos problemas físicos, nos quais a metodologia precisa ser muito mais
diversificada e complexa. Em resumo, a metodologia das Regras certamente
não apresenta uma operacionalidade suficiente para enfrentar, na prática, os
problemas científicos que Descartes terá que tratar em seguida.

Entretanto, essas dificuldades não inviabilizam a sua
pertinência e fecundidade. Não se pode avaliá-la como se seu autor quisesse
elaborá-la para, posteriormente, literal e simplesmente aplicá-la.
Descartes não tem essa pretensão de elaborar uma receita que deva ser seguida
impreterivelmente nas pesquisas futuras. Sua metodologia, mais do que prescrever
algo, tem a capacidade de incorporar novas situações e ensinamentos, se
modificar e se aperfeiçoar: a metodologia cartesiana é dinâmica e, como tal,
ela é sempre diferente, sem deixar de ser a mesma. Em suma, enquanto alguns
autores a contrapõem à metodologia que vem em seguida, porque distinta, aqui
ela é vista em continuidade, apesar de e porque “evolutiva”: ela é um procedimento
de resolução de problemas
que, se for o caso – e será o caso – se altera e
se adapta, sem jamais alterar sua compreensão sobre o que é um problema, seus
elementos constituintes e seu esquema básico de exame e de resolução – isto é,
sem que a racionalidade operatória, em essência, se modifique.


[1] As citações traduzidas das Regulae
ad directionem ingenii
(X, 359-469), apesar de serem “minhas”, devem muito
a outras traduções (francesas e portuguesas), elencadas na bibliografia. As
traduções existentes em língua portuguesa dificultam sua utilização por não indicarem
a paginação da edição das obras completas do autor.

[2] Nesse sentido, o tema do método no Discurso não receberá um estudo correspondente.

[3] Cf. BECK (1952, p. 5-8) e
MARION (1981, p. 16-19) para um breve histórico dos estudos interpretativos
sobre as Regras. Marion, por exemplo, classifica-os em três espécies,
antes de introduzir uma quarta. As duas primeiras (que são a maioria) estudam
as Regras em comparação ao Discurso e, neste caso, há geralmente
a escolha de um texto principal, ao qual o outro se subordina, seja como
comentário (no caso das Regras), seja como resumo (no caso do Discurso).
A terceira espécie pretende estudar as Regras por si mesmas, entendendo-as
como compreensivamente auto-suficientes. Todas elas têm a metodologia como seu
tema central. A quarta, inaugurada por ele próprio, pretende estudá-las em relação
(e por oposição) à tradição aristotélica (p. 19-23).

[4] Escritas em latim e
publicadas somente após a morte de seu autor, as Regras são uma obra
inacabada, de datação incerta e cujo manuscrito original desapareceu. Sua
redação foi abandonada após terem sido escritas vinte e uma regras (sendo que
das últimas três só há o cabeçalho) de um texto que, segundo indicações
principalmente da Regra XII (428, 21-429, 13), deveria ter três livros, cada um
com doze regras, totalizando trinta e seis. Não sendo referida em nenhum outro
texto do autor, nem em sua correspondência, não tendo deixado quaisquer traços
de sua composição, não há, até hoje, unanimidade quanto à data de sua redação:
os especialistas situam-na ou em 1626-28 (muitas vezes, em 1628, simplesmente)
ou no período, bem maior, de 1619 a 1628. O manuscrito original só foi
encontrado após a morte de seu autor (mas depois desapareceu), do qual foram
feitas pelo menos duas cópias e uma tradução: a cópia (também desaparecida) que
deu origem à edição latina, publicada em 1701, em Amsterdã [A]; a cópia
que pertencera a Leibniz e que foi conservada na Biblioteca de Hanover [H];
a tradução neerlandesa feita em 1684 por J. H. Glazemaker [N]. Estas
três versões contêm consideráveis distinções entre si. C. Adam e P. Tannery
privilegiam A, mas fornecem as variantes de H. Somente estudos
mais atuais consideram a totalidade das fontes, notadamente CRAPULLI (1966),
que fornece N e reconstitui uma versão latina a partir dessa tradução e
das outras duas cópias (latinas), e MARION (1977), que fornece uma tradução
francesa, a partir de todas elas. Para maiores informações sobre a história
deste texto e quanto às preferências sobre as variações, cf. o texto que
antecede as Regras (X, 351-357), ALQUIÉ (1988-89, I, p. 69-71), CRAPULLI
(1966, p. XII-XXXIII) e MARION (1981, p. 13-15).

[5] Outras dificuldades
poderiam ser citadas, como a que diz respeito ao lugar, à função e ao alcance
da metodologia dentro da obra. Nem todos os intérpretes aceitam que ela seja a real problemática que angustia Descartes neste momento de seu percurso intelectual e
que o faz redigir esta obra. O trabalho de Marion é um caso exemplar de
dissidência, apesar de concordar com BECK (1952) que as Regras são “le
texte de méthodologie cartésienne fondamental et original” (MARION, 1981, p.
17, nota 10), ao propor que a temática epistemo-metodológica (visível e
explícita) que a obra apresenta é somente o campo sobre o qual se disputa a
batalha (definitiva) de uma guerra mais profunda entre uma ontologia em gestação
(a cartesiana) e outra ainda na moda, mas que deve ser combatida (a de
Aristóteles ou da tradição aristotélica), mesmo que jamais nomeada
explicitamente como tal. Por mais interessante (além de minucioso e profundo)
que seja o estudo de Marion, aqui serão seguidos a via tradicional e o que
aparenta ser uma “leitura natural” da obra. Na verdade, tem-se aqui como
suficientemente evidente que a metodologia é a temática central da obra. Ela é
o único tema que a percorre de início ao fim, pretende lhe dar unidade e
caracterizar sua estrutura; ela é o assunto dominante, mais desenvolvido e se
contrapõe à (bem maior) precariedade das outras disciplinas. O predomínio do
conteúdo metodológico ao longo da obra lhe confere, mesmo que dependente sob o
ponto de vista da justificação (última) de outras disciplinas, a função de
carro-chefe e de meio através do qual o modelo de conhecimento de Descartes se
autoproduz e se põe em gestação. Neste sentido, a metodologia é como que a
“justificativa operatória” de teses epistemológicas e ontológicas apenas
lançadas, ainda que estas venham a assumir a função de fundamento daquela.

[6] WEBER (1964b) antecipa as
conclusões em relação à composição da Regra IV.

[7] Segundo ele (p. 194-206),
há praticamente dez fases de composição do texto, desde o fim de outubro de
1619 até outubro de 1628. Cf. suas conclusões no Cap. XII, “Histoire du texte
des Regulae”.

[8] Paralelamente às fases de
composição do texto, WEBER (1964a, p. 243-44) assinala dez fases distintas da
metodologia e depois as reúne dentro de quatro etapas: “Méthode propédeutique”,
“Méthodes résolutives générales”, “Méthodes résolutives particulières” e “Préceptes
complémentaires”. Cf. o Cap. XIII: “Histoire de la méthode cartésienne” (p.
207-45). Cf. também WEBER (1972), que trata dos quatro grandes momentos de
evolução da metodologia das Regras.

[9] GAUKROGER (1995, p.
111-12), seguindo em alguns itens as conclusões de Weber e adicionando revisões
de Schuster, defende que há três estágios de composição e duas regras compostas
em datas distintas: 1° estágio (março a 10/11/1619): Regra IVB (374, 16 em
diante); 2° estágio (1619/20): Regras I a III, Regra IVA (início até 374, 15),
Regras V a VII, Regra VIII (partes), Regras IX a XI; 3° estágio (1626-28):
Regra VIII (partes restantes), Regras XII a XXI. Cf. também SCHUSTER (1980).
Sobre a tese de que as Regras foram escritas em 1628 ou entre 1626 e
1628, cf. as obras completas (X, 486-488), GOUHIER (1930, p. XIII-XXIV) e BECK
(1952).

[10] Meticulosa e radical,
porque o autor distingue fases de sua composição dentro de um mesmo mês ou de
um mês para outro, mas também porque acha que distinções de conteúdo
extremamente sutis podem garantir a sua datação. É questionável a prática de
Weber de interpretar as diferentes partes do texto de forma isolada para tornar
evidentes as oposições entre suas partes, antes de tentar conciliá-las entre
si.

[11] Uma conseqüência dessa tese
é a de que o conceito de ordem metodológica (“ordem das razões” (?)) não pode
ser caracterizado simplesmente como um movimento de ida do simples ao complexo
(confundindo-se, por exemplo, com a relação princípios → conhecimento derivado),
dado que o método em sua etapa principal (a análise) vai do complexo ao
simples. Em todos os casos, como Descartes não distingue ainda nas Regras a ordem e a maneira de demonstrar (como fará mais tarde), o conceito de ordem
está ligado ao de movimento do método (por vezes, como sinônimo) e adquire uma
configuração bastante complexa. Muitos intérpretes afirmam, contudo, o
contrário, tal como ALQUIÉ (1988-89, I, p. 653), BECK (1952, p. 147), GUENANCIA
(1991, p. 15) e GUEROULT (1953, I, p. 20; II, p. 289), entre outros.

[12] Conforme mostra o levantamento feito nas Regras (ARMOGATHE e MARION, 1973, p. 74), o termo “methodus” não aparece nas
primeiras três regras, mas somente a partir do início da Regra IV.

[13] Cf. a Regra IV: “todas as coisas nas quais se examina
somente a ordem e a medida se reportam à mathesis, sem ter em conta se é
em números, figuras, astros, sons ou em qualquer objeto que uma tal medida se
deva procurar; e, por conseguinte, deve haver uma ciência geral que explique
tudo o que se pode investigar acerca da ordem e da medida, sem se aplicar a uma
matéria especial, e que ela se designa, não por um nome emprestado, mas já
antigo e aceito pelo uso, mathesis universalis, uma vez que contém tudo
em virtude do que as outras ciências são ditas partes da matemática” (377,
23-378, 11). Apesar das dificuldades inerentes à compreensão desse conceito,
sua maior contribuição à metodologia pode ser precisada quando do exame da
Regra XIV, onde Descartes expõe sua tese sobre a homogeneidade dos objetos
passíveis de conhecimento, sobre o conceito de “comparatio” e se refere à ordem
e à medida (451, 5-8). Cf. sobre o tema da mathesis universalis e sobre
sua relação com o método o debate entre WEBER (1964a, p. 3-17; 1964b), MARION
(1981, p. 55-69) e KRAUS (1983). Cf. também GAUKROGER (1995, p. 111-12).

[14] Esta regra não é somente
enfática e incisiva, mas também, como tem assinalado MARION (1977, p. 166, n.
2), mostra uma certa “agressividade” e atribui à atividade do conhecimento uma
conotação “bélica”. Descartes escreve, com efeito, “rerum cognitionem
agressuro”, convidando-nos à batalha do conhecimento.

[15] Diz o original: “Tota methodus consistit in
ordine et dispositione eorum …”; “In hoc uno totius humanae industriae
summa
continetur…” (379, 15; 22-23; itálico acrescentado).

[16] Expressão empregada por
Cassirer, citada por MARION (1977, 167, n. 3).

[17] A estrutura básica do
método, apenas apresentada, parece negociar, em princípio, com três
pressupostos. O primeiro diz respeito ao “sujeito-ator” e às habilidades a ele
exigidas para aplicá-la. O método pressupõe que a mente tenha a capacidade de
manipular os objetos apresentados por uma determinada configuração, de tal
forma que possa penetrar no seu interior para aí descobrir e explicitar sua
trama interna. Essa forma ou capacidade de manipulação, direcionada em função
da procura da verdade, entra em ação por ocasião do ordenamento e da disposição
destes objetos. Ela é atribuída à mente, de alguma forma, já nas Regras I e
III, mas também supõe um intensivo treinamento e uma atividade prática, como
mostram as Regras IX, X e XI. O segundo pressuposto, intimamente relacionado ao
primeiro (pois, se a questão é conhecer, a mente não pode “rodar no vazio”), é
a questão da disponibilidade dos objetos sobre os quais a mente age; ou seja,
para que a mente possa manipulá-los, eles devem estar de alguma forma
disponíveis. A Regra V não problematiza este item e assume como um “fato” a
disponibilidade do material sobre o qual a mente atua. Mas Descartes não
tardará a tratar desse problema. Ele oferece nas Regras VIII e XII uma teoria
das faculdades do conhecimento e uma teoria dos objetos do mundo. A teoria das
operações mentais (intuição e dedução) de algum modo soluciona este problema
provisoriamente, pois sua ocorrência se dá sempre sobre um determinado
conteúdo. O terceiro pressuposto é quanto à classificação dos objetos entre
simples e complexos. Para que o método possa assumir seu duplo procedimento, o
material presente à mente deve poder ser classificado em função do binômio
complexidade – simplicidade. Este pressuposto negocia com outra característica
da teoria dos objetos do mundo (sua classificação em natureza simples e complexas),
também examinada nas Regras VIII e XII. Não há como não perceber, desde já, o
conjunto e a unidade das doze primeiras regras. A estrutura básica do método
(Regras V, VI e VII) reclama elementos fornecidos pelas nove regras restantes,
dos quais as primeiras quatro regras adiantam alguns, enquanto reflexão
epistemológica que visa, não exclusivamente mas principalmente, preparar a
exposição do método. A Regra VIII fornecerá alguns exemplos de aplicação do
método e, depois, adiantará o que a Regra XII exporá mais demoradamente: a
teoria das faculdades da mente e a teoria dos objetos do mundo. Por sua vez, as
Regras IX a XI concernem principalmente ao treinamento da mente e do método,
através de simples exemplos “metodológicos”.

[18] Apesar disso, há muitos que
a desconhecem ou nela não pensam ao presumirem-na sem utilidade e, deste modo,
investigam problemas de uma forma desordenada e sem método. Exemplo disso são
os astrólogos, que, mesmo sem conhecerem os objetos (a natureza dos céus e seus
movimentos) sobre os quais se debruçam, apontam seus efeitos sobre os homens;
tal é o caso também dos que estudam a mecânica sem a física, por não
reconhecerem a relação de dependência entre as diversas disciplinas, e os que
fabricam engenhosamente e por conta própria instrumentos para produzir
movimentos; não escapam disso também os filósofos que desconsideram toda (boa)
experiência, atitude que os leva à criação de verdades pela sua fantasia (como
se a verdade nascesse de sua cabeça a exemplo de Minerva de Júpiter) (380,
2-16). No início da Regra IV, Descartes cita quimistas, filósofos e também geômetras
como exemplos de quem “investiga” sem método (371, 10-11).

[19] É importante ter sempre
presente essa idéia de continuidade entre tais regras. Elas formam um conjunto
e, deste modo, não podem ser isoladas: a Regra V apresenta a estrutura mínima
do método; a Regra VI, a sua etapa mais importante ou o segredo de seu sucesso
(ainda que não só isso).

[20] Diz o original latim: “praecipuum tamen continet artis
secretum
, nec ulla utilior est in toto hoc Tractatu”; “Atque in hoc totius
artis secretum
consistit, ut in omnibus illud maxime absolutum diligenter
advertamus” (381, 8-9; 382, 17-19; itálico acrescentado).

[21] Pelo menos duas razões
podem ser citadas pelas quais esta regra, à primeira vista, não contém nada de
novo. A primeira é porque ela trata somente (ainda que com mais
detalhes) do que já foi enunciado na Regra V. A segunda é que ela, aparentemente,
imita os dialéticos em suas classificações em categorias e gêneros de ser (381,
10-12).

[22] De uma forma direta, tal
interpretação liga ao conceito de série os exemplos de progressão geométrica
dados na parte final dessa mesma regra.

[23] A Regra VI poderia ser
dividida, para facilitar o presente exame, em cinco momentos sucessivos: o
cabeçalho, o comentário que lhe segue e outras três “seções”, caracterizadas em
seu início respectivamente pelos termos “notandum est primo” (381, 17), “notandum
2” (383, 11), e “notandum denique 3” (384, 9).

[24] A comparação (“comparatio”) é a operação
fundamental do método. Cf. mais adiante a Regra XIV.

[25] Ou seja, ainda que a
existência das séries em geral é instaurada pela própria perspectiva do
conhecimento, a constituição de uma série particular pressupõe a decisão sobre
qual objeto, neste caso concreto, é mais absoluto ou mais relativo que o outro.

[26] Diz Descartes: “Absolutum voco, quidquid in se
continet naturam puram et simplicem, de qua est quaestio (…); atque
idem primum voco simplicissimum et facillimum, ut illo utamur in quaestionibus resolvendis. Respectivum vero est, quod eamdem quidem naturam, vel saltem
aliquid ex ea participat” (381, 22-382, 4; itálico acrescentado).

[27] As Regras V, VI e VII (o
“Livro I”, como um todo) utilizam-no nesta sua acepção mais geral: a Regra V,
por exemplo, acusa astrólogos, “físicos” e filósofos de examinarem “questões
dificílimas” de forma desordenada (380, 4-5); a Regra VI também, além das
citações dadas acima, fala de questões e da relação (e redução) de uma questão
a outra, bem como de “dificuldades” a serem solucionadas; de forma semelhante,
a Regra VII fala dos preceitos que servem “para resolver a maioria das
questões” (388, 20), que a enumeração trata de tudo o que se relaciona a uma
questão proposta (388, 26-27). Há inúmeros outros exemplos que poderiam ser
citados.

[28] Descartes utiliza
indistintamente e, pelo que parece, irrefletidamente, os termos “questões” e
“objetos simples”, por um lado, e “proposições complexas” e “proposições
simples”, por outro. Mas os primeiros termos são mais freqüentes.

[29] GARBER (1992, p. 317-318, nota 4) é talvez o único pesquisador
que, explicitamente, não concorda em chamar essas duas etapas, respectivamente,
de analítica e sintética, mas somente “regressiva” e “construtiva” (p. 34). Um
da suas razões básicas é a de que, enquanto as Segundas respostas se
referem a dois métodos distintos de argumentação, dos quais deve-se escolher,
em cada ocasião, um dentre eles, nas Regras trata-se de duas etapas de
um mesmo método; portanto, os dois textos tratam de coisas distintas.
Entretanto, como já se viu, essa é uma razão descabida, pois se subverte a
ordem de compreensão desses conceitos: análise e síntese são procedimentos,
antes de tudo, matemáticos, tanto para a história da ciência quanto para
Descartes e, como tal, não serão as Segundas respostas por si que
determinarão o seu significado. Além disso, ficou claro que análise e síntese
são originariamente duas etapas complementares de um mesmo método, mas que,
principalmente por equiparação cada vez mais da síntese à demonstração,
enquanto à análise sempre coube a descoberta, foram se tornando dois método
separados. Assim, é somente por meio de sucessivos deslizes e absorções que se
chega à concepção de análise e de síntese elaborada em 1640-41, com a
“expulsão” da síntese do até então método de análise-e-síntese e sua equiparação
à apresentação axiomática euclidiana (ou, mesmo, com o modelo de demonstração
aristotélico).

[30] Mas, então, como deve ser
entendido o que lhe segue imediatamente? Como entender a afirmação de Descartes
de que a Regra VI ensina-nos que todas as coisas se dispõem em séries enquanto
umas se podem conhecer a partir das outras? Esta afirmação deu origem, na
verdade, a uma das principais interpretações da metodologia das Regras.
Vendo como objeto principal (por vezes, como exclusivo) desta regra a
constituição das séries e interpretando-o como sinônimo de ordem (ordem do
conhecimento), esta interpretação afirma que o objetivo do método é o de
constituir tais séries, começando pelos objetos mais simples, sem dar qualquer
importância à procura deste objeto simples. O exemplo mais claro de série dado
por tais intérpretes é o de uma “progressão matemática”, conforme essa mesma
regra fala mais adiante. Nada contra que esse exemplo seja um exemplo de série,
mas parece que ele não pode ser visto como o exemplo, pois Descartes,
neste lugar, não fala em nenhuma ocasião de série e, assim, esse exemplo talvez
tenha que ser interpretado diferentemente. Evidentemente, a segunda parte dessa
regra afirma não só a importância das séries, mas principalmente que os objetos
do conhecimento se organizam em séries. Isso não significa que o segredo do
método seja a organização dos objetos em série, mas que se deva sempre
pressupor a sua existência, “de tal modo que, sempre que se apresente uma
dificuldade, possamos imediatamente advertir se será útil examinar algumas
outras, quais e em que ordem” (381, 13-16). Isto significa que se deve sempre pressupor a existência de séries de objetos (e isto é um ponto de partida, uma idéia
heurística) e, assim, em todo problema investigado, o método é dirigido por
esta idéia diretriz.

[31] Parece possível defender,
entretanto, a posição de que, enquanto o segredo do método e etapa fundamental
é a conquista do elemento mais simples e absoluto, o resultado final não deixa
de ser a apresentação e organização dos objetos em forma de série. Mas isso
significa privilegiar a busca do objeto simples e relegar a constituição das
séries ao estatuto de resultado do método (ou etapa posterior).

[32] Diz Descartes: “É
necessário notar, em segundo lugar, que são poucas as naturezas puras e
simples, as quais se podem ver por uma intuição imediata e por si mesmas, sem
que dependam de quaisquer outras, mas nas próprias experiências ou graças a uma
certa luz que nos é inata; dizemos que importa considerá-las diligentemente,
porque são as mesmas que, em cada série, chamamos as mais simples” (383, 9-17).

[33] Assim, é muito mais
importante ter a habilidade de reconhecer as naturezas simples do que
recenceá-las. Esta habilidade, por um lado, exige um treinamento, mas este
treinamento não é senão um treinamento para melhor aplicar a análise, pois a
ela cabe descobrir (reconhecer) as naturezas simples.

[34] Este reducionismo é, de
fato, oriundo da não percepção da diferença entre partir simplesmente das
naturezas simples como dadas, por um lado, e ter que “reconhecê-las”, para
depois deduzir as menos simples, por outro. Este “erro” é muito comum entre os
intérpretes e ocorre sobre várias passagens das Regras.

[35] É, em geral, possível
“confundir” a síntese (a segunda etapa do método) com a exposição organizada do
conhecimento, dada sua similaridade, já que ambas se movimentam do simples ao
complexo. Não é de se estranhar essa possível confusão, pois, na verdade, a síntese,
para Descartes, é tanto a segunda etapa do método (como é o caso nas Regras,
mas também na Geometria) quanto o melhor método para expor a scientia
perfectissima
(como admitem os Princípios).

[36] Neste caso, a Regra VI
repete e confirma o duplo movimento do método, exposto na Regra V, e, ao
contrário do que à primeira vista sugere, não contradiz, mas reforça a visão do
método aqui exposta.

[37] Nesse sentido, a resolução
de problemas em uma disciplina conduz o cientista a aventar a existência de um
conjunto de naturezas simples (as quais desdobram-se em princípios ou mesmo em
uma teoria) capaz de explicar um conjunto de fenômenos.

[38] Isto significa imprimir uma
conotação real (ontológica) ao que era antes “apenas” epistemológico? É difícil
responder a essa questão, mas não há como negar que, paulatinamente, começa a
aparecer a estrutura de um mundo em constituição.

[39] Termo nenhuma vez citado em
toda esta “seção”.

[40] O exemplo dado por
Descartes é o seguinte: tendo dois números, tais como 3 e 6, onde
o segundo é o dobro do primeiro, pode-se determinar então o dobro do segundo e
assim por diante. Percebe-se disso que “há a mesma proporção” entre todos eles
e, portanto, que os números 3, 6, 12, 24, 48,
etc. são continuamente proporcionais.

[41] O exemplo dado por
Descartes parece sugerir (ele não é explícito, talvez porque “tudo isso seja
tão claro que quase parece infantil”) que questões mais simples (dentro de um
determinado assunto) podem fornecer conhecimentos importantes para a
compreensão das mais complexas e para o domínio todo, tal como, neste caso, que
há a mesma proporção (a “razão”) entre os termos de uma progressão geométrica.

[42] Em suma, é suficiente, diz
Descartes, que “o leitor compreenda o que eu pretendo ao dizer que uma
proposição se deduz direta ou indiretamente, e pense que, a partir do que há de
mais fácil e do que se conhece em primeiro lugar, muitas descobertas podem ser
feitas mesmo em outras disciplinas por aqueles que refletem com atenção e se
entregam às investigações com argúcia” (387, 3-8),

[43] Apesar da dificuldade que
há em separar, de um lado, objetos e, de outro, problemas, sendo mesmo possível
tratá-los como sinônimos em alguns casos, parece possível mantê-los
suficientemente distintos dentro da caracterização dada abaixo, sem precisar,
para tal, oferecer critérios de distinção. Além disso, será preciso distinguir
um problema complexo, que pode ser desmembrado em outros, de um conjunto de
problemas relacionados, mas que não dão origem verdadeiramente a um outro mais
complexo. Essa segunda dificuldade se encontra também no caso das proposições
complexas.

[44] A Regra XI deixa mais claro
este segundo sentido: “Mas, se a [a dedução] considerarmos já feita, (…) a
vemos por intuição, quando é simples e clara, e não quando é múltipla e composta;
foi a esta última que demos o nome de enumeração ou indução” (407, 22-408, 6).

[45] Há casos, pois, em que ela
pode ser mais complexa e, portanto, não linear. Ela seria em geral sinônimo de
dedução, quando esta não se reduz à intuição. Em outros termos, a dedução é
chamada de enumeração quando uma conclusão é extraída de “premissas” separadas,
como diz a Regra XI.

[46] Há, pois, uma forte
semelhança entre o núcleo central do método das Regras e as regras do Discurso (VI, 18-9). Dos quatro preceitos do Discurso, o primeiro não é (também)
uma regra propriamente metodológica (como Leibniz já notara), mas
epistemológica; os outros três tratam da análise, da síntese e da enumeração,
respectivamente, de forma semelhante ao tratamento dado nas Regras V, VI e VII.

[47] É o exemplo mais completo
que as Regras apresentam das duas etapas do método.

[48] Como já foi visto, este é
um procedimento típico da análise: pressupor o problema resolvido e assumir
como dados todos os elementos necessários para a sua solução, sem se importar
se eles são efetivamente conhecidos ou desconhecidos.

[49] Na Geometria, também
já foi dito, este método começa com a seguinte pressuposição: “Ainsi, voulant
resoudre quelque problème, on doit d’abord le considerer comme déjà fait” (VI,
372, 10-11); “Premierement, je suppose la chose comme déjà faite” (382, 18-19;
413, 29). As Regras afirmam a mesma coisa, ainda que com outras
palavras: “todo o artifício neste lugar consistirá, supondo conhecido o que é
desconhecido …”; “se as [as coisas desconhecidas] contarmos entre as
conhecidas ainda que desconhecidas”; “os termos incógnitos que supomos
conhecidos” (460, 20-21; 461, 3-4; 468, 23-24).

[50] Como o fenômeno ocorre por
ocasião do aparecimento da lente, toda a atenção deve ser dada a ela, pois indica
o “local” onde se situa a dificuldade.

[51] A outra “linha” (aquela que
representa a saída do segundo meio para, novamente, o primeiro, supondo que a
lente seja fina e que o ponto de reunião dos raios se dê no ar, como meio, no
outro lado da lente) pode ser considerada neutra: sendo um círculo, ela não
interferirá em nada, pois os raios entrarão perpendicularmente a cada tangente
do círculo, não sofrendo nenhuma alteração.

[52] Toda esta complexidade de
elementos é “dada” pelo próprio problema (ou pelo contexto).

[53] Sob o ponto de vista
histórico, desde há muito tempo que se supunha existir um índice constante de
refração entre dois meios quaisquer. Sob a perspectiva metodológica, essa suposição
é decorrente daquela de que a anaclástica é um fenômeno dado.

[54] A Regra IX sugere a forma
mais simples de compreendermos uma potência natural, ao afirmar que é pelo
movimento local dos corpos, mais especificamente, pelo movimento ao longo de
uma extremidade de um bastão para outra, que compreendemos como uma potência
natural se comunica instantaneamente (402, 9-28). A luz, como dirá a Dióptrica,
“imita” esse movimento.

[55] Esse problema é daqueles
que exigirá, para sua solução, o auxílio do segundo momento do método, exposto
no “Livro II” das Regras. O tratamento localizado de cada problema necessita
de um “enfrentamento” direto e inadiável da “dificuldade”. Isso significa duas
coisas: o seu equacionamento completo e definitivo (isto é, a transformação da
dificuldade em uma “equação”); a sua resolução (isto é, a resolução dessa
equação). A solução completa de um problema (pelo menos, quando complexo)
pressupõe seu desmembramento em outros mais simples, bem como a tratamento
localizado de cada um deles. Em outras palavras, ele se encontra plenamente
resolvido somente quando cada uma das dificuldades tiver sido solucionada e
seus resultados subsumidos ao ordenamento natural de dependência dos objetos e
problemas. Resolver um problema envolve, pois, um tratamento local e um processo
de integração das partes ao todo; solucionar uma questão é resolvê-la
localmente e incorporá-la ao “sistema”.

[56] Por um acaso, ele poderia
pressupor exatamente a relação que determina a anaclástica. Mas, neste caso,
diria Descartes, a este afortunado: “vale mais nunca pensar em procurar a
verdade de alguma coisa que fazê-lo sem método” (371, 14-16).

[57] Os fenômenos ligados à luz
não são fenômenos isolados no universo. Como toda potência natural, a luz se
comporta como um movimento; por sua vez, os objetos que servem de transporte a
ela se comportam como os outros objetos que veiculam outros tipos de movimento.
Importa, pois, depois de tudo, investigar o que há de comum em todos os objetos
que servem de meio ao movimento e o que é, afinal, o movimento em geral.

[58] Isso não significa que esse
exemplo seja a melhor aplicação do método, mas, antes, que ele diga respeito à
investigação mais nobre à qual todo sábio deve se dedicar uma vez na vida. As Meditações o retomam e pode-se dizer que, mutatis mutandis, elas o reconstroem,
inclusive metodologicamente.

[59] Por isso, especialistas como Weber e Gaukroger,
citados acima, pensam que a Regra VIII é composta de partes redigidas em épocas
diferentes.

[60] Na verdade, exemplos como
esses podem ser úteis também para a investigação de problemas científicos, como
é o caso do primeiro dentre esses dois, útil para explicar a ação da luz. Não
há uma arbitrariedade total nos exemplos utilizados no treinamento. Se eles
fossem pura ficção, não poderiam ser úteis à pratica das capacidades naturais da razão. Tais exemplos podem passar a ser mais do que mera ocasião para o
treino.

[61] Assim, estritamente
falando, há somente duas operações, a intuição e a dedução/enumeração. Na
citação dada abaixo, essas duas operações são chamadas de intuição e de
enumeração. Há uma razoável oscilação no vocabulário de Descartes: a intuição é
tanto um ato da mente em si mesmo, quanto a reunião de vários atos em um só; a
dedução pode ser tanto uma operação da mente (por vezes redutível, por vezes
não, à intuição), quanto pode significar algo mais geral como a passagem ou a
explicação de algo a partir de algo diferente; a enumeração pode significar tanto
a dedução irredutível à intuição, quanto qualquer movimento do pensamento sobre
um conjunto de objetos, no sentido de elencá-los, reuni-los, percorrê-los ou
revisá-los.

[62] Se o método, em um sentido
restrito, pode se reduzir às Regras V, VI e VII (ou até às Regras V e VI), sua
boa atuação não dispensa a contribuição das outras. Nas Regras, Descartes
não pretende expor o método tout court, mas uma metodologia viva
e atuante, ciente das dificuldades concretas que encontramos e da necessidade
de inseri-la em uma prática metodológica mais ampla, como se fosse uma atitude
de vida do cientista enquanto tal. Só assim, mais uma vez, pode-se fugir das
receitas prontas e da formalidade estéril e exterior ao conteúdo.

[63] Descartes nomeia essa obra
de “summa Philosophiae”, cuja novidade maior é a forma de exposição e não a
exposição de novos temas (cf. Descartes à Huygens, de 31 de janeiro de 1642
(III, 523, 17); Quartas respostas (VII, 254, 13); Descartes à Mersenne,
de 22 de dezembro de 1641 (III, 465, 66-7)), mas também de “Cours de ma
Philosophie”, por pretender ser um manual, o mais completo possível, para ser
usado nas escolas (cf. Descartes à Mersenne, de 11 de novembro de 1640 (III,
233, 5)).

[64] GARBER (1992, p.
59-60)
sustenta uma posição diferente. Segundo ele, o método das Regras tem como área de atuação somente
a solução de problemas particulares e isolados (“solving individual problems”)
e de antemão dados dentro de um contexto, sendo Descartes um solucionador de
problemas (“problem-solver”), como fora no período em que trabalhara com
Beeckman, mas distanciando-se do Descartes construtor do sistema
(“system-builder”), de 1629 em diante. Para Garber, diferentemente das obras
posteriores (onde os problemas são tratados em função de uma visão de conjunto
e da idéia de sistema), as Regras, por serem anteriores à elaboração do
primeiro “tratado de metafísica”, são alheias à concepção estrutural do
conhecimento, conforme retrata exemplarmente a famosa “árvore da sabedoria”.
Entretanto, ao contrário do que Garber defende, a própria metodologia, enquanto
aplicada a problemas isolados, apresenta como característica a sua capacidade
de “ultrapassar-se a si mesma”, no sentido de sugerir a existência de uma
estrutura comum subjacente aos vários problemas tratados. Tal é o caso da Regra
VI, ao afirmar que as naturezas simples são em número reduzido e são as mesmas
que aparecem no início dos mais diversos encadeamentos dos objetos conhecidos;
mais clara ainda é a Regra XII, quando expõe a teoria das naturezas simples e
compostas e sugere que toda a filosofia natural repousa sobre a sua combinação;
enfim, as Regras fornecem vários exemplos sobre fenômenos naturais diversos,
cuja explicação remonta à combinação das naturezas simples. Garber tem razão em
afirmar que a reflexão metafísica imediatamente posterior ao período das Regras alterou a estrutura do conhecimento e a tornou mais complexa, ao reconhecer à
metafísica a função de fundamento das outras ciências. Mas isto não significa
necessariamente nem uma mudança da metodologia, como ele afirma, nem que o
tratamento apresentado pelas Regras deva ser reduzido à aplicação da
metodologia a problemas isolados.

[65] A partir dos anos 30
(1630), fica cada vez mais clara a concepção estrutural do conhecimento para o
autor. Cf., por exemplo, Descartes a Mersenne, de 10 de maio de 1632 (I, 250,
21-251, 4); Mundo (XI, 47, 10-28); Discurso (VI, 63, 30-64, 13).
Apesar dos problemas que algumas dessas passagens (ou sua continuação)
apresentam, é claro o modelo ideal de ciência perseguido por Descartes. Os
problemas existentes são somente de ordem factual, por ocasião da constituição
do saber. Esse modelo culmina na famosa “árvore da sabedoria” (IX-2, 14, 23-31)
e no modelo da “scientia perfectissima” (cf. os Princípios, Parte I,
Art. 24 (VIII, 14, 13)).

[66] Diz Descartes: “Segue-se
que se pode dizer que estas proposições, que se concluem imediatamente a partir
dos primeiros princípios, são conhecidas, de um ponto de vista deferente, seja
por intuição, seja por dedução, mas que os primeiros princípios são conhecidos
semente por intuição e, pelo contrário, as conclusões distantes só o podem ser
por dedução” (370, 9-15). Existem outras alusões (parciais) a esse modelo: cf.
Regra III (369, 23-26); Regra VII (387, 14-17; 388, 11-12); Regra IX (401, 23-26);
Regra X (405, 17-20).

[67] Alguém poderia tentar
justificar a presença dessa tese da unidade do saber, apoiando-se na idéia,
exposta na Regra I (360, 7-10), de que as ciências são todas unidas entre si.
Essa tese da unidade, entretanto, é aí exposta somente a partir da perspectiva
de seu sujeito constituinte, sem levar em consideração a relação entre as
próprias ciências ou, mesmo, entre um conhecimento e outro.

[68] A teoria das operações
mentais parece sugerir esse modelo do simples para o complexo não só à
estruturação do conhecimento, mas também à sua forma de conquista. Se alguns
conhecimentos são, de fato, adquiridos dessa forma, questões ligadas à
“situação epistêmica” dentro da qual se encontram sujeito e objeto, entretanto,
inviabilizam sua aplicação, pura e simples, ao processo de aquisição do
conhecimento científico de um modo geral. Não há nisso um rompimento com a
dependência natural existente entre os objetos do conhecimento; há somente
distinção entre os procedimentos de produção do conhecimento e a sua ordem de
exposição, segundo sua dependência interna, bem como a necessidade de estratégias
complexas, no primeiro caso, que respondam a situações concretas e reais (alheias
às exigências expositivas), dentre as quais está a que diz respeito à própria
descoberta dessa mesma dependência.

[69] Há, nesse sentido, uma
semelhança estrutural entre o procedimento da síntese e a posterior organização
do conhecimento adquirido, não havendo nada de arbitrário nesse deslocamento
progressivo que ocorrerá no interior do pensamento cartesiano, quando a
síntese, rigorosamente, deixará de ser a segunda etapa do método e passará a
significar exclusivamente o procedimento expositivo do conhecimento
anteriormente adquirido. Essa semelhança entre o procedimento de síntese
(enquanto parte do método) e a posterior exposição dos resultados da
investigação científica é tanto no que diz respeito à estrutura, quanto no que
se refere à pressuposição de que o conhecimento (ou, pelo menos, seus passos
fundamentais) já deva ter sido produzido pelo procedimento da descoberta.

[70] A Regra XII não pode ser considerada o resumo ou a
conclusão do “Livro I” sob a perspectiva metodológica, mas somente sob o ponto
de vista epistemológico. Nessa regra, Descartes trata, por exemplo, das naturezas
simples, de sua divisão em intelectuais, materiais e comuns, etc., mas não
trata do problema de sua descoberta e dos procedimentos aí utilizados. Assim,
ainda que as naturezas simples sejam conhecidas por si mesmas e independentemente
das demais, isso não significa que, metodologicamente, elas não devam ser
descobertas em meio a essas outras ou a partir da composição que elas dão
origem.

[71] Como foi afirmado acima, a
intenção de Descartes, segundo principalmente a Regra XII, era escrever uma
obra composta por três partes, cada uma com doze regras. Mas a obra só contém
vinte e uma, sendo que das últimas três só consta o enunciado. O “Livro I”
(Regras I a XII), conforme a mesma fonte, se propõe apresentar o método de uma
forma geral e a mais simples possível, cujo resultado seria a conquista de
“proposições simples”; o “Livro II” (Regras XIII a XXI) pretende analisar o que
Descartes chama de “questões perfeitas” e como aí se aplicaria o método; o
“Livro III” (do qual nada está escrito) consistiria na análise das “questões
imperfeitas” e na possibilidade de torná-las perfeitas.

[72] A primeira indicação dessa
divisão se encontra, é verdade, no final da Regra VIII (399, 13-21). Há outras
indicações passageiras ao longo do “Livro II”. Entretanto, é aceito comumente
que essa parte da Regra VIII representa mais uma antecipação ou uma primeira
elaboração de temas da Regra XII que o reconhecimento por parte do “Livro I”
dessa divisão. Independentemente da data de elaboração dessa “seção” da Regra
VIII, parece correto sempre relacioná-la com a Regra XII. Mesmo que esta última
regra também pertença ao dito “Livro I”, ela, de alguma forma, está também
“entre os dois” e faz a ligação ou é a ponte entre ambos.

[73] Assim, uma intuição,
absolutamente e instantaneamente, ocorre ou não ocorre; ela, portanto, não pode
ser deduzida (extraída) de algo. Uma proposição simples é produto de uma
intuição: se nela pensarmos, já a temos totalmente; se nela não pensarmos, não
podemos procurá-la (investigá-la), pois não temos idéia alguma dela.

[74] Apesar disso, não se pode
deixar de reconhecer que a metodologia do “Livro I” apresenta uma certa
duplicidade ou ambigüidade. Seu objetivo principal é, sem dúvida, a conquista
das proposições simples. Entretanto, o autor privilegia, por vezes, a sua
descoberta no interior de um conjunto de “elementos” dados, de uma
complexidade, portanto, enfatiza o seu processo completo de aquisição; mas, em
outras ocasiões, privilegia seu estágio final ou mesmo os casos onde sua
intuição se dá imediatamente (pois há que reconhecer que nem todas as
proposições simples devem ser conhecidas a partir das complicadas; nada impede
que se possa, e, nesse caso, não há razão para complicar as coisas, intuir
objetos ou proposições simples sem o auxílio do aparato completo do método, já
que este último é um prolongamento das capacidades naturais de conhecer). Essa
duplicidade não é, contudo, comprometedora: ela revela a complexa relação,
desenvolvida acima, entre as operações da mente e o seu treinamento (onde o
privilégio do simples se traduz como ponto de partida: deve-se começar com a
intuição e com os problemas mais simples), por um lado, e o duplo procedimento
do método (onde o privilégio do simples se traduz como ponto de chegada da primeira
etapa), por outro. O privilégio do simples respeita a “conexão e a ordem
naturais” das coisas (382, 13-14) e a natureza da racionalidade humana; a
duplicidade dos procedimentos respeita a situação na qual se encontra o sujeito
conhecedor e o que a ele é dado imediatamente (problemas, fenômenos, enfim,
situações complexas).

[75] Na Regra VI, vale a pena
ser lembrado, os objetos absolutos e relativos têm importância e função
voltadas para a resolução de questões e não para a conquista de proposições simples.

[76] Assim, como o método
apresentado no “Livro I” já contempla o tratamento das questões, o “Livro II”
não apresenta algo absolutamente novo, mas um aprimoramento ao método apresentado.
Nestes termos, é possível ter uma posição mais favorável à unidade metodológica
das Regras e ver na obra uma visão única, ainda que com constantes
reavaliações de alguns de seus pontos.

[77] Descartes, por exemplo, na
Regra XIV, diz que é por comparação de A e B com C que se
deduz “todo A é C” a partir de “todo A é B” e “todo B é C” e não por uma relação proposicional apoiada sobre a
validade formal do raciocínio (439, 21-24).

[78] O exemplo mais claro da
presença destes três elementos é, sem dúvida, uma equação matemática, conforme
a simbolização do próprio Descartes: assim, a equação x²+ax=b² apresenta
a dependência (relação de igualdade, ao lado das operações de soma e de multiplicação)
entre o elemento desconhecido x (e seu composto) e os elementos
conhecidos a e b (e seu composto). Mas uma equação não é
um bom exemplo de uma questão, pois, como mostra a Geometria, ela é
antes parte da resolução de uma questão. Assim, fará parte da solução de uma
questão explicitar e arranjar estes três elementos, quando não postos explicitamente.

[79] Este problema da pedra-ímã
é também examinado na Regra XII (427, 10-26). Ele acaba por se constituir em um
bom exemplo metodológico das Regras. O segundo caso citado por Descartes
trata na natureza do som e de sua relação com o comprimento das cordas, sua
espessura e tensão. Sobre esse problema estudado principalmente por Mersenne, cf.
MARION (1977, p. 319-22, Anexo V).

[80] Mas, então, a possibilidade
da transformação de todas as questões imperfeitas em perfeitas não acaba
desfazendo a própria distinção entre elas? Não. A distinção parece se manter,
uma vez que a falta de alguma “determinação” por parte das questões imperfeitas
pode até ser suprida, como o exemplo acima mostrou, mas não sem conceder
algumas perdas em seus resultados. Por sua vez, mesmo as questões perfeitas,
sendo “completamente determinadas” (431, 4-5), não têm sempre à mão todos seus
elementos constituintes, pois, do contrário, não haveria necessidade de
livrá-las de tudo o que é supérfluo, reduzi-las à sua forma mais simples e
dividi-las em partes.

[81] Uma vez reduzida a
dificuldade à sua forma mais simples, a sua resolução consistirá na comparação
entre as grandezas. A Regra XIV é aqui antecipada, de uma forma condensada,
pela Regra XIII.

[82] Essas observações recuperam uma das funções da
enumeração e das constantes revisões, conforme foi visto acima e a exemplo do
que também diz a quarta regra do Discurso. Mas o valor da enumeração e
recapitulação é constante (cf. itens b e c).

[83] Tal foi o caso da anaclástica. Se quiséssemos
resolvê-la efetivamente, cada passo se constituiria em um subproblema cujo
equacionamento exigiria muito mais do que a atuação daqueles princípios gerais.

[84] Para as questões simples, a
Regra XIII é praticamente suficiente. Pois, como dirá a Regra XIV, as
“comparações simples” não necessitam de nenhum auxílio da arte, mas apenas das
luzes naturais da razão. As comparações se dizem simples quando “o que se
procura e o que é dado participam igualmente de uma certa natureza”; elas são
assim resultado do exame e do processo de compreensão da questão, conforme
expostos na Regra XIII.

[85] Em sua parte final, a Regra
XIII parece reconhecer seus limites e a necessidade de uma outra regra. Diz
ela: uma vez isolada a “dificuldade em sua nudez” (437, 24), tarefa que lhe
cabe, é esta dificuldade “que é preciso investigar” (438,1-2) e enfrentar
diretamente.

[86] Tal é a prática daqueles
que multiplicam os entes para explicar os fenômenos naturais. Essa prática,
além de nada explicar por simplesmente jogar mais adiante a dificuldade, não
respeita a essência mesma de uma questão, uma vez que já “contém”
potencialmente sua solução. Ou se admite isso, ou o conhecimento, além da pura
intuição, é impossível.

[87] A mesma conclusão é
extraída na Regra XII, logo em seguida da citação dada acima: “os conhecimentos
das coisas não devem ser vistos como mais obscuros uns do que os outros, já que
todos são da mesma natureza e consistem apenas na composição de coisas
conhecidas por si mesmas” (427, 27-428, 2; itálico acrescentado).

[88] A ocorrência do temo “comparatio” é alta: “per
simplicem comparationem”; “per comparationem”; “comparantur inter se quaesitum
et datum”; “per compartionem duorum aut plurium inter si”; “comparationes dici
tantum simplices et apertas (…); caeteras autem omnes” (439, 17; 20; 22-23;
440, 4-5; 10-13).

[89] É interessante observar,
aqui, que Descartes divide em duas as formas de aquisição do conhecimento: a
que se baseia na intuição imediata, pura e simplesmente, e que não tem necessidade
de método algum; a que se baseia na comparação, sobre a qual recai a tarefa do
método. Essa duplicidade recupera e modifica a divisão anterior entre os
conhecimentos obtidos pelas operações mentais tout court e aqueles
resultantes da atuação do método.

[90] Tanto na Regra V (379, 22),
quanto na Regra XIV, em duas ocasiões (440, 5-6; 17), Descartes afirma que
quase toda a “indústria humana” consiste, respectivamente, seja no duplo
procedimento de análise e síntese seja na operação de comparação entre os
objetos. A unidade das Regras repousa, definitivamente, sobre a
possibilidade de equiparar ou de conciliar o método de análise e síntese e o
procedimento de comparação.

[91] Mais adiante, o autor é
ainda mais enfático: “mas supomos que todas as questões foram deduzidas a tal
ponto que nada mais se procura a conhecer a não ser uma certa extensão,
comparando-a com outra conhecida. Como, efetivamente, não estamos à espera do
conhecimento de um novo ser, mas só queremos reduzir as proporções, por
complicadas que sejam, ao ponto em que o desconhecido se equipare a algo de
conhecido, é certo que todas as diferenças de proporções encontradas em outros
sujeitos podem também encontrar-se entre duas ou várias extensões” (447, 8-18).

[92] Tal é o caso da “queda de
um corpo”, proposta a Descartes por Beeckmann em 1618 (X, 58-61; 75-78;
219-220).

[93] Sobre a relação entre as últimas Regras das Regras e a Geometria, cf., p. ex., ISRAEL (1990).

[94] Essa regra garante, por meio da notação, a distinção
entre grandezas conhecidas (a, b, c …) e desconhecidas (A, B, C …), bem como apresenta os seus benefícios – economia de
palavras, auxílio à memória, clareza, simplicidade e generalidade.

[95] Diz a Regra: “totum hujus loci artificium consistet
in eo quod, ignota pro cognitis supponendo, possimus facilem et directam
quaerendi viam nobis proponere, etiam in difficultatibus quantumcumque
intricatis” (460, 20-23).

[96] Além dos conhecimentos
adquiridos por intermédio do método, há que admitir aqueles em que as operações
mentais são suficientes, tais como em raciocínios matemáticos extremamente
simples. Nesses casos, o método não é (conscientemente) utilizado.

[97] Vale notar a dificuldade de se saber o que é o
simples e se ele é independente ou não do problema em exame.

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