Resenha do livro, Ética e finitude de Zeljko Loparic
Resenha do livro, Ética e finitude de Zeljko Loparic
LOPARIC, Zeljko. Ética e finitude. Campinas: Escuta, 2004.
Roberto S. Kahlmeyer-Mertens[1]
A comunidade acadêmica de filosofia já dispõe da 2ª edição revisada e ampliada do livro Ética e finitude. O trabalho, assinado pelo Professor Zeljko Loparic, é contribuição relevante não só àqueles que buscam pensar a ética na contemporaneidade, mas aos que se ocupam em tratar de seus desdobramentos no pensamento de Heidegger.
O ensaio, com enfoque autoral, toma questões persistentes e apresenta uma contextualização do problema da ética em face da crise de sua compreensão tradicional, deteriorada a ponto das noções centrais de dever e agir apontarem para pontos diversos dos seus significados primeiros. Como comenta o autor,
O dever virou sinônimo de obediência à realidade dos fatos e aos acordos sociais, perdendo o sentido nobre de moralidade incondicional ou de compromisso histórico inarredável. Agir não significa mais ‘fazer o bem’ ou ‘fazer história’, mas de maneira crescente, agir planejadamente. Dos fragmentos da ética da perfectibilidade surge a engenharia social. (LOPARIC, 2004, p.10)
Com um itinerário bem definido, que demarca um diálogo daquilo que chamamos de ética finitista com a ética em sentido estrito, o trabalho aborda os princípios fundamentais desse tema tais como encontrado em Kant e na infinitude possível de ser tratada neste filósofo. Adiante, fala da finitude em Heidegger estabelecendo um diálogo com o primeiro autor. Loparic ainda comenta aquilo que chamou de “desconstrução existencial-ontológica das éticas infinitistas” e, em face desta última, do habitar num mundo que se constrói existencialmente por meio do projetar-se à auto-realização.
Presenciamos no Capítulo I o retrato da referida crise, com a definição lúcida de conceitos fundamentais da filosofia. A ocasião é propícia para recordar que (do mesmo modo que a metafísica, entendida como o esforço incondicional de determinar o ser em sua verdade) a ética é um fenômeno grego e análogo no anseio por estabelecer algo de durável e regular nas verdades e causas de todo agir. Este esclarecimento possui contraponto em comentário feitos em citações de Karl Löwith, aluno de Heidegger, que dedicou parcela significante de sua obra a pensar a ética.
Loparic observa que Löwith, em um escrito dedicado ao mestre, ressalta que a distinção entre o mundo da natureza e o mundo da história não acontecem no Oriente, por exemplo no Japão. Em vista disso, Löwith endossa que tradições como a ética e a metafísica teriam origem no pensamento grego e repercussão no judaico; não se apresentando no resto do Oriente.
Ainda presenciamos avaliações acerca de uma ética infinitista e a tentativa de articular esta ética voltada ao existente com o projeto anunciado no §6 de Ser e tempo (1927), que anuncia uma Destruição da história da ontologia. Ambas estariam implicadas no que tange a transcendência constitutiva do ser humano e sua destinação histórica. O final deste primeiro Capítulo conta como uma meta-teoria na qual o autor antecipa os próximos passos dados no seu livro, o que só faz confirmar a clareza no direcionamento de seu argumento.
O Capítulo II, explicação dos princípios tradicionais envolvidos em uma ética, conta com elucidações preciosas de noções do universo conceitual de Heidegger. A longa nota de rodapé da página 20, apresenta uma das mais claras definições de “Dasein” que se conhece, conseguindo mais precisão do que àquelas dadas nos escritos de autores que já são referência, como Richardson (1967) e Inwood (2002).
Em certas horas a linguagem usada pelo autor oferece resistências por causa de certas afetações acarretadas por neologismos (como “quadrindade”, “presentidade”) perfeitamente dispensáveis e substituíveis pelos recursos disponíveis no vernáculo; fazendo com que, também Loparic, mereça a qualificação de gauche, que atribui terminologia usada por Heidegger. Esta crítica, mais que em nome de um purismo ou um beletrismo, vem como exigência de clareza aos comentários sobre o pensamento de Heidegger, que muito sofre com o jargão instituído que quase constituí um idioma paralelo, afastando possíveis interessados no autor.
Contudo, é preciso reconhecer que uma dessas inovações é feliz. A tradução de “Dasein” por “ser-o-aí”, oferece uma boa solução ao impasse entre manter o termo em alemão, sem tradução; traduzir literalmente, como fazem quase todos os autores de língua latina; e a versão interpretativa de “presença”, adotada por alguns tradutores brasileiros. Com ser-o-aí, nos aproximamos do sentido do que essencialmente está em jogo na experiência de Dasein, a saber: uma transcendência à abertura de ser, sempre e a cada instante aí. A tradução, feita per analogiam à noção de ser-no-mundo, nos vinca a existência do ser-aí como ente que é no aí, no mundo e em situações existenciais.
Outros conceitos caros ao pensamento de Heidegger são elucidados no texto de Loparic, é o caso de lógos, cuidado e mundo. Este último em formulação irretocável: “Mundo é nossa morada de todos os dias, a pousada em que acontecemos entre o nascimento e a morte. É a partir dele que nós nos entendemos de início e na maioria das vezes.” (LOPARIC, 2004, p. 22)
Também as notas de rodapé devem ser destacadas. Pois assumem caráter substancial, sendo complemento valioso ao ensaio. Nelas, além de esclarecimentos, explicações e indicações bibliográficas, vemos o aceno para possíveis desdobramentos da questão em pauta. São estas iniciativas que permitem ao livro uma boa imersão no pensamento de Heidegger.
A partir do Capítulo III, conferimos aquilo que poderíamos chamar de mergulho na pré-história da ética infinitista. O autor traça um itinerário no qual o conceito de ética é tratado de maneira rigorosa em suas bases histórico-filosóficas de Kant à ética da finitude como presumimos poder encontrar em Heidegger. Este trajeto não se faz sem tocar as questões agitadas pelo encontro de Heidegger e Cassirer em Davos (1929). Loparic no Capítulo V de seu livro faz um balanço geral da disputa entre ambos enfocando a ideia de uma ética. É claro ao apontar o posicionamento interpretativo dos dois autores e ao concluir que
a tentativa do primeiro Heidegger de assimilar o projeto kantiano da razão prática à sua crítica do infinitismo não resiste às tensões conceituais que gera. O próprio Heidegger admitirá, mais tarde, que, na verdade, essa sua tentativa de interpretar Kant tomando-se por base Ser e tempo introduz um modo de perguntar que permanece estranho a este filósofo, embora ‘condicione’ seu pensamento. (LOPARIC, 2004, p. 51)
Nos demais Capítulos que nosso autor vai dar desdobramento a sua tese central, quando anuncia a “Desconstrução existencial-ontológica das éticas infinitistas”, momento no qual comenta o modo com que Heidegger entende a metafísica em face do caráter de presença por si subsistente do modo com que os problemas da ética são tratados, ao reforçar que “o fundamento último da comunhão entre a ética e a metafísica é a origem comum e a mesma relação com a finitude.” (LOPARIC, 2004, p. 54)
Em diversos momentos o autor se aproxima do tema do cuidado. Isto nos faz crer que não seria incorreto afirmar que uma ética finitista, que tem como base a existência de ser-o-aí em face de seu ser-para-a-morte, teria a ver com a dinâmica do cuidado. Cuidado em Ser e tempo é apontado por Heidegger como o modo de ser da existência de ser-o-aí. Daí, cuidar por ser sempre em suas circunstâncias no mundo junto aos entes e com os demais seres-aí, já abrigaria uma compreensão de ética, contudo, uma ética bastante diferente daquela entendida como busca do bem, ou normatização do comportamento para o reto agir, produto de uma razão prática. Na ética Heideggeriana não haveria prazeres a buscar, bens a conquistar, normas a seguir, mas a exigência por auto-realizar-se em face do chamamento do próprio ser que se conforma em mundo. Assim, para Loparic (2004, p. 63) mesmo os conceitos de dever e agir seriam pensados diferentemente em obras como Ser e tempo, significando “deixar surgir o ente casual na situação do momento”.
Cuidado não significa, então, a racionalização da existência e seu gerenciamento orientado por normas; nem a aproximação de outrem de modo a dominá-lo, socializá-lo inserindo-o em padrões típicos da coletividade; tampouco um alento em face da finitude sempre iminente do ser-para-a-morte que cada um somos. Trata-se do modo do ser-o-aí operar a própria existência reconhecendo-se finito a cada instante, existente a cada instante e fundado em bases existenciais (só assim é possível falar de um imperativo ético neste sentido); afirmando-se, igualmente, a cada instante em que se é-o-aí.
O texto de Loparic demarca um pensamento que, se baseando em Heidegger, caminha dando passos firmes para uma reflexão autônoma e denota vigor em sua visada interpretativa; ingredientes que entendemos indispensáveis ao fazer filosófico. Em seu prefácio, o autor anuncia um novo texto tratando dos temas ética e finitude, cuja extensão é maior. Isto testemunha a viabilidade, relevância e inesgotabilidade do tema no universo conceitual do filósofo alemão.
Referências Bibliográficas:
- HEIDEGGER. M. Sein und Zeit. 17. ed. Tübingen: Max Niemeyer, 1993.
- FIGAL, Günter. Martin Heidegger: Fenomenologia da liberdade. Trad. Marco Antonio Casanova. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005.
- KAHLMEYER-MERTENS, R. S. Filosofia Primeira: estudos sobre Heidegger e outros autores. Rio de Janeiro: Papel Virtual, 2005.
- RICHARDSON, W, J. Through Phenomenology to Thought. 2ª ed. The Hague: Martinus Nijhoff, 1967.
[1] Doutor em filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, autor de Heidegger & a educação.
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