Consciência - Filosofia e Ciências Humanas

Roma Antiga: Biografia de Catão, o Censor – Plutarco – Vidas Paralelas


«Anterior |

XL. Mas, além disso, é enaltecido por haver sido bom pai para com seus filhos, bom marido para sua mulher e bom administrador sabendo governar e fazer aproveitar seus bens, pois não considerava coisa sem importância aquilo que não se devia fazer muito caso e ser encarado como passatempo somente; portanto não estará fora de propósito, a meu ver, contar aqui algumas palavras que possam servir para a matéria presente. Primeiramente desposou uma mulher mais nobre do que rica, sabendo muito bem que uma e outra seriam orgulhosas e altivas, mas considerou êle também, que essas que são originárias de sangue nobre, têm mais vergonha das coisas desonestas do que as outras, sendo por isso mais obedientes aos seus maridos nas coisas razoáveis e honestas. Em suma, dizia: — "Aquele que bate em sua mulher ou em seu filho, comete um grande sacrilégio, como quem violaria ou pilharia as coisas mais santas que existem no mundo"; considerava ser maior elogio a um homem ser bom marido do que bom senador; por essa razão não encontrou nada mais louvável na vida do antigo Sócrates do que sua paciência sendo sempre humano e delicado com sua mulher que tinha tão má cabeça, e seus filhos tão desmiolados.

XLL Depois que sua mulher lhe deu um filho, não havia negócio urgente, nem mesmo para o Estado, que não deixasse, para ir à casa na hora em que sua mulher lavava e trocava seu filho, pois ela o alimentava com seu próprio leite e muitas vezes ama-mentava os filhinhos de suas escravas, a fim de lhes incutir uma caridade e amor natural para com seu filho, por serem alimentados juntos e com o mesmo leite. Quando seu filho atingiu a idade da razão, e de  ser  capaz  de  aprender,  êle  mesmo  ensinou-lhe as letras, enquanto que um escravo chamado Quilon, homem honesto e bom gramático ensinava-lhe outras matérias, mas como êle mesmo diz, não queria que um escravo discutisse cem seu filho nem que lhe puxasse a orelha, quando acontecia não aprender prcntamente o que lhe ensinava, não querendo que seu filho se tornasse devedor a um escravo por uma tão bela e tão grande coisa como a êle por lhe ter ensinado as letras. Em vista disso, ensinou-lhe a gramática, as leis, a esgrima, não somente atirar o dardo, brincar com a espada, girar, esporear os cavalos e manejar todas as armas, mas também combater a golpes de punho, suportar o frio e o calor, passar a nado a correnteza de um rio impetuoso e inflexível. Diz-se ainda mais que compunha e escrevia de próprio punho belas histórias em letras grandes para que seu filho, desde a casa de seu pai, conhecesse as pessoas de bem dos tempos antigos, seus feitos virtuosos, formando, a exemplo deles, sua vida para melhor servir. Diz-se que tinha grande cuidado em não pronunciar palavras feias e grosseiras na presença de seu filho, como se fosse diante das religiosas vestais. Nunca se banhava com êle, embora fosse uso comum entre os romanos, pois mesmo os genros não se banhavam com seus sogros e tinham vergonha de se despir uns na frente dos outros. Desde que aprenderam com os gregos a se banharem nus com os homens, estes os ensinaram também a se despir e banhar-se nus mesmo com as mulheres.

 

XLII. Ora, não faltavam bons propósitos ao filho de Catão, que desejava fazer o que fosse digno de nota, formando-os pelos moldes da virtude perfeita, pois tinha o coração tão bom, que procurava fazer tudo que seu pai lhe mostrava, mas tinha o corpo por natureza tão débil e tão fraco, que não podia suportar grande trabalho; por essa razão seu pai afrouxava um pouco a rija e apertada austeridade e regra de vida que pessoalmente observava. No entanto, mesmo sendo de natureza débil e de compleição pequena e fraca, não deixava de ser homem corajoso e cumprir muito bem seu dever na guerra, pois comba^ teu corajosamente na batalha em que Perseu rei da Macedônia foi derrotado por Paulo Emílio, ocasião em que a espada, voando dos punhos por um grande golpe que recebera sobre a mão que estava suada, ficando muito descontente, solicitou a alguns de seus amigos que o ajudassem a encontrá-la e todos juntos atiraram-se sobre os inimigos no lugar onde a espada havia caído; lutaram tanto que fenderam o aperto e clarearam o lugar, onde por fim a encontraram com grande custo, porque já estava coberta por um monte de outras armas e de mortos, tanto dos romanos como dos macedônios, empilhados uns sobre os outros. O general Paulo Emílio, tomando conhecimento deste ato, elogiou e deu grande valor ao jovem, encontrando-se ainda, hoje em dia, uma carta de Catão a seu filho na qual o elogia e enaltece com muito apreço por este ato de bravura e aquela diligência em recuperar sua espada. Depois disso, o jovem Catão desposou uma das filhas de Paulo Emílio, irmã do segundo Cipião, que se chamava Tércia, e foi recebido como parente nesta nobre casa, não menos pela sua própria virtude como pela dignidade e austeridade de seu pai e assim o estudo, o sacrifício e o cuidado que teve Catão em instruir seu filho, terminaram como mereciam.

XLIIÍ. Catão tinha sempre grande número de escravos que comprava, pequenos e novos, quando vendiam os prisioneiros de guerra em leilão, esco-Ihendo-os bem jovens, porque estavam ainda na idade de se acostumarem com a alimentação que se lhes quisesse dar, sendo mais fáceis de domar, como os potros e os cachorrinhos. Mas nenhum de todos os que possuía, entrou nunca na casa de alguém, a não ser que Catão ou sua mulher o enviassem. Se lhes perguntavam o que Catão fazia, respondiam apenas: não sei. Sendo preciso, quando estavam em casa, faziam alguma coisa necessária ou então dormiam, pois gostava muito dos que dormiam à vontade, considerando que os escravos que gostam de dormir são sempre os mais maleáveis e que faziam melhor o que desejavam do que aqueles que estavam sempre despertos, sendo de opinião de que o que incitava os escravos a empreenderem e praticarem as maiores maldades era satisfazerem sua volúpia com as mulheres; ordenou que os seus poderiam ter a companhia das escravas de sua casa mediante um preço que lhes taxou, com a proibição expressa de não ter negócio com qualquer outra mulher fora de sua casa.

XL1V. No início, quando se pôs a seguir as armas, não sendo ainda rico, não se enfurecia nunca pela falta que cometiam seus servidores com o serviço em sua presença, dizendo que achava isto feio, não adequado a uma pessoa de honra bater e discutir com seus servidores por causa de seu estômago, mas desde que seus bens aumentaram e sua situação melhorou, se porventura festejava seus amigos ou seus companheiros, incontinenti após a refeição, castigava e chicoteava até esfolar, os que faltavam em servir a mesa ou oferecer alguma coisa que fosse. Procurava sempre por maneiras sutis que houvesse desavenças e altercações entre eles, pois tinha sua amizade e concórdia por suspeitas, receando-as. Se porventura algum cometia algum ato digno de morte, fazia seu processo na presença de todos os outros, depois era condenado, fazendo-o morrer também diante de todos eles.

XLV. Mas no fim, tornou-se um tanto rude e muito ardente em adquirir bens, abandonando o trabalho da terra e dizendo que a agricultura era mais para maior prazer do que para grande proveito. Em vista disso, para que seu dinheiro ficasse mais seguro e com renda maior.e mais certa, pôs-se a comprar os lagos e reservatórios de água, bacias naturais de água quente, praças apropriadas para o trabalho dos pisoeiros, terras onde houvesse pastagens, matas  de corte e de madeiras de lucro eventual, de onde recolhia grandes somas todos os anos, dizendo por isso, que Júpiter mesmo não poderia diminuir a sua renda. Ainda mais, emprestava seu dinheiro a juros e ainda a juros marítimos, que é a taxa mais reprovável e a mais censurada, porque é a mais excessiva; fazia-o desta forma, porque queria que aqueles que emprestavam seu dinheiro para traficar no mar, associassem outros mercadores com eles, até o número de cinqüenta, tendo outro tanto de navios, entrando então na sociedade só em uma parte, a qual era manejada por um de seus escravos libertos chamado Quintião, que era assim seu corretor, navegando e traficando com os outros parceiros da sociedade aos quais emprestara seu dinheiro a juros. Desse modo, não confiava todo seu dinheiro à sorte, mas sim uma pequena parte somente, retirando um lucro bem grande da sua usura. Ainda mais, emprestava dinheiro também a seus próprios escravos que desejavam comprar outros escravos jovens, aos quais ensinavam e preparavam para qualquer serviço a expensas mesmo de Catão, revendendo-os no fim de um ano. Catão retinha vários para si próprio, dando e deduzindo tanto como se fosse o que melhor oferecia. Para incitar seu filho a fazer assim render seu dinheiro, êle lhe dizia: — que não era ação para um homem de coragem diminuir seu patrimônio, mas antes ação de uma mulher viúva; mas, ainda, era sinal de natureza violenta e pior do que a avareza, ter a coragem de dizer que era homem divino e digno de louvor imortal, aquele que, por sua indústria, aumentasse de tal jeito suas posses que o acessório que fosse anexado, subisse mais do que o principal que recebera e herdara de seus pais.

XLVL Ainda há mais. Estava já bem avançado, no declínio dos anos, quando Carneades, filósofo da seita acadêmica e Diógenes, o Estóico, vieram de Atenas como embaixadores à , para obter o perdão e indulto de uma multa (52) de quinhentos talentos, a qual o povo de Atenas havia sido condenado à revelia, à falta de comparecimento, por sentença dos sicionianos, a instância e solicitação dos oropianos. Logo que chegaram esses dois filósofos à cidade, os moços romanos, que estimavam o estudo das letras, foram saudá-los e visitá-los, tendo-os em grande consideração depois de os ter ouvido, mesmo Carneades, cuja graça no falar e força em persuadir o que desejava, não era menor do que a importância que lhe davam, mesmo quando discorria diante do grande auditório, em presença de assistentes que não cometiam a maldade de calar seu elogio, encheu toda a cidade como se fosse um vento que fizesse esse barulho aos ouvidos de cada um, que chegara um homem grego sabendo maravilhas, o qual, por sua eloqüência, atraía e levava todo mundo para onde queria; não falavam de outra coisa pela cidade porque havia impresso no coração dos jovens romanos  um tão grande e tão veemente desejo de saber, pondo abaixo todos os outros prazeres e exercícios, que não queriam mais fazer outra coisa senão estarem disponíveis para a filosofia como se fosse alguma inspiração divina que a isso os instigasse, de tal modo que os outros senhores romanos estavam bem sossegados e tinham prazer em ver a juventude aplicar-se ao estudo das letras e disciplinas gregas e conviver com esses dois grandes e excelentes personagens.

 

(52)   Trezentos mil escudos.   Amyot.

 

XLVII. Marcos Catão, porém, desde o início, quando as letras gregas começaram a ter entrada e serem estimadas em Roma, ficou descontente, receando que a juventude mudasse inteiramente sua afeição e seu estudo, abandonasse a glória das armas e do bem-fazer, pela honra de saber e bem-dizer; ainda mais quando viu a consideração e fama desses dois . personagens crescendo sempre, cada vez mais, de tal jeito, que Caio Aquílio, um dos primeiros homens do senado havia reclamado e solicitado para ser seu intérprete, para traduzir seus primeiros discursos, deliberou reenviá-los para fora da cidade debaixo de alguma capa de aparência honesta; um dia em pleno senado reprimiu os magistrados que retinham tanto tempo esses embaixadores sem os despachar, mesmo levando em conta que eram homens que podiam persuadir facilmente e fazer crer o que queriam e quando não teria outro motivo, só por isto deviam desconfiar alguma coisa sobre o fato de sua embaixada e recambiá-los em suas escolas para disputar com os meninos da Grécia e deixar os dos romanos aprenderem a obedecer as leis e aos magistrados de seu país, como anteriormente.

XLVIII. Ora, fazia isso, não porque tivesse alguma inimizade particular contra Carneades, como alguns pensaram, mas porque geralmente odiava toda filosofia e pela ambição desprezava as musas e as letras gregas, visto que dizia: — "O antigo Sócrates não era senão um’ conversa dor e um sedicioso, procurando pelos meios que lhe eram possíveis, usurpar a tirania e dominar no seu país, pervertendo os costumes e os hábitos, atirando seus concidadãos a opiniões contrárias às leis e costumes antigos". Criticando a escola de Isócrates, que ensinava a arte da eloqüência, dizia: — "Seus discípulos envelheciam em sua casa, para irem depois exercer sua eloqüência e litigar suas causas no outro mundo diante de Minos, quando estivessem mortos". Para divertir e causar aversão de seu filho ao estudo das letras e disciplinas gregas, dizia-lhe dando mais força e engrossando sua voz o quanto podia sua velhice, como se por inspiração divina houvesse pronunciado alguma profecia: – "Todas e quantas vezes os romanos se aplicarem às letras gregas, perderão e estragarão tudo". Todavia o tempo mostrou que esta difamação e maledicência era vã e falsa, pois nunca a cidade de Roma floresceu tanto, nem o domínio de Roma foi tão  grande,  como quando as letras  e a ciência gregas ali estiveram em honra e apreço.

XLIX, Mas em Catão não era somente o ódio que sentia pelos filósofos gregos, mas tinha também por suspeitos aqueles que professavam a medicina em Roma, pois havia ouvido ou lido a resposta que deu Hipócrates quando o rei da Pérsia mandou chamá-lo, mandando oferecer-lhe grande soma de ouro e de prata se quisesse servi-lo, quando jurou que jamais serviria aos bárbaros, levando em conta que eram inimigos naturais dos gregos. Catão afirmou que isto era um juramento que todos os outros médicos juravam igualmente; por essa razão ordenou muito particularmente a seu filho que fugisse de todos igualmente, dizendo* que havia feito um pequeno tratado de medicina, pelo qual curava os de sua casa quando adoeciam e os conservava quando estavam com saúde. Não os proibia nunca de comer, mas os alimentava com verdura e com algumas carnes leves, como patos, pombos e lebres; pois tais carnes, dizia êle, são boas para os doentes e fáceis de digerir, exceto aquelas que fazem sonhar e variar aos que as comem, jactando-se de que com esse regime e esta maneira de medicar, sempre se conservou são, tendo também preservado seus empregados com saúde.

L. Todavia, parece-me que não fazia tudo aquilo pelo qual se vangloriava, pois perdeu sua mulher e seu filho e quanto a êle, se bem que de compleição  robusta,   tanto   pela   resistência   como   pela saúde, viveu muito tempo perfeito, de maneira que em sua extrema velhice, ainda aproveitava a companhia das mulheres, casando-se de novo, fora de idade, com uma jovem, o que fêz por uma razão. Depois da morte de sua primeira mulher, casou seu filho com a filha de Paulo Emílio, irmã do segundo Cipião, o Africano, e êle viúvo servia-se de uma jovem rapariga (53) criada, que ia procurá-lo às escondidas em seu quarto, todavia não podia fazer isso tão secretamente numa casa pequena, onde morava uma jovem senhora casada, que não percebessem. Como um dia essa rapariga passou com muita audácia na frente do quarto do jovem Catão, para entrar no do pai, o moço não disse uma palavra mas aquele percebeu que êle ficou envergonhado e havia olhado a moça de maneira repreensiva, pelo que compreendeu que isso desagradava a essas duas pessoas jovens, seu filho e sua mulher. Sem se queixar a eles nem fazer cara feia, foi-se uma manhã, como de costume, à praça com o grupo dos que o acompanhavam por honra, entre os quais estava Salônio, que outrora fora seu escrivão. Catão chamando-o em voz alta, perguntou-lhe se não havia ainda casado sua filha. Salônio respondeu-lhe que não e que não cuidava em fazê-lo sem primeiramente lhe comunicar. Catão então replicou:   —   "Encontrei,  para ela um marido e para ti um genro, que não será fora de propósito para ela, se porventura a idade não a contrarie, porque é muito velho, mas pensando bem, não há o que censurar nele". Salônio respondeu, que quanto a isto confiava nele, recomendando-lhe sua filha e pedindo-lhe que lhe desse o partido que bem lhe parecia, porque era sua humilde serva, dependendo inteiramente dele e de sua previdência. Então Catão, sem mais delongas, disse-lhe que era êle mesmo que a pedia em casamento. Salônio, a princípio, ficou admirado com essas palavras porque lhe parecia que Catão estava fora de idade para novas núpcias e que de seu lado não era êle homem para fazer aliança com uma casa de dignidade consular e triunfal, mas afinal, quando viu que Catão falava conscientemente, aceitou de boa vontade e nesses termos foram juntos para a praça, aí passaram na hora o contrato de casamento. Como preparavam as núpcias, Catão filho, convidando alguns de seus parentes è amigos, foi com eles diante de seu pai, perguntar-lhe se havia cometido alguma falta contra êle ou se lhe havia causado algum desgosto, para por despeito, levar pára casa uma madrasta. Então o pai exclamou: — "Oh! não digas nunca isso, meu filho, acho bem tudo que fazes e não posso me queixar de nada, mas assim faço porque desejo ter muitos filhos e deixar vários cidadãos como tu és para o Estado". Dizem que Pisístrato o tirano de Atenas deu uma resposta tal e qual aos filhos de sua primeira mulher,estando todos grandes, quando desposou sua segunda, Timonassa, nativa de Argos, da qual teve, como dizem, Iofon e Téssalo.

(53) Tais costumes em um censor tão grave!
E, que exemplo para as pessoas que não tinham oitenta anos e que não eram Catões!

 

LI. Mas para voltarmos a Catão, êle teve desta segunda mulher um filho, o qual se chamou pelo nome de sua mãe (54) Catão, o Saloniano, falecendo seu filho mais velho quando pretor, o qual muitas vezes menciona em várias passagens dos seus livros, elo-giando-o como um grande homem de bem. Dizem que essa perda, sentiu-a sempre como homem grave e sábio, sem que por isso fosse em nada menos atencioso nos negócios do Estado do que anteriormente. Pois não fêz, como depois fizeram Lúcio Lúculo e Metelo, denominado Pio, que em sua velhice se retiraram totalmente do governo e dos negócios públicos, mas considerou-os um fardo e um dever, ao qual todo homem de bem, enquanto viver, é obrigado; nem como Cipião, o Africano, havia feito outrora, ao ver que a glória de seus elevados feitos instigara a inveja dos outros cidadãos e mudou a maneira de vida, repousando e abandonando os negócios e a cidade, indo para os campos. Mas, como se escreveu, que alguém aconselhou a Dionísio -o tirano de Siracusa que não podia ser melhor nem mais honradamente exumado e sepultado do que na tirania, Catão também considerou que não podia melhor nem mais honestamente envelhecer do que se preocupando sempre, até o fim, com negócios do Estado. No entanto, quando desejava distrair-se e descansar um pouco, passava seu tempo escrevendo livros e se ocupando nos trabalhos do campo. Eis de onde vem haver escrito tanto e toda sorte de livros e histórias.

 

(54)   Catão Salonino.

 

LII. Quanto ao trabalho da terra e serviços do campo, ocupou sua juventude para o útil e o proveitoso. Pois, diz êle que não tinha senão duas fontes de renda, o trabalho da terra e a economia; mas na sua velhice, o que fazia nos campos era mais por prazer, para contemplar e aprender sempre alguma coisa da natureza, pois êle mesmo escreveu um tratado sobre a vida campestre e o serviço dos campos, no qual descreve até a maneira como se devem fazer tortas e bolos, como preservar os frutos nas árvores, tanto que desejava mostrar-se singular e bom conhecedor de todas as coisas. Quando se encontrava em suas casas de campo, vivia com mais opulência do que em outro lugar, convidando muitas vezes seus vizinhos e aqueles cujas terras uniam-se às suas, a virem cear, alegrando-se com eles, de maneira que sua companhia e sua familiaridade não eram somente alegres e agradáveis a esses que tinham sua idade, mas também deleitável aos jovens, pois havia visto e experimentado muitas coisas, conseguido muitos bons negócios, sabia muitas anedotas boas, alegres e proveitosas e era útil ouvi-lo narrá-las de novo. Considerava a mesa um dos principais meios para fazer amizade entre os homens e na sua punha sempre à frente assuntos agradáveis em louvor das pessoas de bem e dos cidadãos virtuosos, não querendo que falassem nunca dos inúteis e maus, tendo o cuidado de iniciar sempre o assunto em algum banquete onde estivesse, para que não se falasse nem bem nem mal.

LIII. De resto, consideram que sua última obra-prima na administração do Estado foi a destruição final de Cartago, pois aquele que a destruiu e arrasou de fato, foi o segundo Cipião, mas per conselho e aviso principalmente de Catão, quando empreendida a última guerra contra os cartagineses; êle foi numa ocasião enviado à África, para conhecer as causas das diferenças que havia entre os ditos cartagineses e Massinissa, rei da Numídia, cs quais estavam em guerra feroz. Para aí foi enviado tanto pelo rei Massinissa, que de todos os tempos sempre í;c mostrara amigo dos romanos e pelos cartagineses que se tornaram seus aliados (55) desde a última guerra, na qual foram derrotados pelo primeiro Ci-piSo, que lhes tirou e arruinou com uma multa, uma boa parte de seu império, impondo-lhes um tributo enorme. Quando, portanto, chegou, não encontrou a cidade de Cartago aflita, sem coração, nem empobrecida, como julgavam os romanos, mas cheia de juventude, opulenta em bens e abundando com toda a sorte de armas e munições de guerra, de maneira que por esta opulência tinha a cabeça reta e o coração elevado e não projetando nada de pequeno. Julgou que era tempo para os romanos trabalhar e conhecer as diferenças entre os cartagineses e Massinissa, mas que se não se prevenissem em boa hora a fim de exterminar tudo nesta cidade, que sempre fora sua inimiga capital, ressentindo-se do passado, ficariam assim sob seu jugo e crescida em pouco tempo, mais do que não poderiam acreditar e considerar, cairiam também em maiores perigos do que nunca.

(55)    Ver as Observações.

 

LIV. Portanto, logo que chegou de volta à Roma, não deixou de observar vivamente no senado que as perdas e danos que os cartagineses tiveram no passado nas guerras havidas contra eles não haviam por completo abolido seu poder, tanto como a loucura e a imprudência, correndo perigo que as ditas adversidades, os transformasse antes em mais experientes do que enfraquecidos para guerrear e já ensaiavam e se exercitavam na guerra contra os nú~ midas, para depois, conscientemente, guerrearem os romanos e que a paz existente entre eles não era senão uma prorrogação de armas e um prazo de guerra, a qual p?ra renovar, não esperavam senão alguma ocasião oportuna. Dizem que, além dessas admoestações, havia levado propositalmente dentro da dobra de seu longo traje uns figos da África, os quais jogou no meio do senado sacudindo seu traje e como os senadores  se  encantassem em ver  figos  tão  belos, tão grandes e tão frescos: — "A terra em que crescem, disse-lhes, não está distante de Roma senão três dias de navegação".

LV. Mas é ainda mais violento o que se narra além disso, que dali em diante, no senado, jamais deu seu aviso a qualquer assunto que fosse deliberado, que não juntasse sempre esse refrão com vantagem: — "Também me parece que é necessário que Carta-go seja destruída completamente". Contrário a isso, Públio Cipião, denominado Nasica, também dizia sempre: – "Parece-me conveniente que Cartago sobreviva". Pois esse personagem via, segundo penso, que o povo romano por seu orgulho insolente cometia muitas faltas grandes e graves, e tornava-se altivo por causa de suas prosperidades, elevando-lhes o coração, que o senado não podia, a-não ser com grande trabalho, conter e por meio da autoridade muito grande que possuía, atraía à força toda a cidade, onde a fantasia crescia. Por essa razão quis que esse receio da cidade de Cartago ficasse como um freio para reter a insolência do povo romano, considerando que os cartagineses não eram bastante poderosos para combater nem para vencer os romanos, mas que eles eram também demais para os conter e não os recear mais. Catão replicou contra, que era nisso que havia mais perigo, que uma cidade de todos os tempos forte e poderosa, ficando então sábia por ter sido castigada por várias perdas e diversas adversidades, ficasse sempre de emboscada, à espreita do povo romano, que fazia como o cavalo fugido que por uma liberdade desenfreada que se dava a si próprio, cometia os maiores erros, cujo motivo lhe parecia que não era o mais sabiamente aconselhado o não retirar todo o perigo de fora e o receio de perder seu império, quando deixavam dentro os meios de caírem sempre em seus erros.

LVI. Eis como narram que Catão foi a causa da terceira e última guerra dos romanos contra os cartagineses. Mas, de resto, quando esta se iniciou, êle morreu, mas profetizou, por assim dizer, quem seria aquele que a. terminaria, Era o segundo Cipião que na ocasião sendo muito jovem, comandava somente mil homens de infantaria, mas em todos os encontros e em toda a parte onde havia trabalho, praticava sempre atos de bom senso e de grande coragem, cujas notícias vinham comumente a Roma e Catão, ouvindo-as contar, pronunciou, como dizem, esses dois versos de Homero (56):

Só aquele pertence ao número dos sábios,
Todos os outros não são senão sombras voláteis.

Esta profecia, Cipião logo depois confirmou com efeito e demonstrou ser verdadeira. Em suma, a posteridade que Catão deixou foi um filho de sua segunda mulher, o qual como dissemos, foi denominado, por causa de sua mãe, Catão (57) o Saloniano e um neto de seu filho primogênito, morto antes dele. Este Catão Saloniano, falece quando pretor, mas deixou um filho, o qual alcançou a dignidade consular e foi avô de Catão (58) que cognominaram o Filósofo’, um dos personagens mais virtuosos e mais famosos do seu tempo.

(56)      Odisséia,  liv. X,  verso 405.
(57)      Catão   Salonino.
(58)      Catão da Ütioa.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Mais textos

Este texto está dividido em partes: 1 2 3 4 5

Sem comentários - Adicione o seu

algumas tags: Cartago, Demóstenes, Império Romano, Itália, Macedônia, Platão, Roma, Roma Antiga, Siracusa, Vidas Paralelas,

Por favor, não republique esta página em outros sites ou blogs na web. Ao invés disso, ponha um link para cá. Obrigado.




Início