O IMPÉRIO FRANCÊS E O PRINCÍPIO DAS NACIONALIDADES. A UNIDADE ITALIANA E A UNIDADE ALEMÃ. A GUERRA DE 1870

O IMPÉRIO FRANCÊS E O PRINCÍPIO DAS NACIONALIDADES. A UNIDADE ITALIANA E A UNIDADE ALEMÃ. A GUERRA DE 1870

História da Civilização – Oliveira Lima

Parte Quarta – Idade Contemporânea. – CAPITULO III

O IMPÉRIO FRANCÊS E O PRINCÍPIO DAS NACIONALIDADES. A UNIDADE ITALIANA E A UNIDADE ALEMA. A GUERRA DE 1870

Da república ao império

A marcha dos acontecimentos na França após a eleição presidencial de Luís Napoleão (1808-1873) devia ser facilmente prevista: nem podia ser outra. Era a repetição da transição pelo consulado para o império: o golpe de Estado, a autoridade prolongada por dez anos para assegurar o regime, por fim a coroa hereditária em virtude de um senatus-consulto.

A Assembléia monarquista e o Presidente

A Assembléia Legislativa eleita depois de cumprida, pela Constituinte, a sua missão, resultou não só conservadora na sua maioria, pelo receio que inspirava a democracia vermelha, como monarquista, na proporção de 500 para 250 republicanos. Essa maioria votou a lei Fallcux (1850) que concedeu à Igreja o direito do ensino e até a supremacia sobre as escolas do Estado pela introdução do ensine religioso nos estabelecimentos primários; íêz uma lei de imprensa exigindo a fiança e atentou contra o sufrágio universal, privando do voto dois quintos dos votantes pela disposição que tornava obrigatórias para a qualificação eleitoral a residência de três anos e a inclusão no rol dos contribuintes.

Dominados os republicanos do seu seio, a Assembléia quis entrar em luta com o Presidente, o qual começara tendo ministros orleanis tas antes de chamar seus amigos pessoais e de quem ela suspeitava com justo motivo. Negada a revisão constitucional para permitir a renovação dos poderes presidenciais — para o que se fazia mister dois terços de votos — Luís Napoleão, dispondo do exército e da polícia, dissolveu compulsoriamente a Assembléia a 2 de dezembro de 1851, prendeu os principais chefes republicanos, reprimiu a insurreição, restabeleceu o sufrágio universal e fêz votar por plebiscito a constituição de 1852, que lhe facultava o poder decenal numa forma discricionária. Dez mil republicanos foram condenados, principalmente à deportação. No mesmo ano mudou-se o título ao sistema que continuou o mesmo — democrático no nome, absoluto na essência.

O golpe de Estado e o império autoritário

Cessara a máxima da anterior monarquia: le roí règne, mais ne gouverne pas. As formas do governo representativo só na aparência eram respeitadas. Um conselho de Estado preparava as leis; um corpo legislativo as discutia e votava; um senado "composto de todas as ilustrações nacionais" velava pela observância da Constituição e pelas liberdades públicas: mas este e o conselho de Estado eram de nomeação imperial e o corpo legislativo não possuía a iniciativa da legislação, nem podia eleger seu presidente ou elaborar seu regimento ou alterar um projeto ou emendar um orçamento, tendo que proceder pela aprovação ou rejeição em bloco e estando ainda seus atos sujeitos à anulação pelo senado. Pelo sistema das candidaturas oficiais não havia como vingar uma oposição: a pressão era perfeita, vedando-se reuniões eleitorais e até se exigindo de cada candidato, depois de 1858 — quando o império se tornou, de autoritário, tirânico — o juramento de fidelidade ao imperador, que para tanto se fundava no fato de ter sido elevado a tal dignidade por um plebiscito de oito milhões de votos contra um quarto de milhão.

Os jornais viviam debaixo de estreita fiscalização dos prefeitos, sendo avisados à primeira infração, suspensos à segunda e suprimidos à terceira. A lei dos suspeitos facultava ao governo agir dis-cricionàriamente no caso dos republicanos, provindo todo o agravamento da situação das bombas lançadas pelo conspirador Orsini contra Napoleão III para recordar-lhe que, como carbonário, jurara a independência da Itália. A oposição parlamentar achava-se reduzida a cinco deputados — les cinq — eleitos per Paris, sempre frondeur.

O império tirânico e O império liberal

A questão italiana, isto é, o auxílio napoleónico prestado à criação de um reino nacional necessariamente infenso ao poder temporal dos papas, afastou um tanto do império o clero, o qual junto aos legitimistas encontrava melhor agasalho para suas idéias. Este descontentamento e a virulência da campanha movida contra o regime autocrático pelo advogado Gambetta nos comícios e depois na câmara e pelo panfletário Rochefort na Lanterna, levaram o imperador a procurar o apoio dos liberais moderados, os quais tinham por seu lado ido arrancando concessões: a anistia, maior independência do legislativo, certa liberdade de imprensa. Em 1869 o corpo legislativo comportava 116 deputados partidários do sistema parlamentar e 40 deputados republicanos. O regime tornou-se constitucional — foi o império liberal —, autorizado por um senatus-consulto referendado pelo plebiscito de 6 de maio de 1870. A câmara soberana teve o seu primeiro ministério responsável, presidido pelo ilustre orador e homem político Emile Ollivier. A guerra empreendida dois meses depois, em boa parte para robustecer uma situação interna periclitante e igualmente para restaurar o prestígio francês minguado pela Prússia, pôs termo à experiência e à democracia imperial. O princípio das nacionalidades fora fatal ao seu defensor.

O eco europeu da revolução de 1848 e o princípio das nacionalidades

A revolução francesa de 1848 teve na maior parte da Europa repercussão igual se não superior à de 1830; mas os movimentos importantes, desta vez mais prolongados, não foram como então tanto pelas liberdades políticas na forma constitucional ou na republicana, quanto determinados pelo princípio das nacionalidades. Oriundo do princípio da soberania nacional, esse outro se desdobra em duas proposições: cada nação deve formar um Estado independente de governo que lhe seja estrangeiro; todas as partes de uma mesma nação devem constituir um só Estado. Na fórmula de Seignobos, um Estado deve corresponder a uma nação, seja esta uma união voluntariamente afirmada, seja operada pela raça independentemente de acordos políticos.

Na Boêmia e na Hungria. O Reichsrat

Assim foi que a Hungria e a Boêmia, das quais ainda se não ouvira falar muito nessas agitações continentais, se rebelaram quando Metternich em Viena foi apeado do poder e o imperador Fernando I se refugiou no. Tirol, reclamando ambas sua independência. A Rússia entrou na contenda em favor da Áustria, de fato para se garantir da propaganda que era não só magiar como eslava, apenas sendo menos afortunados os tchecos, porquanto a Hungria, guiada por Luís Kossuth (1802-1894), conseguiu por um momento seu fito, posto que sem a amplitude da soberania de que dispusera até o século XVI. Essa mesma autonomia, alcançada no torvelinho revolucionário de 1848, não a querendo o elemento magiar estender aos elementos croata e romaico da Hungria, tornou-se um pomo de discórdia e a dissolução pela Áustria da Dieta nacional na ocasião do assassinato do comandante em chefe das tropas húngaras, de nomeação imperial, foi o sinal da revolução separatista da qual já coube a repressão a Francisco José I, que subiu ao trono em dezembro de 1848, pela abdicação do tio.

Em maio de 1849 os rebeldes tinham retomado Buda e suas forças, bastante numerosas, pois só de tropas regulares tinham 200 000 homens, podiam considerar-se vencedoras. Foi aí que se deu a intervenção russa, marcada por brutais represálias, das quais escapou Kossuth porque se negou a entregá-lo o sultão da Turquia, onde êle buscara asilo. Só mais tarde, após a derrota austríaca de Sadova (1867), foi que a Hungria obteve a larga autonomia consagrada no regime dual, cujos pontos de contato eram o mesmo soberano, três ministros comuns — o dos negócios estrangeiros, o da defesa nacional e o das finanças — e as delegações dos dois parlamentos, austríaco e húngaro, reunindo-se uma vez por ano.

Os eslavos na Áustria

A guerra de 1914 impediu que o regime se tornasse trino, como o desejava o arquiduque herdeiro assassinado em Sarajevo, desdo-brando-se portanto numa perfeita federação por meio da qual, entre os eslavos, não só os tchecos como os croatas e eslovenos ou eslavos do sul alcançariam a igualdade de autonomia a que fazia amplamente jus sua superioridade numérica, de 25 milhões contra 12 milhões de alemães e 8 de húngaros. Os polacos na Galícia não só eram os mais favorecidos entre os da sua nacionalidade dispersa, como constituíam no parlamento imperial de Viena (Reichsrat) o fiel da balança entre alemães, tchecos e croatas.

O particularismo alemão e o movimento de 1848 em Viena e Berlim

Essa instituição parlamentar data de 1860, depois da guerra da Itália, quando o soberano entendeu ser conveniente renunciar ao sistema absoluto. Os representantes eram eleitos pelas cúrias compostas dos grandes proprietários, câmaras de comércio, universidades, cidades, distritos rurais, chegando mesmo pelo correr dos tempos a haver uma do sufrágio universal, dando 72 deputados em 425, a qual naturalmente não bastava para dar ao sistema a tonalidade popular: por fim adotou-se como base o próprio sufrágio universal.

Contrariamente ao princípio das nacionalidades, agia na Europa Central o sentimento particularista para dificultar a unidade política germânica, fosse em proveito da Áustria, fosse em proveito da Prússia. A união aduaneira favorecia o desenvolvimento econômico, mas qualquer outra ligação mais íntima encerrava o perigo da absorção. O entusiasmo de 1848 fêz porém entrever a criação da pátria alemã sobre a base da liberdade. Diz-se ter sido um ano de loucura esse que culminou uma surda agitação ocasionalmente manifestando-se numa crispação e que até inspirava a alemães como Henrique Heine o carinho supersticioso por quanto era francês, em desabono do que íôsse da sua terra.

A revolução estourando em Berlim (18 de março de 1848) logo depois de Viena, forçou o rei a colocar-se à frente de um movimento pangermânico, ao mesmo tempo que nas duas capitais — austríaca e prussiana — se reuniam constituintes eleitas pelo sufrágio universal, que era o fetiche do dia. Em Viena, bombardeada e ensangüen-tada, a repressão foi mais rápida e cruel; em Berlim a Constituinte eleita em junho foi dissolvida à força, não porém sem que fosse outorgada uma constituição (dezembro de 1848) que abriu brecha na autocracia. Para a formação da Alemanha não chegara ainda o momento.

A Assembléia de Francfort e o seu malogro

A grande assembléia nacional congregada em Francfort, que proclamou o império alemão e pretendeu elaborar-lhe a constituição, conferiu (28 de março de 1849) a coroa ao rei Frederico Guilherme IV da Prússia, que a recusou em 27 de abril, já pelo receio de abrir conflito com a Áustria, que a Rússia apoiava e que com efeito nem lhe permitiu uma união mais restrita com os pequenos Estados da Alemanha central; já porque a reação tão geral se tornou, que era a França quem agora praticava a política da intervenção, mandando o Príncipe-Presidente uma expedição em junho de 1849 destruir a república romana proclamada em fevereiro e restabelecer Pio IX, refugiado em Gaeta, no trono pontifical.

O desfecho do parlamento de Francfort foi melancólico. Aberta a discórdia entre monarquistas e republicanos, tiveram estes que procurar refúgio em Stuttgart, enquanto a Prússia abafava o movimento e os Estados que deviam compor o império faziam naufragar a constituição, recusando-se a reconhecê-la. A continuação da antiga Confederação Germânica foi o que resultou das conferências de Olmutz, como do revés do rei da Sardenha resultou a continuação da Itália fragmentada.

O nacionalismo italiano. Monarquia e república

O movimento italiano de 1848 foi não só liberal como nacionalista mas o constitucionalismo que vários dos príncipes reinantes aceitavam mergulhou num trasberdamento de republicanismo. O sentimente italiano era, pode dizer-se, unânime na hostilidade à tutela austríaca, mas no que diz respeito à faina construtora, embora visasse todo êle a eliminação do absolutismo, divergia entre a monarquia constitucional estendendo-se sob a direção da casa de Sabóia, a confederação dos Estados da península e a república unitária.

O Risorgimento, a casa de Sabóia e Mazzini

O despotismo era o regime comum a toda a península, caracterizado por uma polícia vexatória que não conseguira entretanto extinguir o banditismo — somente em Nápoles havia em 1817 trinta mil salteadores — e pela condenação de quanto fosse estrangeiro, livres ou melhoramentos materiais. Pela solução federativa liberal, conser-vando-se os trenos, eram os espíritos ilustrados como Gioberti, Balbo. d’Azeglio, que cerca de 1843 tinham encetado o movimento, intelectual antes de ser político, que se chamou o Risorgimento (ressurreição). Foi conversando com d’Azeglio que Carlos Alberto proferiu a frase famosa — Itália íarà da se (a Itália agirá por si). Pela ultime solução lutava mais que todos Mazzini (1805-1872), o qual, dado c caráter geral democrático das aspirações em repouso ou em ebulição, concebeu organizar no silêncio a Santa Aliança fraternal dos povos contra a Santa Aliança paternal dos reis, visando aquela a libertar, como esta visava a oprimir. A nova revolução dirigida pele Itália, guia do mundo como o fora a Roma do paganismo e a do catolicismo, proclamaria os direitos das nações da mesma forma que a Revolução de 1789 proclamara os direitos dos indivíduos. Roma seria a capital dessa grande federação republicana.

Carlos Alberto e o revés de Novara

O exército piemontês recebeu contingentes de vários pontos da península quando o rei Carlos Alberto (1798-1849), repudiando suas primitivas inclinações autocráticas, adotando o tricolor italiano e concedendo aos seus súditos o Estatuto real ou carta constitucional (fevereiro de 1848), se declarou campeão do patriotismo italiano. A desarmonia entre os ideais foi o que íêz mais fácil a vitória da reação.

O reino lombardo-veneziano, de que a Áustria era suserana, tomara parte na revolução e Carlos Alberto, ao socorrê-lo, executou ume ofensiva audaciosa sobre o Míncio, em que surpreendeu o exercite austríaco e se apoderou de Peschiera. O inimigo ficou entretante ocupando o quadrilátero formado pelas fortalezas de Mântua, Legna go, Peschiera e Verona, e que separava a Venécia do resto da Itália. A contra-ofensiva austríaca não tardou aliás e Radetzky, que a comandava, retomou Milão e, apesar de estar a Áustria a braços com a Hungria, infligiu aos piemonteses a derrota de Novara (23 de março de 1849), que levou o rei sardo a abdicar no seu filho Vítor Manuel II e retirar-se para o Porto, onde logo depois faleceu. Veneza resistiu até agosto com o seu presidente improvisado Daniel Manin 1804-1857).

A reação de Cavour

A Áustria triunfante projetou ir destruir em Roma o núcleo de resistência nacional que ali se formara com os destroçados de outras regiões e combinou com o reino das Duas Sicílias um duplo movimento de ataque, pelo norte e pelo sul dos Estados pontificais. A intervenção francesa, cujo objetivo político interno era granjear a boa vontade do clero para a restauração imperial, tinha também seu objetivo político externo, que era impedir que o domínio austríaco se estendesse até a Itália central. A guarnição francesa que até 1870 ocupou Roma quase seguidamente, constituiu mais tarde o obstáculo à obra da unificação italiana que a França ia ajudar nos campos de batalha, porque a isso a levaria a habilidade diplomática de Cavour (1810-1861), o qual se não deixou abater pelo malogro do arranco nacionalista. Bombardeando a sua própria cidade de Mes-sina o rei das Duas Sicílias — o rei Bomba como ficou chamado — pôs o último elo na cadeia absolutista de novo forjada: apenas o Piemonte, fechando os ouvidos às blandícias austríacas que lhe prometiam melhores condições de paz, apegou-se às instituições representativas que acabava de adotar e destoavam tanto do seu regime de 1815, em que eram demitidos os funcionários excomungados pela Igreja e a censura não permitia sequer publicar a palavra — constituição.

A obra da unidade

Cavour foi o grande obreiro da unidade italiana como Bismarck (1815-1898) o foi da unidade alemã. Ambos tiveram o dom de compreender que o papel primordial estava, num caso reservado ao Piemonte e no outro à Prússia, e acharam em si mesmos o vigor e o tato necessários para tirarem partido dos acontecimentos, gruparem os fatores e encaminharem-nos aos seus grandes fins. Cavour, com mais senso prático do que ideológico e sem descurar as reformas domésticas, pois que aboliu os tribunais eclesiásticos, seculari zou 300 conventos, reorganizou o exército, fomentou a agricultura, o comércio e os estabelecimentos de crédito, soube aproveitar a bravura e o cavalheirismo do seu soberano — il re galantuomo — e tratou primeiro de dar importância à Itália no concerto das nações. Para isto fêz a Sardenha cooperar com o seu contingente de 15 000 homens na guerra da Criméia (1853-1855), movida pela França e pela Inglaterra contra a Rússia, a qual dera mostras as mais positivas de querer liquidar em vida a sucessão do "doente da Europa": a expressão com relação ao império otomano foi de Nicolau I em conversa com o ministro britânico, ao insinuar uma partilha pela qual caberiam à Inglaterra o Egito e Creta, e à Rússia a Turquia européia.

A guerra da Criméia

O pretexto para o rompimento da Rússia com a Turquia fora a disputa ocorrida em Jerusalém entre religiosos latinos e gregos, decidida pelo sultão em favor dos primeiros, o que o czar julgou desairoso ao seu prestígio e o fez reclamar o protetorado sobre os cristãos ortodoxos nos domínios turcos, quando a França gozava dessa regalia sobre todos os cristãos do Oriente. Não tendo o governo otomano atendido tais reclamações, a Rússia invadiu os principados danubianos e atacou as forças navais turcas. A Inglaterra preferiu à proposta de partilha unir-se à França para juntas rebaterem as ambições russas: nem lhe convinha de modo algum a Rússia em Constantinopla.

A guerra propriamente não foi muito longa. Odessa bombardeada, Cronstadt bloqueada, expulsos os turcos da bacia do Danúbio e confiada à Áustria a ocupação dos principados, a França e a Inglaterra concentraram seus esforços contra o poderio russo no Mar Negro, atacando-a na Criméia e pondo cerco a Sebastopol, o grande arsenal marítimo, depois de obtida a vitória d’Alma e de repelidas as forças que vinham em socorro da praça nos combates de Balasclava, onde ficou famosa a carga de cavalaria inglesa, e de Inkerman. O cerco de Sebastopol durou 11 meses e a resistência do general Tod-leben salvou a honra das armas russas. Os contrários lutaram também contra doenças, fazendo o tifo grandes estragos. Afinal conseguiu o general Pellissier apoderar-se de Malakoff, determinando a rendição.

O congresso de Paris de 1856

Liquidou-se o conflito pelo congresso de Paris de 1856, que se manifestou firme em manter a integridade otomana contra a voracidade da Rússia, compelida a não levantar mais fortalezas nem possuir esquadras no Mar Negro — cláusula que tratou todavia de anular pela revisão do tratado quando ocorreu a guerra franco-prussiana. Em 1856 a Rússia renunciou também ao direito de proteção dos religiosos gregos no império turco, e o congresso não só estabeleceu a livre navegação do Danúbio como tomou uma medida de alcance geral no direito das gentes, que foi a abolição do corso, sendo firmado o respeito pela mercadoria neutra em navio beligerante e pela mercadoria de beligerante, que não contrabando de guerra, em navic neutro. Os Estados Unidos e o Brasil queriam ir até a imunidade de toda propriedade particular no mar, mas não alcançaram seu desi-deratum e a guerra de 1914 foi o maior desmentido a todos esses princípios liberais, sendo considerado contrabando de guerra quase tudo, se não tudo que é objeto de comércio, inclusive víveres.

Cavour e Napoleão III

No congresso de Paris sentou-se ao lado dos plenipotenciários das grandes nações o próprio Cavour, que assim teve ensejo de expor a triste situação da Itália conservada sob o jugo de estrangeiros e de tiranetes regionais. Diz o historiador americano Thayer, autor de um trabalho completo sobre a vida de Cavour, que as simpatias da naçãc inglesa falavam alto pela causa italiana, mas que o governo britânico não julgava político agir. No célebre entrevista de Plombières, em setembro de 1858, conseguiu porém Cavour a promessa formal do imperador dos franceses de coadjuvar a realização da unidade italiana por êle jurada em 1831. Napoleão III, que na ocasião de lançar a mão para o diadema havia declarado que o império era a paz, estava-se afinal mostrando tão belicoso quanto o tio: nem a França parece sentir-se bem fora da atmosfera militar.

A guerra da Itália

Sem maior entusiasmo todavia, antes vacilando até a última, Napoleão participou da campanha contra a Áustria (1859), nascida da recusa do governo de Turim de aceder ao ultimato austríaco de desarmar dentro de três dias. O exército francês ganhou as batalhas de Magenta e de Solferino, a primeira sob as ordens de Mac-Mahon, e os piemonteses por si contaram a vitória de Palestro. Umas e outras determinaram a paz de Vilafranca (12 de julho), pela qual a Sardenha incorporou a Lombardia, e a França Nice e a Sabóia, após o plebiscito favorável das respectivas populações. Napoleão ajustara libertar a Itália até o Adriático, mas estacou diante do quadrilátero por motivo da desorganização das suas forças e já com o receio da Prússia.

O movimento convergente

Entretanto, na Itália, Toscana, Parma, Módena e a Romanha — província esta do papa que passou a formar com os dois últimos ducados a Emília — anexaram-se à Sardenha por enormes maiorias plebiscitárias (março de 1860). A capital transferiu-se de Turim para Florença em 1861, aproximando-se do sul, cuja libertação estava sendo sobretudo obra de Garibaldi, caudilho que já se batera na campanha da Lombardia, que fizera parte do governo da república romana de 1849 e que antes disso aprendera a combater nas cuchi-las do Rio Grande do Sul, nas enseadas de Santa Catarina e nos campos do Uruguai.

Garibaldi e Vítor Manuel

Garibaldi (1807-1882) embarcou em Gênova para a Sicília com 1 067 voluntários. A expedição era feita de combinação com Cavour, o qual, na frase de Driault, ficava pronto a renegá-lo se êle fracassasse e a afastá-lo se êle fosse afortunado. Verificou-se a segunda hipótese: Garibaldi conquistou as Duas Sicílias sem resistência e Vítor Manuel desceu até Nápoles sob pretexto de ir conter a revolução triunfante, de fato para pôr os garibaldinos no seu séquito. Na sua marcha norte-sul o exército sardo, comandado por Cialdini, ocupou as Marcas e a Úmbria (novembro de 1860) e bateu em Castelfidardo as forças pontifícias comandadas por Lamoricière. O reino da Itália foi proclamado a 17 de março de 1861, falecendo Cavour a 6 de junho, após ver realizado o seu desígnio, pois o que faltava anexar — Venécia e Roma — era tão-sòmente uma questão de tem-po e de oportunidade.

Anexação de Venécia e de Roma. O espírito do Vaticano sob Pio IX e Leão XIII

A primeira logrou-a a Itália da Prússia ao juntar-se a ela contra a Áustria na guerra de 1866, apesar de derrotada, no mar em Lissaem terra em Custozza. Roma era mais difícil porque a França a custodiava, defendendo-a em 1867 contra uma nova arremetida de Garibaldi, detida em Mentana. A retirada da guarnição francesa ao sobrevirem os desastres de 1870 permitiu porém a realização do sonho de muitas gerações, confinando a Santa Sé à sua autoridade espiri-tual, da qual ela por esses tempos usou num sentido reacionário, que era o da legítima reação da verdade contra o erro. Assim, segundo os liberais avançados, ela esposava os princípios do absolutismo, rompendo com a civilização em seu progresso, por meio dc Syllabus ou "lista dos erros" do espírito moderno, e votando, no Concílio do Vaticano, o dogma da infalibilidade papal que os chamados velhos católicos julgaram atentatória da independência intelectual. O sucessor de Pio IX, falecido em 1878, que foi Leão XIII (1810-1903), condescendeu, sem quebra dos verdadeiros princípios dc política de seu predecessor, com as tendências democráticas dos tempos modernos, indicando como elas seriam compatíveis com os princípios da Igreja, encarando luminosamente a questão social que pretendeu resolver pelo socialismo cristão.

A lei de garantias

A intransigência da Santa Sé no tocante ao seu esvaído poder temporal é que se tem mantido íntegra, salvo pequenas acomodações de forma requeridas pelas circunstâncias de momento. A "lei das garantias", pela qual o reino da Itália reconhecia a soberanic privativa do Vaticano com o privilégio da exterritorialidade e uma dotação anual de três milhões de liras, nunca foi aceita pela Igreja, que nela enxergava com razão uma subordinação. O papa fêz-se o prisioneiro do Vaticano.

A Itália irredenta

Restava ainda à Itália, para abalançar-se a uma reconstrução, embora reduzida, do império romano, recuperar os territórios irre-dentos ou não redimidos, que são o Tirol e Trieste austríacos — que já lhe trouxe a recente guerra juntamente com Zara e Cherso e a contiguidade de Fiume independente — a Córsega e Nice francesas, Malta inglesa e o Tessino suíço.

A obra de Bismarck

Foi Bismarck quem deu forma, realidade e alcance a todas as tentativas até então dispersivas da unidade alemã, realizando a fusão política tão reclamada pela atitude das potências vizinhas. Como escreve um historiador, êle fêz da federação de Estados (Staaten-bund) um Estado federal (Bundesstaat). Sua base foi a Prússia e seu instrumento a vitória militar, desenvolvendo a ação dos patriotas de 1813 e opondo o exército nacional, isto é, a nação armada aos exércitos profissionais. As vantagens da Prússia eram ser homogeneamente alemã — exceção feita da parte polaca — quando a Áustria comportava raças diversas, e estar organizada para a luta desde a resistência oferecida ao seu próprio aniquilamento no tempo de Napoleão. Foi então que se formou a Landwehr ou defesa do país pc: meio da incorporação temporária de todos os cidadãos no exercite cujos contingentes se renovavam, permanecendo os quadros com sua oficialidade.

Áustria ou Prússia?

O malogro do movimento de 1848 agia contra a oportunidade de novos e sobretudo imediatos projetos de união, mas também a expansão militar contida no império francês agia em favor de uma organização mais vigorosa a opor a qualquer ambição sobre territórios alemães como a margem esquerda do Reno. A questão era de quem tomaria a hegemonia — se a Áustria, se a Prússia.

Guilherme I e as reformas militares

A idéia de Bismarck de impelir a Áustria para leste era antiga, mas para tanto era mister começar por excluir da Coníederação esse seu elemento tradicional e que era ainda o mais importante pela sua população e prestígio. A guerra de 1859 arruinou parte deste prestígio, mas o que sobrava era bastante para determinar séria hostilidade à política audaciosa do ministro chamado ao poder pelo rei Guilherme no ano seguinte ao de suceder à coroa, que foi em 1861. O novo soberano tinha por principal preocupação as instituições relativas à defesa nacional e tinha o predicado, superior para um monarca, de não ter inveja dos seus auxiliares, antes lhes facultando ampla liberdade de ação. O Landtag prussiano, resto da refor-ma constitucional de 1849, combateu as reformas militares ou, melhor dito, recusou os créditos, como era da sua competência. O conflito político durou anos sem se chegar à solução, quer dizer que o governo cobrou os impostos necessários para custear o considerável aumento dos efetivos, independente do voto da Câmara.

A guerra dos ducados

Entretanto, Bismarck, ajudado pela estratégia de Moltke e pela disciplina de Roon, procedeu à primeira das três guerras pelas quais efetuou a unidade alemã: foi a guerra dos ducados do Elba, feita em 1864 à Dinamarca para subtrair ao seu domínio o Schleswig e o Holstein que, juntamente com Lauenburgo, já tinham em 1848 ensaiado obedecer ao apelo do elemento germânico da sua população. A situação que resultara do protocolo de Londres de 1852 era anômala: colocados sob a suserania dinamarquesa, os dois últimos faziam parte da Confederação Germânica. A Dieta de Francfort interveio quando o rei Cristiano IX pretendeu em 1863 modificar em seu proveito essa condição e a intervenção austro-prussiana veriíi-cou-se afinal no intuito de mantê-la. Os dinamarqueses pelejaram valentemente, mas não puderam levar a melhor: a guerra foi apenas de meses.

A guerra de 1866 e a Confederação da Alemanha do Norte

Em vez contudo de devolver o Schleswig e o Holstein ao legítimo herdeiro que os perdera — o princípio das nacionalidades substi-tuíra o da legitimidade —, ficou, por uma combinação provisória, a Prússia com o primeiro, que lhe dava a posse de Kiel, e a Áus-tria com o segundo. Dois anos depois, valendo-se do primeiro pre-texto, a Prússia ocupava o Holstein e media suas forças com a Áustria e os Estados alemães do Sul, alarmados com aquele fator que entrara a crescer desmedidamente no conceito alheio. Bismarck era mais que tudo um consumado diplomata e soubera preparar o jôgc. O cultivo da amizade russa foi sempre um dos pontos cardeais da sua política e por isso auxiliou o império em debelar a insurreição polaca de 1863; combinou com a Itália o ataque simultâneo à Áus-tria, acenando-lhe com a Venécia, e iludiu Napoleão III, que pactuou com a guerra de 1866, com promessas vagas de anuir em que o império francês tomasse suas compensações para restabelecer o equilíbrio que dizia haver-se rompido, quer no Reno, quer no Luxem burgo, declarado neutro em 1867, quando quase provocou uma guerra, quer na Bélgica, despertando com esta última idéia a descon fiança da Inglaterra.

Os elementos domésticos deram-lhe porventura mais trabalhos havia Estados como Hanover, Hesse, Nassau, que sabiam que com a Áustria continuariam autônomos e com a Prússia não, conforme sucedeu, e havia muitos liberais que não simpatizavam com uma unidade fundada na disciplina prussiana. A guerra foi porém deci dida rapidamente na batalha de Sadova (3 de julho de 1866), onde o generalíssimo austríaco Benedek concentrou suas forças já desmoralizadas, e a Prússia, igualmente vencedora dos aliados alemães da Áustria e engrandecida com os ducados do Elba e essas outras anexações afora a da cidade de Francfort, excluiu definitivamente a Áustria pelo Tratado de Praga, de 23 de agosto, e organizou a Confederação da Alemanha do Norte pelo limite do Meno, sob a presidência hereditária do rei da Prússia, em quem residia o poder executivo, exercido por intermédio de um chanceler. O poder legislativo cabia ao conselho federal (Bundesrat), formado pelos delegados dos governos confederados e cujo voto dependia das suas instruções privativas, e ao Reichstag ou assembléia eleita pelo sufrágio universal.

A guerra franco-prussiana e o império alemão.

Para o império só faltavam a denominação e a plena adesão da prussiana e Baviera, Württemberg, Baden e Hesse Darmstadt, já ligados por tratados de aliança militar. As forças do exército e a armada, as relações internacionais, o comércio, os meios de transporte, a legislação mercantil e penal e a higiene já eram assuntos federais e o orçamento federal criou-se com a renda das alfândegas e as contribuições dos Estados. A Alsácia e parte da Lorena, despojos opimos da guerra com a França, da qual resultou o império germânico, formariam o patrimônio imperial, a Reichsland.

A guerra com a França, que se tornara fatal, teve por motivo ocasional a candidatura do príncipe alemão Leopoldo de Hohenzollern-Sigmaringen (ramo católico dos Hohenzollern já reinante na Româ-nia) ao trono da Espanha, vago desde 1868 pela deposição da rainha Isabel por efeito da revolução comandada pelos generais Prim e Serrano e almirante Topete. Prim era o senhor da situação e procurava um monarca para um país que êle compreendia não estar maduro para o regime republicano. Napoleão III exigiu a retirada da candidatura alemã que, dizia êle, a vingar, colocaria a França entre dois fogos, e o compromisso de que pensamento semelhante não tornaria a surgir. A entrevista de Ems, entre o embaixador francês Benedetti e o rei Guilherme, relatada num despacho telegráfico tendenciosamente redigido por Bismarck, inflamou os espíritos em Paris e o rompimento fêz-se inevitável. Contra a opinião de Thiers, foi declarada a 19 de julho de 1870 a guerra desastrosa que conduziu a Sedan onde, a 2 de setembro, se rendeu o exército de Mac-Mahon e se entregou o imperador dos franceses.

A França contara com a simpatia da Alemanha do Sul e esta uniu-se à do Norte. A Prússia entrou na campanha com meio milhão de combatentes perfeitamente adestrados: a França jactava-se pela boca do seu ministro da guerra, o marechal Leboeuf, de não faltar nem um botão às polainas dos seus soldados, mas de fato tudo se achava comparativamente desorganizado, desde os planos de mobilização até os aprestos de comissariado. A invasão da França operou-se metodicamente e as vitórias alemãs sucederam-se, abrindo o raminho de Paris depois que MacMahon pensou realizar o movimento, antes dinástico do que estratégico, interrompido em Sedan e que era, à frente do exército concentrado no campo de Châlons e composto de 137 000 homens, salvar a honra das armas imperiais e fazer junção com Bazaine o qual, após sérios reveses, se retirara para Metz com o grosso das forças francesas, 180 000 homens que ali capitularam a 27 de outubro, merecendo que fosse atirada a Bazaine a pecha de traidor ou pelo menos de incompetente.

Acreditam muitos que Bazaine, que já no México nutrira altas ambições, sonhava desempenhar um papel político proeminente e, salvando seu exército por um acordo com o inimigo, influir sobre os acontecimentos que se desenrolavam em França. A capitulação de Sedan determinara em Paris dois dias depois a queda do regime imperial e a formação do governo da defesa nacional, do qual Gam-betta era a alma e que decidiu prolongar a resistência armada. O oèrco de Paris pelos alemães começou a 20 de setembro: Gambetta, saindo da capital para Tours num balão (9 de outubro), conseguiu levantar 600 000 homens, divididos em três exércitos, para fazerem levantar o sítio.

O cerco de Paris e a paz

Foi a fase brilhante da guerra para a França. Chanzy no Loire e Faidherbe no norte revelaram talento militar e bateram-se não só honrosamente como gloriosamente. O exército de leste, às ordens de Bourbaki e onde pelejavam Garibaldi e seus camaradas de camisola vermelha, internou-se na Suíça por não poder opor-se eficazmente aos alemães. Nestas operações militares e na gradual inves tida de Paris, sofrendo fome e defendida pelo general Trochu, se passou o rigoroso inverno de 1870 para 1871 — l’année terrible, como ficou conhecido em França. O bombardeio da capital começou a 27 de dezembro; a 19 de janeiro a guarnição tentou a sortida infeliz de Buzenval e a 28 de janeiro firmava-se o armistício para as eleições. A assembléia eleita num espírito hostil à continuação da guerra e composta de realistas, republicanos moderados e republicanos avançados — estes em pequeno número e os monarquistas em maioria — reuniu-se em Bordéus a 13 de janeiro de 1871. Thiers, por ela aclamado chefe do poder executivo, e Jules Favre, advogado notável e ardente patriota, negociaram a paz de Versalhes (26 de fevereiro) ratificada pelo Tratado de Francfort (10 de maio), estipulando, além da perda das duas províncias, o pagamento de 5 milhares de milhões de francos.

A Comuna de Paris

Os socialistas de Paris, recusando reconhecer os poderes da Assembléia, insurgiram-se a 18 de março e criaram a Comuna, que era um reflexo nacional das idéias da Internacional, fundada err. 1866 sob a direção de Karl Marx para defender os interesses coletivos da classe operária a que não resistiu ao espírito de desagregação patriótica, cedendo o lugar aos anarquistas individualistas, que na Rússia o romancista Turgueneff batizou com o nome de niilistas e tiveram como chefe Bakunine. Imaginava-se que as comunas, declaradas autônomas, se agrupariam federativamente: a província porém não correspondeu ao apelo da capital, e governo e assembleia, transferidos de Bordéus para Versalhes, reprimiram com extrema severidade aquela rebelião de federados e de guardas nacionais, a qual cometeu uma série de desatinos, incendiando as Tull» rias, o Hotel de Ville (Paço municipal) e alguns outros dos mais mosos edifícios de Paris e massacrando, entre várias personagens o arcebispo de Paris.

A prosperidade da França sob o império

Bismarck foi injusto com Napoleão III quando o tratou de "grande incapacidade desconhecida". O sobrinho de Bonaparte era um homem ilustrado, de vistas largas e de competência administrativa faltava-lhe, é claro, o gênio do tio. Seu reinado marcou um períocc de incomparável prosperidade material para a França pela grandeza do comércio e das indústrias, pelo desenvolvimento das vias férreas e das minas, pelo aformoseamento das cidades, sobretudo de Paris, então transformada na bela capital de hoje, no que o secundaram admiravelmente o zelo e o gosto do barão Haussmanr. A ordem interna ajudou naturalmente esses progressos. Também a França lucrou na sua agricultura, como a Inglaterra na sua indústria, sendo o barateamento da vida o resultado comum, com o tratado de comércio entre os dois países, celebrado em 1860 sobre a base do livre câmbio e que fora muito favorecido por Napoleão III sempre inclinado a proteger o trabalho, e por Michel Chevalier, relíquia dos discípulos de St. Simon.

Os negocios do México

A ocupação militar do México, para garantir o trono "exótico" dc imperador Maximiliano, arquiduque da Áustria, é considerada geralmente uma concepção desastrosa, porque resultou infeliz, mas então a apregoavam em França "la plus belle pensée du règne", e não deixava de haver alcance na idéia de levantar a barreira de um forte império latino — tanio mais quanto o exemplo do impéric brasileiro era sugestivo na sua civilização — contra a expansão avassaladora dos Estados Unidos. O trono de Maximiliano {I832-I867), príncipe bondoso e esclarecido, como se revelou no governo, e dotado de um temperamento poético e imaginativo como o testemunham suas impressões de viajante, teve o vício de origem de haver sido levantado, num conflito doméstico mexicano, pelos elementos conservadores e clericais de pura descendencia espanhola, em oposição ao espírito democrático e livre-pensador personificado nos caudilhos nativistas.

O desfecho Querétaro

Juárez (1806-1872), que era puro índio, foi o campeão do nacionalismo e do liberalismo, resistindo afincadamente e vencendo quando cs Estados Unidos, a braços entrementes com a guerra civil da qual parecia deverem sair cindidos, recuperaram sua liberdade de ação e obrigaram a França a retirar o exército do marechal Bazaine (1811-1888). Maximiliano, aprisionado, íoi fuzilado em Querétaro com dois dos seus generais, sendo-lhe aplicada a pena que no fragor da luta êle tinha decretado centra os chefes rebeldes. Sua viúva, a princesa Carlota da Bélgica, arrasta desde então o infortúnio de uma loucura incurável*. O México, presa por longos anos das discórdias civis e da ditadura utilitária de Porfírio Diaz, que combatera valorosamente contra os franceses, atravessa ainda a crise de uma transformação social, da qual deverá sair elevado o seu povo e no decorrer da qual nunca perdeu a nação a dignidade política, se bem que haja sofrido de atrozes convulsões de barbárie, a que nem escapam velhas sociedades.

A evolução democrática inglesa. A reforma eleitoral de 1867

Raríssimas são com efeito as sociedades políticas como a inglesa, que durante esse tempo prosseguiu num desenvolvimento seguro e pacífico, afora as guerras coloniais para aumento e consolidação do império, transformando-se aos poucos numa verdadeira democracia coroada. Em 1867 uma nova reforma do sufrágio, levada a efeito pelo gabinete conservador Derby-Disraeli, alargou muito o corpo eleitoral ao ponto de lorde Derby dizer que a medida tinha sido a leap in the dark (um salto nas trevas). Receberam direito de voto a maior carte dos operários com um lar nas cidades: os camponeses em iguais condições só vieram a recebê-lo em 1885, sendo Gladstone chefe do gabinete e estabelecendo-se então o princípio de um depu-tado por 50 000 habitantes.

A lei do ensino

Três anos depois da reforma de 1867 firmou-se por lei na Inglaterra o princípio do ensino primário obrigatório, sem cessar dificultado na sua aplicação pelo aspecto religioso deste problema considerado de caráter local e não nacional. O livre câmbio ia sempre asssegurando ao país a primazia comercial e industrial: importando cereais e matérias-primas para exportar manufaturas, que ninguém até então podia produzir melhor nem mais barato. Foi um atrevimento que custaria caro à Alemanha.

A questão irlandesa nos seus vários aspectos

A questão insolúvel para a Inglaterra tem provado ser a da Irlanda apesar de merecer a atenção contínua dos seus governos. Verdade é que tal questão é muito complexa, a um tempo política, eco-nômica, agrária, religiosa e de raça. Celtas e católicos, os irlandeses não se harmonizavam com os anglo-saxões protestantes. Rendeiros de terras que lhes íoram arrancadas pela conquista em proveito de landlords ingleses, tinham de agüentar pesadas rendas. Conspi rações e insurreições não têm faltado, maquinadas em sociedade secretas que vão dos fenianos de ontem aos sinn feiners de hoje, para os quais já não basta a autonomia, exigindo a independência.

Gladstone, cujo grande espírito liberal nobilita por si só a política britânica do século XIX, começou por satisfazer os católicos, acabando em 1870 com a Igreja estabelecida ou de Estado, que era anglicana na Irlanda, tendo esta assim de custear uma instituição estranha e ver os clerygmen ingleses gozarem dos benesses das propriedades eclesiásticas, ao passo que os seus próprios párocos vegetavam humildemente até lhes serem atribuídos esses bens.

A miséria e a fome tinham entretanto provocado grande emigração para os Estados Unidos e a população da Irlanda baixou com tudo isso, entre 1841 a 1891, de 8700000 habitantes para 4700000. Cerca de 1880 a situação política tornou-se de francamente nacionalista, parlamentarmente obstrucionista e socialmente revolucionária. Dirigia-a então Parnell (1846-1891), denominado the uncrowned king (o rei não coroado) da Irlanda. A Land League (Liga agrária) pregou a recusa das rendas das terras, o que deu lugar a despejos (evictions) sangrentos. A expressão boycottage provém do nome de um capitão inglês Boycott, proprietário duro a quem ninguém queria servir. A criminalidade aumentou muito: originou-se o terror. O governo britânico nada conseguiu pelo coercion bill ou lei de repressão e Gladstone compreendeu que a melhor política é sempre a da justiça. Êle foi quem em 1886, dividindo muito embora o seu partido em liberais e unionistas, apresentou o projeto do home ruie, finalmente vitorioso mas ainda não aplicado, e a lei transferindo a propriedade do solo para os seus detentores e reais possuidores, indenizando-se os expropriados por utilidade pública. Estes projetos chegaram a ser aprovados pela Câmara baixa, mas foram rejeitados pela dos lordes em 1892, retirando-se Gladstone da vida pública e enchendo o palco o imperialismo colonial de Joseph Chamberlain, que politicamente se estreara como radical. Gladstone não resignou sem soltar um último grito de guerra contra a Câmara hereditária e a final adoção da sua generosa tentativa inclui-se na campanha política contra os lordes e na geral democratização da Inglaterra no sentido radical socialista.

A libertação dos servos da Rússia

 A mais importante reforma liberal da Europa na segunda metade do século XIX foi porém a abolição da servidão na Rússia. Obra primeiro dos escritores nacionais, realizou-a em 1861 o imperador Alexandre II, que reinou de 1855 a 1881, e cujo ukase ou rescrito não só extinguiu esse resto de cativeiro pagão como providenciou por meio de um quase sistema coletivista para que os camponeses redimidos tivessem para cultivar um pedaço da terra, cuja posse era antes do mir ou comuna, do que deles.

A Suiça patrícia e a Suíça democrática

A marcha das idéias liberais foi geral, mesmo porque a própria Suíça nem sempre foi a democracia que hoje é. Nos cantões que o Diretório unificou e Napoleão confederou, o patriciado era uma realidade e exerciam-no antigas famílias que tinham anteriormente gozado de privilégios pesando sobre o resto da comunidade. Com a reação de 1815 a distinção de classes reapareceu nos cantões aristocráticos, que eram aliás os mais importantes — Berna, Zürich, Lu-cerna, Basiléia, Genebra e Friburgo —, e custou desalojar os patrícios, refletindo a evolução helvética a dos outros países progressivos até chegar a constituir essa organização modelar que é hoje a sua e para a qual lhe serviram de mestres os refugiados políticos de muitas nações. A Suíça corrigiu a forma republicana num dos seus aspectos mais agitados, que é o determinado pelas ambições em conflito para a suprema magistratura: o poder executivo é exercido por um conselho federal que governa junto e cujo chefe, escolhido anualmente dentre os seus membros, intitula-se o Presidente da República e não pode ser imediatamente reeleito.

O referendum e a iniciativa

Sua organização constitucional também compreende o referendum, ao qual já foi sujeita a constituição de 1848, e até, na maioria dos cantões, o direito de iniciativa em matéria legislativa e no tocante à revisão da lei orgânica, quer cantonal, quer federal. É interessante notar que a instituição do referendum tem mostrado ser conservadora, rejeitando entre outros em 1904 um projeto de lei federal garantindo a todo cidadão suíço o direito a um trabalho suficientemente remunerador. O fato parece provar que o cidadão transformado em constituinte e legislador, num regime representativo que tende para o governo direto da nação pela nação, perde a audácia e receia as inovações.

 Fonte:Edições Melhoramentos. 20ª ed.

 

 

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