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Invasões e Guerras na Idade Média – História da Civilização

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Índice

História da Civilização de Oliveira Lima

Idade Média. – CAPÍTULO II

INVASÕES E GUERRAS

Invasões orientais. Os húngaros e os turcos

Enquanto na extremidade ocidental da Europa o infiel ia sendo, primeiro eliminado e depois atacado nos -seus domínios africanos, pela extremidade oriental não cessavam as invasões asiáticas, constituindo um constante perigo. No século IX os magiares ou húngaros, ramo dos hunos, invadiram a Europa e fixaram-se no que se ficou chamando Hungria e parecia exercer singular fascinação sobre esses turanianos. Os magiares europeizaram-se e serviram mesmo de baluarte contra os turcos, que vieram atrás. Os turcos seldju-cidas foram muito atacados pelos cruzados e seu império desmoronou-se também por questões de sucessão.

Os mongóis e seus grandes conquistadores

Quando declinava este poderio na ocidental, apareceram os mongóis das estepes da central e oriental. Gengiscã (1206-1227) à frente das suas hordas compostas em grande parte de tribos tártaras, percorreu muito da , conquistando todo o Norte da China, devastando o Turquestão e a Pérsia, e estendendo seus domínios do Indo ao Dnieper na Rússia.

Seu filho Otkai alargou ainda o império asiático e irrompeu pela Europa, assolando quase metade dela, a saber, grande porçãc Rússia, Polônia, Morávia e Hungria. Frederico II foi quem resguardou o império alemão, ficando porém a Rússia durante mais de dois séculos, até a libertar Ivã III, príncipe moscovita, sob a dominação daqueles tártaros.

Cublaicã (1259-1294), um dos sucessores de Otkai, fêz sua capital em Pequim, onde acolheu Marco Pólo. Seu império era vasto em demasia e em demasia frouxo para poder ficar unido: foi contudo restaurado por Tamelran (1369-1405), o Tamerlão dos cronistas portugueses, cujo imenso império se desfez com sua morte. Êle submeteu a Pérsia, ocupou Bagdá, avançou pela região ao norte do Mar Cáspio e do Mar Negro até a sua capital, que era Samarcande no Turquestão russo (hoje khanato de Bukhara), e invadiu a índia. A pedido do imperador grego de Constantinopla foi à Ásia Menor à frente de 800 000 tártaros, bateu o sultão turco, apoderou-se de grande parte da Ásia ocidental, submeteu os mamelucos do Egito que eram uma terrível milícia turca, e impôs tributo a Bizâncio. A morte impediu-o de reconquistar a China: ainda assim, como conquistador, não é inferior a Alexandre. Seu descendente Baber invadiu novamente a índia em 1525, ali estabelecendo o império do Grão-Mogol que os ingleses destruíram no século XVIII.

Batalha contra os turcos. Xilogravura do volume "Weisskunig". Séc. XVI.

Batalha contra os turcos. Xilogravura do volume Weisskunig. Séc. XVI.

Eslavos e amarelos

Os eslavos sofreram pois a tirania dos amarelos em época já histórica, como a tinham sofrido em remota antiguidade, quando, fugindo diante dos cavaleiros turanianos, tinham aqueles arianos passado das estepes asiáticas para as estepes européias e procurado refúgio nas imensas florestas de pinheiros, onde os cavalos os não podiam perseguir. Os eslavos empurraram para oeste os germanos, como estes tinham empurrado os celtas, e representaram depois para o império do Oriente o papel que os germanos desempenharam para o do Ocidente: atacaram-no pelo norte alguns povos simplesmente invadindo e assolando as províncias, outros nelas se estabelecendo e afinal se adaptando à civilização.

Búlgaros

Aos russos devem ser adicionados os búlgaros que, turanianos ou uralo-altaicos muito embora, falavam um idioma eslavo e se misturaram tanto com seus vizinhos e seus súditos — pois seu reino foi poderoso — que podem ser considerados eslavos. O imperador Basílio II, da dinastia macedônica, foi quem destruiu esse reino e levou de novo a fronteira romana do Oriente ao Danúbio, outro imperador da mesma dinastia levando-a a leste até o Eufrates (fim do século X e princípio do século XI).

Sérvios e otomanos

No século XV tinham os sérvios submetido quase toda a península balcânica, parecendo querer fundar um outro império cristão do Oriente, quando foram vencidos e sujeitos pelos otomanos,, cuja

Estado se formara na Ásia Menor nos meados do século XIII com tribos vindas do Turquestão. Esse núcleo do império turco assim se chamou do nome do seu chefe Othman (1288-1326), igualmente chamado Osman, donde a expressão osmanlis, que os turcos também se dão.

As expansões turcas e a resistência

Foram estes guerreiros otomanos que se apoderaram de província após província do com os seus janízaros, tropa de escol organizada no começo do século XIV e composia de filhos de cativos cristãos, educados na fé maometana. Acabaram por ocupar Constantinopla em 1543, matando 40 000 habitantes e escravizando 50 000, mas medeou quase um século entre a instalação da capital turca em Andrinopla (1368) e a extinção do império do Oriente. Sérvios e búlgaros foram batidos pelos otomanos em Cas-sovia em 1389, e a Bulgária foi tomada pelo sultão Bajazeto no fim do século XIV, tendo-se reconstituído esse reino.

A expansão turca encontrou diante de si no século XV além da Hungria, que então compreendia a Croácia, a Dalmácia e a Bósnia, a resistência dos montanheses da Albânia. Três nomes merecem sobretudo ser postos em relevo nessa cruzada da segunda metade daquele século: Hunyadi, príncipe da Transilvânia, que defendeu Belgrado com extremado valor; Jorge Castrioto, príncipe da Albânia, que lutou 24 anos contra os poderosos sultões, e Pierre d’Aubusson, grão-mestre da Ordem dos Hospitaleiros, que defendeu Rodes com a maior bravura.

Guerreiros russos no Rio Dniéper. Segundo um manuscrito do Séc. X.

Guerreiros russos no Rio Dniéper. Segundo um manuscrito do Séc. X.

Eslavos do sul e do norte

Os sérvios, bósnios e croatas formam o que hoje se chama iugoslavos ou eslavos do sul: outros lhes dão o nome de eslavônios, comum aos que se estabeleceram ao sul do Danúbio, do Adriático ao Arquipélago. Entre os eslavos do norte, o primeiro Estado a organizar-se foi o da Polônia, nas margens do Vístula; a princípio, no século IX, vassalo do império alemão, depois, em 982, independente com o rei Boleslau, o Intrépido. A Polônia aumentou muito, no século XII com a sujeição dos pomerânios, sobre o Báltico, entre o ducado da Ordem Teutônica e o eleitorado de Brandeburgo, e no século XIV 1386 com a subida ao seu trono do grão-duque da Lituânia, unindo os dois países, que juntos formaram uma forte nação, barreira nesse século contra a invasão mongólica, estendendo-se a Polônia para o sul até o Mar Negro.

A Rússia

A Rússia então desempenhava papel muito mais apagado. Seu berço foi Novgorod, onde se estabeleceu Rurik, e dali para o sul chegara além de Kief, mas essa primeira organização desaparecera no turbilhão mongólico. No século XV os príncipes moscovitas apoderaram-se de Novgorod, que se havia tornado uma república comercial e feitoria importante da Liga hanseática, expulsando os mongóis e começando a realizar a unidade russa pela submissão dos principados eslavos e pelo rumo que a posse de Novgorod dava aos moscovitas para alcançarem o Mar Báltico e o oceano Glacial Ártico.

* * *

Frederico Barbarroxa e Alexandre III

A luta entre o império e o papado não terminou com a concordata de Worms; antes se prolongou entre os soberanos da casa de Hohenstaufen e pontífices em quem o espírito de autoridade se revelava absorvente. O caso de Frederico Barbarroxa e do papa Alexandre III foi a reprodução exata do de Henrique IV e Gregório VII: c imperador teve de acabar por se humilhar aos pés do vigário de Cristo (1177).

Guelfos e gibelinos. As cidades livres italianas

A casa de Hohenstaufen ou da Suábia subira ao trono em 1137, em oposição à da Baviera. Era infensa ao papado e a sua facção, a dos gibelinos, rompeu com a dos guelfos, que defendia a Santa Sé e ao mesmo tempo a independência da Itália, com a qual se achava então consorciado o poder de Roma. O conflito lavrou funde na Itália, onde a pronta desorganização feudal, a carência de um poder central e a tradição municipal fizeram mais rapidamente desenvolver as cidades livres, constituindo diminutas repúblicas com magistrados e cônsules investidos do poder executivo e judiciário e uma assembléia geral dos cidadãos lembrando a das cidades da antiguidade. Também suas discórdias intestinas e contendas entre si produziram o mesmo resultado que nas cidades gregas: as instituições democráticas foram substituídas por tiranos, alguns do pior tipo. Pelo fim do século XIII achava-se virtualmente consumada semelhante transformação.

As comunas medievais

O movimento das comunas foi de resto característico da segunda fase da Idade Média, de reação contra o feudalismo, isto é, contra a opressão senhorial. Nas monarquias francesa e alemã o poder real no seu próprio interesse favoreceu tal agitação, da qual resultou a introdução do Terceiro Estado nas rudimentares assembléias ocidentais do tempo, convocadas pelos reis quando careciam do seu apoio.

Artesãos e feirantes, cópia de miniatura de "Bibliotèque de Bourgonge", editada em Bruxelas. Séc. XIV.

Artesãos e feirantes, cópia de miniatura de Bibliotèque de Bourgonge, editada em Bruxelas. Séc. XIV.

A Liga lombarda

Em Portugal e na Espanha abundaram os concelhos providos de forais, e à Liga lombarda, formada em 1167 pelas cidades da Alta Itália contra os imperadores germânicos, correspondeu, não precisamente no espírito — porque este era antes mercantil e hostil apenas aos roubos dos piratas e às exações dos nobres feudais — mas como movimento associativo de cidades, a Liga hanseática.

Esta Hansa teutônica reuniu num interesse idêntico, o comercial, as cidades do litoral do Báltico, as povoações marginais do Reno e costeiras do Mar do Norte e as comunas de Flandres, Gand e Bruges especialmente, onde a indústria dos panos de lã, entre outras, entrara a florescer consideravelmente e os tecelões se distinguiam pelo seu espírito democrático. Foram tecelões flamengos, mandados vir por Eduardo III, que introduziram esse fabrico na Inglaterra no século XIV: antes a Inglaterra exportava a matéria-prima para ser manufaturada, constituindo a lã seu principal artigo de comércio. Uma indústria que também se desenvolveu depressa na Sicília, Lombardia, Toscana, Sul da França e Catalunha, foi a das sedas, tendo sido os casulos importados da Ásia.

A Liga hanseática e as indústrias dos panos de lã e das sedas

A Liga hanseática, iniciada em Lübeck no século XII e organizada no século XIII, chegou no século XV a contar mais de 50 cidades, celebrando congressos gerais de deputados de toda a união e estendendo suas feitorias de Londres a Novgorod. O comércio da Europa setentrional estava nas suas mãos e daí lhe adveio necessariamente prestígio político, tanto mais quanto a confederação possuía esqua-dras que a faziam respeitar, formadas com contingentes de navios, homens e contribuições pecuniárias de cada uma das cidades.

O Comércio da Hansa

A civilização do Báltico e da Rússia ocidental foi muito obra dela. A conjunção de forças livrou esses centros econômicos de tutelas estrangeiras — em tempo de Valdemar, o Vitorioso (1202), Lübeck e Hamburgo estiveram sujeitas à Dinamarca — e fomentou as relações comerciais da Europa central, inventando as. feiras nas quais se reuniam os mercadores em determinadas cidades e em determinadas épocas, barateando os produtos pelo menor risco que assim corria o tráfico associado e pelo freio posto à especulação que sempre provoca a escassez do artigo. Veneza, por exemplo, ganhou rios de dinheiro, em tempo de falta de transportes, alugando suas embarcações para transportar cruzados.

Artesãos medievais

Art

Estabelecimentos de crédito. O papel-moeda e o florim

Com a ampliação do comércio surgiram as instituições bancárias. Os judeus eram perseguidos porque emprestavam a juros, mas o negócio tentou os usurários lombardos que no século XIII o chamaram a si, juntamente com os mercadores do Sul da França, sistema-tizando-se as transações e iniciando-se o uso das letras de câmbio. Os lombardos estabeleceram-se nos principais centros comerciais da Europa, e venceram certos preconceitos em vista da utilidade da sua atividade. Em 1407 estabeleceu-se o Banco de Gênova: diz-se porérr. que o primeiro banco de depósitos que se fundou foi em Barcelona, em 1401. O papel-moeda parece haver sido importado da China por Marco Pólo. O florim de ouro, primeiro cunhado em Florença em 1252, desempenhou na economia dos séculos XIII e XIV o papel que ontem cabia à libra esterlina e hoje cabe ao dólar.

Situação política da Itália

A Itália prosperava economicamente mercê das suas cidades, que tinham ido ganhando riqueza pelo seu comércio e pelas suas indústrias. Politicamente era contudo anárquica sua situação, quebrada de vez a sua unidade e oferecendo na sua composição tipos variados de governo, com principados como o de Milão, repúblicas aristocráticas como a dê Veneza e repúblicas democráticas como a de Florença. Tanto estas cidades italianas independentes como as cidades livres imperiais da Alemanha tinham praticamente tido análogas origens. Taxadas e exploradas pelos senhores feudais por causa da sua abastança, arrancaram deles por dinheiro ou pelas armas as suas franquias, algumas conseguindo emancipar-se de todo e erigir-se em comunidades republicanas, de essência ou de rótulo, graças às dificuldades dos seus suseranos.

A discórdia civil

As discórdias domésticas, mormente as provocadas pela funda rivalidade entre guelfos e gibelinos, enfraqueceram muito o organismo político italiano, apesar do brilho intenso que demonstrou sua mentalidade a meio daquelas dissenções. A luta entre Frederico Bar-barroxa e o papa Alexandre III acarretou para a Itália as mais sérias perturbações. Fora o papa Adriano III quem em 1145 chamara a Roma o herdeiro de Conrado da Suábia, coroando-o imperador, para que dominasse a agitação leiga e republicana que se propagava pela península e que em Roma se personificara no monge Arnaldo de Brescia, a quem Barbarroxa fêz queimar, ou antes, consentiu que queimassem (1155).

O domínio alemão. A transação de Constança

O domínio alemão produziu porém logo depois revoltas que o papado patrocinou e que o imperador debelou, arrasando Milão e obrigando o papa a fugir para França. Barbarroxa opôs à Liga lombarda a de outras cidades, especulando com suas rivalidades e alargando os forais das que o acompanhavam. As duas ligas guerrearam-se durante nove anos, conseguindo a lombarda levar a melhor com a vitória de Legnano (1176), pela qual impôs o tratado de Constança que regulou permanentemente a contenda relativa à independência italiana, ficando às cidades o direito de levantarem exércitos e fortificações, de se confederarem e de elegerem seus magistrados, e ao imperador o direito de confirmar os cônsules e de nomear um juiz de apelação em cada cidade.

Frederiço II e Inocêncio III

Frederico Barbarroxa casara o filho com a filha do rei das Duas Sicílias, o que trouxe à sua dinastia a posse da Itália meridional. Seu neto, Fredericp II, eleito em 1211 pela proteção do papa Inocêncio III e sob promessa de ceder seus direitos às Duas Sicílias, procurou pelo contrário jungir a Itália à Alemanha. Com um exército organizado no sul da península e composto em grande paríe de sarracenos, pretendeu submeter as cidades da Alta Itália — Verona, Pádua, Brescia, Mântua, , Ferrara, etc. As excomunhões de Inocêncio III desviaram-no um instante para a sexta cruzada, mas logo depois se lançou contra a Lombardia, ganhando a vitória da Corte Nuova (1237) e submetendo toscanos, genoveses e venezianos, que ajudavam os lombardos.

Inocêncio IV

O papa Inocêncio IV, refugiado por esses motivos em França, na cidade de Lião, aí reuniu em 1245 o concílio que depôs o imperador e na mesma ocasião o rei português D. Sancho II. Frederico II reagiu com seus sarracenos, mas foi batido em Parma e retirou-se para Nápoles, onde morreu (1250). A Santa Sé correu aí o pior perigo, pois só o falecimento do imperador obstou a que êle se valesse contra Roma dos mongóis e dos turcos. A Itália ficou desde então liberta do predomínio alemão.

O auge da intervenção da Igreja. O rei João de Inglaterra

Com Inocêncio III, que foi papa de 1198 a 1296, a política de intervenção da Igreja chegou ao apogeu: todas as nações católicas sentiram o peso dessa disciplina inflexível. Na Inglaterra o rei João, que quisera colocar na sé de Cantuária um seu protegido e repudiara o escolhido do papa, foi alvo de excomunhão, seu reino posto sob interdito e o rei de França, Filipe Augusto, chamado a empreender contra êle uma cruzada. Para manter-se no trono, teve o rei que fazer entrega ao papa, da Inglaterra e da Irlanda, recebendo-as dele como feudo perpétuo (1213), com o pagamento de um tributo que só em 1366 o Parlamento britânico recusou pagar, reivindicando a completa independência nacional.

Reações nacionais. As

O século XIV marca aliás a época da revolta das nações contra a tirania pontifical, negando-se ao papa, não sua supremacia espiritual, mas a supremacia temporal que a Igreja tinha avocado sobre toda a cristandade. Ajudaram-na nesta empresa as novas ordens religiosas criadas do século XII para o século XIII por São Domingos e São Francisco de Assis, e chamadas ordens mendicantes pela proibição institucional que lhes cabia de possuírem riquezas — proibição depressa iludida — ao mesmo tempo que lhes assistia o dever de velarem pela salvação das almas.

Os e os albigenses

Os dominicanos, associados com a Inquisição, foram os apóstolos da cruzada contra os albigenses, que eram heréticos localizados no Sul da França, onde fica a cidade de Albi, e que rejeitavam a autoridade papal, não admitiam a maior parte dos sacramentos e tinham costumes dissolutos. Protegia-os o conde de Tolosa, senhor feudal, e chegara-se ao extremo de assassinar o delegado da Santa Sé (1208).

Inocêncio III organizou contra eles a cruzada comandada por Simão de Montfort, a qual devastou a região e exterminou sua população em vinte anos de guerra desapiedada. Extinta a heresia pelo próprio morticínio dos seus adeptos, os feudos do conde de Tolosa foram incorporados à coroa francesa. Filipe Augusto, que recusara aderir à cruzada, veio assim a lucrar mais que todos com o seu resultado, que foi contribuir para a unificação nacional. O Sul da França, onde se exercera maior a ação romana, tinha-se desenvolvido muito mais do que o Norte, graças ao seu comércio mais extenso e à sua superior cultura literária, não sendo porventura alheio àquela terrível contenda religiosa o sentimento de rivalidade.

A unidade francesa. Filipe, o Belo, e Bonifacio VIII

A relativa unidade francesa, posto que ainda bastante longe de ser perfeita, serviu, durante o pontificado de Bonifácio VIII (1294-1303), ao rei Filipe, o Belo, para poder desafiar a autoridade papal. A Santa Sé proibiu por bula de 1296 e sob pena de excomunhão aos clérigos e monges o pagarem taxas às autoridades civis sem permissão do chefe da Igreja. O rei de França repeliu a injunção e, sentindo-se apoiado pela nação, levou a desavença ao insulto e à violência. Os Estados Gerais declararam nula a ingerência do papa em assuntos leigos e mais, que o monarca só a Deus tinha acima de si. Mercenários franceses prenderam e espancaram o pontífice, um quase nonagenário, que morreu com o coração despedaçado pela dor.

O Papado em Avinhão. Atitude inglesa e alemã

Pouco depois, em 1309, era o papado transferido para Avinhão, na Provença, onde permaneceu durante os 70 anos que a Igreja compara ao período do cativeiro de Babilônia. De fato, no decorrer desse tempo, os papas foram todos franceses e sua política era ditada pelos reis de França, o que naturalmente acirrava noutros países a repulsa à interferência pontifical nos assuntos civis. Já vimos a atitude assumida pelo Parlamento britânico; na Alemanha os eleitores do império declararam em 1338 que os poderes do soberano não lhe eram outorgados pela papa, mas derivados do próprio Deus por intermédio daqueles eleitores, declaração que a Dieta germânica confirmou, tornando assim o imperador na sua eleição e no exercício das suas funções independente da Santa Sé. O número daqueles eleitores foi em 1356 fixado em sete: o rei da Boêmia, o duque da Saxô-nia, os arcebispos de Mogúncia, Colônia e Treves, o margrave de Brandeburgo e o príncipe palatino (Alto Reno).

Cisma do Ocidente

Os grandes senhores feudais alemães tinham aproveitado o período de confusão e de contendas que se seguiu à extinção da dinastia dos Hohenstaufen (1250-1273) para alargar seus privilégios e seus domínios. O feudalismo chegou ao auge na Alemanha nessa segunda metade do século XIII. O papa Gregório X patrocinou então a eleição de um senhor que não pertencia ao alto feudalismo, mas possuía predicados pessoais para fazer vingar a ordem (1273). Era Rodolfo, conde de Habsburgo, chefe da dinastia que até ontem reinava em Viena e cujos feudos ficavam na Alsácia, na Suábia e na Suíça. Tendo vencido e morto em batalha o rei Otocar da Boêmia, eleitor recalcitrante, deu Rodolfo a seu filho Alberto a investidura dos ducados da Áustria, Estíria e Carniola. A Áustria era um Estado de fronteira criado para deter os húngaros: marco oriental, Ostmark, donde Oesterreich.

Rodolfo foi um verdadeiro imperador, restabelecendo a paz nos seus domínios, proibindo as guerras privadas que entre si moviam os senhores e que eram o cancro econômico da sociedade feudal e até mandando arrasar castelos de poderosos rebeldes. Pela Pragmática Sanção de Francíort do começo do século XIV ficou estabelecido que a escolha da maioria dos eleitores imperiais era obrigatória e dispensava mesmo a confirmação pelo chefe da Igreja. Por sua vez se emancipava o império do papado.

No reinado de Alberto de Habsburgo a Europa ficou contando mais uma nacionalidade: a helvética, democracia que tanto honra a história. A Suíça era um agregado de feudos e por um momento fêz parte do reino da Borgonha Cisjurana, quando a própria Borgonha se cindiu em duas por ocasião da dissolução do império de Carlos, o Gordo, nos fins do século IX. A revolta contra a autoridade imperial partiu dos cantões onde a casa de Habsburgo era suserano (1307): a vitória de Morgarten em 1315 assegurou-lhes a independência e novos territórios — um total de oito cantões — foram entrando para a confederação, que novas vitórias consolidavam. Sua soberania foi reconhecida pelo duque de Áustria em 1389 e no século XV os montanheses suíços estabeleceram seu direito perene a uma vida política própria vencendo em Granson e em Morat (1476) as tropas de Carlos, o Temerário, duque de Borgonha, o último e o mais poderoso, se não o mais perigoso dos grandes senhores feudais.

O despertar das idéias de independência parece aliás haver sido um traço notório da história européia, nos fins do século XIV. A oposição ao império já era palpável. Esta instituição pretendera estabelecer sobre todos os reinos a sua superioridade, como se fosse a verdadeira reencarnação do império romano. A França cedo lhe repeliu o protetorado, fiando-se seu rei na sua espada. Veio agora a vez de a Santa Sé provocar os primeiros ensaios da rebeldia organizada contra o seu prestígio, por assim dizer, divino.

O chamado cisma do Ocidente proveio do fato de, por morte de Gregorio XI em 1378, um ano após seu regresso de Avinhão, ter o povo romano exigido do conclave que o sucessor fosse italiano e não francês.

A união de Calmar

Os cardeais, que de começo eram os bispos sufragáneos do metropolita de Roma, por se dizer que a Igreja girava sobre eles como uma porta sobre seus gonzos (carda), de fato elegeram Urbano VI, arcebispo de Bari, mas pouco depois pretextaram alguns deles que houvera coação e opuseram-lhe Clemente VII, que voltou a residir em Avinhão, permanecendo o outro pontífice em Roma. França, Castela, Portugal, Nápoles, Lorena, etc., reconheceram o papa de Avinhão; Inglaterra, Dinamarca, Suécia, Polônia, etc. o papa de Roma. Foi por esse tempo (1397) que, depois de muitas discórdias, os três reinos escandinavos celebraram a união de Calmar, confederan-do-se mas conservando cada um sua constituição e legislação próprias. A liga não apaziguou contudo os ânimos; prosseguiram os atritos e desavenças, e a união rompeu-se quando a Suécia proclamou em 1523 seu rei nacional, Gustavo Wasa. À Dinamarca ficou unida a Noruega e à Suécia a Finlândia.

Os dois papas excomungavam-se mutuamente, sem que entre eles houvesse a extremá-los diferença alguma de dogma ou de rito: o temor das excomunhões baixara porém muito desde o tempo em que Igreja e Império lutavam pela primazia, querendo o imperador que o papa fosse o seu capelão e querendo o papa que o imperador fosse o seu escudeiro. A sujeição do império dera ensejo a que se emancipassem os reis; e a Igreja, conquanto como sociedade perfeita fundada por Jesus Cristo fosse sempre alheia às tendências que os homens lhe quisessem imprimir, aparece para alguns escritores como o desabamento da teocracia, a que a mesma Igreja, segundo esses escritores, aspirava na sua reprodução da evolução romana: a Igreja cristã a princípio governada pelo corpo dos fiéis (o povo), depois pela hierarquia episcopal (a oligarquia senatorial) e por fim pelo papa (o imperador).

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