ALEXANDRE DE GUSMÃO

ALEXANDRE DE GUSMÃO

ALEXANDRE DE GUSMÃO (Santos, 1695-1753) serviu nove anos como secretário particular de D. João V; e deixou cartas que não são obras de escrupulosa linguagem, mas nas quais dá provas de sagacidade, espírito observador, e admirável tino prático. Retirado dos públicos negócios depois da morte de D. João V, perdeu dois filhos no incêndio que lhe devorou a casa, e apenas sobreviveu um ano a tão infausto sucesso.

Carta a um Enviado de Portugal na Corte de Inglaterra

Meu amigo e senhor. — Estimo as notícias de Vossa Se-nhoria, c lhe dou o parabém de ter chegado felizmente a essa côrte, aonde (338) se acha livre de animais que o molestavam, e goza da liberdade que Deus conferiu ao homem, sem ofender os preceitos de sua lei.

Os Ingleses ignorantes aborrecem os católicos, sem saberem o porquê; mas os bem instruídos e civis são excelentes para a sociedade, sem ofenderem a nossa crença. Logram-se em Ingla-terra muitas outras delícias que aqui são ignoradas; e como Vossa Senhoria não vai a negociar (339) coisa alguma, pode levar boa vida sem ofensa do seu caráter, que só correria risco querendo encher as obrigações do seu ministério; mas como aqui não querem isso, está Vossa Senhoria desobrigado.

Não se esqueça Vossa Senhoria dos amigos, que deixou lutando com as ondas do mar da superstição e da ignorância; e agradeça aos seus inimigos o mimo de que atualmente goza. Eu lambem havia de descompor os meus, se tivesse a certeza de lhes merecer semelhante desterro: mas lembra-me a queixa de Camões a respeito do desconcerto do mundo, e por isso me empenho em esquecer-lhes; (340) no que serei afortunado, se o puder conseguir.

Não há mais novidades que arder o palácio do Lavra, e ainda que El-Rei já não arde, sempre suavizou a mágoa com o pêsame, e com várias madeiras e outros oferecimentos. — Fico para dar gosto a Vossa Senhoria, que Deus guarde. — Lisboa, a 16 de fevereiro de 1750.

(Coleção de Vários Escritos Inéditos, Políticos e Literários de ALEXANDRE DE GUSMÃO ).

 

Carta a Diogo Barbosa Machado

Sinto muito que V. Mcê. tomasse o incômodo de buscar–me, e que o não achar-me em casa (341) me roubasse o gosto da sua estimável conversação, da qual procurarei aproveitar-me sem moléstia sua. Muito tenho que agradecer a V. Mcê. ocorrer–lhe meu nome ao formar um catálogo dos Portugueses eruditos, sendo maior agradecimento quanto menos razão havia para que eu devesse lembrar-lhe; (342) e, suposto que não desconheça ou deixe de apreciar a honra que V. Mcê. me faz, é justo também que me não induza o amor próprio a abusar dela.

Alguns amigos me fazem a mercê de espalhar no público um conceito vantajoso dos meus estudos; porém como estes, enquanto se não dão a conhecer pelas obras, dependem de mui pia fé para se acreditarem, não devo atribuir o estabelecimento daquela fama senão à benevolência dos que me favorecem; pois até ao (343) presente não tenho mostrado composição por onde pudesse adquiri-la; e, fazendo contas com o meu talento, tenho por mui provável que a perderia de todo, saindo aliás com algum volume.

Suposta esta verdade, que sou obrigado a confessar, ainda que me cause confusão, discorro que também V. Mcê. se tem deixado enganar com aquela não merecida opinião, e que seria estranhada a boa exação e boa crítica de V. Mcê contar na Biblioteca Lusitana entre os autores a um indivíduo que não o é; e, assim como não tenho que responder ao interrogatório das obras principais que compus, julgo supérfluo (344) dar satisfação aos mais requisitos que contém a carta de V. Mcê.

No seu livro terei que invejar aos varões que pelos seus trabalhos se fizeram merecedores dos elogios de tão discreto e inteligente juiz,, c sempre conservarei uma viva lembrança do

lugar que a bondade de V. Mcê. me queria dar nele, que será um novo motivo para desejar repetidas ocasiões em que possa servir a V. Mcê. muitos anos.

De casa, 2 de maio de 1740.

(Coleção de Vários Escritos Inéditos, Políticos e Literários de ALEXANDRE DE GUSMÃO ).

Da resposta que deu ao Brigadeiro Antônio Pedro de Vasconcelos sobre o negócio da Praça da Colônia

Descobertas por Colombo as primeiras ilhas no golfo do México no ano de 1492, o papa Alexandre VI, espanhol, expediu no seguinte uma bula para regular uma repartição de conquista entre as duas monarquias, determinando que cem léguas ao ocidente das ilhas dos Açores, ou de Cabo-Verde, se imaginasse uma linha meridiana de polo a polo; e quanto desta figura da linha ficasse para o oriente fosse conquista de Portugal, e para opoente, de Espanha. Clamou contra esta partida (345) o nosso rei D. João II; e, depois de várias negociações, se ajustou entre rle e os reis de Castela e Aragão um tratado em Tordesilhas no ano de 1494, em que se assentou que a dita linha meridiana se suporia lançada trezentas e setenta léguas para o poente das ilhas de Cabo Verde, sem se definir de qual delas se deveria principiar a conta; sendo que a mais oriental daquelas ilhas dista mais de quatro graus meridianos da última que fica ao poente; e juntamente ficou estipulado que os Espanhóis não poderiam navegar para a parte do sul da costa da África. Depois de passados seis anos, descobrimos o Brasil: e no mar da Ásia adiantamos as nossas conquistas tão rapidamente que cm menos de vinte anos depois da primeira viagem da Índia já tínhamos penetrado até o arquipélago de Moluco, onde descobrimos o importantíssimo comércio das especiarias.

Fernando de Magalhães naquele tempo tornou do Oriente, e, sem razão agravado de sua pátria, passou ao serviço do imperador Carlos V, e propôs a este príncipe que tinha por certo ser a terra redonda, ponto até então muito duvidoso; e que, sendo assim, devia a dita linha meridiana pacteada (346) em Tordesilhas circular pelo outro hemisfério, deixando à conquista de cada uma das coroas cento e oitenta graus meridianos. O que suposto, mostraria que as ilhas da especiaria estavam dentro dos cento e oitenta graus de Castela, que se obrigava a descobri-los por novo caminho, sem ofensa da proibição, que no tratado de Tordesilhas ficava posta à Espanha, de navegar para a parte do Cabo da Boa Esperança (347).

A corte de Madrid, que já se tinha achado bem em dar ouvidos às proposições de Colombo, que outros tiveram por quiméricas, subministrou a Magalhães três navios para ir executar o seu desígnio. Descobriu o estreito, a que pôs o nome de seu apelido; e, navegando pelo mar do sul, chegou finalmente às ilhas do arquipélago de Moluco, onde o mataram os bárbaros. Mas do roteiro que deixou da sua navegação, usando de um notável engenho, por sustentar o que havia segurado ao imperador, tinha diminuído os espaços, de sorte que fraudou o mar do Sul mais de quarenta graus meridianos como se vê do mapa que traz Herrera na sua História das índias Ocidentais; e por esta forma não só o arquipélago, mais ainda até Malaca compreendeu nos cento e oitenta graus de Espanha.

Não foi pequeno o dano que com uma tal infidelidade causou à sua pátria este tal aventureiro, indigno do nome português; (348) porque os espanhóis, persuadidos daquela impostura, pretenderam por força de armas senhorear-se daquelas ilhas de especiaria, fomentando esta empresa pelas naus que mandavam ao México pelo mar do Sul. Durou alguns anos naquela parte a guerra entre as duas nações, até que o nosso rei D. João III tratou com o imperador que se atalhasse esta contenda, averiguando amigavelmente o direito de cada uma das coroas nas conferências que para esse fim se fizeram em Saragoça.

Porém nelas os comissários de Portugal, sem embargo de lhes sobrar a razão e a justiça, se acharam totalmente destituídos de meios para mostrá-la; porque os Espanhóis sustentavam a dimensão do mapa de Magalhães, e, como nenhuma outra nação tinha navegado o mar do Sul, não havia no tempo que aquelas conferências se fizeram, modo ou meio de convencê-lo de falso, ignorando-se sobretudo ainda naquele século a observação dos satélites de Júpiter, e outros meios com que no seguinte se facilitou a averiguação das longitudes.

Todos os recursos dos nossos comissários eram os roteiros dos pilotos da Índia; e para lhes sair mais vantajoso o cálculo (atendendo somente às ilhas de especiaria, e não ao Brasil, de que os Portugueses daquele tempo faziam pouco caso) contaram as trezentas e setenta léguas da ilha do Sal, que é a mais ocidental de Cabo Verde. Mas nada bastava para desfazer de todo o erro que os roteiros dos Espanhóis do mar Pacífico tinham delineado; e o mais que os nossos comissários puderam mostrar, foi que o mapa ou nossa demarcação incluía grande parte do mar da China.

(Coleção de Vários Escritos Inéditos, Políticos e Literários de ALEXANDRE DE GUSMÃO ).

Glossário de termos

(338) aonde = onde.
(339)
não vai a negociar. Muito usadas dos escritores as expressões equivalentes a esta (vir a, sair a, ir-se a, lançar-se a, acudir a, partir a) indicativas do fim a que se move o sujeito do verbo e seguida a preposição de um infinitivo: "me saiu a receber [=saiu a me receber] (Bernardim Ribeiro, Églogas, p. 128). "Saiu a pelejar em Matã". (Latino Coelho, Estante Clássica, vol. IX, p. 44). Nos Lusíadas: IV, 55, 91; V, 91; VI, 63, 75; VII, 30, 34; VIII, 68, 93; X, 119. Para outros autores veja-se a nota 3 do citado vol. IX da Est. Clássica.
(340) em esquecer-lhes; melhor: em esquece-los ou em esquecer-me deles.

(341) o não achar-me em casa. V. n. 36.
(342)
para que eu devesse lembrar-lhe: para que eu devesse ser lembrado a V. Mcê.; para que lhe lembrasse o meu nome. Lembrou-lhes algo correspondente a lembraram-se de algo. V. n. 93.
(343)
até ao ou até o, indiferentemente, quando preceder nomes; mas simplesmente até, antes de infinitivo verbal.
(344)
supérfluo = demasiado, excessivo, o que sobra; da raiz jlu de tlitere, correr, de jluxus, escoamento, de fluvius e tlumen, rio; e que produz os seguintes cognatos: flux, fluxo, fluir, fluência, fluescer, afluir, afluência, afluxo, confluência, confluir, influxo, influição, influir, influência, refluxo, refluência, refluir, supérfluo, superfluidade; flúor, flúor, fluido, fluídico, fluidez, fluidificar; fluvial, fluviátil, fluviômetro, eflúvio; ílumíneo; flutuar, flutícola, flutígena, flutívago, flutissonante, flutuação etc, todos adstritos à idéia do que corre ou escorre como líquido.

(345) partida — partilha, divisão, bipartição.

(346) pacteada ts pactuada. Do lat. pactus, part. de paciscor, dimanam três formas: pactuar, pactear e pactar, esta menos usada. Da mesma raiz è pautar, atualmente com outro sentido.
(347) de navegar para a parte do Cabo da Boa Esperança — é oração infinitiva, adjetiva porque se prende ao substantivo proibição, restringindo-o. Sentenças dessa espécie, quando têm o verbo no modo finito, precedem-se da conjunção integrante — que, antecedida da prepos. de’. Recebeu a notícia de que haverá novos livros (conjuncional, adjetiva, restritiva do subst. notícia), "Essas palavras…, como expressão… do princípio de que
a lei… é a suprema força no governo, compendiam três dogmas fundamentais do nosso direito político". (Rui, Atos lnconst., p. 221).
(348) Convém ler o elogio de Magalhães, feito por Latino Coelho, em justificação do ato e em ressalto da glória do valoroso Lusitano, que Camões, em dois versos, exaltou e deprimiu ao mesmo tempo. (Lus.tX, 140).


Seleção e Notas de Fausto Barreto e Carlos de Laet. Fonte: Antologia nacional, Livraria Francisco Alves.

 

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