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SEBASTIÃO DA ROCHA PITA


SEBASTIÃO DA ROCHA PITA (Bahia, 1660-1738) era formado em Cânones por Coimbra, e viveu repartindo a sua atividade entre os misteres Igrlcolas e o culto das letras. Estudou muitas línguas estrangeiras e, depois de laboriosas pesquisas nos arquivos de , publicou em 1730 a sua História da América Portuguesa.

O estilo é geralmente empolado, porém há muitos trechos formosos o que ainda tornam recomendável a leitura dessa obra.

Belezas e opulência do Brasil — Estado de Portugal quando o descobriu — Posição geográfica do Brasil

1.°) Do Nôvo-Mundo, tantos séculos escondido e de tantos sábios caluniado, (329), onde não chegaram Hanão com suas navegações, Hércules Líbico com suas colunas, nem Hércules Tebano com suas empresas, é melhor porção o Brasil; vastíssima região, felicíssimo terreno, em cuja superfície tudo são frutos, em cujo centro tudo são tesouros, em cujas montanhas e costas tudo são aromas, tributando os seus campos o mais útil alimento, as suas minas o mais fino ouro, os seus troncos o mais suave bálsamo, e os seus mares o âmbar mais seleto, admirável país, a todas as luzes rico, onde, prodigamente profusa, a natureza se desentranha nas férteis produções, que em opulência da e benefício do mundo apura a arte, brotando as suas canas espremido néctar, e dando as suas frutas sazonadas a ambrósia (330) de que foram mentida sombra o licor e vianda (331) que aos seus falsos deuses atribuía a culta gentilidade.

2.°) Em nenhuma outra região se mostra o céu mais sereno, nem madruga mais bela a aurora: o sol em nenhum outro hemisfério tem os raios tão dourados, nem os reflexos noturnos tão brilhantes; as estrelas são as mais benignas e se mostram sempre alegres; os horizontes, ou nasça o sol, ou se sepulte, estão sempre claros; as águas, ou se tomem nas fontes pelos campos, ou dentro das povoações nos aquedutos, são as mais puras; é, enfim, o Brasil terrenal paraíso descoberto, onde têm nascimento e curso os maiores rios; domina salutífero clima; influem benignos astros, (332) e respiram auras suavíssimas, que o fazem fértil e povoado de inúmeros habitadores, posto que, por ficar debaixo da tórrida zona, o desacreditassem e dessem por inabi-tável (333) Aristóteles, Plínio e Cícero; e com os gentios os padres da Igreja, e Beda, que, a terem (334) experiência deste feliz orbe, seria famoso assunto das suas elevadas penas, aonde a minha receia voar, posto que o amor da Pátria me dá asas, e a sua grandeza me dilata a esfera.

3.°) Florescia o Império Lusitano muitos séculos depois de ser fundado por Tubal, ampliado por Luso e por Lísias, e de terem os seus naturais gloriosamente na Pátria obrado ações heróicas, e concorrido fora dela para as maiores empresas, já nos socorros que deram aos Cartagineses conduzidos por Safo para domar a Mauritânia, já nos que acompanharam a Aníbal para conquistar a Itália, já concorrendo com Mitridates contra Pompeu, e com Pompeu e seus filhos contra César; e de haverem na defesa da própria liberdade feito admiráveis provas de valor com os seus capitães Viriato e Sertório contra os Romanos; e finalmente, depois que, livre da sujeição dos Suevos, dos Alanos, dos Godos e dos Sarracenos, tendo já logrado, no seu primeiro rei português, o invicto D. Afonso Henriques, e na sua real prole, o suave domínio de treze sucessivos monarcas naturais, se achava na obediência do felicíssimo rei D. Manuel.

4.°) Mantinha com a Tiara Romana a antiga união, firme com a nossa obediência e religião; com Castela estava em paz assegurada pelas nossas vitórias; tinha amizade com a Coroa Imperial, com as de França, Inglaterra, Escócia, Suécia, Polônia e Dinamarca; com as repúblicas e nações setentrionais e italianas, pelos interesses recíprocos e comuns das monarquias; fazia guerra aos Mauritanos, aos Etíopes e aos Asiáticos, para lhes introduzir a fé católica; achava-se dilatado com o descobrimento das ilhas de Porto Santo, da Madeira e dos Açores no Aceano, e por diferentes mares, com muitas praças e províncias em África, com grandes povoações e na Etiópia, e começava a mostrar-lhe (335) os seus maiores domínios a , quando o Novo Mundo lhe abriu as portas de sua mais vasta região.

7.°) Jaz o opulento Império do Brasil no hemisfério an-tártico, debaixo da zona tórrida, correndo no meio dela (em que começa) para a parte austral do trópico de Capricórnio, donde entra na zona temperada meridional grandíssimo espaço. É de forma triangular; principia pela banda do norte no imenso rio chis Amazonas, e termina pela do sul do dilatadíssimo rio da Prata; para o levante o banham as águas do Oceano Atlântico; para o ocidente lhe ficam os reinos de Congo e Angola, e tem por antípodas os habitadores da Áurea Quersoneso, onde está o reino de Malaca. Na sua longitude grandíssima contam os cosmógrafos mil cinqüenta e seis léguas de costa, a mais formosa que cursam os navegantes, pois em toda ela e em qualquer tempo estão as suas elevadas montanhas e altos arvoredos cobertos e vestidos de roupas e tapeçarias verdes, por onde correm inumeráveis e caudalosos rios, que em copiosas e diáfanas correntes precipitam cristais nas suas ribeiras, ou levam tributo aos seus mares, em que há grandes enseadas, muitos e continuados portos, capacíssimos dos maiores baixéis e das mais numerosas armadas.

(História da América Portuguesa, liv. 1.°, pp. 1-4).

 

Combate entre os Portugueses e os índios no Rio de Janeiro

33) Acometidas pelos Portugueses as estâncias contrárias, era a sua a proporcionada ao nosso furor. A sua disciplina, aprendida com os Franceses, e já alguns anos praticada, fazia tão difícil o seu rendimento como constante a nossa porfia. Excitados do valor, pelejavam também os elementos; o fumo e as setas tinham ocupado o ar; as balas e o estrondo levantavam as ondas; tremia a terra na contingência de quem a havia de possuir; o fogo achava várias matérias em que arder; tudo era horror, mas, superando a toda aquela confusão o nosso esforço, ganhámos aos inimigos todas as suas forças e estâncias, deixando mortos inumeráveis gentios e muitos Franceses; e os que tomamos vivos, foram pendurados para exemplo e terror.

34) Logo senhoreamos toda a enseada, e em prossecução da vitória penetramos o continente, matando no alcance muitos gentios, que, formando vários corpos da sua gente, intentaram impedir-nos o passo; os mais se retiraram para o interior daquele sertão, aprendendo à sua custa o quanto lhes importava a sua quietação, e o não provocarem a nossa ira, tão justamente empregada na sua contumácia. As terras conquistadas se repartiram

(336) por moradores ricos, capazes de as cultivar e defender, de cuja vizinhança se davam os inimigos por tão mal seguros,

(337) que não ousavam mais aparecer, retirando-se sempre para os sítios mais distantes e remotos do país.

(História da América Portuguesa,, liv. 3.° p. 83).

Notas e Vocabulários dos Textos selecionados de SEBASTIÃO DA ROCHA PITA

(329) — de tantos sábios caluniado — o agente da passiva está aí regido pela prepos. de, que com as prepos. por e per constituem as mais usuais nessa regência. Esse agente da voz passiva, impropriamente chamado adjunto adverbial de , faz-se também, às vezes, preceder das preposições a, com ou em. Leia-se nesse propósito a anotação sob o n.° 70 do vol. IX da Estante Clássica da Revista de L. Port., pp. 207-208.
(330) — ambrósia (alimento dos deuses) é a boa pronúncia; mas vários dicionários,
e entre eles o Vocabulário de Ramiz Galvão, averbam ambrosia, pronúncia mais generalizada. O Vocabulário da Academia aceita as duas: ambrosia, para o manjar; ambrósia, para diversas plantas e para o antropônimo (Ambrósia).
(331) — vianda — termo antigo na língua. Significa alimento, comida, e
provém de vivenda pela forma *vivanda com a síncope do — v. João de Barros, no Panegírico de D. João III, e as Oráen. Afonsinas, citados por Morais no Dicion., empregam o termo viandas como pratos, guisados; e Samuel Usque na Consolaçam escreve: …"tirava para a alegre mesa cada um, de suas viandas, gostosas e naturais" (Diálogo primeiro, p. 4 verso, ed. de Mendes dos Remédios). O vocábulo nos veio pelo provençal. O francês tem viande.
(332) benignos astros — V. n. 289.
(333) o dessem por ina-bitável = o considerassem, o reputassem inabitável: — o —, objeto direto; por inabitável, predicativo do objeto.
(334) a terem — se tivessem. Observe
o estudante o anacoluto que aí se descobre.
(335) começava
a mostrar, ou começava de mostrar. Os antigos usavam igualmente a locução com este v. começar sem a preposição: "Vendo-me também chorar / começou assim falar". "Quando começam as aves / com seus cantares suaves / fazer tudo gracioso". (Bernardim Ribeiro, Romance, nas Églogas, ed. de Marques Braga, Lisboa, 1923, pp. 128 e 126). Veja também, neste vol., o trecho de Francisco de Morais, onde se lê: …"começaram ambos fazer maravilhas"…

 (336) se repartiram — se apassivador. (337) se davam os inimigos por tão mal seguros — o mesmo caso exarado em a nota 333.


Seleção e Notas de Fausto Barreto e Carlos de Laet. Fonte: Antologia nacional, Livraria Francisco Alves.

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