Eduardo Paulo da Silva Prado – Membro fundador da ABL

Eduardo Paulo da Silva Prado – Membro fundador da ABL

EDUARDO PRADO (São Paulo, 1860-1901) formou-se em Direito na Faculdade da sua província natal e, membro de opulenta família paulistana, longamente viajou, não só pela Europa como por outras partes do mundo. Das suas peregrinações por todas essas terras há dois volumes interessantes: Viagens à Sicília, Malta, Egito e Viagens na América, Oceania e Ásia. l

Escrevendo para a Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, assinalou com admirável perspicácia os pródromos sociais e políticos da proclamação da República.

Contra a nova ordem de coisas compôs na Europa um livro que teve franca repercussão entre os monarquistas, Os Fastos da Ditadura Militar, de que há uma edição prefaciada pelo Visconde de Ouro Preto,

Infenso à propensão, então manifestada, para imitação do regime e das praxes dos Estados Unidos, publicou a sua Ilusão Americana, cuja primeira edição foi confiscada e destruída pela polícia de São Paulo.

Estilista nervoso e vibrante, Eduardo Prado temperava a combatividade aliás sempre delicada, mesmo quando ferina, com erudição pacientemente formada nas bibliotecas e arquivos. Exemplo deste seu feitio nos oferece o seu magnífico trabalho sobre a Bandeira Nacional, criticando irrefutavelmente os deslizes cosmográficos e históricos dos positivistas, planeadores da atual bandeira.

Publicaram-se, depois da sua morte, quatro volumes de Coletâneas, isto é, uma coleção dos seus melhores escritos sobre assuntos brasileiros.

Por ocasião do tri-centenário de Anchieta, Eduardo Prado colaborou no volume comemorativo, e sempre com a habitual galhardia das suas contribuições. ,

A morte prematura deste homem de letras, salteado pela febre amarela no Rio de Janeiro e indo fenecer em São Paulo, encheu de luto não só o Brasil como as rodas finamente literárias que na Europa, e principalmente em Portugal, tanto ou talvez mais do que nós, apreciavam o ilustre Brasileiro.

A História do Brasil – Trecho da Obra de Eduardo Prado

A nossa História é cheia de emocionantes episódios, de dúvidas que despertam e prendem a curiosidade, de lendas poéticas que seduzem e de problemas cuja solução desafia a sagacidade do estudioso.

O grande mistério da espécie humana na América pre-his-tórica, está, em grande parte, escrito e oculto no Brasil, nas línguas indígenas, onde os filólogos o querem decifrar; nas camadas do solo, onde há os vestígios de extintas espécies, e onde se descobrem as imagens impressas e, às vezes, os restos da fauna do passado, entre os quais Lund, nas furnas da Lagoa Santa, julgou descobrir o homem contemporâneo de um mundo desaparecido. Na cerâmica dos vasos de Marajó há o aparecimento de uma arte, pela qual o sentimento estético daqueles desconhecidos oleiros se aproxima da pureza das formas e da harmonia das linhas que os ceramistas da Ática consagram.

À beira das praias, onde o mar espuma, a recordação das gerações que passaram está nas conchas amontoadas, entre as quais se acha, dentro da sua urna funerária, a múmia misteriosa do homem sem nome; e o estudioso pergunta se aqueles mortos e se os habitantes selvagens das nossas terras não são ruínas de povos, e, como diz Martius, "o resíduo de uma muito amiga, posto que perdida história".

E quando é que o Brasil começou a existir para o resto do mundo? Em que época se veio juntar à torrente da História?

Foi na época deslumbrante da Renascença que o fio, tênue então, mas para sempre ininterrupto da sua vida, se veio entretecer na trama (141) universal da vida das nações. As viagens oceânicas, um dos grandiosos episódios daquele tempo, franquearam o Atlântico, e assim a Europa e, mais tarde, a África, puderam vir reunir-se neste grande pedaço da América e formar o Brasil. Vieram então as armadas, velejaram ao longo das nossas costas as caravelas e as naus, tomando alturas, recebendo água em caminho da Índia, erigindo padrões, deixando homens desterrados. Pereceram em ignorados naufrágios alguns navios e os desterrados e os salvos das ondas, esses padrões vivos da nossa raça conquistadora, aí ficavam na terra e eram o misterioso João Ramalho, o obscuro bacharel de Cananéia, mais tarde o lendário Caramuru ou o ingênuo e tão interessante Hans Staden. Portugueses e Franceses chegavam à costa brasileira; traficavam em pau-brasil, estabeleciam feitorias, depósitos ou pontos de negócio, e isto sem deixar vestígios, como se vê do que aconteceu na história tão obscura do comércio dos Fenícios e Cartagineses, que rodearam a África, foram ao incerto Ofir do Oceano Indico e, em busca do estanho e do âmbar, às costas da Inglaterra e às praias hiperbóreas do Báltico.

Foi nesse século XVI que se esculpiu o coro da Igreja de São Jaques, em Diepe, onde, na figuração das cenas da vida dos mercadores da cidade, aparecem Índios, contando e carregando pau-brasil, todos armados das suas emplumadas araçóias (*). E outros Índios então levados à França, como curiosidade, acampavam em Ruão à margem do Sena e iam ornar a entrada triunfal de Henrique II, cristianíssimo rei de França, e da muito ilustre dama Catarina de Médicis, sua esposa. Carlos IX dialogava com outros Índios e Montaigne, fazendo traduzir uma canção dos Tupinambás, declarava achar nela um sabor todo anacreôntico (**).

Quem se dedica à História do Brasil não se encerra dentro de uma especialidade árida e estreita. Desde a época da descoberta nenhum grande fato europeu deixou de ter a sua repercussão no Brasil ou de influir em nossos destinos. Se alguém entre nós fizesse a experiência de ensinar a um adolescente a História do Brasil, explicando-lhe sucessivamente os acontecimentos da História da Europa e pintando-lhe os seus personagens, (142) à medida que em nossa história fossem aparecendo os efeitos daqueles acontecimentos ou a influência daquelas figuras — esse adolescente acabaria sabendo não só a história da sua pátria, mas também quase que (143) a história completa do Ocidente do velho mundo dos últimos três séculos.

A reforma repercutiu no Brasil na tentativa da colonização huguenote de Villegagnon e, à sombra dos alterosos rochedos da baía do Rio de Janeiro, discutiram teólogos de Genebra com teólogos católicos e, perante os selvagens nus, a mais elevada teologia, e terçaram os argumentos mais sutis sobre a Graça, a Presença Real e a Predestinação. Surge no campo católico a reação organizada na Companhia de Jesus, e dos primeiros dos seus soldados vêm muitos ao Brasil, cuja história fica então ligada à dos Jesuítas.

 

(*) Margry, Les Navigations Françaises, Paris, 1867, p. 171. (**) Montaigne, Essais, livro 1, cap. XXX.

(141) entretecer na trama. O verbo tecer, componente do verbo acima, devia escrever-se com dois ss, consoante o seu étimo, que é o verbo lat. texXre (pron. técsere), no qual, perdido o fonema explosivo — c (—k), restou o — í — surdo, que se duplicou entre vogais. A forma tecer (com c: por analogia com os verbos incoativos), está, porém, tão arraigada que o próprio Vocabulário a regista. O vernáculo trama, do lat. trama, é geralmente feminino;

e não se deve incluir entre os termos acabados em — ma, de origem grega, todos masculinos: anagrama, panorama, teorema, telefonema, clima, sintoma, idioma, carcinoma etc. Alguns dicionários, todavia, ao averbar o termo, dão-lhe os dois gêneros, indiferentemente; outros distinguem trama (fio, tecido) feminino, de trama (intriga, ardil, tramóia) masculino. Rui serviu-se do vocábulo nos dois gêneros: feminino, na Réplica, 326; masculino, na Queda do Império, I, p. 328, e na Réplica, 20, in fine. (142) Vide nota 65. (143) O uso de um que depois de certos advérbios e locuções {felizmente, certamente, quase, talvez, sem dúvida) tem sido aceito, por se deparar em escritores cabais: — "quase que se sucedem um ao outro". (Rui, Répl., 201); "quase que já chegaram." (Id., Cartas de lngl., 2.a ed., p. 208); "quase que é o mesmo". (Herculano, Lendas e Narr., p. 286); " Talvez que o último dia". (Rebelo da Silva, ap. Dicion. de Laudelino e Campos, sub. v. talvez); "Verdadeiramente que não tenho a nossa língua por grosseira"… (R. Lobo, Corte na aldeia, diálogo I); "Felizmente que não estava só". (Garrett, Viagens na Minha Terra, p. 50); "Em suma que nada justifica a implantação desse neologismo". (Rui, Répl., 131). Isso leva a supor nesse que um possível conectivo integrante, ligado a um verbo elíptico. é fato, porém, que esse expletivo acarreta, não só na linguagem das crianças e do povo, senão também na de homens cultos, a feitura de frases francamente erradas, que é mister corrigirem-se: Onde que você esteve? quando que iremos?; quem que disse? por que que não responde? Pode-se aí supor a elipse do verbo ser. Melhor parece, porém, que se evitem tais formas, pouco acomodadas à castidade da língua.

 

A Espanha quase realiza o sonho da monarquia universal e nessa monarquia entra o Brasil, como parte do domínio de Felipe II. Há o primeiro anúncio da futura supremacia marítima da Inglaterra, quando Elisabeth promove por todos os meios o desenvolvimento naval e Eduardo Fenton, um dos vencedores futuros da Invencível Armada, penetra em Santos, que Cavendish mais tarde saqueia; Withrington assola os arredores da Bahia, Lancáster ataca o Recife.

Nasce o poder marítimo dos Holandeses e Olivier van Noort surge diante do Rio de Janeiro, van Carden tenta apossar-se da Bahia; Joris van Spilbergen hostiliza Santos. Prenúncios estes de que a revolta dos Países Baixos contra a Espanha ia ter também como teatro de ação a nossa terra; e assim foi nos trinta anos das invasões e das guerras holandesas ao norte do Brasil. Desde então, na solução das grandes crises européias, por ocasião das pazes de Vestfália e de Munster no século XVII; na paz de Utrecht no século XVIII; e, em nosso século, nos tratados de Viena em 1815, o Brasil, isto é, a questão da legitimidade e dos limites da soberania portuguesa na América, foi objeto de discussão e de transação.

No século XVIII, a maior vitória do filosofismo foi a destruição dos Jesuítas, fato da maior gravidade para o Brasil.

E, noutra ordem de idéias, de que alcance não foi para a vida econômica e social do mundo inteiro toda a inundação de ouro saído do Brasil, quando houve ano em que só a capitania de Minas produziu mais de 500 arrobas de ouro?

E, mais perto de nossos dias, a tormenta revolucionária e a passagem de Napoleão pelo mundo tiveram como conseqüência, deste lado do oceano, a forma extraordinária pela qual, sem sacrifício, foi ganha a nossa Independência.

Um ilustre poeta inglês prestou um imenso e inestimável serviço a nós todos, escrevendo uma (144) notável História do Brasil.

Meditando sobre a nossa história, Roberto Southey ficou compenetrado da importância e do valor futuro do Brasil. E, ao terminar a sua grande obra, diz-nos que escolheu esta grande tarefa "na sua virilidade madura e que a propôs como objeto de uma vida dedicada à literatura, no que esta tem de mais elevado e digno".

(144) O indefinido um é, muitas vezes, dispensável em português; empregá–lo antes de quaisquer qualificativos e nomes é incidir em construção francesa. Digamos, sem o indefinido: prestou imenso serviço, escreveu notável obra, recebemos cordial acolhida, sentiu vontade, teve prazer etc.

E isto fêz aquele estrangeiro ilustre, porque, como êle próprio o diz, ficou convencido, ao estudar os trabalhos dos fundadores do Brasil, "que das empresas desses homens obscuros surgiram conseqüências mais amplas e provavelmente mais duradouras que as conquistas de Alexandre e Carlos Magno".

(Coletânea, vol. III, São Paulo, 1906)


Seleção e Notas de Fausto Barreto e Carlos de Laet. Fonte: Antologia nacional, Livraria Francisco Alves.

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