História da Dança – Maravilhas da Arte

História da Dança – Maravilhas da Arte

Maravilhas da Arte

Henry Thomas

A HISTÓRIA DA dança

Damas mágicas e selvagensA grande festa dos mortos

JÁ atingido pela civilização européia, o esquimo diverte-se indo a uma reunião e dançando com as beldades dentro de poucas horas, tanto como outro homem qualquer. Contudo há ocasiões especiais em que dançar significa algo mais para êle do que simples diversão, quando assume uma qualidade profundamente religiosa e quase mística. Uma dessas ocasiões é a Grande Festa dos Mortos. É realizada pelos parentes dos falecidos, com intervalos de dez ou quinze anos, pois deve-se economizar alguma coisa, visto como dar presentes tanto aos vivos quanto aos mortos, é importante parte das festas.

Essa festa característica dura usualmente cinco dias. As almas dos falecidos já foram notificadas com um ano de antecedência. O primeiro e o segundo dia da dança são consagrados à recepção dos convidados de aldeias distantes e aos preparativos para a festa. No terceiro dia, todos os participantes reúnem-se no salão cerimonial. Os mortos são invocados por meio de um tambor e lâmpadas de azeite permanecem a arder para que os espíritos possam dar com o caminho. Para encorajar esses espíritos, os participantes, que envergam suas mais velhas e mais pobres roupas, fazem uma série de danças imitativas. Todas essas sugerem apropriadas maneiras de viajar. Por isso alguns fingem impelir um caíque, enquanto outros andam como se estivessem com sapatos de neve. Ao som do tambor, a bater continuamente, enquanto uma cantilena é entoada em voz baixa pelos participantes menos ativos, os dançarinos prosseguem numa carreira vertiginosa dentro do quadrilátero cerimonial. Isto simboliza o caminho sinuoso que os espectros devem tomar pela colina e pelo vale, afim de alcançarem seu destino. Essa dança mágica continua até certo tempo, dado como o gasto para a chegada dos espectros. Imediatamente, presentes de peixe e de roupas novas são distribuídos por todos os presentes. Os que usam o mesmo nome do defunto são olhados como seus representantes e recebem duplo quinhão.

Yafouba, o mágico da trilso, com uma das meninas que foram jogadas em cima de pontas de espadas.
Yafouba, o mágico da trilso, com uma das meninas que foram jogadas em cima de pontas de espadas.

 

A dança guerreira

Os índios americanos são grandes dançarinos. Como todos os povos primitivos, dançam por motivos mágicos e simbólicos, para adquirir coragem e assegurar a proteção dos espíritos. Quando estão prestes a partir para a guerra, metem-se a fazer uma medonha mímica, cuja finalidade única é amedrontar o inimigo a qualquer distância em que se possa êle encontrar. A famosa dança Guerreira, tantas vezes parodiada, pode ser descrita do seguinte modo:

Os dançarinos usando suas penas e empunhando suas lanças e suas achas, dividem-se em quatro grupos. Esses grupos sentam-se nos quatro cantos do terreiro da dança. A orquestra de tantas coloea-se um tanto à retaguarda Um rufar de tambores, seguido de três fortes batidas, é o sinal para começar. À terceira batida, os executantes pulam para o centro e brandem suas armas como se fossem lutar. Ouve-se um enorme alarido, depois o movimento vai-se tornando lento e os dançarinos começam a fazer a mímica da guerra. Furtiva e lentamente se adiantam para o inimigo, seguindo seus rastros, descobrindo seu esconderijo, e preparando-se para o ataque. Isso vai-se fazendo durante três voltas. Os tambores dão novamente o sinal, e os dançarinos pulam em simulada batalha, esquivando-se das flechas, atacando e desviando golpes. Todas essas ações, altamente individuais, são executadas quatro vezes em torno do círculo. Outro sinal é dado e os atores dividem-se em grupos de três ou quatro. Um é partido atacado, defendendo-se dos outros. Os tambores batem cada vez mais depressa, até alcançar o clímax, quando todos os combatentes se reúnem em compacto grupo, ao centro, brandem suas armas no ar, dão um tremendo brado e desaparecem rapidamente.

 

A Dança Mortuária De "A Vida Sexual dos Selvagens", por B. Malinowski.

 

A dança da Chuva

Já se detiveram os americanos a considerar que os Peles Vermelhas possuem em suas danças uma forma de arte infinitamente maior do que a de muitas outras nações? Efetivamente, se um grupo de índios viajasse pelo mundo, executando a dança do Urso, a dança do Cachimbo Medicinal, a dança do Búfalo, a dança da Serpente Hopi, o Mistério do Alce, e suas outras numerosas danças cerimoniais e rituais, produziram, com suas máscaras grotescas e senis trajes ricamente variegados, uma sensação comparável à que Diaghileff produziu, quando nos trouxe do reduto moscovita o seu Bailado Imperial Russo.

Nos Estados Unidos, particularmente no Novo México e no Arizona, tem-se realizado um movimento para atrair visitantes aos Campos de Reserva dos índios e às aldeias, durante o tempo dos festivais típicos. Umas das cerimônias favoritas, assistida por numerosa multidão, é a dança da Chuva, dos Zunis.

Pode-se dizer que essa dança é executada por profissionais, se assim podemos denominar os sacerdotes da chuva que a ela se dedicam. Esses sacerdotes usam máscaras côr de turquesa, com longos penachos pretos de cabelos de cavalo, e saiotes de algodão e faixas pintadas de brilhantes cores. Seus corpos são também pintados de brilhantes desenhos. Uma matraca de casco de tartaruga é fixada na perna esquerda de cada dançarino. São eles auxiliados por numerosos palhaços, cuja finalidade é produzir um relevo cômico, e cujo principal ornamento, além duma tira em torno dos rins, é um saco avermelhado, colocado na cabeça. Esses palhaços participam da cerimônia da chuva, como uma espécie de contraponto da ação dos sacerdotes, isto é, têm que fazer o contrário do que fazem os sacerdotes. Estes são solenes, mas os palhaços são burlescos; os sacerdotes entoam um canto fúnebre, enquanto que os palhaços gritam e vociferam. Parece que essa mistura de comédia e de ação série é grandemente apreciada pelo auditório.

A cerimônia propriamente consiste numa encantadora sucessão de movimentos graciosos. O sacerdote principal conduz uma marcha processional, espargindo farinha de milho pelo braço direito de cada doisarino acima, passando pela testa e descendo pelo braço esquerdo, enquanto os outros sacerdotes entoam a canção da chuva. Adiantam-se em uma só fila, voltando-se primeiro a meio para a esquerda, depois para a direita. Três passos são dados para diante, três para fazer uma volta, três para voltar atrás e três para diante de novo. Dessa forma se movem, em forma de quadrado. Depois todos eles se alinham de frente para o auditório e cessam de cantar. Adiantando o pé esquerdo, inclinam os corpos para a direita, gritam, agitam suas matracas e as abaixam, com longo movimento do braço, quase tocando o chão e levam-nas depois até a boca. Repete-se esse movimento muitas vezes. Depois os dançarinos movem-se pelos quatro cantos do terreiro de dança, fazendo voltas individuais em cada canto. Finalmente se reúnem em cerrado encontro, gritam, matraqueiam e deslizam graciosa e silentemente para suas tendas.

A dança do Sacrifício Humano

Do Cabo ao Cairo e de Zanzibar ao Senegal, toda a África dança. Os palpitantes compassos da dança são tão naturais como a respiração, para os nativos do vasto continente negro. Cada paixão humana, medo ou desejo, é interpretada diferentemente pelos vários povos africanos, e não existe unidade em seu estilo de dança. A única generalização que se pode dar como exata é que a maior parte dessas danças é executada ao bater de tambores. Os tambores são o instrumento essencial de música na África. Cada tom, cada batida, cada ritmo tem seu próprio apelo emocional. Contudo os tambores apenas acompanham a dança, porque a dança é sempre mais importante do que a música.

Entre os milhares de danças africanas a escolher, a dança do Sacrifício Humano se salienta por causa de sua dramática intensidade. Relíquia dos tempos não distantes em que o sacrifício humano era real, e não mera pantomima, essa representação, pelos nativos de Danane, perto da fronteira liberiana, é tão realista que faz o viajante branco, que a presencia, arfar de horror.

A dança é executada por quatro meninos usando tangas e toucados em forma de mitra, e quatro mancebos musculosos, praticamente nus. A música é fornecida por uma orquestra de velhos, fantasticamente trajados, com os corpos eriçados de ossos de crânio, amuletos, contas, facas e várias armas mortíferas.

Os meninos ficam em cima duma esteira, meneando as cabeças sem cessar e executando saltos mortais e piruetas no chão. Depois os moços os reúnem e começam a atirá-los um para outro, como se fossem bolas. Batem-lhes nas cabeças com um movimento do pé para trás, fazem-nos girar segurando-os por um só braço ou tornozelo e por outra parte os jogam para lá e para cá, como se não fossem criaturas de carne e osso. Cada um dos homens tem uma faca. O clímax da dança é atingido quando um deles lança uma faca, enquanto o outro joga no ar um menino. A faca é tão bem atirada que passa entre as pernas do menino. Como os atiradores ficam dez passos aparte, podeis facilmente ver que extraordinária destreza e sangue-frio são necessários. Uma variação consiste em agarrar um homem e duas facas de pontas para cima. A criança é jogada sobre elas e o homem move os braços o bastante para apanhar o menino na

forquilha do cotovelo. Como toda essa cerimônia é executada com grande regularidade rítmica, chama-se uma dança, embora não haja passos de dança propriamente ditos. Mas na África é o que a dança transmite que é mais importante do que o batido dos pés e o movimento do corpo.

As dançarinas dos templos hindús

COMO toda a Índia está dividida em rígidas castas, não causa admiração descobrir que as dançarinas dos templos formam uma casta própria. Essas moças, raramente não passam hoje em dia de meras prostitutas, decaídas de sua antiga elevada posição de esposas dos deuses. dançam nos casamentos e diversões particulares, usando seus dourados saris, com pequenas campainhas de prata nos tornozelos, e diamantes e jóias nos pescoços e orelhas.

A dança para o hindú é muito menos questão de mover os pés e muito mais questão de agitar os braços e a cabeça. As moças são exercitadas desde a mais tenra mocidade, de modo a poderem deslocar o pescoço. Seus dedos são tão flexíveis que parecem não ter ossos. Além disso, aprendem todos os tradicionais gestos simbólicos, que expressam uma emoção, um modo, ou uma situação definida. Desde que cada simples gesto tem um significado, segue-se que cada dança conta uma história. Essa história pode ser compreendida somente por um auditório experimentado, ávido de aprender cada variação de um gesto da mão e cada movimento duma pestana. Uma tentativa de interpretar as velhas danças da índia para o mundo ocidental está sendo realizada pelo artista hindú.

Dança popular

DESDE que praticamente todos os países do mundo têm seu estilo próprio de dança, o termo dança popular está reservado ao tipo mais estreitamente associado a raças individuais e particularmente a secções rurais dessas raças. As mais interessantes das danças populares nacionais são as da Rússia, da Hungria e da Espanha. As danças desses países são caracterizadas por uma vitalidade, uma ênfase de ritmo e uma liberdade de movimentos que as colocam em classe própria. Ajunte-se a isso uma forte tonalidade de influência cigana no sentido do ardor e da paixão, e o resultado é um tipo de dança que provavelmente terá vida longa.

Uday ShanKar. Sua companhia alcançou extraordinário êxito na Europa.

A dança forma um dos mais importantes elementos da expressão religiosa hindú. Cada divindade, Siva, Krish-na, Lakshmi, tem uma dança ritual, baseada nas histórias, contadas em obras como os Upanishads. Siva, por exemplo, é olhado como o Primeiro dançarino, e o ator que o representa executa a dança da Criação, da qual o principal motivo é o arroubo do movimento.

As dançarinas Nautch são um grupo de dançarinas de templo cujo traje, compreendendo uma larga saia com lantejoulas, foi afetado por influências ocidentais. Na sua representação, prestam atenção ao batido dos pés mais do que é usual na índia. Essas dançarinas Nautch, juntamente com outro grupo chamado as Devadasis, representam importante papel, no permanente culto hindú do sexo, como força vital, mas sua situação social é muito baixa.

Essa notável dança popular é acompanhada por música igualmente notável. Muitos compositores famosos, Brahms, Liszt, Tschaikowsky, Albeniz se apropriam dessas toadas populares e delas fizeram imortais arranjos. Em todos aqueles três países a melodia, quando executada por camponeses, é usualmente acompanhada por um violino ou uma guitarra, enquanto que o ritmo é marcado num pequeno tambor ou tamborim. Na Espanha, a dançarina muitas vezes acentua o ritmo, tocando castanholas.

Quer seja um trepak russo, ou uma czardas húngara ou um fandango, bolero ou flamenca espanhóis, a dança popular é quase sempre meio de expressar alguma espécie de emoção. Isso é facilmente sentido pelos espectadores, que comparticipam, batendo o compasso com as mãos e gritando, como na Espanha, ou juntando-se à dança, como na Hungria. Quando tradicionalmente conservada por autênticos camponeses, e não simplesmente revivida pelas Sociedades de danças Populares, a dança popular é um exemplo inspirador do modo como as pessoas simples mostram sua alegria de viver.

A Historia do Bailado

QUE visões de adorável beleza não evoca a palavra bailado! Graciosas formas femininas em níveos trajes, girando delicadamente na ponta dos pés; Ana Pav-lova realizando os movimentos do Cisne moribundo; Nijinski dando prodigioso salto no ar e milhares de cenas semelhantes, executadas em teatros de todo o mundo por grandes artistas, amadores, e mesmo por crianças, todos cheios do ardor divino.

O bailado europeu tem uma longa e complexa história. Recua até os mais antigos tempos. Mas na sua forma atual descende diretamente das danças teatrais e da corte, que prevaleceram do século XVII ao século XIX. Geralmente falando, o bailado é uma modificação das danças, levadas pelos italianos às cortes da França e da Inglaterra durante o século XVI. Foi na França, especialmente que recebeu seu maior desenvolvimento, graças em grande parte à proteção real. Luiz XIV orgulhava-se extremamente de sua habilidade como dançarino, e não permitia que mesmo os mais sérios negócios de estado interferissem no seu exercício diário. Assinala-se seu reino pelo grande número de espetáculos e exibições de danças a que êle deu causa e em muitos dos quais tomou parte saliente. Seus sucessores e seus imitadores de outros países, também fizeram questão de animar a dança, de modo que pode ser razoavelmente dito que no velho regime todo nobre e todo cortesão consideravam a dança como uma prenda necessária. As danças de corte mais conhecidas hoje são o minueto, a gavota, a con-tradança e a quadrilha- No século XIX, quando a dança cortês se tornou importante na vida das mais elevadas classes médias, foram acrescentados passos como a polca, a mazurca e a valsa-

No século XVIII, lado a lado com a dança de corte, cresceu o bailado de ópera, mais propriamente executado por profissionais do que por distintos amadores. O nome mais comumente associado ao desenvolvimento desse gênero foi o do mestre de dança ítalo-suíço, Noverre cujas Cartas sobre a dança são olhadas como a Bíblia do dançarino de bailado. Esse homem estabeleceu e codificou as regras e os estilos de dança de seu tempo, prescreveu longo e árduo treinamento para quem queira ser dançarino de bailado, e influiu profundamente em toda a arte da dança até o dia de hoje.

O Bailado e a ópera prosperaram lado a lado na França. Tinham uma casa comum, sob a proteção real, a Academia de Música e dança, que é ainda O título oficial da ópera de Paris. Os bailados eram olhados corno parte integrante de todas as óperas e até o aparecimento de Wagner nenhum compositor jamais sonhou poder dispensar esse elemento importantíssimo. O Fausto, de Gou-nod, escrito no último terço do século XIX, chegava ao ponto de exigir meia dúzia de bailados. Wagner exibiu seu Tannhauser, na ópera de Paris, em 1861. Sua concepção do drama musical não incluía o bailado. De modo que, quando tentou apresentar sua nova ópera, uma cabala organizada pelos membros do aristocrático Jockey Clube, interrompeu o espetáculo. Wagner eventualmente comprometeu-se a inserir a dança de Venusberg, no primeiro ato, embora, tradicionalmente, um bailado jamais aparecesse antes do segundo ato, sendo o usual no terceiro ou no quarto.

No começo do século XX, o bailado quase entrou em decadência. Felizmente, uma série de acontecimentos, em especial a aparição do Bailado Russo, a influência de Isadora Duncan, o grande interesse pelo exótico e pelas danças orientais e os novos ideais do professor suíço, Jacques Dalcroze, tudo contribuiu para a renascença do bailado. Hoje não mais o concebemos como parte integrante da ópera. Efetivamente, o bailado se afirmou por si próprio, pois em nossos dias pagam-se belos preços por uma diversão noturna, em que o bailado seja o único elemento.

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O Imperial Bailado Russo

EM meados do século XIX, o Bailado Russo tornou-se, em verdadeiro sentido imperial, porque o imperador da Rússia deu-lhe prédio oficial no Teatro Marinsky. Famosos professores, importados da Europa Ocidental, preservaram as grandes tradições clássicas. Os nomes de Petipa, Legat e Cecchetti salientam-se entre eles. Sua influência se faria ainda sentir, quando menos pela influência ainda maior de seu sucessor, Fokine, considerado um dos maiores dançarinos de todos os tempos.

Foi só, porém, quando o Imperial Bailado Russo surgiu pela primeira vez numa excursão européia, que o mundo subitamente teve notícia do esplêndido trabalho realizado. Essa primeira excursão, feita em 1909, foi dirigida por Sérgio Diaghileff. O primeiro espetáculo exibido em Paris perante brilhante auditório internacional, inaugurou nova época na história da dança, e incidentemente mudou o caráter do Bailado Russo. Diaghileff era um gênio demasiado independente para não se sentir tolhido pelas mesquinhas invejas e pelas restrições dos dirigentes governamentais. Graças ao êxito de sua original aventura, pôde livrar-se do Teatro Marinsky. Com dinheiro levantado de várias fontes, organizou uma companhia própria, e conseguiu induzir alguns dos mais famosos dançarinos do Bailado Imperial a se juntarem a êle. Fokine era seu espírito dirigente e entre seus outros dançarinos contavam-se Nijinsky, Pavlova, Karsavina, Ida Rubinstein e Massine. Tratou também de formar um repertório de partituras, escritas especialmente pelos mais promissores compositores. Grande parte das mais importantes peças de Stravinsky foram compostas especialmente para seu bailado. Diaghileff tomou também grande trabalho com o preparo de seu guarda-roupa e de suas companhias, solicitando a colaboração de grandes artistas. Bakst e Benois são conhecidos, quase que exclusivamente, por causa dos trabalhos que realizaram para êle. Mas contou também com a colaboração de artistas tão famosos como Picasso, Matisse, Braque e Utrillo.

Desde 1910 até sua morte em 1929, Diaghileff apresentou séries e séries de criações coreográficas que agitaram o mundo artístico de Paris, Londres, Monte Carlo, Nova York e Buenos Aires. Scheherazaãe, Tarde de um faunot, O pássaro de fogo, Petrouchka, O rito da primavera e Galo âe Ouro são alguns dos mais importantes acontecimentos artístico da história moderna.

A contribuição da companhia de Diaghileff envolve uma mudança na concepção da dança. Emancipou os dan-sarinos de suas clássicas restrições. Em consequência, a dança se viu tão livre de laços acadêmicos como a pintura moderna e a música moderna. Diaghileff também deu ao mundo ocidental novo retrato da Rússia e do Oriente, acentuando suas características mais fortemente coloridas e mais esplendidamente bárbaras.

Por grande felicidade, a Grande Guerra e a Revolução Russa não acarretaram a extinção do Bailado Russo. As tradições do Bailado Imperial são continuadas, sob a direção dos sovietes. Quanto a Diaghileff, seu trabalho tem sido continuado, não importa se indireta ou desigualmente, em Paris, Londres, Monte Carlo e Nova York. A maior parte de seus dançarinos está ainda viva. E se não aparecem muitas vezes como executantes, tornaram-se professores e estão assim passando adiante a grande tradição para as vindouras gerações.

A tragédia de Nijinsky

ACLAMADO o Deus da dança, Vaslav Nijinsky gozou duma carreira, que se ergueu rápida e meteorica mente até as mais elevadas culminâncias, para cair depois no mais profundo abismo da tragédia. Embora esteja ainda vivo, é difícil escrever a seu respeito sem ser em termos do passado. Aluno na Escola de Bailado Imperial, esse jovem polonês recebeu imediata consagração dos mestres da dança. Seu êxito foi tão grande que o tornou o querido da aristocracia de S. Petersburgo. Era constantemente festejado e lisonjeado pelos nobres e pelos milionários, que procuravam satisfazer-lhe os mais leves caprichos. Muito cedo na sua carreira, atraiu a atenção de Diaghileff. Convencido de seu gênio, o grande empresário tomou-o sob sua proteção e tornou-se não só seu mes tre, como seu amigo devotado.

Em 1913, durante uma excursão pela América do Sul, Nijinsky casou-se com uma jovem componente da companhia, que sob o nome de Rornola Nijinska tem desde então alcançado êxito como dançarina e escreveu um livro a respeito de seu marido. Esse casamento não foi visto com bons olhos por Diaghileff, mas não o levou a retirar seu apoio a seu grande artista. Durante a primeira parte da guerra, Nijinsky e sua mulher foram internados na Áustria como estrangeiros inimigos. Mas, graças aos esforços de Diaghileff foram soltos. Nijinsky tornou-se chefe da companhia, quando Fokine se exonerou, e dirigiu o Bailado Russo em sua primeira excursão pelos Estados Unidos, de 1915 a 1916. A excursão foi um fracasso financeiro. Além disso, Nijinsky começou a dar sinais de mania de perseguição. Suas relações com Diaghileff se tornaram cada vez mais tensas, até que os dois gênios sentiram que era impossível para eles colaborarem ainda e se separaram. Poucos anos depois disso, Nijinsky perdeu completamente o juízo. Foi internado num sanatório suíço e ali está confinado até hoje.

De Isadora Duncan a Fred Astaire

EM 1905, uma moça californiana, cujo principal preparo para a dança consistiu em ler Rousseau, Nietzsche e Walt Whitman, partiu a revolucionar toda a arte coreográfica. Tirando sua inspiração de sinfonias, pinturas e grandes obras literárias, em breve cativou todas as grandes cidades da Europa e da América, pelas suas interpretações emocionais e a plástica liberdade de seus gestos. dançar para ela era uma questão de coordenar pensamento e espírito com o ritmo universal das coisas. Sua influência na dança moderna tem sido enorme.

Isadora Duncan não deixou um sistema. Essa lacuna foi preenchida por Jacques Dalcroze, suíço, cuja obra não tem ligação direta com a dela, mas é essencialmente aparentada à mesma, pela sua insistência sobre a universalidade do ritmo. Do método de Dalcroze surgiram as várias escolas germânicas, representadas particularmente por Maria Wigman, que trabalhou sob a direção de Rodolfo von Laban. De fato, seu método é uma combinação das idéias daqueles dois mestres. Ensina novo tipo de gesto, cujo simbolismo está baseado no efeito emocional do ritmo.

A essas duas influências e à do Bailado Russo, pode-se acrescentar o que se deve melhormente chamar estilo americano de dançar. Esse estilo é essencialmente negro na sua origem e no seu caráter, com ênfase do ritmo sincopado. Um de seus grandes expoentes é o sapateador Bill Robinson. Mas quem elevou essa dança ao nivel da arte foi Fred Astaire, cujas complicadas invenções, executadas com a facilidade e a graça dum mestre do passado, atraem igualmente o olhar e o ouvido.

Antes da Guerra, a dança era privilégio de ricos. Hoje o mundo está voltado para a dança. Jamais se viu tamanha curiosidade, tanto pelas tradicionais quanto pelas formas exóticas de dança, nem jamais houve maior número de professores particulares, com tão elevada clientela de mulheres, crianças e homens. "Concertos" de dança por amadores ou por famosos profissionais, como Haroldo Kreutzberg, Escudero, Uday Shan-Kar, Marta Graham e Angna Enters, são assistidos por numerosos e entusiastas auditórios. O Ballet de Monte Carlo faz excursões anuais com grande êxito. Em muitas das maiores cidades do globo têm surgido novos movimentos coreográficos.1 Tudo isso é a incontrovertível prova do domínio da dança sobre o comum das pessoas de nossos dias.


Fonte: Maravilhas do Conhecimento Humano, 1949. Tradução e Adaptação de O. Mendes


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