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OBJETO DA CIÊNCIA DA ARTE – HISTÓRIA DA ARTE DE GROSSE


HISTÓRIA DA ARTE DE ERNEST GROSSE (1893)

CAPÍTULO IOBJETO DA CIÊNCIA DA ARTE

Se examinarmos a grande produção de estudos e pesquisas em matéria de arte — o termo arte considerado no mais alto sentido, abrangendo qualquer espécie de criação estética — distinguiremos duas direções principais, histórica e crítica. Na prática, ambas as direções raramente se acham separadas, mas é precisamente essa a razão por que convém distingui-las em teoria.

A tarefa da consiste em estudar os fatos históricos tal como se manifestam na evolução da arte e dos artistas, afastando da tradição todos os elementos falsos e duvidosos e procurando reunir em um todo os elementos que resistirem à sua crítica. Sua missão está, pois, mais no estudo e na da que na explicação dos fatos. Entretanto, um trabalho que se limite a verificar e agrupar certo número de fatos isolados não pode satisfazer, por mais completo e profundo que seja, a curiosidade científica do homem. É natural, pois, que a crítica tenha fornecido em tempo considerações gerais sobre a natureza, as condições e os fins da arte. Essas considerações, que seus autores publicaram tanto isoladas quanto reunidas numa ordem sistemática, pertencem ao domínio da filosofia da arte. E esta, juntamente com a história da arte, é a ciência que hoje nos comprazemos em denominar ciência da arte.

Nossa época é assaz pródiga em títulos. Assim, parece-nos prudente examinar de início os direitos que a “ciência da arte” possa ter a esse título honorífico, antes de reconhecê-lo definitivamente. Toda ciência procura verificar e explicar determinado grupo de fenômenos, dividindo-se, pois, teoricamente, em duas partes: uma descritiva, que é o estudo e a descrição dos fatos e de sua natureza; e outra, explicativa, que reduz esses fatos a leis gerais. Mas essas partes guardam uma interdependência. Acerca de sua relação podemos dizer o que Kant disse das relações entre as intuições e os conceitos. Os conhecimentos sem explicações são cegos, as explica-ções sem conhecimentos são frágeis.

Agora podemos perguntar se a “ciência da arte” preenche as condições que necessariamente se impõem a toda ciência. A resposta pode ser afirmativa, no que se refere à primeira metade de sua tarefa. É verdade que se poderia censurar a história da arte de nossa época por limitar demasiado o domínio de suas pesquisas e insistir muito sobre a arte do , à custa de qualquer outra província artística (“Kunstkreis”) — mas tal censura não lhe atinge o caráter científico, porque é o método e não a extensão de um estudo que o caracteriza. E o método da moderna história da arte está tão de acordo com os princípios científicos quanto o método de qualquer outro ramo das ciências naturais e outras.

Não obstante, uma história científica da arte não chega a constituir uma ciência da arte, da mesma forma por que um monte de pedras não merece o nome de construção, enquanto não estiver reunido em um todo, segundo as leis da . Nosso saber em matéria de arte somente será uma ciência no dia em que tivermos classificado os fatos isolados, segundo leis fixas.

Poderíamos perguntar se a atual filosofia da arte se acha à altura dessa tarefa. Até hoje, quase todos os estudos filosóficos sobre o assunto têm sido uma espécie de parte de sistemas, de cuja sorte têm compartilhado. Dominaram durante algum tempo mais ou menos longo e foram esquecidos, como a filosofia de que faziam parte. Não nos compete julgar o valor geral de tais especulações. Colocadas, porém, na balança de ouro das ciências exatas, é-se obrigado a confessar que tiveram a sorte que mereciam. Pode admirar-se-lhes a ousadia, mas não seria possível ter ilusão sobre a fraqueza das bases em que assentam suas construções vertiginosas e a pequena garantia de duração que lhes asseguram os métodos pelos quais se construíram. Com efeito, a filosofia da arte dos hegelianos e herbartianos oferece hoje apenas interesse histórico.

A nosso ver, porém, a filosofia da história abrange um domínio muito mais vasto, compreendendo também todos os trabalhos que em linguagem ordinária se denominam de preferência “crítica da arte”, ao invés de filosofia da arte. Os trabalhos filosóficos são sistemas inteiros, ao passo que os da crítica consistem, na maioria, em fragmentos ou alusões. Todavia, tais fragmentos apresentam-se de ordinário com esse ar majestoso, que é o sinal distintivo dos sistemas de filosofia da arte. Assim, fica-se um tanto surpreso ao ver-se que não somente as opiniões dos diversos críticos a respeito da natureza, das condições e dos fins da arte diferem consideravelmente entre si, como também os que seus autores julgam fora de qualquer dúvida são, na maioria, contraditórios e inconciliáveis. Mas, nosso espanto não tarda a diminuir, quando submetemos as opiniões dos críticos a um exame um pouco profundo. Cada vez mais adquirimos a convicção de que essas idéias e esses não se fundam absolutamente em estudos e pesquisas objetivos e científicos, mas sim em preferências variáveis e subjetivas, determinadas por motivos estranhos à ciência. Não é nossa intenção pôr em dúvida o possível valor da crítica de arte, pois sua existência basta por si mesma para provar que corresponde a uma necessidade da época. Uma pesquisa pode, porém, encerrar muitos méritos, sem possuir o menor valor científico. O entusiasmo de um sentimental amigo da natureza pelas belezas do mundo vegetal pode ser muito comunicativo e interessante, mas, na espécie, não equivale às investigações de um botânico.

Certamente, em determinadas circunstâncias, pode parecer-nos útil e agradável conhecer as opiniões subjetivas que um homem inteligente porventura tenha sobre arte. Mas somos obrigados a refutá-las, desde que pretendam impor-se como conhecimentos gerais e cientificamente fundamentados. O princípio essencial da pesquisa científica é sempre o mesmo em toda parte. Quer se refira a uma planta ou a uma obra de arte, deve ser sempre objetivo. Sem dúvida, é mais fácil permanecer impassível diante de uma planta que em face de uma obra artística, que se dirige imediatamente a nossos sentidos. Mas, se quisermos realizar uma ciência da arte, temos que manter o sangue-frio. Na ciência, predomina a objetividade, e na arte, a . A crítica de arte arroga-se o direito de formular leis. A ciência contenta-se com encontrá-las. O princípio e o fim dessas duas formas do são absolutamente diversos, não sendo preciso fechar os olhos voluntariamente para verificar esse fato. Evitaremos refutar à crítica de arte seu direito de viver, mas vemo-nos obrigados a desvesti-la do manto científico com que gosta de enfeitar-se.

Nem a filosofia, nem a crítica de arte foram até hoje capazes de dar uma explicação dos fatos da história da arte. Se fazemos abstração de algumas tentativas desse gênero, acerca das quais voltaremos a falar mais adiante, é porque somos obrigados a reconhecer que não nos assiste nenhum direito a pretender a ciência da arte. Entretanto, os materiais acham-se reunidos em grande parte, em do zelo de nossos historiadores da civilização. Mas algum valor que possam ter esses materiais, quando um dia forem estudados do ponto de vista científico, se não tiverem aplicação, não serão apenas inúteis, mas ainda nocivos. “Não há carga mais pesada que a inútil”. Isto é não só verdade no que se refere à nossa propriedade material, como principalmente à nossa época, que corre o perigo de esquecer demasiado o fim, deixando-se levar pelos meios. No entanto, não deveria esquecer a verdade desse axioma. Os fatos são apenas uma etapa no caminho que conduz à ciência. Se forem o próprio fim, o “saber” sufocará o pensamento. Acumulamos montanhas de conhecimentos que acabam por impedir que a luz e o ar penetrem em muitos espíritos. Só as leis é que poderiam ter valor nesse amontoado de fatos artísticos, mas é delas precisamente que se esquece.

Já é tempo de tratar desse problema, o que não será curto nem fácil. O mais simples problema sociológico é sempre complexo. E a tarefa da ciência da arte está particularmente repleta de dificuldades que, no entanto, nos inclinamos a julgar insignificantes.

Há o direito de se perguntar, antes de empreendê-lo, qual será a utilidade de um estudo tão longo e fatigante. Todavia, talvez mais útil ainda seja perguntar primeiramente a que fins não pode servir. Desse modo, evitam-se certas desilusões e coloca-se a ciência ao abrigo de acusações injustas. Assim como se espera encontrar um Eldorado em todo país recentemente descoberto, aguarda-se de toda ciência nova todos os milagres teóricos e práticos possíveis, a solução de todos os enigmas e a cura de todos os males. Mas, transcorrido algum tempo, verifica-se que o novo país não passa, no fundo, de uma parte de nossa terra, nem pior nem melhor que as outras partes — e que a nova ciência é como as demais. Decepção de que só se consola, queimando-se o que antes se adorava. O que, em primeiro lugar, se pode exigir de uma ciência da arte, é a de regular a evolução da arte, segundo nossos desejos, algo, por exemplo, como uma fórmula que dê vida a uma nova era artística, numa época naturalmente estéril. Infelizmente, não é certo que a ciência da arte possa dar tais resultados práticos. Se é lícito julgar pelos resultados de nossas pesquisas sociológicas em outros domínios, chegaremos antes à conclusão de que os fatores dos quais depende a vida da arte são tão múltiplos e enigmáticos, que talvez fosse melhor, em se tratando da arte, não empreender esse estudo. Não temos o receio de que semelhantes resultados paralisem as tentativas enérgicas de enobrecer a arte pela educação acadêmica, organizada sob a vigilância da polícia. Até o momento, pelo menos, a influência das teorias sociológicas sobre a vida prática tem sido tão ínfima quanto o possa desejar um político prático.

A primeira missão da ciência não é o trabalho prático, mas sim o conhecimento teórico. A primeira tarefa da ciência da arte não é pôr em prática, mas antes conhecer as leis que regem a vida e a evolução da arte. Entretanto, esse fim, a que deve aspirar a ciência da arte, é um ideal que jamais ela conseguirá realizar inteiramente. Exigir dela que explique totalmente em todos os seus pormenores um fenômeno de ordem artística, é pretender o que nenhuma ciência pode dar.

Assim como não é possível ao botânico ligar exatamente a todas suas causas a forma de uma planta “particular”, também é impossível ao historiador da arte demonstrar por que uma obra artística é o que é e não outra coisa. Não porque os pormenores estejam à mercê de uma vontade arbitrária e incompreensível, mas porque nossa inteligência não é suficiente para dominar os numerosos fatores determinantes, infinitos em cada caso particular. Não nos é possível descer ao fundo das coisas, porque as coisas não possuem fundo. A ciência deve limitar–se à demonstração da existência das leis, em suas linhas gerais, e pode dar-se por satisfeita com essa missão. Estamos e sempre estaremos convencidos da ligação em todo fenômeno, das causas a efeitos, embora não o possamos provar em todas as partes. A convicção que possuímos da existência de tais relações de causa e efeito e a possibilidade de compreender todos os fenômenos não se baseiam, pois, em pesquisas empíricas. Ao contrário, toda pesquisa se funda nessa certeza a priori.

Quando a ciência da arte nos houver dado a conhecer algumas das leis que regem a evolução da arte, na aparência tão caprichosa e tão pouco submissa às leis fixas, terá feito tudo o que lhe é possível. E acrescentará um novo terreno ao mar estéril das especulações, terreno que o homem poderá cultivar com toda a segurança. Um pedaço de chão arável é, indubitavelmente, uma mesquinha compensação em troca dos misteriosos tesouros que a velha filosofia da arte prometia a seus adeptos. Mas, uma explicação científica não é um esclarecimento metafísico: permanece na superfície empírica das coisas, sem lhes penetrar as profundezas transcendentais. A ciência da arte terá dito a sua última palavra quando houver demonstrado que existem relações de causa e efeito entre certas formas de civilização e certas formas de arte. E se a filosofia da arte perguntar qual é a natureza interior dessas causas e efeitos, das forças que se revelam nos fenômenos de ordem estética, deverá confessar modestamente que, longe de ser capaz de dar uma resposta a essa questão, nem mesmo pode compreender o seu sentido.

Fonte: Ed. Formar ltda.

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