ORAÇÃO DE M. T. CÍCERO CONTRA M. ANTÓNIO – Filípica I

ORAÇÃO DE M. T. CÍCERO CONTRA M. ANTÓNIO – Filípica I

FILÍPICAS

ORAÇÃO DE M. T. CÍCERO  CONTRA M. ANTÓNIO

Resumo

Depois da morte de Júlio César, reinando em Roma o terror, por obra principalmente dos cônsules Marco António e Dolabela, resolveu Cícero sair de Roma e passar à Grécia, com a idéia de ficar fora da cidade até à entrada de novos cônsules, que garantissem liberdade. Parando, porém, em Leucópetra, perto de Régio, na Calábria, na quinta de um seu amigo, P. Valério, aí foi informado de uma oração de António, inspirada a princípios de justiça e de equidade. Resolveu voltar. Devido, porém à canseira da viagem, não poude, logo depois de sua chegada em Roma, participar à sessão do Senado, na qual devia falar novamente M. António. Irritado, este, no seu discurso, disse que talvez fosse à casa de Cícero, com oficiais para demolí-la. A esta expressão responde Cícero com a seguinte oração, pronunciada no Senado (em ausencia, porém, de M. Antonio), queixan do-se da ofensa, tanto mais que ele nunca demonstrara inimizade por Antonio, e exortando os dois consules a governar visando a paz, a concordia e a liberdade do povo romano.

FILÍPICA I

ANTES que principie, Padres Conscritos, a dizer da República aquilo que entendo se deve advertir no tempo presente, expor-vos-ei brevemente o intento da minha partida e da minha tornada com toda a brevidade. Esperando em que algum dia à República se restituísse o vosso conselho e autoridade, fazia tenção de ficar alerta, como sentinela senatoria e consular; nem dela apartava nunca, ou voltava os olhos, desde o dia em que fomos convocados para o

Templo da Terra, em cujo templo quanto foi da minha parte, lancei os fundamentos da paz, renovei o antigo exemplo dos atenienses, e me vali do vocábulo grego de que aquela cidade usava em apaziguar discórdias, julgando que toda a lembrança de discórdias se devia sepultar em um perpétuo esquecimento. Ilustre foi então a oração de M. António, generosa a sua vontade; enfim ele por si e por seus filhos estabeleceu a paz com os mais esclarecidos cidadãos. E comestes princípios concordava tudo o mais. Para aquelas deliberações que se tomavam em sua casa, acerca da República convocava os magnatas da cidade; e esta ordem dava parte de tudo o principal; nada então se achava nos comentários de C. Cesar, senão o que era a todos notório; a tudo o que se perguntava, respondia com suma constância. Porventura foram restituidos alguns desterrados? dizia que um, e, fora deste, mais ninguém. Concederam-se imunidades? nenhuma, respondia. Quis também que eu assentisse ao preclaríssimo varão Serv. Sulpício, em que nenhuma escritura de algum decreto, nem mercê de Cesar, se firmasse depois de quinze de Março. Passo muitas coisas em claro, e essas ilustres. Vou já, sem demora, a tratar, nesta oração, do singular feito de António. Arrancou de raiz da República a dignidade de ditador, que envolvia já em si a força do poder real, sobre o qual nem sequer chegamos a dar sentença. Apresentou escrito o decreto do Senado, do que queria se fizesse; e recitado ele, com sumo gosto seguimos a sua autoridade, e lhe demos as graças por ordem do Senado, com honorificentíssimas expressões.

2. Parecia raiar-nos uma nova luz, extinto não só o reinado, que tínhamos sofrido mas também o temor dele; dando um grande penhor à República, de que queria que a cidade fosse livre, quando aboliu da República inteiramente o nome de ditador (que muitas vezes foi justo) por causa da fresca memória da ditadura perpétua. Livre o Senado do perigo de mortandade, poucos dias depois se lançou a gadanha àquele fugitivo que usurpara o nome de C. Mário.

Todas estas coisas fez Antônio de comum acordo com seu colega; outras foram próprias de Dolabela, que entendo seriam comuns de ambos, se o colega não estivesse ausente. Porque, como na cidade ia lavrando um contágio sem limite, e cada dia se difundia muito mais, e os mesmos que fabricavam no foro o busto eram os que tinham feito aquela desenterrada sepultura, e cada dia mais, e mais homens perdidos, com servos seus semelhantes, ameaçavam as casas e templos da cidade, de tal modo castigou Dolabela assim os atrevidos e malvados servos, como os infames e facinorosos livres; e tal foi a ruína daquela abominada coluna que me causou admiração ter sido todo o demais tempo tão dissemelhante deste dia. Eis que no primeiro de Junho, em que nos notificou para estarmos presentes, aparece tudo mudado; nada feito pelo Senado, muita coisa, e de grande importância, por ele mesmo, ausente o povo, e contra sua vontade; os cônsules designados diziam que se não atreviam a vir ao Senado; os libertadores da pátria não estavam na Corte; naquela, de cuja cerviz tinham derribado o jugo da escravidão; ainda assim os cônsules os louvaram em qualquer oração e prática familiar. Os que se achavam veteranos, de quem esta ordem se acautelara com sumo cuidado, eram incitados não a conservarem o que tinham, mas a intentar novas presas. Como eu antes quis ouvir do que ver estas coisas, e tinha livre o direito do embaixador, me retirei com tenção de estar presente no primeiro de Janeiro, que parecia ser o princípio de se juntar o Senado.

3. Tenho exposto, Padres Conscritos, o intento da minha partida, agora exporei brevemente o da tornada. Tendo-me eu desviado de ir a Brindes, não sem causa, por aquela estrada que é a ordinária para a Grécia, cheguei a Siracusa pelas calendas de Agosto, por me dizerem que havia boa passagem desta cidade para a Grécia; esta cidade, como ser minha amicíssima, não me pôde hospedar mais de uma só noite, porque receei que esta ida repentina aos meus parentes, causasse alguma suspeita, se me detivesse. E sucedendo levarem-me os ventos de Sicília para Leucópetra, promontório dos campos de Régio, embarquei nesta paragem para passar adiante; e a pouco navegar voltei ao mesmo sítio donde saíra, repelido pelo nordeste. Por ser muito entrada a noite, fiquei na quinta de Q. Valério, meu companheiro e amigo, onde me demorei com ele à espera de vento; aqui me vieram visitar muitos do município de Régio, e muitos que havia pouco tinham chegado de Roma, dos quais recebi primeiro a oração de António, a qual me agradou tanto que entrei logo a cuidar da volta. Não muito depois me trouxeram o édito de Bruto e Cássio, que me parece cheio de equidade; talvez porque os amo mais por causa da República do que da nossa familiaridade. Além disto, acrescentavam (o que comumente costuma sucedei nos que querem dar alguma boa nova, acrescentar alguma coisa com que a façam mais alegre) que tudo se havia de concordar; que nas calendas de Agosto se havia de congregar um numeroso Senado: que António, repudiados os maus conselheiros, e largada as províncias de Gália, se havia de remeter à autoridade do Senado.

4. Tão intenso foi em mim o apetite de voltar que não havia remos, nem ventos que me satisfizessem; não porque julgasse não chegar a tempo do Senado, mas por não chegar a dar graças à República mais tarde do que desejava. Levado velozmente a Vélia, me avistei com Bruto; com quanto sentimento meu não o digo; eu mesmo me envergonhava de me atrever a voltar para aquela cidade, donde se apartara Bruto, e de querer estar onde ele não pudera. Contudo o não vi perturbado como eu estava, mas mui animoso com a lembrança da sua façanhosa e belíssima ação; nada se queixava da sua desgraça mas muito da nossa. Ele foi quem primeiro me deu a notícia da oração de L. Pisão no Senado, no primeiro de Agosto, o qual (segundo eu tinha ouvido a Bruto) ainda que foi pouco ajudado dos que o deveram ajudar, contudo, por testemunho de Bruto (que outro pode haver mais grave?) e por ditos de todos os que depois vi, me pareceu ter conseguido grande glória. Apressei-me pois para seguir aquele a quem não seguiram os que se achavam presentes; não para eu servir de coisa alguma (porque nem a esperava, nem a podia efetuar) mas para que, se me sucedesse alguma coisa favorável (pois muitas pareciam estar iminentes, preternaturais e mais que fatais) deixai neste dia esta voz, como testemunho da minha vontade para com a República. E como me persuado, Padres Conscritos, ser da vossa aprovação a causa de ambos os conselhos, antes que entre o falar na República, me queixarei um pouco da ofensa que ontem me fez António, de quem sou amigo e sempre julguei o devia ser, ainda que me não fizesse obséquio nenhum.

5. Que causa havia para ser eu só obrigado ontem com tanto rigor a ir ao Senado? só eu faltava? porventura não estavam ali menos muitas vezes? tratava-se algum negócio, a que fosse preciso levarem também os enfermos? Devia de estar Anibal às portas, ou se cuidava em fazer a paz com Pirro; para cujo negócio ficou em memória, que levaram ao Senado Ápio, cego e velho? Propunha-se a matéria das súplicas, na qual não costumam faltar os senadores, pois são obrigados não com penhores, mas pela amizade daqueles de cuja honra se trata; o que também se faz, quando se propõe o triunfo, por cuja causa, dá isto tão pouco cuidado aos cônsules que quasi é livre ao senador não se achar presente; e como eu sabia este costume, e estava molestado do caminho e enojado comigo próprio, mandei como amigo quem lhe noticiasse isto mesmo. Quando ele o ouviu, disse na vossa presença, com demasiado enfado e mui desconcertadamente, que havia ir à minha casa com oficiais. Por que crime é este castigo, para se atrever a dizer nesta Ordem que havia com oficiais públicos derribar publicamente uma casa edificada por ordem do Senado? Quem jamais obrigou um senador com tanto dano? Para que é mais penhor nem multa? Se ele soubesse a sentença que eu havia de proferir, certamente afrouxaria um pouco da severidade com que me obrigava.

6. Porventura, Padres Conscritos, julgais que eu havia de decretar o que vós seguistes de n;á vontade? que os sufrágios dos mortos se misturassem com as preces aos deuses? que se introduzissem na República ritos de que não nos pudéssemos expiar.” que se decretassem preces por um defunto? não direi por qual; seria talvez por aquele L. Bruto, que livrou a República do despotismo dos reais, e com semelhante valor e proeza propagou a sua prosápia por quasi quinhentos anos; não poderia contudo acabar comigo em conceder que a um defunto se tributasse culto divino; para que onde quer que esteja a sua sepultura, e se lhe fazem sufrágio, aí mesmo se lhe façam também preces públicas. A sentença que eu devia proferir, Padres Conscritos, havia ser de qualidade que no caso sobreviesse à República algum grave infortúnio de guerra, epidemia ou fome, facilmente me pudesse defender contra o povo romano; parte disto já sucede, parte temo que suceda. Mas praza aos deuses imortais que o perdoem ao povo romano, a esta Ordem, que o aprovou contra vontade. E poderemos falar nos demais males da República? a mim sempre é e será permitido defender o crédito e desprezar a morte; contanto que haja faculdade de vir a este lugar, não recuso o perigo de orar. Prouvera a Deus, Padres Conscritos, que eu tivesse podido estar presente no primeiro de Agosto; não porque pudesse aproveitar coisa alguma, mas para que não fosse um só consular digno daquela honra, digno da República, como então sucedeu. Daqui nasce a minha maior magoa vendo que homens que desfrutavam as maiores mercês do povo romano, não seguiram a L. Pisão, capitão de melhor sentença. Porventura fez-nos o povo romano consulares, para que, colocados no supremo e mais esplendido grau de honra, não fizéssemos caso da República? Não só com a voz, mas nem ainda com o semblante, houve cônsul algum que assentisse a Pisão. Que voluntária escravidão é esta? mas (por desgraça!) alguma seria forçosa; nem eu pretendo isto de todos os que falam do lugar e assento senatorio; uma é a causa daqueles a cujo silêncio perdoo; outra cujo falar requeiro; dos quais sinto que o povo romano deles suspeita que faltam ao seu decoro, não só por medo, o que bastava para infâmia, mas de algum por outra causa.

7. Portanto, em primeiro lugar muitas graças rendo e dou a L. Pisão, que não considerou o que podia fazer na República, mas o que devia fazer; depois vos peço, Padres Conscritos, que ainda que vos não resolvais a seguir a minha oração e autoridade, não obstante me ouçais benignamente, como tendes feito até agora.

Primeiramente julgo que se devem conservar as Actas de César; não porque as aprove, — porque, quem há que tal possa fazer? — mas porque entendo se deve principalmente atender à paz e sossego. Desejara que estivesse presente António, contanto que fosse sem advogados, mas, como entendo lhe é permitido estar enfermo, o que ele ontem a mim não me permitia; ele me diria, ou antes vós, Padres Conscritos, como defendia as Ordenações de César. Porventura o que ele escreveu em apontamento, cartas e livrinhos, que ele só proferiu como seu autor, e nem sequer proferiu, mas disse, há-de ser tido por Actas firmes de César, e o que ele gravou em bronze e quis se tivesse por Estatuto do povo e leis perpétuas, ha-via-de desprezar-se? Na minha opinião nada está tanto nas Ordenações de César, como as leis de César. Porventura se ele prometeu a alguém alguma coisa, havemos de ter isso por seguro? quando ele o não puder fazer, como não cumpriu a muitos o que lhes prometera, sendo certo, ao mesmo tempo, que muito mais mercês se têm achado feitas depois dele morto do que ele distribuiu e concedeu em vida. Mas não mudo nada disso, nem o removo; antes com todo empenho defendo suas ilustres Actas. Oxalá existisse ainda hoje o dinheiro do templo de Otis; ensanguentado na verdade, mas necessário neste tempo, em que se não entrega a quem ele pertence; posto que também este se espalhasse, seja, se assim estava decretado nas Actas de César. Há coisa que com tanta propriedade se possa chamar Acta, como a lei daquele que andou togado na República com poder e mando? Basca as Actas de Graco, apresentar-se-hão as leis Semprónias; busca as de Sila e se exibirão as Cornélias: o terceiro consulado de Pompeu em que Actas consiste? certamente nas leis. Ao mesmo César, se lhe perguntásseis que fez na Corte e na toga, responderia que muitas e excelentes leis; os escritos, porém, ou os mudaria, ou os não daria, ou se as desse, os não computaria ao número das suas Actas. Mas seja isso assim embora; em certas coisas concordo, mas nas maiores, isto é, nas leis, entendo que se não devem desmanchar as Actas de César.

8. Que lei melhor, nem de mais utilidade, e pedida instantemente pela República, quando ainda estava óptima, do que não reter o governo das províncias pretórias por mais de um ano e das consulares por mais de dois? Tirada esta lei parece-vos que se conservam as Actas de César? Porventura com aquela lei que se promulgou sobre a terceira decú-ria, não se desfazem todas as leis judiciárias de César? e defendei vós as Actas de César ao mesmo tempo que destruís as suas leis? Salvo se aquilo que para lembrança sua assentou em algum livrinho, se há de reputar por Actas, ainda que seja iníquo e inútil; e o que propôs ao povo nos comícios das centúrias, não se há de meter nas Actas de César. Mas que terceira decúria é esta? dos centuriões, diz António. E antes desta lei não se elogiam os desta Ordem para juízes pelas leis Júlia, Pompéana e Aurélia? Impunha-se o censo, diz, não só ao centurião, mas também ao cavaleiro romano; e deste modo homens de sumo valor e honra, que governaram as Ordens, julgam e julgaram os negócios. Não busco estes, diz ele. todo o que entrou no governo de alguma Ordem julgue. Mas se o propuserdes assim para todo aquele que servisse na cavalaria, o que é mais louvável, por ninguém sereis aprovado; no juiz deve atender-se a fortuna e o merecimento. Não procuro, diz, estas coisas; também acrescento juízes às ordenanças da Legião dos Alaudas; de outro modo dizem os nossos que não podem ser salvos. Quem afrontosa honra para aqueles que chamas para julgar, sem poderem opinar, pois é o sentido da lei, que julguem na terceira decúria aqueles que se não atrevem a julgar livremente. Que erro, deuses imortais, mais enorme pode haver do que o daqueles que excogitaram semelhante lei? Quanto mais vil for o homem com tanta melhor vontade levará suas sordidezes com a severidade de julgar, e trabalhará por parecer antes digno de decúrias honrosas do que metido com razão em uma desprezível.

9. Promulgou-se outra lei, para que os condenados por crime de violência e lesa majestade, se quiserem, apelem para o povo; isto enfim é lei ou destruição de todas as leis? quem há hoje em dia que lhe importe haver tal lei? Não há reu nenhum naquelas leis, ninguém que o entendamos o haja de ser; o que se obrou com as armas, nunca ha-de ser trazido a juízo. Mas é coisa tocante ao povo. Prouvera a Deus que quisésseis que alguma coisa fosse do povo! poi% já todos os cidadãos com vontade e vozes unânimes concordam sobre o bem da República. Que apetite vem logo a ser este de expedir uma lei que envolve a maior infâmia e nenhuma aceitação? que coisa mais vil que aquela, que violentamente diminuiu a mages-tade do povo romano? Mas para que disputar mais sobre tal lei, como se se procurasse que alguém apelasse? o que se trata, e se determina, é que ninguém jamais seja havido réu por essas leis. Que acusador pode haver tão insensato que, estando o réu condenado, possa ser salvo da multidão assalariada? ou que juiz se atreverá a condenar o réu havendo ele sido constrangido a empregar-se em ministérios servis? Não concede pois a lei esta apelação; mas arrancaram-se duas leis sumamente proveitosas, e duas inquirições. Que outra coisa Vem isto a ser senão exortar os mancebos a que sejam turbulentos, sediciosos e perniciosos cidadãos? tiradas estas duas inquirições, de violência e lesa-majestade, a que ruina não se arremessará a insolência dos tribunos? Além de que, não se ab-roga isto com aquelas leis de César que mandam sejam privados de água e fogo os condenados de força e lesa-majestade? concedendo-se a estes apelação, não se rescindem as Actas de César? Eu, Padres Conscritos, que nunca as aprovei, julguei se deviam conservar por causa da paz; de modo que não só entendi que se não deviam enfraquecer no tempo presente aquelas leis que César expediu sendo vivo, mas nem ainda aquelas que depois da sua morte estais vendo promulgadas e estabelecidas.

10. Por um homem morto, foram muitos restituídos do desterro; um morto foi quem concedeu o foro de cidadão não só a qualquer homem particular, mas a todas as nações e provi cias; um morto tirou os tributos com infinitas isenções. Se nós defendemos estas coisas, sendo de um só autor, posto que óptimo, feitas particularmente, havemos querer destruir aquelas leis que César recitou, expediu e promulgou na vossa presença, sobre as províncias e juizos com que ele entendia manter-se a República, defendendo nós as Actas de César? Ainda destas leis que foram promulgadas, ao menos nos podemos queixar; mas daquelas que se dizem expedidas já antes, nem isto nos foi permitido; porque estas de nenhum modo foram promulgadas antes que fossem escritas. Perguntam,Padres Conscritos, que motivo tenho eu, ou qualquer de vós, para temer leis perversas de tão bons tribunos do povo; pois tendo prontos a sujeitos, que as possam embargar, e aparelhados a defender a República, não há de quem ter medo algum. De que embargos, diz, me falas tu? de que auguros? daqueles com que as sustenta e conserva a República. Tudo isto desprezamos e temos por antiquado e cheio de estultícia; cercar-se-á o foro, tomar-se-ão todas as entradas, por-se-ão fortes presídios em muitos lugares. E então? o que deste modo se fizer, será, e vereis que se grava em bronze. Dou tudo isto por legítimo. "Os cônsules com direito exortaram o povo"; cujo direito de exortar o recebemos de nossos maiores. " O povo com direito foi informado". Que povo? aquele porventura que foi excluído? com que direito? com aquele que foi abolido pela violência das armas? Isto digo eu do futuro, pois é de amigo dizer antes o que se pode evitar; e se não suceder, refutar-se-á a minha oração. Falo das leis promulgadas, das quais ainda podeis deliberar; mostro-vos seus vícios, tirai-os; anuncio-vos força e armas, removei-as.

11. Não deves, pois, Dolabela, agastar contra mim, quando assim oro pela República; ainda que me persuado que o não has de fazer, pois inteirado estou da tua docilidade. De teu colega dizem que o está, nesta sua fortuna, que a ele lhe parece boa, e a mim, por não dizer coisa mais pesada, me pareceria mais afortunado se imitasse o consulado de seu3 avôs e de seu tio; mas ouço dizer que se pôs irado. Bem vejo quão odioso é ter tirado o mesmo que está armado, principalmente quando andam tão soltas as armas; mas proporei um partido justo na minha opinião, que entendo não rejeitará M. António. Se eu disser alguma coisa afrontosa contra a sua vida ou costumes, não recusarei que ele seja meu inimigo. Se insistir no meu costume, que sempre pratiquei na República, de dizer da República livremente o que entendo, primeiramente lhe peço que não se agaste, e em segundo lugar, se isto não conseguir, que se ire com um seu concidadão; use das armas, se assim é necessário como diz, para sua defesa; e não danifique a quem disser o que entende pelo bem da República! que requerimento pode haver mais justo do qu este? E se ele, como me dizem alguns amigos, se dá por ofendido de toda a oração que se não ajusta ò sua vontade, ainda que nela não haja afronta alguma, sofrerei o gênio do amigo. Mas aqueles mesmos me dizem deste modo: Não se te ha de permitir a ti; que és adversário de César, o mesmo que a Pisão seu sogro; e juntamente me advertem alguns deles o que hei de acautelar; e não será, Padres Conscritos, causa mais justa de não vir ao Senado a da enfermidade que a da morte.

12. Mas pelos deuses imortais te asseguro, Dolabela, a quem amo estreitissimamente, que não posso calar o erro em que vós ambos estais. Persuadido estou da vossa nobreza de ânimo e que aspirais a coisas grandes e não a dinheiro, como alguns demasiadamente crédulos suspeitam, o que nenhum varão eminente e esclarecido deixou de desprezai; nem a forças violentas e potência insofrível ao povo romano, mas ao amor dos cidadãos e glória. E’ pois a glória, o louvor das boas obras e grandes merecimentos para com a República, aprovado pelo testemunho de todas as pessoas beneméritas, e juntamente pela multidão. Dir-te-ia, Dolabela, qual é o fruto das acções boas, se não visse que já o tens um pouco experimentado. Que dia te amanheceu mais alegre, de que te possa lembrar, do que aquele em que, expiado o foro, desbaratada a assembléia dos perversos, livre a cidade do temor de incêndio., e mortandade, te recolheste para tua casa? Que classe, gênero e condição de pessoas houve que obsequiosas te não dessem louvores e agradecimentos? e também a mim, de quem julgavam te haviam aconselhado, me rendiam as graças os sujeitos beneméritos, e em teu nome me davam parabéns. Lembra-te, te peço, Dolabela, daquele consentimento do teatro, quando esquecidos todos daquilo com quem se tinham escandalizado de ti, deram a conhecer que, com o novo benefício que lhes fizeras, se haviam esquecido do seu antigo sentimento. Tiveste, Dolabela, coração, (com grande mágoa o digo) para desprezar com ânimo sossegado este tão insigne merecimento?

13. O dia em que, deixadas as inimizades, esquecido dos de quanta ansiedade a cidade? Aquele foi o primeiro córdia? de quanto temor não livraste os veteranos, e aventurado? Que nobre oração não foi aquela da con-os que discordam muito de mim, te julgavam bem no Templo da Terra, a todos aqueles meses em que tepões aquele só dia em que se congregou o Senado 13. A ti me volto, M. António, ausente; não agouros por ti mesmo anunciados, sendo agoureiro do povo romano, quiseste que teu colega entrasse a ser teu companheiro; e teu pequeno filho, mandado por ti ao Senado, foi o penhor da paz. Que dia mais alegre para o Senado, e para o povo romano? Não há memória que jamais se juntasse tão numeroso em oração alguma. Então enfim pareceu sermos livres por homens de sumo valor, porque à medida do seu desejo se seguia a paz à liberdade. No dia próximo, e no terceiro e quarto, e nos mais que se seguiram, nenhum deles deixavas passar, sem trazeres algum como donativo à República, dos quais foi o maior de todos abolires o nome de ditador; esta foi a nota, com que tu, tu mesmo, digo, marcaste o defunto César para perpétua infâmia. Assim como por causa do crime de Mânlio, por decreto da gente mânlia, não é licito a patrício nenhum chamar-se Mânlio, assim tu por ódio de um ditador este por teu director e mestre, antes te quiseste parecer de obrares tão grandes acções pelo bem da República, pesava-te da tua fortuna, grandeza esplendor e glória? Donde procedeu pois tão grande mudança repentina?

Não posso persuadir-me a suspeitar que te cativou o dinheiro. Diga cada qual o que quiser não tenho necessida de o crer; nunca em ti conheci coisa indecorosa nem abatida, posto que os domésticos às vezes costumam censurá-las; mas estou inteirado da tua constância, e prouvera a Deus que pudesse evitar a suspeita, assim como evitas a culpa.

14. Mas muito mas receio que, ignorado o verdadeiro caminho da honra, tenhas por mais glorioso poderes tu só mais do que todos, e quereres antes sertemido de teus patrícios do que amado. Se assim o entendes, muito te desvias do caminho da glória. A glória consiste em ser cidadão amado, ser benemérito da República, e louvado, respeitado e querido; mas ser temido e malquisto é coisa aborrecível, detestável, fraca e caduca. Até na fábula vemos que aquele que dizia: "Aborreçam, com tanto que temam", lhe serviu isto de ruína. Oxalá, António, te lembrasse de teu avô, de que me tens ouvido falar não pouco muitíssimas vezes. Julgas que quis ele merecer a imortalidade, procurando fazer-se temido por meio das armas que tinha faculdade de ter consigo? Toda a sua vida e próspera fortuna consistia em ser igual aos mais na liberdade, e superior no merecimento. Enfim, deixando as prosperidades de teu avô, eu antes quisera o seu rigorosíssimo fim do que o despotismo de Cina, que o matou crudelissimamente. Mas para que é querer dobrar-te eom minha oração? Se o fim de César não pode fazer que antes queiras ser amado que temido, não haverá oração que tal possa conseguir, nem acabar. Resolve-te, pois, olha para os teus antepassados e governa a República de modo que os teus cidadãos folguem de ter nascido, porque sem isto ninguém pode chegar a ser feliz, nem esclarecido, nem muito poderoso.

15. Ambos vós tendes pela vossa parte muitos juízos do povo romano, que sinto sumamente vos não acabem de mover. Que quiseram significar os clamores de inumeráveis cidades com os gladiadores? que diziam as cantigas do povo? os aplausos infinitos às estátuas de Pompeu? aos dois tribunos do povo, que vos fazem oposição? E’ pequena prova esta da unânime vontade de todo o povo romano? Por que vos pareciam nos jogos de Apolo diminutos os aplausos, ou, por melhor dizer, as atestações e juizos do povo romano? Bem aventurados aqueles que, não podendo achar-se presentes, impedidos pela força das armas, estavam contudo ali metidos no coração e entranhas do povo romano. Salvo se acaso julgais que os aplausos eram feitos ao poeta Ácio, e se lhe dava a palma sessenta anos depois de a merecer, e não a Bruto, que assim foi privado de seus jogos, de modo que naquele aparatosíssimo espectáculo significou o povo romano o afecto que lhe tinha, estando ausente; e mitigou a saudade do seu libertador com um perpétuo aplauso e aclamação. Na verdade que, tendo eu sempre desprezado semelhantes aplausos, quando se davam por cidadãos populares, sou o mesmo que digo que quando semelhante aplauso é dado pelas pessoas de todas as classes, o não avalio por aplauso, mas por juizo. Se isto vos parece de pouca importância, sendo na realidade de suma consideração, desprezais também o que experimentastes, em ser tão amada do povo a vida de A. Hírcio? Bastava estar ele em bom conceito para com o povo romano, como está; ser agradável aos amigos, no que excede a todos; amado dos seus, que o estimam sumamente; mas tanta ansiedade dos bons, tanto temor em todos, quem houve que o merecesse? Que quer isto dizer, deuses imortais? não penetrais o que isto quer dizer? Que entendeis meditam da vossa vida aqueles que tanto amam a sujeitos, em quem têm posta a confiança de que hão de acudir à República? Recebido tendo, Conscritos, o fruto da minha tornada; pois tenho dito o que basta para que fique um testemunho de minha consciência, qualquer que seja o sucesso que haja de vir; e vós me tendes ouvido com benignidade e atenção. Se esta faculdade me for concedida mais vezes sem meu perigo nem vosso, usarei dela, e se não, me guardarei, não tanto por mim como para a República. Assaz tenho já vivido para encher número de anos, e para a glória; se viver ainda mais, não tanto será para uti* lidade minha, como vossa e da República.


Tradução do Padre Antônio Joaquim. Fonte: Atena Editora, 1938.

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