Consciência - Filosofia e Ciências Humanas

Vida de Sólon, por Plutarco – Vidas Paralelas


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10/31/07

Seguindo esse oráculo, Sólon passou uma noite em Salamina e sacrificou a Perifemo e a Cícris, semideuses do país.. Isso feito, deram-lhe os Atenienses quinhentos homens que se ofereceram voluntariamente e fizeram um decreto pelo qual ordenaram que, se eles tomassem a ilha de Salamina, seriam os primeiros no governo da coisa pública. Sólon embarcou com sua gente em diversos botes de pesca, com uma galeota a trinta remos que o seguia atrás, e ancorou bem perto da cidade de Salamina, abaixo de uma ponta que dá para a ilha de Negroponto. Os Mégaros que estavam dentro de Salamina, tendo sentido não sei como algum vento, sem todavia saberem de outro modo nada de certo, acorreram incontinenti às armas, em desordem e tumulto, e enviaram um de seus navios para descobrir o que havia, o qual, tendo-se aproximado demais, foi aprisionado por Sólon, que mandou prender e ligar os Mégaros, em lugar dos quais fez embarcar naquele mesmo navio os melhores homens Atenienses que havia em sua tropa, injungindo-lhes que singrassem diretamente para a cidade, conservando-se o mais ocultos e encobertos que pudessem; e, no mesmo instante, tomando consigo o restante de seus homens, desceu em terra e foi enfrentar os Mégaros que tinham saído para os campos; e, enquanto combatiam, os que ele enviara dentro do navio chegaram e se apoderaram da cidade.

XIV. E que esse relato seja verdadeiro, o que a esse respeito se representa ainda hoje o testemunho; pois há um navio Ateniense que chega muito quieto no começo, depois de repente os que estão dentro fazem um grande barulho e um deles, armado, lança-se fora do barco e dirige-se gritando para o escolho chamado Cirádion (6), situando do lado da terra, perto do templo de Marte, que Sólon fundou após haver derrotado em batalha os Mégaros, de onde ele devolveu, sem pagar resgate, os prisioneiros que não foram mortos no ardor da refrega.

XV. Não obstante, os Mégaros se obstinaram em querer ainda recuperar Salamina, até que, depois de terem causado e sofrido muitos males, aca
baram fazendo os Lacedemônios juízes e árbitros de sua causa: no qual julgamento, a comum opinião é que a autoridade de Homero serviu a Sólon, porque ele ajuntou à lista dos navios nomeados na Ilíada de Homero (7) estes versos que pronunciou diante dos
juízes, como tendo verdadeiramente sido assim escritos por Homero:

Doze barcos o altivo Ajax levava
De Salamina e em linha os conservava
Com o quartel no qual os comandantes
De Atenas alojaram seus infantes. (8)

XVI. Todavia, os próprios Atenienses estimam ser por isso uma história inventada e dizem que Sólon fez ver aos juízes que Fileu e Eurisaces, ambos filhos de Ajax, tinham sido feitos burgueses de Atenas. Por esse meio, deram eles a ilha de Salamina aos Atenienses e foram habitar, um no lugar que se chama Bráuron, no país da Ática, e o outro no burgo de Mélita, em testemunho do que dizem eles que ainda há um cantão da Ática que se chama cantão dos Fileidas, do nome desse Fileu, do qual era natural Pisístrato. E dizem mais que Sólon, querendo ainda mais amplamente convencer os Mégaros, alegou que os de Salamina não enterravam os mortos como faziam os Mégaros, mas como os Atenienses; pois em Mégara, são enterrados com a face voltada para o sol levante, e em Atenas para o sol poente; todavia, Héreas de Mégara insiste em contradizer que os de Mégara os enterravam também com a face voltada para o sol poente, e alegou ainda mais que em Atenas cada morto tinha um sarcófago à parte e que em Mégara eram aí postos três ou quatro juntos. Mas dizem que houve ainda oráculos de Apolo Pítico que ajudaram Sólon, pelos quais o deus chamava Jônia a Salamina, Essa divergência foi decidida por cinco árbitros naturais da própria cidade de Esparta: Critolaidas, Amonfareto, Hipséquidas, Anaxilas e Cleômenes.

(6)                O grego: contra os que vêm do lado da terra. C,
(7)               
Ilíada, II, 557 e 553.
(8) Em sua vers
ão direta do grego e no metro original, publicada recentemente no Brasil pelo saudoso editor italiano Pasquale Petraccone, assim traduz o poeta Carlos Alberto Nunes esses versos de Homero: "De Salamina Ajax trouxe, também doze naves simétricas. Indo postá-las a par com as falanges dos homens de Atenas." — N. do ed, bras.      

 

XVII. Ora, tinha já Sólon adquirido grande glória e reputação por essa façanha; mas ainda foi mais estimado e renomeado pela arenga que pronunciou em defesa do templo de Apolo na cidade de Delfos, advertindo ser preciso não admitir que os Cirreus abusassem à vontade do santuário do oráculo, e ser ainda necessário levar socorro aos Délficos em honra e reverência de Apolo; pois o conselho dos Anfictiões, comovido por suas advertências e razões, sentenciou a guerra contra os Cirreus (9), como vários outros testemunham, e mesmo Aristóteles no livro que escreveu sobre os que conquistaram o prémio nos jogos Píticos, ao atribuir a Sólon a honra de tal sentença; todavia, ele não foi eleito capitão para conduzir a guerra, como Hermipo diz que Evantes de Samos escrevera; pois o orador Esquines não o admite, e nos registros dos Délficos achasse que foi certo Acméon, e não Sólon, o capitão dos Atenienses. Ora, havia já longo tempo que o crime de Cílon (10) mantinha a cidade de Atenas em grande pena e aflição, desde o ano em que Mégacles, sendo preboste (11) em Atenas, usou de tão belas palavras para com os cúmplices de Cílon, que se haviam lançado na imunidade da deusa Minerva, que os persuadiu de que estavam com o direito e de que se apresentassem a julgamento segurando pela extremidade uma rede que ligariam à base da imagem da deusa, a fim de não perderem a imunidade; mas, quando chegaram à mansão das veneráveis deusas que eles dizem serem as imagens das Fúrias, descendo para irem apresentar-se a julgamento, a rede se rompeu por si mesma e, então, Mégacles e os outros oficiais seus companheiros os agarraram incontinenti, dizendo que era sinal manifesto de que a deusa Minerva lhes recusava salvaguarda. Assim foram os que puderam ser agarrados imediatamente lapidados fera da cidade, e os outros que acorreram aos altares foram ali mortos, e não se salvaram senão os que tiveram meio de fazer interceder por eles as mulheres dos governadores da cidade, os quais desde esse tempo ficaram muito mal queridos do povo e comumente chamados os excomungados,

(9)   De Cirra, cidade da Fócida, perto do golfo de Corinto.
(10)           
Seiscentos anos antes de Jesus Cristo, Cílon apoderou- se da cidadela de Atenas, mas foi obrigado a fugir. Seus cúmplices foram degolados perto do altar das Eumênides. Eis o que se chama o crime de Cílon. Vide Tucídides, liv. I, n. 126.
(11)            Arconte.

 

XVIII. Além disso, os descendentes dos que tinham sido dessa conspiração de Cílon recuperaram crédito e, tendo-se tornado poderosos, jamais cessaram, depois, de ter grandes querelas contra os descendentes de Mégacles; e aconteceu que as suas parcialidades adquiriram maior força ao tempo de Só
lon, o qual, tendo autoridade e vendo que todo o povo estava dividido nessas duas partes, pôs-se entre ambas com os principais personagens de Atenas e fez tanto, por suas advertências e pedidos para com aqueles que se chamavam os excomungados, que eles ficaram contentes de se submeterem a julgamento; assim foram eleitos juízes, para conhecer do caso, trezentos homens dentre a gente de bem da cidade, e foi acusador Míron de Fliunte, A causa foi pleiteada e, por sentença dos juízes, condenados os excomungados: dos quais os vivos foram para o exílio, e os ossos dos executados foram desterrados e lançados fora dos limites do território de Atenas. Os Mégaros, entretanto, aproveitaram-se habilmente da ocorrência de tais perturbações para atacarem os Atenienses, tomando-lhes o porto de Niséia e recuperando de suas mãos a ilha de Salamina.

XIX. Ademais, toda a cidade se achou presa de supersticioso terror, porque se falava na volta dos espíritos e no aparecimento de fantasmas. Os próprios adivinhos diziam que, por seus sacrifícios, notavam que a cidade estava contaminada de alguns casos abomináveis, que necessariamente constituíam motivo de purgação. Por essa causa, foi enviado a Cândia, para investigar, Epimênides de Festo, que se conta o sétimo dos sábios, ao menos entre os que nesse número não querem receber Periandro. Era um santo homem religioso e muito entendido nas coisas celestes por inspiração e revelação divina: em razão do que os homens de seu tempo lhe chamavam o novo Curete, isto é, profeta, e sustenta- va-se que era filho de uma ninfa chamada Balta. Tendo pois chegado a Atenas e contraído amizade com Sólon, ajudou muito e preparou-lhe-o caminho para estabelecer suas leis: pois acostumou os Atenienses a tornarem seus sacrifícios mais ligeiros e menos dispendiosos, mais suportáveis em seu suplício, eliminando deles certas austeridades e cerimônias barbarescas, que a maior parte das mulheres observava pondo luto, e ordenando certos sacrifícios que ele queria se fizessem logo após as obséquias de um defunto. Mas, o que é mais ainda do que tudo isso, acostumando a cidade à santidade e a devoções, por sacrifícios contínuos de propiciação, por preces aos deuses, purgações, oferendas e fundações, tornou aos poucos os corações dos homens mais dóceis para obedecerem à justiça e mais idóneos e tratáveis para conduzirem à união e concórdia, Conta-se também que, tendo visto o porto de Huníquia, após havê-lo considerado longamente, disse aos que o cercavam que «o homem era bem cego nas coisas do futuro, pois que, se os Atenienses, disse ele, soubessem quanto mal este porto aqui lhes deve acarretar, eles o comeriam, por assim dizer, com os próprios dentes». Dizem também que Tales, semelhantemente, predisse coisa análoga e ordenou que, quando falecesse, enterrassem seu corpo num mau lugar do qual não se fizesse conta dentro do território dos Milésios, dizendo que seria um dia a praça da cidade. Epimênides, pois, gozando por essas causas de grande reputação no conceito geral, prestaram-lhe os Atenienses grandes honras e lhe ofereceram belos presentes com boa soma de dinheiro, mas ele nada quis aceitar e pediu somente que lhe dessem um ramo da santa oliveira. O que lhe foi outorgado, lavrando ele um tento.

XX. Mas, sendo essa sedição de Cílon apaziguada e extinta em Atenas, porque os excomungados de lá foram expulsos, recaiu de novo a cidade nas antigas perturbações e dissensões, no tocante ao governo da coisa pública, e se dividiu em tantas ligas e parcialidades quantas eram as diversas espécies de territórios dentro do país da Ática: pois havia a gente da montanha, a gente da planície e a gente da marinha. Os da montanha eram populares para a vida; ao contrário, os da planície queriam que pequeno número dos grandes burgueses tivessem toda a autoridade no manejo dos negócios; e os da marinha, querendo um governo médio e composto de ambos, impediam que qualquer das partes contrárias pudesse sobrepujar a outra. Ademais, ao mesmo tempo, a querela entre pobres e ricos, procedendo da desigualdade, estava então no auge do seu vigor, de modo que a cidade enfrentava um perigo muito grande e parecia não haver nenhum meio de compor e pacificar todas essas diferenças, a não ser que se levantasse algum tirano para ocupar a monarquia e tornar-se senhor absoluto; pois todo o povo miúdo estava tão endividado com os ricos que, ou trabalhavam suas terras e estas lhes rendiam a sexta parte dos frutos, e por esse motivo se chamavam Hectemorii e criados, ou deles tomavam dinheiro emprestado com usura sobre a garantia de suas próprias pessoas, e, não podendo pagar, ficavam adjudicados aos credores, que os mantinham como servos e escravos em suas casas, ou então os mandavam vender em país estrangeiro; e vários havia que por pobreza eram constrangidos a vender os próprios filhos, porque não havia lei que o proibisse, ou a abandonar a cidade e o país pela aspereza e crueldade dos credores usurários, até que diversos dos mais dispostos e mais robustos se uniram e se entrecorajaram a não mais sofrerem isso, para elegerem um capitão dentre eles, homem fiel, que fosse livrar do cativeiro os que estivessem adjudicados como servos por não terem pago as dívidas no dia prefixado, e que também fizesse repartir de novo todo o território e mudar inteiramente o governo.

XXI. Então, os mais sábios da cidade, vendo que Sólon era o único isento de culpa, porque não participava nem da iniquidade e violência dos ricos, nem da necessidade dos pobres, pediram-lhe interviesse nos negócios, para apaziguar e sopitar todas essas parcialidades; todavia, Fânias de Lesbos escreveu que ele usou de um ardil, pelo qual enganou ambas as partes em benefício da coisa pública: pois prometeu secretamente aos pobres que mandaria de novo repartir as terras, e aos ricos que mandaria revalidar e confirmar os contratos. Como quer.que seja, é certo que Sólon no começo hesitou muito em interferir, temendo a cobiça de uns e a arrogância de outros; por fim, todavia, foi eleito preboste (12) depois de Filombroto, e ao mesmo tempo mediador e reformador das leis e do estado da coisa pública, por vontade e consentimento das duas partes: tendo agradado aos ricos como homem que não era necessitado, e aos pobres como homem de bem. Dizem mais que uma frase e sentença dele, então na boca de toda a gente, que a igualdade não gera debate, contentava tanto os que tinham recursos como os que não possuíam nada: porque uns consideravam essa igualdade esperando que ele a medisse de acordo com a dignidade e o valor de cada um, e os outros somente de acordo com o número e por cabeça: de sorte que os próprios chefes de ambas as partes o admoestavam e solicitavam-lhe que ousadamente assumisse o principado, visto como tinha na mão toda a cidade; e os que não eram de uma nem de outra liga, vendo ser bem difícil pacificar as coisas com a lei e a razão, não estavam descontentes de que o mais sábio e melhor homem exercesse sozinho a autoridade soberana; e, assim, há os que dizem ter havido mesmo tal oráculo de Apolo:

Toma assento na popa e tua mão
Segura firme e intrépido o timão
Para reger Atenas, a cidade
Onde possuis dos teus a atividade.

(12) Arconte.


 

XXII. Mas sobretudo os familiares e amigos o instavam dizendo que ele seria bastante besta se, por medo somente de ser chamado tirano, deixasse de aceitar a monarquia, a qual se torna incontinenti justo reinado quando aquele que a exerce é homem de bem: como outrora Tinondas se fez rei do Negro- ponto pelo consentimento do povo, e agora Pítacd o é dos Coríntios. Não obstante, todas essas belas razões, jamais puderam fazê-lo sair de sua resolução; e dizem que respondeu aos amigos que «o principado e tirania era bem um bonito lugar, mas que não havia por onde sair depois de nele ter entrado»; e, num poema que escreveu a Foco, diz:

Se deixei de ultrajar o meu país
Usurpando um governo que não quis
Fosse de tirania e principado,
Por força iníqua e mando exacerbado,
Deslustrando meu nome e meu talento,
Não há motivo de arrependimento,
E nisso espero haver ultrapassado
Os homens do presente e do passado.

Por onde aparece que, ainda antes de ter sido eleito reformador do estado, para estabelecer leis novas, já era tido em grande reputação e possuía muita autoridade; mas ele próprio escreveu o que vários diziam dele após ter recusado a ocasião de usurpar a tirania:

Sólon um louco foi desabusado,
Por haver dessa forma rejeitado
Aquele grande oráculo divino.
Puxar a si não soube, astuto e fino,
A rede com a presa já segura.
E o motivo se vê de tal loucura
Somente em seu falido coração
E no cérebro cego de razão;
Pois que ser deveria, sem favor,
De Atenas rei e dos seus bens senhor,
Mesmo que depois, vivo o esquartejassem
E até parentes seus despedaçassem.

XXIII. Eis como imaginou o homem comum falando a seu respeito; mas, tendo recusado a monarquia, não se portou por isso mais mole nem mais frouxamente no governo dos negócios e nem vergou com medo dos mais poderosos, nem acomodou suas leis ao grado e à vontade dos que o elegeram reformador; e também não extirpou o mal ao vivo, nem remodelou o estado da maneira que teria sido mais expediente, por temer que, tentando reformar de alto abaixo todo o governo da cidade, não tivesse depois bastante poder para assentá-la de novo e restabelecê-la na melhor forma: portanto, modificou somente o que esperava persuadir pela razão ou fazer aceitar pela força aos seus concidadãos, misturando, como ele próprio disse, a força com a justiça. Ao que se acorda o que depois respondeu a alguém que lhe perguntara se havia estabelecido as melhores leis possíveis para os Atenienses: «Sim, disse ele, tais como as receberiam.» E o que mais tarde se observou na língua dos Atenienses, que adocicam a dureza de certas coisas odiosas em si mesmas, cobrindo-as e diminuindo com doce e graciosos nomes, como quando chamam às putas, amigas; às talhas, contribuições; às guarnições das cidades, guardas; à prisão, casa — surgiu isso primeiramente da invenção de Sólon, o qual chamou à abolição das dívidas «Seisachtheian», que equivale a dizer desencargo.

XXIV. Pois a primeira inovação e reforma que fez do governo da coisa pública foi ordenar que «todas as dívidas passadas seriam abolidas, de sorte que no futuro não mais se poderia reclamar nada aos devedores; e ninguém mais poderia emprestar dinheiro com usura sob obrigação do corpo». Todavia, há quem escreva, como entre outros Andrócion, que os pobres se contentaram de que as usuras fossem apenas moderadas, sem que as dívidas fossem abolidas e anuladas inteiramente, e que Sólon chamou «Seisachtheian» a esse desafogo e a esse gracioso desencargo, com o aumento das medidas e do valor das moedas; pois fez que a mina de prata, que antes não valia mais de setenta e três dracmas (13), valesse cem, de maneira que os que tinham a render grande soma de dinheiros vinham a pagar em estimação e valor tanto quanto deviam, e não tanto em número de peças (14); assim, os devedores ganhavam muito e os credores nada perdiam. Não obstante, a maior parte dos que escreveram a esse respeito diz que tal desencargo foi uma recisão geral e universal e uma abolição de todos os contratos, com o que parecem concordar os próprios poemas de Sólon, pois se gaba e glorifica, em seus versos (15), «de haver tirado todos os limites que antes faziam as separações das herdades em todo o território da Ática (16) a qual diz ter libertado, quando antes era serva; e dos burgueses de Atenas, que por falta de pagamento estavam adjudicados como escravos aos seus credores, trouxera, uns de países estrangeiros onde por muito tempo tinham sido vagabundos e que tinham esquecido ao falarem a língua natural Ateniense, e os outros, reduzidos no país a um cativeiro de miserável condição, a todos libertara.»

(13) A mina de Atenas, antes da reforma de Sólon, era de 75 dracmas. Essas 75, ou essas 100 dracmas, valiam 77 libras francesas
(14)           
Há aqui uma transposição que Ruauld notou bem- É preciso corrigir: "de maneira que os que tinham a render grande soma de dinheiros vinham pagar em número de peças tanto quanto deviam, e não tanto em valor", isto é, em peso e em valor intrínseco.
(15)           
Nas Observações sobre o cap. XXIV achar-se-á uma tradução desses versos, que Aristides nos conservou mais completos.

 

XXV. Mas, assim fazendo, dizem que interveio um caso que o irritou e desgostou bastante: pois, quando estava a ponto de publicar o édito pelo qual cassava e anulava todas as dívidas, não restando senão deitá-lo em bons termos e dar-lhe honesto começo, descobriu-se a alguns de seus amigos de maior confiança e com os quais tinha mais familiaridade, Cônon, Clínias e Hipõnico, e lhes disse que não.tocaria nas terras nem herdades, mas que anularia toda espécie de dívidas; eles, incontinenti, antes que o édito fosse publicado, foram tomar em prestada daqueles que estavam cheios de. pecúnia grande soma de dinheiros, com a qual compraram herdades; depois, quando o édito foi publicado, retiveram muito bem as herdades e não restituíram o dinheiro que haviam tomado de empréstimo. Isso provocou grande barulho contra Sólon e fez com que fosse muito caluniado, como se ele próprio não tivesse sofrido, mas feito parte daquela injustiça e daquele abuso; todavia, justificou-se dessa falsa imputação, mediante três mil escudos que perdeu (17), pois acharam que tanto ele devia, e foi assim o primeiro que os remeteu e deu aos seus devedores, segundo o teor de seu édito; dizem outros, entre os quais Polizelo de Rodes, que havia destes nove mil (18); todavia, jamais se deixou mais tarde de chamar aos seus amigos Creocopides, como quem dissesse anuladores de dívidas.

(16) Amyot não entendeu essa passagem dos poemas de Sólon. Ela foi muito bem explicada por Loiseau, sábio jurisconsulto, que corrige: "Pois ele se gaba e glorifica, em seus versos, de haver tirado os brandões e pendões colocados em muitos lugares nas terras hipotecadas. Diz ele havê-las libertado, quando antes eram servas.” Chamam-se brandões e pendões os avisos ou sinais colocados nas terras apenhadas e por vender judicialmente. Eram postos na Ática sobre as terras hipotecadas: operação simples, sábia e útil.

 

XXVI. Essa ordenança não aguardou nem a uns nem a outros, porque ofendeu grandemente os ricos pela cassação dos contratos; e desagradou ainda mais aos pobres, porque não punha em comum todas as terras, assim como esperavam, e não igualou todos os cidadãos em faculdades e em bens, como Licurgo fizera entre os Lacedemônios. Mas Licurgo era o undécimo descendente de Hércules em linha reta e tinha sido vários anos rei de Lacedemônia onde adquirira enorme autoridade e fizera muitos amigos: todas as quais coisas o ajudaram grandemente a pôr em execução o que sabiamente imaginara para o estabelecimento de sua coisa pública; e, não obstante, ainda usou ele mais de força que de advertência, como testemunha o fato de que lhe furaram um olho ao querer impor um ponto que na verdade é o principal e de maior eficácia, para longamente manter uma cidade em união e concórdia, ou seja, fazer que não haja nem pobre nem rico entre os cidadãos. O que Sólon não pôde conseguir, porque era nascido de raça popular e não era dos mais ricos de sua cidade, mas dos médios burgueses somente; mas fez bem tudo o que era possível fazer, com o pouco poder que tinha, não sendo ajudado senão pelo bom-senso e pela confiança que os cidadãos lhe depositavam. E que seja verdade que por esse édito incorreu no desagrado da maior parte dos habitantes da cidade, testemunhado ele próprio, dizendo:

 

Os que antes se diziam meus amigos
São agora ferozes inimigos,
Vendo-me sempre com olhar reverso,
Como se eu fosse mesmo algum perverso.

E, todavia, também diz depois que ninguém, com a mesma autoridade e poder

Teria (19) em qualquer tempo assim logrado
Apaziguar o povo amotinado.

(17)            No grego, cinco talentos, ou 23,343 libras francesas,
(18)            No grego, quinze talentos, ou 70,120 libras francesas.

 

XXVII. Mas não passou muito tempo para conhecerem a utilidade de sua ordenança; e, então, esquecendo cada qual suas queixas particulares, fizeram todos juntos um público sacrifício a que chamaram o «Sacrifício de Seisachthein», isto é, de desencargo, e elegeram Sólon reformador geral das leis e de todo o Estado da coisa pública, sem limitar- lhe o poder, antes submetendo indiferentemente todas as coisas à sua vontade, os magistrados, as assembleias públicas para o conselho, os votos e sufrágios nas eleições dos oficiais, os julgamentos, o corpo do Senado, com autoridade e poder de definir as faculdades e poderes que cada um deveria ter, o número que deveriam ser e o tempo que teriam de durar, conservando, confirmando ou cassando o que bem lhe parecesse das leis e costumes antigos e já recebidos em uso.

XXVIII. Primeiramente, pois, revogou e anulou todas as leis de Drácon, excetuadas somente as dos crimes e homicídios, por sua demasiada rigo
rosa severidade e crueldade das penas, pois quase a única espécie de punição, ordenada para todas as faltas e todos os crimes, era a morte; de maneira que os acusados e convencidos de ociosidade eram con
denados à morte, e os que roubavam frutas ou ervas num jardim eram tão severamente punidos como os sacrílegos ou os assassinos. E, portanto, observou muito bem Dêmades quando disse que «as leis de Drácon tinham sido escritas com sangue e não com tinta»; e ele próprio, sendo um dia interrogado porque havia assim ordenado indiferentemente para todas as espécies de crimes a pena de morte, respondeu que «porque estimava os menores crimes dignos de tal pena e que para os maiores não encontrava outra mais grave».

(19) Vide as Observações sobre o capítulo XXVI.

 

*

XXX. (20) Secundariamente, querendo Sólon que a administração e a magistratura ficassem nas mãos dos cidadãos ricos, como estavam, e além disso misturar a autoridade do governo de sorte que o povo miúdo nela tivesse parte, o que não havia antes, fez uma estimação geral dos bens de cada cidadão particular e dos que se acharam ter renda anual até à quantidade de quinhentas meias-minas e acima, tanto em grãos como em frutos líquidos, e fez deles a primeira ordem e lhes chamou Pentacosiomedimnes, isto é, possuidores de quinhentas meias-minas (21) de renda. E os que possuíam trezentas e podiam entreter um cavalo em serviço foram postos na segunda ordem e chamados cavaleiros. Os que tinham apenas duzentas foram postos na terceira ordem e chamados Zeugites. Todas as outras abaixo se chamavam Tetes, como quem dissesse mercenários ou assalariados, vivendo de seus braços, aos quais não permitiu tivessem nem exercessem nenhum cargo público e não gozassem do direito de burguesia, senão quando votassem nas eleições e assembléias, públicas, bem como nos julgamentos, nos quais o povo julgava soberanamente. O que no começo parecia não ser nada, mas depois se conheceu muito bem ser grande coisa, porque a maior parte dos processos e diferenças surgidas entre os particulares vinha afinal perante o povo, pois ele permitiu que perante o povo, de todas as coisas de que conheciam os oficiais, apelassem aqueles que pensassem ser gravados por suas sentenças.

 

(20)           Falta no original o cap. XXIX ou então se trata, possivelmente, de mero erro de numeração. — N. do ed. bras.
(21)          
No grego, quinhentos medimnos. A meia-mina não é mais de três alqueires de Paris. Mas o medimno continha mais de quatro alqueires, como notei sobre a vida de Licurgo, cap. XII. Sobre essa base deve ser calculada a renda das classes em Atenas. Consistia ela em grãos e frutos líquidos, isto é, vinho e óleo.  

 

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6 Comentários para “Vida de Sólon, por Plutarco – Vidas Paralelas”

  1. 6
    Francisca:

    Achei ótimo encontrar site tão cheio de instrução sobre os gregos.

  2. 5
    Miguel (admin):

    @RONALDO: Nem é essa a proposta da publicação deste ebook.

  3. 4
    RONALDO:

    Eu quero reclamar q nao tem os temas das poesias de Sólon

  4. 3
    Blog do Miguel »:

    [...] de São Paulo foi no Aréopago, espaço célebre da Atenas clássica, presente na biografia de Sólon, Péricles e Demosténes . Apesar de terem escarnecido parcialmente do cristianismo, nova seita [...]

  5. 2
    Vera Rocha:

    Grata pelo lindo trabalho.

  6. 1
    Tem que ler:

    [...] Plutarco- Sólon Download [...]

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