Consciência - Filosofia e Ciências Humanas
fechar

ÁUREA MEDIOCRITAS – Capítulo I de “O Homem Medíocre de José Ingenieros”



O Homem Medíocre (1913)

José Ingenieros (1877-1925)

Capítulo I – ÁUREA MEDIOCRITAS

I. ÁUREA MEDIOCRITAS ? — II. OS HOMENS SEM PERSONALIDADE. — III. EM TORNO DO HOMEM MEDÍOCRE. — IV. CONCEITO SOCIAL DA MEDIOCRIDADE. — V. o ESPÍRITO CONSERVADOR. — VI. PERIGOS SOCIAIS DA MEDIOCRIDADE. — VII.    a VULGARIDADE.

I — Áurea mediócritas?

Há uma certa hora em que o pastor ingênuo se assombra diante da natureza que o circunda. A penumbra se adensa; a côr das coisas se uniformiza no cinzento homogêneo das silhuetas, as primeiras humidades crepusculares levantam, de todas as ervas, um vago perfume; aquieta-se o rebanho para dormir; o sino remoto tange o seu aviso vesperal. A impalpável claridade lunar vai se esbranqui çando, ao cair sobre as coisas; algumas estrelas inquietam o firmamento com a sua titila ção, e um longínquo rumor de arroio brincando nas brenhas, parece conservar sobre misteriosos temas. Sentado sobre a pedra menor áspera que encontra à beira do caminho, o pastor contempla e emudece. convidando em vão a meditar pela convergência do sítio e da hora. Sua admiração primitiva é simples estupor. A poesia natural que o rodeia, ao refletir-se em sua imaginação, não se converte em poema. Êle é, apenas , um objeto no quadro, uma pincelada: como a pedra, a árvore a ovelha, o caminho; um acidente na penumbra. Para êle, todas as coisas foram sempre as assim continuarão a ser, desde a terra que pisa até o rebento que apascenta.

 A imensa massa dos homens pensa com a cabeça desse ingênuo pastor; não entenderia o idioma de quem lhe explicasse algum mistério do universo ou da vida, a evolução eterna de todo o conhecido, a possibilidade do aperfeiçoamento humano na contínua adaptação do homem à natureza.

Para conceber uma perfeição, é mister possuir um certo nível ético, e é indispensável alguma educação intelectual. Sem isso, podem ter-se fanatismos e superstições; ideais, nunca.

Os que vivem abaixo desse nível, e não adquirem essa educação, permanecem sujeitos a dogmas que os outros lhes impõem, escravos de fórmulas paralizadas pela ferrugem do tempo. Suas rotinas e seus preconceitos parecem-lhes eternamente invariáveis: sua obtusa imaginação não concebe perfeições passadas, nem vindouras; o estreito horizonte de sua experiência consti-tue o limite obrigatório de sua mente. Não podem formar um ideal. Encontrarão, nos alheios, uma chispa capaz de incendiar suas paixões; serão sectários, podem sê-lo. E não advertirão, siquer, a ironia dos que os convidam e se arrebanharem, em nome de ideais que podem servir, mas não compreender. Todo sonho, seguido pelas multidões, é pensado apenas por poucos visionários, que são seus amos.

A desigualdade humana não é uma descoberta moderna. Plutarco escreveu, há séculos, que "os animais de uma mesma espécie diferem menos entre si, do que um homem de outro" (Obras morais, vol. III).

Montaigne subscreveu esta opinião:

"Há mais distâncias entre tal e tal homem, do que entre tal homem e tal animal: — quer dizer que o mais excelente animal está mais próximo do homem menos inteligente, do que este último, de outro homem grande e excelente". (Ensaios, vol. I, cap. XLII).

OS que continuam afirmando a desigualdade humana, n ão pretendem dizer mais do que isso; ela será, no porvir, tão absoluta, como nos tempos de Plutarco ou de Montaigne.

Há homens mentalmente inferiores ao termo médio de sua raça, de seu tempo, de sua classe social; também os há superiores. Entre uns e outros, flutua uma grande massa impossível de ser caracterizada por Inferioridades ou por excelências.

Os psicólogos não têm querido tratar destes últimos; a arte os detesta, por incolores; a história não sabe seus nomes. São pouco interessantes; inutilmente se buscaria neles uma aresta definida, uma pincelada firme, um rasgo característico. Os moralistas os co-brem com igual desdém; individualmente, não merecem o desprezo, que fustiga os perversos, nem a apologia, reservada aos virtuosos.

Sua existência é, sem dúvida, natural e necessária. Em tudo o que oferece graus, há mediocridade; na escala da inteligência humana, ela representa o claro-escuro entre o talento e a estulticia.

Não diremos, por isso, que é sempre louvável.

Horácio não disse áurea mediocritas no sentido ge-ral e absurdo proclamado pelos incapazes de sobressair por seu engenho, por suas virtudes, ou por suas obras, Outro foi o parecer do poeta: colocando na tranqüilidade e na independência o maior bem-estar do homem, enalteceu a delícia de um viver singelo, que dista igualmente da opulência e da miséria, denominando áurea essa mediocriade material. Em certo sentido epicúreu, sua sentença é verdadeira, e confirma o remoto provér bio árabe:

"Um mediano bem-estar tranqüilo é preferível à opulência cheia de preocupações".

Inferior, daí, que a mediocridade moral, intelectual e de caráter é digna de respeitosa homenagem, implica desvirtuar a própria intenção de Horácio: em versos memoráveis, (Ad Pis., 472), menosprezou os poetas medíocres :

Mediocribus esse poetis
Non di, non homines, non concessere cólumnae.

E é lícito estender o seu direito a todos quantos o são, de espírito.

Por que deveríamos nós submeter o sentido do áurea mediocritas clássico? Por que suprimir diferenças de nível, entre os homens e as sombras, como se, rebaixando um pouco os excelentes, e levantando um pouco os nécios, se atenuassem as desigualdades criadas pela natureza?

Não concebemos o aperfeiçoamento social como produto da uniformidade de todos os indivíduos, senão, como combinação harmônica de originalidades incessantemente multiplicadas. Todos os inimigos da diferença o são também do progresso; é natural, portanto, que consideram a originalidade como um defeito imperdoável.

Os que sentenciam por essa forma, estão inclinados a confundir o senso comum com o bom senso, como se, emaranhando a significação dos vocábulos, quisesse criar afinidades entre as idéias correspondentes. Afirmemos que são antagonistas. O senso comum é coletivo, eminentemente retrógrado e dogmatista; o bom senso é individual, sempre inovador e libertário.

Pela obediência a um ou a outro, reconhecem-se servidão e aristocracia naturais, ínsitas no engenhou Dessa irremediável heterogeneidade, nasce a intolerância dos rotineiros, diante de qualquer cintilação original; cerram fileiras para se defenderem, como se as diferenças fossem crimes.

Tais desnivelamentos são um postulado fundamental da psicologia. Os costumes e as leis podem estabelecer direitos e deveres comuns a todos os homens; mas estes serão sempre tão desiguais, como as ondas que eriçam a superfície de um oceano.

 

II — Os homens sem personalidade

Individualmente considerada, a mediocridade poderia definir-se como uma ausência de característicos pessoais que permitam distinguir o indivíduo em sua so-ciedade. Esta oferece, a todos, um idêntico fardo de rotinas, preconceitos e domesticidade; basta reunir cem homens, para que eles coincidam no impessoal.

"Reuni mil gênios em um concílio, e tereis a alma de um medíocre".

Estas palavras denunciam o que, em cada homem,  não pertence a êle mesmo, e que, quando a soma sobe a muitos, se revela pelo baixo nível das opiniões coletivas.

A personalidade individual começa no ponto preciso em que cada um se torna diferente dos demais; em muitos homens, esse ponto é simplesmente imaginário. Por esse motivo, ao classificar os caracteres humanos, compreendeu-se a necessidade de separar os que carecem de traços característicos: produtos adventícios do   meio, das circunstâncias, da educação que se lhes proporciona, das pessoas que os tutelam, das coisas que os rodeiam.

Ribot chamou "indiferentes" os que vivem, sem que a sua existência seja advertida. A sociedade pensa e quer por eles. Não têm voz, nem eco. Não há linhas definidas, nem na sua própria sombra, que é, apenas, uma penumbra. Cruzam pelo mundo, às furtadelas, me drosos de que alguém possa reprochar-lhes essa ousa dia de existir em vão, como contrabandista da vida,

E o são. Ainda que os homens careçam de missão transcendental sobre a terra, em cuja superfície vivemos tão naturalmente, como as rosas e os gusanos, nossa vida não é digna de ser vivida, senão quando algum ideal a enobrece: os mais altos prazeres são inerentes à proposição de uma perfeição e a sua realização. As exigências vegetativas n ão têm biografia: na h?*tória da sua sociedade, só vive o que deixa rastros nas coisas ou nos espíritos. A vida vale pelo uso que dela fazemos, pelas obras que realizamos.

Não vive mais o que conta maior número de anos, senão o que sente melhor o seu ideal; as cãs denunciam a velhice, mas não dizem quanta juventude as percebeu.

A medida social do homem está na duração de suas obras: a imortalidade é o privilégio dos que as fazem capazes de sobreviver aos séculos, e por elas se mede.

O poder que se maneja, os favores que se mendigam, o dinheiro que se acumula, as dignidades que se conseguem, têm certo valor efêmero, que pode satisfazer os apetites daquele que não leva em si mesmo, em suas virtudes intrínsecas, as forças morais que embelezam e qualificam a vida: a afirmação da própria personalidade, e a quantidade de altivez posta na significação de nosso eu. Viver é aprender, para ignorar menos; é amar, para nos vincularmos a uma parte maior de humanidade; é admirar, para compartilhar as excelências da natureza, bem como dos homens; é esforço para melhorar, um afã incessante de elevação em direção de ideais definidos.

Muitos nascem: poucos vivem. Os homens sem personalidade são inumeráveis, e vegetam, moldados pelo meio, como cera fundida no cadinho social. Sua moralidade de catecismo e sua inteligência quadriculada, os constrangem a uma perpétua disciplina do pensamento e da conduta; sua existência é negativa como unidade social.

O    homem de caráter firme é capaz de mostrar encrespamentos sublimes, como o oceano; nos temperamentos domesticados, tudo parece superfície tranqüila, como nos lamaçais. A falta de personalidade torna-os, a estes, incapazes de iniciativas e de resistências. Desfilam inadvertidos, sem aprender nem ensinar, diluindo em tédios a sua insipidez, vegetando na sociedade, que ignora a sua existência; zeros à esquerda, que nada qualificam, e que para nada servem. Sua falta de robustez moral os faz ceder à mais leve pressão, sofrer todas as influências, altas e baixas, grandes e pequenas, transitoriamente arrastados à altura pelo mais leve zéfiro, ou emborcados pela onda miúda de um riacho. Barco de amplo velame, mas sem leme, não sabe adivinhar a sua própria rota: ignoram se irão encalhar numa praia arenosa, ou se irão esborrachar-se contra um escolho.

Estão em todas as partes, embora inutilmente procurássemos um, capaz de se reconhecer; se achássemos, seria um original, pelo simples fato de se envolver na mediocridade.

Quem é que não se atribui alguma virtude, certo talento ou um caráter firme? Muitos cérebros rudes se envaidecem de sua própria necessidade, confundindo a paralisia com a firmeza, que é dom de poucos eleitos; os velhacos se orgulham de sua picardia e da falta de vergonha, confundindo-as com o engenho; os servir e os papalvos pavoneiam-se de honestos, como se a incapacidade para praticar o mal pudesse, em algum caso, ser confundida com a virtude.

Si se tivesse em conta a boa opinião que todos os homens formam de si próprios, seria impossível dis-correr sobre os que se caracterizam pela sua ausência de personalidade. Todos julgam ter uma: e muito sua. Nenhum adverte que a sociedade o submeteu a essa operação aritmética que consiste em reduzir muitas quantidades a um denominador comum: a mediocridade.

Estudamos, pois, os inimigos de toda perfeição, cegos para os astros. Existe uma vastíssima biografia acerca dos inferiores e dos insuficientes, desde o criminoso e do delirante, até o retardado e o idiota; há, também, uma rica literatura consagrada a estudar o gênio e o talento, razão pela qual a história e a arte convergem, na manutenção de seu culto. Uns e outros são, entretanto, exceções. O habitual não é o gênio, nem o idiota; não é o talento nem o imbecil. É o homem que nos rodeia a milhares, o que prospera e se reproduz, no silêncio e na treva: é o medíocre.

Cabe ao psicólogo dissecar a sua mente, com firme escalpelo, tal como fazem com os cadáveres aquele professor eternizado pelo pincel de Rembrandt, na Lição de Anatomia: seus olhos parecem que se iluminam, ao contemplar as entranhas mesmas da natureza humana, e seus lábios palpitam de eloqüência serena, ao dizer a sua verdade, para quantos o rodeiam.

Por que não estendemos o homem sem idéias sobre a nossa mesa de autópsias, até saber o que é, como é, que faz, que pensa, para que serve?

Sua etopéia constituirá um capítulo básico para a psicologia da moral.

 

III — Em torno do homem medíocre

 

Com diferentes denominações, e sob aspectos heterogêneos, já se tentou, algumas vezes, definir o homem sem personalidade. A filosofia, a estatística, a antropologia, a psicologia, a estética e a moral, contribuíram para a determinação de tipos mais ou menos exatos: não se advertiu, sem embargo, o valor essencialmente social da mediocridade. O homem medíocre — como, em geral, a personalidade humana — só pode ser definido com relação à sociedade em que vive, por sua função social.

Se pudéssemos medir os valores individuais, graduá-los-íamos em escala contínua, de baixo para cima. Entre os tipos extremos e escassos, observaríamos u’a massa abundante de sujeitos, mais ou menos equivalentes acumulados nos graus centrais da série. Mera ilusão seria a de quem pretendesse procurar ali o hipotético protótipo da humanidade, o Homem Natural, que Aristóteles andou buscando; séculos mais tarde, a peregrina ocorrência reapareceu no redemoinhante espírito de Pascal. Mediania, com efeito, não é sinônimo de normalidade. O homem normal não existe: não pode existir. A humanidade, como todas as espécies viventes, evolue sem cessar; suas mudanças se operam desigualmente, em numerosos agregados sociais diferentes entre si. O homem normal numa sociedade, não n’o é em outra; o de há mil anos não n’o seria hoje, nem no porvir.

Morel se equivocara, por esquecer isto, quando o concebia como um exemplar da "edição princeps" da Humanidade, lançada em circulação pelo Supremo Autor. Partindo dessa premissa, definia a degeneração, em todas as suas formas, como uma divergência patológica do perfeito exemplar originário. Disso, ao culto do homem primitivo, mediava um passo, distanciaram-se, felizmente, de tal preconceito, os antropólogos contemporâneos. O homem — dizemos agora — é um animal que evolui nas mais recentes idades geológicas do planeta; não foi perfeito em sua origem, nem a sua perfeição consiste em regressar às suas formas avitas, surgidas da animalidade simiesca. Se não pensássemos assim, renovaríamos as divertidíssimas Sendas do anjo caído da árvore do bem e do mal, da serpente tentadora, da maçã aceita por Adão, e do paraíso perdido.

Quetelet pretendeu formular uma doutrina antropológica ou social acerca do Homem Médio: seu ensaio é uma inquirição estatística, complicada por inocentes aplicações do abusado in medio stat virtus. Não incorremos nesse erro de admitir que os homens medíocres podem ser reconhecidos por atributos físicos ou morais, que representam um meio-termo entre os observado na espécie humana. Nesse sentido, seria um produto abstrato, sem corresponder a indivíduo de existência real.

O conceito da normalidade humana só poderia ser relativo a determinado ambiente social; serão normais os que melhor "marcam passo", os que enfileiram com mais exatidão nas hostes de um convencionalismo social?

Neste sentido, homem normal não seria sinônimo de homem equilibrado, sinão, de homem domesticado; a passividade não é equilíbrio, não é uma complicada resultante de energias, e, sim, a sua ausência.

Como confundir os grandes equilibrados, Leonardo e Goethe, com os amorfos?

O equilíbrio entre os pratos carregados, não pode ser comparado com a quietude de uma balança vazia. O homem sem personalidade não é um modelo, sinão, uma sombra; se há perigos na idolatria dos heróis e dos homens representativas, à maneira de Carlyle ou de Emerson, mais ainda os há em repetir essas fábulas que permitiriam encarar como aberração toda excelência do caráter, de virtude e de intelecto.

Bovio assinalou este grande erro, pintando o homem médio com traços psicológicos precisos:

"É dócil, acomodaticio em todas as pequenas oportunidades, adaptabilíssimo a todas as temperaturas de um dia variável, avisado nos negócios, resistente às combinações dos astutos; mas, deslocado da sua mediocre esfera, e ungido por uma feliz combinação de intrigas, êle se desmorona sempre, logo depois precisamente porque é um equilibrista, e não leva em si as forças do equilíbrio. Equilibrista não significa equilibrado. Esse é o preconceito mais grave: o homem medíocre equilibrado e o gênio desequilibrado".

Em seus mais indulgentes comentaristas, esse pretendido equilíbrio se estabelece entre qualidade pouco dignas de admiração, cuja resultante provoca mais lástima do que inveja. Certa vez, recebeu Lombroso um telegrama decididamente norte-americano. Era, com efeito, de um grande jornal, e solicitava uma entensa resposta telegráfica a uma pergunta presenteada com a sugestiva recomendação de um cheque:

"Qual é o homem normal?"

A resposta desconcertou, sem dúvida, os leitores. Longe de louvar as suas virtudes, traçava um quadro de caracteres negativos e estéreis: "bom apetite, trabalhador, ordenado, egoísta, apegado aos seus costumes, misoneísta, paciente, respeitoso a toda autoridade — animal doméstico". Ou, em palavras mais breves, fruges consumere natus, como disse o poeta latino.

Com ligeiras variantes, essa definição evoca a do Filistew. produto do costume, desprovido de fantasia, ornato de todas as virtudes da mediocridade, levando uma vida honesta, graças à moderação de suas exigências, preguiçoso em suas concepções intelectuais, suportando, com paciência comovedora, todo o fardo de preconceito que herdou dos seus antepassados". Nestas linhas, refletem-se as invectivas, já clássicas, de Heine, contra a mentalidade que êle julgava corrente entre os seus compatriotas. Por sua parte, Schopenhauer, nos seus "Aphorismos", definiu o perfeito filisteu, como um sêr que se deixa enganar pela aparência, e toma a sério todos os dogmatismos sociais, constantemente preocupado com se submeter às farsas mundanas.

A estas definições do homem médio, podem juntar-se outras de caráter intelectual ou estético, não isentas de interesse, embora unilaterais. Para alguns, a mediocridade consistiria na inaptidão para exercitar as mais altas qualidades do engenho; para outros, seria a inclinação a pensar terra-a-terra. Medíocre corresponderia a Burguês, em contraposição a Artista; Flaubert o definiu como um homem que "pensa baixamente". Julgado com esse critério, parece-lhe detestável.

Tal êle aparece na magnífica silhueta de Helo, atabalhoado prosista católico, que nos ensinou a admirar Ruben Dário. Distingue o medíocre do imbecil; este ocupa um extremo do mundo, o gênio ocupa o outro; o medíocre está no centro.

Será êle, então, o que em filosofia, em política ou em literatura, se denominam um eclético ou um justo meio?

De maneira alguma, responde. Aquele que é justo-meio, o sabe, tem a intenção de o ser; o homem medíocre é justo-meio, sem suspeitar que o é. É-o por natureza, não por opinião; por caráter, não por acidente. Em todo instante de sua vida, bem como em qualquer estado de alma, será sempre medíocre. Seu traço característico, absolutamente inequívoco, é a sua deferência para com a opinião dos outros. Nunca fala; repete sempre. Julga os homens como os ouve julgar. Reverenciará o seu mais cruel adversário, si este conseguir elevar-se; desdenhará 0 seu melhor amigo, si ninguém o elogiar. O seu critério carece de iniciativa. Suas admirações são prudentes. Seus entusiasmos são oficiais. Essa definição descritiva — análoga às que repetira Barbey D’Aurevilly — possue uma eloqüência muito sugestiva, embora parta de premissas estéticas, para chegar a conclusões morais".

O "homem normal" de Bóvio e de Lombroso corresponde ao "filisteu" de Heine e de Schopenhauer, aproximando-se ambos do "burguês" anti-artístico de Flaubert e de Barbey D’Aurevilly. Mas, forçoso é reconhecê-lo, tais definições são inseguras, à luz da psicologia social; convém procurar outra, mais exata e menos equívoca, explanando o problema por outros meios.

 

IV — Conceito social da mediocridade

 

Nenhum homem é excepcional em toda as suas aptidões; mas se poderia afirmar que são medíocres, redondamente, os que não se sobrelevam por nenhuma. Desfilam, diante de nós, como simples exemplares da história natural, com tanto direito como os gênios e os imbecis. Existem: é preciso estudá-los. O moralista dirá, depois, se a mediocridade é boa ou má; ao psicólogo, por enquanto, isto lhe é indiferente: observa os caracteres no meio social em que vivem, descreve-os, compara-os e os classifica, da mesma forma que outros naturalistas observam fósseis no leito de um rio, ou mariposas na corola de urna flor.

Não obstante as infinitas diferenças individuais, existem grupos de homens que podem ser englobados dentro de tipos comuns; tais classificações, simplesmente aproximativas, constituem a ciência dos caracteres humanos, a Etiologia, que reconhece em Teofrasto o seu legítimo progenitor. Os antigos fundavam-na sobre os temperamentos; os modernos procuram suas bases na preponderância de certas funções psicológicas. Estas classificações, admissíveis sob um aspecto especial, são insuficientes para o nosso.

Se observarmos qualquer sociedade humana, o valor dos seus componentes é sempre relativo ao conjunto: o homem é um valor social.

Todo indivíduo é produto de dois fatores: a hereditariedade e a educação. A primeira tende a fornecer-lhe os órgãos e ao funções mentais que as gerações precedentes lhes transmitem; a segunda é o resultado das múltiplas influências do meio social ern que o indivíduo é obrigado a viver. Esta ação educativa é, por conseguinte, uma adaptação das tendências hereditárias à mentalidade coletiva: uma contínua aclimação do indivíduo na sociedade.

A criança se desenvolve como um animal da espécie humana, até começar a distinguir as coisas inertes dos seres vivos, e a reconhecer, entre estes, os seus semelhantes. Os princípios da sua educação são, nesse tempo, dirigidos pelas pessoas que a circundam, tornando-se cada vez mais decisiva a influência do meio; desde que esta predomine, a criança evolui como um membro da sua sociedade, e seus hábitos se organizam mediante a imitação. Mais tarde, as variações, adquiridas no curso, da sua experiência individual podem fazer que o homem se caracterize como uma pessoa diferenciada dentro da sociedade em que vive.

A imitação desempenha um papel importantíssimo, quasi exclusivo, na formação da personalidade social; a invenção produz, em troca, as variações individuais. Aquela é conservadora, e atua criando hábitos; esta é evolutiva, e se desenvolve mediante a imaginação. A diferente adaptação de cada indivíduo ao seu meio, depende do equilíbrio entre o que imita e o que inventa. Nem todos podem imitar ou inventar da mesma maneira, pois estas virtudes se realizam tendo por base certa capacidade congênita, inicialmente desigual, recebida mediante a hereditariedade psicológica.

 

O predomínio da variação determina a originalidade. Variar é ser alguém; diferenciar-se é ter um caráter próprio, um penacho, grande ou pequeno; embora, por fim, de que não se vive como simples reflexo dos outros.

A função capital do homem medíocre é a paciência imitativa; a do homem superior é a imaginação criadora.

O medíocre aspira a confundir-se com os que o rodeiam: o original tende a diferenciar-se deles. Enquanto um se concretiza, pensando com a cabeça da sociedade, o outro aspira a pensar com a própria cabeça. Nisto se estriba a desconfiança que sói rodear os caracteres originais: nada parece tão perigoso como um homem que aspira a pensar com a sua cabeça.

** *

Podemos recapitular. Considerando cada indivíduo em relação a seu meio, ver-se-á que três elementos concorrem para formar a sua personalidade: a hereditariedade biológica, a imitação social e a variação individual.

Todos, ao nascer, recebem, como herança da espécie, os elementos para adquirir uma ‘personalidade específica, insuficiente para adaptá-los à mentalidade social.

O homem inferior é um animal humano; em sua mentalidade, predominam as tendências instintivas condensadas pela herança, e que constituem a "alma da espécie". Sua inaptidão para a imitação o impede de se conformar com o meio social em que vive; sua personalidade não se desenvolve até o nível corrente, vivendo por baixo da moral ou da cultura dominante, e, em muitos casos, fora da legalidade. Esta insuficiente adaptação determina a sua incapacidade para pensar como os outros, e compartilhar as rotinas comuns.

A maioria, mediante a educação imitativa, copia, das pessoas que a rodeiam, uma personalidade social perfeitamente adaptada.

O homem medíocre é uma sombra projetada pela sociedade; é, por essência, imitativo, e está perfeitamente adaptado para viver em rebanho, refletindo rotinas, preconceitos e dogmatismos reconhecidamente úteis para a domesticidade.

Assim como o inferior herda a "alma da espécie", o medíocre adquire a "alma da sociedade". Seu característico é imitar a todos quantos o rodeia; pensar com a cabeça alheia, e ser incapaz de formar idéia própria.

Uma minoria, além de imitar a mentalidade social, adquire variações próprias, uma personalidade individual, nitidamente diferenciada.

O homem superior é um acidente proveitoso para a evolução humana. É original e imaginativo, desadap-tando-se do meio social, na medida da sua própria variação. Esta se sobrepõe aos atributos hereditários da "alma da espécie" e as aquisições imitativas da "alma da sociedade", constituindo as arestas singulares da "alma individual", que o distinguem dentro da sociedade. É precursor de novas formas de perfeição, pensa melhor do que o meio em que vive, e pode sobrepor ideais seus às rotinas dos demais.

V —   O espírito conservador

Tudo o que existe é necessário. Cada homem pos-sue um valor de contraste, se não o tem de afirmação; é um detalhe necessário na infinita evolução do proto-homem ao super-homem. Sem a sombra, ignoraríamos o valor da luz. A infâmia nos induz a respeitar a virtude; o mel não seria doce, se os aloés não nos ensinassem o paladar da amargura; admiramos o vôo da águia, porque conhecemos o rastejar da serpente; o gorjeio do rouxinol encanta mais depois de se ter escutado o silvo da cascavel. O medíocre representa um progresso, comparado com o imbecil, embora se conserve em categoria, se o compararmos com o gênio; suas idiosincrasias sócias são relativas ao meio e ao momento em que atua. De outra forma, se fosse intrinsecamente inútil, não existiria: a seleção natural exterminá-lo-ia. É necessário para a sociedade, como as palavras o são para o estilo. Mas não bastaria, para criá-los, alinhar todos os vocábulos que jazem no dicionário; o estilo começa onde aparece a originalidade individual.

Todos os homens de firme personalidade e de mente criadora, seja qual fôr a sua escola filosófica, ou o seu credo literário, são hostis à mediocridade. Toda criação é um esforço original; a história conserva o nome de poucos iniciadores, e, esquece o de inúmeros sequazes que os imitam. Os visionários de verdades novas, os inovadores de belezas — desde Renan e Hugo, até Guyan e Flaubert — a consideram como um obstáculo com que o passado obstrui o advento do seu trabalho renovador.

Em face da moral social, sem dúvida, os medíocres encontram uma justificação, como tudo o que existe por necessidade. O eterno contraste das forças que atuam nas sociedades humanas, se traduz na luta entre duas grandes atitudes que agitam a mentalidade coletiva: o espírito conservador, ou rotineiro, e o espírito original, ou de rebeldia.

Dorado consagrou-lhe belas páginas. Crê impossível dividir a humanidade em duas categorias de homens, uns rebeldes em tudo, outros em tudo rotineiros; se assim fosse, não se poderia dizer quais os que interpretam melhor a vida. Não é possível um viver imóvel de indivíduos todos conservadores, nem o é um instável amotinamento de rebeldes e insubmissos, para os quais nada existe que seja bom, nem há senda alguma digna de ser seguida. É verossímel que ambas as forças sejam igualmente imprescindíveis. Obrigados a eleger, daríamos preferência a uma atitude conservadora? A originalidade necessita de um contrapeso robusto, que previna os seus excessos; haveria ligeireza em fustigar os homens metódicos e de passo lento, se eles constituíssem os tecidos sociais mais resistentes. Como acontece com os organismos, os diferentes elementos sociais servem de mútuo sustentáculo; ao invés de se olharem como inimigos, deveriam considerar-se como cooperadores de uma obra única, embora complicada. Se no mundo não houvesse mais do que rebeldes, o mundo não poderia marchar; tomar-se-ia impossível a rebeldia, se faltasse alguém contra quem se rebelar. E, sem inovadores, quem arrastaria o carro da vida, sobre o qual aqueles vão tão satisfeitos? Ao invés de se combaterem, ambas as partes deveriam entender-se, e concordar em que nenhuma teria motivo de existir se a outra não existisse. O conservador sagaz pode abençoar o revolucionário, e vice-versa. Eis aqui uma nova base para a tolerância: todo homem necessita de seu inimigo.

Se tivessem igual razão de ser, tanto os imitadores como os revolucionários, como argumenta o pensador espanhol, sua justificação já estaria feita. Ser medíocre não é uma culpa; sendo-o, sua conduta é legítima.

Acertam os que extraem da sua vida a maior soma de frutos, e procuram passar, na melhor situação possível, os seus curtos dias sobre a terra, sem consagrarem uma hora ao seu próprio aperfeiçoamento moral, sem se preocuparem com os seus próximos, nem com as gerações posteriores? É pecado operar por esta forma? Pecam, porventura, os que não pensam em si mesmo, e vivem para os outros; os abnegados, os altruístas, os que sacrificam seus prazeres e suas forças em benefício alheio, renunciando a suas comodidades e até a sua vida, como freqüentemente acontece?

Por indefectível que seja pensar no amanhã, dedicando-lhe certa parte de nossos esforços, é impossível deixar de viver no presente, pensando nele, ao menos em parte. Antes das gerações vindouras, estão as atuais; outrora foram futuras, e para elas trabalharam as passadas.

Este raciocínio, embora um tanto sanchesco, seria respeitável, se colocássemos o problema no terreno abstrato do homem extra-social, isto é: fora de toda sanção presente e futura. Evidentemente, cada homem é como é, e não poderia ser de outra maneira; fazendo abstração de toda moralidade, teria tão pouca culpa do seu delito o assassino, como o gênio de sua criação. O original e o rotineiro, o folgazão e o trabalhador, o máu e o bom, o generoso e o avarento, todos são assim, apesar de própria vontade; não o seriam, se o equilíbrio entre o seu temperamento e a sociedade o impedissem.

Por que, então, a humanidade admira os santos, os gênios e os heróis, todos os que inventam, ensinam ou plasmam, os que pensam no porvir, ou encarnam um ideal, ou forjam um império — Sócrates e Cristo, Aristóteles e Bacon, Cesar e Washington?

Aplaude-os, porque toda sociedade tem, implícita, uma moral, uma tábua própria de valores, que aplica para julgar cada um dos seus componentes, não de conformidade com as conveniências individuais, senão, de acordo com a sua utilidade social. Em cada povo, em cada época, a medida do excelso está nos ideais de perfeição que se denominam gênio, heroísmo, santidade.

A imitação conservadora deve, pois, ser julgada por sua função de resistência, destinada a conter o impulso criador dos homens superiores e as tendências destrutivas dos sujeitos anti-sociais. Nos prolegômeos do seu ensaio sobre o gênio e o talento, Nordau faz o seu elogio irônico; para toda mente elevada, o filisteu é a besta negra, e, nessa hostilidade, êle vê uma evidente ingratidão. Parece-lhe útil; com um pouco de benevolência, chegaria a conceder-lhe essa relativa beleza das coisas perfeitamente adaptadas ao seu objeto. É o fundo de perspectiva, na paisagem social. De sua exiguidade estética depende todo o relevo adquirido pelas figuras que ocupam o primeiro plano. Os ideais dos homens superiores permaneceriam em estado de quimeras, si não fossem recolhidos e realizados por filisteus, destituídos de iniciativas pessoais, que vivem esperando — com uma encantadora ausência de idéias próprias — os impulsos e sugestões dos cérebros luminosos. É verdade que o rotineiro não cede facilmente às instigações dos originais; mas a sua própria inércia é garantia de que só recolhe as idéias de provada conveniência para o bem-estar social. Sua grande culpa consiste em ser encontrado sem busca nem pesquisa; seu número é imenso. Apesar de tudo, é necessário; constitui o público desta comédia em que os homens superiores avançam até as ribaltas, em busca do seu aplauso e de sua sanção.

Nordau chega a dizer, com fina ironia:

‘Toda vez que alguns homens de gênio se encontram reunidos, ao redor de uma mesa de cervejaria, seu primeiro brinde, em virtude do direito e da moral, deveria ser para o filisteu".

È tão exagerado este critério irônico que proclama a sua conspicuidade, como o critério estético que o relega à mais baixa esfera mental, confundindo-o com o homem inferior.

Individualmente considerado, através do prisma moral e estético, é uma entidade negativa; mas, tomados os medíocres em conjunto, podem-se-lhe atribuir funções de lastro, indispensáveis ao equilíbrio da sociedade.

Merecem esta justiça. Seria possível a continuidade social, sem essa compacta massa de homens puramente imitativos, capazes de conservar os hábitos rotineiros que a sociedade lhe infunde, mediante a educação?

O medíocre nada inventa, nada cria, não impulsiona, não rompe, não engendra; mas, em compensação, sabe custodiar zelosamente a armação dos automatismos, dos preconceitos e dogmas acumulados durante séculos defendendo esse capital comum contra os assaltos dos inadaptáveis. Seu rancor contra os criadores é compensado pela sua resistência aos destruidores. Os homens sem ideais desempenham, na história humana, o mesmo papel da hereditariedade na evolução biológica: conservam e transmitem as variações úteis para a continuidade do grupo social. Constituem uma força destinada a contrastar o poder dissolvente dos inferiores e a conter as antecipações atrevidas dos visionários. São necessários à coesão do conjunto, como o cimento, para sustentar um mosaico bizantino. Mas — é preciso dizê-lo, o cimento não é o mosaico.

Sua ação seria nula, sem o esforço fecundo dos originais, que inventam o imitado, depois, por eles. Sem os medíocres não haveria estabilidade nas sociedades; mas, também sem os superiores, não se pode conceber o progresso, porquanto a civilização seria inexplicável em uma raça constituída apenas de homens sem iniciativa.

Evolver é variar; somente é possível variar mediante a invenção. Os homens imitativos se limitam a entesourar as conquistas dos originais; a utilidade do rotineiro está subordinada à existência do idealistas, como a fortuna dos livreiros se estriba no engenho dos escritores. A "alma social" é uma empresa anônima, que explora as criações das melhores "almas individuais", resumindo as experiências adquiridas e ensinadas pelos inovadores.

Estes são a minoria; mas são leveduras de maiorias vindouras. As rotinas defendidas, hoje, pelos medíocres, são simples glosas coletivas de ideais concebidos ontem, por homens originais. O grosso rebanho social vai ocupando, a passo de tartaruga, as posições atrevidamente conquistadas muito antes por suas sentinelas avançadas, perdidas na distância; e estes já estão muito longe, quando a massa cuida estar batendo na seu retaguarda. O que ontem foi ideal, contra uma rotina, será, amanhã, rotina, por sua vez, contra outro ideal. Infelizmente, porque a perfectibilidade é indefinida.

Si os hábitos resumem a experiência passada de povos e de homens, dando-lhes unidade, os ideais orientam sua vindoura, e marcam o seu provável destino. Os idealistas e os rotineiros são fatores igualmente indispensáveis, muito embora uns temam os outros. Completam-se na evolução social, não obstante o fato de se olharem de esconso. Si os primeiros fazem mais para o porvir, os segundos interpretam melhor o passado. A evolução de uma sociedade, esporeada pelo afã de perfeição, e contida por tradições dificilmente removíveis, deter-se-ia para sempre, sem o afã, e sofreria sobressaltos rápidos, sem as tradições.

VI — Perigos sociais da mediocridade

A psicologia dos homens medíocres caracteriza-se por um traço comum: a incapacidade de conceber uma perfeição, de formar um ideal.

São rotineiros, honestos, mansos; pensam com a cabeça dos outros, condividem a hiprocrisia moral alheia, e ajustam o seu caráter às domesticidades convencionais.

Estão fora de sua órbita o engenho, a virtude e a dignidade, privilégio dos caracteres excelentes; sofrem, por isso, e os desdenham. São cegos para as auroras; ignoram a quimera do artista, o sonho do sábio e a paixão do apóstolo. Condenados a vegetar, não suspeitam que existe o infinito, para além dos seus horizontes.

O horror do desconhecido ata-os a mil preconceitos tornando-os timoratos e indecisos; nada aguilhoa a sua curiosidade; carecem de iniciativa, e olham sempre para o passado, como si tivessem olhos na nuca.

São incapazes de virtude; ou não a concebem, ou ela lhes exige demasiado esforço. Nenhum afã de santidade consegue pôr em alvoroço o sangue do seu coração; às vezes não praticam crimes, com medo do remorso.

Não vibram em tensões mais altas de energia; são frios, embora ignorem a serenidade; apáticos, sem serem previsores; acomodaticios sempre, nunca equilibrados. Não sabem estremecer, num calafrio, sob uma carícia terna, nem desencadear de indignação, diante de uma ofensa.

Não vivem a sua vida para si mesmos, sinão para o fantasma que projetam na opinião dos seus semelhantes. Carecem de linha; sua personalidade se desvanece, como um traço de carvão sob a ação do esfuminho, até desaparecer por completo. Trocam a sua honra por uma prebenda, e fecham a sua dignidade com chave, para evitar um perigo; renunciariam a viver, ao invés de gritar a verdade em face do erro de muitos. Seu cérebro e seu coração estão entorpecidos igualmente, como pólos de um ímã gasto.

Quando se arrebanham, são perigosos. A força do número supre a debilidade individual: mancomunam-se aos milhares, para oprimir todos quantos desdenham encadear a sua mentalidade nos elos da rotina.

Subtraídos à curiosidade do sábio, pela couraça da sua insignificância, fortificam-se na coesão do total; por isso, a mediocridade é, moralmente, perigosa, e o seu conjunto é nocivo em certos momentos da história: quando reina o clima da mediocridade.

Épocas há em que o equilibrio social se rompe a seu favor. O ambiente torna-se refratário a toda ânsia de perfeição; os ideais se emurchecem, e a dignidade se ausenta; os homens acomodaticios têm a sua primavera florida. Os Estados convertem-se em mediocrasias; a falta de aspirações para manter alto o nivel da moral e da cultura, vai tornando mais profundo o lamaçal, constantemente.

Embora isolados não mereçam atenção, em conjunto, constituem um regime, representam um sistema especial de interesses irremovíveis. Subvertem a tábua dos valores morais, falseando nomes, desvirtuando conceitos; pensar é loucura, dignidade é irreverência, é lirismo a justiça, a sinceridade é tolice; a admiração, imprudência; a paixão, ingenuidade; a virtude, estupidez. ..

Na luta das conveniências presentes contra os ideais futuros, do vulgar contra o excelente, é comum vêr mesclado o elogio do subalterno com a difamação do conspícuo, pois, tanto uma coisa como outra, comovem, igualmente os espíritos embrutecidos. Os dogmatistas e os servis aguçam os seus silogismos, para falsear os valores na conciencia social; vivem da mentira; alimentam-se dela, semeiam-na, regam-na, podam-na, colhem-na. Assim, criam um mundo de valores fictícios, que favorece a escala dos gênios, dos santos e dos heróis obstruindo, nos povos, a admiração da glória. Fecham o curral, cada vez que vibra, nas vizinhanças, o alento inequívoco de uma águia.

Nenhum idealismo é respeitado. Se um filósifo estuda a verdade, tem de lutar contra os dogmatistas mumificados; si um santo quer atingir a virtude, despedaça-se contra os preconceitos morais do homem acomodatício; si o artista sonha novas formas, ritmos ou harmonias, as regulamentações oficiais da beleza embargam-lhe o passo; si o enamorado quer amar, obedecendo ao seu coração, esborôa-se contra as hiprocrisias do convencionalismo; si um juvenil impulso de energia leva a inventar, a criar, a regenerar, a velhice conservadora corta-lhe o passo; si alguém, com gesto decisivo, ensina a dignidade, ladra a turba dos servís; os invejosos corcomem, com sanha perversa, a reputação dos que tomam os caminhos dos cimos; si o destino chama um gênio, um santo ou um herói, para reconstruir uma raça ou um povo, as mediocracias, tacitamente arregimentadas, resistem. Todo idealismo encontra, nesses climas, o seu Tribunal do Santo Ofício.

VII — A vulgaridade

A Vulgaridade é a água-forte da mediocridade. A psicologia do vulgar mora na obstinação do medíocre; basta insistir nos traços suaves da aquarela, para se ter a água-forte.

Dir-se-ia que é uma revivescência de antigos atavismos. Os homens se vulgarizam quando reaparece, em seu caráter, o que foi mediocridade nas gerações avoengas; os vulgares são medíocres de raças primitivas: ter-se-iam perfeitamente adaptados em sociedades selvagens, mas carecem da domesticidade que os fundiria com ou seus contemporâneos. Se conserva uma dócil aclimação em seu rebanho, o medíocre pode ser rotineiro, honesto e manso, sem ser decididamente vulgar. A vulgaridade é uma acentuação dos estigmas comuns a todo sêr gregário; só floresce, quando as sociedades se desequilibram em preiuízo do idealismo. E a renúncia do pudor do ignóbil. Nenhum esforço original a comove. Desdenha o verbo altivo e os romanticismos compremetedores. Seus esgares são fofos, sua palavra, muda, seu olhar, sem brilho. Ignora o perfume da flor, a inquietude das estrelas, a graça do sorriso, o rumor das azas. É a inviolável trincheira oposta ao florescimento do engenho e do bom gosto; é o altar onde Penurgo oficia, e Bertoldo cifra o seu sonho em servir-lhe de coroinha.

A vulgaridade é o brasão nobiliárquico dos homens orgulhosos de sua mediocridade; guarda-a, como um avarento, o seu tesouro. Têm o maior prazer em exibi-la, sem suspeitar de que ela é a sua afronta. Estoura inoportuna com a palavra ou com o gesto; rompe, num único segundo, o encanto preparado em muitas horas; esmaga sob seus sapatos, todo desabrôlho luminoso do espírito. Incolor, surda, cega, insensível, rodeia-nos, e nos espreita; deleita-se com o grotesco, vive às escuras, agita-se nas trevas. E, para a mente, o que são, para o corpo, os defeitos físicos, a coxalgia e o estrabismo: é incapacidade de pensar e de amar, incompreensão do belo, desperdício da vida, toda a sordidez. A conduta, em si mesma, nem é distinta, nem é vulgar; a intenção enobrece os atos, eleva-os, idealiza-os, e, em outros casos, determina a sua vulgaridade. Certos gestos, que em circunstâncias ordinárias seriam sórdidos, podem tornar-se poéticos, épicos; quando Cambronne, convidado pelo inimigo a se render, responde a sua palavra memorável, eleva-se em homérico cenário, e é sublime.

Os homens vulgares quereriam pedir a Circe as poções com que transformou em cerdos os companheiros de , para receitá-las a todos os que possuem um ideal. Há-os em todas as partes, sempre que se verifica um recrudescimento da mediocridade: entre púrpuras, como entre escórias, na avenida e no subúrbio, nos parlamentos e nos cárceres, nas universidades e nas manjedouras. Há certos momentos em que ousam denominar idéias a seus apetites, como se a urgência de satisfações imediatas pudesse ser confundida com a ânsia de perfeições infinitas. Os apetites se fartam; os ideais, nunca.

Repudiam as coisas líricas, porque obrigam a pensamentos muito altos e a gestos demasiado dignos. São incapazes de estoicismos: sua frugalidade é um cálculo para gozar mais tempo os prazeres, reservando maior perspectiva de gozos para a velhice impotente. Sua generosidade é sempre dinheiro dado em usura. Sua amizade é uma complacência servil, ou uma adulação proveitosa. Quando cuidam praticar alguma virtude, degradam a própia honestidade, empanando-a com alguma coisa de miserável ou de baixo, que a macula.

Admiram o utilitarismo egoísta, imediato, mesquinho. Obrigados a eleger, nunca seguirão o caminho que a sua própria inclinação lhe indica, e sim, aquele que o cálculo dos seus iguais lhes marcam. Ignoram que toda grandeza de espírito exige a cumplicidade do coração. Os ideais irradiam sempre um grande calor; seus preconceitos, em compensação, são frios, porque são alheios. Um pensamento, não fecundado pela paixão, é como o sol de inverno; ilumina, mas, sob seus raios, pode-se morrer de frio. A baixeza do propósito rebaixa o mérito de todo esforço, e aniquila as coisas elevadas. Excluindo o ideal, fica suprimida a possibilidade do sublime. A vulgaridade é como um vento frio e seco do norte, que gela todo germe de poesia capaz de embelezar a vida.

O homem sem ideais faz da sorte um ofício, da ciência, um comércio, da filosofia, um instrumento, da virtude, uma empresa, da caridade, uma festa, do prazer, um sensualismo. A vulgaridade transforma o amor da vida em pusilaminidade, a prudência, em covardia, o orgulho, em vaidade, o respeito, em servilismo. Conduz à ostentação, à avareza, à falsidade, à avidez, à simulação; por trás do homem medíocre, assoma o antepassado selvagem, que conspira no seu interior, acossado pela fome de at ávicos instintos, e sem outra aspiração, além da sociedade.

Nessas crises, enquanto a mediocridade se torna atrevida e militante, os idealistas vivem apartados, esperando outro clima. Ensinam a purificar a conduta, no filtro de um ideal; impõem seu respeito aos que não podem concebê-lo. Eles têm a sua arma no culto dos génios, dos santos e dos heróis: despertando-o, assinalando exemplos para as inteligências e para os corações, é possível diminuir a onipotência da vulgaridade, porque, em toda larva, sonha, porventura, u’a mariposa. Os homens que viveram em perpétua eflorescencia de virtude, revelam, com seu exemplo, aue a vida pode ser intensa, e conservar-se digna; dirigir-se para os cimos, sem se encharcar nos lodaçais sinuosos; encres-par-se de paixão, tempestuosamente, como o oceano, sem que a vulgaridade turve as águas cristalinas da onda, sem que o rutilar de suas fontes seja empanado pelo limo.

Em u’a meditação de viagem, ouvindo silvar o vento por entre as enxarciais, a humanidade nos pareceu um veleiro que cruza o tempo infinito, ignorando seu ponto de partida, bem como seu destino remoto. Sem velas, seria estéril a pujança do vento; sem vento, para nada serviriam as lonas mais amolas. A mediocridade é o complexo velame das sociedades, a resistência que esta opõe ao vento, para utilizar sua pujança; a energia que infla as velas, e arrasta o navio inteiro, e o conduz, e o orienta: isto são os idealistas: sempre resistidos por aquela. Assim — resistindo-os, como as velas ao vento — os rotineiros aproveitam o impulso dos criadores. O progresso humano é a resultante desse contraste perpétuo entre massas inertes e energias propulsoras,


 Fonte: Livraria Paratodos, 1953

 

Mais textos

Sem comentários - Adicione o seu

algumas tags: animal, Arthur Schopenhauer, bom senso, conquista, coração, criminoso, dogmatismo, emerson, espírito, Estoicismo, estrelas, experiência, fábulas, Flaubert, Glória, homens medíocres, humano, infinito, josé ingenieros, Literatura, mediocracia, medíocre, Montaigne, morais, negócio, paixão, Pensamentos, Plutarco, poder, senso comum, Serenidade, super-homem, temperamento, Teofrasto, transcendental, Ulisses, utilidade, Verdade, Zéfiro, aurea medíocre o que é aurea mediocres o tempo e a aurea mediocritas cãs velhice ingenieros aurea mediocritas aurea medíocres mediocritas RESUMO LIVRO O HOMEM MEDIOCRE mediocridade áurea resumo o homem mediocre definição da palavra aurea mediocritas o homem é fruto do meio do momento e de sua hereditariedade representantes da poesia épica e lírica áurea mediócritas resumo do livro o homem mediocre um bem estar mediano e tranquilo é preferível à opulência cheia de preocupação aurea mediocres exemplo O homem medíocre os cimos e os estoicos o homem medíocre resumo o que voce aprendeu neste capítulo sobre a mentalidade do homem renascentista

Prezado visitante: por favor, não republique esta página em outros sites ou blogs na web. Ao invés disso, ponha um link para cá. Obrigado.




Início